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Full text of "Sermoens do P. Antonio Vieyra da Companhia de Jesu, visitador da Provincia do Brasil, prégador de sua magestade, sexta parte"

^S^3iÊÊfri;íí^ 




Jubn (Earífr ÍJi-uiun 

Cibníro 

Hnnmi Mutcrc raihi 



KNOTiro.i 1970 





T 



f 



1 



SERMOENS 

D O 

P. ANTÓNIO VIEYRA 

da Companhia de Jefu, 

VISITADOR DA PROVÍNCIA DO BRASIL, 

Pr égador de Sua Mageflade» 

SEXTA PARTE- 




LISBOA; 

NaOfficmadeMIGUEL DESLANDES/ 

ImpreíTor de Sua Mageílade. 

A cuíla de António Leyte Pereira, Mercador de Livros. 

M. DC. LXXXX. 
Com todas asUcenças necejfanas^ò' Trivilegto Real. 



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i^dm- i^^sí^-is^ im-i^-èi'^^1 ^^ 









^^^^^ttTr^ttt^t^Trr^^f^^tT'^'^'^ 



Ccnfura do M R^P M. Fr. Thome da Conceyfão\ dafagrada Ordem 
doCarmOj^atificaãordoòlantoOfficío. 

LI efta fexta parte de Sermoens vários do P. António Vieyra 
da fagrada Religião da Companhia de Jeíu^Prêgador de Sua 
Mageftade-, parecem- me digniíTimos defair a luz por meyo da tf. 
tampa,porqaefeeíla reinventou no mundo para unico remédio 
do efquecimento,dejuíliça devem ficar eftampados no mundo 
Sermoens de hum Pregador , cujas idéas fendo taó novas, & taõ 
elevadas,na6fóraó fundadas, mas parece qeílão efcritas namef- 
ma letra dos Evangelhos-, cujas palavras aífimperfuadem o que 
infinuaó,que fendo as mais claTas , também naó ha outras mais 
próprias i & cujo fím,que efte deve fer o dos Pregadores, he a re- 
formação de coílumes,& o melhoramento das almas, laohe oq 
achei neftesSerrooens,partoverdadeiramente do gemo , erudi- 
çaôjôí efpirito de taó grande Pregador. Lisboa,no Convento d» 
Carmo, i8.de Fevereiro de 1689. 

Fr, Ihome da ConceyçaÕ, 

Cenfura do M R.T.M. Fr. JoaÕ do Efpirito Santo, da fagrada 
Ordem òerafica^ ^altficador do Santo Officio. 

POr mandado dos Illuftriffimos Senhores do Concelho Geral 
do Santo OfHcio li os Sermoens varios,que contém eíle livro, 
fexta parte dos que ha prègado,& compoílo o P. António Vieyra 
da Companhia de f efu , Pregador de Sua Mageftade,& có dizer o 
nome do Prègador,acho ficáobaílantemente approvados os Ser» 
moens,poisdefte grande Meílrefe pode aílirmar o que Claudia- 
no in Extropol.lib. i .diífe a femelhante intento : Nihileft, quod 
72on inpeãore níagnum, concipit hic 'Doãor-,^ fe a prova do que feu 
entendimêto concebe ha de fer efpirito, difcurfo,& agudeza, que 
T^eíles Sermoens manifeílajnenhum iendo-os poderàduvidar efla 

ver- 



;^»i 



!>• 



itfi 



verdade ^ donde fe colhe naó aver nelles coufa que encontre nof- 
fi Sanca Fé. ou bons coftumes, pelo que os julgo digaiflimos da 
licença que fe pede, para que poíTaó todos admirar fegunda vez 
emaertampajOqueemoPulpicoliefem duvida admiraíTem aos 
que os ouviraò a primeira, falvo meliori judicio. Santa Clara de 
Lisboa, & Março i6.de 1Ó89. 

Fr. loaÕdo Efpirito Santo, 

Cenfura do M. R.T.M.Fr. Manoel de Siquejra, dafagrada 
Ordem de S. /Igojlmho, 

SENHOR. 

MAndame VoflTa Reat Mageftade,que cenfure eíla fexra par- 
te de Sermocns vários do P. António Vieyra da fagrad i 
Religião da Companhia dejefu, & Pregador de Voffa Real Ma-- 
geftade,& quando intento obedecer a eíte preceito, me vejo obri- 
gado a trocar o oíHcio, pois efta obra naó pede cenfuras , quando 
defafíaadmiraçoensj&naòpòde cenfurar obra taó grande hum 
fogeito taò humilde. 

Seja milagreda minha obediência aceitar a cómiíTaó, por- 
que quando eíle Authorfc venera como Oráculo dos Pregado- 
res, o mefmo refpeito que venera o coração, acovarda o entendi- 
mento. Quem pode fitar os olhos no Sol , que naó fícaíTe cego ? 
Soas Águias tem eftes privilégios, fenaó tiverem os olhos adul- 
tcrinoSi& eíle achaque fc deve notar em quem para cenfurar eíle 
SoldcPrégadorcSjquizerfalfamenteprefumir de Aguia. Todo-- 
os doutos podem ter fcmelhanças de rios, mas clle Author ten 
em todas as ílias obras propriedades de mar-, naó fò porque os nos 
fe vadcaó,^'0 mar naó-, mas porque o mar hc a origem dos rios,&: 
os rios como Tigradceidosfaó os que pagaófeu devido tributo ao 
mar. Dclle mar de ciências aprenderão todos aqucllcs,que a ^:í 
ma venerou, 6c venera nos Pulpiros, porque os ("cus SeriMocs ft. 
naó foraó trcslados , foraó mccliodos-, 6"^ íe os mais doutos cm de- 
vidos obfcquios Ihç devem pagar tributos na^' vcncraçoens comV 

llOSi 




rios ; fe fe fogeitaó os rios, como Ce iiaô hao de humilhar 03 reca- 
tos? Eucomoregato do mais limitado rio > venero, admiro , & 
naó cenrurOi& fe me nao embaraçara a modeftia defte Author taõ 
infigne, ainda fendo temeridade minha, rafgára a penna o que a 
vozes publica a fama , & moftra a experiência no aíTeyo, & pro- 
priedade das palavras , no pefo das razoens, no engenho dos díC" 
curiós, na noticia de síagrados Textos, na intelligencia dos San- 
:os , na novidade dos aíTumptos, na doçura do eftilo , na futileza 
io engenho i mas fó digo (nam exagerando o mais, porque a luz 
oor fy fe declara ) que faò eílas obras por todos os titulos dignas > 
|ueimmortalize a eftampa o que a admiração venera. 

NadatemqueencanrreoKeaiferviçode V. Mageftade. 
Líle he o meu parecer,Voíra Real Mageftade mandará o que for 
ervido, que eu para naó dizer mais em credito do Author, dou o 
neu voto, repetindo com Symacholib. 3. C.48. Supervacanei Id' 
horiseft commendare canfpicuosy utfiin Solepofitisfacem praferas^ 
Graça 1 5. de Mayo de 1 685^. 

Fr. Manoelde Siqueyra, 



LICENÇAS. 

Da Religião. 

^ U o Padre António Vieyra da Companhia de Jefu , Viíita- 
l^dor da Provincia do Brafil, & Pregador de Sua Mageftade, 
Dorefpecial conceíTaó , que para iíTo me foy dada de NoíTo M. R. 
^ ThyrfoGonçaleSjFrepofito Gerai da Cópanhia , dou à eftara- 
■yi a fexta parte de meus Sermoens, depois de fer examinada , ,8c 
.ip provada por peíToas graves, & doutas da mefma Companhia. 
£ por verdade dei eílaaíllnada com meu unal ,. & felladacoma 
fello de meu Oâicio. 

Jíitonlo Vieyra^ 



Da 



t 



i 



Do Santo Of?icio. 

VIftasas informaçoensjpòdefe imprimir o Livro intitulado, 
Sexta Parte de Sermocns vários do P. António Vieyra da 
Companhia de Jefu , &depois de impreflb tornara para fecon Te- 
rir,&: dar licença que corra,6c fem eiJa naó correrá. Lisboa 2 2 de 
Março de 1689. 

Soares, Noronha. Cajiro. Fr.V.T, E.B.F, Azevedo. 

Do Ordinário. 

POdefe imprimiroLivrodosSermoensdoP.Antonio Viey- 
ra , de que a pençaó faz mençaó,& depois tornara para fe co- 
ferir,& fe dar licença para correr,& fem elJa naó correrá. Lisboa 
20. de Abrilde ió8p. 

Serrão. 

Do Paço. 

QUe fe poíTa imprimir, viílas as licenças do Santo Officio, & 
Ordinário, & depois de impreíTo tornará à Mefa para fe ta 1- 
xar,& conferir, & fem líTo naó correrá. Lisboa 1 8. de Aíavo de 
r68p. 

MelloT. Lamprcãy MarchaÕ, Azevedo^ Roxas. 

'Oncordacomfeu originai. Carmode Lisboa 2i.deJunho 
deiópo. 

Fr. Thome da Conceyçao, 

líloeílar conforme com feu original, pôde correr. Lisboa 
23. dcjunhode idpo. 

Soares. Timenta. B.N. Cajlro. E.B.F. 



V 



Odem correr. Lisboa 8. de Julho de 1 6^0. 
Serrão. 

'AixaócílcLivrocmdQZctoílocns. Lisboa 2(5. de Junho d;, 

1 690. 

Lamprea, Azevedo. 



^ i 



'ÊÊâãMÊMMMlMMMMMMÂ. 
""¥¥¥¥¥¥¥¥¥¥¥¥¥1 

Erratas deftc Tomo. 



■fl 



Pag. 48. Benedíãaay lege 
1 1 3, Caíligar toda a Ba- 
hia na reíoluçáo, 

ii6. Mas coma pode- 
mos eíp era 15 &c. 

147. Abfolutos, 
lííf . Êni q não duvida, 
Ibi. Eftahearazo, 
180. Porque no mefnío 

pao, 
1 84, Fiea muito melho- 
rado o que dà ao q 
recebe, 
240» Multa corpora^ qu£ 

dormierant. 
jfo. Abfoluro, 
30/. Culpados abfolo- 

tos, 
332. Douto Palácio, 
377. Mais piedoía íe o 

pudera matar, 
509. Svomno entos, 
/2Q. Lecraduras, 



BenediÚa. 

Caíligar coda a Bahia. Na refo- 
luçãojôcc. 

Mas ainda nos dará reftaurado 

Pernãbuco, como podemos ef- 

perar,&c. 

Abfoltos. 

Em que fenaó duvidai 

Eftahea razaõ. 

Porque no mefmo pao. 

Fica muito mais melhorado o 
que dà, do que o que recebe. 

Multa corpgra Sanõforum , qui 

dormierant, 

jAbfoito. 

Culpados abfoltos. 

Douto Palácios. 

Mais piedoía feria, fe o pudera 

matar. 

Soninolentos. 

Letradices, 



I 







m¥§m§wmmmmmmmW 



SERMOENS 

Que contém eíta Sexta Parte. 



i. Ç Ermao do Santiffimo Nome de Maria, 

II. ^Sermão de èluartaFeyra de Cinza, 

III. Sermão de Santo António, 

IV. òermaÓ da terceira dominga do Advento, 

V. Sermão das Obras de Mifencordia. 

VI. òermaõ da primeira Oitava da Tafchoa, 
Vil. Sermão dafegunda Oitava da Tafchoa, 
VIU, Sermão de Noffa Senhora daConceiçaÕ. 

IX. ^ermaÕ da terceira "Dominga poji Efiphaniam, 

X. Sermão da Santa Cruz, 

XI. òermaõ de Santa Iria. 

XII. Sermão daVi[itaçaÕ de Noffa Senhora. 
Xlll.SermaÕ dafegundajeira depois da ffgunda fontana da 

^larcfmay 
XIV Sermão da RefurreiçaÕ de Chriflo. 
J. t xhortãçaõ domejlica na vefpora ao Efpirite Santo. 
llE^hortaçaÕ domeJltcaLmvejpora da Vtjitaçaò de N.S. 



?*. 58. 

*P.32d. 

T.4.16. 
T.^69. 



SERMAM 

DO santíssimo nome 

M A R IA. 

NA OCCASIAM EM QUE S. SANTIDADE 

inftituío a feita univcrfal do mefmo Santiífimo 
Nome. 



Et namen Virginis Maria. Luc. i. 2/. 




Í.I. 

E o Sermão de- 
ita nova folem- 
nidade fe prè* 
gára no Ceo j 
todas as Gerar- 
chias dos Eípiritos bem- 
a ven tu rados, & todos os 
nove coros dos Anjos fe 
haviaó de acharnefteau- 
ditorio. A matéria taó im- 
menfa como breve fere- 
|ume toda a huma fó pa-i 



lavra. lílohe oquerefere 
o Evangelifta S.Lucas no 
Texto também breve que 
propuz 5 dizendo que a 
Virgem efcolhida para. 
Máy de Deos,tem por no- 
ine Maria ; Et nomen Vir- ^^^^ n 
gims Maria. Hum Anjo ^7. .' 
trouxe a embaixada àVir- 
gem, o mefmo Anjo foy 
o primeiro, que pronun- 
ciou ò nome de Maria: & 
todos os Anjos haviaõ de 
concorrer, como ú^izi-x , 5 
A ouvir 




í Sermão do SantiJJimo Nome 

ouvir o panegírico do que he a meíma Virgem; 

mefmo nome: mas por- & notam os mais adverti- 

que, ou para que ? Por- dos Expofitores, que ou- 

ventura para faberem ai- trás tãtas vezes perguntá- 

gumacoufadenovo.Waói raóquem era:^/^í////?^? 

porque muito mais fa- qu£ efti (ia? qu a eftijta> Os ^^^^ V- 

beni,&penetraó deite ai- Anjosbemfabiaójqachea 

tiflimo argumento os An- de todas as virtudes > & 

jos, do que podem difcor- graças,coaio a cópoíicaó 

rer, & alcançar todos os cheirofa cópoíla de todas 

entendimentos humanos. asefpeciesaromaticaSjera 



Por ventura para reapro- 
veitarem dos maravilho- 
fos efFeitos , que emfeus 
veneradores caufa o mef- 
mo nome? Também naó; 
porque os Anjos nem tem 
que emendar,nem podem 
crecer. Naó tem que e- 
mendar; porque no Ceo 
uaóhapcccado: nem po- 
dem crecer j porque no 
Ceo não fe augmenta a 
graça. A que fim logo fe 
haviaó de achar neíte au- 
ditório hoje, dcfdeoinli- 
mo ao fuprcmo, todos os 
Kllados dos Anjos? Digo, 
qucfóparaouvir o nome 
de Maria. Evcdcfcfallo 
tom fundamento. 

2 Trcs vezes nahiílo- 
ria dos Cantares viraó os 
Anjos a Elpofa Divina, 



unicamente a bemdita en- 
tre todas as mulacfes : 
pois porque perguntam 
quem he? ^i£eíi.íjla,qu£ 
afcendit per defertumlficut jj^.^^^^ 
virgula fumi ex aromati- 
busmyrrhay & tòuris, ò* 
nniverfi piiveris pígmen^ 
taiij ? Os Anjos bem fa- 
biaó que a que amanhe- 
ceo neíle mundo desfa- 
zendo as trevas da noite, 
& abrindo as portas axjs 
primeiros refplandores da 
luz, como fermoía, &a- 



legre Aurora, era a Máy 
do verdadeiro Sol -, pois 
porque perguntam quem 
he ; Qua eji ijta , qua pro' 9. ' 
greditur quaji Aurora cori'- 
fiirgens^. Os Anjos bem fa- 
biaò,que a que fu bio da 
terra ao Ceo com : i.ao 
iÒL»re 




de Marta. l 

fobre o braço do feu ama- devaçaó deíle Autor; ou- 
do, &náo indo bufcaras 



delicias, fenáo levandoas 
jàcomíigo 5 era a mefma 
Senhora no triunfo de fua 
gloriofaAírumpçaó, pois 
porque perguntaó quem 
he: ^£ efi ífta^qua afcen- 
dit ãedefertOi de li et js ajflu^ 
Cant.8. ens^ innixafuper dtleèíum 
** fuum ? Perguntar a pri- 
meira vezjtinha defculpa, 
feforaó homens: masnao 
fó huma,fenaó tantas ve- 
zesjfendo Anjos? Sim : & 
por iílb mefmo. Quem 
não pergunta por igno- 
rância, pergunta por go- 
ílo:& he tanto o goílojque 
todos os Eípiritos Angé- 
licos recebem em ouvir 
pronunciar o nome de 



çamos a outro nao menos 
devoto, nem menos fabio. 
Tanta virtutis (^Sam pa- 
lavras- daquelle Efpirito 
extático, que fendo Me- 
ftre 5 & doutiílimo , por 
humildade fe chamou I- 
diota.} Tant£vírtktiSiò* 
excelienti£ ejl tuu SanãiJ- 
Jimum nomeny ô Beatijjíma '^j^^g^'^'; 
Virgo-i ut adinvocationem lempiat 
ipfiusCcelum ndeat^& /In-'^^^^' ^ 
geli congaudeant : ¥ÍQ t^m. 
grande (^diz} a virtude,& 
excellencia de voíTo San- 
tiíTimo nome, ò Virgem 
BeatiíTima , que quando 
fe pronuncia , & invoca, 
todo o Ceo ri, & todos osr 
Anjos fe alegrão. Admi- 
rável couíaporcertOjquc 



Maria, que fó porque lhe osEfpiritos celeíles , os 
refpondaó que he V; ária , quaes eílaó com os olhos, 



Ríchard 



perguntaó tantas vezes 
quem h.Q ^ia Mari£ dul- 
zs.Lzv-ce nomen dejiderant fihi 
renc m rcfponderi , diz Richardo 
'a. Laurentino. 

3 Eu naó pcíTo negar 



cheyos da viíla de Deos, 
tenham outro defejo, & 
outro goílo ! Mas ainda 
he m ais a d m iravel , qii e 
eíle defejo feja de ouvirê 
o nome de Maria , & 



que o penfameato heex- eíle goílo,quando o ou- 
quifito, & parece remon- vem. 
tado : mas porque fenáo 4 E porque ninguém 
attribua fó à agudeza , & cuide , que eíles dous te- 

Aij ílimu- 



? 



Ai 



?. 






4 Sermão do SantlJJlmo Kome 

ílimunhos recebidos & Ceo, fcnaó os que neíle 

la da Thcologia, falbram niens , quando algum nc 

comasatotaçocnsdoen. mca. 6cinvoca onomedc 

carccimenco, a mefma Mana, lo^o fe chegam 

Virgem Mana como ora- mais a ell? para o ouvfr 

culofupenor a todo o de mais perto, & lhe afli- 



criado , nos enfmaráíin- 
ceramente a verdade do 
que havemos de crer. Pal- 
iando a Senhora com San- 
ta írigida nasíuas Rcve- 
laçocnsjdiz ailim : í tlius 
meus quantum honara-un 
et iam nomemneumy aiidi : 
Oiivc,Brigida,quãtomeu 
Filho náo fó me honrou 



ílemcom mayor cuidado: 
j^jigdi et iam òohi and to 
hot nomine Jlatim appro- 
pinquant magisjnjiis. De- 
Ibrce, que para fazermos 
mais noíToSjOS noíTos An- 
jos da guarda , & Termos 
mais benevolamente afii- 
íiidosdelles, a meihoro- 
^ ■ r " "'~ "-xiiwu ração , &• o mayor obfe- 
a mim, fenao também o quio que lhes podemos fa- 
nieu nome. .Romen meum ^er,he nomear muitas ve- 



t Brjg. ÇA^ Maria: boc nornen cinn 

'yÂuL ^%^[' ^iíd^t^nt,gaudcntiyi 
n.c.19 confcicntiafua , cr regra- 
tiantur T)co: O meu nome 
hc Abaria : & eíle nome 
quando o ouvem osAnjos, 
lè alcgraó intenormente, 
&dam graças a Dcos por 
clle : não porque ouçaó 
íilguma couía de novo j 
mas porque fc lhes renova 
a memoria , &: ogoílodo 

qucjárabcm,queifibqucr 
dizer, in confcujitia fua 



zes o nome de Maria. 

f Sendo pois os Anjos 
tam devotos , ou para o 
dizer com frafede S. Hi- 
lário, tam ambiciofos ou- 
vintes donomedc Maria; 
de que outro exórdio po- 
dia eu uíarneíle ícu dia , 
nem maisnobre,nem mais 
bem fundado: ou que ex- 
ernplopodia propor mais 
eílicaz, &: mais digno de 
imitaçr.m aos que çom 
entendimento, Sccuriofi- 



r ,' -•/•"'— j*''*. t;iii:cna[mcnto,òccuriolí- 

^ iiao fo os Anjos do dadc humana elpcram as 

pri- 



de Maria. f 

primeiras noticias deíle do favor , auxilio, & vir- 



novoaíTumpto? Das que 
eu trago para publicar 
(^ que faó as mais impor- 
tantes ao inteiro conceito 
do mefmonome)fópoíIb 
affirmar, que me não pou- 
pey ao eftudo. E poíto 
que a matéria hetam alta, 
&incompreheníivel, que 
ainda onde os ouvintes 
faò homens * devera o 



tu de do mefmo nome,di' 
zendo: Ave Maria^ 

§. n. 

Et nomen Firginis 
Maria, 

6 13 Arafallardonome 
L ineíFavel de Maria, 
& para fe entender com 



Pregador fer Anjo :feour diftinção , & clareza o 

virmos com tudo o pouco pouco que fe pode dízer 

que fe pôde dizer, com a de matéria taó imnienra> 

attençáo,&eftimação,que primeiro que tudo deve- 

a melma matéria merece; mos fuppor, que couU hc 

não fó prometo que imi- ifto,a que chamamos No* 

taremos os Aiijos,mas que me. O nome , diz Arifto- 

em parte não pequena os teles , he huma vozíigiii- 

excederá a noíTa forte fícativa, cujo fignificado 

mortal. Os Anjosouvem lhe dá a uiftituição de 

o nome de Maria com tã- quem o fez. Diz mais,quc 

todefejo, & tanto goílo, os fins para que ^e mven- 

como vimosj nós não fó o táraó os nomes, he ade- 



podemos ouvir comdefe- 
jo, & com gofto, mas com 
grande utilidade , & au- 
gmentos de graça , dos 
quaes o feu eftado não he 
capaz. Para que afíim feja 



clara ção dos conceitos 
por eiles íignificadosjpor- 
que como os conceitos 
não íe vem , & as vozes 
fe ouvem, pelas vozes 
ouvidas , vimos cm co- 



(que he o fim que preten- nhecimento dosconceitos 

deo a Igreja neíla nova que não vemos. Iftofup- 

celebridadejvalhamonos poíto, o inílituidor do 

Tom. 8. Aiij nome 



1 



íi 



> 

íV 



n^ 



ft 



^ Sermão do Santiffimo Nome 

nome de Mana foy Dcos, & o fignificado pela voz 



o qual o revcioH primeiro 
a S. Anna, &: depois a Saô 
Joachim , aíuin como o 
nomedejefu, primeiro 
foy revelado àmefma Vir- 
gem, 8c depois a S.Jofcph. 
O tempo defía mfticui- 
çaó foy antes de todo 
o tempo , no principio 
fem principio da eter- 
nidade. Entaó 5 como 



do mefmonomc heoque 
nós fò podemos perceber 
com o entendimento hu- 
mano , que he taó fraco, 
& limitado. Para dizer po* 
rèm alguma coufadoquc 
fora mais fácil cadar^ ôt 
venerar com o fiIencio,fc 
dividirá o meu difcurfo 
em três partes. Na pri- 
meira veremos quam al- 



diza mefmaSenhora,foy ta dignidade he^adono- 
concebida na mente divi- mede Maria, por ferofeu 



^^^^ ^ na : Nondumerant abyffl\ 
z\. " &egojam concepta eram : 
& entaó fahioda boca do 
mefmo Deos o nome,com 
que foy fignificado eftc 
eterno conceito do Aitif- 
íimo: Ego exore jiltijpmi 
iccief frodrji primogénita ante 
^^ ^" omnem creaturam. A pri- 



inílituidor Deos. Na fe- 
gunda, quamimmcnfohe 
o íigniíicado, que na bre- 
ve, &doce voz deite fa- 
cratilUmo nome fe encer- 
ra. Na tcrceira,comonos 
havemos de aproveitar , 
& valer dos maravilhofos 
effeitos do mefmo íigni- 



■meira conclufaò pois que fícado^pela invocação fre 
daqui fefegue,he,que nós quente do mefmo nome^ 
náo podemos conhecer , A mcfma Senhora fe á'\r- 
fenaó muito imperfeita* gne de favorecer a tenção 
mente , as divinas per- com que para gloria lua, 
feiçoens,quc fe cncerraó 
nonomedeMariaiporque 
o conceito doquc figniíi- 
ca eíle fobcrano nome j 
foy parco do entendimen- 
to divino , que he iaiÍJCUC0| 



& Igual bem denoíiasal- 
muò , fiz eieiçaó dclleaf- 
fuaipto. 



5. III. 



thefouros. de fua divinda- 

fjDzm ^e; <2)^ thefauro divinita- 

ir^Àl- tis MarUnomenevohitur. 

«unt. ^^^ encomendou Deos a 

infticuição defte foberano 

nome , nem a Adamynem 

a Noé, ou a algum das ma 



ie Marta. ^ f 

5. Ilt - duziíTeasíiervaSj&aspIâ- 

t2LS'.Germinet terra herham 
^ /^ Cardeal S.Pedro virentemy à' Ugnum pomi-^^^^^^^^ 

V^Damiaó efcreven- ferum. Ao quinto à^i^Q à 
do a origem do nome de agua , que produziíTe osr 
Maria, á\.z que o tirou,6c peyxe,$, & as aves: Vtodu:^ 
defenvolveo Deos dos cant aqua reptile anima vi- 

<Qmtis.y &volatik JtiperVai.z^ 
t erram. Ao ÍQ%to dia tor- 
nou a fallar com a terra, 
& diíTelhejque produziilè 
todo o género de ani- 
mães : ^roãucat terra mi" 

^ ^^ „ mam vrvenpem in genere 

yores Patriarcha9, nem a fiio ^ jumenta , irréptiliay 
Michael, nem a Gabriel, ^^^//^.Porèm noquar- 
©u a algú dos mais fabios to dia,em que ouve de or- 
Cherubins v ou Serafins narofiraiaraentp , &aíii< 
do Empireo j mas aíHm miar O mundo çom o Sol* 
eomo o conceito,& a idéa; Lua , & Eftrellas, naó díílc 
defte grande nome foy o Deos ao Ceo que as pro- 
entendimento divino^ af- duziíTe, fenáo que elle por 
fim o fom, & a vozquiz fy mefmo fabricou, ^ a- 
que fpífe pronunciado de> cendeo aquelles lumino- 
fua própria bocavE quem: fos do Univerfo, & por 
duvida, que a mais alta, fy meímo as collocou no 
tx, eKcelience dignidade a firmamento * Fecit^eus j^-jg^, 
que pôde fubir em fua ori- duo luminária magm y Iti^ < 6. 1 7. 
gem huma crcatura , he minar e maius ^ ut pr/ecffet 

dieh luminar e minus % t^\ 
pr£effetm6ti\ &Jlellasi&i 
po/uh eas in fÍTMaw^rito\. 
Pois fe Deos mandou à 
terra, que produziíTe ás, 
A iiii pl^í^l 



f , 



ter porfeu immediato,& 
total Autor o mefmo 
Deos ? Ao terceiro dia 
da criação do mundo dif- 
1^ Peos 4 tejrra,que prQ- 



Sermão ão SantiJJimo Nome 
3c a ni mães ; fe poftos ; Et pofuit eas in 
firmamento. 



8 

plantas 

mandou à agua, que pro- 
duziflc os peyxes , & as 
avesj porque náo mandou 
também ao Ceo que pro- 
duziíTe o Sol, & a LuajSc 
os outros Planetas ? Efe 
aterraproduzioas flores, 
que faó as fuás eftrellas, 
o Ceo porque não produ- 
zio as eíl:rellas,quefaóas 
fuás flores ? Porque efla 
he a diíferençajque Deos 



8 Tal fòy o refpeito,&' 
authoridadcjcomque fo- 
raó criados , & poftos no 
firmamento o Sol , a Lua, 
& as Eftrellas, para que 
nefta mefma exceição fe 
efteja lendo noCeoefcri- 
to com letras de ouro o 
fingularprivilegio , 6cdi- 
gnidade,có que Deos nao 
comunicou a outrem, mas 



coftuma obfervar napro- refervou para fy a forma- 
ducçáo de fuás criaturas, çaó,&inftituiçaódonome 
conforme a dignidade 
delias. As plantas , & os 
animaes produza-os a ter- 
ra , os peyxes, 6c as aves 
produza-os a aguaj porem 
o Sol,a LuajSc as Eftrellas, 
que na alteza do lugarjnos 
refplandores da luz,& na 
virtude das influencias 
excedem com tanta emi- 
nência a tudo quanto lhes 
fica abaixo nefte mundo 
elementar, nem ao mcfmo 
Ceo comete Deos a fua 
producçaó, fenaóqueelle 
por fy mefmo as produzio: 
fecít luminária magna^ á* 
Jltllas\ & ellc meímo lhe 
dividio, & diftnbuio os 



de Maria, iftohe,daquella 
mefma Senhora, a quem 
no mefmo Ceo vefte o 
SoI,calça a Lua,&coroaó 
as Eftrellas . Hum homem 
efcreveo , & hum Anjo 
pronunciou no noflb E vá- 
gelho o nome de Maria. 
Quem o efcreveo, foy Saó 
Lucas: Et nomen Virginis 27.^^''' 
Maria \ quem o pronun- 
ciou,foy S. Gabriel : iV>ibid.3f; 
time as Maria : mas a for- 
mação, & inftituiçaó do 
meímo nome, nem a ho- 
més, nem a Anjos o com- 
municou Deos \ mas elle 
mefmo o formou ab eter- 
no , & o maauícftou em 
tem- 



'1 



thefouros de fua divinda- 
de: Athefauro divinitatis 
nomen Maria evohitur. E 
para que vejamos quam 
alta dignidade, & fobera- 
nía encerra a fmgularida- 



de Maria, 9 

f empo,quando o tirou dos quivocamininominelfraek ^^- ^'^ 
^ ^ • " 1-1 Ouvime filhos de Jacob, 

que fois chamados com o 
nome delfrael. Emais a- 
baixo no mefmo capitulo 
fallando com os mefmos , 
diz omefmoDeos : Judi 

lixa v^n\^vi.i<i «. *i.**^M*v.m.-»-.~ t j II 1 

de defta exceiçaô j ouça- me lacob, & IJrael.quem 
mos a primeira replica da- ego voe o : Ouvime filhos ^^^^ ^ 
quelles,a quem pôde naó deJacob,a quem eu cha- 
parecer fingular. No Te- mo Ifrael. NaÓfey fe no- 
Hamento Velho a irmãa tais no mefmo nome de 
de Movíés, & Aram cha- Krael a grande diíFerença 
moufe Maria i no Tefta- com que diz Deos aos 
mento Novo, ainda antes mefmos homens,que elles 
de fua promulgação , as - faô chamados, ou elle os 
Magdalenas , as Salomês, chama : Sui vocamim If" 
asjacobes também fe cha- rael, & Ifrael c^uemego vo- 
mavaó Marias; como foy co, Oqui vocamini , per- 
' ' ^ tence ao nome com que 

elles eraõ chamados : o 
quem ego vocoy pertence ao 
nome com que Deos os 
chama. Mas fe o nome 
com que eraó chamados, 
& o nome com que 
Deos os chamajhe o mef- 
mo nome de Ifrael , 






logo taó fingular hú nome, 
que já era tam comum? 
Porque efte ou o deraó,ou 
otomáraò os homens j a- 
quelle fó o formou , & in- 
ftituío Deos. Vede agora 
quanta difFerença vay de 
fer chamado por Deos,ou 
por outrem hum nome, 



ainda que feja, ou pareça que difFerença he eíta no 
o mefmo. mefmo nome ^ He tam 
9 No capitulo 48. de grande difFerença , que fó 
Ifaias fallando Deos com o mefmo Deosjque a fez, 
os líraelitas , diz aílim : apodiabaílantementeco- 
Aiidite h£c domus lacob ^ nhecer. O nome parecia 
" omef- 



5- I 



/ 



■Hi 



^ 



IO SemaS Jo Sant'i/J7moNome 

o mefmo j mas vay tanto Deos a naó Deos' 

de nome anome , & de ,o Declaremos a ver- 

chamar a fer chamados , dade defte penramenm 

ler. & ifto nao por outra humano. Encarece Pli- 

razao.nem poroutradifFe- n.o naquelle ftu caô cde- 

noTe'de"Kr?:i r "''"^ ^"'^^ P»"^'-- -""«"e 

nome de Ifrael dantesera de Optimo,que o Senado 

pronuncudo por boca dos deo ao E m pêra dor Tra 

rael, & agora era pronun- auditório afiiiliaó os Ro- 
endo por boca de Deos: manos todo., os quaeffa- 
f^tr^V^t''"''- E ^^ buô que outros Empe a- 



tao notável di/ferençaFov 
aconomedelfraelnabo. 
cadoshomésàdo mermo 
nome de Ifraci na boca de 
Deos } qual leria, ou qual 
íerá a do fingulariflimo 
nome de Maria em com- 



dores forao também cha- 
mados Óptimos ., como 
refponderia o Famo/b O- 
rador a ella objec^aó,q ta- 
cita mente eítava d;indo 
brados contra o que elíe 
^^ ...c.xa tiii com- dizia? As nalavrasdr Pií 

que tantas, que ti verão, fMmisOptimíco^JmtTiti^ 

ou parece que tiveraó o bi tf^/^/V/> T.?^ ^ '"'"^ 

mefmo nom e ? O Com da 2^ 1 Z"^ '^ ^^'" t'^"^^ 

heameL/l """"^ ^^«^/.^^.. Ainda que 
ijc a meima j masonomc eíle nnm^ rí^ r^ . ^ T 
em fy, neíTas chamadas Sl^/."''"'^ ^^ Óptimo, o 

ainda que parece com^ 
mum a outros tmperado- 



na vcrd:idcira , & «nica 
Alana , he , quem ego ijoco. 
E tanto vai de nome a 
nomes , & de chamar a 
chamarfc, quanto vai de 



~ ^^M. ..v>^v^ 

res, cm vós hc ílnguiar, 

^ porque ? Porque aos 

outros, ou o tomou aam- 

bi^aoi 



de Maria, it 

biça6,ou o deoa lifonja , de outro modo. Grande 

ou o introduzio,&permi- gloria he do nome de Ma^ 

tioocoltumeiporèmavòs ria, que tiveíTe a Deos 

depois de muito confuka- por Autorjmas muito ma^ 

das as juftas caufas de taó yor gloria, & íoberania he 

fuperlativo nome,voIode- do mefmo nome, que naõ 

cretou,& confagrou oSe- pudcíTeter outro Autor , 

nado Romano: Optimi íenaóaDeos. As razoens 



cognomen Senatus , 'FopUr- 
hsque Rõtnanus tibi addu 
cit. E fc o nome de Ópti- 
mo coníultado, & decre- 
tado pelo Senado Roma- 
no hetaó diíFerente de fy 
mefmo, ou dadojou toma» 
do por outrosjquam emi- 
nente dignidade fera , & 
quam incomparável a do 
nome de Maria em Maria^ 
confultado , & decreta- 
do noconíiílorio da San- 
tiílim.a Trindade, &infti:- 
tuido , & nomeado ab 



naturaes defta íingulariíli- 
ma excellencia faó duas , 
as quaes deixarão funda- 
das, & eftabelecidas,fem 
faberem o nome a que 
íèrviaó , osdousmayo- 
res FiloíbfoSjPIataó, & 
Ariftoteles . Ratio qmm 
figmficat nomen , eft defini^ 
tio^qua defignat propriam 
rei naturam. Arazaó, & 
propriedade do nome,diz 
Ariftoteles , coníifte em 
íèr hu ma definição dá na- 
tureza , & eíTencia do feu 



^terno, 6c guardado fópa- fignifícado, iftohe , da- 
rá elia nos thefouros da quiiio que figniíica. De- 



divindade 
Peos.? 



pelo mefmo 



§. iiii. 



forte , que aílim como a 
definição declara a natu- 
reza, & t^tncid. do defini- 
do por muitas palavras j 
aílim o nome he húa de- 



#1. 



Aífim foy, & afíim ha- finiçaó breve, que o decla 
via de ler, 8c ta mtor- 



çoia , bc ncceííariarDcnce 
aífim > que uaò pudia icr 



ra em huma fó palavra, £ 
como o rer,& grandeza de 
Maria May de Deos , h e 

tam 



iílot. 



I 



1 2 Sermão do SantlJJlmo Nome 

tamfublime, &immenra, os dentes, & a falia, tudo 

que fó o entendimento com fcmelhan^as pafto- 

divino a pode compre- ris: CapilUtui Jicut greges 

hender,& fó elle declarar caprarum^ qua afcenderunt 

adignidade, & perfeições de monte Galaad: dentes tui 

fuperiores a todo o cria- Jtcut greges tonfarum, qua 

do , que em fy encerrai afcenderunt de ia^vacro ifi^ 

daqui fe fegue, que aíTim cut njitta coccinea lábia 

como fó Deos lhe pode tua^ &eloquiumtuumduU 

compor a defíniçaó,aaim ce : Jicut fragmen mali pu- 



fó o mefmo Deos lhe po- 
de dar o nome. Celebra o 
divino Efpofo as perfei- 
çoens da Virgem Senhora 
noíTa debaixo da metáfora 
de todos aquelles primo- 
res, & graças da natureza, 
que fazem admirável húa 
eílremada fermofura : 
§luam pulchra es arnica 
ÍT.V* '^^^ ' quam pulchra es \ E 
hecoufa muito digna de 
reparo,que em todas eílas 
perfeiçoens , quefaó ma- 
nifeftadasà vifta,acrecen- 
ta húa claufula,em que ex- 
ceptua as que debaixo 
delias eílaó encubertas, 
& efcondidas. Paliando 
dos olhos, diz : Oculi tui 
columbarurri-.^ logo ajun- 
ta yãbfque eoquodintrinfe- 
cuílatct. Paílaadefcrever 
os cabclos,as façes^a boca. 



ntct genatu£\ & acrecen- 
ta do mefmo modo , abf- 
que eo quod intrinfecus la^ 
tet. De maneira, que naó 
fe contenta o Divino Pa- 
ílorcom os encarecimen- 
tos do que diz,fenaóque 
em todos tomaafalva, 
remetendofe aosfilercios 
do que juntamente calla. 
Mas fe tí^QS excefibs, ou 
myfrerios de fermofura 
interior os calla, porque 
faó occultos, & encuber- 
tos, & os naó podem ver 
os olhos 5 porque os naó 
declara ao menos , para 
que os crea a Fé ? Porque 
faó taó profundos, & im- 
penetráveis a todo o en- 
tendimento criado, que 
nenhum os pode alcançar, 
& fó Deos os pôde co- 
nhecer. Abfque eo quod 
tn- 



\ 



lUAV.r ■>»,*,. ,S. -^ . 



inirinjecus latet ^ hoc eft^ na.Paraintelligenciadefta 



foli TDeo coffíiitum^ & ne- 
mini manifefi um, còmentd. 
Ricardo de Santo Lau- 
rencio. E porq^ue debaixo 
das perfeiçocns,& graças 
da Máy de Deosmanife- 
llas aos homens,6c Anjos, 
& admiradas , & celebra- 
das por elles, eílaó occul- 
tas 5 & encubertas outras 
mayores refervadasfò ao 
conhecimento , & ' com- 
prehenfaó Divina^ por iíFo 
afim como fô Deos lhe 
pode formar a deíini^^aó, 
aíTini íô Dcos lhe pode por 
o nome. Efte he o folido 
fundamenta aíTêíitádoTo-^ 
bre a deíiniçaó dá Arifto- 
íleles 5 porque âú nome 

de Mana naó ío foy Deos fobre eíta acçáó S. Bafilio 
o Autor 3 mas porque fô de Setcucia, 6c como tam- 



filofofiahe neceíTario que 
nos ponhamos noParaifo 
Terreal, quando neile naó 
havia mais que Deos , & 
Adam. Fez Deos que vief- 
fem diante de Adam to- 
dos os animaes , para que 
ellelhes puzeíTe o nome: 
& dá teftimunho a Efcri- 
tura Sagrada, que todos 
os nomes,que Adampoz 
aos. animaes , foraõ tao 
proporcionados, &: pro^ 
prios , como convinha à 
natureza de cada hum . 
Ofnne enim qmd vocavit 
Adam ■ anim£ m^entis , 19.^' ^' 
ipfum eftmmen ejus. Ago^ 
ra ouçamos quam fabia,&r. 
elegantemente difcorre: 



Deos o podia feri- 

12- Plata4 âiiida diíTe^ 
raús.TI>eia^)pellatio eji^ctim 
f kto, ^^us facít ine(fe rei no^ 
minat£ id quod nomen fi- 
gnificat ^Q^2inào Deos faz 
Gue a coufa nomeada te- 
nhatodo ofigniíicadò do 
iiome,entaó he íinal certo, 
& infaliivel^ (^ diz Plataó} 



bem dá â 'Deos , & ao ho- 
mem neila o que toca a 
cada huttí.EfiO) Adam^nó» 
minum artifex , guando re^ 
rum ejje non potes : for^ 
rnentur à me ,nominentur a 
Te : partiamur hujus fiarí- 
eis folert ia gloriam : me- 
agnojcmt artificem natura 
lege^te 'Dominum inteíli- 



que a nomeação foy din- gant appellatiõms nomine : 

indq. 



1 1 Sermão do Santiffiino Nome 

inde nomen , quibus ego oíignifícado, &:a eíTencia. 
efTeritiam. Sê tu , Aáiõ , Iftche o que diílePIataó, 
diz Deos, artífice dos no- &:en:aaregunda,& mayor 
incs,jâqueonaópòdcsrer gloria donome de Maria, 
das coiifas. Foraó forma- Se Deos antes de efcolherj 



das por mim , fejaõ no 
meadas por ti. Partamos 
entre ambos a gloria de- 
íla grande obra :"a mim re- 
conheçaó-me poríeu Au- 
tor pelo direito da nature- 



6í:predeílinar aquellahu-. 
miide donzella de Na- 
zareth, lhe dera o nome 
de Mana, era Deos obri- 
gado por força deíle no- 
me adaràmeíma Vireem 



za, & a ti por feu Senhor a dignidade de Máy, &• to- 

pela impofiçaó dos no- dasas outrasexceJlencias, 

nicsrdá tu o nome aos que & graças para que foy pre- 

eudeyaeíTencia. Naópo- deílinada> porque filran 

dia o homem fubir ama- ' .^ ^ . - 

yor dignidade , que a par 



do ao nome o feu íigni fi- 
cado, ÓcàpeíToa nomeada 
a fua dignidade, & à digni- 
dade as fuás prerogativas, 
fidtaria também Deos (^ o 
queheimpoílivel^ à ver- 
dade da fua palavra , & 
naó feria a nomeação di- 
vina, nem ainda humana, 
Gomo as de Adam no Pa- 
raifo. 
13 AdamnoParaifo^co- 

1 niodiííèmos, poílo q naó 

de os nomes. Mas quando pode dar as cííencias às 
Deos dá o nome , hc tal a criaturas,podelhe có tudo 
efficacia da palavra , & d.ir os nomes convenicnw 
nomcaçao divina, que pe- tcs, & proporcionados às 
lo mcfmo nome fica obri- meímas ellèncias. li fe 
gado Deos a dar tambcm daqui inferir alguém, que 

os 



tir Deos com elle a gloria 
da criação do mundo. 
Mas neíla partição , ou 
partilha, que parecia taó 
igual , ainda houve huma 
forçofa deligualdade , & 
diíFcrença grande. O ho- 
mem pode dar o nome, 
mas naó pôde dará eílen- 
cia : fò Deos pode dar as 
eíícncias , ainda que nao 



1, 



de Marta, i f 

os nomes das outras cha- lhe chamara vida , por fer 

madas Marias , os quaes xnãy de todos os viventes; 

receberão por impofiçaó Eo qmd mater effet cunEio- ^^^ 

humana, teraô ao nieiíos rumviventium. Ha tal ce- 20." 

ella propriedade, &pro. gueira? Ha tal locura? Ha 

porção com o feu fignifi- tal ignorância , ôcdefco- 

cadoidigo,que de nenhum nhecimento próprio? Quê 

modo. Arazaóhe;porque foy a que introduzio a 

a ciência com que Adam morte no mundo, fenaò 

~ - * Eva ? Quem fez a todos 



3. 



no Paraiío conheceo as 
eíTencias dos animaes , & 
lhe pode dar os nomes 
proporcionados , & pró- 
prios, naó era como a que 
hoje tem os homens na- 
tural, &:imperfeita,fena5 
outra muito mais alta, fo- 
brenatural, 6cinfura,de 
que elLe , èz todos feus def- 
eendentes ficáraó priva- 
dos pela culpa. Eeílehe 
o defeito, porque os no- 
mes, que hoje põem os 
homens,ou faó contrários, 
ou impróprios , & muito 



os homens de immortaes 
mortaes, íenaô o ferem fi- 
lhos daquella mãy? Deve- 
ra pois Adam chamarlhc 
morte, & naó vida, &: mãy 
dos mortaes, ou dos mor- 
tos, & não dos viventes > 
como bem o argue,& con- 
vence S. Cypriano. Pois 
fe Adam fe moílrou taô 
fabio, & taò acertado nos 
nomes dos animaes, co- 
mo agora o vemos taó i- 
gnorante, & taó errado no 
nome de fua própria mu- 



alheios do que querem íi- Iher ? Porque aos animaes 
gniíicar. No mefmò A- poz-lhe os nomes com a 



dam temos a experiência. 
Poz Adam o nome a fua 
mulher , ê: chamoulhc 
Eva,que quer dizer vida: 
& dando a razaO do nome, 
acrecentou hum erro fo- 
jbre outro, declarando que 



luz , & ciência fobrena- 
tural do edado da inno- 
cencia, 6c a Eva com a 
cegueira, &- ignorância na- 
tural do eftado da culpa. 
Qiie muito logo que os 
herdeiros ^ deita mefma 



li: 



í ^ ^ íemaoãõ Santifflmo Nome 

Ignorância puzeíTem o faltava o fignifícado. Só o 

nome de Mana a foge i^ noíToJefufomomecheyo! 

tosrao impróprios, &ta5 porque a verdade da íl^m 

,Tof. ? V'^^^°^r"? ^ ^^ ^^^^^^^ ^o nome 

nome? Succedeolheà He o que diffeoPoetac^ 

Mayon.efmoqueaoFi. difcrerl lifoTeSvc" 

lho, &aonome de Maria do a Máximo : Ma7^me, 



com as outras Marias,Gq 
ao nome de Jefu com ou- 
trosjefus. 

' 14 Confidera S. Ber- 
nardo como ouve hum Jo 



qm tanti fnenfuram nomi- 
nis imp'es, E aiTim como 
entre todos os que fe cha- 
marão Jcfus,fó o Filho de 
Mariaencheo as medidas 



fn^ Cy^nr^^(r^ A \ 7 U iviaria cncHeo as medidas 

ftie fucceflTor de Moyfés, do nome dejefu , afilm 

feS£í Sirac &outro entre todasas^que fe cha^ 

Jefu filho deJofedech,que máraó Marias , fò a Máy 

fe chamarão Jefus._Mas dejefu encheo as med,^ 



l:^ 



como defafronta o Santo 
a fobcrania do nome de 
Jefu da baixeza de eltou- 
tros íinonomos > Excel- 
lentemente. Nonenimad 
mífar prior um meus ifte le- 
jus nomen ^acnum^é-ina- 
^trn^vàneportat. Noneíiineoma- 

Icr.i i c e»m^: • ■ f 



das do nomie de Maria. 
E quaes faó as medidas 
do nome de Maria ? A 
mcfma Senhora o áiÇÇ^-, 
Sluia fecit mihi magna qui ^'^c.^ 
potemefl. Quem quizer '^^^ 
tomar a medida certa ao 
nome de Maria, tome-a 



rença vai deíTcs Jcfus ao Deos podia , & nóde lie o 

tllftlTTV:^^^ queen?Iiefoi',r?u''„°et' ° 
lembra a verdade. Os no- nienío nome. E fc todos 



mes de eíFoutros chama- 
dos Jefus,craó nomes va- 
zios , porque fomente ti- 
ahaõofom,&avoz,(Sclhcs 



os poderes da Omnipo- 
tcncia faó os quefócn- 
chem as medidas do no- 
me de Mana, vede como 
o po- 




de Maria. 
o podia comprehender la do mar 



outra idea, nem pronun- 
ciar outra voz , fenaó a 
da mefma Divindade:©^ 
thefauro divinitatisnomen 
Maria evolvittir. 



5. V. 



ir 

o mar he eíle 
mundo cheio de tantos 
perigosjcombatido de to- 
dos os ventos , expoUoa 
tam frequentes tempeíla- 
des-, & em huma taó lar- 
ga, temerofa, & cfcura na- 
vegação quê poderia che- 
gar ao porto do Ceo, fe- 



if 



DEpois de decla- naó foíTe guiado de lá por 

radoquemfoy, aquella benigniffima e- 

&quê fó podia fer o Au- ^xáW.Gluibus auxiltjspof- 

tor do nome de Maria^que junt naves inter mpericu- 

foyDeosj feguefe, como lapertranjirefif(jueadlittus 

prometi,examinaraíigni- í^^z/^ri^ ? Porque meyopo- 

ficaçaó 5 ou fignificaçoens deràó os navegantes entre 

domeOnonome. Alin- tantos perigos chegar às 

gua Hebrea, a Chaldaica, prayas da Pátria? pergunta 

a Syriaca,aArabica,a Gre- oPapalnnocencio Tercei- 

ga,a Latina, todas côfpirà- ro:& reíponde,que fó por 

raó em odirivarde diver- meyode duascoufas,nao, 

Tas raizes, & origens, por &ell;reMa. Anão he ole- 

onde náo he huma íò,íe- nho da Cruz , a eftrella 

naô muitas as ethimolo- htM^ú^.Certeperduo^^vi-' 

gias defte profundilTimo, delicet, per lignum, &fiel' 

& fecundiíTimo nome,& o lam.td ejt ^per fidem Crucisy 
mefmonome , íegundo a 
propriedade de fuás íigni- 
íicaçoens , naó hum fó no- 
me, fenaó muitos nomes. 

i6 A primeira ethimolo- 

gia, & fabida de todos he , 

que o nome de Maria fig- 

nifica, Stellamarisy Eílrel- 

Tom. 8. 



Inn< 
Vã. 



éy virtutem lucis , qtiam 
peperit nobis Maria maris 
Bella, 

\y A fegunda íignifica- 
çaô , & ethimologia do 
nome de Maria , he do- 
mina , Senhora por anto- 
nomalia , porque do feu 
B do- 



f. 



» 



1 



p 



18 

domínio 

nhuma coiifa fe exclue 
Senhora do Ceo , & Se- 
nhora da terra , Senhora 
dos homens , & Senhora 
dos Anjos, &atèSenho- 
ra por modo ineíFaveldo 
mefmo Criador do Ceo , 
& da terra , o qual lhe 



SermnÕ do SantiJJírno Nome 
& império ne- dadeiro dizer,que todas as 
coufas obedecem a Maria, 
até Deos: Sicut verumejiy 
divino império omnia fa- 
mulantur , (^ virgo •, ita 
quoque verum eft, l^irginis 
império omnia famulantuTy 
& 'Deus. 

1 8 A terceira ethimo- 



quizfer, &foyfogeito. logia , & interpretação 
Ouçamos o akiflimopen- do nome de Maria hc, 



Berna r 

tom» '\ 

*.-6. 



famento de Saó Bernar- 
dino , & taó verdadeiro 
^ como alto. I//e qui hilius 
! T>ei eíf, é- VirginisBene- 
' di5Í£^volens paterno prin- 



Illuminatrix^ ou llluminas 
eoSyi^Q he, aquealumia 
a todos os homens. Por if- 
fo he comparada a Senho- 
y [ -^ ra àquella coluna de fogo 

ctpatm qtwdammodo prin- 4 de noite alumiava todo 
apatum aquiparare , tttfic o exercito , & povo de If- 
dicam.maternum in je qui rael no dererto,em quanto 
*Deuserat^ matri famida^ caminhavaó peregrinos 
batur in terra: Aqueile Se- para a terra de promiíTaó 
iihor,quehe filho deDeos, Tolle corpus hoc folare^ 
& da Virgem , querendo qui illuminat mundum • 
em certo modo igualar o ubi dtes ? Tolle Mariam^Tã^n^ 
Senhorio de fua Máy ao quid nift caligo involvens, ^^"^■ 
Senhorio de feu Pay , fe é' umbra mor tis , &den- 

fiffima tenebra relinquun- 
tur ? Tiray do mundo e- 
fte corpo íolar , eíla to- 
cha univerfal, que o alu- 
mia Q diz Saó Bernardo^ 
& onde eílarà entam 
o dia , ou quem o fará ? 
Do mefníomodo fe tira- 
rares 



fogeitou,& fez fubditoda 
mefma Mãy na terra. E 
ifto com tanta verdade, 
conclueo Santo,queaHim 
como verdadeiramente 
dizemos que todas as 
coufas obedecem a Deos, 
atè Maria 5 aílim he ver- 



de Maria. ' ^ í9 

rares do mundo a Maria, damos, & invoca mos com 



tudo ficará às efcuras , 
tudo trevas , tudo fom- 
bras mortaes , tudo húa 
noite perpetua , fem que 



o de doçura noíla ? Já 
fe vê que aludem eílas 
amarguras às dores dope 
da Cruz, das quaeseílava 
já mais amanheça. E que profetizado com o mef- 
muito he (diz o mefmo mo nome de md.r: Magna 
Santo) que Maria alu- ejivelut maré contritio tua. Thren; 
mie aterra , & os ho- Mas pofto que as aguas ^"'^* 
mens , fe depois queen- daquelle turbulento mar 
trou no Ceo , a mefma foraó taò amargofas para 

a Mãy angulliada que as 



pátria dos bemaventura- 
dos, & a meíhia corte do 
Empireo ficou muito 
mais alumiada , & illu- 
ílrada com os refplan- 
dores de fua prefença ? 
Mari£ prafentia totus 
tlluftratur orbis , & ipfa 
jam c£leftis Tatria da- 
de An-' ^^^^ rutilai wginea Iam- 
nunt. fadisirradiatã fulgor e. 

19 A quarta inter- 
pretação , & que pare- 
ce menos alegre , do do- 
ciííimo nome de Maria , 
he j Amarum maré , Mar 
amargofo. Mas como po- 
\ dem caber as amargu- 

ras do mar , ou hum 
mar inteiro de amargu^ 
no nome dâquella Se- 
nhora) a quem nos fau- 
Tom. 8. 



padeceo>para nós,que lo- 
gramos os eíFeitos delias, 
faó muito doces. Porque 
ainda que a mifericor- 
dia da Senhora foi fem- 
pre grande, as dores que 
entaó experimentou , 
fez a meíma mifericor- 
dia mais prompta pa^-a 
foccorrer , & remediar 
as noíTas. Naó tem me- 
nos Autor cfte reparo 
daquellas amarguras > 
que o Angélico Santo 
Thomás. Diz Saó Pau- 
lo, que Chrifto quiz pa- 
decerjpara fe poder com- 
padecer de nós: Nonha^ 
•bemus Tontificem , qui non 
pojfit comfati infirmitati- 
bus noíirtSy tentatum per 
B i j om- 



i 



If 



f'' 



logia , & cambem a ul- 
tima , como a mayor,8c 
mais cxcellcnte de te- 
clas 5 he llngularmente 
do grande Doutor da I- 
greja Santo Ambroíio,o 
qual diz que o nome dcp^^^j, 
Maria íigniíica, T)eus ex ' "" ' 
genere meo , Deos da mi- 



2 o Sermão do SmtiJJtmo Nome 
omnia. Pois Chriíloain- 20 A quinta ethimo- 
da que naó foíTe paíll- ' ' " 
vel , nem padcceíre,naó 
fe podia compadecer de 
nós , & remediamos ? 
Sim podia , diz Santo 
Thomás ; mas naó com 
tanta preíleza , &prom- 
ptidaò, porque em quan- 
to Deos fó conhecia as ^ , _^_ ^^ .,,^. 

miferias por fimples no- nha geração. Speciale Ma- 
ticia , & depois quepa- ria Uommt hoc nomen tn^ 
deceo, conheceo-as por ventt qnoà figniftcat , 
experiência : òciennum T>€us ex genere meo. Naó 
D.Tho V^^^ ^y P^ff'^ aliquando declarou o Santo a ori- 
<^ov^,m mportat mn ntidam po- gem de tal nome , mas 
tenttam, fed promptitudi- depois lhe defcobriraó as 
nem.&aptttudtnemChri' raízes outros Autoresna 
// ad fnbveniendum : & dirivaçaó de duas pa- 
Á?oc quía fcit per expe- lavras Hebraicas. E que 
rientiammtferiamnojiramy Hgnifícaçaó pôde ha- 
quam ut T>ens ab aterno ver nem mais alta , 
fcivit per Jimplicem noti- 
tiam. NeceíTario foy logo 
na Máy { aílim como 
noFilho^que a experiên- 
cia á7:iS dores , & amar- 
guras próprias lhe acre- 
centafle a compayxaôdas 
alhcas, & excitafíe, &e- 
ílimulaíTe nasfuasapróp- 
tidaò de remediaras nof- 
las. 



in eum 
lecum. 



nem tam immenfa.^ Sxò 
Paulo em Athenas en- 
finando aos Areopagi- 
tas a grande dignida- 
de do homem , & parcn- 
tefco que tem com a 
Divindade , diz que 
fomos geração de Deos : 
& para iíTo lhe allegou co- 
mo coufa conhecida ate 
dos mais ia bios gentios , 
o 



i 



\. 



de Marta. m 

h vcrfo de Ara to Poeta do-o omcfmoDeoSjdiíTc: 



A A. T7 



da fua mefrna mí^^oJpJius 
emm ^ genus fiimus. De 
forte que os homens fo- 
mos geração de Deos^^ 
Dcos he geração de Ma- 
ria : os homens geração de 
Deòs-, porque Deos nos 
d,eo o fer:Deos geração de 
Maria-, porque Maria deo 
oferaDeos. E ifto he o 
que íignifica o nome de 
Maria : Deus e^ genere 
meo, Vede fe tive razaó 
de lhe chamar immenfo , 
como agora lhe chamo 
fobre immenfo:& porque? 
Porque fendo Deos im- 



Faciam te crefcere vehe* 
menúffime: Fartehey cre- ^^''^' **• 
cer vehementiífimam en- 
te. Invente a Gramática 
outros termos mayores 
de fe explicar, porque os 
fuperlativos já Xaó curtos. 
Se os augmentos que húa 
fó letra do nome de Deos 
caufou no nome de Abra- 
ham foraò veheraentif- 
íimos •, aquelles com que 
todo o nome de Deos en- 
trou no nome de Maria, 
^ o enchqo , Maria^ ^eus 
ex genere meO;^<\M2i^s feríaó? 
R.eferve- o para fy o ra ef- 
mo Deos, que fò elle q 



t 






cnT7 



menfo, &iníinitOj huma 

parte de que íe compõem pódecomprehender. 
o nome de Maria , he to- 
do Deos. Quiz Deos acre- 
centar onomedeAbram^ 
& a íignificaçaõ delle , 
que era grande 5 & que 
fez? Tirou hua letra do 
feu nome, & acrecentou-a 
ao nome de Abram. lílb 
'quer dizer: Kec ultra 'vo* 
cabiturnomentuu Abram ^ 
fed appellaberis Abraham. 
Efte foy.oacreqentamen- 
tp do nome,& o do íigniíi- 



21 F7 Stas faô as inter- 
|j preta çoens, ou íi- 
nonomos do nomede Ma- 
ria, 8c feu copio fifli mo 
figaificado : ^ eftes fa6 
nac> todos , fenaô os prin- 
cipaes nomesf,que no mef- 
mp nome fe cncerra5. 
Mas fe o Evangelifta no* 
mea a mcfma Senhora 



cado foy tal, que declaraa- por hu m /ó nome ^ & eíTf 
Jom. |; Biij ,9fcia 



t- 



í f 



ii 



».Tho 



ir Sermalído SantiJJimo Nome 

ofeu próprio-, porque lhe dade do noílb conViccí-í- 

damo9 nós tantos outros, mento. Porque como na» 

&ta6 diverfos ? Tantos turalmente naó conhece- 

nomes , & hum fó nome mos a Deos como he em? 

no mefmo fogeito? Sim. fy mefmo, fenaópor feus 

"^ " ' • .. eíFeitosj aíTím como del- 



E cíle heomaisexceilen 
te, & o mais encarecida 
louvor, que fe pôde di- 
zer do nome de Maria. A 
multidam dos nomes va- 
rios moílraò a immcn fi- 



les colligimos diverfas 
perfeiçoens Divinas,aílini 
as naô podemos declarar^ 
fenaó por diverfos nomes*. 
^la enim *T>eum nen fof- 



dadeincomprehêíivel do fumus cognofcere vaturali* 
íigniíicado: & afingulari- ttr mfi ex effeãibus deve 



dade do nome único mo- 
ílraacóprehenfaóimmen- 
fa do nome. A Deos não 
fó nas Efcrituras fagradas, 
mas fora delias fempre 
nomearão os homens , & 
invocarão com diverfos 
nomes. Elle foy o grande, 
& antiquilTímo afíumpto 
da fublimepennade Dio- 
nyíio Areopagita nos li- 
vros de 'Divinls Nomim- 
bus. E dando a razaó San- 
to Thomás porque fendo 
Deos hum fó,fem oífenfi 
da fua unidade, ouadmit- 
te, ou neceíTita de muitos 
nomes i parte diz que hc 
fundada naincomprehcn- 
fibilidadc da fua grande 



niendo tn iffum , oportet 
quod nomina quibus perfe^ 
ófionem ejus Jignificamus ^ 
diverfa jmt^ Jícutperfeãio' 
nes in eo mvtniuntur diver- 
fa. Affim íilofofa altamen- 
te o Doutor Angélico fo- 
bre os muitos nomes de 
Deos. E dos muitos nomes 
da MáydeDeosj que di- 
remos ? O mefmo propor- 
cional mente diz Saò Ber- 
nardino. SicufDeumipfiíx) b,,, 
nonunotantuyn nomine no- "^^• 
minamus, fid multis^ ut fw 
ejus incomprthenfihilitatem ' 
enuntiemus: fie érgloriofam 
Virginem tnultis njmtnibns 
defignamiis^ utfic adjubli^ 
mi t atem ejus cognofcendam 



\ 



za, 6c parte na incapaci- íUiquantnlumfertingamus 

Aflini 



Afllm como (diz o Santo) dizer , qac cíTe he^ o fcu 



naó nomeamos a Deoscò 
hum fó nome, íenaóconi 
muitos , para que decla- 
rando cada liua das fuás 
perfeiçoens por partes , 



nome : Èt nomen Virginis 
Múr'i4ã Aílim como a noi- 
fa duvida fó achou a razaó 
da primeira parte cm De- 
osíaííim naó pode achar a 



yenhamos de algum mo- razão da Icgunda íenao 
dò em conhecimento de em Chrifto. Tam pareci- 



feu infinito fer , que he 
incomprchenfivel i allim 
dividimos também as ^r^- 
rogativas da glorioía Vir- 
gem , declarando as por 
muitos nomes, para que a 
tfuaimmenfa grandeza , q 
junta fenaó pòdeeompr^- 
liender, dividida, de al- 
gum modo a percebamos. 
Eeftahearazaó dos mui- 
tos nomes tantos , & taó 
diverfos com que os San- 
tos Padres ou celebram, 
ou invocaó a m^fma Se- 
nhora. 

21 Mas ainda naó eílá 
fatisfeita a fegunda parte 
da noíTa duvida. Se nós 
temos húa tam bem fun 



da he a Mãy fomente com 
o Filho , 8c delle abaixo 
com nenhuma creatura, 
Hua dascoufas muito no- 
táveis nos Frofetas he a 
multidão , & variedade 
denomesjcom que dizem 
fe havia de chamar Chri- 
fto. Bafte por prova, ou 
exemplo a profecia de 
líaias. No capitulo fepti- mf 7. 
mo: Fôcahitur nomen ejus '*• 
Emmanuel'. No capitulo 
oitavo: Vocanomen ejus , ^^^. ^ 
accelerafpohadetrahere,fe' ^'' ^' 
ftinapradari \ No capitulo i -^,.9.5, 
nono : Fôcahitur nomen 
ejus admirabihs ^ confilia^ 
rms.Tyeus.fortis , Tater 
futurifeculh Trinceps pa^ 



tCiiiwa iiuíi Ldiii i^v-i^^ j^,.....j , t^ ^ 

dada razaó para^arà Vir- eis. De for te que hum ío 
•gem tantos nomes , todos Profeta em três verfosrG^ 



devidos a fua grandeza j 
que razaó teve o Evan- 
gelifta , para lhe dar o no- 
me de Maria fomente , & 



fere onze nomesjcomqíie 
diz havia de fer chamado 
Chrifto : & com tudo o 
mefmo Evangelifta Saó 
Biiij Luca« 



\ 



Luc.2. 

31. 



'2+ Sermão do SmttjJimoKome 

Lucas re^rindo o nome, duas palavras. T>icenãum 
q toy poíto na Circunci- qiiodin omnibus illismmi^ ^*'^' 
lao ao mejmo Senhor, diz mbns quodammodo ft^ni^ 
que foi chamado Jefus : //r^rz^r hoc nomen iffus 
Etvocatum eft nomen ejus Concorda a hiíloria com 
l^fus. Pois feosProferas aprofecia,&oreftimunho 
annundiarao que havia de de S. Lucas com o de I- 

raiasvporq rodos aquelles 
nomes eraó íignificados 
no nome de lefus , & o 
nome de Jefus compre- 
hendia a todos. £ eíla 
mefma razaò he a que te- 



fer chamado com tantos 
outros nomes , como fe 
chamou fomente lefus ; 
& eíle nome foi o que có- 
fcrvou fêpre defde aCir- 
cuncifaó acè a Cruz ? O 



r r-i - — . -"wxnirt ICÍ.I.CHJ lic a que te- 

mefmo Doutor Angélico ve o mefmo Evaneeliíla 
que nos deo a pri meira fo- para dizer ; Et nomen Vtr 



iuçaó,nosha de dar a fe- 
gunda. Argue S. Thomás 
fobre o mefmo Texto de 
Ifaias, & aperta mais o 
argumento com aqueíle 
princípio,que os ditos dos 
Evãgelirtas haó derefpó- 
dcraosdosProfeusi por- 
que fendo Deos a Autor 
dehúa, & outra verdade, 
náo pôde faltar nella eíla 
confonancia, & armonia. 
Pois fe os Profetas tJaó 
tantos nomes a Chriflo, 
como teve o mefmo Chri- 
ílo hum fó nome, que foy 
o de lefus, que refere o 
Evangcliíla? Rcfpondeo 
mefmo Sanr^^^^^omás cm 



gints Maria : naó porque 
negaíTe , ou duvidaíTe a 
verdade de todos os ou- 
tros nGmes,que as Efcri- 
turas, & oí Santos Padres 
daóà mefma Virgeniimas 
porque todos elJes eílani 
íignihcados no nome de 
Mana, & o nome de A a- 
riacompreliende a todos» 

í. VIL 

^3 A Té aqui temos 
L\ declarado as íjg- 
nificatoens de todo eítc 
facratiílimo nome, &da- 
<io os fundamentos altif- 
íinios de fcrcp ^^nras. 



u 



ittife 



de Marik. ' 25* 

Mas ainda nos fefta aef- ^mnícs.M. Mater univer- 



peculaçaó defte grande 

todo, parte por parte: ou a 

anatomia defte grande 

eorpo> membropormem- 

broi Aílim deve faz-erjdar 

fabiam^nte Phylo He- 

breOjquem exadlamente 

quizeF conhecer [a e0en- 

eia das coufas pela pro- 

^ , priedade, ôcíisnificaLain 

Hcb.iA de kus nomes: ^t resve- 

de Agr.- fut 'per anotomiam confide- 

rant^f asile ajfequuntur ap^ 

' pellatwwsearum próprias. 

PaíTando pois a fazer efta 

exaéla anatomia membro 

por membro, 3^ parte por 

parte, que vem aferexa 



fórum: A. Arca thefaurorU: 
R. Regina Ccelorum\ I. Ja- 
culum inimicorum : A. Ad^ 
'uocatapeccatorum, He p o- 
rèm o mefmo fignificado; 
do no me de Maria^ tam 
im menfo y & a energia de 
eada hua de faas letras 
taó fecunda, que para eu 
fazer alguademonílração 
deíla admirável fecundi- 
dade, náo quero tirar cin- 
co prerogativas das fuás 
cinco letras, mas década 
huma delias tirarei dobra- 
do nu mero: & iílo naó re- 
petindo , ou refumindo 
tudo, fenaô alguma parte 



minarofígaiíicado,&m.3r- fomente do que do meA 
llerios do mefmo nome mo nomer& feuíignifíca- 



letra por letra 3 vejamos 
em cada húa por fy, o que 
íigniEcaã as cinco letras 
do nome de Maria. S. An- 
B. Ant. tonino, como taó douta, 
& devotiílimo deíle fan- 
tiílimo nome , tirou das 
cinco letras delle cinco 
prerogativas univerfaes , 
em que parece compre- 
Iiendeoos poderes,& my- 
ftenosde leu ampliílimo 
iigniíicado : &: faõ os fe- 



do diíTeraó os Santos, & 
Efcritor es Sagrados. Va- 
mos letra por letra. 

_ 24 M. Máy de Deo5, Rjeard. 
digna do digno, fermofa '^^^s^- 
dofermofo, pura áom^^f'^: 
corrupto, excelfa do altif- ^^^?-- 
limo,diz Ricardo Vito- 
rino : Mater "Dei , digna 
digniyformofapulchri:,mu^ 
da incorrupti y excelfa al^ 
tiffmi. M. Maria que de- 
eeo da Çeo j §e com. hum 



V 



r?^ 



4 h 



1 6 Sermão do SantiJJlmo Nome 

manjar mais fuave que o com oPadre,&Mariapa- 



niel fuílenta.atodoomu- 
do,di2S. Máximo :i^/^r/^ 
D.Max. ^^^^ CiclíttiS venicnscunãis 
ler. in pofulis cíoum fuíiviorem 
piiir,ar. ^^^/<í'^<^/^'^-^^^- M Ma 6 di- 
reita de Chriílo , a qual 
, elle eílende para levantar 
(JL fua graça todos os cabi- 
dos, dizoMeneo Grego; 
ExMen. J^extera Chrijit ad omi.es 
erigendos extenfa, M. Me^ 
. ílra dos meftres , porque 
. Maria o foy dos Ãpofto- 
^^"P '■" los, dizRuperto:^'^^//r/í 
Czx^x.umagiftronimr, M. Mar ver- 
*^'^'' melho , que afogou o my- 
llico Faraó , ifto he,o De- 
loan monio, diz S. Joaó Geo- 
Geomct mctra : Maré diiulfum con- 
coíder./^^^-^ ^^ in(:rgendum my- 
Jiicum Tharaonem. M. 
Medicamento univerfal 
para todas nofias enfermi- 
dades, diz omefmoGeo- 
metra; Medi chia a^grítudi- 
num nojirartim. M. Mefa 
efpiíitual, em que fe nos 
dá vivo o paó da vida eter- 
dizS. Ilaacio: Menfa 
fpiriíualis vivijíco anima- 
rum pane Chrjjloinjtruãa. 
M. Mcdiatora paraome- 
idiator, qhcChiiíto para 



Jdcm. 



Ifaac in 
Mxneis 

Cr«c. na , 



ra com Chriílo,diz S.Ber- ^^'.f'"': 
nardo : Opus eft mediatore Miga"^ 
ad mtdiatorem , nec alter 
nobis utilior quàm Maria, 
M. Mente levantado fo- 
bre o cume de todos os 
montes, diz S. Gregório: 
Mons in vértice morUium g, cg. 
exalta tu s hiper cdles . M . ' ' ^„ ' ^^ 
Morte dos pcccaaos,& vi- 
da dos juílos, dizS.Agoíl. 
Faãa efi Maria mors rr/- J^^s^;;; 
minum , ^itajuftorum. M. v". 
Mina, da qual Te arrancou 
fem maósa pedra, queen- 
cheo,& cobrioo Mundo, 
diz Heíi chio: ladina iinde^^^^^i 
prodijt lápis totam terram ^^ oei- 
tt geris a riullo incifus . M/^'*" 
Milagre dos milagres , & 
o mayor de todos os mi- 
lagres , diz Saó Joaó 
Damafceno : Miraciilum 
omiiium mirãcnloríim ma- narraf- 
ximum. M. Muro mtx-'^l]^2' 
pugnave] , & fortaleza fe- ^ Nac. 
gura da faivaçam , diz 
^li\\ç:o{[ç,ndiO'. Murus i?leX' 
pugrlabHls^crm^^nime'fltum Thc«ft. 
falutis. M. Mulher admi- 
rável mente fingular , & 
íingularmente admirável, 
pela qual Tcíàlvaó os ho- 
aicns, 



de Maria. 2-7 

mens, & fe reflauraó os go fem fundo da graça , 



An fel- 
Alloq. 
caslcft. 
27- 



Anjos , diz S. Anfeimo; 
Famina mirabiliter fingii- 
larisy é" fingíilartter admi- 
rabiíis , per quam falvan- 
ttirhomines , Angeliredin- 
tegrantítr. 

2f Bem vejo que íieíla 
primeira letra 'excedi nao 
menos que emametadeo 



Bomv. 
iii Laud 
V.n.2. 



Wugo 

ICard in 



diz Saó Joaó Dama- 
fceno : Jbyjfus gratU.^^^^^ 
A. Altar animado , nojeAíiíi? 
qual o Cordeiro Chrifto 
feofferece efpiritualmen- 
te em facriíieio vivo , diz 
André Cretenfe: Maria efif^^iv: 
altare animattim , in quo oraTjf 
mcuu. 4u. .u. ......^. ^ ^gnm Chriftus ^ vivum fa^ Nat. v, 

numero prometido j mas crificmm fpmtuahter of- 
nasfeguintesaobfervarey fertur. A. Arca doTefta- 
pontualmente fem fair mento,na qual eftiveram 
delle,porqueonaôpermi. encerrados todos os my- 
te o tempo. A. Arvore da fterios , & arcanos da di- 
vida,q fó foy digna de dar vindade, diz S. Ildefonfo tndefonç 
o fruto da faude eterna ^ Ter Arcam uterus Vtrgtms ^^^^ 
diz S.Boaventura :Z./^w/ figuratur\qu£eunãaSacra^ - - 
vita^quod foíum fuit di- mentorum arcana inje ha^, 
gnumportarefruãumfalw butt. A, Aurora doCeo 
tis, A .. Adj utorio do Al- na terra, porq aíTim co mo 
tiíllmo, porque Maria ajii- a aurora he fim da noite, • 
dou , & ajuda a Chrifto a & principio do dia ^ aílim. 
faivar o género humano, Maria foy o fim de todas 
como Eva foy dada a A- as dores, &oprincipiode 
dam com o mefmonome, todaaconfolaçáo,dizRu-j^y^g^^^ 
por ferfemelhante aelle, perto : Sicut mr or a finis c^^tc^ 
diz Hu£^o Cardeal: Maria pr£terit£ noãiseH^ & ini- 
eft adjutmum Aluffiwi , tium diei fequentisyfic na^ 
quia JMvat eum adjalvan- ^ tivitas tua , òvirgo , finis 
dum genus humanum^unde dolorum^ & confílatianis 
de ipfa verèdicitur.Facia' fuitinitium. A. Aíabàílro 
mus eiadjutoriumfimilefi- do unguento denoíTafan- , 
bi. A. Abifmo, ifto he,pe- tifica^aó , diz S. Amphi- 

lo- 



■i II 



• v. 



28 Sermão do SantiJTmo Nome 

j;^rL^ochvo:Alabaftruunguenti total de todas noíÇisefpe 

í^^'^- dua-oda fonte! da grlça, 
cujas enchentes faindo do 

peito do 'Eterno Padre , 
^^^ fe communicáraó ao ho- 
icrmde mcm 3 diz S. Bernardo: 
yf/^"'' ^^^■^^'íi^ius, qtiiplenhudi^ 

nem fontis ipjins de cor de 

^ãtris excipiens nobis edi- 

dit, A. Abelha Virgem, 



ranças, diz S. Bernardo: 
Ratto tota fpei noHra. 
R. Raiz não fó da glo- 
ria, mas de todos os bens 
ainda defía vida , diz 
Chryíippo:/?^^/:v omninm 
bonorum. R. Recrea;aó»6c 
aliWo potentiííimodc to- 
dos os afligidos, diz S. 
Germano : Recreai io po- 



Ber/cr^ 
de Nat. 
V. 



Cliryíip 
.>rar. lie 
l^eipura 



Wc Virg 



que nos fabricou na terra te7UilJtma omuium qiã affli. 
o favo de que o mel he guníur.. R. Reíbrreicaó 



XhriftojdizS.Ambrofio 
Sicut ap:s rore calefti^ tdtjl^ 
gratiaSpiritiiS ^ anã ip afta 
^irgo permanjit , d^ ^Fara- 
difi dulcedinem gen^raxif. 
A Aula da univerial pro- 
piciação, em Cjíie fe con- 
cedem os perdoens a to- 
dos os peccadores, diz S. 
Anfelmo: Au a univerfa^ 
lis propittationts. 

26 Ao A. fecTuefeoR. 



de Adaiii, morto eile ,' & 
homicida de todos pelo 
peccado , diz S. Efrem : 
Refurreãto Adami. R. 
Reclina tório de ouro, no 
qual, depois da rebelliam 
dos Anjos , reclinandofe 
Deosjfó achou defcanço, 
dizS. Pedro Damiaó:i?í'- 
cUnatornim aureum^ inquo 
T>eíis poft tumultum An^ 
gehrtim rcquiem invenit. 



n Ger. 
nian. o- 
rat. de 
falci.is 
í>aJvat. 



Efrfm. 
r'eLauá 
V. 



fcr. de 
Annuiu 



And 
C 

o 



. Rainha , cujo Reyno R. Refrigério , &orva. 

fundado na terra , & con- lho da graça contra o ar- 

fumadpnoCeo,hede po- dor, & incentivo de todos 

'^!:TâTT\'''''''^''¥''r^''^' diz o;>vicios,dizRichardode 

:,, , André < rctcnfe:C///«5 Re- S. Laurentio: liifrigerium, 

^c.iu.p gmrm e,Urrenis fumptim ., ér ros gratt^ contra mcen^ 

jed e X Juperna glorta po. tivavttiorum R Rcfueio 

tLHttamhahct inexpugna^ de todos os q fe acolhem 

i9L.m. ,R liaz;io unica, & aq feu cqiparo y & os faz 



Ricbar. ) 
3S.La.. / 
rcnr.fí: 
c6.0 




Nioom. 
orar. de 
ObUt. 



ãe Marta. ^9 

cidadãos de húa , & outra Maria,como prometeo do 

Jcrufalem , diz Georgio antigo Arco celefte , de- 

Nicomedienfe: Civitasre- firte dos caftigos que me- 

^'^''''^ fugtj yqua confugientes ad recém os peccados do 

fe aves facit tttrlufque mundo, diz S. Antonino; 

lerufalem.K, Reparadora Arcus cwlejlis eH Marta^ 

das ruínas de Eva, para qtia apparente fubtrahtt fe 

que affim como por ella ^eus afiagellis intentisin 

entrou no mundo a mor- peccatores. I. lardim de 

te, por Maria fereftituiíTe delicias , no qual eílaó 

a vida, diz S. Pedro Chry- plantadas todas as flores, 

ÇoXo^o: Ut Jicut per Evatn & fe exbalaó os cheiros 

ita 



Anton. 
opufc- 

cap, ^Sv 



í».Chiy. .- j 

ièr 99. vemt ad omnes mors , 

per Mariam venerit omni^ 

bus vita. R. Roía doPa- 

raifo do Ceo, diz Santa 
^j.f,^^. Getrudes : & acrecenta , 
dcs hb. que a mefma Senhora lhe 

lafinuaieníinouq ainvocaíTecom jas puriílimas correntes 
«ap^i^^eíle nome : Roja caliça fe reílitueà primeira lim- 



de todas as virtudes, diz 
Sophronio : Hortus deli-^ 
ciarum , in quofunt confita 
univerfa florumgenera^ èr 
odoramenta *uirtutum, I. 
lordaó da Igreja, em cu- 



Sophr- 
homil, 
d-' Af- 
íumpr- 



amoemtatís. 

ly A quarta letra 'do 

nome de Maria he o I. I. 

Idea digna da Divindade, 

diz Santo Agoftinho : Si 

formam ^ei te appellem , 

Auguft, digna exiftis. I.Imagem do 

YlTlzu I^ivi^^^o Archetypo pro- 

W- priamente delineada, diz 

André Cretenfe : Imago 
Creten. *Divini jírchetfpi reãe 
SrVi- defcripta. I. íris íinal de 
iumpr^ pazj&clemenciaj porque 

pondo Deos os olhos em 



peza a carne deNaamam 
ieprofo,ifl:o he, a lepra da 
natureza corrupta , diz 
RichardoLaurentinorA/^- 
ria fluvtus Jordanis^in qua 
reftituitur caro Naaman 
leprofiy ficiít caro parvíiU 
pueri. I. Inventora magni- 
fica da graça ,diz S. Ber- 
nardo : Inventrix gratia 
magnifica^ 1. lubilo per- 
petuo d > Ceo, 6c da terra, 
. diz S. Meíhodio : Latitia 
■ coe li 3 & ter ra indefifiens^ 
Lln- 



Richar^ 
Laurêr- 
dt-Lan, 
V.l-6.9. 



!'crn,. 

Epift. 
H9- 



oi'a\. in. 
Htpap. 



^ 



.\ 






30 Sermão do Santtffimo Nome 

I. IntcrceíTora imperial porque aílim como nquel- 



que naó rogando como 
ferva, mas mandando co- 
mo Senhora , impetrado 
tribunal divino quanto 
procura , diz S. Pedro Da- 
P. Dam Tí\i^ó: Accedis ad aureum 
Ka fv;/ ^^'^^'^^ reconciliationis 
altare , non folum rogans , 
fed et iam imperaiis T)omi' 



h Arca era comporta de 
três eílancias em que rc- 
colheo todas as criaturas 
viventes , aíTim Mana , 
fendo morada do Cria- 
dor, recolheo , & teve 
dentro em fy o comple- 
mento de toda a Trinda- 
de, iílohe, as três PeíToas 
Divinas, diz Chryfippo : 
Ília três contignationes , chryfip. 



nationes , & manfiones ha- \ ';"''-j- 
veaat , hac autem univer- Marije. 
fum Trinitatís compL meri- 



na y non ancíHa. I. Jus, & 

direito particular , pelo 

qual Deos decide todas 

as caufas , & demandas 

io.nn. do género humano, diz , ..........0 ..,..y,.c,,..... 

S-mT^-J.^^^ Geometra : Jus tnm. A. Arpa de David, 
^.A^^dirimens htes. I. Iman,ou cuja armonia fazia fugir 
V. magneí-e efficaciíTima , a o Demónio do corpo de 

qual como aquella pedra '^ • - - - ' 

attrahe o ferro, aíTim Ma- 

ria attrahe, & traz a Deos 

os duros corações dos pec- 

cadores, diífe, & revelou 



Saul; & do mefmo modo 
o põem em fugida acon- 
fonancia do nome de Ma- 
ria, diz S. Gregório Na-Vazian 
iid,nzcno\^ii adl/irginemy ^ f' '^ 



Brie ^ ^' ^"S^^^ ^ mefma Se- quemadmodum Sãul ads.c]Ç. 
Rev.V.f: nhora: Sicut magnes tra^ "Davídisatljaram.fidium- 



C.J2. 



htt ferrum , tta Ego traho que pulfus confugit.à maio 



'Deo dura corda. 

iS Sò nos refta a ulti- 
ma letra,que he o fegundo 
A. Epoílo que do primei- 
ro dilfemos taò excellen- 
tzs prerogativas , ainda 
faò mayores as que agora 
ouvireis. A. ArcadeNoè, 



Jpiritu purgar nr. A. Águia 
deEzechiel, a qual voan- 
do ao monte Líbano do 
Cco , tirou de lá a medulla 
do cedro fublime, que hc 
o Filho,Sabedoriado Pa- 
dre,dizS. Thomas : ASe „,..,,. 
dulla cedrifubltmisejt ater- >"' '■•^f* 
na 



n.Tho. 

■ op.ifc. 



de Maná. 5 1 

na fapienttcí. A. Aljava de Ancora fírmiílima de to- 



Deos, dentro da qual te- 
ve efcondida novemezes 
aquella feta efcolhida, có 
que havia de ferir, & der- 
rubar de hum tiroo mun- 
do, a morte , & o peccado, 
ií;í.49 ííizlfaias: Tofuit mejicut 
2- fagittam eleÕtam , in fha- 
retrafua abfcondtt me. A. 
Antídoto da vida contra 
o veneno de Eva, diz Sa6 
Bernardo: Crude lis Eva^ 
Ber. àeper quam ferpens et iam ipfe 
v.^^^ viro venenum infudit -, fi- 
delis Maria^quaJalutisaU' 
tidotu^Ó' vir is i ò' feminis 
praparavit. A. Armazém 
fortíílimo , no qual Deos 



das noíTas efperanças no 
mar tempeftuofo defte 
mundo , diz Theodoro Theod. 
Studita: Tu enimfolate no- s^"^'*^- 
bis fecuram ac Jlabilem 
anchorampr aftas. A. A- 
tlante do Geo , & da ter- 
ra , os quaes jâ fe tiveraó 
arruinados, fe Maria com 
o poder de fua interceífaó 
os naó fuftentára , diz S. § p„j^ 
Fulgencio:C^//z;» , & ter- ^-íMí 
ra jam diu ruijjent , ^'^hoiog. 
non Maria precibus fu- 
ftentarentur, A. Argos 
vigilantillima com mui- 
tos olhos, para ver , & 
acodir a noíTas miferias>sE „ 
diz S. Epiphanio : Firgoàcizad 



fe veftio das armas de nof- 

fa hu manidade para ven- flurium nòminum , & ynul- 
iw.ln ^^'* ° DemoniOjdiz Guil- tocula effeBa eft. Em fim : 
íeft. aÍ iielmo Parifíenfe: In útero 
fump. Virginis ^eus 



Mariíe. 



Reiat ^^^K^^^^ Deus tanquam 
^ ^ ^' miles in tabernáculo arma- 

turam noftra humanitatis 

accepit contra diabolum 
) pugnaturus, A. Afylo do 
\ mefmo Deos, porqfó em 

Maria efteve Deos feguro 
yvn^r de o oíFenderé peccado^s, 

w°^^^^ Andreasjerofohmita- fellavit mária y congrega- 
Annunt no : Maria T>ei tutijjimum tiones gratiarum àppella- 

éíd habitandum af/lum.A, vit Mariam, 



A. Agregado de todas as 
graças em fy mefma , & 
para com-nofco y porque 
ao agregado de todas as 
aguas chamou Deos má- 
ria, & ao agregado de to- 
das as graças chamou Ma- fin "/^" 
ria, diz S. Antonino: Con- p ^í^ iJ 
gregationes aquarum ap- 



c.^. 



|i 



Sermão do SahttJJlmo Nome 



§. VIII. 



25> 



' Eita aíllm letra 
I, ^ por letra a glo- 
riofa anatomia do nome 
admirabiliífimo de Maria, 
naó he juftoquepaílemos 
em íilencio os poderofos 
effeitos, & virtude de ca- 
da hua 5 confiderando pri- 
meiro o myfterio do nu- 
mero de todas cinco. Ha- 
vendo aceitado David o 
defafio com o Gigante , 
a munição que prevenio 
para a fua funda , foraó 
cinco pedras. E por- 
que razaó efte nume- 
ro , Ç>c não outro ? Pa- 
ra o tiro bailava huma, 
como bailou. Efe para o 
fegurar fenaõ contentou 
com duas,nem três , nem 



nem mais , nem menos.? 
Philo o Autor das antigui- 
dades Biblicas,&oChal- 
deo, dizem que efcreveo 
David naquellas pedras 
o nome de Deos , & dos 
Patriarchas. Eu bemcre- 
yo3 que David no feu fur- 
raó naó traria penna, & 
tinta; mas poílo que para 
rifcar o que dizem que ef- 
creveo, bem podia haver 
no mefmo furraô algum 
inftrumento paíloril , ba- 
ilava que eíla devota ap- 
plicaçáoafizeífe em voz, 
ou mentalmente. E quan- 
to aos que tem por fabu- 
la dosRabbinos eíte géne- 
ro de letras efcritas nas pe- 
dras dos que atira vaó com 
fundas-, he pouca noticia 
da milicia antiga, na qual 
oufavaóaíllm os Fundi- 



Ph Io ír 
antiqui- 
rar. Bi- 
blicis. 



quatro; porque naó levou bularios, que eraó os mof- 

féis, ou fete, fenaó cinco .^ queteiros daquelle tem- 

Todos os que confideraó po, para que no golpe da 

efte numero , mais reco- pedra fe foubeíTc a maó 

nhecem nelle ofuperfluo, de que tinha fahido. E a- 

quc oneceílarioj&menos inda hoje fe achao nas 

o naturai,quco myílcrio- campanhas daquellasba- 

fo. Qual foy logo o my- talhas algumas pedras có 

ílerio porque fe armou as mefmas infcripçoens, 

David de cinco pedras, que em Lypfio fe podem 

ver 



Lvpriiií 

in Poli- 
icertíc. 



de Marta. 3 ;ç 

vercílampadas.Iftopofto, aMoyfes; nome de tanta 
naô heíó verofimil, mas veneração, que a ninguém 



era licito pronuncialo. 
Mas o numero das pe- 
dras naõ concorda com 
as letras defte nome , o 



muito conforme ao Tex- 
to Sagrado, que David ef- 
creveíTe nas fuás pedras 9 
ou as dedicaíTe ao nome 

de Deos, porque quando qual conftava fomente de 

o Gigante zombou das quatro, & por iíTo fe c ha- 

fuás armas, lhe refpondeo mava quadrado, ou qua- 

elle : Tu venis ad me cum drileterOi& no tal cafo ha- 

I Reg gladio y &haftay èrclypeo: viaó de feras pedras qua- 

17- ^"i ego autem vento ad te in tro, &naó cinco. Seguefe 

nomine^Domtnt exercitiitm logo q para o numero das 

T>ei Ifrael: Tu vens con- letras concordar com^ o 

tra mim armado de efpa- numero das pedras,aílim 

da,Iança, & efcudo ; & como as pedras eram cm 
eu venho contra ti fem ou- /r- 1 íí 



trás armas mais que o no- 
me do Senhor dos exerci- 
tos,o Deosdelfrael. 

30 O que agora refta 
faber , ^eque nome de 
Deos foíTe efte , porque 
Deos entaó tinha muitos 
nomes , & ainda havia de 
ter mais , o que David naó 
ignorava, como Profeta. 
Refpondem, &fiippoem 
comummente os Inter- 
pretes, que o nome q in- 
vocou Davidjfoy o nome 
ineíFavel, que o mefmo 
Deos naô quiz revelara 

lacob , & depois revelou rubou ao Gigante : & co- 
Tom. 8. C mo 



cojaífim ha viaó de fer cin- 
co as letras do nome : & 
que nomehe, oufoyefte 
de cinco letras , fenaó o 
nome íàntiílimo dejefus? 
AíTim o entendem, & com 
razaó todos aquelles Au- 
tores, que tem para finque 
o nome de Deos, de que 
David diíTe que hia arma- 
do, naó podia,nem devia 
fer outro, fenaó daquell e 
mefmo Deos, que junta- 
mente era Deos, & Filho 
do mefmo David. A pe- 
dra,em que fe fundou a ca- 
fa de David,foy a queder- 



i"; 



£^ 




Sermão do SantiJJimo Ni 



I.vc 

-IP- 



ino David íahio armado 



úf^e 



& aoTeu Tanto nome^ ó* 
fanãum nomen ejus. E 

porq não fóà omnipotên- 
cia, fenaó também ao no- 
me ? Porque efte nome 



naó fó delia ,. fenaó de to- 
das cinco, em quehiaef- 
crito o nome de Deos, 

jufto era que eíTe Deos „_ . ^^,,„^ ^,,^ ,,^,,,^ 

foíTe o que naceo da mef- de DeosTpor antono^mafia 

rna cafa , & efle nome,o Santo,heonome dejefus, 

ú(i]tÇMS,á^ tantas letras que quer dizer Salvador, 

quantas eraó as pedras. & como Santo nos fantifi- 

Sendo pois o nome efcri- cou , & deo graça,rem a 

tonas cinco pedras o no- qual nos naó podiamos 

medejefus,bemfedeixa falvar. Repartirão pois 

entender, que ooutrono- entre fy as grandezasque 

me,com que David o a- deraó à Máy de Deos a 



compa.nhou , naó havia de 
ícr o dosPatriarchas tam 
remotos, fenaó o da Máy 
do mefmo Jefus , que i- 
gualmente he nome de 
cinco letras,Maria. 

31 Para prova deíla 
que fó parece conjeârura, 
poílo que tam adequada, 
temos o oráculo da mef- 



omnipotencia do mefmo 
Deos, & o nome dejefus. 
A omnipotência dando à 
PeíToa o fer, ôcasmefmas 
grandezas: & o nome de 
Jefus dandoJhe hum tal 
nome^que as deciaraílè to- 
das, que foy o nome de 
Maria. Vede como em 
húa , & outra coufa fe cor- 



, ma Senhora nas palavras refpondéram admirável 



do feu Cântico: '^iia fe 
cit viihi magna ojã pottns 
efli & fana um nomtn ejus. 
A dous principios , ou 
caufas attribue a foberana 
Virgem asgrandezas,que 
rccebcodebcos^^/z^/í' 



mente o Filho com a 
Máy , & a Máy com o Fi- 
lho O Filho Deos, como 

vimos, concebeo na men- \ 

te divina o fer da Máy : 2+°^ ^ 
Nondmn erant aby£i^ ó* 
egojam cojicepta eram \ & 



at mihi magna : à fua om- depois dcolhe por fua pro- 
«jpotenciai c^ui pólens ejh pria boca o nome de Ma- 



na. 



de . 
ria : Fgo ex ere AltiJJim^ 
^^"-•f frodiví. E do mefmo mo- 
' doa Mãy primeiro deo o 
.ur. I. íer ao Filho conceben- 
'• do o em fuás entranhas : 
Ecce concipies ^ & fartes 
siáera. filium-, &: depois lhe deo 
o npmç de Jefus : Etijo- 
cabis nomen ejus lefum. E 
como eílas correfponden- 
cias foraó taó iguaes, q o 
Filho deo o fer, & o nome 
à Máy, & a Mãy deo o fer, 
& o nome ao Filho 5 aílim 
pedia a razaó,q os nomes 
foíTem cortados pela mef- 
mamedida até no numero 
das letras: & aífim como 
o nome de Jefus fe com- 
põem de cinco letras, af- 
íim o nome de Maria fe 
formaífe de outras cinco. 
32 Nem he muito que 
cíles dousfantiíli mos no- 
mes íèjaó tam parecidos 
no fom das vozes , quan- 
do o faó nos refpeitos da 
I áigmá2Láty &nos eíleitos 
i da virtude. Em que fe vê, 
& conhece o refpeito de- 
vido ao nome de Jefus i* 
^iiip 2 S. Paulo o ái(ík\ T>onavit 
, ic. illinomény quod eji fufer 
omne nomen , tit in nomine 
Je/u omne gènu fleãatur 



Maria. 3 ')-. 

cfeleftíum^terreflrmm , & 
infernorum: Deolhe Deos 
o nome fobre todo o no- 
me, que he o nome de Je- 
fus, diante do qual pro- 
nunciado, fe ajoelhem, 8c 
o adore todos os da terra;, 
todos os do Geo, & todos 
os do Inferno. E efte mef- 
mo refpeito proporciona- 
damente,heo que fe deve 
ao nome veneraveliílimo ic^iota 
de Maria. T>edit tibi tota ^^ 
fuperfanõfa Trinitas no-v. 
men^ quod fofi nomen fu- 
perbenediãi Filij tui ejl 
fíiper omne nomen^utinno- 
mine tuo omne gemi fleBa^ 
tur cceiefiium^terrejiriu^ & 
infernorum : diz^ falíando 
com a mcfma Senhora, o 
doutiíIimo,& devotiílimo 
Idiota. DcovosaSantiffí- 
ma Trindade, ô Virgem 
Maria, hum nome, o qual 
abaixo do de voílb Filho 
he o nome fobre todo o 
nome , ao qual reveren- 
ceem , & adorem poílra- 
dos de joelhos os do Ceo, 
os da terrai & os ào Infer- 
no. Efta fentença daquel- 
le tanto mais fabiOjquan- 
to menos aííeílou o nome 
de Douto , feguem hoje , 
C ij lou- 



*' 



louvao,cc allegaó todos os 
DouroresCacholicos. Mas 
ifto he o menos. Pedro 
-Blefenfe, aquelle famofo 
varaó em letras, & pieda- 
de , que floreceo ha mais 
de quinhentos annos, ef- 
creve,que em feu tempo 
era ufo , & ceremonia u- 
niverfal da Igreja , que 
quando fe ouvia o nome 
Pc-. ^^ Maria , todos fe po- 
Ddinian ftraífem por terra : lllico 



Sermão do SanttJJimo Nome 



rardo BifpodasPanóniasr 
Utfí quando Maria nomen ^-rard. 
edicerent , coyife^im fe ad ^^' ^°' 
terram omnes proííeme- 
rent. 

33 E quanto à virtude, 
& aos effeitos do nome 
de Maria femelhantes aos 
do nome de Jefus 5 porq 
feria matéria infinita fe 
ouveíTemos de difcorrer 
por todas as fuás letras, 
comparemos fóhuma do 



)i 






omnes audientes in genua nome de Jefus com outra 
procumberent. E S. Pedro do nome de Maria , & feja 



Damiaójcem annos mais 
antigo,nomeando em hú 
íermaó o nome de Maria, 
Eíla he (^diíTe aos feus ou 



em hum, & outro nome a 
primeira. Das cinco pe- 
dras de David aqueila que 
levava efcrita a primeira 



Vintes J aquella Senhora, letra do nome de Jefus , 



acujonome vos inclinais 
com taó profunda reve- 
rencia: ȣc eji ad ctijus 
nomen corpus humiltterin^ 
cimatis. E fe hoje naô fa- 
zemos todosomefmo,naó 
he porque o mefmo nome 
feja menos digno deíla 
adoraçãOjmas porque nós 
fomos indignos de o ve- 
nerar como clle merece. 
Em todas as Dioceíes era 
bem que ordcnaíTem os 
Prelados o que refere Su- 
ho inílicuío na fua S. Gc- 



foy a primeira, que elíe 
meteo na funda. E que 
fez aquella primeira pe- 
dra em virtude daquel- 
la primeira letra? Fez tira 
ao Gigante , & derru- 
bou o. Diremos pois,que 
o mefmo faria , ou fará a 
primeira letra do nome 
de Maria? Digo fegura- 
mente que fim. A primei- 
ra letra do nome de Jefus 
he o li a primeira letra do 
nome de Maria he o M: 
& Canto fará o M do no-, 
me 



Í€ Marta. 37 

íne de Maria > como o lido fua. Aceitou á pobre don- 



nome dejefus. E digo fe- 
giira , & conílantcmente 
que fará outro tanto,por- 
que jà o fez. Ouvi iium 
cafo verdadeiramente e- 
ftupendo. Junto aos mu- 
ros da Cidade de Ni me- 
ga fe achava de noite húa 
Gonzella de outro povo 
viíinho , a qualnaó quiz 
recolher em fua caía ou- 
tra mulherjquenáo íóppr 
piedade Chriftáj mas por 
eftreito parentefco tinha 
depois da mãy as fegundas 
obrigaçoens de o fazer. 
Nefte defemparOj fó, tri- 
íle, defefperada , & per- 
dido totalmente o juizo, 
em vez de invocar a mi- 
feravel o foccorro do Ceo, 
chamou o do Inferno : & 
no meímòpóto Iheappa- 
receo o Demónio em ha- 
bito de medico foraíleiro 
qpor aiii paíTava. Infor- 
moufe das caufas de fua 
afilicça6,Sc na6 fó Ihepro- 
meteo remédio para o tra- 
balho preíente , mas mui-r 
to melhorada fortuna pa- 
ra o reilo davida,fó cora 
condiçaójque quizeííe fer 



zeila o miferavel contra- 
to, contra o qual porem 
fe oíFereceo húanovadif- 
fículdade:porque fabendo 
o Demónio que eila fe 
chamava Maria , inílou 
que havia de deixar a- 
quelle nome, que ellefo- 
bre todos aborrecia. Ti- 
nha Maria grande aífedlo 
ao mefmo nome , poílo 
que já taó indigna delle.' 
em fim. vieraó os dous a 
partido , que deixado o 
nome inteiro de Maria, 
ao menos lhe fícaííè a pri- 
meira letra , & aíHm íè 
chamou dali por diante 
Eme. Continuou Eme no 
ferviço5& amizade do De- 
mónio, & já fe vê qual fe- 
ria a fua vida. Naò era de 
Chriílã, nem de criatu- 
ra racional, mas de hum 
tiçaó do InfernOstaó con^ 
denada, & fem efperança 
de falvaçaó, como o mef- 
mo a quem fervia. Com 
tudo eu ainda naó Atítí^ 
pêro. 

^4 PaíTou hum, paíFá- 

raô dous , pairàraó féis 

anno5 , em que íoportoi? 

Ciij Em- 




d 



5 8 Sermal^do SantiJJimo Nome 

Eme o durilTl mo cativei- fernal do Demónio, bem 



ro, & jugo cruel do Infer- 
nal tirano: mas como fem- 
pre confervou aquella 
mea íllaba do nome de 
Maria j p>oíl-o queerahúa 
fó letra, ella bailou final- 
mente para odefpojarda 
preza , & derrubar,^ ven- 
cer. Aflim como a primei- 
ra letra do nomedejeílis 
lançou por terra aofober- 
biílimo Gigante , aílim a 
letra também primeira do 
nome de Maria venceo,6c 
derrubou o Demónio , o 



qu 



ai, como diz Santo A- 



goítinho, no mefmo Gi* 
gantefereprefentava. Era 
o dia daSantiílima Trin- 
dade, quando fuccedeo e- 
íla vitoria, & com grande 
myfterio; porque o me- 
lhor geroglifico da mefma 
Trindade he o M, hum, 6c 
trino. O cerro com que 
oitenta feu poder, &fe ar- 
ma o Demónio quando 
apparece vifivel, heolèu 
tridente de fogo: o M, en- 
tre todas as letras também 
hc tridente: & competin- 
do o tridente do nome de 
alaria cora o tridente ín- 



vio, & experimentou ellc 
neíla primeira letra do 
mefmo nomejcom quanta 
razaò íè temia de todo. 
Ahmefquinho, & infame 
enganador , quanto mais 
abacido íicou agora o teu 
orgulho, que quando caí- 
ftedoCeo'! Do Ceoder- 
rubouteMichael com to- 
do o nome de Deos : 
§lnis ficut T>eus> Sz agora 
derrubate hua mulher fra- 
ca, & eícrava tuajnaó com 
todo o nome de Maria y 
nem com húafilabadel- 
le, fenaò comhúa íó le- 
tra do mefmo nome. 

3f Libertada , & con- 
vertida Eme,já naó h.me> 
fenaò Maria com toda a 
inteireza do feu antigo 
nome, que tanto amava j 
para i^c-tisfazer por feu» 
pcccados , naó íe con- 
iciitou com menos que ir 
a K.oma pedir ao Summa 
Fontifice, que elU IhealH- 
nalatle a condigna peni- 
tencia de tao enormes , & 
cotinuadas maldades. Fel- 
lo allim o Pontífice. Man- 
doulhc lançar ao pelcoço 

tiCS 



três argolas de ferr05&; ou- los mefmos peccados ou- 



tras canta§ também de fer 
ro nos braços : & que com 
íl" es, não tcrretes do feu 
cativeiro , íenaó ferros 
duros , & pezados , íizef- 
(c penitencia das prizoés 
diabólicas , em que tantos 
annos vivera; atè que os 
mefmos ferrosjou o tempo 
os desfizeíTe , & coníu- 
iniire,ou Deos os queb raf- 
fe. Affim viveo peniten- 
te em hum Convento de 
S. Maria Magdalenaspre- 
zafempre , &c carregada 
dos feus ferros , atè que 
paíTados quatorze annos 
a libertou delles , & lhos 
quebrou hum Anjo. Pois 
taò tarde , & depois de 
íantos annos? Sim: para 



veraómifter quatorze an- 
nos. Mas a penitencia pe- 
leja contra o Demónio 
com armas de ferro > o 
nome de Maria com ar- 
mas deouro. Ouçamos a© 
grande meftre de eípiri- 
to o devotiílimo Kempis 
fobre a differença deftes 
mefmos ferros à virtude 
daquellenome. O Demo^ 
nioj^diz elle} ou fe ven- 
ce com armas de ferrojou 
com armas de ouro: as de 
ferro faó os jejunsjoscili- 
cios, as difcipli nas, dou- 
tras penitencias, &afpe- 
rezas : as de ouro faó os 
dous fantiíTimos, ôcpode- 
roíiífimos nomes dejçíhsy 



om. 

dtK.m. 



òc de Mm3i. Arma férrea 
que fe veja quanto mais funt cilicia Jejunia^ &pa'rh 
poderofasfaóasindulgen- nitentium ditra opera : ^^-fjj^;^^ 
cias do nome de Maria , q ma áurea funtfanãiffima paap. a 

nomina lefus , & Maria ''^* 
devote invocata, E pare- 
mos aqui com ofegundo 
pontOjlargo quanto à bre- 
vidade do- tempo , mas 



as fatisfaçoens da peni- 
tencia por afpcras, & du- 
ras que fe jaó. O nome de 
Maria, ôc húa fó letra do 
nome bailou para livrar a 



peccadora do poder do quanto a grandeza da ma 
Demónio em hum dia : & teria muito breve, 
rigores, & ferros da peni- 
.tencia para íàtisfazer pe* 

Ciiij 5. IX. 




^o Sermão do Santijfimo Nome 

§. IX. 



3^0 ^^^ o terceiro, & 

l ultimo prometi 
refervar o modojcomque 
pela frequente invocação 
do mefmo nome nos de- 
vemosaproveitardosma- 
ravilhofos eífeitos de tudo 
o que elleíigniíica: maté- 
ria que pedia mais largo 
tempo do que)ánosfaica. 
O noííb Portuguez Santo 
António diz,que o nome 
de Maria he jubilonoco- 
raçaó,mel na boca, & mu- 
flca nos ouvidos : Nomcn 
Mar i te jubiíus in cor de •^me- 
ios hl aure , melin ore : &■ 
quando naó fora msisque 
pelo goílo de lograr elb 
doçura, fuavidadc, & ar- 
monia, fe devera repetir, 
& dearticular continua- 
mente cflc raborofiíllmo 
nome. Mas ajuntemos ao 
doce o util , cm quccon- 
jiile todo o ponto. Saó 
Bernardo depois de húa 
larga, & trillc reprcfcnta- 
çaó dos trabalhos, &mi- 
ícrias deita vida, para re- 
médio de todos nos ex- 



orta a que invoquemos O 
nome de Maria , appli- 
cando a cada hum como 
húa receita univerfah-A/tf- 
riam invoca^Mariam invo' 
ca. E verdadeiramente fe 
nósmefmos nos naòqui- 
2ermos enganar, ou cegar, 
que outra coufa he efte 
mundo, fenaó hum hofpi- 
tal commumda natureza 
humana , em que todos 
pr.decem, todos gemem, 
& como nellenaóhaefta- 
do, ou fortuna izenta de 
miferias, & dores , ne- 
nnuma ha também enxuta 
de lagrimas. Mas que 
maravilha feria taó gran- 
de , tJÓ fácil , &c ta6 
utii, Ç'Z todos eíles males 
fe c u ra íl c m , naó d igo co rn 
palavras, fcnaó com hila 
lo palavra ! Pois eíta pa- 
lavra he o nome de Ma- 
ria: & fenao,diícorramos 
hum pouco por eíie hol- 
pical , &: perguntemos a 
alguns doentes qual hea 
fua queixa. 

37 Tnjtattir aliquis ? 
Saó o mal de q vos quei- (bichar, 
xaibtriltezas, que naoad- rcm/''* 
nuceni confolaçáo ? diz 
Kichar- 



de Mau a. 41 

Richardode SanífoLau- conhecia, &:fe lançou aos 



rencio: pois invocai o no- 
me de Maria , & vereis 
como eíTanuvemique ten- 
des fobre o coraçaòjfc des- 
faz, & cm lugar da tormé- 
tavem a ferenidadeiO»- 
tmuo ad nomen Maria ce- 
da nubihm,& ferenumre- 
dit. Quem mais penetra- 
da da crifteza que a Mag- 
dalena , a quem nem a 
viíla, nem as palavras dos 
Anjos podèraó confolar .^ 
Que nuvem era taõ ef- 
peífaa que tinha fobre os 
olhos, & lhe carregava , 
& opprimia o coração , 
pois tendo prefenteacau- 
fa, & o remédio de fuás 
lagrimas, & vendo vivo 
o que chorava morto, o 
naó conhecia ,? Mas que 
fana o Divino Meftre pa- 
ra que toda aquella tníle- 
za fe fercnafíè , & con- 
verteiTe em alegria ? Cou- 
fa maravilhoía ! Diíle- 
loanaolhe O Scnhor, Maria: "íD/- 
'^- cit et leftís : Mar lã : & tan- 
to que o Filho pronun- 
ciou o nome da ívláy, no 
mefmo ponto a Magdale- 
na conheceo a quem naô 



pés defeu meftre taô mu- 
dada, 6c taó outra , que 
já naò cabia em fy de a- 
Icgria, aque pouco antes 
eftava fora de íy de tri* 
fteza. li digo, tanto que o 
Filho pronunciou o no- 
me da Máy; porque ain- 
da que a Magdalena tam- 
bém fe chamava Maria , 
o nome de Maria^que de 
defconfolada a confolou , 
Sc de triíle a fez alegre , 
naô foy o feu^fenaó o da 
Màv de feu Meílre. Ma- , 
na 'vocatur , hoc ejt^ nomsn 
ejus accipitqu£ fartiinvit 
Cbriliu^álz com o mefmo 
penfamenro S. Ambroíio. 
38 Entre todas as 
paixoens humanas, a que 
mais afílige, &remmais 
modos de affiigir, he o 
temor. As outras ator- 
mentaó com o que he , 
o temor com tudo o que 
podefer , & naó fÓ com 
os males , fenaô com os 
mefmos bens. E que re- 
médio taó certo para cu- 
rar eíle mal fempre in- 
certo , como o nome 
de Maria ? Efia foy a. 
pri- 




4 i Sermão do Santijfimo Nonte 

primeira virtude em que fltna. Pois feentaó calou 



íe moírrou fua efiicacia 
As (Ju:is mayores prope- 
lias, que nunca íb fize- 
raò neílc n^undo , foy a 
do Demónio a Eva, &a 
do Anjo a Maria: aqiiel- 
la, q feria como Deos,eíla, 
q feria Mãy de Deos.t co- 
mo foraò aceitas liúa, &: 
outraPEva naóremeo,porq 
naó côíiderouiMaria cl íi- 
derou , ^z te m eo : T tiro ata 
- efi^é- cogitãbãt qiuilis ejjet 

tjla jãlntatio. Com alto familiar tttr vocans ex no 
UBcrn. J"^^^ ^i^c ^^ó t:ernardo «?/>íé' , benigncy ne timíãty 
neíleliígar: Vjs effe àãa- perfuadet. Netimtas , in- 
mone Itkr? AngelosdeCa- quit ^ Maria. Vendo o 
lo time '. Qiiereis eílarfe 



Luc. 
29. 



o nome de Maria, porque 
agora o nomea expreífa- 
mcnte ? Porque enraó o 
caiar o nome,foy cortefia, 
& reverencia, agora o no- 
mealo era obrigação , & 
neceílidade. Excellence- 
mente S. Bernardo. yí?h- 
gelusintuitus VtrgtntmyÒ' 
varia earn feium vohere^hi, 
cogttatíone facilime dtpre- 
hendens^faiiidam conjola- 
tur^ conjirmat dubium , ac 



Berns 



guro do Demónio ? te- 
mey atè os Anjos do Ceo. 
Eva creo as palavras do 
Demónio como fe fora 
Anjo , & Maria temeoas 
do Anjo, porque confide- 
rou que podia fcr Demó- 
nio. O meímo Anjo po- 
rem^ para fegurar a Senho- 
ra deílc temor, o que lhe 
diíTe, foy: Ne t ir/; e as Ma- 
ria : Maria naó temas. 
Qiiando Gnbritl faudou 
a Virgem, nao diflc, yf^'i' 
Mana, fenaó Anjc grutia 



Anjo que a Virgem naó 
refpondia , antes revolvia 
no penfamento as caufas 
que tinha para duvidar 6c 
temer o que ouvia, conhe- 
cendo facilmente qeftava 
perplexa, & temerofa,para 
íhefocegara perplexidade 
& tirar o tcmorjnomeou-a 
por feu próprio nome, 
porque para confortar rc- 
ceyos,& d líTi par temores, 
naó ha remédio taó effi- 
cazcomo o nome de Ma- 
na. Aífim o fez agora, & 
tambcni depois o mefmo 
Anjo 



de A 
Ahjo.-quando para animar 
o Sagrado típofo , & o 
livrar da perplexidade, & 
temor com que fe achava , 
lhe advertio também com 
a me ima expreíTaó, que a 
Efpofajque remia receber, 
viatt.i fe chamava Maria : Molí 
'°- timere acciptre Mariam 
conjugem tuafn. 

39 Mas fe osreceyos, 
& temores forem tae&,que 
tenhaò chegado a deíeí- 
peraçaò da meíma vida? 
Também eiles naò reme- 
dea o meímo Deos fenaó 
por meyo do nome de 
Maria. Avifáraó as duas 
Irmans a Chriílo da en- 
fermidade de Lazaro, 8c 
havendofe o Senhor dila- 
tado atè o quarto dia de- 
pois de fua morte , antes 
de entrar em Bethania, 
onde eftava fepulcado , 
mandou a Marcha, a qual 
fahira ao rectberjque cha- 
,*g'"^-'-maíre a Maria; Abijt^ò' 
njocavtt Mariam for orem 
fuam^dicms: MãgiHer ad- 
ejiy & vocat te. A razaó 
porque Chnílo dilatou 
tanto a fua vinda foy, 
porque nao fóquizíarar? 



Uria. 43 

fenaõ refuícltar a Lazaro 

morto de tantos dias, pa- 
ra raayor gloria de Deos, 
rnayor honra do meímo 
defunto, Ôcmiyordemò- 
ílraçaô do particular aífe- 
61:o*com que o amava. 
Mas a razaò, ou myfterio 
porque iiaó quiz obrar 
aquella prodigioía reíur- 
reiçaó fem primeiro vir 
Maria , aíiim como foy 
finguíar reparode S.Pe- 
dro C h ry fo 1 ogo, a íli m h s 
admirável prova de quam 
poderoío he o nome de 
Maria , ainda nos cafos 
maisdefefperadoSjparadar 
vida. Ouramos ao S. cujas 
palavras aiica melhor me- 
recerão o nome de áureas. 
Mittitur Martha ad Ma- ^,, ^ 
rtam , quuijme Mana nec fei-.óV, 
fug&ri mors poterat , nec 
'vitapoterat repdran. Man- 
dou o Senhor chamar a 
Maria, porque havia de 
lançar fora da íepulturaa 
morte, & reftitoir ao mor- 
to a vida » & nenhúa de- 
lias couías fc podia fazer 
fem o nome Oe Maria. 
Maftde qual Maria? Naó 
de Mana irraã de Martha^ 
feíia© 




.1 



li» 



44 Sermão do SaiittJJlmo. Nome 

fcnaó da Maria Máy de mefníos enfermos anade- 
Chriffo . l/eniat Maria, cem fem dor. Os que ef- 



^'£w;V//r materni nominis ba- 
jula , ut vide at homo Chri- 
jlnrn vi-ginaiis nteri habi- 
tafe fccnttim , quatenus 
frodeant ab inferis morttú, 
r-wrtui exer.nt de fcful- 
chris. Venha \íarin, mas 
naó em quanto o nome 
de Maria hc íeu , fenaó 
em quanto reprelenta o 
nome deMaria Máy de 
Chriílo : Veniat materni 
Tiomnús bajula -, para que 
quando Lazaro fair vivo 
da fepultura 5 conheva o 
inundo que hc em virtu- 
de donomedaqucila À a- 
ria^de cujas entranhas tã- 
bem fahio vivo o Autor 
do rnefmo milagre. E ha- 



verá ainda 



enter- 



mo tao dcíconí-iadoda VI- 
da,que naó erpere a vida, 
& a íai;de,in vocando o no- 
me de Mana ? 

4J Paflcmos à vida, Sc 
íliude da alma , que he a 
que mais importa. Ella 
he a enfermidade geral de 
que eílámaischeyooi ol 



capaô, & faraó, faó prxi- 
cois , os que caem de novo, 
& recaem, faó muito.«^jpor- 
que a.btentaçoensafTupra- 
das pelo Demónio naó 
ceíílio, &• o remédio , que 
eíiá na invocação do no- 
me de Maria , ou naó fe 
applica totalmente, ou fe 
erra o modo, com que fe 
dev^eapplicar Húa,& ou- 
tra couíà eníinou a mef- 
ma Senhora a S. Lrigida, 
<S<: depois de dizer quanto 
veneraó o feu nome os 
Anjos, também diílequá- 
to o temem os Demónios. 
Omnes et iam 'Damones ue- 
rehtur hoc nomen , & ti- ^- B^ig- 
ment , qui audit ntes nomtn 
Mari(S , Jtatim relinc^uunt 
animam ex uyiguibus , qui- 
bus tenebant eam.Tà m bem 
todos os Demónios, diz 
a Virgem, temem muuo 
o meu nomej(ktantoque ) 
ouvem eltenome Mana , 
logolargaó a ahna das u- 
nhas, com que a tinhaó 
preza. Tenho notado e.m 



pitai do mundo, & tanto todas as rcveiaçoens da 
mais pcrigofa, quanto os Virgem Senhora Noílà, 

que 



de Maria. 



45 



que o feu eftilo he daros 
documentos, & logo de- 
claralos com algúa com- 
paração i & ^íTim o fez 
nefte cafo. Sicut mim avts 
qua in pradam ungues^ & 
roftrum habety fi audierit 
Jonum altquem , reliqutt 
padam } fie D amones au- 
dito nomine MarU^ Hatim 
relincjuunt animam territi, 
Afílm como a ave de ra- 
pina,que tem a preza nas 
unhas, fe a efpantaócom 
alguma voz, larga a pre- 
za j afíim os Demónios 
ouvindo o nome de Ma- 
ria, com medo delle lar- 
gaó a alma , & fogem, 
Defta maneira fe decla- 
rou a Senhora com a- 
quella femelhança , a qual 
noutra occaíiaó fez evi- 
dente com ^oí effeito. 
Perto de Sâ6 Lucar ha 
hum Convento, chama- 
do noíla Senhora da Re- 
gra , cujos Religiofos , 
que faó de Santo Agofti- 
nho , enílnáraó húa pega 
a dizer, Santa Maria da 
Regra , o que ella repe- 
tia muitas vezes. Succe- 
deo pois, que levando hu 



gaviaõ nas unhas efta 
pega , ella pelo coftu- 
me que tinha , a i^oz com 
que naturalmente bro- 
tou na fua aíHiçaó, foy. 
Santa Maria da Regra : 
& no mefmo ponto ella# 
&: o gavião vieraó a ter- 
ra , o gaviaó morto , & 
ella vitoriofa , & livre. 
Mas afíim como (^ conti- 
nua a Senhora a eníinar a 
que deve concorrer de 
noíFa parte, para que o 
eíFeico da invocação do 
feu nome permaneça ') : 
afíim como a ave derapi^ 
na, que efpantada da voz 
fugiojôclargou a preza , fe 
o eíTeito do temor naó 
concinua,torna logo a ella> 
aíTim o faz também ©De- 
mónio taó veloz como 
huma feta , fe à invoca- 
ção do meu nome íenaô 
íegue a emenda da alma, 
que efcapou das fuás u- 
nhãs. Iterum advalat , ò* 
revertitur ad eam qnajl 
fagitta velocijfima j nifi 
aliqua emendatio fuhfe* 
quatur . Finalmente con- 
clue a Senhora com e* 
íla admirável fcntença, 
Nnllus 



4^ Sermão do Santiffimo Nome 

JSlullus etiãm tãmfrigidus les? Bpni'remedío,& facil, 






ab amor^^eieft . , . nififit 
áamnattts > Ji invocanjerip, 
hoc nomen cufn hac inten- 
tione , ut nunquam rever ^ 
terevelitad opusfolitumy 
quod non djfcedat ab eofta^ 
tzm diabo/usrN enhum ho4 
ra e m ha taó f rio no a m or 
de Deos, fenaó for já con- 
denado, que fe invocar o 
nome de Maria compro- 
pofitx) de.emenda,naó fe 
aparto logo dei le, &fuja 
o Demónio. . 

41 Depois das tenta- 
çoens do Demónio fó re- 
lia o de que ellas faó in- 
centivo, que he opecca- 
do o mayor mal de todos 
os males, &naó fó enfer- 
midade mortal , mas ver- 
dadeiramente morte das 
Almas. E que remédio te^ 
rà hum Chriílaó grande 
peccador , & pouco me- 
nos, ou muito mais que 
gentio carregado, oppri- 
mido, & afogado de hum 
abifmo fem fundo de in- 
finitos peccados,aos quaes 
naó fabe o numero, porq 
nunca fez cota da conta q 
Dcos, lhe ha de pedir del- 



di^ Alberto Magno: Eíie 
tal peccador bautizefeno 
nome de Maria. Notay 
as palavras,que faó taô ad- 
miraveisjcomo de grande 
eonfolaçaó para todos os 
tentados , & quafi cabi- 
dos. iSV illecehra carnis te 
trahant , é^ fuperantesjam 
ad illicitas ddeãationes te 
propellant , baptiza te in 
amarttudine mar is ^ &nO'A\hcTt. 
mina Mar iam , ò' (iC pro ^''^'^ 

^ y * ,'11 C2P. r. 

certo m te experieris, quod i^wc^ 
jufte vocatum £ft nomen 
Virginis Maria. Mana 
quer dizer maramargofo, 
& tu ô Chriílaó quando 
te vires taó apertadamen- 
te tentado, que jà te áits 
por vencido , bautizate 
na amargura defte mar, 
nomeando a Maria, &ex- 
primentarás em ti fem du- 
vida , & com toda a certe- 
za a virtude defte nome, 
& a eííicacia deíle bau- 
tifmo. Oh admirável , & 
nunca imaginado privi- 
legio doaome de Maria! 
Nos A6V0S dos Apoftolos 
iemos,quc os Chriílaós no 
tempo da primitiva Igre- 
ja 



ja fe bautizavaõ no líonie San^us dabatur in haptijl 



Aaor. 



deChriílo. Lum vetg crtd't\ 
díffent Thilippo úiíonge* 
iis^anti de Regno *Dtíy^ in 
mmine Chrifti baptmaban" 
tur viri ac mulieres,. Mas 
como podia iílo fer, fea 
forma do bautifmo infti* 
tuido pelo mefmo Chri 



mo. Pois aílim€omo.Dêos 
para honirar o nome de 
íeu Filho diípenfou qiie 
òs homens fe bautizaíTeni 
em nome de Chrifto , & 
pela invocação dornefmo 
nome fe Ibe çó m umcaíTe 
o Efpirito Santo ; aííim 



fto , & dada aos Apofto- fuppoemjo grande meftre 
los , he que bautizauem a do mefmo Santo Thomás, 



D. The 

3 pai- S 
66. art 
6. 



todos em nome do Padre, 
& do Filho, & do Efpiri- 
to Santo: Baptizanteseos 
Mat. liM no mine Tatris^&Filijy 
»9 O' Spiritus SanBi ? Ref- 
pondeSantoThomás,que 
foy privilegio particular 
revelado aos Apoílolos, 
para que o nome deChri- 
ílojqueeraodiofo aosju^ 
deosj&Gentios/oíTe mais 
honrado , & eftimado , 
vendo todos, que pela in- 
vocação de feu nome fe 
comunicava no bautifmo 
o Efpirito Santo. Exfpe- 
ciali Chrifti revelatione A- 



que para honrar o Filho o 
nome de fua Mãy, lhe con- 
cedeO que nos pudeíft^ 
mos bautizar no nome de 
Maria, & pela invocação 
dornefmo nome recebei^ 
femos a graça do Efpirito 
Santo: naò por modo de 
Sacramento, o que fenaó 
pòdc dizer , mas por ou* 
tro privilegio digno de tal 
Máyi & tal nome. S. Ber- 
nardino de Sena lhe cha- 
ma privilegio de autorir^ 
dade, 8c jurdiçaó, a quai 
áiz qu e r ece beo a Son ho- 
ra dcíde o dia da Encar- 



poftoli in primitiva Eccle^ na çaô do Ver b o, fo br e to- 

fia , ut nomen ChrifiiÇquod das as mifíbens temppraes 

erat odiofum JvJais , ér do Efpirito San to j porque 

Gentilibus^ honor abile red^ o m efmo Efpirito í Santo 

deretur , per hoc o^md ad fenaó qtíer cómunicar,fe- 

ejtis invocationem Spiritus^ naó por mcyo de Maria. 

A tem'm 



% 





48 Sermão do Santifflmo Nome 

A tempere quo virgo bene- ra, de quem Chrifto rece- 



'^)¥. 



s. Bern di^an concípit VefbumT^ei 
Aflump tn Útero , jurijdimonem , 
& authoritatem habuit fu- 
peromni mijjione temporali 
Spiritus Sanai i quia ncn 
vult Spiritus San6tus nifi 
per eam comunicaria 

§.x. 

42 Yl Ste heomodojou 
ijcíles faô os modos^ 
com que por meyo da fre- 
quente invocação do no- 
me de Maria podemos 
confeguiros altos, & ma- 
ravilhofos efFeitoSjqueno 
mefmo nome íè íignifi- 
caó. E fe me perguntar- 
des qual deve fer a fre- 
quência defta invocação-, 
que efperais que vos ref- 
ponda ? Baftará por ven- 
tura(^ou por defgraça^ que 
nos lembremos tantas ve- 
zes do nome de Maria, 
quantas faó as letras do 
mefmo nome ? Ainda 
mal , porque haverá ho- 
mem com nome deChri- 
Í3:aó,quenem cinco vezes 
no dia fe lembre da- 



beo o fer, & a quem deve- 
mos o mefmo Chrifto. Na 
linguaGrega,em q asletras 
juntamente faónumero«, 
o nu mero que vem a fazer 
as letras do nome de Ma- 
na , he novecentos , Sc no- vener 
venta, & nove, como bem '"^'"^ 
notou Georgio Veneto. cant.i 
E feria muito, que nove ^^*^'- 
centas, & noventa, & no- 
ve vezes cada dia invo- 
caflemos o nome de N'a- 
ria? Se aílim o fizeíTemos, 
he taó fuperior ao Maná 
GÍfe faborofilTimo nome , 
que mil vezes tomado na 
boca nos naó havia de en- 
faftiar,mas fempre havia- F.anco 
mos de achar nelle novo ^^^^l 
fabor, & doçura. Alirum th novi 
illud eíí de nomine Mari^y "^""^^^ 
& valde mirum^ ut milites 
auditum femper audiatur 
qtiafi novum , diz Franco 
Abbade. 

43 E para que a fre- 
quência defta repetição 
nos naó pareça demaíiada, 
ouçamos aSaó Germano. j^^^'^'|) 
Paliando com a Senhora, mir.v.' 
diz aílim. Non tayitumcce- 



quella inligne bemfeito- // haujiu anima nojlra ref- 

inrant , 



de Maria. 49 

pífãnf j quãiitam riomhiis pode confervar a vida , 



►t,p='- 



tuifroteBione cÕfirmamur: 
Naó he taó neceííària a 
refpiraçao do ar para vi- 
verem os noííbs corpos , 
comohe neceíTaria a in- 
vocação do voíIbnome,ò 
Virgem Maria , para vi- 
verem as noíTas almas. 
^ Noutra parte. Sicut con- 

, Ger- . / . . „ , 

lan. tmua rejptrátiõ non Jolum 
^^ ''^ eft figi^tim vita , fedetiam 
caufa : Jic òanã^ Maria 
nomen , quod in T>eí fer- 
vorum ore àjjidue verjatury 
fimul argumentum eft quod 
invant , fimtil et iam hanc 
vitam efficity ér confirvat, 
Àílim como a continua 
refpiraçáó naô fó he final 
da vida, fenaó também 
caufa delia: aífim a conti- 
nua invocação do nomede 
Maria na noííà. boca, naó 
fó he argumento certo de 
que vivemos j fenaó a que 
caufa èmnós, Sfconferva 
a mefma vida. Dizeyme 
agora, quantas vezes ref- 
pira cada hum de nóseni 
lium dia para viver .^ 
Gonte bem cada hum as 
refpiraçoens com que vi- 
ve, & fem as quaes naó 
Tom, 8. 



& entaó faberà quantas 
vezes deve invocar o no- 
me de M ária . C onf e íTo , 
que parece encarecimen- 
to-, mas já eu vos repeti 
defte lugar o exemplo de 
hum homem leigo neíla 
mefma America , o qual 
a todas as refpiraçoens dir 
zia a Deos: Fiat volnntas. 
tua. Mas na Afia, & em 
hu'ma gentia temes outro 
mayor exemplo , & que 
mais nos deve confundir: 
He cafo , que fe o naó 
efcrevéraó Autores dig^ 
nos de toda a fé, parece- 
ra incrível. Húa gentia 
Japoneza era taó devota 
do feu falfo Deos Amida, 
que todos çs dias, furtan- 
do para iíTo muitas horas 
ao íono , invocava o no- 
me de Amida cento , &: 
quarenta mil vezes. Mas 
naó he coufa nova em^ 
Deos abrir os oihos com 
a luz da verdade, 6c trazer 
a feu ferviço os que vè a p- 
plicados com extraordi- 
nário zelo ao culto de feus 
çrros. Aílirn o fez com 
Saulo , & aílim com efta 
D idolatra, 



il 



1^' 



o**' 



"í 



fo Sermaõ do SantiJ/imo Nome 

idoIatra,aquaInoannode quando vos moleílarero 



nni , & {ç\s centos, & vin- 
te dous fe í^z Chriílá , 
fendo já de mayor idade, 
& trocando hum amor por 
outro amor como a Mag- 
da! ena , foy continuando 
a fua devaçaó com o mef- 
mo fervor atè a morte,fem 
outra diíFerença mais,que 
mudar o abominável no- 
me de Amida no nome 
SantiflimodeMaria.Cen- 
to, & quarenta mil vezes 
cada dia invocava o nome 
da Máy do verdadeiro 
Deos no mais remoro da 
-Afia , para exemplo , & 
confufaó da Chriftandade 
de Europa. 

44 Eu fiz a experi- 
ência, & achey que nem 
era impoíTivel, nem mui- 
to difíicultofo aquelle,que 
parece innumeravel nu- 
mero. Mas naó he efta 



os achaques do corpo,ou 
vos naó moleílaremosda 
alma: quando vos faltar 
o neceífario para a vida , 
ou defe jares o fuperfíuo 
para a vaidade : quando 
òspays, os filhos, os ir- 
mãos 5 os parentes fe ti- 
quecerem das obrigações 
do fangue : quando volo 
defejarem beber a vin- 
gança , o ódio, a emula- 
ção, a enveja : quando os 
inimigos vos perfeguiré, 
& os amigos vos deícm- 
pararem, & donde femea- 
ftes benefícios, colheres 
ingratidoens,& aggravos: 
quando os mayores vos 
faltarem com a juftiça, os 
menores com o refpeito, 
& todos com a proximi- 
dade : quando vos in- 
char o mundo, vos lifon- 
gear a carne, & vos tentar 



a frequência, que eu vos o Demónio, que fera fem 
pretendo perfuadir . Só pre, & em tudo : quando 



vos digo, que invoqueis 
o nome de Maria, quan- 
do tiveres neceífidade àç\~ 
le Quando vos fobrevier 
algum defgofto , alguma 
pena , alguma triftcza : 



vos virdes cm alguma du- 
vida , ou perplexidade,em 
que vos naó faybaisrefol- 
ver,nem tomar confelho: 
quando vos naó defenga- 
nar a morte alhea , & 
vos 



áe Marta. f i 

yos enganar a própria, rermosà:pratecçlô,&em' 
fem vos lembrar a conca paro da Mây das miferi- 
de quanto , & como ten- cordias j naó ha duvida, 
des vivido, & ainda efpe- que obrigados da mefma 
rais viver : quando ama- neceílldade , naó haverá 



nhecer o dia,fem faberes 
íe haveis de anoitecer, & 
quando vos recolherdes 
à noite , fem faber fe ha- 
veis de chegar a manhã : 
finalmente em todos os 
trabalhos,em todas as af- 
íliçoens, em todos os pe- 
rigos, em todos os temo- 
res, & em todos os defejos, 
& pretençoens , porque 
nenhum de nós conhece 
o que lhe convém : em 
todos os fucceílbs profpe- 
ros, ouadverfos, & mui- 
to mais nos profperos » 
que faó os mais falfos , 
& inconftantes : & em 
todos os cafos, & acciden- 
ces fubitos da vida , da 
honra, da fazenda,& prin- 
cipalmente nos da conciê- 
cia, que em todos anda ar-^ 
rifcada, &com ella a fal- 
vaçaó. E como em todas 
eftas coufas, & cada húa 
delias neceílitamos de 
luz, alento , & remédio 
mais que humano j íe em 
todas, & cada húa recor- 



dia, nem hora, nem mo- 
mento,em que naó invo- 
quemos o nome de Maria. 
4 f Ainda reíla outra 
razaó mais nobre,& mais 
fina que çílas da noííà ne- 
ceílldade , & conveniên- 
cias ; & he o muito que a 
mefma Virgem Maria fc 
ferve, & agrada defta con- 
tinua memoria , & invo- 
cação de feu nome. Allini 
o tem manifeftado a mef- 
ma Senhora a todo o mun- 
do com admiráveis , 6c 
prodigiofos exemplos. E 
porque faó os que mais 
podem animar a noífa de- 
vaçaó ', quero acabar, re- Hiftor. 
ferindo alguns breviííima- ^^^ 
mente. S. Euftachio , & o dueSr 
Beato GuiIheImo,fempre^'^ '^^ 

. ' » nem 

traziaó na boca o nome Maria:. 
de Maria , & depois d:í^'?^: 
morte fe achou efcrito na " o' 
lingua de hum, & outro o 'iX'.7^ 
mefmo Santiílimo nome"píi$ 
com letras de ouro. Tam 
facilmente faz Chryfofto- 
mos , & Chryfolo^os efte 
Dij iiom^, 



t 



5* Sermão do SanttJJimo Nome 

nome, & com taó pou- dos olhos, duas dosouví^ 



Ifl^^^ 



f*^; 



.cas letras. Hum monge 
chamado Lofio, faltou húa 
noite às Matinas, depois 
das quaes em honra do no- 
JTiede Maria reinava fépre 
devotamente cinco pial- 
mos, q CO meçaó pelas cin- 
co letras do mefmo nome. 
O primeiro htMagntficat'. 
o fegundo Ad T>ominum 
xum tribuUrer : o terceiro 
Retrtbue firvo tuo : o quar- 
to In convertendo : :o quin- 
to A d te levavi óculos 
meos. Sabida a caufa por- 
que Lofio tinha faltado às 
JMatinas,foy achado mor- 
to, com ',d horror de todo 
o Convento , q ainda nos 
timoratoscoflumaó caufar 
as mortes repentinas. Mas 



dos , &: hCa da boca. Neíla 
eftava efcrito com letras 
também de ouro o nome 
de Maria , &: em todas 
cinco as dequeellerefór- 
xna, & canta no principio 
dos cinco pfalmos. 

46 E porque eftes exem- 
plos faó para noíTa doutri- 
na , o que agora direy nos 
enfma hum elliJo,com que 
^ílas cinco k trás do nome 
de Maria fe podem pro- 
nunciar naó fô com a bo- 
ca, fenaó também com a 
bol(,a. Dous mezes havia 
que hú foldado Efpanhol 
no Peru naó podia pro- 
nunciar o nome de Mana, 
porque quando o intenta- 
vajlheapertavaòcom grá- 
quem fe tinha preparado de força,&:cerravaõtotaI- 
com a invocação donome mente a garganta , fmal 



de Maria em todaa vidí 
ainda qlie.morreo fem en- 
fermidade, naô morrco de 
repente. Aflim omoílrou 
jogo publicamente a mef- 
ma Senhora j porque em 
Jínal de queaquclla alma 
eítava no Paraifo da glo- 
riajbrotáraó no corpo de- 
funto cinco rofasdo mef- 
mo Paraifo, duas q fahiaò 



certo da maò inviíivcl, q 
x.:í\\io ódio tem,6c tanto fe 
teme deite facratiíTimo 
nome.Fazia mais admirá- 
vel o cafo , q naó fentindo 
impedimento para dizer, 
VirgôMáy deDeos,f(> pro- 
nunciar, Maria, lhe naó era 
poíllvcl. Vários remédios 
appiicàraóos Confeflbres 
doutos, Sc cípirituaes fem q 
tivef- 



de Maria. 



n 



ti^^eíTem effeito algum có- q as noíTas ílingius Te aju 



tra aquelle garrote infer 
nal; atè que mandarão ao 
foldado,que em honradas 
cinco letras do nome de 
Maria dêífe híia efmola 
aos primeiros cinco po- 
bres que encontraíTe 5 & 
elle o fez aíHm, Em reve- 
rencia do M deo ao pri- 
meiro pobre húadasma- 
ypres moedas de prata, 
que naqúellas terras fela- 
vraõ : outra ao fegundo 
em reverencia do A: em 
reverencia do R outra ao 
terceiro , & outra em re- 
verencia do I ao quarto ; 
porem o impedimento 
como dantes. Deo final- 
mente a quinta moeda ao 
quinto pobre em reveren- 
cia do ultimo A : & no 
mefmo ponto ("coufa ma- 
ravilho ia í^íe lhe foltou a 
prizaõ da lingua5& nome- 
ou húa , & mil vezes o 
nome de tv?aria , fem ha- 
ver dalii por diante poder, 
ou força algua,que lho im- 
pedi ífe. Afllm pode Za- 
charias nomear o nome 
dejoaõjdepois que o ef- 
creveo: porque quer Deos 
:_., .Tom. 8. 



é também das maôs, & a 
Virgem Maria,cuja mag- 
nificência efçreve em nós 
o feu nome com letras de^ 
ouro , naó eftima meãos 
que a noíTa caridade di- 
ftribua as letras deiíe aos 
pobres em moedas de pra- 
ta. 

47 Nem fó obra mara- 
vilhas a Mãy de Deos em 
confirmação do agrado, 
com que aceita a honra, 
que fazemos ao nome de 
Maria em fymefma , mas 
também em qualquer fo- 
geito fora da meíma Se- 
nhorajpor vil, & indigno 
que feja. Hia disfarçado a 
húas fcílas de Juftas hum 
cavalleiro degrande fama, 
infigne valor, & deílreza 
daquelles temerários jo- 
gos ; quando no mefmo 
caminho feaffeiçoou a húa 
donzeila de eííremada fer- 
mofura, filha de pays hon- 
rados 5 mas muito pobres, 
aos quaes elle a comprou 
com ricas joyas para vi- 
ftima innocence de feu 
depravado appetite. Tá- 
bem aqui concorreo o 
D iij medoj 



/ 







í^^ 



Ȓ 



ff Sermão do Santiffimo Nome 

medo, p'^rque era homem com hum aâ;0'de verda- 

poderofo, ôcfoberbo, 8co deira contrição lhe naò 

qnaóobraíTem as dadivas, alcançara a graça final, 

acabaria a violência , & Tudo ifto eílava occulto, 

a força. Sabendo porem & no Convento tardava 

que a donzella já vendida o cavalleiro,& a promeíTa 

íe chamava Maria, em re- do dote ; maS a mefma 



verencia daqutllefobera- 
no nome íc abíleve de 
lhe fazer aggravo : antes 
porque tinha defejo , 5c 
voto de fervira Deos em 
habito religiofo, a levou 
a hum Convento de mon- 
jas, prometendo que de 
volta pagaria o dote. Que 
errados íaó ospenfamcn- 
tos, & qenganofas as efpe- 
rançasdoshomêsí Efpe- 
rava o cavalleiro de voltar 
carregado de fama, & pré- 
mios, como outras vezes i 
mas na primeira Juíla lhe 
atraveííáraóopeitocóhúa 
lança, de que cahio morto. 
Cahio o corpo em terra, 
6z a ai ma também cahiria 
no Inferno , fe a Virgem 
Maria lembrada da reve- 
rencia, com que honrara 
o feu nome,naquelle ulti- 
mo momento , de que 
pende a eternidade , Ôc 
cm taódiííicultofo trance 



Senhora, como fiadora de 
fua palavra , a defempe- 
nhou , 8c revelando em 
reftimunho do que tinha 
fuccedido, que defenter- 
rado o corpo defunto do 
cemeterio comum, lhe a- 
chariaònaboca huma ro- 
ía, cujas raízes fahiaó do 
coraçaój que foymayoro 
triunfo, que alcançou por 
devoto do nome de Ma- 
ria , que a vitoria que cf- 
perava cojip.^guir pelas ar- 
mas. Deíla maneira o ca- 
valleiro , & a donzeha am- 
bos feia Iváraó, onde, am- 
bos fe haviaô de perder : 
ella pelo nome que tinha 
de Maria, ôcelle pela re- 
verencia do melmo no- 
me. 



S- XI. 



de Marta. , ff 

Cruz: Bajulansfihí crucem 
§, XI. exivit. Pois à Magdalena 

chama a eloquência de 
Chryfologo bajula do no- 
me de Maria: Materni no- 
minis bajulai Sim. Porque 
chamandofe Maria , tra- 
zia fobre fy o pezoim- 
menfo do nome da Mãy 
de Deos , & das obriga- 
çoens,& encargos do mef- 
mo nome. Qiiefn fe cha- 
ma Maria , ha de imitar 
as virEudes , & pureza da 
primeira , & única Maria. 
Na mefma Magdalena o 
temos. Ceando a mefma 
Magdalena veyo aos pés 



íoan.ip 

17- . . 



48 C Se tanto fe deve 
l_j reverenciar eíte 
fagrado romc ainda em 
fogeitos alheios 5 que de- 
vem fazer as que o trazem 
em fy mefmas, & fecha- 
maó MariasPSeja efte o ul- 
timo documento. Oh le 
fouberaõ as que fe cha- 
maó Marias, quam grande 
he opezo quetomáraó,& 
trazem fobre fy nasobri- 
gaçoens de taò fanco , & 
foberano nome ! Quando 
Chriílo mandou chamara 
Magdalena para a refur- 
reiçaó de Lazaro, já ouvi- 
mos o que diíTe S. Pedro 
Chryfologo, (& entaó na6 
ponderamosj:^^'?^^"^^ Ma^ 
riay veniat materni norm- 
nis bajula. Que quer dizer 
bajula ? Bajulos fe cha- 
maò aquelles homens, que 
levaó aos hombros gra- 
viíllmos pezos, & anoíTa 
lingua parece que de Ma- 
ria lhe derivou o nome, 
Neíle fencido diíTeraó os 
Evangeliftas de Chrifto 
carregado com o pezo da 



de Chriflo , diz o Evan- 
gelifta S. Lucas, que era 
húa mulher peccadora: Et 
ecce mtdier^quct erat inci- 
vitate peccatrix : & pouco 
depois fazendo menção 
das mulheressque feguiaó, 
& ferviaó a Chrillo , &: 
feus difcipulos peias cida- 
des, &: lugares onde prè- 
gavaó o Evangelho, diz, 
que húa delias era Maria 
Magdalena: Nh^ia% ' f ^/^ 
vocatur Magddene. Pois 
feagoralhe chama omef- 
Maria 9 






mo 



Evangeliíla 






■■■■Hl 

OÊmmm 




>5 

porque 

chamou Maria ? Excel ■ 
lentemente o Venerável 
BedaibiBeda. Maria Magdalene 
ipfa eífycujus tácito nomine 
próxima leõiiypGonitentiam 
nominat : nam pulchre E- 
vangeltfta ubi eatn cum 
^Domino iterf acere comme- 
morat , próprio hanc voca 
bido mamftftat. Eíla Ma- 
ria Magdalena de que fal- 
ia oEvangclifta em hum, 
& outro lugar, naó eraó 
duas, como alguns falía- 
m ente cuidarão, fenaó a 
mefma. Mas o Evangeli- 
íi^a com grande proprie- 
dade, &:advertenciajago- 
ra chamoulhe manifeíia- 
mente Maria , 6c dantes 
caloulhe onome, porque 



Sermão do SantiJJimo Nome 
'dantes lhe nao oEvangeliftaS.Matheus,' 
que veyo ao fepulcro de 
Chriílo Maria Magdale- 
na, & outra Mana: /^<f«/> Mat.aí 
Mari a Magdalene ^& alter a'* 
Maria. Eíla Maria Mag- 
dalena,^ outra Maria,eraó 
duas,ou h úa / Húa,rerpon- 
deoSantoj mas já muito 
outra do q tinha fido:^^-- 
vit mulier, & redijt Maria: 
Veyo mulher, & tornou 
Maria. Eis- aqui como as 
que fe chamaó Marias de- 
vem tornar deíleSermaó. 
Se vieraó mulheres , tor- 
nem Marias, 

4P Finalmente, aílTni 
mulheres, como homens, 
fe atègora naó eraó devo- 
tos do nome de Maria,de 
hoje por diante o levem 



dantes dií]e,que era pcc- efcritonos coraçoens, & 

cadora, &: agora diz, que o tragaó continuamente 

fcguia a Chriíto. Se as que 

fe chamaó Marias fegueni 

a Chrifl-Ojfaó Marias^ mas 

fefaó pcccadoras,&onaó 

feguem , naó faó Marias, 

porque faó indignas de 

caó fanto, & taó loberano 

nome. Omefmo S.Pedro 



na boca , prcfentando a 
Deoseíle breve, &effica- 
ciflimo memorialjfeguros 
de fua interceflaó,& vaha, 
que ncnhúacourapedirâó 
a fua divina mifencordia, 
oc bondade, que lhes íeja 
negada. A mãy de Saò 



Chryfologo em mais brc- Joaó , & San- T lago cha- 
vc,& aguda fe^tença. Diz mavafe Maria Salomé, &c 
quaa-^ 



de 
quando elles pretenderão 
as duas cadeiras do lado 
deChriílo pormeyo del- 
ia, diz oEvangeliíla,que 
fez a petição aChriftoa 
mãy dos filhos de Zebe- 
: deo ; AcceJJit ad Jeftim 
mater fiUonim Zebedai. 
Pois porque a naõ nome- 
ou o Evangeiiíla por feu 
nome , &: ufou defte ro- 
deyo de locução taó extra- 
ordinário? Outros daraó 
melhor razaó. Mas o cer- 
to he que Chrifto nefta 
occafiaò negou aos dous 
irmaós o que pretendiaó: 
éc com grande fundamen- 
to fe pódecrer5que o Ef- 
pirito SantOjque governa- 
va a penna dos Evange- 
liilas, odifpoz aíllm5para 



Marta. f/ 

que na Sagrada Efcritura 
na5 ouveíTe hum Texto, 
era q juncamente fe nome- 
aífe o nome de Maria,& 
fe leffe que Chriílo negara 
o que lhe pediaó. Diz o 
mefmo Chriílo, que tudo 
o que pedirmos em feu 
nome nos concedera feu 
Eterno Padre: & feoPay 
concede tudo o que fe lhe 
pede em nome do Filho, 
como naó concederá o Fi- 
lho tudo o que í"e lhe pede 
emnomedaMây? Peça- 
mos confiadamente de- 
baixo do feguro deíle po« 
derofiílimonome, & naã 
peçamospouco. Peçamos 
muito, ou peçamos tudo, 
quehea graça,penhor da 
gloriai ^/^/^í míhi , d^r^ 




SER. 



/ 




\U 



•58 

^ S.^ ©) S> Í9 íl>' a!> g) ^ # ^^" 2(? f:í Ê» 





DE QjJARTA FEIRA 
DE 

CINZA. 

PARA A CAPELLA REAL, QUE 

fenaó pregou por enfermidade do Autor. 



Tídvis es 3 é^ in fnhcrem reverter is. G encf. 3 . 




5-1. 

he a ícn- 
% tença de morte 



Sl>ít^ê fulniinadacon- 
^^^ traAdam,&: to- 
dos feus def- 
ccnde nes , a qual fe tem 
execuiado em quantos a- 
tègora vivcra65& fehade 
executar em nós ícmap- 
pellaçaô de innocencia, 
ícín rclpcito de cílado, 



fem exceiçaó de peíTba. 

A Igreja íblemnemente 
hoje naó fó nola repete 
aos ouvidos com a voz, 
mas nola efcreve na tefta 
com a cinza: comoíedif- 
fera a feus filhos húa pie- 
dofamáy; Filhos,ouvi,5c 
lede a Icntença de voííb 
pay, Sc ilibei, quefoispó, 
&: vos haveis de conver- 
terem pó; 'Pulvis es , c^ccn 3. 
in fr.íijcnm revertcris.'^ 
Outras 



de Cinza. 59 

Outrasvezes,& por vários eftá fora do rculugar,por 



modos neíle meíaiodia,6c 
fobre eftas mefmas pala- 
vras tenho comparado, &: 
combinado entre ^f o pó 
que fomosjconi o pó que 
havemos de fer : ôcpoílo 



que eíM na vida > o temor 
também eílá fora do feu 
lugai*, porque cila na mor- 
te: o que farey, pois, fera 
deílrocar eíles lugares c5 
tal evidencia , quefique- 
que^me naóarrepenàodo mos entendendo todos, q 
que então diíTe, oqueho- a morce,que tanto teme- 
je determino dizer naóhe mos, deve fer a amada, & 
menos calificada verdade, -a vida,que tanto amamos, 
nem menos importante deve fera temida. Epor- 
defengano. O pó que fo- que? Em hum,8c outro pò 
mosjhe o de que fe com- temos a razaô. Porque o 



põem os VIVOS : opoque 
havemos de ferjhe o em 
que fe refolvem os mor- 
tos. E fendo eftes dous 
extremos taó oppoílos,co- 
mo o fer, 6c naõ íerj naò he 
muito que os effeitos , & 
aífedlos,que produzem em 
nós, fe jaó também muito 
diverfos : por iíTo ama- 
mos a vida , & tememos 
a morte. Mas porque eu 
depois delargiconfidera- 
^aò tenho conhecido que 
èftes dous effeitos nono f- 
fo entendimento, Sr eftes 
dous aíFedos na noíla von- 
tade andaò trocados j o 
meu intento he poios ho- 
je em feu lugar. O amor 



mayor bem do pò que 
fomos, heopò que have- 
mos de fer : &: o mayor 
mal do pò que havemos 
de fer, heopò que fomos. 
Mais claro. O pò que fo- 
mos s he a vida j o pò que 
havemos defer,hea mor- 
te; & o mayor bem da vi- 
da hea morte j o mayor 
mal da morte he a vida. 
Illo he o que hei de pro- 
var. Deos nos aífiíla com 
fua graça para o perfuâr 
dir. 

4|o 



^.ii: 






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ik 



m 



€o 



fi 



§. II. 



Ueoinayorberri 
_ do po que fomos, 
fejaopo que havemos de 
fcr : que o mayor'bem da 
vida que taò enganofa- 
niente amanhos , feja a 
morte queengr.nadamen- 



Sermao de quarta feira 

derando bem a vida dos 
que vivem fc^bre a terra, 
&a morte dos que jazem 
debaixo della> refo-vi (^diz 
Salamaó^ que muito me- 
lhor hca íòrtcdos mortos, 
que a dos vivos Laudavi 
mugis 7nortuoSy quàm iji- 
vences. Notai a energia 
daquelhi palavra,/^?/^v>i;/. 



te tememos-/ó quem mais. Como fc diífera o mais la- 
que todos exprimcntou bio de todos os homens: 



os bens da mefma vida , 
o pôde melhor que todos 
teííimunhar. Quem mais 
que todos quiz , foube , 
&: pode exprimentar os 
bens deíla vida , & com 
efbeito fez de todos elles 
-amais univcrfal , & exa- 
^a experiência , foy Sa- 
lamaó, E que juizo fez 
Saiamaó com toda a fua 
íabedoria, &: depois de co- 
•das as fuás experiências 
entre a morte, & a vida ? 
•Elle mefmo o declarou, & 
<:om palavras taó expref- 
las , que naó haô mifter 
comento , nem admitem 



Se com toda a minha elo- 
quência cuvera de orar 
pelos mortos, 6. pelos vi- 
vos , aos mortos^ havia de 
dar os parabés,& fazer hu 
largo panegírico de fuás 
felicidades: & aos- vivos 
havia de dar os pezames, 
&: fazer hila oração verda- 
deiramente fúnebre , & 
trifte, em que lamentaíTe 
fuás miferiasj&defgra^as. 
Illo diíle Salamao , com 
cuja aucroridade nenhúa 
outra humana pode com- 
petir . fó foy mayor que 
ella a que juntamente he 
humana , & Divina, a da 



Rcci ^'"^^-^^^- L,.^udavt magis .eterna Sabedoria Chriílo; ^^^^ 

;,'^ ^ ''* n ortiios , qnàm vivc ntes : Et ecce pliijquarfi ^alomorp \^.' 

Lançando os olhos por to- ^/VíK porque também nps 

Áo tile mundo, ôcconií- /laò falte eita> ouçamos ao 
'i mcfaiQ 



u 



de Cinza, 61 

^niefmo Chrifto , & veja- xerauLazarusmortuus efty 



mosoquediíTe, Sc o que 
fez em femelh^nte cafo. 

f 2 Morreo Lazaro, 6c 
rerufcicou Lazaro. Ponha- 
mos pois a Lazaro refuf^ 



^gaudeo : dequo gaudet 
mortuOi ipfumy cum refufci- 
tat^tunc lamentatur : qui 
cum amlttit^ non flet, cum 
recipiti tunc deplorati tunc 



citado entre os vivos , & fundit- mortales lacrymas^ 

a Laza ro defu nto en tre os vitafpiritum cum refundit. 

mortos, & notemos no fu- Notável cafo (^diz Chry- 

premo Senhor da vida, & fologo } que o mefmo 

da morte, como lhe lamê- Chrifto fobre o mefmo 



ta a morte, & como lhe 
feíleja a vida. Quando 
Chriílo declarou aosDif- 
cipulos , que Lazaro era 
morto , diíTe : Lazarus 
mortuuseftt Ò'g<iudeo'.\r{Q 
morto Lazaro, & folgo: 
partio dalli a refufcitaloo 
mefmo Senhbr,& chegan- 
do 2iíc^^à\l\xr^yn^Q£ocho- 
toxxy lãcrymatus eft i mas 
moílrou 5 que fe lhe angu- 
ítiava o coração , rurfum 
fremens infemetrpfo. o Re- 
para S. Pedro Chry foiogo 
no encontro verdadeira- 
m-ente admirável deites 
dous affedos, hum de ale- 
gria, & gofto na morte, 
outro, depena, 8c lagrimas 
na rcfucreiçaò do mefmo 
Lazaro, & diz aííim elegã- 
temente, Certe ipje quidi-^ 



Lazaro , quando diz que 
he morto, fe alegre , & 
quando o quer refufcitar, 
o lamente / Notável cafo, 
q quando perde o amigo 
naó chore, &:q chore quá- 
do o ha de ter outra vez 
coníigo.''Nota\7el cafo,que 
quando lhe ha de infundir 
o efpifito de vida , felhe 
afBija, &angufl:ie o cora- 
ção : 6c que o haja dere-' 
ceber vivo com as mefmas 
lagrimasjcom que nós nos 
defpedimos dos - mor? 
tos! For iíTo lhe cbamá 
lagrimas mortaes : Tunc 
fundit mortales lacryr 
masy vitíB fpiritím, cum 
refundit. Pois fe Ghrifto 
fe alegra com a morte de 
Lazaro, porque fe entri* 
ftece com a fua refurrei- 



/ 




t 



62 Sermão de 

çaó,& porque cliora quan- 
do lhe ha de dar a vida ? 
Eu naó nego,que quando 
Chrifto chora por huma 
caufajfe pôde alegrar por 
outras. líTo íigniíicou o 
jmefmo Senhor quando 
diíle: Gaudeo propter 'vos. 
Mas ainda que ti veíTc hua 
caufa, & muitas parafea- 
legrar com a morte de La- 
zaro; que caufa , ou que 
razaó pode ter para cho- 
ftuperr. rar a íuarefurreiçaó,&a 
}J^^/„°j|^" fua vida? Lacrymatuseft 
dor Pc- non quodmortuíts eraty fed 



lufiota. ^^^^ revoe are illum oporte- 



Cone. 




VvUllt. J. — - -^ - . _ 

Toier. bat ad toler andas rur Jus hw 
nimcaV^^-í' '^'^tàS miferiasyáiz Ru- 
qui dí perto 5 & o mefmo tinha 
""'""■ '^ dito antes delle S. Ifidoro 
Pelufiota. Mas eu tenho 
melhor Autor que am bos, 
que he o Concilio Tole- 
dano terceiro, o qual dà a 
meíma razaó por eílas pa- 
lavras: Chriftus non pior a- 
*vtt Lazarum mortuum-^fed 
ad htijus vít£ arumnas 
plêravit refufcitandu. Cho- 
vei Chrifto a Lazaro quan- 
do o ha de refufcitar, naó 
o chorando mortO;porque 
cftando já livre dos traba- 



quarta feira 

lhos,dasmiferias , & dos 
perigos da vida por meyo 
da morte,agora por meyo 
da refurreiçaó o tornava 
outra vez a meter nos mef- 
mos trabalhos,nas mefmas 
miferias , & nos mefmos 
perigos. A todos eíleve 
bem a refurrciçaõ de La- 
zaro, & fó ao mefmo La- 
zaro eftevc mal. Efteve 
bem a Deos Çk aílim he li- 
cito fallar} porque foy pa- 
ra fua gloria: efteve bem 
aos difcipulos, porque os 
confirmou na fé : efteve 
bem aos dejerufalem, por- 
que muitos fe converte- 
rão: efteve bem às irmãs, 
porque recobrarão o em- 
paro , & arrimo de fua 
cafarefteve bem ao mefmo 
Chrifto,porq entaómani- 
feftou mais claramente os 
poderes da fua divindade : 
& fó a Lazaro efteve mal, 
porque a refurreiçaó o ti- 
rou do defcanço para o 
trabalho, doefquecimen- 
to para a memoria , da 
quietação para os cuida- 
dos, da paz para a guerra, 
do porto para a tempefta- 
de, do fagradodaenveja 
para 



de Cinza. ^3 

para a campanha do ódio, que as lagrimas dos naci- 
da claufura do filencio pa- mentos, os mefmos naci 



ra a foltura das linguas, 
do eftado da inviíibilida- 
de para o de ver, & fer vi- 
fto , de entre os oíTos dos 
pays,& avôs,para entre os 
détes dos emulos,& inimi- 
gos: cm fim da liberdade 
em que o tinha pofto a 
morte, para o cativeiro,& 
cativeiros da vida. 



53 



dos , fem mais enfino que 
o danatureza,asapprova- 
vaó,& ajudavaó có as fuás: 
& as feftascomque fece- 
lebravaó as mortes, tam- 
bém os mortos pela expe- 
riência do feu defcanço , 
fe podeflem fallar,as lou- 
variaó. Por iíTo Samuel 
obrigado a fallar com Saul 
depois de morto , & fe- 
pultado,o que lhe diíTe, 
foy: Giuareinquietafti me^ ,Reg. 
Porque me inquietafte ? 23.Ȓ. 
Muitos Filofofos, & par- 
ticularmente os Eftoicos, 
cuja feita pela preferen- 
cia da virtude fe avizinha^ 
va mais ao lume darazaõ, 
naó fó davaó licença aos 
feus profeíTores para q an- 
tepuzeífem a morte à vida. 



§. in. 

PErfuadidos os ho- 
mens à verdade 
defte defengano, naó he 
muito que a morte lhe co^ 
meçaífe a parecer menos 
,fea'que a vida, antes que 
a vida lhe pareceíTe fea, 
& a morte fermofa. Os 
PaíTianos , 6c outras na- . 

çoês , que barbaramente mas aos que em eafoS/de 
fe chamaÓ barbaras, cho- honra tomavaó por fuás 
ravaò , & prante^vaó os maós a mefma morte Ç a q 
nacimentos dos filhos, ôc chamavaó Porta daliber^ 
celebravaõ com feitas as dade)osintroduziaÓ por 
fuás mortes j porque eu- ella à im mortalidade da 
tendiaó,que nacendo en- gloria. Áffim o fez aquelle 
travaó aos trabalhos , & homem mayor que todos 
morrendo paífavaó ao os Romanos, Cataó,cu- 
defcanço. E certamente jo juízo ,& authorida de 
^ na 



K 



^\*' 



•t'll 



<^f Sermão ãe quarta feira 

na opinião da meímaRo- delíe Lucanòriá-demanda 
ma íe punha em balanc^a imperial de Ceíar com 
com a dos Deofes , como Pompeo: 
foberbiílimam ente cantou 

"■ __. . ^ ^^gno fe Índice quifque tuetur. 

-^- Víãnxcaufa T>ijs placuit ,parí viãa Catoni: 



' =54 Efe alguém me re- 
plicar, que eíles homens 
eraó gentios , eu lhe per- 
guntarei primeiramente 
íè era gentio Samfam, ou 
Saul , ou Achitofelr&que 
fizeraó em íèmelhantes 
cafos.^ Samfam naó duvi- 
dou matarfe afy mefmo, 
por fe vingar , como elle 
diflejdos Filiíleos,pela in- 
juria que lhe tinhaó feito 
em lhe arrancar os olhos. 
Saul por naó vir a maós 
de feus inimigos, vencido 
em húa batalha, mandou 
ao feu pagem da lança que 
o matalfe, & porque naó 
foy obedecido,elle pondo 
a póta da efpada no peito , 
com todo opefo do corpo 
fe atravcíTou nella. Achi- 
tofel,que era oCataódos 
Hebreos, & cujos confe- 
Ihos por tcftimunho da 
Efcritura Sagrada craó co- 



mo os oráculos do mefmo 
Deos , porque Abfaiaõ , 
cujas partes feguirajòs naó 
quiz tomar , tomou elle 
por confelho anticipar 
por fuás próprias maós a 
morte , prevendo como 
fabio,que naó podia dei- 
xar de fer vencedor Da- 
vid , aquém a tinha bem 
merecido. Mas porque 
ainda aqui fe pôde dízevy 
que as mortes de Achi- 
tofel,&SauI foraó conde- 
nadas , & as razoens,que 
defendem haver fido lici- 
ta a de Samfam, podem 
parecer duvidofas; ouça- 
mos o que nos cafos de an- 
tepor a morte à vídà de- 
fcjáraó , & pedirão a Deos 
os mais abalizados San- 
tos, & canonizados' por 
elle. 

ff MoyfésiGovernador 

fupremo do Povo de 

Deos , 



Deos, & o que maishe, tofa, & infamcque feda 



com huma vara milagro- 
sa, & omnipotente na 
maó , pedio ao mefmo 
Deos, que o livraíTe da- 
quelie pezo, &fenaóque 
.o mataíTe antes, & lhe da- 
ria murtas graças por ta- 
manha mercê : Sm aliter 
i^,er. tibi 'Vídetur , obfecro ut 
'í- inter ficias me^ò tnvenUm 
gratiam in oculis tuis. £- 
lias fugindo àperfeguiçaó 
da Rainha Jezabel , lan- 



aos facinorofos nigis vis, 
tinha por melhor que a ^"^ 
vida : ^amobrem fuf-'''^ 
pendmm ele^it anima 
nifu-iò' mortem offa mea. 
Por iflb quando diíTe , 
Tarcòmihi y naò foy pe- 
dir a Deos perdaô àos 
peccados , fenaò que o 
rfeixaíTc morrer : Requa- 
quam ultra jam 'uivarn , 
farce mthi. Eftes eraó os 
ays, quefaindo dovalen- 



t 



çado ao pè de húa arvo- tiílimo peito de David,o 
chamou pela morte; obrigavaõ a bradar, naó 



re 

^«g- Teti^vit anima Jua ut mo 
' '^' reretur-y 8c diíTe a Deos: Ba- 
ila jà o vivido. Senhor > 
tirayme ávida, pois naó 
fou melhor que Abraham, 
Jfaac, êc Jacob, os quaes 
defcançaô na íèpuitura : 
dem. Sufficit miht l^omine^ tol- 
le animam meam , neque 
enim melior [um , quàm 
patres mei. Job , o ma- 
yor exemplo da paciên- 
cia, & conftancia, de tal 
modo fe refolveo a querer 
antes morrer que viver 9 
que confiderando todos 
os géneros de mortes pof- 
Siveis,ainda aquella afron- 
Tom.8. 



porque fe lhe eílreitaíTea 
vida, mas porque fe lhe 
eftendiaó , &: alongavaó 
os termos delia: Heu mihi, pn^im. 
quia incolatus meus pra-^^^ ^* 
longatm eft. E para que 
em hum coro taó fub li- 
me nos naó falte huma 
voz do terceiro Ceo, ou- 
çamos a S. Paulo. Infelix 
ego homo^ quis me liberabit Roman, 
ue corpore mortis hujus ? 7-^+- 
Miferavel de mim , ho- 
mem infelice, quem me 
livrarájádeftecorpo mor- 
tal ? íim fumma, que os 
mayores homés do mun- 
do em todos os eftados 
E do 




ilMff 






^^ Sermão de 

do gcncro humano , ou 
com fê, ou fem fê : ou na 
Icy da Natureza , ou na 
Efcrita, ou na da Graça, 
fcmpre defejáraó mais a 
morte,doque eftimáraó a 
vida; & íempre em luas 
affiiçoens , & trabalhos 
appelláraó do pó que fo- 
mos fobre a terra,para o 
pô que havemos de fcr 
aa fepultura. 



í. IV. 



f^ 



D 



E tudo o dito 

, atéqui fe fegue, 

que melhor he a morte, 
que a vida, & que o mâ- 
yor bem da viça he a 
morte. Mas contra cfia fe- 
gunda parte, que he a pri- 
meira do meu aíTumpto, 
inventou o amor da vida 
húa diftinçaó fundada no 
que ella mais aborrece , 
que faó as miferias , & no 
que mais efl:ima,que faó 
as felicidades. Fazendo 
pois húa grande ditfercn- 
ça entre os mifera veis, 6c 
os felices,dizem os defen- 
fores da vida,q para os mi- 
íeraveis hc mayor bem a 



quartel feira 
morte , mas para os fefi- 
ces, naó. E verdadeira- 
mente eíle di<5bame pare- 
ce eníinado da própria 
natureza. Porque coníi- 
deradas a vida, & a mor- 
te, cada húa por fy fó, & 
em fy mefma, a vida na- 
turalmente he mais amá- 
vel que a morte; acompa- 
nhada porem dos traba- 
lhos, das miíerias , & das 
affiiçoens , que ella traz 
comfigo, naó ha duvida, 
que muito melhor,& mais 
para appetecer he a morte, 
que a vida. Em rodos os- 



exemplos, que acabamos \ 
Feri r , fe v é cl a ra m cn- ' 



de referir, 

te cfta verdade , mas era 
nenhum com mais parti- k 
cular energia , Preparo, ] 
que no de Elias. Quando 
Elias defejou a morte, & 
a pedioa Dcos, foy quan- 
do hia fugindo dejezabel. 
H porque fugia Elias de 
Jczabcl ^ Por temor da 
morte. Pois fe fugia por 
temor da morte , porque 
defeja, & pede a morte no 
mefmo tempo '^ Porque 
entaó acabou de conhecer 
quáto melhor he a morte, 
que 



àe Cin&i. - 6f 

«jíic a vida. Antes de- era a mcrma vida,duVidò-< 

fta experiência, pela a- fa, & incerta , pela qual cá- 

prehenfaó natural de to- to padecia-, então acabou 

dos osq'jevivemos,parc- de conhecer, quanto me- 

cialhe a EIias,que melhor Ihorlheera o morrer, que 

eraavida,queamortc:mas o viver, &poriírodefpe- 

depois que começou a fu- dindofe da vida , pedia a 

bir montes, & decerval- morte: Tolle animâmeam. / 
les , de dia eícondido nas f/ Eíles faó aquelles 

grutas , de noite caminha- dous afFe£los , ou aquellas 

do pelos horrores ,das duas queixas tao encon- 



fombras, & dos defertos, 
figurandofelhe a cada pe- 
nedo hum homem arma- 
do, 8c a cada rugir do ven- 
to húa fera,rem outro co- 
mer,nem beber mais que 
as raizes das ervas, ocos 
orvalhos do Geo , cego 
fem guia, & folitariofem 
companhia (^. porque atè 



tradas, 6c taó concordes , 
húa de Sirac contra a mor* 
te,& outra dejob contra a 
vida. Sirac diz:0 morsyqua 
amara eft memoria tua ho- Ecci4^ 
mini pacem habenti ! O '' 
morte, quam amarga he a 
tua memoriapara o home 
q vive em paz, &dercan- 
ço! Naó diz que para to- 



hú criadinho que levava . dos, fenaó para o que vive 
comligo , o defpedio , por em paz, & deícançoj porq 



íènaó fiar delie^ tudo mi 
íèria, tudo temor, tudo 
defconfiança, tudodefem- 
paro, fem luz,ou efperan- 
ça de remédio, ou donde 
pudeíTe vir ; no meyo de- 
lias anii:uíb*as5€onrideran- 
do o miferavel Profeta 
(^noutras occaíioens taó 
animofo^quam trabaiho- 
fa. & cara de íuílenrar lhe 



para oqueviveempaz,êc 
defcançOjhe amarga-, para 
o que vive em trabalho, & 
mireria,he doce. E Job di- 
zia : §luaTe mi/ero data eft 
lux^èr vita his.,qui iyi ama- loh -, 
ritudine funt: cimexpeãant -^"-'' 
mortem,ò" nori vemt , gau- 
dentq ; vehementer^ citm m- 
v.emrint fepul{brum't Para 
que íe ^á a luz ao m i fera- 
is .j 'vel. 



/ 




éS • Sermão de 

vel , & a vida aos triftes, 
que efperaó pela morte, a 
qual lhes tarda, & naó tem 
mayoralegria,que quando 
achaóafepultura ? Tam- 
bém naó diz, que a morte 
tarda a todos, nem que to- 
dos fe alegrão có a íepultu- 
ra, fenaô íó os mifera veis, 
& triftesj porque aíTim co- 
mo amorte,&arepultura 
para os contentes da vida 
heofeu mayortemor, af- 
fim para os defcontentes 
delia , & miferaveis he o 
mayor defejo. PoriíToa- 
quelle Filorofo,que refere 
Laércio, chamado Secun- 
do, perguntado pelo Em- 
perador Adriano,o que era 
a morte > rcfpondeo, que 
Sen. in çj.^ Q medo dos ricos, &:o 
Fuícn* defejo dos pobres: Ta^or 
divitum^ defiderium paupe- 
r«w^. Melhor ainda,& mais 
nervofaméte o diíTe Séne- 
ca o Trágico por boca de 
Licho. EraLichohumfa- 
mofiílimo Tyrano,o qual 
na aufcncia de Hercules 
matou aCreonte Rey le- 
gitimo de Thebas , & fe 
lhe apoderou do Rcyno. 
Eítepois, como taó gran- 



quarta feira ^. 

demeftreda tyrania, di- 
zia, que quem matava a 
todos,naó fabia fer tyrano: 
^i morte cunEíos luere 
fhpplíchímjubet^ nefcittj^ 
rammseffe. Pois que havia 
de fazer hum tyrano,para 
fer verdadeiramente ty- 
rano, & cruel ? Diz que 
havia dç dar a morte a 
huns, & a vida a outros, 
conforme a fortuna de ca- 
da hum: aos felices a mor- 
te, aos miferaveis a vida : 
Aliferum vita perire , feli^ 
cem jube : Aofeliceman- 
day que morra, aomife- 
ravel que viva 5 -porque 
tanta pena he conde-, 
nar ofcJice à morte, co- 
mo o iiiileravei à vi-) 
da. 

58 E para que huma; 
doutrina taó conforme 
àcommum eílimaçaó hu- 
mana naó fique profa- 
nada no nome , 6c no 
autor i troquemos o no- 
me de tyrania no de ju- 
íliça , ôc paíTcmoia do 
Rey mais tyrano ao Juiz 
ma IS redlo. Cafo lie, aílini 
como o mayor do mun- 
do , o mais admirável > 



_. ... .. ,. .. ''-'''^r^de Cinza. 6g^' 

qàeiíjbôndò*- Deò^ lèy a No Paraifo ameaçou- gs 



Adam, que ''comendo da 
atvore vedada morreria, 
comeíTe Eva , Sc corneíTe 
o mefmo Adam , & naó 
morreíTem. A obfervan- 
cia das primeiras leysi & 
a execução dos primeiros 
caftigos faó os que fazem 
exemplo : faltando cíle , 
perdefe o refpeito às leys, 



com a morte, nodefterro 
caftigou-os com^ajvida. 
No Paraiíb, que era a pá- 
tria de todas as fdkida-- 
des^ fó podiaõ fer ameaça- 
dos com a morte^ porque 
a morte heomayoFterror 
dos felices: & no defberro, 
que era o lugar de todas 
as miferias, fó podiaófer 



& o temor aos caftigos. caftigadoscomavidajpor' 
Eíla foy a razão da feve- que a vida he todo o tor- 



ridadccom que Sáó Pe- 
dro aos primeiros delin- 
quentes da Primitiva I- 
greja AnaniaSj&SaíirajOS 
fez cair de repente mor- 
tos a feus pès. Pois por- 
que naó cahiraó também 
mortos Adam, & Eva ao 
pé da mefma arvore on- 
de comerão , tanto que 
quebrarão a ley? PoriíTb 
mefmo : porque os quiz 
Deoscaftigar. ParaDeos 
caftigar a Adam, Sc Eva, 
foy neceíTario , que lhe 
cõmutaíTe a morte em vi- 
da, & o Paraifo em deíler- 
ro ; porque fó deíla ma- 
neira fe podia ajuílar a 
ameaça da ley com o ca- 
ftigo da culpa. Aílim foy. 



mento dos miferaveis. 
Cuidaó alguns, que naó 
matar Deos a Adaój&Eva 
fóy mifericordia , & naó 
foy fenao juíliçaj porque 
perdidas as felicidades do 
Paraifo,aíIim como o mor- 
rer feria remédio , aílim o 
naó morrer foy o caíligo : 
logo por todas eftas ra- 
zoens , Sc exemplos, naó 
fô humanos, fenaó ainda 
Divinos , parece que he 
verdadeira a diílin çaó dos 
que dizem,quehe melhor 
a mortCjque a vida , em 
refpeito íòmencedos mi- 
feraveis, nriasnaó dos fe- 
lices. 



M. 



i 



Eiij 



§.y- 



/ 



MiriHBH 



7^ 



Sermão de 



i 



I 



iip 



\ 



§. V. 



5P C ^ que direy ? Di- 
ClgOj que folgara , 
& eftimára muito,que eíla 
diílinçaó , ou limitação 
fora verdadeira^ porque a 
melhor , & mayor parte 
do auditório a que prego, 
he dos felices defta vida, 
& dos que o mundo en- 
veja, & venera por taes. 
Mas quando Salamaóclia- 
mou mais dito fos aos mor- 
tos,que aos vivos, naô fez 
diftinçaò de vivos mife- 
raveis a vivos felices, fe- 
naó que de todos os que 
vivem fallou igualmente: 
Laudavi magis mortuosy 
quàm viventes. E para eu 
refutar os defenfores da 
vida dos felices, naó que- 
ro outro argumento fenaó 
o íèu. Concedem que a 
morte he mayor bem que 
a vida dos miferavcis: lo- 
go também he mayor bem 
que a vida dos que elles 
chamaó felices. E fenaó 
os mefmos felices o digaó. 
Pergunto. Ha, ou ouve, 
oupódc haver neítemun- 



quartafeira 
do vida algúa taô mimai 
fa da fortuna , & taò fe- 
lice, que careça totalmen- 
te de miferias? Ninguém 
fe atreverá a dizer , nem 
imaginar tal couíà: logo fc 
naõ ha, nem pode haver 
vida,que careça de mife- 
riaSjO que fe tem dito da 
vida dos miferaveisjfe de- 
ve entender de todas, & 
de todos. Os que vulgar- 
mente fe reputaó, & cha- 
maó felices, tanto fe en- 
ganaô com a fua felicida- 
de, como com a fua vida: 
por iífoamaó a vida , & 
temem a morte. Maseíle 
engano lhe defcobri remos 
agora, para que conheçaó> 
que em todo o eílado, & 
em toda a rortuna,a morte 
he o mayor bem da vida, 
&opoqhavemos derer,a 
mayor bem dopo que fo- 
mos. 

6o Todos os bens de 
que he capaz o homem 
em quanto vive neíle mu- 
do, ou faó bens da natu- 
reza , ou bens da foi tu- 
na, ou bens da graça, mas 
nenhum delles he taó fo- 
lido, inteiro, & purobem> 
que 



leroJ, 
ib, 2. 



de Cinza. ^ yt 

queo goze fem tributode mandou queimar os livros 



miíerias a vida , nem a 
poíTa livrardefte tributo, 
fenaó a morte. Entre os 
bens da natureza, o mais 
excellente, o mais útil , 
& o mais neceíTario , 
heaquelie , fem o qual 
nenhum outro bem fe pô- 
de gozar, a faude. E fó 
quem comprehender o 
numero fem numero de 
enfermidades , & dores a 
que eftá fogeita, & expo 



de Salamaó, porque o Po- 
vo recorrendo às virtudes 
das ervas em fuás enfer- 
midades,deixava de aco- 
dir a Deos,que he a verda- 
deira raiz da faude. Aífim 
o refere Eufebio Cefa- 
rienfe. Mas em qnantoEu|c^ 
duráraó os mefmos livros, 
nem aos enfermos parti- 
culares , nem ao mefmo 
Salamaó aproveitou a- 
quella granae ciência me- 



lia a faude, ou geradas de- dica : atè quando.? Atè que 
tro do mefmo homem,ou as próprias doenças osfo- 



nacidas , &" occaíionadas 
de fôra> poderá conhecer 
exadlamente, quam carre- 
gado de duriâimas pen- 
foens , êr quam cheyo de 
miferias, ou deo, ou em- 
preitou a mefma nature- 
za ainda aos mais faós , Sc 
robuftos eíle calamitofo 
bem. Pois que remédio? 
Os Egypcios , entre os 
quaes naceo a medicina, 
para cada enfermidade , 
como refere Heródoto , 
tinhaó hú medico parti- 
cular , mas nem poriífo 
íàravaó todos, nem de to- 
das. El-Rey Ezechias 



geitáraó ao medico uni- 
verfaJ, que fem aforifmos, 
nem receitas cura em 
hum momento a todas , 
que he a morte. O morsy 
'veni m ff ris certusmedicús J^^J^c^Í: 
malis ! Oh morte , vinde , Coh^M 
que fô vos íois o verdá- ^^''^' 
deiro , ^ certo medico 
noífos 



para 



todos 



os 



"males! He exclamação 
proverbial dos Gregos 
referida por Plutarco, 
MbrreíieSi acabáraófe as 
enfermidades, acabáraófe 
as dores,acabáraófe todas 
as moleííias, & affliçoens 
que martyrizaó humcor- 
E iiij po 



rif^^ 



.w .31 



•;^j- 



7* Sermão ^e quarta feira 

po humano j & atè o te- quanto vay do efperar ao 

mor da mefma morte fe temer , & das izençoens 

acabou, porque os mor- da immortalidade ás fo- 

tos já naó podem mor- geiçoens de mortal, tanto 

^^^- ^, , , , melhor he o eílado dos 

61 Vede a gra ndedif- mortos,que o dos vivos 

terença dos mortos aos Os que efcapáraó vivos 



Vivos. Os vivos fobre a 
terra temem a morte, os 
mortos debaixo da terra 
efperaó a refurreiçaó : 6c 



1 ^-'-"^cn*»»»; YIVKJ^ 

do incêndio deTroya cha- 
mavaó bemaventurados 
aos que morrerão pelejan- 
do por ella: 

. O terciue quaterque Beati\ 

Síueis ante ora Tatrum^magna fub- mambas urhis , 
Coutigit oppeteie \ .^^^^ .^, 



fem conhecera bemaven- 
turança, nem entender o 
que diziaó, levantarão hú 
admirável penfamer^to ; 
porque a felicidade de q 
gozaò os mortos por be- 
nefício da morte,fenaóhe 
como toda a bemaventu- 
rança do Ceo , he como 
ametade delia. A bema- 
.venturançadoCeo, cm 
quanto po/itiva , & nega- 
tiva, com põem fc daqucl- 
las duas partes, em que a 
i^ Aug.^^^^^^° Santo Agoílinho, 
quando diíTe; Uierit quid^ 
qtiid vales ^(^ 7ion erit quid- 
c[nid nolies, A primeira 



parte coníiílena poíTe, Sc 
fruicaóde todos os bens, t 
& a fegunda na privação, 1 
& izençáo de todos os 
males Ouçamos agora a 
S.jfoaò nofeu Apocalyp- 
fe defere vendo a meíma 
bcmaventurança. Et ab- 
fierget T>lUs omiiemlacry' 
mam ab oculis eorum : o' 
mor s ultra non ent, nequeir'^^^ 
clamor , neque dolor erit ííU 
tra^ quia prima abierunt. 
Aos que forem ao Ceo en- 
xugarlheha Deos todas as 
lagrimas: & já naó haverá 
mortc,nem cJamores,nem 
gemidos, nem doresjpor- 
nuc 



de Cinza. . 7^ 

que eflas miferias, & pe- na mefma ferida , a fez 



nalidades todas perteii- 
ciaô ao eílado da primeira 
vida, que já paíFou. Eha- 
^ vera quem poíía negar , 
que todas eftas queixasj& 



muit;o mayor , & fe aca- 
bou de matar. Deforte 
que começou a fe matar 
raó,& acabou de fe matar 
curado. Saó,parafe livrar 



cauías delias faó as de que da vida, curado,para fe li- 
vrar da vida, Sc mais dos 
remédios. Por iíTo diíle 
S. Agofi:inho,quc quantas 
faó as medicinas , tantos 
faó os tormentos, Etaes 
faó as dobradas miferias,a 
que eftá fogeita a mayor 
felicidade da natureza , 
que heafaude , bailando 
para a tirar padecidas , & 
naó bailando para a con* 
fervar remediadas. 



eílaó izentos os mortos 
na fepultura? Jáparaelles 
não ha lagrimas,nem ge- 
midos , nem dores , nem 
enfermidades, nem a mef- 
ma morte. As dores, & 
as enfermidades defta vi- 
da temdous remedios,ou 
aliviosj hum natural, que 
faó as lagrimas , & os ge- 
midos, & outro violento, 
& artificial , que faó os 
medicamentos. E a morte 
naó fò nos livra das mi- 
ferias da vida, fenaó cam- 

f^re bem dos remédios delias. 

ferturs jàdiífemos que Cataó fe 
"^'" matou a fy mefmo, mas 
naó fe matou dehúavez, 
fenaó de duasjcom modo, 
& circunfbancias notá- 
veis. Ellando fam , 6c va- 
lente, meteo hum punhal 
pelos peitos: acudirão lo- 
go , & curáraólhe aferi- 
da 3 mas eiíe depois de 
curado , metendo as maós 



^. VI. 

6i p AíTemos aos bens 
i da fortuna. E fu- 
bindo ao mais alto ponto 
aonde ella pôde chegar , 
preguemos hum cravo na 
fua roda , para que con- 
cedendo às fuás felicida- 
des a conílancia,quenão 
tem, vejamos fe fe podem 
jadar , ou prefumir de 
que carecem de miferias. 
Os Cetros, & as Coroas j 



11 




■M 



71 l-' 



Idem 

^"eneca 

Epift. 



74 SirmaÕ de 

faó íis quapofrasnocume 
da mageíhidc,lcvaó,apoz 
fy com o império os aplau- 
fos,& adoraçocns do mun- 
do, &: ao melhio mundo:o 
qual cego comosreíiexos 
daquelle cfpleiídor, osac- 
clama fel ices , ôcfelicif- 
Hmos , naó penetrando o 
interior, &: foi ido da feli- 
cidade, mas olhando fô, 
& parando no fobredou- 
rado das apparencias. Om- 
nhimiHormn o^uosinceãere 
altos vides ^ br aEíe ata feli- 
citas (?/?, diírerabia,& ele- 
gantemente Séneca. Allim 
comoos tectos fobredou- 
rados dos Templos , & 
dos Palácios , oquemo- 
ílraò por fora he ouro, & 
o que efcondem , & enco- 
brem por dcntrojíaó ma- 
deiros comidos do carun- 
cho, pregos ferrugentos, 
teasde aranha , & outras 
favandijasj aílim debaixo 
da pompa 3 & aparatos có 
que coílumamos admirar 
os que vemos levantados 
ao zenith da fortuna , fc 
viramos juntamente os 
cu'dados , os temores, os 
defgoílos, 6v tnilczasquc 



qttartã feira 
os comem , 6c roem por 
dentrOjantes haviamcs de 
ter compayxaó das fuás 
verdadeiras mifçrias, que 
enveja à falfa rcprefcnra- 
çaõ , & engano do que 
nelles fe chama felicidade. 
Quem duvidou já mais 
de reputar a Carlos Quin- 
to por feliciíllmo com tan- 
tas vidforias, tanta fama, 
tantos au^mentosda ^■o- 
narquia? & com tudo no 
dia em que reruinciou o 
governo , confeíTou, que 
em todo o tempo delle 
nem hum fô quarto de ho- 
ra tivera livre de a íliiçoés, 
&• moleílias. O diadema 
antigo,inrignia dosReys, 
&EmperadoreSjera huma 
faxa atada na cabeça. E 
dizia Seleuco Rey da A- 
íia, que fe os homens íòu- 
bcfieni quam pezada era 
aquella tira de pano , & 
quam chea de efpinhas 
por dentro-, nenhum ha- 
veria que a levantaíFe do 
chaó para a 'por na cabe- 
ça. El- Rey Antigono ven- 
do que fcu filho pelo fcr 
fe eníbberbecia, com que 
lhe abateria os fumosP y/n 
igfioraSi 



de Cm 

ignorasse fili , regnumno- 
Jtrum non effe aítud nifi 
fpkndidam ferv untem > 
Naófabesjíilho, (lhe dif- 
fe) qae o noíTo ReynOjSc 
o reynar , naó he outra 
couía que hum cativeiro 
honrado? OsReysfaòfe- 
nhores de todos, mas tam- 
bém cativos de todos. A 
todos mãdaó como R.eys, 
& de todos faó julgados 
comoreos. Comoo Rey 
he a Alma do Reyno,tem 
obrigação de viver em to- 
dos feus vaíTallos, & pa- 
decer nelles, & com elles 
quanto elles padecem. Se 
naó padece aílim,naó he 
Reyj (Scfepadece,quema- 
yor martyrio .^ Hafe de 
matar,& morrer, para que 
elles vivaó: hafe de can- 
çar,para que elles defcan- 
cem; & ha de velarspara 
queelles durmaó , fendo 
mais quieto, & focegado 
o fono do cavador fobre 
húa cortiça, que o do Rey 
debaixo de Ceos de bro- 
cado. Allidefvelado mar- 
cha pelas cam panhas c6 os 
feus exercitosjalli navega 
os mares cò as fuás arma- 



das,& a qualquer bandeira 
quetremólacom o vento, 
lhe palpita o coração na 
contingência dos fuccef- 
fos. Tacs faó as miferaveis 
felicidades , ou as adora- 
das raiferias dos que po- 
ílos na regiaó dos rayos, 
dos trovoens, & das tem^ 
peílades,a dignidade com 
razaój&ra lifonja fem ella> 
chama Sereniílimos. 

63 Que feria fe eu aqui 
ajuntaíTe agora os cataftro- 
fes,5cíins trágicos dos Xer- 
xeSjdosCreífos.dos Darios, 
&iníinitos outros? Mas o 
meu intento íô he defco- 
brir as miferias dos fe- 
lices. A eíle propofrco ha 
muito que tenho notada 
hua coufapara mim admi- 
rável; & he,que fendo Va- 
lério Máximo taó uni- 
verfal nas hiíiorias, & no- 
ticias do mundo , & tra- 
zendo tantos exemplos 
aílim domeílicosjcomo e- 
ftrangeiros em todas as 
matérias, quando veyo a 
tratar da felicidade fôa- 
chou entre os Romanos a 
Metellohomê particular» 
& entre os Reys de todas 
as 



(4. - — 



7^ ^(rm ao éíe quarta feira 

as nnçccns a Gyges Rey para fuftcntaravida Pois 

deLidia. Eílabeameíma efre Aglaoafllm pobre era 



M' 



íalvLi.jCom que elie come 
çn, dizendo: Vo luhilis for- 
tuna complura exempla re- 
tulhnns^ cor.Hajiter fropi- 
tia admodíim pãiicanarra- 
ri poffunt. Inchado pois 



mais felice que Gyges c6 
todas as fuás for-unas? 
Sim. Porque eíTas mefmas 
fortunas, ainda que gran- 
des, 6c continuas, naó o li- 
vra vaó do temor da fua ín- 



VaTcr, 

Maxim 

hKj.c. 



Gyges com a fingular^ôc conílancia, o qual fò ba 
continua profperidadede ílava ao fazer infelice.De- 






fua fortuna, quiz-fe cano 
nizar pelo mais feliceho 
mem do mundo; &aefle 
fim confultou peíToalmen- 
te o Oráculo de ApoIIo, 
para que a rcpofl-a, de que 
naó duvidava, foíTe húa 



baixo deíle temor fecom- 
prehédiaóos cuidados,as 
fofpeitas»as duvidas, as 
imaginaçoens,osindicios 
falfos, ou verdadeiros da 
ruina,quefelhe machinaf- 
fe , ou podia maquinar : 5c 



prova autentica,^ divina todos os infortúnios poíli 
da fua felicidade : enga- veis,no mar, &na terra,na 



noufe porèni, ôu acabou 
de fe enganar o já enga- 
nado RcVjpcrque refpon- 
dco o Oráculo, que Aglao 
Sofdio era mais ('elice 
que elle. E quem era A- 
glao SofidioPEra humla- 
vradorílnho veiho,omais 
pobre de toda Arcadia,ao 
qual hum pequeno enxí- 
do,que tinha junto à fua 
ci.oupana, cultivado por 
fuás próprias maós, fem 
envcja fua, ou aihea,lhe 
dava o que era baihnte 



gueira,&na paz na enveja 
dos emulos , no ódio, & 
potencia dos inimigos,no 
defcontenta mento, 6cre- 
beiliaó dos Vaílallos : em 
fim as violências fe cretas, 
os roubos, os fobornos,as 
traiçoens,os venenos,com 
que nem ofuílentonecef- 
lario à vida , nem a mef- 
ma refpiraçaó he fcgura. 
Para que fe veja feerafe- 
lice,quê todo eíte tu multo 
de inquietaçoens, que fò 
conhecia o Oráculo, tra- 
zia 



de Cinza- 77 

Xia' dentro no peito. E crificarlhe os feus pro 



prios facerdotes , man- 
dando degolar a todos: & 
logo tratou de retormar, 
& reOaurar o culto do ver- 
dadeiro Deos , repondo i 
em feu lugar a Arca do\ 
Teílamento, relHcuindo a 
feusofficiososSacerdotes, 
ôc Levitasj & tornando a 
introduzir a obfervancia 
da celebridade das feitas, 
&: facriíicios , com todos 
os ritos , & çeremonias 
órSeja prova em cafo, da Ley. Mas como pagou 
& peííba naó de outra^fe- Deos a Jofias efte zelo , 
naôdamermaíuppofiçaó, efta piedade, & eíla vale- 
& dif^nidade^o modo com rofa refoluçao? Aqui en- 
que beoslivrou a EI-Rey tra o admirável do cafo, 
Tofias Quando Jofias co^ Duas coiiias mandouDeos 
meçou areynar , todo o aanunciar, &notihcarao 
ReynoCqueeraodeJeru- Rey: A primeira, queje- 
falem , & juda } naò íó rufaiem íeria deítruida,&: 



como os bens da fortuna, 
ainda os mayores, quaes 
faó os dos Rey s, & ainda 
nos lingular,& unicamen- 
te felices,eítaó ibgeitos a 
tantas miferias,ou padeci- 
das em fy mefmas, ou no 
temor,&receyo, que naó 
he tormento menorj ne- 
nhum outro remédio tem 
para efcapar , & fe livrar 
delias a vida,fenaò o da 
morte. 



privada,mas publicamen 
te profeíTava a idolatria 
com templos, com alta- 
res , com ídolos , com fa- 
cerdotes , 8c com todas as 
outras fuperftiçoens gen- 
tílicas. A primeira coufa 



todos feus habitadores ri- 
goro fiíTimam ente caíliga- 
dos.Sc aíílm foy,porq con- 
quiftados pelos exércitos 
de Nabucodonofor , to- 
dos foraó levados cativos 
àBabylonia. Afegunda,q 



pois,quefezozelofiílimo, elie Rey morreria antes 

& Santo Rey, foi arrazar deite cativeiro : & aínni 

os templos, êc altares, fuceedeotambem,porqu.e 

queimar os Ídolos , & fa- faindo a huma bataiha,ioy 

^ ^ mor- 



tal 

t 




k 



,;«'v 



7 8 Sermão de quarta feira 

morto iieíla. Pois o Rey rus Jumfuper locam m um 

pio, zclofo, & Santo ha Fm /limma , queconfer- 



de morrer, & o Povo ido- 
latra naó? Antes Foy tan- 
to pelo contrario,que du- 
rou o cativeiro Tetentaan- 
nos , que era todo o tem- 
po, que os que tinhaoUdo 
idolatras podiaò viver. E 
porque ordenou Deos,q os 
idolatras viveíTem tantos 
annos, &- oRey morreíTe 
taó anticipadamentejque 
naó chegou a contar qua- 
renta? Arazaó delia juíH- 
ça verdadeiramente divi- 
na foy, para que vivendo 
elles , &: morrendo o Rey, 
p Rey fofle premiado , & 
os idolatras caíligados. 
De forte, que aos idola- 
tras, para quepadeceíTem 
as calamidades , & mife- 
rias do cativeiro , cllen- 
deolhes Deos a vidaj & ao 
Rey , para o livrar das 
meímas calamidades , & 
miíerias , anticipoulhe a 
morte. Aí]] m o diílèo mel- 



vou Deos a vida ao Povo, 
porque o quiz caíligar , 
& anticipou a morre ao 
Rey,porquco quiz livrar 
docalrigo : que taó certo 
he ainda no mayor au^e 
dos bens da fortuna, qual 
he a dos Rcys, fer o ma- 
yor bem da vida a morte. 

^5 KT Os bens da gra- 
JLN Ça > que faó os 

que \ó reíi:aó,paíraomer- 
mo. Sendo eílesosmayo- 
res de todos , & os que 
própria , & verdadeira- 
mente fó merecem nome 
de bens, nenhus faó mais 
difficultofos de guardar, 
nem mais fogcitosà mife- 
ria de íe perderem. Os 
Anjos perderão a graça 
no Cco, Adam perdcoa 
graça no Paraiíò,&: depois 
delias duas ruinasuniver- 



te ad tatr.. u... 1 f//! r^'' T^J^ ouve,quea co 



4. R^g ^^, "^^ ^"^^^^^ ^^^os ,&collt- 

1Í.20. geris ad feptílchnirn tuttm 

inpace, nt nm i.' ideara o- 

fuli tm mala^qua mnvéhi' 



fervj He fcm prer So a Mãy 
de Deos, pelo fcr, acon- 
fcrvou inteiía , ôcosde- 
niius, ou a pcrdéraó por 
cul- 



nha deíla guerra, naò he 
Cartago, ou Fiardes, ou, 
como agora, Porcugal,re- 
naó o mundo , & a tçrra 
toda em qualquer parte. 



de Cinza, y^ 
culpas graves, ouaman- tu^^u^xr^Li Militiaeflvita 
cháraó com as leves. ^/ hominis ftiper t erram: t^n-^^^?.^. 
\^^^';ft^t^videat necadaf. Quem to aírim,que ao mefmo vi- 
eílá em pèjvejanaó caya, ver chama elle militar: 
diz S. Paulo. E elle depois CuntJis diebus^qtiikts nunc 1°^, 14. 
de fiibir ao terceiro Ceo milito. Qual feja a campa- ''^' 
fe vio taó arrifcado a cair, 
que três vezes rogou a 
Deos o livraíTe de huma 
tentaçaôjque fe o naó ti- 
nha derrubado,o afronta- ^2""'-i"-^ p"*«-^> 

uCor.y^: ^n£ehis Satan^ y qui fuper t erram. Mas como 

'^•7- me colaphizet .Q^X-iio^S^^m- o mefmo Job naó faça 

faó, cahioSaiamaójcahio mençaõ de muitos, fenao 

David: & nem ao primeiro de hum fò,oudequaIquei' 

a fua fortaleza , nem ao homem,^'?>^ húminis-^com 

fegundo a fua fabedoria, razaó podemos duvidai^ 

nem ao ultimo a fua vir- quem faó os combatentes, 

tude os ti veraó maó para entre os quaes fe faz efta 

quenaócahiíFem. O mun- guerra, Sc fedaÓ eftasba- 

do to Jo he precipícios, o talhas? Se foraó gentes de 

Demónio todo he laços, diverfas naçoens,tambeat 

a carne toda he fraque- elle o diífera, mas fó faz 
zas. Ê contra eftes três 
inimigos taó poderofosda 
Alma,eílando ella cerca- 
da de hum muro de barro 
tao quebradiíFo, quem a 
poderá defender, &nelía 



'^à 



a graça? Já fabem todos-, 
quehey dedizerjque fó a 
morte i 6c aíllmhe. 

6(5 Diz Job, que a vida ,_, .. 

do homem he hua perpe- totalmente oppoftas^ cor^ 



mençaõ de hum homemi 
porque dentro em cada 
hum de nós, como de ini- 
migos contra inimigos, fe 
faz eíla guerra, fe daò eíles 
combates, ôc vence, òu 
he vencida húa das partes. 
O homem naó he huma 
fó fubílaneia como o An- 
jo, mas compoftodeduas 



8o Serryia^deajiãrtafeiTd 

po, & Alma, carne, & cf- migos , & hum delles taó 



M 



pirico, & efles faó os que 
entre fv fc fazem a guerra, 
como diz S. Paulo : Caro 
concupifcit adverjus ffiri- 
^.^a at.f. ^^^^ ^ fpirittis aíitemai^cer- 

fiis carnc77i: A carne peleja 
contra o efpirito, &oeí- 
pirito contra a carne. Por 
parte da carne combatem 
os Vicios com todas as for- 
ças da natureza-, por par- 
te do efpirito reíiftem as 
virtudes com os auxílios 
da graça-, mas como o li- 
vre ai v^cdno fubordenado 
do deleita vel , como re- 
belde , & traidor fe paíTa 
à parte dos vicios,quantos 
faó os peccados,que o ho- 
mem comete, tantas faó 
as feridas mortaes,que re- 
cebe o efpirito , & bafla 
cada hfia dei las para fe 
perder a graça. Por iílb 
com razaò exclama Santo 
Agoflinho , como expe- 
rimentado em outro tem- 
po: Continua pugna , rara 
'viãoria-.k batalha he con- 
tinua, & a vido ria rara. 

67 Haverá porém, quê 
pcíTa por em paz eítes 
dous íaó obftinados ini- 



cruel,& perniciofo.^ Neíia 
vida, em quanto a mefma 
vida dura, naó:masnofim 
deila,ílmj porq fó a morre 
pode fazer , & faz eílas 
pazes. Que couía he a 
morte .-^ Eji feparatto ani- 
rn£ a corpore He a fepa- 
r açaójcom que a ai ma fe a- 
parta do corpo '. & como 
por meyo da morte a al- 
ma fe divide docorpo,& 
o efpirito da carne , no 
mefmo ponto divididos os 
còbatêtes,ceflbu a guerra, 
& ficou tudo em paz. Efta 
he a grande energia , & 
alto penfaraentojcom que 
diíTejobjque aquella guer- 
ra era nomeadamente do 
homem vivo fobre ater- 
ra : Mtlhia eft vita horni- 
nts pipcr terram -, porque 
em quanto o homem vive, 
&eíl:á fobre a terra, padece 
a guerra da carne contra 
o efpirito •, mas depois que 
o homem morre , & jaz 
debaixo da terra, toda effa 
guerra fe acabou , & íc 
íegue entre a carne, & o 
eípiíito húa naó tregoa , 
íenaó paz perpetua , & 
para 



de Cinza, 



8i 



para fcmpre. Por iílb quá- 
do lançamos os defuntos 
na fepiiltura, eíTas faó as 
palavras de confolaçaó 
com que nos defpedimos 
deiles, dizendo : Requief- 
cat in face. He compri- 
mento tirado, & aprendi- 
do de hum pfalmo de Da- 
vid, ondeexcellentemen- 
te defcreve a perpetui- 
dade defta paz. In face 
in idiffum dormiam , & 
9 requiefcam : Quando eu ja- 
zer na fepultura , diz 
David, dormireyi&def- 
cançareyempaz para iíTo 
mefmo, inidipfum. Que 
quer dizer para iíTo mef- 
mo 7 Naó fe podia figni- 
ficar mais admiravelmen- 
te a diíferença do fono , 
do defcanço , & da paz 
dos mortos em compara- 
ção dos vivos. Os vivos 
dormimos, defcançámosj 
& temos paz , mas naó 
para iílb meímo 5 porque 
dormimos para acordar, 
defcançamos para tornar 
a cançar, & temos paz,pa- 
ra tornar outra vez à guer- 
ra: pelo contrariojos mor- 
tos dormemjdefcançaójôc 
Tom. 8. 



eílao em paz para iíTo 
mefmo! In face in idiffum' 
dormiam , & requiefcam. 
Dormem para iíFo mef- 
mo-, porque dormem,naó 
para acordar , fcnaó para 
dormir : defcançaó para 
iíTo mefmo j porque def- 
cançaó, naó para tornar a 
cançar , fcnaó para def- 
cançarj 8c gozaó a paz pa- 
ra iíTo mefmo,porque naó 
gozaô a paz para tornar 
à guerra , fenaó para a lo- 
grar perpetua, & quieta- 
mente : Requiefcat inface* 
^8 E como por meyo 
deíla perpetua paz ceílâ 
a guerra da carne contra 
o efpirito , & ceíIaó as 
vitorias do peccado > & 
perigos da graça -, efta 
natural impeccabilidade 
da morte he a mais cabal 
razaó de fer a mefma mor- 
te o mayor bem davidaj 
porque fendo o mayor 
mal da vida o peccado,& 
eftando a mefma vida 
fempre fogeita , & arrif- 
cada a peccar, fô a mor te 
a; livra , & fegura defte 
mayor de todos os males. 
Morreo hum moço vir- 
F tuoíb. 






Sap 4. 



S2 SennaÕííe quarta feira 

tuofc&pionaflordefua pukura. O homem vivo, 



idade : & admiroufe mui- 
to o mundo de que mor- 
reíTe taó depreíTa o bom, 
ficando vivos, & faós no 
mefmo mundo muitos 
maos,que pareciaó mais 
dignos da morte. Mas a 
caufadefta admiração he, 
diz o Efpirito Santo , 
porque os homens naó en- 
tendem as razoes de Deos. 
Três razoens teve Deos 
para anticipar , ouapref- 
íar a morte àquelle moço; 
A primeira , porque lhe 
agradou a fua Alma, 6ca 



com todas as portas dos 
fentidos abertas, hecomo 
a Praça fem forrihcaçaó , 
que pode fer acometida, 
& entrada por toda apar- 
te : porém o morto,com as 
meimas portas cerradas, 
& cerrado elle dentro da 
fepultura, naó ha caílello 
taó forte , nem fortaleza 
taó inexpugnável a todo o 
inimigo i porque nem po- 
de fer vencida do pecca- 
do,nem ainda acometida. 
Muitas fortificaçoens in- 
ventarão os Santos para 



quiz levar parafy; Flaci. defender do peccado os 
ta enim erat T>eo anima //- vivos , fendo a princip?! 



de todas os muros daRe- 
ligiaójmas nem os muros, 
nem osCIauftros, nem os 
Templos, nem os Sacrá- 
rios baftaó para os defen- 



//«x: A fegunda, porque 
o quiz livrar das occafioés 
da maldade : Troperavit 
educere illnm de médio ini- 

quitattm: A terceira, porq (.«.«v.,, ^^,^,1 

oquizfortificar.-^^^rí-w/í- der,&:terfeguros.E quan 

merittllumT>ominus. Aqui do nem os muros, nem os 

reparo. Se Deos 1 he tirou a Clauftros , nem os Tem- 

yida para o fortificar, que pios , nem os Sacrários 

fortificação he efta,& con- baftaó para defender , & 

tra quem? O contra quem fegurar do peccado osvi- 

faó os vícios, &peccados: vos, bafiahúafòpedra,ou 

a fortificação he aqueUa a pouca terra de huafepul- 

onde a m.orte defende os tura,para ter taó defendi- 

que matou , que he a fe- dos , & feguros os mor- 

•^ tOSj 



^ 



de Cinza. ^ 83 

tos , que nerh pequem jà defta vida? EporqDeos, ' 
inais,néfejapoírivelpec- como diz S.Paulo, naófô 




carem. E efta he a fua im- 
peccabilidade. 

§. viir. 

69 13 E-íumindo pois 
J3^ as tres partes de- 
ílc ultimo difcurfo, delias 
coníla , que os 1 bens da 
natureza, da fortuna , & 
da graça , todos eftaó íb- 
geitos a grandes mife- 



governacomfuauniverfal 
Providencia os íieisjfenaó 
também os infiéis, fendo 
falfos naquelle tempo os 
meftres que os homêsou- 
viaó, & falfos os Deofes 
que adora vaó, naô fô per- 
mitio, màsquiz a mefma 
Providencia , que deftas 
duas fontes taó erradas 



rias, das quaes fò nospô- bebeíTcmhúa verdade tao 
de livrara morte 5 donde importante , cpmcr^^r 



fefegue,que a mefma mor 
te fem contorverfia he o 
mayor bem da vida. E 
para que em húa fô de- 
móílraçaó vejamos intei- 
ra , & naó por partes eíla 
mefma prerogativa da 
morte , naó inculcada de 
novo , 



dentro dos limites , & or- 
dem da naturezajO mayor 
bem da vida a morte. E 
foy deita maneira. 

70 Ouve entre os Sa^ 
bios da gentilidade hum 
homem chamado Sileno, 
ferrielhante na opinião 



, mas crida, appro- aos noflbs Profetas, cujas 

vada , & impreífa no juizo repoftas, como infpiradas 

dos homens> ouçamos húa por inftinto mais que nà- 

notavei antiguidade. Co- tural, eraó recebidas , & 

mo he inchnaçaó natural cridas como oráculos. A 

do homem conhecer o bê efte Sileno pois confultou 

com o entendimento , & ElRey Midas fobre qual 

appetecelo cô a vontade,- foíTe o mayor bem defta 

foy queftaò antiquiílima vida, & depois de niuitos 

entre os homésiaindaquã- rogos,&infl:ancias,arepo- 

áoetiaõ gentios , em que ftaqdelleaIcáçou,foye(la. 

conílít jíle :o mayor bem Non najci omnium eh ofti- 



Plutarcr 

íupra 

citatus.' 

Ciccro, 

Plato, 

Ai-iftotí 

ês ahj. 



IfeM 



84 Sermão de quarta feira 
mumyfnoTtmm autemejfe^^ mas para mayor prova 
longe e[l meliusquàm vive- deíle defenganb, obrigou 
ri". O melhor de tudo he ao pay da mentira , que 
naó nacer 5 mas no cafo fallava , & obrava nos ido- 
de haver nacido , muito los,aquemuitoareupezar 
melhor he ao homem o o confírmaíTe com dous 
morrcr,queoviver.AíIim notáveis prodígios Agria 
o diíTe Sileno; v naÓ fô do era facerdotiza da Deofa 
vulgo foy recebido como Junoi &como na mefma 
proverbioefteditto,maso hora, em que havia de 
approváraÓ,& celebrarão fazer o facrifício, tardaf- 
fepre os dous mayores lu- fem os ca vallos, que a co- 
mes da Filofofía racional, ílumavaó levar em carro- 



Plataó,&: Ariíloteles. Pin- 
daro Príncipe dos Poetas 
Lyricos da Grécia , pare- 
ce que duvidofo ainda de- 
lia verdade , quiz fazer 
mayor exame delia , &: 
como pelo Oráculo de 
Delphos lhe foíTe refpon. 
dido o mefmo: que Faria? 
Fez o que devera fazer 
com femelhante defenga^ 
no todo o Chriftaó. Dei- 
xou as Muras,& em vez de 
compor verfos, tratou de 
compor a vida. Hisaudi 



ça •, dous filhos que tinha, 
chamados Biton,&Cleo- 
bo , fe metèraó no lugar 
dos cavai los 5 & com tan- 
ta força, & preíTa tiráraó 
3 carroça, que nem hum 
momento de tempo fal- 
tou a máyà pontualidade 
do facri/icio. Foy taò 
admirado , &: eftimado 
efte ado, verdadeiramen- 
te heroicojde piedade pa- 
ra com a máy , & de reli- 
gião para com a Deofa , q 
deo confiança a Agria pa- 



tts.ad mortern fe campa, ra pedir a Juno ern pre- 

rafe. &paulofoftviven^ mio delia , que déíTe à- 

dl finem fectjfe , diz Plu- quelles feus dous filhos 

tarco. ^ na5 menos que a me- 

71 Nao parou aqui Ihor coufa,que os Deo- 

a Providencia Divina , fes neíla vida podiaó 

dar 



i^\;^-y; , de 
dar aos Homens. Conce- 
dei a Deora5Como taó 
bem fervida,o que a máy 
pedia : & qual feria o dcí- 
pacho da petição ? No 
mefíno ponto cahíraó 
mortos diante dos feus 
olhos os mefmos filhos, 
confirmando a falfa Dei- 
dade com verdadeiro 
documento, que entre os 
bens, & fdieidades xia^ 
turaes,que ao bomcm 
"j: podem fiicceder neílavi- 
' ' da,o mayor, & o maisfe- 
guro he a morte. A efte 
famofiíTimo par Biton, & 
Clieobo ajunta Platão ou- 
tro naó menos famoíb^ 
Agam edes5&: Trophonio. 
.Edificarão eftes doushum 
templo a Apolio Pythio, 
& no dia da dedicação 
orarão aoDeos deí^a mar 
neira: Que íe aquelia obra 
lhe agradavajO feu intent 
to era pedirem lhes cont 
cedeíTe o que melhor por 
dia eftar a hum homem 
neíla vida ■ & porque elies 
naó fabiaò que coufa foi* 
fe €Ílâ melhor , elle 9 
de quemcfperavaóa merr 
ce,o refolveííè. Reípon- 



Cinza. -Sf 

deo Apolio i que daili 
a fete dias Ihejs concede?- 
ria o que pediaó: & o que 
fuccedeo ao fetimo dia 
foy,que deitandoíè a dor- 
mir A gamçdes > & TfG- 
plionio, nunca mais^acor- 
dáraé : ^^uwque Mormif- 
fent i nunquam deindefur- 
rexijje, 

72 Ja diífemos que 
elies prodígios foraó ef- 
feitos da Providencia dis- 
vina é ^ ^l^^i neftes cafos, 
como em outros muitos, 
dcfenganou aos homens 
pelos mefmos de quem 
eraó enganados. Pois íè 
Deos refpondeo com a^ 
qu elies finaes aos que de- 
fcja vaó y &■ pediaó o ma-- 
y or bem da vida, porque 
deo a hunsamorte, &a ^ 
outros o fono de que naÓ 
acordarão ? Porque em 
fraíe também divina ò 
dormir he morrer , & o 
tornar a viver, acordara , 
JLazarus amtcMS nojter lu .. 
dormis^ fèd vado ut àfomr 
nè exjCíl^m mm. E como 
hum > : & outro final , ou 
era declaradamente , ou 
fígnificava a morte ; a 
F iij huns. 



^6 Sermão de 

huns, & a outros quizen- 
iinar Deos (^ôcnellesato- 
<los os homens ') que a 
mefma morte, que elles 
naó pediaó , nem defeja- 
vaó, era o mayor bem da 
vida, que defejavaó , iSc 
pediaô. Defejais, & pedis 
o mayor bem da vidai? 
Pois acabay de viver, & 
gozaloheis na morte. E 
efta verdade cntaó admi- 
rada, & antes, &: depois 
taó mal entendida, quiza 
mefma Provid€ncia,para 
que a acabaíTcmos de en- 
tender , que ficafle eíla- 
belecida , & perpetuada 
como em quatro eftatuas, 
naó levantadas , mas ca- 
hidas, em Biton,&Cleo- 
bo mortos, & em Agame- 
des , & Trophonio dor- 
mindo. 

5. IX. 

73 A Viíla pois deÃas 
Xjk quatro eftatuas, 
asquaes,em quanto vivas, 
&empé,craò o pó que fo- 
mos, &cm quanto cabi- 
das, & jazendo em terra, 
faó o pó que havemos de 



quarta feira 
ferj que fará todo o enten- 
dimento racional, & chri- 
ftaô ^ Se o pò que have- 
mos de fer he o mayor 
bem dopo que fomos, & 
fe o mayor bem da vida 
he a niorte3que havemos, 
ou que devemos fazer 
os vivos ? Hereges ouve , 
comode feu tempo refere 
S. Agoftinho, os quaes in- 
terpretando impiamente 
aquellas palavras dcChri- 
fto , Adhuc autem & ani- \l'- ' 
mamfuam^ em que pare- 
ce nos manda ter ódio à 
vida, fe matavaó com fuás 
próprias maós. Porém S. 
Paulo,que mais vivia em 
Chriílojque em fy mef- 
mo , como verdadeiro , 
& canónico interprete 
do efpirito interior de 
feus divinos oráculos , 
naó diz que o Chriftaó 
fe mate , fenaóque viva; 
mas que viva como mor- 
to. Em húa parte : Sluaji^^^''- 
fnonentesy ò* eccevivimus: 
& em outra : Mortui eftis , 
ér 'vita vejira ahf condita eft Coioff 
cutnChíiJJo in ^eo. Allim ^- ^ 
ajuntou, & concordou o 

Apoftolo dous extremos 
taó 



de Cinza, %f 

nõ concraíics, como a /«/>/?/Ji & a vida , &0S vi- 
morte, & a vida : aíílm vo« efcondidos -, & 'vita 
quiz introduzir no mun- veftrà^. abfcondita eft cum 
do hua morte viva , & Chriftoin^eo, 




húa vida morta, perfua- 
dindo os vivos a que vi- 
vamos como mortos : & 
com grande razaó, & con- 
veniência. Se o melhor 
bem da vida he a morte, 
paílcmoscomo mortos à 
melhor vida. E fe dos 
mortos dizemos também 
que os levou Deos para 
fy , deixemonos levar de 
Deos , & vivamos como 
mortos,para viver nelle > 
& com elle.Efta vida efcó- 
deo Ghrifto como mor- 
tal, & Deos como im mor- 
tal, naõ em outro lugar 
menos fecreto,nem em 
outro extremo menos có- 



74, E fe perguntarmos 
ao mefmo S.Paulo de que 
modo havemos de viver 
como mortos j baftavaõ 
por repofta as meímas pa-s 
lavras, com que áiz que 
vivamos com Ghrifto , & 
em Deos : CumChrlfto m 
^^o.Quem vive em Deos^ 
naõ vive em fy; quem vi^ 
vecom Çhrifl:o,nao vive 
com o mundo : & quem 
naó vive em fy,nem com 
o mu ndojeíle verdadeira» 
mente vive como morto, 
O marto tem olhos, & 
naô vê $ tem ouvidos , BC 
naó ouve> tem lingua , 6c 
naó falia i tem coração, &: 



trario à mefma vida,qu^ fíaó defeja : & pofto que o 
a morte : Mortui eífisy & morto Víyg pôde defejar , 



vita veftra^ abfcondlta efl 
cum Chrifto m 3eo. Na 
vida , & morte commum 
os mortos eftaó efcondi- 
dos, 8c os vivos andaó ma- 
nifeftosj mas na vida, & 



fallar, ouvir , & ver ; nem 
vé o que naó helicito que 
fe veja, nem ouve o que 
naó he licito que fe ouça, 
nem falia o que naó con- 
vém que fe falle, nem de- 



morte de que falia o Apo- feja ò que líaô convém 4 
ftolo, a morte , 8r os mor- fe defeje^ porque he mor- 
tos andaó manifefl:os,M?r- to às paixoens, ôc aosap- 

Fiiij petitesj 






tm 



'Si' 



SS Sermão de 

petiteSj Sf" pofto que viva 
ao fentimento,naóviveà 
fenfualidade. lílo he vi- 
ver em Deos, &: naó em 
fy. E que he viver com 
Chriílo, & naó como mú^' 
do ? He eftar morto a tu- 
do o qud o mundoama y a 
tudo o que o mundo efti^ 
ma^a tudo o que o mundo 
venera,a tudo o que o mu- 
do adora'a tudo o que cha- 
ma honra, atudo o que- 
chamai nter e íTe, a tudo o 
que chama; ^ boa y ou. má- 
fortuna } porque tudo o 
que he profpero, ou ad- 
verfoi , alto , ou baixo, 
preciofo , ou vii , p€zado 
na balança da morte viva, 
he vaidade,he fumo , he- 
vento, he fombra^he nada; 
E a todos os que allim vi-: 
vem, ou viverem , pode- 
mos dizer com. ^; Paulo: 
Monuieftis. ■- • - • 

7f Mas 1 porque o p6 
que fomos hc folto>in quie- 
to, vaó, &- com qualquer 
foprode arfe levanta » & 
defvan ec e>& de fy mefmcr 
forma remoinhos , & nu-: 
vens,com que na mayor 
kzdo Sol fica às efeurasj. 



quartafeira 
por iíTo o mefmo Apoíto- 
íonosremete, como por 
illaçaò ncceífaria do pò 
que. fomos, ao pò que ha- 
vemos de fer, dizendo : 
Mortificaíe ergomembr ave- Coic 
Jira\qu£ fnnt fuper terram: ^''^' 
Peloque mortifícay os 
membros do voíFo corpo 
que eíiaõfobre aterra. A 
energia da palavra , fu^er 
terram,y naó efí-á muito à 
âor da terra. • Mas ainda 
que parece fupetfíua ,- he 
certo que. naó carece.de 
grande myfterio. Pois fe 
baftava dizer, mortifícay 
voíFo corpoj porque acre- 
centa^que eftáíbbrea ter- 
ra.?: A .mor ttficaçaó fó per- 
tence' aos que vivem;>. &í 
todos os que vivem eftaó 
íbbreaterra : poisfe iíto 
por fy mefmo cila va dl to> 
porque o nota , & pondera 
Q Apoftolo como Goufa 
p^íticular? Porque fallou 
do noílb corpo em quan- 
to eílá fobre a terra,cont 
allufaó ao mefmo corpo. 
quando eftará dcbaixoda 
terra. O mefmo çorpa 
noíTo^que em quanto vi- 
vemos eítá fobre a terra,: 
depois 



deCm&a. - „ ^ 8p 

depois da morte eftà de- naó fe queixa , naÓ mur* 
baixo da terra. E fe o cor- mura , naó fe ^inga , naò 



po,que cftá fobre a terra, 
fe comparar comfigo mef- 
mo, quando eíHver debai- 
xo da terra , nenhúa con- 
fideraçaó pode haver mais 



mente,naô adula,naó rou* 
ba, nao adulterai Poisíè 
de tudo ifto has de caré>- 
cer debaixo da terra^por- 
4 te naó abftens àX^ti mef»- 



eííicaz para o perfuàdir a mo^em quanto eftàs fobre 
que viva como morto, elia ? 



Dizeme, corpo meu, de- 
pois que eítiveres debai- 
xo da terra , que has de 
fazer ? Has de continuar 
nos mefmos vicios>em que 
todote emprega vas,quan- 
do eftavas iobre aterra? 
Has de continuar nos 



76 Omorto,<|uando o 
levaó à íepultura pelas 
mefmas ruas , por onde 
paíTeava arrogante , taó 
contente vay envolto em 
húa mortalha velha ■ , ;&: 
rcta, como fe fora vefti- 
do de purpura , ou broca- 



mefmos vicios,que pôde do. Chegado à fepultura, 
fer foraó os qiie te mata- taó fatisfeito eftá com le- 
rão , & te apreíTáraó a fe* te pès de terra,como€om 
pultura.? Agoraonaópot os maufoieos de CanajOit 
des negar com a voz, & as pyramides doEgyptp-í 
depois confeíTaràs que & fe atè eíTa pouca t^r^ 
naó, com o fíleneio. 1 o- que o cobre lhe fy^mm^t 
doo morto he como a- diria , íè podelíetaílaxg 
quelk de quem diíTè Ta- que a quem naó cobre ^ 
cito ^ Magis fine vitijs ^ terra , cobre o Geo:: €mm 
quàm cum virtuuhui\ O tegimrjui non habet ur^ 



morto naó tem virtudes, 
mas também naó tem vÍt 
cios. Naó tem ódio, naó 
tem ien veja , naó tem co- 



nam, Pois fe entaó ta^óf 
poucaí difFerença has :4c 
fazer da riqueza , ou. poa 
bceza das roupas^ pof qu© 



biçai>jta6:tenkai^tópó x a;goía te^eívanecemtsíi^ 

, . . í- to» 



W' 



9 D Sermão de 

to, , & gaftas o que naó 
tens na vaidade das galas ? 
Pois íè entaõ has de ca- 
ber em húa cova ta6 e- 
ftreita; porq agora te naó 
metes entre quatro pare- 
des , & procuras a largue- 
za da morada tanto mayor 
que a do morador, & en-^ 
vejas a oftcntaçaÕ5& mag- 
nificência dos Palácios ? 
Ainda refta por te dizer 
o que mais me efcandali- 
za. Se quando eftàs de- 
baixo da terra todos paf- 
faõ por cima de ty , & 
te pizaó , & te naó al- 
Çeras por te ver debai- 
xo dos pès de todos j 
ágòraque es o meímo, & 
naó outro, fò porque eftás 
com os pès fobre menos 
terra da que entaó has de 
Occtipiars porque te enfo- 
berbeces , porque teiras> 
porque te inchas , & en- 
<íhes de cólera, de rayva, 
de furor,& a qualquer fó- 
bra, ou fofpeita de menos 
veneração , ou refpeito , 
o queres vingar naó me- 
nos que com o fangue,& 
a morte ? Mas he porque 



quarta feira 
a mefma morte te naó a- 
manfa, & emenda. Ouve, 
em quanto naó perdes o 
fentido de ouvir , hum 
notável ditto de David. 
êluoniam fupervenitman- ^,.^^^ 
fuetudo , ò* corripiemur. Z ^ 
A palavra , corripiemur , 
quer dizer, morreremos,&: 
querdizer,feremos emen- 
dados. Porque a morte he 
húa correcção geral, que 
emenda em nós todos os 
vicios : & de que modo.? 
Por meyo da manlidaó^ 
porque a todos amanfa: 
Contam fupervenit man^ 
fuetudo. Morreo o Leaó, 
morreo o Tigre, morreo 
o Bafilifco ; & onde eftá 
abraveza do Leaó, onde 
ellá a fereza do Tigre , 
onde eftá o veneno áo 
IBaíilifco? Já o Leaó naó 
he bravo , já o Tigre naó 
he fero , já o Bafilifco 
naó he venenofo , já todos 
eíTes brutos , & monftros 
indómitos eílaó manfos, 
porque os amaníbu a 
morte : Quoniam fuper^ 
venit manfuetudo. E íe 
aífim emenda>& tanta mu- 
dança 



n Titis 
'P. lib, 

7X. 16 



4e Cinza. pi 

dança faz a morte nas fe- terra i Ntjí quis arH- 
ras,porqueana5 fará nos tratus fuerit fe habere 
homens ? j^^ triennmm in fefuU 

jy Seja efta a ultima chro , ad hunc fermo- 
x-xz^jo C a qual devem os nem pervenire non potefl. 
racionaes levar na memo- E quem eftá certo,quc o 
ria) para que confiderem, feu corpo ha de eftar dê- 
em quanto eílaõ fobre a baixo da terra, naõ três 
terra , o que haó defer, annos,nemtresfeculos5fe- 
quando eftiverem debai- naó em quanto durar o 
xo delia : 6c com efteef- mundo atè o fim 5 como 
pelhopofto diante doso- naó perfuadirá ao mef- 
lhos de feu próprio cor- mo corpo, & ofogeita- 

rà a que viva como mor- 
to eíles quatro dias , & 
incertos , em q^e pôde 
tardar a morte ? Se eíle 
corpojque hoje hepò fo- 
bre a terra, à manhã ha de 
fer pò debaixo da terra j 
porque fenaó accomoda- 
rá, & concordará com figo 
mefmo,a viver, & morrer 
de tal modo, que na vi- 
da logre o mayor bem 
da morte , & na morte 
naó padeça o mayor mal 
da vida V Aflim fare- 
mos que o pò que fomos, 
& o pò que havemos de 



po, o perfuadaó a que fc 
accomode a fer por mor- 
tificação em quai)to vi- 
vo, aquillo mefmo que ha 
de fer em quanto morto 
depois de fepultado. Per- 
guntou hum Monge ao 
Abbade Moyfés, famofo 
Padre do ermo , como 
poderia hum homem ad- 
quirir a mortificação que 
enfina Saó Paulo ^ tal 
queefl:ando vivo, viveíTe 
como morto ? E reípon- 
deo o Abbade, que de 
nenhum outro modo,nem 
tempo, fenaó quando to- 
talmente fe perfuadiífe fer ( o qual como pò^he 
que havia jà hum triénio eíleril) fobre a terra co- 
que cílava debaixo da mo planta , & debaixo da 

terra 



92 Sermão de qmrt;a feira de Cinza, 

terra coao r2:vzy fejafe- "ria: ^^^w w/^/ ,é'Vòb)i 

cundo , & ha vidacolha- pr aft are dignei ur1>ominus 



mos dclle o fruto da gra- 
Sa, .& na morte o da GJo- 



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SER 




DE 



S ANTÓNIO. 

NA. IGREJA, E PIA DO MESMO SANTO, 

havendo os Olandezes levantado o fitio,que tinhaõ 

pofto à Bahia,aírentgndoos Teus quartéis, & 

batarias em frente da mefma Igreja. 



Trotegamurbem hanc^é'fdlvdhjo eampropter meyé^frQ' 
píer ^avídfervummeum.%. Keg. 19. 



§. I. 

Steheblugar , 
onde pof efpa- 
ço de quarenta 
dias, & noites, 
como o. dilu- 
vio, fuftentoq aBaíiiapó- 
fta em armas aqueUa fu- 
riofa tormeíita de trovões, 
relampagos,& rayos Màr- 




ciaes, com que a prefumi- 
da hoftilidade dq inimi- 
go , aífim como tem do- 
minado em grande parte 
os membros defte vaftif- 
íimo Eílado, alSm fe atrc- 
veo a vir combater , & 
quiz também conquiftar 
a cabeça, E neftermeíma 
lugar C Bem dita ftja a. 
Bondade > & Providencia 
divi- 



^' 



m^ 



^ 



«. 



PÍ Sermão de 

divina) trocados os rece- pa tao própria dcfta hoílà 



yos em alegria , as armas 
em galas , & a guerra em 
triunfo, vemos junta ou- 
tra vez a mefma Bahia,pa- 
ra render a Deos as devi- 
das graças pela honrada , 
& taó importante vitoria^ 
com que defenganado o 



hiíloria , que em todas 
fuás principaes circun- 
ílancias reprefentadas ao 
vivo, nem faltarão aos au- 
xilies do Ceo as devidas 
graças,nem à cooperação, 
& valor da terra os mere- 
cidos louvores. O que 



mefmo inimigo, occultou direy, ou repetirey , fera 
de noite a fugida, & de dia fomente ponderado o que 
o vimos fair taó humilha- todos vimos. E para que 



do,& defayrofo, por onde? 
tinha entrado taó orgu- 
Ihoib, & foberbo. Seme- 
lhantes íi tios, & vitorias, 
& outras muito menores 
q as femelhantes, fe còftu- 
maó logo eftampar na Eu- 
ropa, para fe fazerem pu- 
blicas a todo mundo. E 
pofto que nòs na Ameri^v 
ca carecemos deftas trom- 
betas mudas da fama,com . 
que a mandar eftámpadai 
aos olhos deSua Magefta- 1 
de, que Deos. guarde, 6c 
alegrar com ella a Portu- 
gal , a Hefpanha,& a toda 
a Monarquia i nas pala.- 



npsnaó falte a! aíliílencia 
dá foberana Palias da 
Ghriftandade , a quem o 
primeiro Templo,que le- 
vantou Portugal na Bahia , 
foy com nomedaVitoriaj 
dando os vivas a mefma 
Senhora, digamos Ave 
Maria, »'\ \^^ .^s'-\xiK\,y \y\ 

5. II. 



"TJ Rotegam urbem 



79 

t *! Jt^ hanc yà* falvaho 
eampropter me^ éfpropter ^^«e- 
1>avídfervum meumiTo^^^^^ 
marey debaixo de minha 
protecção eíla Cidade 



vras que propuz (queiaó Q di^ Deos } para a fatvar, 

do Livro^uarto dos Reys ficeíta mercê Itic foreypor t 

Capitulo defanove ) me amor de mim, & por a mor ? 

parece temos húa citam- de David meu fervo. Falia j 



K. 



Santo António. pf 

o Texto à lètrá tío íicio , te£tor. O cíFeito,a obra,& 
que com poderofo exer- a acçaó própria de Salvà- 
cito veyo pôr fobrejeru- dor , he falvar: pois por 



falem Senacherib Rey dos 
AíTyrios. E pofto que as 
mefmas palavras,& a pro- 
meíTá delias fe verificáó 
propriamente em hum,& 
outro cafo, naó ha duvida 
que tem muito mayor 
propriedade , & energia 
no noíTo. Trotegamarhem 
hancy &fahabo eam\ re- 
paremos bem Héfta ulti- 
ma palavra, em que con- 
fifte a promeíTa , 6c eíFeito 
da protecção divina. To- 
marey, diz Deosi debaixo 
de minha protecção efta 
Cidade para a falvar. Pu- 



ií^o diz Deos que ha de 
falvar a Cidade: Etfalva- 
bo eam. A Deosjalém dos 
nomes comuns de Deòis > 
& Senhor, huas vezes o 
invocamos como miferi- 
cordiofò , outras como ju-^ 
fto,outras como todo po- 
derofo, ou com algum dos 
outros attributos, & títu- 
los deSúaMageáade, & 
grandeza , de que eftaó 
cheas todas as Efcrituras; 
mas quando a havemos 
de invocar para que nos 
falve, o modo que pref- 
ere ve, & eiifina a mefnla 



dera dizer^ para a confer- Efcritura he,que digamos 
var , para afuftentar, para nomeadamente a Deos , 



a defender,para lhe dar vi- 
toria de feus mimÀ^QS-i^ 
porq naó diz fenaó para a 
falvar nomeadamente: -Ê^í 
falvabo eam ? Porque a 
Bahia he Cidade do Sal- 



Sàlvaynos Salvador noílb. 
Afllm o manda , & dif- 
poem no primeiro livro 
do Paralipomeho: licite. 
Salva nos T>eús Salvator ^^^^^ 
noHer. E porque? Porque lâ. jf. 



k 



vador:& ainda que p con- o falvar he eíFeito próprio 
íerva[a,defendela , te dar- de Salvador: & com oho- 



Ihe vitoria , era eíFeito da 
mefma protecção , naó e- 
rà conforme o nome da 
Cidade, & dofewPro- 



me de Salvador naó fô in- 
clinamos , & empenha- 
mos , mas obrigamos a 
Deos a que nos fal ve,por- 

^U0 



p6 Sermão 

que naó feria Salvador , fe 
naó falvaíTe. Efla foi a im- 
propriedade com que os 
Difcipulos ainda rudes in- 
vocarão a Chrifto no pe- 
rigo da tempeílade , di- 
Mat. 8. zendo: MagíJier,falvanoSy 
uzvc.^ perimus : Meftre, falvay- 
Luc. 8 "°^ ' porque perecemos. 
24 Naó haviaó de dizer > 
Meftre, fenaó, Salvadorj 
porque a obrigação de 
Meftre he eníinar, &naó 
falvar. E fe Chrifto entaó 
osfakou, naó foycomo 
Meftre, fenaó como Sal- 
vador: Salva nos Salvator 
, noHer. Efte mefmo,pois, 
foy o tituIo,com q Chrifto 
na occaílaó preféce falvou 
a Bahia.Ella he Cidade do 
Salvador, & elle falvou a 
fua Cidade. Donde fe fe- 
gue,que mais a falvou co- 
, mo fua , que como nofla : 
& mais a falvou para fy, 
que para nós. 

80 He admirável a efte 
^^^^ '• propofitooTexto de Da- 
. vid no pfal mo 97. Cantate . 
domino canticum novum^ 
quia mirabíliafecit: falnja- 
*vít Jihí dextera ejus , & 
brachium fanõtum ejus. 



de _ 

Aftim como 'nas grandes 
vitorias fe coftuma cele- 
brar o valor dos Capitães, 
& Soldados com letras,ou 
cantigas novas j aftim ex- 
horta David,quefe com- 
ponhaó,& entoem novos 
cânticos ao Senhor pela 
admirável vitoria, çom q 
o feu poderofo braço fal- 
vou para fy : Salvavit fibi. 
Ifto de falvar Chrifto para 
fy , he o primeiro reparo 
de Hugo Cardeal: &ofe- 
gundo também feu, naó 
he menos bem fundado. 
O primeiro fundafe no 
que diz o Profeta : o fe- 
gundo no que naó diz 5 
porque naó diz que fal- 
vou, ou a quem. Pois fe 
diz que falvou, & que fal- 
vou para fy, Salvavit fibi-^ 
porque naó diz o que fal- 
vou , ou a quem falvou ^ 
Naó diz a quem falvou , 
refponde Hugo > porque 
fallava o Profeta de vito- 
ria futura, & do fuccefib 
da mefma vitoria fe havia 
de entender de quê falla- 
va: Non dixit,qmd falyO'. 
'vit ifed intelligendum reli' 
quit, Suppofto pois que 
do 



c. 



Santo Ant&nlól 3f 

dofticcefro, & da vitoria la , pelo que devemos in- 



havemos nós de entender 
o que Chrií}o falvou por 
meyo delia-, eu entendo, 
'& digo, que o que falvou , 
foy a Bahia. E do mef- 
mo Texto que excitou 
a primeira queftaó, pro- 
vo a repoíla deíVa fe- 
cunda. O Texto diz. que 
falvou Chrifto para fy : 



finitas graças ao meimo 
Salvador^ mas elle-,como 
dizia, naó nos falvou a 
nós tanto por amor de 
nós, quanto por amor de 
fy. Naó he confideraçaó 
minha, fenaó claufulaex- 
preílà do mefmo Senhor 
no noííb Thema. 'Fro'-' 
tegam urbcm hanc , (^ no- 



Salvavit Jibi : logo fe fal- tay agora ') & fahabô 
vou para fy, final he que o eam propter me: Toma 



que falvou,era coufa fua, 
E como a Bahia he Cida- 
de do Salvador, bemfe 
fegue que íàlvandoa, fal- 
vou para fy , porque fal- 
vou à fua Cidade. O mef- 
mo Hugo taòclaramente 
eomo íe eu lhe ditara as 
palavras. Benedtxit^fibh 
quia ad ipfum , non ad 
alium pertinebat falvatio. 
Muito bem > éc muito 
propriamente difi^e que 
falvou para fyj porque a 
elie , & naó a outrem per- 
tencia íãlvar o que era feu. 
A Cidade era do Salva- 
dor, & ao Salvador per- 
tencia falvar a fua Cida- 
de. He verdade que tam- 
bém nos fomos fal vos neL 
,_ Tom. 8. 



rey debayxo de minha 
protecção eíla Cidade, 
para a falvar por amor 
de mim. De maneira 
que naó fò diz, que ha 
àc falvar a Cidade, mas 
expreíTa , & nomeada- 
mente,que a ha de falvar 
por amor de fy. Nòs fal- 
vos por amor da Cida- 
de, porque fomos mem- 
bros da Cidade -/mas a 
Cidade falva pelo Salva- 
dor , porque he fua , & 
por amor de fy : Tr-opter 
me. 



G 



§. III, 



'^m 



^ 



.í8 



Si 



A 



Sermão âe 

monte Sion,o qual Tc cha- 
^ III. m2iW2iCivita5Í>av'td^Qi^ 

dade de David : & aílini 
Inda nos reíla como Deos falvouajeru- 
pordeclararaul- falem poramordefy-jpelo 



tima claufula do Thema 
taó breve como a paííàdaj 
mas naõ menos admirá- 
vel, nem menos própria do 
noíTo cafo. Et falvabo eam 
propter me , érpropter '^Da- 
*vidfervum meum: Salva- 
rey efta Cidade > diz o 
Salvador , por amor de 
mim, 6c por amor de Da- 
vid meu fervo. Que bom 
Senhor he Deos í Bufcay 
lá outro , que fendo toda a 
vitoria fua, queira partir 
a gloria delia entre íy , & 
hum feu fervo! Mas por- 
que razaò tendo Deos tá- 
tos outros fervos , & taó 
grandesjaílini paíTados, co- 
mo prefentes , efta j:artc 
de gloria a attribue fó a 
David: Et propter David 
fervum meum^. No cafo do 
lítio de Jcrufalem a razaó 
hc manifeftai porque na 
mefma Cidade dejerufa- 
jem havia hum monte o 
mais forte , & inexpugná- 
vel de todos , que era o 



que tinha de Cidade fua; 
aíHrn a falvou também 
por amor de David,peIo 
que tinha de Cidade de 
David: Tropter me , ò* 
propter T>avid fervum 
metim. PaíTemos agora de 
Jerufâlera à Bahia. 

81 O m.onte Sion da 
Bahia naô ha duvida que 
he efte monte em que e- 
ftamos , poílo que ao 
principio taó mal fortifi- 
cado , depois taó forte,6c 
inexpugnaveljcomo as ba- 
tarias , & aí] altos do i- 
nimigo , tanto à fua cu- 
fta , cxprimentáraó. E 
que o David defta Sion 
feja Santo António, que 
nelle aílènrou o folar da 
fua cafa , facilmente fc 
pôde demoftrar atè aos 
mefmos olhos> porque fe 
do fayal lhe fizermos a 
fa marra , da corda a fun- 
da, da voz formidável 
ao Demónio a arpa , de 
fcr O jaienor da familia 
~ ^' df 



'i ». 



*' Santo António'. 99 

de fca Pay a família dos Salvadof pertence a de- 
Menores , & de ter fem- fenfa da Cidade ao Saíva- 



pre a Deos junto ao pei- 
to, fer aquelle de quem 
diffe o mefmo Senhor, 
que tinha achado hum ho- 
mem conforme ao feu 
coração, com pouca diíFe- 
rença de cores veremos 
naquelle altar, ou de San- 
to António formado hum 
David , ou David trans- 
formado em Santo Anto 



dor •, aíTim em quanto Ba- 
hia deTodos osSátos,per- 
tcncia adefenfa da Bahia 
a S. António. E porque? 
Mais admirável he ainda 
o porque , que a mefma 
repoíla. Porque fendo a 
Bahia Bahia deTodos os 
Santos, a todos os Santos 
pertencia a defenfadella. 
Logo fe a todos osSaiitos 



nio. Defte fegundo David pertencia a defenfa da Ba- 
pois difíe Deos no noíTo hia , poriíTo a defejideo 



êafo : Trotegam ttrbem 
hanc^ Ò* falv^o eampro- 
pter me , & pr&pter "Da- 
vidfervum meum. E fe 
me perguntardes de que 
modo fe repartio a vito- 
ria da Bahta entre o Se- 
nhor , & o fervo , entre 
o Salvador, &; S, António^ 
digo, que na mefma Ba- 
hia temos a razaó da fe- 
fiielhança , & taó feme- 
Ihante , que naó pode fer 
mais natural , nem. mais 
própria. A Cidade da Ba- 
hia he Cidade do Saiva- 
-dor 5 & Bahia de Todos 
os Santos: de afílm como 
cm quanto Cidade do 



S. António, porque S. An- 
tónio fendo hum fò, he to- 
dos os Santos. Ora vede.' 
85 Todos os Santos 
do Ceo fe dividem em féis 
Gerarquias: Patriarchas, 
Profetas, Apoí]:olos,Mar- 
tyreSjConfeíToresjVirgés: 
8c em todas eftas Gerar- 
quias tem eminente lugar 
Santo António. Primei- 
ramente he Patriarcha 
íendo íilhode S. Francis- 
co, porque muitos dos fi- 
lhos do meí mo S. o tomi-» 
raô a ellepor Pay, 6c fe 
cbamaò Religiofos de S* 
António , quaes faó os de 
toda efta FroYincia . AlSaai 
G ij ' fò 



ioo Sermabde 

fe chamarão filhos de If- do os erros , alumiando 



tiUc 4 
34. 



rael os defcendentes de 
-Abraham,tomando o no- 
me, Screconhecêdo por feu 
im mediato Patriarcha a 
Jacob, naô fô íilho,mas ne- 
to do primeiro, &univer- 
fai Pay de todos. Foy S. 
António Profeta , como 
confta de tantas coufas 
futuras que antevio , & 
predice , naó fò perten- 
centes a efta vida, fenao 
também à eterna, revelan- 
dolhe Deos atè os fegre- 
dosoccultiílimos da pre- 
deftinaçaó das Almas. 
Nem fe confirma pouco 
a verdade deíle erpírito 



a cegueira , & quebran- 
tando o orgulho, a dure- 
za , & contumácia dos 
Hereges , por onde foy 
chamado MartelJo das he- 
regias : Terpetutts Hareti- 
corummallnis. Foy Mar- 
tyr, porque foy bufcar o 
martyrioa Africa,& pofto 
que naó derramou o fan- 
gue,taó martyrfoy como 
íe o derramara, porque 
fe Deos á\{Çç, a Abraham 
que naó perdoara a vida a 
feu filho pela vonta<le, & 
deliberação que tivera de 
o í^^cn^C2iT : NonpeperciftÍQ,,^, 
unigénito faio tuo propter ' -• 



protetico com a neceíTa- me-, naó menos fufpendeo 
na fuppofiçaó de Deos Deos o braço , ^ efpada 
o haver arrancado da ter- de Abraham para que naó 



ra onde nacéra , porque 
nemo Tropheta in patna 
fua. Foy Apoftolo , 6c 
Apoftolo de duas Provin- 
cias taó dilatadas como 
Itália , & França , naó 
fo pregando nellas depois 
de Chriílans a fê do Evan- 
gelho , & confirmandoa 
com infinitos , &proten- 
tofos milagres-, mascon- 
fucando , & convencen- 



e íecutaílc o golpe,do que 
teve ma.) nos alfanges, 
& femicarras dos Turcos 
para que na garganta, 6c 
peito aberto de António 
nao empregaífem a fua 
furia. Que foíle Confef- 
for, naó ha mifter prova. 
Mas a de fer perpetua- 
mente Virgem , he taó 
milagrofa, &fem igual, 
que fendo neceífarias 



SàmoAntmtê. lOí 

a S. Bento as efpinhas, & fenaó com hum fó , Tro^^ 
a S. Francifco os lagos en- í^r wí» , & propterDavid 
iregeiados para fe livrarem fervum meum-y cftc hum, 
das tentaçoens próprias y a naó podia fer outro,fenaò 



túnica que veília António, 
fó por tocar , ou fertoca- 
da na carne Virginal da- 
quelle corpo mais q An- 
gélico , baftava para que 
delia fugiíTem todas as 
tentaçoens contrarias à 
pureza, &:aos peccadores 
mais forte, ê^obftinada- 
mente tentados naò fó a- 
pagaííè o fogo infernal, 
mas geraíTe perpetua ca- 
ftidade. E eonib Santo 
António em todas as Ge- 
rarquias dos Santos, com 
os Patriarcas he Patriarca, 
com os Profetas Profeta, 
com os Apoftolos Apo- 
ftolo , com os Marryres 
Martyr , corh osConfeí- 
fores ConfeíTor , & com 
as Virgens Virgem : per- 
tencendo a todos os San- 
tos a defenfa da Bahia de 
Todos os Santosiêc fendo 
Deos prometido, que a 
gloria defta vitôrioía pro- 
tecção naó a havia de re- 
partir cora todos feus 
íervòs y ncfíi cèm muitos, 



S. António , aquelie San- 
to univerfal , que fendo 
hum fó na Pcflba , nos 
grãos & Gerarquias da 
Santidade era todos os 
Santos. 

84 Quando Barac Ca- 
pitão do Povo de Deos al- 
cançou aquellafamofa vi- 
toria contra Sifara Gene- 
ral dos exércitos del-Rey 
Jabin, diz o Texto Sagra- 
do , que as Eftrellasdo 
Ceo confervandoíe todas 
na fua ordem pelejarão 
contra Sifara: òtell£ ma- 
nentes inordine , & curfu^^^^^<;'^%'^- 
fuoadverfus Sífaram pug- 
naverunt. E do mefmo 
íTJodo concedo euj&con- 
feíTojque todos os Santos 
do Ceo,fem fe moverem 
do lugar, nem da ordem, 
cada hu da fua Gerarquia 
pbdiaò defender a noífa 
Cidade, & acodir à pro* 
tecçaí^, em que eila os ti- 
nha empenhado com o 
nome dê Bahia deTodos 
os Santos. Aílimofuppo« 
Giij nho 




m 



ÉÊM 



102 Sermaífde 

nho com q Real Prc^eta , eftas ? Saò no cafo prcfen^ 



o qual parece que naõ 
fô tinha profetizado , 
fenaó pintado a noíTa 
vitoria. Falia David 
de todos os Santos do 
Ceo dentro no mefmo 
Ceo, & diz que na boca 
tinhaó os louvores de 
DeoSj 6c nas maós asef- 
padas defembaiiihadas , 
para com ellas íe vinga- 
rem defeus inimigos, & 
rendidos , & maniatados 
os meterem debaixo dos 
pès : Exaitationes 'Dei m 
?r 149. gutture eonim^ irgladij an- 
cipites in manibus eorum : 
adfaciendam %Ú7iai^amin 
7iationíbuSiÍ7icrepa t tones in 
populis : ad alligandos Re- 
ges eorum in comp dihiiSyò' 
nobiles eorum in manicis 
ferreis. Que os Santos do 
Ceo fe empreguem todos 
em louvores de Deos,eíra 



6.7.Z. 



te as mefmasjcomq 05 nof- 
fos foldad os pelejarão, ôc 
vencerão. A efpadacomq 
Gedeaó pelejou, 6c véceo, 
chamavafe , Gladius 'Do- 
mínio & Gedeonis : Efpada 
deDcos, Sc de Gedeaó. E 
porque.^Porque no mefmo 
ten po era meneada por 
duas maós : viíívelmentc 
pela maó de Gedeaó, ôc 
inviíiv^el mente pela ma6 
de Deos. Do mefmo mo- 
do no noíTo cafo. As ar- 
mas com que vence- 
mos o inimigo , viíi- 
vel mente eraó meneadas 
pelas maós dos noíTos Tol- 
dados na terra , 6cinviíi- 
velmente pelas maós de 
todos os Santos no Ceo: 
Et gladij ancipites in ma* 
nibus eorum. E porque eílas 
maós invifiveis de todos 
os Santos eraó as que 



he a ditofa occupaçaó da- principalmente nos dcraó 
quella Pátria bemaventu- a vitoria, por iflb conclue 



rada : mas que juntamente 
eílejaó com as efpadas 
defembainhadasnas maós 
para pelejarem, 6c vence- 
rem feus inimigos ; que 
•efpadas faò, ou podem íer 



cxcellentemente o Profe- 
ta, que a gloria da mefma [,^'^^9 
vitoria he de todos os San- 
tos: G oriahac ejtomnibus 
Sanais ejus. 

bj Bcni fupponho eu 
logo. 






Santo 
logo , & devemos fuppor 
todos, que todos os San- 
tos do Cco por fy mcfmos 
podiaó defender a noíía > 
ou a fua Bahia de Todos 
os Santos. Mas conioDeos 
tinha demittido dcfy, & 
dedicado a parte defta 
protecção , &deí]^a gloria 
á hum fô S^inm^é' Propter 
^avid fer-vum meumy ne- 
nhum outro podia rér,co- 
mo foyjfenão Santo An- 
tónio , pela eminência 
com que efte Santo con- 
tem cm fy as Gerarquias, 
& dignidades de todos. E 
fe na univerfalidade do 
Texto de David feria gra- 
de gloria de todos os San- 
tos, fe todos có CO rreflem 
por fy mefmos para a de- 
fenfa, 8c vitoria da Bahia 
deTodos os Santosjmayor 
gloria foy na íingularida- 
de do noílò, queamefma 
Bahia de Todos os Santos 
adefendeíle hum fó San- 
to •, mas hum Santo, que 
fendo hum rô,he todos os 
Santos: Gloria hac ejiom^ 
nihus Sanais ejus. 



Antónia, 



U 



lOJ 



í. IV. 



Emos vifto em 



commum a de- 



T 

fenfa, &'vitoria da'noíía 
Cidade da Bahia reparti- 
da entre o Salvador , & 
Santo António : entre o 
Salvador , como Cidade 
do Salvador, & entre San- 
to António, como Bahia 
de Todos os Santos. De- 
çamos agora ao particii- 
iars Be alegremos os ouvi- 
dos, com que ouçaó com 
certeza,&íègurança,o que 
os olhos teftim unharão 
naó fem duvidajôc receyo. 
O Texto do noíTo Them^j 
tresladado ao Capitulo 
19. do quarta livro dos 
Reys, foy tirado do Cap. 
3 7. de J faias , o qual co- 
mo Hiíloriador efcreveo 
o fucccíTodofitiodeJeru- 
falem , &: como Profeca 
pintou neile o da Bahia. E 
para que naó falraíle tam- 
bém ao ofíicio de Comen- 
tador, & Interprete , no 
Capítulo 26. cantando a 
vitoria da Cidade que 
tem pomo me Salvador, 
G iiij diz , 



B 



«I 



^^4» Sermão 

à:v7.y qucparafuafeguran- 
^ ça 5 & fortaleza Ic porá 
t^C:í.s. nella o muro', & o anre- 
'• murai : Vrbs fortitudims 
nofira Salvator , ponetur 
in ea mtírus , & antemura- 
Í€. Em frafe da milícia an- 
tiga,© muro íignificava a 
fortificação mais eílreita, 
&do recinto da Cidade , 
& o antemural,as que ho- 
je fe cha maó fortificações, 
ou obras exteriores,quea 
defendem no largo. Aílim 
que propriamente no nof- 
ío caro,o muro da Cidade 
da Bahia foy o Salvador, 
& o antemural,Santo An- 
tónio. Ouçamos agora có 
eíla mefma divifao,quam 
feguramente nos defen- 
deo dos inimigos o muro, 
& quam fortemente os le- 
íiílio, & rebateo o ante- 
mural. 

87 Em trescoufascon- 
iiftioa fegurança,queDcos 
prometeo a Jerulàlemna 
mvafaó do exercito ini- 
migo. Primeira, que ellc 
4 Rce. naó entraria na Cida- 
'^•^^' de: Koningreàietur urbcm 
hanc : Segunda, que naò 
knçaria dentro nella as 



de 



fuás fcttas : Nec mittetin 
eam fagittam : Terceira, 
que a naó poria de cercor 
Nec circudahít eam mum- "^''J« 
tio: Sc tudofe cumpriocó 
maravilhofas circunílan- 
cias no noífo cafo. Primei- 
ramête nac entrou o inimi- 
go na nofia Cidade , antes 
eílevetaó longe de entrar, 
& nós taó feguros de que 
elleentrane,qem todos os 
quarenta dias do com bare, 
aíiim de dia,como denoi- 
tejfempre eíiiremos com 
as portas abertas. Nirto 
moítrou bem a Cidade do. 
Salvador, que o feu Salva- 
dor, & dtfenforera Dcos, 
porque fu Deos pôde im- 
pedir, &z cerrar as ent;a- 
das com portas abertas. 
Hua óàs coufas notáveis 
que lemos no livro de Job, 
he que Deos cerrou as 
portas ao mar, para que 
naò enrraíTe pela terra : 
^^7' concliiJLt ojhjstnare. E [. ^ 3* 
acrecenta o mefmoDeos, 
que eíTas portas do mar as 
tem muito bem ferrolha- , 
das, & muito bem tranca- f 
das: Ct. cumdedi illiidter''^'' • 
mÍ7Ús meisji^ pofui veffttny 
& 



\ ' ^ 



Santo António, lOf 

^ oflia. Agora pergunto: vra do Salvador , poílo 

O mar naó eíiá aberto por que a nòsoccnXtz-.Monin' 

todas as partes ? fcntre gndtettirurbem hancN^ò 

o mar, & aterra haaigúa ha de entrar nef^a Cida- 

cou{a,quelheimpidaoen- de: & com eílefeguroda 

trar , & palfar adiante ? divina protecção cH-avaô 



Todos vemos que nao. 
Que portas íaólogoeílas, 
& que ferrolhos , com que 
cftaó taõ cerradas, Ôc taô 
feguras ? O mefmoDeos 
o diz: Et dixt\ Ufquehuc 
i.ii venieSy írnon procedes am- 
plius: Eu diífeao mar: Atê- 
qui chegaras, & naó paíTa- 
rás daqui : & eiia minha 
palavra íaó as portas íem 
partas, com que eílando 
aberto o mar em todas as 
prayas do mundo , o te- 
nho taõ Fechada , & fer- 
Folbado a elfe, & aterra 
taó íegura , que por mais 
bravo que a ameace, naó 
pôde dar hum paííb a- 
dianre : RonprocediS am-^ 
píius. Sabeis , Senhores > 
quem deo tanta feguran- 
^a à noíla Cidade , que 
combatida do inimigo 



as noflas portas abefas 
taó forte, & taó inexpug- 
nável mente cerradas, que 
naó ouve anciíramente a- 
rietes , nem ha moder- 
namente petardos, ou ou- 
tros inílru mentos, & ma- 
chinas bellicas , que po- 
deíFem abrir na fua meíma 
abertura a menor brecha. 
88 A fegunda promeíTa 
de Deosfoy, Mec mittet 
in eam fagtttam , que o 
inimigo naó lançaria den- 
tro na Cidade as Tuas {tt-* 
tas. Efte género de guerra 
tem muito mais d íffi cul- 
to fo repa roy porq voando 
as fettas por cima dos mu- 
ros, caem pela parte do 
Ceo fobre os que eílaó dê- 
tro. No mefmo livro de 
Job pouco antes allegado 
faz mençaó a Efcritura 



menção a 
fempre eftiveffe com as Sagrada de guerra chovi- 
portas abertas de dia, & da: 'Pliiat juper illum beWT^ 
de noite ? Foy unicamen- Imn fuum. E q guerra cho- 
te aquella poderofa pala- vrida he eíla .<^ He aquella, 

cujos 



w 






ob 20. 



ict; 



Sermão de 



Pf.io.r, 



cujos tiros vem peia par- 
te do Ceo. \^ç:{kz% tiros 
diíTe David : Thiet fnpcr 
■peccatores laqueos'. & taes 
foraó os tiros , 6c as bailas, 
que choverão ícbreanof- 
fa Cidade,depois que oi- 
nimigo aiTenrou as fuás 
batarias. As ballas,que fe 
atiravaó às noíTas trin- 
cheyras por linha tenden- 
te, & a ponto fixo, ordi- 
nariamente íicavaó en- 
terradas nas mefmastrin- 
cheyras ; mas as que fe 
lançavaó contra a Cida- 
de, como hiaó por eleva- 
ção, voavaó por cima dos 
muros , & cahiaó como 
chuva do Ceo , fem ne- 
nhum reparo humano , 
mas com milagrofos ef- 
feitos da protecção divi- 
na. §lui habitat inadjut O' 
rio AltiJJimi , inproteõtio- 
TC.g0.ut2e T>ei Ca: li commorahjtnr\ 
Aquelles, diz David , a 
quem defende o Aitifli- 
mo , moraráófcguros de- 
baixo da protecção do 
Deos do Ceo. Notay a 
palavra commorabitnr^ç^Q 
fignifica morar juntos, 6c 
falia particularmeiíce do5 



moradores da Cidade. 
Mas porque chama nefta 
occaíiaó o Profeta a Deos 
o Altiííimo, & o Deos do 
Ceo.^ Forqueaindaqueas 
balias podiaó paífar por 
cima dos muros altos, naó 
podiaó avançar arè o Al- 
tiííimo que os defendia : 
^li habitat iyi adjutorio 
AltiJJimi'. & ainda que ca- 
hiaó , ou choviaó pela 
parte do Ceo, naó podiaó 
offender aos que eílavaó 
debaixo da protecção do 
Deos do Ceo: Inprotcãío- 
ne Dei Coeli commorabitur. 
A/Iim foy. Os tiros da ar- 
telharia inimiga que fe 
conráraó , foraó mais de 
mil <Sc féis centos, & cho- 
vendo a mayor parte del- 
les fobre a Cidade j que 
faziaó.<^ Huns cahiaó íal- 
tando, & rodavaó furiofa- 
mcnte pelas ruas, & pra- 
ças : outros rompiaò as 
paredes , outros ueíiron- 
cavaóos telhados ,dcrpc- 
dindo outras tantas bailas, 
quantas eraó as pedras, (Sc 
as telhas: & foy coula ver- 
dadeiramente iniugroíu, 
que a ncnhúa peíiua ma- 
ta fiem, 



Santo António. 107 

taíTem, nemPeâíTeni, né go fazia à Cidade ; mas 



ainda tocaíTcrn dentro da 
Cidadejfendo q chegarão 
a levar, ou defpir a algCias 
ainda as roupas mais in- 
teriores , mas fem nódoa, 
nem final nos corpos. E 
para mayor exceíTo da 
maravilha,quando as bal- 
las,que choviaó por eleva- 
ção na Cidade, nenhum 
dano íizeraó nos mora- 
dores, he certo que as nof- 



ella Iherefpondia muitoà 
Portugueza: porque rece- 
bendo raó pouco dano da 
chuva das íuas balias, co- 
mo refoffe deagua,ano0a, 
o executava nelles tao; 
verdadeiro como de fogo, 
& ferro. Ellesbrindavao 
ànoíTa faude^, ôcnôsàfua 
morte. 

89 A terceira claufula. 
dapromeíTa divina foy. 



faseie brinas,que tambê q o inimigo naô poria de 
jugavaó por elevação def- cerco a Cidade: Neccir-, 



de as portas da Sèjcahindo 
no valle onde o inimigo 
tinha aíTentado o feu ar- 
rayal, matàraó muitos dos 
Hereges. Naó deixarey 
de continuar aquio Tex- 
to que. referi de David, 
em q já falia nos tiros que 
chovem do Cep ,& de- 
clarando- os como fe def- 
crevem osdapoivora,diz, 
que he huma tempeftade 
de fogo, 5i enxofre dada 



cumdabit eam munttio'.^. 
aííim o vimos comprido. 
Se o inimigo queria ren- 
der a Cidade por aíTedio, 
porque a naõ cingio , & 
cerrou por fora com as Xy-^ 
nhãs de circumvalaçaó ;. 
porqao menos naó inten- 
tou fortificaríe nas cres e- 
minencias que a dominaój 
mas fe reduzio todo ahú 
quartel ? Aqui íe vê a pro- 
videncia , êc previdência 
do noiTo divino defenfor. 



a beber em hum copo 

Ignisy éy Julphur , &fptri- & como começou a átf^a 

o. j tus procellarumpars c alieis der, & fegurar a Ba hia dé- 

eorum. NotQÍe muito o troem Pernambuco. O 

calicis eamm. Eftes eraó primeiro lugar,em que o 

os brindes que o Fiamea- animigo fe perdeo > foy a 

Cl- 



'i. 



^ 



1ÍI 



io8 ■ Ser 

Cidiidcque clle chamou 
de feu ncme Mauric!a,& 
a primeira acçaò foyofcu 
próprio comelho. 'Pòdc 
haver mayorerro rriilitar, 
que impoílibíliraírprirtiei- 
ro a vicoriaj& depois em- 
prender a guerra ? Pois 
iílo he o que fez o Gene- 
ral Olaiidez, mais como 
obediente às difpofiçoens 
do noíío foberano defcn- 
for, que como Capitão , 
nem Soldado. Determi- 
naconquiilar a Bahia, & 
refolve de arrancar pri- 
meiro de Cerigipe del- 
Rey as reliquias da í xcr- 
cito Pernambucano que 
alli eílavaó alojadas , & 
eonílavaó de mil, & du- 
zentos Toldados , endure- 
cidos em tantos trabalhos, 
& campanhas, que eraó os 
oíTos da guerra , & por feu 
valor, &: experiência me- 
recedores de fer venera- 
dos como relíquias. Se 
Deos naó cerrara os olhos 
aeíle confclho, veriaó os 
menos cegos no feu meí- 
mo Leaó Belgico, comas 
fete lettas juntas todas em 
húaiiuaò, quam poderofas 



f^aÕ de 

faó as Forças unidas para 
refií1:ír. E"íe as fuás mef- 
m«s Províncias para rcíi- 
ftirao maispoderofoMo- 
narqua tomarão o nome 
deProvincias unidas,ram- 
bem as noíTas milícias u- 
nidas refiíliriaó mais facil- 
mente à fua , fe deixaíTc 
em pazahuas, & pelejaf- 
fe com as outras fepara-i 
das , & divididas. Mas 
naó' he ccufa nova em 
Deosjquando quer desba- 
ratar os effeitos, corrom- 
per os coníelhos. Arran- 
cado pois de Cerigipe 
aquelle famofo troço de 
foldados5& Cabos.a quem 
a fortuna adverfa na fua 
roda tinha lavrado como 
fortiíTimos diamantes, & i 
encorporados com os dô 
noílb prefidio menos ex- 
ercitados, mas não menos 
valerofos , alentada com 
eíla fegunda, & nova Al- 
ma a Bahia , logo ficou 
mais certa da vitoria, que 
receofa da guerra. Tal 
foy oeílado,em que o ini- 
migo achou a noíla Cida- 
de, & por iífo conforme a 
promeífa divina fenaó a- 
trevea 



Santo António. 109 

tre\reo a lhe pôr cerco: ra, ficiadas dos inimigo 



Jslec circumdabit eam mu- 
nitio-y masenfinadonoíeu 
próprio erro, reconhecen- 
do o rifco aqíie fe expu- 
nha fe dividiiTe as forças, 
tratou de as confervar u- 
nidas. 

90 Mas como poderá 
a noíTa Cidade dar as de- 
vidas graças a feu Salva- 
dor pela abundância com 



a mefma Jerufalem , 6c 
outras Cidades de ífrael, 
em que checarão os ho- 
mens a fe íuftencar dos 
couros das arca^ , & das. 
íòlas dos çapatosr &^^ 
outras couías que íiaoi 
tem nome, ainda mais 
indecentes » obrigando a. 
fúria da fome ate às mef-- 
mas mâys , a quecomef-^ 



que a fuítentoujôc confer- fem feus próprios íil hos. £ 
vou nefte meyo cerco y nós eíliyemos taó fora 



o que naó poaera fer,fe 
foíTe cerrado? David co- 
mo taó cortado dos tra 
balhos»& apertos da guer- 
ra 5 o que pedia a Deos, & 
exhortava a todos lhe p-e- 
diíTemjhe, que deífe paz à 
Cidade dejerufalemjpara 
que nella , & fuás forta- 
lezas ouveíTe abundância 
doneceirario. /^/7^^/é' qu£ 



de pedir a Deos paz,para^ 
que nos naó falcaíTe a 
abundância do íuftentay 
que em todo o tempo da 
guerra naó fò fe fudeata- 
raó os que nos fuítenta- 
vaó de carne feraprefreí- 
ca , nem fò abundava 
a Cidade de todos os baíli- 
raentos naturaes da terra ^ 
ainda os mais hortenfes , 



ad pacem funt lerufalem^ & verdes 5 mas fem figura 



ér abundantia dilígentibus^ 
te\ fiatfax. invirtute tua^ 
if aoundantia in turri- 
bus tuis, £ a razaó deftas 
inftancias taó repetidas 
de paz 5 & mais paz , 

era pela experiência da & qual he ? He dizendo, 
que padecèraã n^ guer- que quanto fe acha em 

Lis-- 



algúade encarecimento, 
poíto que fobre todas as 
da admiraçaó,humfò ter- 
mo meoccorre de fe po- 
der declarar a verdade da 
abundância q logramos: 



i# 






■rf^tif 



r 



1 1 Sermão de 

Lisboa defclé S. Paulo até 
aConfeicnria,&: Ribeira, 
aílini do Reynojcomode 
fora dellci tudo le via a- 
berto , & expoílo em cada 
hua das vendas da Bahia, 
fendo tantaSj&íem a guer- 
ra lhe alterar os preços. 
Naó fò taó abundante , 
& fuperabundan temente 
proveo o Salvador a fua 
Cidade, mas com tantas 
prevençoens de mimo,&: 
regalo, que quando Oian- 
da lhe fazia a guerra , to- 
da Europa a fervifleà me- 
fa. 



5. V. 

pi A Têqui temos vi- 
í^^ fto a parte da vi- 
toria , 6c defenfa da Cida- 
de qu£ tocou ao Senhor, 
Qpropterme } que foy o 
muro. Agora veremos a 
que tocou ao fervo Q & 
propter fervum meurn) que 
foy o antemural. Neíla 
paílagem porem do muro 
ao antemural , a mcfma 
que dos muros adentro 
parecia paz , delles afora 
mudou uatjo defemblaa- 



'93i 



te 5 & trajo, que a catadu- 
ra como verdadeiramente 
de guerra, era chea de fe- 
reza, & de horror, &as 
roupas naó inteiras, mas 
rafgadas,tíntas todas em 
fangue. O noflo texto fô 
refere , ou promete em 
fumma o fucccíFo, 6c diz 
que o inimigo defengana* 
do da emprefa , tornará 
por onde vcyo'. Per vi atUy^^-J^^ 
qua venityrevertetur. Ifto ' ' 
he o que nòs agora mais 
íbcegadamente havemos 
de ver. E naó fô veremos 
o viílo , fenaó também o 
inviíivel , porque fe verá 
manifeftamente afortiíli- 
ma reíiíl-encia do noííb an- 
temural, &quamaponto 
pelejou femprepornòs,& 
com-nofco onoíTo fcgun- 
do defenfor S. António. 

92 Eraó as horas do 
meyo dia, quando o ini- 
migo com todo feu po- 
der appareceo em marcha 
no monte fronteiro a eílc, 
paó havendo ntlle outra 
prevenção de defenfa 
mais que os velligios de 
hõa trincheira rorarôc quã- 
do fe prefumia que paf. 
fan^ 



Santo Antanm. 1 1 \ 

fando adiante , naquclle zcr outra naó minha, fe- 
mefmodia refentenciaílê naõ de David. Quando 
o pleito em húa bem con- os filhos de Ifrael chega- 




raó às ribeiras do Jordaô, 
o Rio, que levava fua co- 
ílumada corrente,na5 íò 
parou 5 mas voltou atraz, 
Admiráraòfe todos de tao 
defufado prodígio 5 6c 



fufa batalha (^ porque a 
inda naò eítava pofla em 
ordem a confufaõ^j fubi- 
tamente vimos que as 
bandeiras,que vinhaó tu\- 
didasjnemíe avançavaõ, 

nemfaziaó alto, mas vol« David que quiz exami- 
tando o paíTo no mefmo nar a cauía, perguntou-ap^^^^^ 
Jugar deciaó, 5c feefcon- aomefmoílioi^/ár^/íi^i^. 
diaó para o valleondcaf- Yn^^^ quod fugiftt , & tu 
fencàrao o feu arrayai. A- 
gora pergunto : Forque 
náo continuou a marcha o 
inimigo ? Se depois que 
teve as forças mais can» 
çadasi & áimínuiásis nos 
acometeo com tanta re- 
foluçaò 5 agora que as traz 
frefcaS} & inteiras, porque 
nos naõ acomete? Se de- 
pois que eílivemos forti-; 
íicados, enveftio denoda- 
daaieiue as noíías trin- 
chejras , êcaspretendeo 
levar à efcala, & render- 
nos dentro nellas y agora 
que nos acha defcubertos> 
& íem defenfa , porque 

em vez de avançar fe re- Arca do Deos de Jacob , 
tira ? Antes derefponder efta fubita viíla lhe infun- 
a eíta perguata , quero fa- dio tal refpeitOa & tal te- 

morg 



lordams^quia converfus es 
retrarfum? Que a parte in- 
ferior do Rio corra ao 
mar, iíTo he natureza j 
mas queafuperior, quefe 
vem precipitando com 
todo o pezo das aguas,pá- 
rejSc torne atraz? Se para, 
que a ceve mao ? E íe tor* 
na atraz, quem lhe tirou 
pelas rédeas ? Omeímo 
Profeta refponde: Afâcie^^à.ji 
1^0 mini mota eft terra , k 
facie Z>çi lacúb : Na van- 
guarda do exercito dos If- 
rael itas marchava a Arca 
do Tefl:amento,& tanto <j 
o Rio deo de roílo coma 



í 1 2 Sermão 

mor, que naó fò parou a 
corrente, mas voltou a- 
traz: lorOa^ísconverfus es 
retrorfiim. Tem rerpondi- 
<lo David à fua pergufita, 
6c também à minha. S. 
-António. por authoridade 
& canonização do fupre- 
itio Oráculo da Igreja,he 
a Arca do Teftamento. 
i^ílim lhe chamou o Sumo 
Pontiíice , reconhecendo 
pela voz de fua mais que 
humana eloquência os 
profundiíTimos myfterios 
da divindade que naquel- 
la grande Alma eftavaó 
encerrados : Tantamqtie 
fui admirationem cÕmovity 
ut eum Summus ^Fontifex 
altquando concionanté au- 
diens , Arcam Tejiamenti 
appellarit. Pois affim co- 
mo o ímpeto do Jordaó, 
tanto que aviftou a Arca 
do Teftamento, parou, Ôc 
tornou atraz com a fua 
corrente -jaílim o orgulho 
do exercito inimigo, tan- 
to que do monte oppoíio 
defcobrio o de S. Antó- 
nio, naó fo foy obrigado 
defta vifta a fazer alto , 
nias a voltar a marcha que 



de 



trazia. He verdade que 
elle naó conheceo , nem 
podia conhecer a força 
cccultaqueodetinha^mas 
também o Jordaó a naó 
conheceo , nem podia 
conhecer , & com tudo 
he certo que ella o dete- 
ve. 

93 Aíais fez na tarde 
defte mryo dia S. Antó- 
nio. Faraes foraó as horas 
que ella durou , &chega- 
riaó atè a ultima fatalida- 
de, fenaó ouveramaóoc- 
culta que inviíivelmente 
aimpediíle. Defendiaó a 
marinha nas raizes do 
monte oppoíio o forte do 
Rofario , & o reduto da 
Agua dos mininos ; mas 
dominados do fitio fupc- 
rior que pela parte da ter- 
ra tinha occupado o ini- 
migo, como incapazes de 
toda a defenfa,rebentada 
a artelharia que foypoíll- 
vel , lhe ficarão logo fo- 
geitos. Cortados do raef- 
mo modo os dous fortes 
de Monferrate , & Saó 
Bartholomeu, com igual 
preífa fe renderão , fcm 
preceder ao menos a ce^ 
re- 



»■ A^- 



Santo António ] 113 

remon"a militar da reíi- eílefòtiró, qlie podia pa- 



ílencia , . que ainda nas 
praças condenadas pede a 
cortefia da guerra. E quem 
naó cuidaria à viíla de- 
íle deícmparo , que o a- 
coute do Braíil, que tínha- 
mos â viíla , era menea- 
do pelo braço da divina 
juftiça, a qual neíles pri- 
meiros golpes deícarrega- 
<ios fobre as coílas da Ba- 
hia , fem movimento feuj 
mais que os da dor, Ihea- 
meaçava a total, 6c breve 
ruina? Mas naò era menos 
digno de admiração , que 
no mefmo tempo,em que 
as praças fortes artilna- 



recer reclamo aos contrá- 
rios, para que a mandaí- 
fem render , naó fò íe mo- 
ílrouonoílb defenforfoi:- 
te contra elles,íenaó tan^- 
bem contra Deos. 

94, Saó termos de que 
ufou o mefmo Deos , di- 
zendo a Jacob : Si contra 
'Deumfortis fuiBi ^ quan- 
to magts contra homines cen 32^ 
pr£valebis ? Se folie forte "'" 
contra Deos, quanto mais 
facilmente prevalecerás 
contra os homens? Na fa- 
cilidade com que as outras 
fortalezas fe en tregàraó ao ; 
inimigo moílrou Deos 



jdas, & preíidiadas5efpon- quam facilméte Ihepodia 
taneamente fe entrega- também entregar as de- 



vaó-, fó a trincheirinha de 
S. António, arruinada, a- 
bcrta, &: quaíi raza com a 
terra moftraíTè eípiritos 
de reíiílencia ! Puzemos 
em húa das fuás aberturas 
hum a unica peça aíTenta- 
da fobre a terra nua, , & 
xieíigual, fem efplanada , 
ou outro pavimento íixo 
em que pudeíTe correr, & 
poílo que ao defpararfe 
fin terra vao as rodas? coru 
Tom, 80 



mais,& caíligar toda a Ba- 
hia na refoluçaó có que a 
trincheirinhaarruinadade 
S. António fe oppoz tao 
fortemente à refirtencia, 
nosaífegurou q fó o mef- 
mo S. era poderofo para 
ter maó no braço de fua ju- 
íliça,para nosnao caliigar. 
E m hú a, k ou tra cou f i fal- 
lo pela boca da Efcritura. 
Marchava Saul com hum 
exercito de dez mil homês 
H cm 




Í14 Sermão de 

cm demanda de David : mente he nefga} para qu€ 



retiroufe a cafo a húa co- 
vaj&quizfua fortuna que 
nella eftava efcondido o 
mefmo David , que taó 
capaz era. Eya David , 
lhe dizemos companhei- 
ros : Ecce á tes de qtia locu- 
» ^^%'tus eft T>ominus adtcEgo 
"*■ ^* tradam tibi inimicum tuú \ 
Efte heodia em q Decscé 
prometidode vosentregar 
nas maós voíTo inimigo, 
para que vos vingueis aos 
aggravosjque vos tem fei- 
to. Levantafe David , & 
que vos parece .que faria? 
JbiJem. ^Fracídit oram chlamydis 
Séiuk Contentoufefómen- 



entendeíTemos ,queaflim 
como entregou húa parte 
ao Olandez femlhecuftar 
duas onças de pólvora , 
com a mefma facilidade 
lhe poderá entregar tudo. 
9)" Mas fe o naó exe- 
cutou aflim Deosjfoy por- 
que S. António, que nas 
ruinas da fua trincheira 
refíília vifivelmentCjdefy 
para com o mefmo Deos 
lhe fez taó forte > ôc po- 
dcrofa reíiílencia, que lhe 
teve maòno braçojparaq 
nos naó cafl:igaíre,como a- 
meaçava , & podia j antes 
em lugar do caftigo nos 



te com cortar húa nefga deíTe a vitoria. Vay acu- 
da capa de Saul : & para tra Efcritura. Quiz Deos 



que ? Para naquellc reta 
lho cortado tanto a feu 
falvo lhe moílrar qua m fa- 
cilmente lhe poderá tirar 
a vida, & acabar comel- 
le de húa vez. Porque fe 
entregarão, Senhores 5 ef- 
foutras fortalezas? Porqu c 
fe viraó cortadas do ini- 
migo. E contencoufe Deos 
de cortara Bahia eíTa nef- 
ga de terra Cque cm for- 
ma triangular propria- 



naó caftigar, masdeftruir 
cabalmente o Povo, que 
fe chamava feu, & como 
por parte do mefmo Povo 
íe oppuzeíTe Moyfês a 
eíla refoluçaó,refere o ca- 
fo o Real Profeta , & faó 
ertas as fuás palavras. 2);- 
xit ut difperderet ees^finon 
Moyfes eleãus ejus Jletifftt 
inconfraãione^dejíyinruf^ pí- " 
tura murf '.Decretou Deos, ^^' 
& diíle que os havia de 
de- 



SmtoAntorãi. nf 

dcílriur,5cacabaratodosj tem nos braços? O certo 
ficaíTim havia de fer fem he q lhe diria como Jacob: 
duvida , fe Moyíês feu Nondimittamte^niji bem-^ 
grande valido lhe naõre- dixeris mihi : & a benção 



fidiíTe : & onde ? in con- 
fraãmie^ in rupturamuri^ 
nasruinasdo muro desba- 
ratado , & roto. Pode ha- 
ver propriedade mais pró- 
pria? róis ainda foy mais 
própria no noíTo cafojque 
no de Moyfes. Porque no 
de Moyfêshemetafora,& 
nonoíTo foy pura,& mera 
realidade. Bem vimos os 
veftigios da pobre trin- 
cheira velha, abertajdes- 
feita, arruinada, rota. Mas 
como era de S. António, 
dalli reíiftio o noíTo defen- 
for,naòdigo ao inimigo , 
fenaó a De os , que fenaó 



que alcançou , fencio tao ^^, 
forte contra Deos, foy, 
que muito melhor preva- 
leceria contra os homens, 
como moftrou o eíFeito. 



9^ 



^. VI. 

EM quanto o ini- 
migo trabalhava 
nas luas batarias , crecia 
tanto a noíTa trincheira , 
quanto neile o ciúme de a 
ver crecer. Determinado 
de ganhar o poílo, a enve- 
ftio de repente com mais 
de mil clavinas acõpanha- 
das da efcuridade da noite 



fora meneado por Deos, fempre traydora ao vaior 

naó era nada o poder do qfe funda na honra menos 

inimigo. De Moy fês diZ cóíláte, onde naó hevifta. 

o Texto que lhe dizia AíTim fe exprimentou na 

Dcos:1>ímitteme^utíraf confufaó das primeiras 

catur furor meus-. Moy fés, cargas : mas acodindo os 

deixame , deixame cafti- de mayores obrigações ao 

gar. Efe Moyíês, que efta- reparo, retirados logo os 

va poftrado aos pès de combatentes, amanhecê- 

Decs,tanto o apertava có raó com a luz do dia eften- 

as fuás refiílencias 5 que didosnacãpanha,osqnaó 

faria o noíTo SantQ>queo podèiaó retirar comfigo. 

H ij Naó 



s'Sp>fc5*r 



^^^ ^ , Sírrdãõ de 

Nao podia fofrcr a noíTa dezes ajuranientados de 



NKf 



!i- ... 



«» ' 



biznrra infantaria, nem os 
Cabo.c menores, &: mayo- 
res delia, q ro/Temos Reos, 
onde derejavaó fcr auto- 
res. Todos clamavaóque 
inveíhfemos o inimigo 
nos feus quartèís,onde foy 
neceíTaria ao governo das 
nofias armas toda a paciê- 
cia)& prudência de Fábio 
Máximo, Cu jus non dimi- 
care Oincere fuii -^ como 
deíle dizyaieriotambcm 
Máximo. Obedecendo 
com tudo ao defejoy&voz 
comum , fe decretou de 
publico o aííaíco para a 
madrugada da Afcençaó, 
mas de fecreto fe tocou 
húa arma falfajcom que fa- 
zendofe entender que os 
nofibs intentos eraò def- 
cubertos ao inimígo,re de- 
íiílio felizmente delles. 
Havia de fer o mefmo ini- 
migo o agreíTor, para q no 
fucceíTo da fua perda total 
reconheceíTemos o perigo 
danoíFa. Chegou em fim 
a noite decretoria , &: fatal 
de 1 8. de Mayo,cm que a- 
comcteraõ a requeíhda 
trincheira três mil Olaa- 



ou a ganhar, ou morrer; 
àos quaes muitos compri- 
raóafegunda parte do ju- 
ramento, mias nenhú a pri- 
meira. Epoífo que depois 
foraófocorridoscom todo 
ogro fio do exercito, fendo 
jà na campanha batalha, o 
qna trincheira era aífalto, 
^ durando a porfia do có- 
bate três horas inteiras, 
foy o {wcc(í{^o taó de/igual, ' 
que elles fem efcrupulo de 
perjuros, em boa concien* 
cia fe retirarão vccidos, & 
nos concedendolhe q le-' 
vaílem os feus mortos a fe- 
pultarem míji tas carroça- 
das, celebramos cò íalvas, 
& repiques a memorável 
vitoria O.smefmosOian- 
dezes còfeíriraó, fegúdo o 
feu mododecótarjq entre 
mortos ,'& Feridos perde- 
rão naqucila noite vinte 
& oito centos. Vede fe 
foy memorável. 

P7 Mas eu também ve- 
jo que ef!ais efperanda 
ouvir aparte que neila te- 
ve S. Antonioemhum,6c 
outro allàlto. Sou conten- 
te ; 6c nau vos ha de faltar 
a£f^ 



L.. 



Santo António, ir 7 

a' Ercritiira Sagrada com mtení 'D^gon^ & du£paí' 

toda a propriedade do ca- ma mdnuuni ejus ab/ciff^ 

íb. Levada a Arca do Te- èrant fuper llmm. De ma- 

llamento à Cidade de A- íieira que a Arca , &- o Da- 

zoto , puzeraó-na os Fili- gon tiveraó dous comba- 

fteos no Templo junto ao tes em duas noites diffe- 

feu ídolo Dagon,para que rentes , & em ambas ficoii 

pareceíTe trofêo , &: deí- a Arca vencedora , & na 

pojo do mefmo Idoio. fegunda com muito ma- 

Feico ifto de dia ,0 que a Yor,& total vitoria. Vamos 

Arca fez de noite foy,que agora à fignificaçaò deíles 

amanheceo o ídolo po^ dous combates. A Arca 



Reg 



ílrado por terra diante 
à^iW.Etecce T>agonjace' 
hat pronus in terra ante 
Arcam T)omm. Admira- 
dos, & fentidos, mas naó 
defenganados da vaidade 
do feu erro os Filifteos, 
tornarão areftituir oldo- 
lo ao feu lugar : porem 
fobrevindo a noite, fe na 
paíTada lhe tinha fucce- 
dido mal, muito peor lhe 
fuccedeo na feguinte j 
porque com a luz da ma- 
nhã , naó fò appareceo o 
Dagon poftrado por ter- 
ra, mas com a cabeça , & 
ãs maós cortadas, & lan- 
çadas aporta do Templo: 
Invenerunt T^agon jacen- 
tem fuper faciem fuam co- 
rmn Arca ^omini : caput 
í -Tom.S. 



do Teíla mento jà (abe- 
mos que he Santo Antó- 
nio: o Dagon quem fera .^ 
Entre todas as naçoens do 
mundo , nenhúa fe acha^ 
ramais propriamente re-» 
prefentada nelleque a O-» 
landeza. A figura doldola 
Dagô, como diz SJeroni-^ 
mo, & os outros Interpre- 
tes , era de meyo homem, 
& meyo pexe : &: tal he 
aterra de Olanda poríi- 
tio, 6c por exercício , êc 
modo de viver, taes faò 
os feus habitadores. Toda 
aterra he rctalha4a do 
mar , com que juntamen- 
te vem afer mar,&terra, 
6f os homens, a quem po- 
demos chamar marinhos* 
&terreftes, tanto vivem, 
Hiij em 



f 



-»l 






'18 Sermão de 

em hum elemento, como pexes 
no outro. As fuás ruas por 
húa parte fe andaó, & por 
outra fe navegaó, & tanto 
apparecem fobre os telha- 
dos os maíios , & as ban- 
deiras, como entre os ma- 
ftos, & as bandeiras ^s tor^ 
res. Sendo taó efteril a 
terra, que fomente produz 
feno, as arvores dos feus 
navios fecas , U fem raizes 
a fazem abundante de to-, 
dos os frutos do mundo. 
Em muitas partes toma o 
navio porto à porta de feu 
dono, amarrandofeaella, 
& defte modo vem a cafa 
a fera ancora do navio,8c 
o navio ametade da cafa, 
de que igualmente ufaó. 
Aos animaes que vivem 
no mar , & na terra cha- 
marão os Gregos Amphi- 
bios:&: quem poderá ne- 
gar, que taó Amphibioera 
o Dagonjcomo osOlande- 
zes, 6c taó compoílos de 
pexe , 6c homem os O- 
landezes,como o Dagon ? 
Eíles Dagóes pois,6c eftes 
Ampbibios faóos que co- 
mo homens nos queriaó 
tomar a Cidade, 6c como 



a Bahia , cuidan- 
do que levando a trin- 
cheira, ganha vaó ambas. 
Mas naó advertirão os ce- 
gos,que a trincheira era 
de Santo António, & que 
aílim como elies faó os 
Dagóes, Santo António 
he a Arca do Teftamen- 
to. Na primeira noite, 6c 
no primeiro combate fi- 
carão pofl-rados por ter- 
ra, 6c na fegunda naó fó 
poftrados, mas degolados, 
6c com ambas as maós cor- 
tadas , ^ taó desfeitas,quc 
dizem , ^ tresladaó osSe^ 
tenta Interpretes, que ca-» 
da maó ficou efpedaçada 
em cem partes : Ambo ve- 
jiigia manus tjus erant a^ 
blata per partes centtim. 
Vede fe tiveraó razaó de 
contar os feus feridos 6c 
mortos aos centos. 

98 O como eílou ven- 
do onoífoSantolembrar- 
fe da porfiada , ^ eftron- 
dofa bataria daquella íe- 
gunda noite,6c comoDeos 
nefla occafiaó lhe deo o 
nome de D^aviá^ò' propter 
H>avid ftrvuin mnim, glo- 
narfe da VACona, & triun- 
far> 



-^ >■ %■ 



Santo 
far , dizendo com^ellc : 
CtTcumdederunt mcficut ^- 
' ' 7>^j , ex arfei unt ficut ignis 
m fpinis, & in nomine "Do- 
mm^quia ultus fum in eos-, 
Cercáraómc como abe- 
lhas 5 ardéraò como fogo 
em efpinhas , mas eu em 
nome do Senhor vingjiey- 
medclles. Bem: moôraó 
as comparaçoens ferem 
de húa eloquência taóal- 
legorica fempre, & erudi- 
ta , como a que lemos em 
todos osefcritosdeSanto 
António. Mas porque 
chama aos inimigos na 
enveftida , & combate da 
fua trincheira abelhas, & 
diz que ardèraó como» fo- 
go nas efpinhas ? Naó fe 
pudera mais vivamente 
declarar o que vimos, & 
ouvimos. Pudera chamar 
abelhas aos Olandezes 
pela arte,& bom governo, 
que fe lhes naó pôde negar 
da fua Republica : & abe- 
lhas neíVa facçaó,pelo ap- 
peeite que cá os trouxe do- 
noífo mel 3 maschamalhe 
abelhas, que Ihesbaftafer 
pequenas,para ferem co- 
léricas , pelo Ímpeto rai- 



Antonie. ti 9 

vofo , & furia com que 
acometerão, & mais par- 
ticularmente, porque he 
próprio da abelha em pi- 
cando cair morta : To- 
nuntque in vulnere vitant, 
Aífim lhe fuccedeo aos 
queenveftíraó a cortina, 
&tra vezes , que a noíFa 
trincheira já tinha,porquc 
quantos a picáraò com os 
inftrum'eíltos,que para iíTo 
traziaõ, todos cahíraó , 
& fícáraó fcpukados no 
mefmo foíTo. 

^^ Também vieraó ar- 
mados de infinita muni- 
ção de granadas,& outros 
artifícios de fogo, que dif- 
parados inccílantemente 
entre a tempeílade das 
cargas, alumiavaó a noite, 
atroavaô o ar, & choviaô 
rayos fobre os que dentro, 
& no alto da fortificação 
a defendiaó, preíumindo 
os efcaladores, que com 
eíles apparacos de horror 
facudiriaó delia os noífoS)^ 
& franqueariaé os diffi-r 
culto fos paíTos por onde- 
infiftiaó emfubir,&apre- 
tendiaõ ganhar. Mas a to- 
da eíla reprefentaçaó de 
H iiij rc- 



.iii 




TS 



'^^ Sermão de ^ 

relâmpagos , & trovoens vingou , porque a vitoria 

chamaonoíTo dcfenfor refponde â guVra'&f vTn! 

com mayor energia fogo gança à injuria. E porque 

queardenasefpinhas:£x- os Hereges lha faziaógrá- 

arjermtficuttgmsinfpmtsy de, atrevendofe aos que 

porque do fogo que fe a- > pelejavaó à fombra da fua 

tea em femelnance mace- cafa, como a defcomedi- 

na,como^bem comenta, dos profanadores daquel- 

itrondo^& o ruido,do que como vencedor , mas co- 



mo vingativo; &naò com 
o decoro de vencidos, mas 
có a afronta de facrilegos , 
& caítigados; ^ia ultus 
fum tn eos, 

§• VIL 



100 



NAó debalde de- 
pois da noite do 



lao osefteitos. Spinasignis 

corripiens horribiltcunãas 

crepitatione inflâmatione- 

que partes pervadit , fed 

brevifonus ille flammaque 

conqutefàt. Taó fóraefti- 

veraó aquelles medos ar- 

tifíciaes de enfraquecer , 

ou quebrantar a conftan- 

cia,& reíiílencia dos nof- ^ ^ poi, aa noite do 

los , q as granadas,quc ca- fegundo combate da Arca 

niaoacezas, & meeiras, amanhecerão as maós do 

rechaçadas mtrepidamê- Dagon naó fò cortadas , 

tctornavao outra vez para mas poftas à porta do Té- 

donde vieraó : & as que pio , para figniíicar, como 

rebentavaó entre elles,ra. diz Hugo Viaorino,que 

?.^r^^ "^«J^^a/eria mor- aquella vitoria naó fó fora 

talmente Em fim conclue a fegunda , fenaó a ultima 

terre^nt"'^"''''"^'^'^^ ^ ^"^ ^"^ de^enganTdo 
terreno, que em nome do naó havia de tratar já de 

pelejar, fenaó de fahir , 

& fe ir embora. Tanto 

c-omo iftojdepois daquella 

fatal, ac feliciíllma noite, 

fc 



Senhor fe vingou delles : 
Etinnomine T>ommiyquia 
ultus fum tn eos. Naó diz 
que venceo , fenaó que fe 



Sant(h António, i i i 

fe mudara?) em ambos os em que o inimigo de fitia- 



arrayaes as ideas da guer- 
ra : a qual no General ini- 
migo,& nos noíTos fe fazia 
já fò comopeiifamento : 
o do inimigo pofto na re- 
tirada , & o dos noíTos.em 
que fenaópudeíTe retirar. 
Como contra asfuasduas 
batarias tínhamos em fre- 
teourras duas , & a tercei- 
ra pelo lado efquerdo,que 
lhe defquartinava todos 
os quartéis , fò reftava a 



dor ficaria fitiado,& nos 
com roda de fortuna pou^ 
cas vezes vifta de fitiados 
fitiadores. Anticipoufe 
porem o medo ao valor, 
a cautela ao perigo , &: at 
fuga fecreta do inimigo 
à publica declaração do 
noílb defigniotde que qua- 
fi eftou qucixofo de Santo 
António. No Texto que 
acima referimos do poder 
de todos os Santos , os^ 



quarta pela retaguarda. E quaes neíla defeníiva re- 
me conílouentaó( donde prefentou a PeíToa de S. 
fò podia conftar com cer- António , fe affirma com 
teza) que levantada efta termos bizarros^queelles, 
occultamenteentreobof- quando pelejaó, naó fò 



que da eminência oppo- 
áa^ na manha em que cor- 
tadas as arvores appare- 
ceíTe, tendofe lançado na 
campanha de noite dous 
mil Infantes, &batendo- 
fc ao mefmo tempo de to- 
das as quatro partes o ar 



atao as mãos aos mimigos 
com algemas, fenaóíam-^ 
bem os pès com gri- 
Ihoens : Aa alUgandos Re- 
ges e&riim in compedibus , 
èr nobíles eofum in mãnicis % 
f erreis. Foís fe o noííb vi- 
toriofo defeníòr lançou as 



pf. 



rayal inimigo, fe ihe man- algemas ao inimigo, porq 

daria recado por hum o naó poz também cm 

trombeta,quefeentregaf- grilhoens? Se lhe atou as 

fe , pois jà naõ tinha de* maós para que naó pudef- 

f enfa,nem í retirada. Eíle fe mais pelejar , porq lhe 

era o galhardo penfamen- naó atou tàm bem ©spès 

tô dos aoãos Gcneraes , para q nao pudeíFe fugir? 

. ■ lOi A 



í 



MM 




12 2 Sermão dc 

lor A razàÓ verdadei- ra pòdcferA^cÕniUmmé- 
ra, &:que naó admite ou- te he honra j mas o fugir 
tra, he a que jà referimos fempre he afronta. Pois 
do mefmo Texto , o qual para que o íobcrbo infiel 
relummdo todo o fuccef- leve da Cidade de Deos 
ío deíla protecção do o merecido ca íligo de feu 
Ceo, diz que o inimigo atrevimento, efcape com. 
tornaria pelo mefmo ca- a vida^mas fugindo. Por- 
4. Reg. ^"^° P^^ ^"^^ \t^o\T€r iíTo naó quiz Deos q aco- 
19. J3. vtamquavenit ^revertetur, '^ 

Allim fe cumprio na fugi- 
da de Senacherib Rey, 8c 
General do exercito com 
que viera fitiar a Cidade 
dejerufalem. E fe curió- 



% 



* ■ ,, 



.. .ú\ 



meteíTemos o inimigo nos 
feus quartéis, como tanto 
dcfejavaó os foldados, né 
qacabaíTemos de o íitiar 
nellesjcomo tinhaó deter- 
minado os Generaes,mas 



famente quizermos inqui- que vencido do temor, & 

rir a razaó deíla mefma convencido da própria 

razaó, acharemos, que a defeíperaçaó fcm- nora 

que Deos teve, naó foy violência fugiíTe , &com 

outra , íènaó querer em huma fugida taó precipi- 



cartigo daquelle atrevi 
mento , que Senacherib 
naó fô íicaíTe vencido. , 
mas tornaíTe a apparecer 
diante dos feus afrontado. 
A prova he evidente. Por- 
que em huma noite ma- 
tou hum Anjo cento, & 
oitenta, & cinco mil fol- 
dados do exercito de Se- 
nacherib. Pois fe matou 
a tantos , porque o naó 
matou também a elle > 
Porque o morrernaguer- 



tada, & torpe, deixando 
artelharia, muniçoens, ar- 
mas, baftimentos, &até 
o paó cozendofe nos for- 
nos, & nos ranchos a co- 
mida dos íbldados ao fo- 
go,para que os negros da< 
Bahia tiveíTem com que 
banquetear a vitoriaMais 
ainda : que nas forta- 
lezas rendidas eílando à 
beira mar , & dominadas 
dos feus navios , nem das, 
armas ievaíTem hum ar- 
cabuz. 



Santo António. 
cabuz, nem da artelharia comnovas 
hum bo*-a-fogo,&: ficaíTem 
taó inteiras em tudo,como 
ás acháraó! Mas também 
eíle milagre em Corfarios 
corria pelas obrigaçoens 
de Santo António, como 



Como nunca 
faltaói híimoresmalenco- 
nicos, & amigos de as da- 
rem más , em hum navio 
de Lisboa , queno tempo 
do íítio tomàraó os Olan- 
dezes , fe acháraó alguas 



taó pontual recuperador cartas (poucas} em que fe 

do perdido. dizia,que là fe fallava em 

102 Em fim o inimigo armada , mas que cà naó 

nos deixou tudo o noíTo, efperaíTemos por ella,por- 

&:parte dofeu. Masnão que os muitos empenhos 

deixarey de ad^rertir na em que de prefente fe a- 

hiíloria do noíTo Texto cha\^a Eípanha, não per 



huma grande difl^erença 
daquella fugida a efta. 
Antes de Senacherib ap- 
plicar o feu exercito ao 
ficio de Jerufalem , orde- 
nou Deos lhe chegaíTem 
novasjque Tháraca Rey 
da Ethiopia vinha fobre 
elle com todo o poder em 
foccorro da mefma Cida- 
de. E poílo que a mortan- 
dade executada pelo An- 
jo tinha fido de tantos 
mil} a efta nova atribue 
o mefmo Deos a fua fugi- 
da : Ecce ego dabo eifpiri- 
n- tum^ éfí^-diet nuntium^ò' 
revê: tetur ad t erram fuam. 
Também cà o noíTofítia- 



mitiao que fe diminuiíTe 
das forças maritimas. E- 
ftas cartas cotadas à mar- 
gem remeteo por hum 
trombeta o General O- 
landez aos noíTos com ou- 
tra fua, em que dizia lhas 
enviava, para que tivef- 
fem entendido que naõ 
podiaó fer foccorridos. 
Julgava que efta baila era 
aquemayor brecha podia 
abrir nos coraçoens dos 
cercados, & por ií^o fe te- 
ve em fegredo. Mas a re- 
pofta foy taó defaftuftada, 
como difcreta ♦, porque 
depois de fatisfazerem, 
também por efcrico,aou' 



>■' 




dor nos quiz conquiftar tios pretextos da embai- 



LCa, 










n; 41 






Í21 Sern:a^/e- 

^■^á^ ,. acabava aífim : E falvasj ncllas pub^-clmos 

quanto às cartas^ de Lis- ao Ceo, ao mar, & à rerra 

boa que Voíla Senhoria quani gioriofamente dé- 

nos enviou, refpondemos fempenhou o mefmo Sat^ 

as que cà vieraó,com as vador com a mefma Ci- 

que ]à íicáraó. Aílim era, dade a fua palavra : Trotc^ 



porque todas as outras 
certiíicavaó que vinha ar^ 
inada,como eíFedivamen- 
te veyo. Mas ou a nova 
foíTe falfa, ou verdadeira, 
nem o inimigo aguardou 
a q \\ç,^Q o foccorro, nem 
nós o ouvemos miíler , 
para que também por eíla 



gam urbemhanc^ &falva^ 
éoeam. 7 

§, VIII. 



P Stahe, Cidade, 



Í03 _ 

Milicia, ôcPovo 

da Bahia, a vitoria de que 
Deos nos fez mercê , taó 



circunllancia a fua fugida glorioía como fua, & de 
foíTe menos defculpavel, que todos lhe vimos ren- 
& a noíTa vitoria mais Ju- der as graças, taô obriga-. 



zida. Embarcado final 
mente, levou as ancoras 
na fegunda noite , que 
também lhe naó foy fa- 
vorável , porque lhe fal- 
tou o vento : para que a 
olhos de todos, conforme 
o noíTo Texto , fe viffe 



dos como noíla. Dousa- 
mores concorrerão da par- 
te de Deos para eIJa , prop^ 
tcrmey poramor de mim^ 
& {Topter Jervum mmm ^ 
por amor de meu fervo. 
kí fe a eíle dobrado amor 
devemos dobrada correA 



voltar por onde veyo. Pe- pondencia, feja a primei- 
las nove, & dez horas do ra,em Iheconfefíaro todo 



dia fahio pela Bahia fora 
aarmada, trifte, defem- 
bandeirada, & muda: & fe 
com a fua , & noíTa ar te- 
lharia a defpedio a Cida- 
de do Salvador com três 



da gloria,quehefua, & a 
fegunda, em lhe atribuir 
também a parte,que pôde 
parecer noíFa. Se a Bahia 
fora Roma,todos os noífos 
valerofiílimos Capitaens, 
& 



ílí^' 



Santo António, 



125- 



& foi dados t-aviaõ de ap- 
parecer hojeneíle monte, 
como no do Capitolio,co- 
roados com três. coroas , 
cívicas , miiraes 5 & ca- 
ílrenfes. Cívicas, porque 
iiaô ío defenderão hum 
cidadão , mas huma taó 
nuilierpra, Scpopuloíà Ci- 
dade : muraes,porque fen- 
do raò fracas as faxinas 
da noOa trincheira para^ 
d. fuftentar, & fortalecer, 
fízeraò dos próprios pei- 
tos muros: & cafl:ren íes , 
porque naò fó defejàraó 
tantas vezes inveílir o 
inimigo nos feus pró- 
prios arrayaes, mas o o- 
brigàraô a que elle efpcn- 
tanea mente noios ren- 
át^t. Mas a coroa com 
que todas efras fe coroaó, 
he a de fê ( que a €i\t 
faltava ]) oíferecendoas' 
todos como verdadeiros 
cacholicos, Scíançandoas 
aos mefmos triunfantes 
pês do Salvador , & Aq 
Santo que o tem em feus 
brados. Vio S.Joaó no A- 
pocalypfe a Deos fobre 
hum trono de grande ma- 
geliade , & tjue vinte > 6c 



quatro anciãos , os quaes 
em roda lhe faziaó corte, 
todos coroados , pofcran- 
dofe de joelhos adora- 

vaò profundiílimamente 
ao fupremo-Senhor, & ti-' 
rando as coroas da cabe- 
ça , as jançavaó aos pês 
do íeu trono : AdoTãh-ant 
njtventem in fécula facuío- A^po: 4, 
rum^ & mittebíLJit cútonãs^^^ 
fitas ante thronum. San- 
to Ambrofio , Saò Ber- 
nardo , R.uperto , & o<? 
outros Exporitores per- 
guntaó que coroas erao'- 
eiras , &: porque as tira- 
vaô da cabeça, ^<-aslan-' 
çavaó aos pês do trono de' 
Deos ? E todos refpon- 
dem ijniformemeiítejquc 
as coroas eraó as das vi- 
torias, que nefte munda 
tinhaó alcançado, & que' 
todos as tiravaó day pró- 
prias cabeças , & as ían- 
çavaó diante do trono' 
de Deos , para as attri- 
buir afeu verdadeiro Au-» 
tor , reconhecendo que 
mais eraó de Deos , que 
íuas, Chrillo noíío Sal- 
vador he o verdadeiro 
Deos dos exciCitos » 
' ■ ■ "\ ^ 



I2<^ Sermão de 

& das vi tòriasjb feu trono fim Çtx:io perpetuas nas 



«y 



íh i!?: ^ 



•■> Jl. •/ 



h^^, António, que taóde 
aíTentootem nos braços: 
& diante defte Deos,& ác- 
He trono vem lançar as co- 
roas, que merecerão na 
prefente vitoria, os famo- 
fos Martes da noíTa milí- 
cia, mais gloriofas quan- 
do as põem aos pès de 
Deos , que quando Deos 
lhas poz na cabeça. E 
chamafe Deos nefta occa- 
imôyViventem infacula fa- 
culorum , porque as vito- 
rias temporaes taó fogei- 
tas à variedade da fortu- 
na, fó poftas aosfeuspès 
podem fer eternas. 

104* Bem acabava aqui 
oSermaó,fe me naó faltara 
a ultima claufula,q o noílb 
agradecimento naó deve 



línguas da fama : & nas 
letras , & eftampas dos 
annaes as lerà im mortal- 
mente a memoria áos vin- 
douros. No meyo porem 
defta mefma alegria uni- 
verfai naó poflb deixar de 
confiderar nelles algum 
remorfo de dor. A viíla 
dos bens alheos crece o 
fentimento dos males pró- 
prios. E ta es podem fer as 
memorias dosdefl-errados 
de Pernambuco ("como as 
lembranças de Siaó fobrc 
os Rios de Babilónia 3 
vendo a Bahia defendida, 
& a fua Pátria , pela qual 
trabalharão muito mais , 
em poder do mefmo ini- 
migo. Aílim o permitio, 
& ordenou Deos, mas co- 



paíTar emfilencio. Osque mo podemos efperar de 
lançàraó as coroas aos pès fua providencia , & bon- 



do trono de Deos, craó os 
anciãos, em que mais par- 
ticularmente faô íignifi- 
cados os veteranosCabos, 
6c foldados da milícia Per- 
nambucana, cujas valero- 
fas acçoens nefta guerra 
^íllm como as admirarão 
os olhos dos prcfentes^af- 



dade, para mayor gloria, 
& confolaçaó de todos. 
Sérvio Jacob por Rachel 
feteannos, &aocabodel- 
lesem vez de lhe darem 
Rachel, achoufe com Lia. 
Queixoufe delta diíFeren- 
ça,taò fentido como o pe- 
dia arazaój&oamor, 6c 
rcf- 



í.*! 



'-* >■ ^^ 



Santo 
refpondcolhe Labaó : Fi- 
lho , o que fiz, naó he 
porque te naó queira dar 
a Rachel, mas porque te 
quiz também daraLia,& 
eíla primeiro, porque he 
airmá mais velha. O mef- 
modigo eu agora. Servi- 
rão os filhos de Pernam- 
buco pela fua fermofa 
Rachel, pela fua Olinda, 
outros íete annos, ao ca- 
bo dos quaes naó fò a naó 
recuperàraõjmas a perde- 
rão de todo. Argumento 
grande de feu valor , que 
ouveíTem miíler osOlan- 
dezes Çtíç, annos para cô- 
quiílar Pernambuco,quã- 
do baftâraõ outros íete aos 
Mouros para conquiftar 
Efpanha. Mas fe ao cabo 
de tantos trabalhos , & 
fer viços naó concedeo 
Deosaos Pernambucanos 
a fiia Rachel, naó foy por 
lha negar, fenaó por lhe 
querer dar também a Lia. 
Quizlbe dar primeiro a 
Bahia como irmã mais ve- 
lha, & cabeça doEftado. 
E depois de levarem eíla 
gloria, dequeellafem- 
pre lhe deve fer agradeci- 



Antonío. 127 

da , entaó lhe cumprirá 
feus taó juftos defcjos, & 
com d ) brado, & univerfal 
triunfo os m eterà de poíTe 
da fiia taó amada Pátria, 
como digna de fer amada. 
Aílim o confiamos da bon- 
dade de Deos, Scoeípera- 
mos da poder olfe intercef- 
faó do noíTb David, naó 
menos intereífado naquel- 
la perda,nem menos mila- 
grofa afua virtude para re- 
cuperar a Bahia, que Per- 
nambuco. Lébrayvos,gIo- 
riofo S. dos muitos Tem- 
plos, & Altares, em que 
éreis venerado , & fervi- 
do naquellas Cidades,na- 
quellas Villas, & em qual- 
querPovoaçaó,por peque- 
na que foíTe , & que nos 
campos, & montes,onde 
naó havia cafa , fò vós a 
tínheis. Lembrayvos dos 
empenhos, &:grandiofas 
feílas, com que era cele- 
brado o voíTb dia , 6c fobre 
tudo, da devaçaó, & con- 
fiança, com que a vós re* 
corriaó todos em fuás per- 
das particulares , & do 
promptiflimo favor, & re- 
niedio,com que acodieis a 
todos. 



ffl 



p 






ii8 Sermnv eie Sã7; 

todos. O mcfmo fois; 6c 
naó menos poderofo para 
o muito, que para o pou- 
co. Apertay com eíle Se- 
nhor, que tendes nos bra- 
.ços,&apertay-o de manei- 
ra , que aílim como nos 
concedeo eíla vitoría,nos 
conceda a ultima , & to- 
tal de noíTos inimigos. E 



'to António. 
nós como tao faltos de 
merecimento a reconhe- 
ceremos fcmpre como 
íua, &comovoí]a : como 
fua,dada por amor de fy; 
& como vofla, alcançada 
por amor de \òs:Tropter 
mey & ^ropterT>ãVídfer- 
vum metim. 






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SER- 



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I25> 



^ c^c^.-^c^í^ *<3c^f^--^^-&«^ A:^<»r^^ "v> *ocSic^cí^rS 



SERMAM 

DA TERCEIRA DOMINGA 
DO 

ADVENTO. 

NA C APEL LA REAL , 

Annode 1644. 



Miferunt Judat ab Jerofolymis facer dotes , & Levi-^ 

tas adjomnem^ut interrogarent eumi Tu quis es? 

Joannis I. 

os do governo daquella 
grande Cidade mandarão 
húa embaixada aos defer- 
tos de Judea, naqualoflPe- 
reciaó aoBautifta a mayor 
dignidade,que nunca ou- 
ve no mundo, querendo-o 
reconhecer, & adorar por 
Meífias. O que reparo 
muito nefte caio he,quc 
I cm 



s- 1- 

UMA coufa 
que eu defejàra 
muito ao Rey- 
no de Portugal 
conta o Evan- 
geliílal Saó Joaó que 
fe vio hoje na Republi- 
ca dejerufalem. Diz que 
Tom. 8. 




- ^Jí 



li li 



•1- 



^^o Sermão da 

emvezde oBautifta vir ditames engano , nem 

do deferto â Corre apre- erro, ou defacerco noícu 

tender a dignidade, adi- governo. 

•gnidade foy da Corte ao io6 V^eyohum homem 

deferto a pretender oBau- oíferecerfe a Chriílo para 

tlíta. E lílo he o que eu o feguir a qualquer parte: 

delejara,com© dizia, para Sequar te qtiocumque teris : 

o nofíb Reyjio. He força &dízoEvangeliL,que o 

.que haja preten^^oens , &: Senhor o deípedio feca- 



pretendentes , mas eíles 
naóhaóde fer as peíToas, 
fenaó os officios. E por- 
que ? Darei a razaó , & 
mais a razaó da razaó. A 
razaó he; porque naó po- 
de aver , nem mais bera 
governada,nem mais bem 
fervidaRepublica,que on- 
de o9 officios forem os 
pretendentes, & os homés 
os pretendidos. Aílim 



mente, &o lançou defy 
com palavras afperas. Vai 
o mefmo Chrifto às pra- 
yas deGaIilea,chama aPe- 
dro, & André, & aos fi- 
lhos do Zcbedeo, &diz- 
Ihes que o figàò:^emtepq/l 
me. Pois, Senhor, fe eíles 
homens vos naó bufcaó , 
porq lhes dizeis que vos 
íigaó : &fe outro homem 
diz que vos quer feguir 



foy hoje o Bautiftaopre- em tudo, &portudo,por 
tendido , &oMeffiado o que o naó admitcis, antes 



pretendente.E a razaó de- 
ita razaó he , naó porque 
aílim o fízeraó os embai- 
xadores , &Magiílrados 
de Jerufalem , fenaó por- 
que aífim o en finou com 
leu exemplo a primei- 
ra. « & fumma verdade 



o lançais de vós com afpe- 
reza? He culpa querervos 
feguir P He merecimento 
naó vos bufcar > Pois fe 
a quem vos naó bufca di- 
zeis que vos íiga,aquera 
vos quer feguir,porque o 
naó aceitais em voíTofer- 



daquellc fupremo Rey , viço ? Porque Chriílo,fu 
em cuja pohtica nao pôde premo Monarca, &: cxem- 
aver duvida,nem nosicu§ pi ar de todo o bom gover- 
no, 



rf^l 



L... 



terceira Tiomingu do Advento. i ^=1 
no, não queria no feu iíTo verdadeira mete chrir- 
Reyno homéspretenden- ílá i náo fcrà matéria 
tes , nem officios prefen- alhea , fenáo muito pro- 
didos : homens pretendi^ pria defte lugar, & mais 
dos, & officios pretenden- própria ainda do tempo 
te« , fim. Quando o outro prefente , fe eu a fouber 
homem pretendeo feguir perfuadir como pretendo, 
a Chrifto , o homem era Deos a quem devemos a 
o pretendente , &o Apo- felicidade do tempo , 6? 
ftolado o pretendido: pe- cujos exemplos , .& alfa- 
io contrario,quando o Se- mes fomente hei de fe- 



nhor chamou a Pedro , & 
os demaisjos homens eraó 
os pretendidos, & o Apo^ 
ftolado o pretendente : & 
homens que não preten- 
dem os officios, fenaò os 
officios a ellesjcomohoje 
aconteceo ao Bautifta , 
eíles faó os quefô podem 
compor, confcrvar , & e- 
ftabelecer hum Reyno , 
que ouver de durar para 



guir em q^uanto diíTer , fc 
l]rva de m<íaffiftir com fua 
graça. AveMAria, 



io8 



§. 11. 



M' Ifermt Jud^i r^^^ 
ab Jerofolymis 19- 
pícerdàteS'i& 'Levitas ad 
loannem. Affim como não 
foy o Bautifta o que veyo 
do deferto à Corte pre- 
tender a dignidade , fe 



fempre , como o de Chri- jnaô a dignidade a que foy 



fto. 

107 Oh queventurofo 
feria o noíTo, fe nelle fe 
introduziíTe efta nova,& 
admirável politica! E por- 
que ella naó hefódosquc 
governavaò a Corte de 
Jeruíalem , fenáo do fu- 
premo Governador , & 



da Corte ao deferto pre- 
tender o Bautifta ; Affim 
digo, que em todo o Rey- 
no bem governado nao 
devem os homens preten- 
der os officios, fenão os of- 
ficios pretender os homêf > 
As razoens defta politica 
doCeo pouco entendida, 



Meftre do mundo, & por & menos praticada na ter- 

lij ra. 






* ' #»l 



ra faó muicas 
mayor brevidade, & cla- 
reza a reduzirei nefte dif- 
curfo a quatro principaes 
com nome de conveniên- 
cias. Primeirajporque an- 
daram mais autorizados 
os officios : Segundajpor- 
que vivirám mais'defcan- 
çados os beneméritos : 
Terceira i porque eftará 
mais defembaraçada a 



Sermão dà 
Eu para que pela de Elcna con- 
tendeíTemcom tanto em- 
penho, & fedeílem tantas 
batalhas a Grécia, &Tro- 
ya ? Logo da mefma ma- 
neira fera grande autho- 
ridade , & credito dos of- 
ficios,que concorraó mui- 
tos aos pretenderj& que a 
ambição, & emulação dos 
oppoíitores fe empenhe 
com todas as forças em 



Corte: Quartaj porque fe- os confeguir. E quanto 
ramais bem fervida a Re- mayores forem as nego* 
publica. 



í. III. 



ciaçoens, as diligencias, 
as controverfias,as valias, 
& ainda as adulaçoens, & 
os fobornos dos que os 
pretendem alcançar,tanto 
maiscrecerá a eílimaçaó, 
&:authoridadedos mefmos 

quando naô forem preten- officios affim pretendidos. 

diáos , entam feraó mais Pelo contrario , fe elles fo- 



.lop 



Q 



Uanto 



a pri-- 
meira conve- 
niência, de que os officios 



autorizados 3 naó faltará 
quem cuide,& diga o con- 
trario : & parece que com 
bons fundamentos. Naó 
he grande autoridade, & 
credito do ouro entre os 
outros metaes, que todos 
odefejem , procurem, & 
façaó tantos extremos por 
clle? Naó foy grande au- 
thoridade da fermofura, 



rem os que haó de preten- 
der, náo terão eftimaçam, 
nem fequito , & ficaram 
folitarios, & quando me- 
nos mal providos. JaTer- 
tulliano ponderou grave- 
mente a quantas indigni- 
dades fe fogeitam, & aba- 
tem os que pretendem fu- 
bir às dignidades: ôcfeos 
officios fc fizerem preten- 
dentes, 



íi 



terceira dominga do 'Advento. 135 
dentes, pelo mefmo cafo miniftros,fazendo oppofi- 
fe farão indignos , &: per- çaÓ com a cara defcuberta 
deram o nome da honra,& às Mitras , & oftentando 
dignidade.que he o que os letras , antiguidades , & 
acredita,& authoriza. cargos da Religiam, & tal 
iio Ora antes quedes- vez os procedimentos, & 
faça a apparencia deitas as mefmas virtudes, para 
obiecçoens , quero-as con- que as cabeças cheas de- 
vencer com a evidencia íles penfamentos fejam 
de hum exemplo , que to- coroadas com aquella la- 
dos trazemos diance dos grada infignia ? Torno a 
olhos, & ninguém pôde perguntar: Quando cUeve 



^.Mnir.v* 



negar. Oofficio , os eni- 



o oííicio, & dignidade E- 
barxadores,&osquehoje pifcopal mais autorizada, 
os mandarão, & o mefmo agora quando tantosa pre- 
BautiftatudoeraEcclefia- tendem, ou quando ella 
ílicoi feja pois tambemT era a pretendente? Agora 
Ecclefiaftico o exemplo, que a procura defcuberta- 
Pero-unto ; Quando efte- mentea ambiçam,ou quá- 
vemaisauthorizadona I- do arecufava a modeília, 
greia o officio , & digni- & fugia delia a concien- 
dade Epiícopal ? Quando cia > Os mefmos fagrados 
os Santos ( de que he infi- Cânones refpondem a mi- 
nitoonumero) fenão a- nha pergunta. E que dize? 
treviam ao pretender,mas ^i£ratur cogendus.qm ro^ 
pretendidos elles , bufca- gatus recedat, &mvítatus 
dos , & acclamados,fe me- fugtat. Notai as palavras. 



tiam pelos bofqucs , & fe 
efcondiam nas covas, te- 
mendo, & fugindo de tão 
alta dignidade : ou agora 
quando tantos frequentáo 
os palácios dos Reys , 6c 
os tribunaes , & caías dos 



^/^r^í/zrjbufquefe.E quê 
ha de fer obuícado ? O 
BifpadOjSc o oíFicio?Nam: 
fenão o homem digno del- 
le. E eíTe homem digno, 
que calidades ha de ter ? 
grande cafa .? grande no- 
liij breza? 










f 

' t 



* ' mi 



/ -* 



1^4^ *SVrf«/2 

breza? grande appellido ? 
grandes cargos antecede - 
tes?Naó diz ifto o Canon. 
Pois que diz? Quefejatal, 
que o hajaó de obrigar por 
força a aceitar : guaratur 
cogendus'. & que rogado c6 
a Igreja fe retire, òc con- 
vidado com a dignidade 
fuja delia: ^/ rogatus , e- 
cedatyinvitatusfugtat. 

Ill As Igrejas faó as 
efpofas dos Pre/ados Ec- 
clefiaílricos, & verdadeira- 
mente que ellas faó tao 
fermofas, & bem áotàáàSy 
que parecem devem cau- 
faramor, 8c ainxia cobiça : 
jmas que as mefmas efpofas- 
ha jaó de meter medo aoi 
qiíe ellas bufcaõ , & pre- 
tend-em, & os bufcados, 
convidados , & rogados 
li-ajaõ de fngir delias! Sim. 
Vamos à Efcritura. Falia 
òTexto fagrado dehuma 
deílas efpoíãs (em que fe 
leprefentaó todas J) &diz 
afli m ; ^la eft ifta^ quapro. 
greditur quafi aurora con ■ 
fuTgens, pulchra íULuna, 
cieãa ut Sol> Quem he efta 
que fae refplandecente co- 
mo a Auroira, fermofacov 



;^.i:j:a 



o da 
mo a Lua , & efcolhida co' 
mo o Sol ? Jà aqui temos 
refpondidos , ou corres- 
pondidos os dous exem- 
plos acima allegados dae- 
ílimaçaó do ouro , &da 
fermofura de Elena. Au- 
rora derivafe de Aurum, 
que em latim hcoouro,& 
Elena derivafe de Elion> 
que em Grego he o Sol. 
Pois fe as efpofas Eccle- 
íiaílicas faó tao úc:ís , & 
arrayadcfs de ouro como 
a Aurora,^: taó fcmelhan- 
tts na' fermofura naò fóà' 
Lua entre as c/lrellas, fe- 
nao ao me.' mo So!,em cu- 
ja: prefenf a cíefaparecera V 
comcbhe poiíívcl,queem 
vez de caufarem cobiça 
com a riqueza , & amor 
com a fermofura, caufem 
tal medo , & horror aos 
mefmosque ellas preten- 
dem, convidaó, & rogaó, 
que 05 façaó retirar,eicon- 
der,& fugir; ^li rogatus 
recedat , mvitatus fugiaú 
O meAiio Texto o declara 
admiravelmente no que 
logo acrecenta: C)uajiAu^ 
ror a conlurgens , pu chra 
m Luna^ekãa ut Sol, ttr^ 
libilisy 



\\, 



terceira T)ômmga do AdvenU. í | f 

ríbilkut ' caftrorum acies fendo hua íb , em fy mef- 



erJinata, De forte que a 
Hiefma Ffpofa, que por 
hiía parte he taô dourada 
como a Aurora , taò pra- 
teada como a Lua , & taó 



ma, &de fymelraa podia 
formar hum exercito ; 
queílaó era efta digna de 
a excitarem, &: refolverem 
os Expofitores ("o que naó 



fermofa como o Sol , por fizerao). Mas a repofta,& 
outra parte he taó terrível, a razaô he muito clara. Ja 



taó formidável , & teme- 
rofa como hum exercito 
armado pofto em campo. 
TernbiUs , pavor emque in- 
cutiens^ verte , & comenta 
Symacho. Que muito lo 



diíTemos, que as efpofas 
dos Prelados Ecclefiafli- 
cos faóas Igrejas, &:Die- 
cefes,&como ellasfecó- 
poem naó fô de mil , fe- 
naò de muitas mil almas. 



goquehÚataó grande dif- eílas faó as que rormaóo 

ferença produza taó en- exercito terrível , & for- 

contrados affeaos > No midaveli porque de todas 

exercito de Saul todos a- haó de dar conta aDeos. 

peteciaó a honra, &cobi. Logo naó hc maravilha, 

çavaó os prémios, que o que huns appeteçao a mef- 

Rey prometia a quem fa- ma dignidade , outros a 

hiíTeadefafiocomoFiU- temaó , & fujaõ delia, 

íleoj mas quando viaó o Os que a vem ficut Auro- 

Gigante de taò defmedi- ra confurgens , pulchra ut 

da eílatura, & as armas i- Luna , eleãa uf: òol , 6c 

guaes aos membros, com paraô aquij deixaófe levar 

que parecia húa torre de da riqueza do dote , Sc da 

ferro, todos defmayavaò, fermofura da Efpoía : po- 

&tremiaò. AíFimtambéa remos que paífaò adiante, 

Efpofa,como rica, & fcr- & a confideraó terríbtÍM 

mofa caufava cobiça, & a- ut caftrorum aaes^ ordma^ 

rgior j mas como exercito ta^ terrivel , & formida- 

aynado caufava pavor, & vel como hum exercito ar- 

aitbmbro. E fe alguém me madopoílo em capo, tem 

perguntar como a Efpofa razaó de fe retirar, temeras 

^^ ^ liiij Sc 



í^^ Sermão ãa 

Si Fugir: ^/// râgatm rece- nhum foíTe excluído ; no 



«I 









^-ííí j invitatiis fugiat, 

1 12 E porque naó pa- 
reça que efl-e temor, Pre- 
tiro de naó appetecer , 
nem pretender dignida- 
des,antes Fugir dellasjtoca 
fó às Prelafias , & dignida- 
desEccIefíafticasja meFma 
razaó concorre nos Magi- 
ílrados, governos, &offi- 
cios feculares^q tem jurdi- 
çaó, ou toda , ou repartida 
íbbre os Povos. E fenaõ 
ponhamos ocafo em hum 
homem leigo, 8.- taó leigo, 
queonáo podia fer mais. 
Quando Saul andava buf- 
cando as jumentas de feu 
Pay,SamueI mandado por 
Deos o ungio em Rey de 



meyo deíla univerFal ex- 
pectação fahio a forte fo- 
bre o tribu de Benjamin. 
Reílava ainda por faber 
qual Fofle a Família do 
mefmo tribu , & qual a 
PeíToa da Família, & con- 
tinuando as Fortes, fahio a 
Família de Cis;&nclia Feu 
iilho Saul. Eíte era o que 
jà tinha íidofecreca mente 
ungido, &: fô eJle faltava 
naquelíe univerFal ajunta- 
mento, nem apparecia. 
Bem í'e deixa ver as dili- 
gencias que Fe Fariaó por 
lhe kv3ranova,&'gaahá'r 
asalv^içaras, & com tudo 
ninguém o pode deFco- 
-.,.-- brir, nem novas delle. AF. 
IFrael. Vede o quebuFca- Fim andava o officio (" & 
va, & o que achou : ou tal officio) buFcandooho- 



Fallando mais anoíTopro- 
poFito,vcde o que bufca- 
va, & o para que o buFca- 
vaó. Chegado pois o dia, 
em que Fe avia de publicar 
oqueatcalli eíbvaoccul- 
to , convocou o mcAno 
Profeta Samuel na Cidade 
de MaFpháosdozetríbus, 
&: lançadas Fortes Fobre 
todos, para que todos cn- 
raíTtm à elejçaó , ôcne- 



mem , & o homem Fugin- 
do do officio. Qiie remé- 
dio y Foyneceiíario que 
o Profeta conFultaíFe a 
Deos , & refpondeo o di- 
vino Oráculo, quecllava 
cFcondido em Fua caFa:^j^ 
Refpondit T>ominus\ Ecce\o 
abfconditus e/i domi. 

113 Eíla ultima pala- 
vra parece que desfaz 
quanto imos dizendo. O 
meí 



r.R 



terceira T>omtnga do Advento. 1 3 7 

nierniò Saul quando Sa- ftt fimilts iUt tn omnipopu- 
niueloungio , replicou, lo. Notefe muito a clau fu- 



la oiuern elegit1)ommis\^ 
digaò me agora os que fe- 
naò prezarem de mais en- 
tendidos queDeos, fene- 
íte primeiro provimento 
ficou defautorizado o of- 
íicio,por nao fer elle o pre- 



que não fó o feu tribu era 
o menor tribu de Ifrael , 
fenaò também a íba cafa a 
menor, & aminima cafa 
do feu tribu. Nonfilmsje^ 
mini egojumyde mínima tri- 
bu Ifrael y & cognatio mea ., 

'^•^ noviJTma inter omnesfami- tendido , fenaò o pre.ten- 
Itas Be7ijamin? Logofeo dente? Sc fe puzeraoedt- 
homem pretendido para taes para o governo do no- 
o officio era da menor cafa vo Reyno , & elle le ou- 
do menor tribu , parece 
que foy errada a eleição 
do oílicio I queneíTecafo 
era o pretendente? Aíllm 
ocuidàYaó os que medem 
os homens pelas cafas. O 
erro porque muitas vezes 

íenaò acertadas eteiçoens 

dos officios, he porque fe bu de Ruben, que foy o 
bufcaó os homens grandes primogénito, pela prero- 
nas cafas grandes 5 Sc elles gativa da antiguidade: os 
cílaó efcondidos nas ca» do tribu Real de Judá 
•fas pQ(inQn2iS:Ecce ahfion- pela foberama do fangue 
ditusejtdorm. Em fim ap- em que jà trazia aPurpura: 
pareceooefcondido,&vi- os do tribu de Efraim, & 
raó, & confeíTâraó todos ManaíTés pela duplicada 
que na menor caía de If- bençaó, & herança de Ja- 
rael , eftava encuberto cobfeu Avo,& de Jofeph 
o mayor homem de If- feu Pay. Mas porque os 
rael : Certe videtis quem homens naó foraò ospre- 

II4 ekm T>õ.minus, qUQd non tendentes do oíiicio,fena6 



veíTe de dar por oppofi- 
çaò j quantos pretenden- 
tes, & quam eftirados a- 
viaò de apparecer ent 
Masfâ diante de Samuel, 
fundando cada hum afua 
pretençaô em grandes 
merecimentos. Osdotrtr 




m 



^3^ Scrmaõ da ^ 

o officio pretendente do for fervido? Pelocontrat. ' 



* 0f 



> í 



homem, o qual fugia, éc 
íèefcondia d-lle ; fendo 
eíTemefmo homem omn- 
yor de todo i íi ael, vede le 
ficou mais autorizado o 
ofíicio. 

§• IV. 

114 F^ Quanto ao con- 
\2j curfo dos prci 
tendentes, & competido- 
res , quando os homens 
faó os que pretendem os 
oííicios, & naó elles aos 
homensi tao fóraeíiàeíia 
multidão de acrecentar 
autoridade ao ofíicio, que 
antes fe defacredita a fy, 
&aelle. bfenaó digaó os 
mefmos pretendentes , 
porque pretendem o ofíi- 
cio? ou pela honra, ou pe- 
lo intereíle. Se pela honra, 
n ai a podem dar ao ofíi- 
cio os que fe pretendem 
honrar com eIíe:&fepeio 
intereíle, bem fe vè que 
*naó querem o ofíicio para 
^fervir,fenaó para lé ler- 
Tirera delle: 6c onde fíca- 
rá o ofíicio mais autoriza- 
do, ondefervir , ou onde 



rio, quand>3 oofíicioheo 
pretendente do homem , 
ícndo o homem fcmpreo 
mais digno, na mcfma di- 
gnidade do homem pre- 
tendido feconferva a au- 
toridade do ofíicio pre- 
tendente, & na exclufao 
dos indignos íempre ex- 
cluídos, fica fem preá au- 
toridade fcgura de fe ar- 
rifcar, ou perder. Vamos 
à experiência. 

11 f O niayor ofíicio, & 
dignidade da Ley antiga, 
como também da Nova, 
he o Pontificado, &Sura.- 
mo Sacerdócio. Ouve de 
le prover eílc ofHcio a pri- 
meira vez , & naóforaó 
os homens os que preten- 
derão o ofíicio , fenaó o 
ofíicio o que pretendeo o 
homem. Afíim o diz cx- 
preíla mente Saó Paulo : 
Nec quifquãm Jurmt fibi 
honor e?u yjed qui-vocatur à 
^to tanquam Aaron. Foy 
pois eleito ao fummo Pon- 
tificado hum homem tao 
grande como Aram: mas 
como elte homem era Ir- 
mão de Moyfès Gover- 
nador 



da terceira T>omlnga do Advento. 139 

nadorunivcrfal do Povo ; porque ? Porque era hum 



julgarão, & murmurarão 
0S homensj que também 
o homem fora empenha- 
do na eleição do oíiicio, 6c 
não o officio na eleição do 
homem. Bom remédio, 
dizDeos. Ponhaíe avara 
de Aram no tabernáculo 
em minha prefença , & 
ponhaófe igualmente no 
Hiefmo lugar todas as va^ 
ras dos Princípes dos doze 
Tribus, & o eífeito mo- 
ílrará qué he o mais digno. 
Fez-fe aílim : & em eípaço 
de doze horas fomente, a 
vara de Aram fe vcllio Aq:, 
flores, & carregou de ff u-, 
tos, & as outras íicáraò taó 
nuas, & fecas como tinhaó 
eafrado nO' tabernáculo. 
Naò lhe fora melhor a e-. 



homem, que naó preten- 
deo elle o officio como os 
demays, fenão o officio a 
elle. Por ifib no concurfo 
de tantos triunfou de to- 
dos 3, & com dobrada hon- 
ra, & autoridade, naò fó- 
ficou o officio maÍ9 auto- 
rizado na dignidade do e- 
leitOjfenáo também na in- 
dignidade dos excluido$^. 
I i 6 No concurío do^ 
officios fecu lares fuccede^ 
o mefmo. Chega o Profe- 
ta Samuel a cafa de Ifai, 
ou Jeílê, & diz que de má- 
dado de Deos vem ungir 
hum de feus filhos por 
Rey. Tinha Jeilè oito fi- 
IhoSjfete dosquae> fw acha- 
vaónamefma cafa, & di- 
vulgada a nova detáo grá-. 



ftes doze pretendentes de, & náo efperada for 
naó pretenderem , nem tuna, já fe vèqualíeriao 



Gompetn-em com Aram > 
Claro eilà que fim. Cada 
humdcUes no feu penfa- 
mento fe media com. A- 
ram , • mas a experiência 
mof}-rou,que todas as fuás 
varas eráó táo curtas,que 
nenhuà igualou a medida 
de caograQde homem. JE 



alvoroço de todos. , Sc 
quaes os penfa mentos de 
cada hum. Vieraó à pre- 
fença do Profeta chama- 
dos pela ordem da idade, 
& foy o primeiro Eliab 
moço de alta, U galharda 
eílaturá , 6c lhe pareceo 
aa PnDfetaj que aquella 
genci- 



14.0 Sermão 

gentileza era digniíTi ma da 
coroa. Masdiflclhe Deos, 
que elle r.aó elege os ho- 
mens pela cara , lenaó pe- 
lo coração, &que não era 
Eliab o ckito. \ cyoo^e- 
gundo,Amin^;dabJ& ceve 
a mefma rcpofta. Veyo 
Samm:ijque era o terceiro, 
vieraó os demais acè oíe- 
timo 5 & todos foraó ex- 
cluidos. Admirado Sa- 
muel, perguntou fe havia 
mais algum filho , & reí^ 
pondeolfai, quefò reíla- 
va o menor de todos , o 
qual naó eílava emi cafa, 
porque guardava as ove- 
lhas, \ eyo emnm o pa- 
ílorfmho , o qual fe cha- 
mava David, &: eíleque 
nonacimento, nacafa, & 
na occupaçaó tinha o ulti- 
mo lugar, declarou Deos 
que era o que fua Provi- 
dencia tinha deftinado 
para a coroa ; & como tal 
oungio logo o Profeta na 
preíença de todos os Ir- 
mãos. Mas fe elle era o 
que havia de fer ungido , 
porque o náo revelou 
Deos ao Profeta nem an- 
tcs,nem depois de entrar 



da 

nacafa de Ifai , mas cónv 
taó notável ceremonia or- 
denou, que vieíTem pri- 
meiro , & foíTem exclui- 
dos os outros Irmaós , & 
em prefença de todos re- 
cebcíTe David a envefti- 
duradoReyno? A razão, 
dizS.foaò ChryfollonAo, 
foy, porque lhe não ílic- 
cedeíTe a David com feus 
Irm.áoSjO que tinha fucce- 
dido ajofeph com os feus: 
Ne ^j deite et idem '^Davtdi 
accidtret^ quod prius lofe^ 
pho. A Jofeph revelou 
Deos, que feus Irmãos o 
aviaó de adorar : mas co- 
mo efta revelação foy fei- 
ta emfonhos, chamavam- 
Ihe os Irmãos oSonhador, 
& primeiro com a morte, 
& depois com a venda lhe 
quizeraó impedir a pre- 
eminência fonhada. Pois 
para que a David lhe naó 
fuccedao m.efmo com feus 
irmãos, vejaó todos com 
os olhos abertos, que em 
fua prefença foy ungido 
pelo Profeta, & fendo te- 
ílimunhas oculares da e- 
leiçaó divina , a enveja 
que lhe entrou pelos meP 
mos 



terceirA H^ominga do Advento . 541 

mos olhos , fe defengane mefmo que efcolheo. Nos 

nue anáo pode impedir, jogos de de fcarte pelo def- 

nem fruftrar. Oh que fer- carte feve claramente qua 

mofa , & trifte reprefenta- feguro tem na maô o tnu- 

caó de quanto perturba os foquem ha de vencer, 

aífcdos, &obrigaçoens Quando Deos (diga moio 

humanas húa eleição não aíTim) fedefcarta de fete 

efperada ! De húa parte homens tão grandes como 

David ungido , da outra os filhos mayores delfai- 



todos feus Irmaós com 
differentes femblantes , 
huns de admiração, outros 
de confufaò • outros de 



bem moftrã que fò em 
David tem o jogo feguro. 
Aífim foy5 &aílim fícao 
autorizados os officios. 



nao os 



117 



defefperaçaó,todosdefen- quando elles lao os pre- 
timento , todos de dor, tendentes dos homens, & 
todos de ira , todos de 
enveja, & nenhum de ver- 
dadeiro amor! Taó fora 
efteve aqui o concurfo de 
autorizar o oííicio,que an- 
tes o officio defautorizou 
o concurfo. Porque buf- 
cando não o homem o of- 
ficiojfenaó o officio ao ho- 



homens delles. 
§. V. 

A Segunda con- 
veniência defte 
trocado modo de preten- 
der he , que viviràó mais 
defcançados os benemé- 
ritos. Procurarão fomente 
merecer, eílando muito 



mem, fete homens may o- certos, q ainda q vivaóre- 
res foraó excluidos, & re- tirados da Corte, & muito 



pudiados como menos di- 
gnos , & ao menor de to- 
dos , que ainda não che- 
gava a fer homem, ̀ lhe 
aíTentou na cabeça a co- 
roa como digniílimo. Mais 
claramente cftou vendo o 
occulto myfterio da elei- 
ção nos 4 ella deixou, q ^^9 



longe dos olhos do Princi- 
pe,là os iraó bufcar, & pre-^ 
téder as dignidades, como 
ao Bautiíla no feu deferto. 
Ainda não eftamòs longe 
da caía de Ifai. Poemfe al- 
gús paíTos atraz da hiftoria 
q acabamos de referir , 6c 
exclama aílim Saó Bafilio 
de 



14^ Sermão da. 

deSeieucia. O resmirabi- nal que os Satrapas do 




* ' #f 



"1 ¥ 



/• "* 






lisí T>aviíícíím ovibus fub 
diu agit, & T>eus in Calo 
confUiacogitat. T)avidgre' 
gempafcit folicitus^ T>eus 
Ínterim throntim apparat. 
Oh cafo verdadeiramente 
admirável! Confideraime 
[diz S.BafiIio] aDeosno 
Ceo,&a David no campo, 
& notai quam difFerentes 
íaó no meíiTio tempo os 
cuidados do fupremo Mo- 
narca , & do humilde 
paftorinho. David eftà 
íbHcito fobre o rebanho, 
& Deos fazendo confelhos 
fobre David:David levan- 
do asovelhas ao paílo,& 
Deos preparandolhe o 
trono. Ainda eu coníide- 
ro mais defcançado a Da- 
vidjdo que a eloquência 
de Bafilio o reprefenta. 
Quando elle fugindo de 
Saul feacoiheoà Corte de 
El-Rey Achiz, 6c para vi- 
ver fe íingio doudo , va- 
liafe para eíla diíTimuIa- 
ção das artes em que fe ex- 
ercitara quando paftor, & 
húaera, tocar o tamboril, 



mefmo Rey Achiz mais 
fe temiaò dô tambo- 
ril, & frauta do mefirio 
David , quedas caixas, ôc 
trombetas de todo o ex- 
ercito de Saul. Coníidc- 
raimepoisao paíloríinho 
comoTitiro à fombra da 
faya tocando a íu a frauta, 
& Deos que lhe conhecia 
o talcnto,decretandolhe a 
coroa. Pôde aver mayor 
cuidado no Ceo,& mayor 
defcanço na terra?Pois eltc 
he o que gozaó no feu re- 
tiro os benemeritos.Eliab, 
Abinadab, t^ Samma, Ir- 
mãos mais velhos de Da- 
vid,que feguiaõ as armas, 
& militavaó no exercito 
de Sauljquando muito fe- 
riaó pretendentes de hum 
venabulo, 6c de húa gine- 
ta, foportando os traba- 
lhos, & perigos da guerra. 
K David porque debaixo 
da famarra criava mayor 
valor, & talento queelies, 
íem marchar de dia , nem 
fazer a fentinella de noite, 
nem eftarfogeitoâordem 



& a frauta. Aílim oexpri- de hua legiaódeofficiaes, 
me o texto Grego, for fi- naó fó fe habilitava no ca- 
jado 



í-*.' 



\ 



terceira dominga do Advento ] 1 43 

jado para o baftaó doex- Joaó Chryfoftomo. íP//ív2 



excito , fenaó para o Cetro 
do Reyno. 

118 PaíTe mos do cam- 
po ao mar , 6c ponhamo- 
nosnas prayas, & ribeira 
doTiberiades. Na praya 
^ andava paífeandc Chrifto: 
' Ambulans Icjus juxta ma- 
reGalila^,^ na ribeira vio 
a Pedrojêcafeulrmaóaque 
eílavaó lançando as redes 
ao mar : Vidit duos fratres 
rnittentes rete in maré. A- 
crecenta o Evangeliíta : 
Erant enmfifcatores^-^oX' 
que eram pefcadores : & 
eu pergunto , fobre quem 
cae eíla advertência? To- 
dos dizem que fobre Pe- 
dro , & feu Irmaó: & eu 
digo , que não fò cae fobre 
Pedro,' & André , íenão 
também fobre Chrifto : 
porque Chrifto , & é[\ts 
naquella occaíiaó todos 
eram pefcadores. Elles 
pefcadores , porque efta- 
vão lançando as redes ao 
mar para pefcar ospexes, 
& Chrifto pefcadorjpor- 



tur eos lejusyutipjipifcen- 
tur alios. Ipjtprimum pif- 
ces effiáuntur^ ut pijcen- 
tiir à Chrifto , pojiea alios 
pifcaturi. Suppofto pois 
que Pedro com feu Irmáo^ 
& com as fuás redes pef- 
cava, & Chrifto fô,&fem 
redes também pefcou , 
pergunto outra vez, qual 
foy mayor, & melhor pef. 
cador , Pedro , ou Chrifto? 
Não ha duvida, que Chri- 
fto era o melhor, mas am- 
bos foram grandes pefca- 
dores. Chrilto grande pef- 
cador,porque do primei- 
ro lanço pefcou hum Pon- 
tifice •, ôc Pedro grande 
pefcadorj porque íem re- 
colher o lanço pefcou o 
Pontificado. Ifto he o que 
íignifícáo ainda hoje , & 
íignifícaràó atè o hm do 
mundo as aflinaturas , & 
fellosde todos os decretos 
Pontifícios , Debaixo do 
annel doPefcadonti^^^^jf;?- 
nulo Ttfcatoris, Agora 
tomara eu poder entrar 




que andava pafleando na naquella grande cabeça, 
praya para os pefcar ael- que depois foy coroada 
ies. £xccilen|ement€ Saiu <^?m a íuprema Tiara, & 

exami- 



144 



•; 



1Ê 
m 



'* • 00 




examinarlhe os penfamé- 
tos, náofódefta hora, fe- 
naõ de toda a fua vida. 
Por ventura em toda a fua 
vida quando Pedro ouvia 
dizer que em Jerufalem 
reíidia o Summo Pontifi- 
ca, ou foíTe Simon , ou 
Matthías, oujoazaro, ou 
Eliazaro, ouAnano, ou 



Sermão da 



iip E fe aílim como 
eu tenho perguntado tan- 
to, me perguntarem tam- 
bém fobre que merecimé- 
tos, ou talentos de Pedro 
aflentou Dcos a propor- 
ção, & juíliça deftesfeus 
decretos ? Refponde Eu- 
íebio GalUcano , que fo- 
bre a grande proporção , 



Caiphaz,q faoosqueíuc- quetemaarte,&:officiode 

cedèraó em feu tempo , pefcador como dePonti- 
veyolhe algum dia ao pen- fice. Sobre a prudência de 

famento, ou acordado,ou governar o leme , & fu- 

fonhando , q poderia elle ítentar , & levar fegura a 

íubiràquella fuprema di- barca : fobreaconítancia, 

gnidade ? He certo que & valor de contraílar com 

nunca a fua barca navegou os mare$,& com os ventos: 

com taó profpero vento , fobreofofrimento, &:du- 

& marè,que tal coufa lhe reza fem mimo, nem rcga- 

paífaíTe pela imaginação, lo de foportar os traba- 

E comtudoderdeafuae- lhos: fobre a vigilância de 

ternidade o tinha Deos obfervaraLuaj&asEftrel- 

deftmado para outra , & las , & contar os paíTos, as 

mais univeifalTiara,não mares de dia, & de noite: 

dependente dos Cefares fobre a difcriçaò de ufar 

Romanos , ou dos feus do remo, ou da vela fe- 

Tenentes na Syria , & na gundo a oportunidade dos 

Judea,que eraóosquepu- tempos, & muito particu- 

nhaõ huns, & defpunhaó larmente fobre o inílru- 

outros , mas eílabelecida mento univerfal naó do 

cm {y^ &c em feus fucceíTo- anzol , ou do arpaó, fenaó 

res pela eleiçaó immuta- da rede que cerca, &abra- 

vel daProvidencia.divma. ça fem diílmçaó a todos. 

E 



terceira ^omi 
IL aílim lemos defte gran- 
de pefcador de homens , 
que os pefcava a milhares, 
ou a milheiros , em hum 
lanço três mil, & em ou- 
tro cinco mil. EcomoPe- 
dro em taó fin guiar ciécia^ 
& talentOjfeapplicava to- 
do ao officio da ftia prO- 
fiíTaô 3 ncfte mefmo def- 
cuidojefquecimento , & 
ocio de outras mayores 
pretençoens , oudelejos, 
fe habilitava, & fazia di- 
gno de que o mefnio Dcos 
o foíTe bufcar às fuaspra- 
yas,&: a mayor dignidade, 
& officio do Univeríb o 
pretendeíTe a elle, quando 
elle no trabalho , e>cdQÇ' 
canço do feu náo preten- 
dia outro. 



§. VI. 



líO 



E 



Para que veja- 
mos quam dito- 
fos, & prudentes faó "os 
que retirados ao defcan^r 
ço de náo pretender , fé 
fazem merecedores de fer 
pretendidos: &ainfelici- 
dade,ôc mao confelho dos 
que por fer pretendeíites, 



do Advento^, i+f 

nunca chegaó a alcançar o 
defcãçoj leamos a hiftoriá 
dehúa, & outra fortuna, 
cm dous homens não en- 
contrados , mas Pay , 6c 
filho Jacob.&Jofeph. Ja- 
cob ainda antes de nacer; 
começouí a fer pretenden^ 
te dabeilça6, &ímorgadd 
de líaac, lutando com íeu 
Irmaó Efau defde as en^i 
tranhas da Mãy fofere ete 
pretençaó. A poucos an- 
nos de nacido conhecen- 
do q o Pay eftava inclinai 
do a Efau,por aver fidojxl 
primogénito, para lhe fa- 
zer guerra com partido 
igual , tratou de lifongear, 
& ganhar a vctade àMáy , 
naò faindo jà mais de fua 
prefença: Jacob habitas m 
tabernacuUs.OxxtTTiyxz di- 
zendolheEfau queeftava 
morrendo à fomcj foubefe 
aproveitar tam bem da 
dccafiaó , & taó mal das 
obrigaçoens da irmanda- 
de, que lhe naó quiz em- 
preitar o foccorro da vida, 
íenaô a preço do mefmo 
morgado,fogeitãdoo à for- 
ça da neceíTidade a cpe lho 
vendeíTc.Chegadoem fim 
K o dia 







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IBTflIi 



''ÀU 






14.^ SfrmaÔda 

o dia em que o Pay havia da. Ide embora peregrino 

de dará bençaóa Efau,fa. pretendente, caminhai Ai, 



bidos íàó os dolos , oserr- 
ganos , &-as falfidades>có 
que lha roubou,com nome 
falfo , com veftidos falfos, 
€om maós falfas , com i- 
guarias falfas , infiel ao 



bindo montes, 6c á^ç^náo 
valJes, chegai cançado i 
terra onde vos leva voíTq 
dcftino, que la pretendet 
reis outra vez,& achareis a 
paga do voíTo mereci meto. 



Irmao , infiel ao Pay , & Preteadeojacob a Rachel 

infiel ao mefmo Deos^al- filha de Labaò, & ao cabo 

legando que fora vontade á^Çctc annos que fervia 

de Deos ter achado taó por ella, deraó-lhe eralu, 

depreíTa a caíTa, Çcm aver gar de Rachel a Lia , cotn 

talcaíTa, nem tal prefla, obrigação de fervir outros 

nem tal vontade de Deos. fete. Servia de paftor ^ 

Ja agora parece que eílará partido, & poílo que fo, 

contente Jacob com a vi- raó muitas as oveiiias que 

toria em contenda taó du, contou , os dolos, & injur 

vidofa : masnaófoy aílimj ftiças q nos m^efmos partia 

porque alcançando por dos lhe faziaó ca<ia hora^. 

taes meyos o £m da fua naótiveraó conto. Deita 

pretençaó , nem poriíTo maneira vingou Labaóa 

confeguio o defcanço, & Efau,&padeceoJacobnos 

felicidade que fe promer enganos de Teu fogro, os 

tia na dominio de taó que tinha feito a feu Ir- 

oipulenta herança> antes a-r maõ» - - 

goraforaó raayores , & 121 Ponhamos agora 

mais perigofos os feus àviíla deíle retrato de Ja- 

trabalhos, obrigado, po- cob, fem pre pretendente > 

bre, & comhujn pao na & nunca com defcanço , a 

maõ, a perder a cafa do imagem taó diverfadejo^ 

Pay , a deixar o amor íeph feu filho, aquemen» 

da Máy , & afedeftcrrar toda a parte pretenderão 

da Pátria por falvar a vi- íempre 05 mayores luga^ 



y 



terceira T)úminga doAãventi, i4crf 

rcs,fcm clle dar hÚ paíTo , Reo, & do mais grave cri- 

nem occupar humpenfa- me, logo de prezo paííott 

mento em os pretender, a carcereiro, fiandoíelhe 

Filho cm cafa de feu Pay, as chaves , & o aperto, ou 

cativo, & vendido a Puti- alivio das cadeas , & o que 

far , prezo nos cárceres do he mais,pronunciaddô an- 

Egypto , Miniftro no Pa- t,^^ da fentença dos Juizes^ 

lacio de Faraó , cfta foy ou o caíligo aos quò aviao 

^m toda a parte afortuna de fer condenados, ou a 

de Jofeph,ella pretendeu- foltura , & liberdade aos 



do-ofempre, &elle nunca 
pretendente delia. Filho 
cm cafa de feu Pay , de 
quem era o rnais favoreci- 
do icftava dormindo Jo- 
feph, & no campo as pa- 
veas dos fegadores, & no 
Ceo o Sol, a Lua , & as E- 



que fahiaó abfolutos. Fi« 
nal mente tirado da pí-i- 
zaò, & levado aPalacioi»; 
El-Rey Faraó naófó o le- 
vantou ao lugar de feu 
primeiro Miniftro , mas 
Ihedeo a reprefentaçaò,&: 
ttnencia de fua própria 



ftrellas que lhe vigiavaó o peíroa,fem mais diíFeren 
fono, lhe eftavaó prome- Çá que a das infignias Re- 
tendo as adoraçoens de aes, refervando o Rey pa- 



ra fy o cetro fem o gover- 
no , & dando a loíeph o 
governo fem o cetro. Taes 
foraó as fortunas de lo- 
feph em todos os eftados 
de fua vida, & fe alguém 

„„^ ,,_ . . , defeja faber com q artes 

& aelle que governaíTe a as confeguio ; digo que 
cafa , & toda íiia fazenda , com duas couíàs : com fé 
da qual como dcno,& naó fazer fempre merecedor 
criado fe lhe naó pedia delias, & com nunca as 
conta. No cárcere do E- pretender. Depois dos 
cvptoonde entrou como dous fonhos do Rey , & 
^^^ ■ Kij fabido 



feus Irmacs,& do mefmo 
Pay. Vendido a Putifar, 
quando como eícravo po- 
dia efperar hum lugar na 
cavalheriça, o Senhor lhe 
deo o feu , mandando a to- 
dos que lhe obedeceííèm, 




14S -'.^^vA^ ííT^^^ ^^ 
fabidoqueemtòdisasri. r-í22 Oh fe acabaíTertt 
beiras do Nilo , & terras os homens de querer an- 
do hgypto a fere annos de tes imitar a lofeph^que a 
fartura aviaó de fucceder lacob , & tratar mais de 
outros fete de fome, foa- fer benemeritos,que pre- 
confelhcu Jofeph ao Rey, tendentes l Senaó baíiaÒ 
que para remediar a efte- os exemplos humanos pa- 
riJidade de huns com a ra nos perfiiadir efta hora- 



fertilidade de outros, fe 
encomendaíTe o cargo de- 
íla prevenção a peíToa de 
talento, & induíí:ria,que 
em todas as Cidades do 
Reyno a fizeíTe executar. 
Pareceo bem o confeiho 
ao Rey , & a todos feus 
Miniftros, Screconhecen- 
do que em nenhum outro 
homem fe podiaô achar 
partes iguaes às dejofeph 
para aquella taó impôr- 
canceÍ!jperintendcncia,lo 



da^&deícançada induíl:ria> 
ponhamos os olhos em to- 
das as outras criaturas a 
que a natureza naó dea 
razaõ , nem fentido , & 
veremo>i como todas as 
que rem vaíor,& preílimo, 
occupadas fò em crecer, 
& fe fazer a fymefmas, 
fem cilas pretenderem , 
nem bufcarem a outrem, 
todos as bufcaó,& preten- 
dem a ellas. Que fazia a 
oliveira , a figueira, &a 



go loy nomeado no offi- vide, fcnaó carregarfe de 
cio com todos os poderes frutos,quando toda a Re- 



Reaes. De rmaneira que 
húa fó. vez ;que íoíeph 
Paliou em ofíicio,&: o pro- 
curou para outro homem, 
naó eítrangeiro como 
elítrfenaó Egypcio; oolii- 
cioàsaveffas fe i-Qz preten- 
deu te do homem 5 & o pre- 
tendeo ao mefmolofeph, 
& o confeguio. 



pubhca verde das arvores, 
& plantas lhe foy oíferecer 
o governo, & 6 império.? 
Naó o quizeraò aceitar, 
porque fe contentarão có 
o merecer. Deixefe crccec 
o pinheiro, & fubir arêas 
nuvens naNoroega,que de 
là o iraó tirar para maílo 
grande,6clevar a bandeira 
no 



terceira dominga do Advento, 149 

no tope. Creça também o falta quem pelas defaíFo- 
cedro gigante do Líbano, gar aíFogue arefpira^aó , 
& faiba que quando da- nem à prata quem pela de 



quelle monte for paíTado 
ao deSion, naò heparao 
fobredourar o ouro do 
Templo , mas para elle 
com mayor dignidade co- 
brir, 6c reveftir o mefmo 
ouro. Bem mal cuidava o 
marfim na fua fortuna. 



fenterrar enterre a vida. 

123 Os que fe acharem 
com efpiritos guerreiros 
exercitem a archite6lura 
militar, & a formatura dos 
exércitos na paz, & dem 
Çòs por fós com figo as ba- 
talhas feccasjpara q depois 



íílt^t.M.MI.t.M. ««l» SV.»^ •~»- , ^Vl... 't X l 

quando fe via endurecer as poíTaó tingir no fangue 

nosdentes doElefante,6c dos inimigos^o Politico fa- 

dalli foy levado para tro- çafe verfado em coda a li- 

no deSalamaó. Que def- çaódashiftorias,& aprcda 

cuidados crecem os rubins mais na pratica dos exem- 

emCeilaó, & em Collo- pios, que na efpcculaçaó 

conda os diamantes, & lá do diícurfo a refoluçaó 

os mandaó cóquiftar com dos cafos futuros, & a ex- 

armadas os R.eys para ref- periencia dos paíTados. O 

plandor , & ornato das inclinado às ietras^procu- 



íuas Coroas. Empreguem 
todo o feu cuidado os 
grandes fogeitos em aper- 
feiçoar os talentos, & do- 



re com o eftudo univerfal 
as noticias de todas as cie- 
cias, & naó cuide que f© 
com a memoria de poucos 



tes que nelles depofitou textos das leys lhe podem 

a natureza , ouagraça,6c dar as demandas , & tra- 

Í€ por retiradoô, & eícon- paçasofairo,&mal mere- 

didos cuidarem que per- eido nomedeletrado:em-» 

dem tempo, &:eftima(,aÓ5 fim por humilde, êcraílei- 

lembremre,quefepultâdas ra quefejaainclinaçaó,ou 

as pérolas no fundo áo fortuna de cada hum,fa- 

mar , & a prata no centro çaíe no feu eílado infigne, 

da -cerra , n€m ás pérolas lembrandofe que os Anti- 

Kiii ';os 









1 fo SermaÔ da 

gos^ Romanas do arado ma prova da fegunda con- 

eraó cícolhidosparaoba- veniencia , ou ponto do 



ílaó 5 &: do triunfo torna- 
vaó outra vez ao arado. 
E fe acafoneílesíoiicarios 
exercidos julgarem que 
eílaó ociofos por lhe tar- 
dar a promoção do que 
elles merecem } advirtaó 
que tudo tem fua hora. As 
cinco da tarde chamou o 
Pay de familias para a 



noíTo difcurfojem que dif-- 
femos que retirados da 
Corte, &daspreteni,oen8 
viviràó mais deícançado» 
os beneméritos. 



í. Vil. 
iix, C Eguiafe a 



s 



gc 



ra a 



terceira conveni 



vinha aquelles a quem dif- encia, de que por eíle mo- 

fe , ^id bíc ííatís tota do eílariaõ maisdefemba- 

die^ o-Uofi &C tanto merece raçadas as Cortes , ponto 

raó, & alcançarão eíles na de pouco goílo , íx''utili- 

ultima hora, como os que dade para os que neíle 



tinhaô trabalhado todas 
gs doze do dia. Quemnaó 
julgara pelos mai^ ociofos 
de todos os homens a E- 
noch, & Elias,retírados ha 
tantos centos de annosiio 
fegredo doParaifo terreal.^ 



em baraço tem a fua lavou- 
ra , & íem cavar,nemíe- 
rnear a íua colheita. Mas 
porque eíle tumulto , & 
confufaó nas portas, ôceA 
cadas dos Minillros , & 
nas niefmas ruas he taó 



Mas quando apparecerem frequente,que igualmente 
no mundo os formidáveis tropeção nclla os pés, & 



exércitos do AnteCliriílo, 
çntaó moílrarà Deos que 
PS naò tem ociofos, fcnaó 
poupados para reftaura- 
dores do mcíino mundo. 
Aílini vivem , aílim dcf- 
cançaó, Ôc aílim merecem 



os olhos j para naó gaílar 
o poi]co tempo que nos 
reíía em matéria taó fabi- 
da, 8c tió viíla , deixada 
a conveniência delia àcó- 
íidcraçaò dos que me ou- 
vem, pafiemos como mais 



lem prccenacr: parauki- importante, 6v menos ad- 
vertida 



f - Ui 



terceira 'Dom/nga do Advento] i fi 

vertida à quarta. vaó, & fugiaó dclles. -^ 

125- A quarta conve- 126 Cativo o Povo no 

niencia de ferem os oífi- Egypto, 6c cada dia mais 

cios os pretendentes , & opprimido,&tiramzadx>, 

osho vens os pretendidos elegeo Deos para feu h- 

he^quefazendofeâífim/e- bertadoraMoyfêsnacido, 

rà mais bem fervida a Re. & criado no mefmo Egy 



publica. E para que veja- 
mos efta infaliivel verda- 
de provada também como 
prometi com os exemplos, 
& ditames do governo, & 
Politica divina ; ponha- 
mos, & paífemososoihos 



pto com pratica, & expe- 
riência náo menos que de 
quarenta an nos. Ehe di- 
gna mais que de admira- 
ção a contenda que ouve 
entre Deos , &Moyrès: 
Deos inílando em que a- 



pela Republica Hebrea , ceitaíTe o officio, & Moy- 

que foy a que Deos cha- fès replicando, &efcufan- 

mou fua , & como tal a dofe quaíi obílinadamen- 

governou por fy mefmo. te. Primeiro diífe : ^ts 

Teve efta Republica em fum e^o^ut vadam adTha-^^ 

diverfos tempos quatro raonem^ &edíicam filio s If- 

eftados, &: nelles quatro rael de Egypto? Quem fou 

modos de governo. O pri- eu para ir a Faraó , & li- 

meiro no tempo do cati- vrar os filhos de Ifrael do 

veiro : o fegundo no tem- Egypto? Tu fô^reíponde® 

po dos Juizes : o terceiro Deos, naó poderás nada, 

no tempo dos Reys : o mastucoraigo,quefemprc 

quarto no tempo dosPro- te aíllftireij poderás tudo. 

fetas : 6c em todos eíles Naó me creràô Senhor, 

tempos 5 & tí^ados entaó replica Moyfès, que vòs 

foy mais felice o feu go- fois o que me mandais, 6c 

Terno,quando foy admmi- me appareceíles. Sim cre- 

ftrado por homens,naó fò ràó,diz Deos, porque com 

que naó pretendiaò os oiii- eíTa vara que tens na maó 

cios, mas que fe^fcufa- farás taes milagres, que 

Kiiíj naó 






7J. 



'^^ ' Sermão ^a 

nao poíTaÒ deixar de dar conhece as difficuldades/ 

& quem melhor as prevê 
antes, mais Fortemente as 
vence depois. 

12/ Naó fô libertou 
MoyfèsoPovo, mas com 
tudo quanto poíruhia,naó 
ficando dosfeus gados no 
Egypto,comodizoTex. 
to, nem húa unha :& com 
tal lagacidade , &: indu- 
ftria, que pedidas por em- 
preílimo o ouro, prata,6c 



credito a quanto r^ediíTe- 
res. Reparai Senhor, tor- 
na a replicar Moyfès, que 
eu fou tartamudo, &:nem 
com os meus poderei fal- 
lar, quanto mais com Fa- 
raó. Araó teu Irmaó, que 
he expedito, & eloquente, 
irà CO mtigo,&: eu moverei 
atua lingua, ôcmaisafua, 
elle fera teu interprete,6c 

teu Profeta, & tu como ^... u.u, p:aca,oc 

Deos fallaras por elle. A- joyas dos Egypcios,tam. 
talhadas por eíle modo to- bem fahiraó pagos do fer- 
das as efcufas,ainda fenaó viço injuílo de tantos an- 
aquietou Moyfès, Sclan- nos. Libertado o Povo af^ 
çandoíe aos pès de Deos, í]m,ou quaniuSertado,nos 
Jíie pedio, & proteíloucó ultimes confins áo Eev^ 
inítanriíTimos rogos , que ptofe vio no mavor peri- 
inandaíle arquem avia de go; porque pela 'parte de 
ni^naar: Aiitte quem mif- diante lhe atalhava o pafib 
Jii lises: & lílocomtalre- o mar Vermelho, & pelas 

coftas o íeguia Faraó com 
todos feus exércitos, & os 
Hebreos , ainda que qui- 
zeíFemrcfiíHr , defarma- 
dos. Tudo fuprio porem 
a vara do libertador. To- 
cou o mar,o qual a brio hua 



folução , que o mcfmo 
Deos íe irou contra ç\\ç^ : 
Iratus eíí T>ommus in 
Moyjen Obedeceoem fim 
Moyfès, aquando parece 
que naó avia de fatisfazer 

âfua obrigação hum Mi- ..,^h— --- 

nutro mandado por força, larga ellrada, por onde o 
& tanto contra fuavonta- paífáraó a pè enxuto os 
dcoeíi^eiton^oftrouque fugitivos, 6cna6fazendo 
quem mais fe efcufa, mais alto , mas proíeguindo a 

mar- 



<.«^ 



.ji 



terceira T^ommga do Advento. 1 5"^ 

marcha o exercito inimi mado' dos Juizes, os quaes 

PO por entre as duas mu- fenaò elegiaó annualméte, 

íalhas,quedehua,^ outra fetiao quan do alguma gra- 

parte tinha levantado o ve necefíidade o requeria, 

mar, tornandoíe a unir os Tal era a que padecia o 

afFogou a todos. Reftava mefmo Povo occupadas 

afegundaviagcmjque era todas as fuás terras , ou 



dalli para a terra de Pro 
miíTaò , na qual fe moílrou 
mais milagrofo Moyfês, 
que afuamermavaraipor- 
que confiando o Povo li- 
bertado de íeis centas mil 

familias, & durando ape- trás grandes manadas de 
regrinaçaõ quarenta an- todo género de gados à 



mais verdadeiramente i- 
nundadas pela multidão 
immenfa dos Madianitas, 
Amalecitas, & outras na- 
çoens orientaes, que com 
os feus camellos , & ou- 



nos, fendo todos mal con 
tentes, ingratos , mur- 
muradores, ôídefcomedi- 
doS5re foy milagrofa na- 
quelle deferto a provi- 
dencia de Deos em os 

fuílentar, a prudência, & 

paciência de Moyfès naô litasymaiscomoferasjqco- 
foy menos milagrofa em mo homens, nas grutas, 8c 
os fofrer. Taò exacta- 
mente exercitou o offi- 
cio quem taó confiante 



maneira de enxames de 
gafanhotos talavaó, & a- 
brazavaó os campos, co- 
mendo, ôc a íTolan do quan- 
to nelks nacia. Fugitivos 
no mefmo tempo, $c efcon- 
didosos miferaveis Ifrae- 



mente fe tinha efcufado 
delle, 

128 Entrado o Povo fe- 
lizmente na terra dePro- 
miflaó,fuccedeo àquella 



concavidades dos mon- 
tes , & efpeíTura dos bof- 
quês ; neíle aperto ap- 
pareceo hum Anjo a Ge- 
deaó,ao qual chamou /^i- 
rortim fortijjlme , o mais 
valente dos homens, porq 
verdadeiramente o era na 



grande Republica o fegú- robuíteza do corpo, & no 
do eftadojôc governo cha- valor do animo. E íobre 




if+ Sermão d a 

eíle titulo Iheencsrreeou fobre milagres para o per 






que tomaíTe as armas, íSj 
o governo do Povo , &: 
oIivraíTe do jugo daquel- 
ies barbares, &detaò '\i\- 
foportavel mi feria. Naó 
duvidava Gedeaó ter ília 
parte como Toldado na 
empreíapoíioquetaódif- 
íiculcoía, mas como o An- 
jo lhe fallou no governo 
de que nunca tivera pre- 
tençaó, nem penía mento, 
a primeira propoíla com 
que íe efcuíbu roy a hu- 
mildade da íu a ca fa, dizen- 
do que era a ínfima do tri- 
bu deManaíTes, & elle o 
minimo deila. Obfecro mi 
"Domine inquo liberado If- 
mel : Ecce família me a Ín- 
fima efi hl MayiaJJe , ó"' (go 
minimus in áomo patris 
mei. Se o Anjo naó tivera 
dito a Gedeaó que era o 
mais valente de todos os 
komens, íb pela valentia 
deíla efcula o antepuzera 
eu à terceira parte dos A n- 
jos. Perfilho o valentiíli- 
mo heroc nefía honiada 
refiftencia com tal defcon- 
fíança deli mefmojquefo- 
raó neceílariQs milagres 



fuadi 



ir 
cargo. 



a que aceitaíTe o 
Aceitou em fim: 
& a quem o tinha refilhdo 
com tal gcnerofidade de 
animo, argumento era, & 
pronoftico certo que ne- 
nhum poder avena no 
mundo que baílaíTe a lhe 
refiítir. Aílim fov;porque 
fó com trezentos comba- 
tentes desbaratou, &:poz 
em 'í\.\^\à3i toda aquelia 
immeníà multidão, que a 
Efcritura compara àsareas 
do marjfendo muito pou- 
cos os qefcapàraó comvi- 
da. Defembaraçada a cam- 
panha, fahiraó 05 fugitivos 
Ifraelitas das grutas , & 
covas rcfufcitados, habi- 
taram outra vez as fuás ca- 
fas, povoarão as Cidades 
arruinadas, Ôcreílituiraó 
a diílipada Republica ; a 
qual agradecida a feupro- 
digiofo libertador, o quiz 
levantar do governo pri- 
vado a Monarquia, oífe- 
rccendolhe por accla- 
maçaó o titulo de Rey ; 
masellecom a mefma mo- 
deração, 6cmodefl:iacom 
que cmha recufado ,0 ba- 
ítaó, 



I 



I.. , 



terceira T>omínga do Advento. i f 5" 

ftaójrecufou também a co- mo o feu nome, que poii 



roa, &naô a querendo a- 
ceitar nem para fy, nem 
para feu filho, naó fô co- 
roou com eíla todas as fuás 
façanhas , mas moílrou, 
& enfinouao mundo quá- 
tomais aptos, 6<- capazes 
fâó dos grandes lugares 
os que pretendidos os re- 



cos dias antes andava buf- 
cando as jumentas do pay? 
Se fora filho de Felippe de 
Macedónia, & detaóreai 
talento como Alexandre 
Magno , naò fe pudera 
portar melhor, nem obrar 
mais como Rey. Quanto 
às murmuraçoés,& defpre- 



cufaò , que os que ambi- zos de fua peíToa, diz o 

Texto Sagrado : Ipfe "vera 
díffimulabat fe mtdire: que 
ou\^ia, & diíHmulava : jâ 
fabia reinar, porque fabia 
diílimular. Quanto às la- 
grimas do povo 5 pergun-; 
tou qual era a caufa , pof'*^ 
que chorava : ^id h^ 
het fofuhis qtiò d piorai} S^-''^ 
naó fora bom Rey , nãò' 
fizera caio das lagrimas 
do Povo. Perguntou a cau- 
fajporque as quiz reme^ 
diar, í?c remediou- aSjpor» 
que lhe naó diiatou o re- 
médio. Foy refoluçaó por 
todas fuas circuofiancias 
notável. A caufa das lagri- 
mas do Povo, era por ter 
chegado nova que os A- 
monitas com podérofo 
exercito tinhaó íitiado a 
Cidade de Jabes Galaad^ 
& 



ciofos os pretendem 

129 PaíTado o Povo 
Hebreo do governo Poli- 
tico, & militar dos Juizes 
ao dos Keys, o primeiro 
eleito à foberania da di- 
gnidade Real, foy Saul.Jà 
vimos como fe eícufou, 
já vimos como fugio , jà 
vimos como fe eícondeo: 
vejamos agora feeíles te- 
mores , 6c defconfi ancas 
de fy , & do feu talento e- 
raó bem fundadas. As duas 
primeiras coufas, q ¥Ío,& 
ouvio Saul feito Rey, fo- 
raó as lagrimas do Povo, 
&as murmura.,oens , ôc 
defprezos dos que repro- 
vavaó a fua eleição. E 
como fe portaria neíles 
dous cafos o filho deCis, 
homem íaò pequeno co- 



■* ■ 0t 



í5'(> Ser 

&: que ofi^Vjrecendofe os 
cercados a fe render a par- 
tjdc>,Naas,quccra o Rey, 
^General do excrcito,rer- 
pondera q o partido avia 
de fer tiiandoihc a todcs 
os olhos direitos , & que 
fendo taô cruel, Sfinjulla 
eí>a condição^tambem a ú- 
nhaó jà aceito, fe em efpa- 
ço de retediasnaófoíTeni 
locorridos. Illo ouvio 
Saul , diz o Texto, indo 
recolhendo do campo pa- 
ra cafaos feus bois , que 
eraô dous : & no mefmo 
ponto em que teve noticia 
do aperto em que ellava 
aquella Cidade, que naó 
era muito difíantCi o que 
fez, foy partir os mefmos 
bois em muitos pedaços , 
& mandalos por todos os 
tribus de Ifrael , dizendo 
o pregáó : Aflim íeha de 
fazer aos bois de quem lo- 
go naó feguiraSaul: ^^z- 
cutnque non exierit , &fe- 
cutus fuerit òatd yjic fiet 
bobas ejus. Oh que pregáó 
também entendido, que 
náo fò entraíle pelos ou- 
vidos , fcnaó também pe- 
los olhos! R.ey que para 



maÕda 
a guerra primeiro mata os 
fcus boi?, melhor matará 
os alhcyos,íe o nãofegui- 
rem. Foy obedecido o 
bando de maneira , que 
marchando Saul toda a 
noite, no quarto da alva 
fe achou com trezentos, 'nC 
trinta mil homés armados. 
Deraó de repente nos ini- 
m'gos, & eíles foraó taó 
rotos , d< desbaratado.<^,q 
naó ouve dous q ficaífem 
jú toSjUt non rclinquerentur 
in eis díio puriter. A verá a- 
gora qué lhe pareça , & di- 
ga mal da eleição de Saul? 
Foy taIorefpeito,&amor 
que conciliou o novo Rey 
com eíla vitoria , que logo 
fe levantou voz em todo o 
exercito ; Appareçáo os 
que reprovarão a eleição 
de Saul, & morrão todos. 
Acodioelle porém , não 
confentindo a execução 
daquelle caíligo , pollo 
que merecidoj&moílran- 
dofeno mefmo dia verda- 
deiro Rey^tanto nas vidas 
que tirou vitoriofo a feus 
inimigos, como nas que 
perdoou oífendido a feus 
yaíTallos. Tudoillo fe ef- 
con- 



ti.' 



terceira "Dominga do Advento. i f 7 

condia naquclle homem leremiam ineptim redde- 



que feefcondeo 

130 Ao governo dos 
Reys fuccedeo em parte, 
&em parte fe ajuntou o 
dos Profetas, como inter- 
pretes da vontade divina: 
& também osque íeeícu- 
favaó, & repugna vaó o of- 
ficio,foraó os mais Repú- 
blicos. Baile por todos o 
exemplo deJeremias.Dif- 
felhe Deos , que defde o 
ventre defuaMãy o tinha 
efcolhido para Profeta: 
& elle que quando rece- 
beo efl"a primeira revela- 
ção contava fomente qua- 
torze annos,rerpondeo:y^, 
A-tA^ 'Domine 'Deus^ ecce 
nefcio loqul^ qula piier ego 
fum\ A, A, A, Senhor, que 
íou húa criança incapaz 
detaô a]to,taô difficulto- 
ío , & taó pezado oíHcio í 
Tomoulheopezo , com- 
menta Cornelio,^reco- 
nhecendofe incapaz de ta- 
manha cargajaqueiles três 
A,A,A, foraótresays, có 
que co eçou agemerde- 
baixo delia Ter trmum 
AAAydiz Santo Thomàs, 
mtantur três defe6tus^qui 



bant ad prophetandimhfci- 
ltcet defeãiim íetatis^fclen- 
ti£ , ^^l^q^íentia. E hum 
homem que naõ em três 
palavrasjfenaóem três le- 
tras reconhece em fy três 
defeitos, da idade , do fa- 
ber, &da lingua , & em 
três letras dà a Deos três 
efcufas para naõ aceitar ó 
oííicio , obrigado ao acei- 
tar por obediência, &por 
força, que fariaPO queninf 
guem cuidou deile , nem 
elle de fy. NaôteveDeos 
Profeta, nem mais zelofo 
da fua naçaô , nem mais 
amante da fua Patria,neni 
mais cuidadofo , & vigi- 
lante da fua Republica. fa- 
zendofe pedaços pela aííl- 
ftir em todos fcUvS traba- 
lhos , já na própria terra, 
jà nos deílerros : dcfen- 
dendoa fempre dos mef- 
mos que enganados com 
falfas efperanças ajudavaõ 
a fua ruina : aconfel ban- 
do os que fe accommo- 
daíTem com a prefente 
fortuna,para naó virem a 
padecer outra peor: cho- 
rando mais que todos, 
fuás. 




«■^2^> 



m 



/ -' 



' T^ Serma 

fuás defgraçasj&enfinan- 
dolhes os meyos de as có- 
vercer em bonanças. Fiel 
na vidajconílante na mor- 
te, & ainda depois de mor- 
to im mortal proteâror 
dos que Deos lhe tinha 
encomendado. Na vida 
eníinandolhes a verdade 
contra os falfos Profetas, 
na morte deixandofe mar- 
tirizar por defenfa delia, 
& depois de morto appa- 
recendo a Judas Macha- 
beo, &dandolhe a efpa- 
da , com que havia de re- 
ílaurar,renovar, &eílabe- 
lecer no culto do verda- 
deiro Deos , & obfervan- 
cía das leys pátrias a mef- 
ma Republica, Agora ti- 
rarei cu da boca do mef- 
mo Jeremias os feus três 
AAA, & lamentarei com 
tanta razaócomoelle,que 
porque ha tantos ambi- 
ciofos , & ha tantos preté- 
dentes, & ha tantos que 
alcançaó os oííicios de que 
faó indignos : & porque 
naó ha quem conheça os 
beneméritos, nem ha quê 
bufque os efcondidos,nc 
ha quem os defencerrc 



Õ da, 
dos feus retiros ; por iÇÇ^ 
ou eílà fepultada a Repu- 
blica, ou caminha a paíTos 
largos para a fcpultura , 
fem modo,nemefperança 
de rerufcitar delia. 

.Ç. VIII. 
^3^ ÇUppofto pois que 
^os corpos Políti- 
cos Cou fejaó de governo 
Monarchico, ou dcquai- 
quer outro que cu entenda 
geralmente debaixo do 
nome comum de Repu- 
blica ^ fuppoílo, digo, que 
entaó feraó bem fervidos, 
quando os oííicios forem 
adminiftrados porhomés 
que fe efcuíem delies, ifto 
heinaó pelos ambiciofos, 
fenaó pelos beneméritos, 
que naó pizaó as lamas, 
nem frequentaó os orató- 
rios das Cortes , antes fo- 
gem , & fe rctiraó de a$ 
ver,nem felhes mofl:rar:& 
fuppoílo affim mefmo,quc 
os oííicios, como hoje em 
Jeru falem, haò de preten- 
der os homens , &naò os 
homens os oííicios, & eííes 
os haó de ir bufcar ainda 
que vivaó nos defertos \ 
com razaô fe me pergun- 
tara 



terceiralDominga do Advento. ifp 

Ufà reduzindo odifcuríb Ceo à terra. E para que? 



a pratica: quem faó os que 
haó de procurar 5 "ftc felici- 
tar os homens^eílando el- 
les retirados , 6c quem 
faó os que haó de reque- 
rer, & fallar pelos oííicios, 
fendo elles mudos ? Ref- 
pondo era húa palavra , 
que eftes folicitadores, Ôc 
eíles requerentes devem 
fer todos aquelles a quem 



O efFeito omoílroulogo. 
Andava apacentando o 
feu gado naqueliedeferto 
hum homem chamado 
Moyfès , o qual avia qua- 
renta annos que fe tinha 
retirado da Corte del-Rey 
Faraó > & para bufcar efte 
homem, &lhe rogar que 
o quizeíTe fervir na liber- 
dade do feu Povo cativa 



pertence a fuperintenden- no Egypto, chegando pa^ 

çia do governo , quacsfaó ra illoalhedar o feu pro- 

nas Republicas os fupre- prio titulo de Deos,tinha 

mos Magiftrados , & nos vindoDeosdoCeo aterra. 

ReynososfeusPrincipcs, Oh,naó digo inchação, &: 

& Monarcas. yaidade humana, mas def^ 

1^2 Efeaafgum,porvé- cuido, &: efquectmento» 

tura, ou por defgraça,lhe cego de quam iguaes fez 

parecer menos digno da a natureza a todos os ho* 

authoridadeRealeltecui- mensí Demaneira , que 

dado de folicitadores , & para bufcar em hum de- 

requerentes dos Teus fub- ferto a hu m paíl or,porque 

ditos , & vaíFallos > ouçaó o hamiíler , dece do Ceo^ 



agora, &oque lhe entrar 
pelos ouvidosjlhe abaterá 
os arcos dasfobrancelhas. 
Nos defertos de Madian 
appareceo híia çarça que 
ardia, & naó fe queima- 
va, & debaixo deíla cor- 
tina de fogo quem eftava? 
Deos q^ue tinha, decido do 



à terra o Deos que fez os 
homens; &íefaó por me- 
nos decoro da Mageftade 
os que naó faó Deofes, 
naó digo jà o ir bufcar, ôt 
rogar em peííba , mas o^ 
ehamarsdc trazer a feu fer- 
viço hum daquelles ho* 
mens que fó Deos po- 
de 



■* 



i^o Sermão da 

de fazer , & elles naó efpaço de tempo deixou 
;podem? Parecerá por ven- ChriHo oCeo , & deceo 
itura que íe Deos fora ho- ate as portas de Damafco, 

mem, não fizera outrora- para cor vcrcer a Saulo. 



to, mas he certo que fim 
fizera , & com muito 
mayores empenhos. 

1^3 Jà Deos era home, 
& jà ellava aílentado à 
dextra do Padre, quádoás 
portas de Damafco fe ou- 
vio hum trovaó.q derru- 
bando do cavallo a Saulo, 
fez eftremecer , & cair em 
terra a todos os que o a- 
companhavaó armados. 
No meyo daquelles ho- 
mens fe ouvio juntamen- 
te húa voz , que dizia: 
Sauky òattle^ ciir me perfe 



Pois para converter hum 
homemt & hum homem 
actualmente feu perfe- 
guidor 5 & inimigo, fea- 
ballaem peíIbaoFilhode 
Deos , & deixa o trono 
de fua Mageftade, & vem 
à terra com tanto eftron- 
do , &apparatodepoder> 
& lhe falia , & o chama- 
duas vezes por feu pró- 
prio nome .^ Sim. E a ra- 
zão deo o mefmoChriíiò 
a Ananias , dizendo que 
tinha cfcolhido aquelle 
homem parafe fervirdel-* 



quens> Sauio, Saulo, por- le na pregação do Evan- 
que me perfcgues .? Mas gelho, &:"driataçaódefua 



que voz foy eíta^^ de qué.'' 
Algús cuidarão que fora 
fomente formada no ar 
por modo de vifaó ima- 
ginaria , mas he certo, & 
de fè,que foy voz do mef- 
mo Chriíio em peífoa, co- 
mo declarou o mefmo S, 
Paulo, & confia de outros 



Igreja por todo o mundo; 
yas ele ãt anis eft mihi ifte^ 
nt portei nomen meum co- 
ram gentibiis, E fe Chriíio 
Deos, & homem deixa o 
trono de fua Mageíl:ade,& 
dece do Ceo aterra para 
bufcar , ^ trazer a feu 
ferviço hum homem, em 



muitos lugares da hiftoria quem na mefma guerra 
làgrada. E nora S. Tho- que lhe fazia conheceo o 
más, que por todo aquelle grande talento com que o 

po- 



«• 



terceira T^ominga do Adventê. 1 6\ 

Dodiafervir-, os homens q verificou no provim éto de 

nió faô Dcoíes,porque te- Moyrés,8c no provim enco 

ráó por acção menos de- de Pauto. Quando Dcos 

corofa à fua grandeza buf- proveo a Moyfés , diíTe q 

carem por fy mefmos os decéradoCeo , para por 

homens , para fe fervirem meyo delle Urrar do cati- 

defeustalétosnosoffiçios, veiro a fcu Povo: Defcendt 

& cargos de mayor impor- ut liberem pofulum meutnde 

tancia,8c ferem elles como manibus ^^gypttorumXic 

pretendentes dos meímos fortc,qDeos,&ofeupovo 

homens os requerêtcs dos era o empenhado no otti- 

mefmos officios? cio provido èm Moyfes. b 

1 24 Quem ifto eftra- quãdo Çhriíto deceo tam- 

nhar,hc porque o entends bem do Ceo, & elegeo a S. 

ásaveíTas. Cuidãoquene- Paulo,oqdiírefoy:^^Jí'/^- 

ftes cafos fazem os Reys os ãionis eft mihi ijte.utportet' 

provimentos nos vaíTallos, nomen meum, onde fe deve 



& he engano. Os providos 
neíles provimentos nam 
faóosvaíTallos , fenaó os 
mefmos Reys. Deos era o 
Rcydelfrael, & quando 



notar o mihi , & o nomen 
meum^porq também o em- 
penhado no proviméto de 
Paulo era o mefmo Chri- 
flo,&ofeunome. Ecomo 



proveo o oíficio cm hum osPrincipes quado prove 

filho de Ifai,que diíTe a Sa- os officios nos grandes ho- 

muel ? Mtttam te adlfaiy mens , elles polto q fupre- 

providi enim in filijs ejus mos , & foberanos fao os 

fnihi Regem, Iras a cafa de providos, náp. he muito q 

Ifai,porque em feus filhos elles tambc fejáo os que o» 

tenho provido para mim o bufquê,& fe dem os para- 

Rey.Notai muito muito o bens dcos acharem: como 

providimihi y provi para Deosfegloriava,&^ava^o 

mim: o proviméto foyfei- parabédeachar a David t 

toem David,mas o provi- InveniT^avidfervu meumx, 

dofoT.Deos. O mefmo fe inveni hommem fecundum 
Ws. L cor 



» » 






•7.. 



i^í SermaSda 

cor meum.qiú faciat omnes conhecia , & que o vira 

volunt ates meãs, quádo eftava à fombra da 

lU Quando aflim o fi- fua figueira j dahi infere 

zerem os Reys bufcando Natanael, que he verda- 

os efcódidos, & pretende- deiro Rcy,Filho de Deos, 

do os q não pretendem , & 5c Redemptor de Ifrael > 

tirado-osparafcu fcrviço Sim. Porque o Rey que 



dos lugares onde eftiveré 
mais retirados,então obra- 
ráócomoRcys , & fcráó 
venera dos,& adorados co- 



conheceos feus vaflallos, 
& as fuás boas partes , & 
merecimentos, antes de 
apparecerem em fua pre- 



ino Reys decidosdo Ceo. fença , & eílando aufentes 
Quando Natanael apare- & retirados ao pê de huma 
ceo a primeira vez diante 
de Chriílo, diíTe o Senhor 
tóle 5 q»cra verdadeiro If- 
raeli ta : Ecce verus IfraeU- 
ta^in quo dolus non <?/?. E co- 
mo admirado Natanael, 
perguntaíTe donde o co 



arvore , põem os olhos 
nelle ; eíle tal Rey , nam 
fô he Rey, mas vindo do 
Ceo, ôc merecedor de fer 
acciamado , & venerado 
com adoraçoens. Talhe 
o exemplo que a todos 



nheciaj&oSenhorrefpon- os Reys deixou o vcrda- 

^5' ^A^ ^^ ° ^^"^^ ^^^^^ ^^^^^ Mefiias, & tal o efti- 

quado deitado debaixo da lo, com que tam bem hoje 

fua figueira o chamara Fe- a Republica de Jerufalem 

\ippt:Tnufquamte Thi^ naó bufcou ao mefmo 

íipusvocarehcurn ejfesfub Mefílas na Corte , fcnam 

pu.vtdt te-, exclamou Na- nos defertos : Miferunt lu- 

Waeídizédo:7« esFilius dai ab Jerofolymis Cacer 

"Dei, tu es Rex Ifrael: Con- ' ' -" - ^ -' -^ - 
fcíToqvòs Senhor fois o 
verdadeiro Rey de Ifrael , 
*c Filho de Deos.Pois por- 
q Chriílo lhe diífc, q antes 
dcapparecerdiátedelle o 

SER^^ 



dotes^ ér Levitas ad loap^ 
nem. 






16*3 



ààààààà-êmàMà 



SERMAM 

DAS OBRAS DE 

MISERI CORDIAL 

A Irmandade domefmo nonac , 

Na Igreja do Hofpital Real de Lisboa, em dia de todos 
os Santos, com o SantiíTimo expoílo , anno 1 64.7. 



Beatipauperes : Beati mifertcotâes. Matth.f . 




5. L 

hõ iò hua , fc- 
naó duas vezes 
facramentado , 
vos contempla 
a minha confider^tçaó , 6c 
vos reconhece, & adora a 
minha fè nefte dia,&c neftc 
lugar, todo poderofo Se- 
nhor. Nas duas clauíulas, 
ou nos dous oráculos de 
voíTa divina palavra, que 
propuz5^vejo beatificada a 



pobreza : Beatipauperes 3^ yi^t^. 
também beatificada a mi- "í 3- 
fericordia: Beati mifericor- 
des. A mifericordia em vòs 
he fuftancia, a pobreza em 
nos faó accidentes : & fe eu 
deíla fuftancia , & deíles 
accidéres quizeíTe formar 
algum Sacramento 5 eílc 
Sacramento feria fô hum , 
5c naó fó voíTo, mas voííb 
por hua parte , & noííb 
por outra. Comtudo tor- 
no a dizer, que nefte dia, 
Lij 6c nc- 




is 




' ..- 



§. II. 

NEfl:egrádc,& 
fermoío thea- 



1^4- Sermão das 

& neftè lugar vqs contem- 
plo, & adoro, naó húa , fc- 
naóduas vezes facramen- 

tado: & naó a outro titulo, 1^7 
fenáo da mefma miferi- 

cordia,nema outrobenc- tro da piedade chriílá 
fido, fenaó da mefma po- ( em que a mefma piedade 
breza. Oh bemaventura- junta em corpo de Con- 
da pobreza , &: bemaven- gregaçaô he a principal,& 
turadamifericordia/Bem- melhor parte do mefmo 
aventurada a pobreza dos thcatro } as duas figuras , 
.pobres, que a eílc Hofpi- ou perfonagcns, que hoje 
eioReal vem bufcar o re- entraóa reprefenrar, he a 



médio: & bemavcntura- 
da a mifericordia dos mi- 
ferÍ€ordioíbs,quenelle os 
foccorrem, & remedeão; 
pois a pobreza de huns,& 
a mifericordia de outros, 
parahuns, & paia outros 
vos facramentou outra 
Tez. Efte fera , Senhor, 
cooftvoíla licença 5 & gra- 
ça, o argumento do meu 
difcurfohoje. Vòsocnca- 
jnmhai,comonovo; vòso 
.alentai, como fraco : vòs o 



pobreza,8c a mifericordia, 
ambas em habito de bcm- 
aventurança ; Beatipaupe- 
res: Beati mifericordes. 

138 Começando pe- 
la pobreza 5 cite nome táo 
mal avaliado entre os ho- 
mens tem duas íignifíca- 
çoens. Ha pobreza, dizS. 
Agoftinho, que he vircu- 
de,&: pobreza que he mi» 
feria. A pobreza que he 
virtude, he a pobreza vo- 
luntária, com que fe á^í- 



alumiai, como rude:6c por prezaó todas as coufas do 
interceíTaó de voíTa fantif- mundo. K pobreza que he 



fima Máy, vòs o aíTiíti, co- 
inovoífo. ^ve Maria, 



miferia, he a pobreza for- 
çada, com que fe carece 
deílas mefmas coúfas, 5c fe 
padece a falta de toda». 
Suppoíla eíladiviíaójcm 
que 



obras de Miftrkõrdia. i <>f 

qite naó duvida , duvido E porque, ou de que mo- 



•agora, Sc pergunto: feapo 
brcza que he miferia, he 
também bemaventurada, 
ou naó.? A pobreza que he 
virtude, eífahe a canoni- 



do ? Porque neíia mefma 
pobreza inftituio Chriílo 
hum novo, & fegundo Sa- 
cramento náo de outra, fe- 
náo de fua própria PeíToaj 



zada por Chriílo,& a cífa transformandofe afy mef- 

fe promete o Reyno do mo em todos os pobres do 

•Ceo : Beatí pmiperes ffiri- mundo , 6c do modo que 

tu, quoniam ipforú eft Reg- logo vereis, confagrando- 



fiim Cdorum. Porém a po- 
breza que he miferia , à 
qual nem fe prometem os 
bens do Ceo,nem ella pofr 
fue os da terra,antes pade- 



fe nelles. De forte queaf- 
fim como naquella Hoília 
confagrada,&: em todas, 
& cada húa eftà.tpdoChri- 
ftojaíTimeílàtodoem to 



ce a falta de todos, parece dos os pobres , & todo em 

que naó pode fer bem- cada hum. Os poores aa 

aventurada.Malaventura- pobreza que he virtude , 

da fi m , porque para efta faó bemaventurados, por- 

pobreza não ha ventura : que báo de ver a Deos : os 



mal aventurada fim 5 po^^- 
que todos a defprezáo, & 
fogem delia : malaventu- 
rada fim,porque ainda pa- 
ra fe con fer var na mefma 
miferia, ha de pedir, & de- 
pender da vontade alhea, 
quehea forte mais trifte. 
Com tudo he tal a bonda- 
de de Deos , & tão larga a 
immenfidade de fua Fro- 



pobres da pobreza que he 
miferia,faò bemaventura- 
dos , porque nelles eftà 
Deos. Efíahearaz o,&o 
fundaniento porq fe^ atre- 
-veo a dizer a minha fé, que 
neíledia,& nefte lugar ef- 
tà Chriílo duas vezes fa- 
cramentado. Os que hoje 
com tanta piedade , 5ç de- 
vação vifitaftes as \enfer- 



vidência, que atè a pobre- marias deite Hoípita],que 

za que he, & fe chama mi- viítes nellas, fenâo pobres 

feria, fez;bemaventurada, raifcraveis , em que apo- 

TÔm.8. L iij brezâ 



l^^ StrmaUas 

breza veyo bufcar o reme- cárcere , & 'veniftis ad me. 



dio,&a miferia a miferi- 
cordia ? Pois fabei, que em 
todos tí^ts pobres eftà o 
mefmo Chriílo que ado- 
ramos naquella HoíHa. 
Porque cremos que eftà 



Vinde bemditos de meu 
PadrepoíTuiro Reyno, q 
vos eftà aparelhado : por- 
que tive fome,& me défte s 
de comer; tivefedc,& me 
dèftes de beber} era pere- 



Chrifto naquella Hoftia? grino,& me hofpedaftesj 
lorqueelleodiírePoiser- andava defpido, &meve- 
famefma,&naóoutrahea ftiftesjeftava enfermo, & 



prova que temos para crer 
que eftá nos pobres. 



§. III. 



^39 






no cárcere, & me vifita- 
ftes. Ouvida efta fentença 
táo alegre, &vécuroía pa- 
ra todos os que a merece- 
rão ouvir,que fariáo? Cui-« 
^^Odiadojui- dava eu , que poftrados 
INzo quando porterradarião a Chrifto 
Chriílo chamar para o asgraças,&Iogoa fy mef- 
premiodabemaventuran- mosoparabem^não cabe- 
ça a todos os Santos ( que do détro em fy de prazer :' 
náo era bem nos faltaíTe ao mas o que fízeráo, foy co- 
menos a fua memoria no mo pôr embargos a íèntê- 
feu dia, pois a obrigaçam ça,& appellar,ou aggravar 
he outra) as palavras, & o dos fundamentos delh. 
relatório daquella gloriofa Diz o E vangelifta,que ref- 
fentença feráò eftas : Feni- ponderaò ; £ quando íize- 
Matth ^^^^^^^^^^'P^^^'i^'>^€hpof- mosnòs, Senhor , eíFas 
^^':\^, Jidete paratum vobis Reg^ obras que allegais por nof- 
Hi^' num : efarivi enim , à* dedi- fa parte, & premiais como 
fiis mlht manducar e sfitivi , mereci m étos noQo^? ^la- ^^^^ 
& dedifiis miht bibere j hof- do te vidimus ejuriententy & 
fes eram^ ò' collegtftis me ; pavimus te^Jitiente w, & de- 
nudus^ & coQpenãllis me-, dimnstibipocum: Qiiando 
inJirrauSi^ vijitajlís me : in vos vimos nòs com fome, 

&VQ5 



tw. 



obras de Mifericordia. 1^7 

& vos dêmos de comer, ou ficaffim foj cllco que lo- 
«,mfede,& vos dêmos de gorefpondeo, declarando 
beber ? ã»"»'^'' ^e vidimui a mefma fentença,& a yer- 
horptem:& colkgimus te, dade do que nella tinha 
:ilLd£èr Joperuimus allegado \ ^.t níjond^nju.^ 
íí -Ouando vos vimospe- Re>Sydicet ,Ufs: Amen dt- 
rcsaío, & vos hofpedá- co vobts, qmndmfecftis^ 
mSs,3£defpido,8cvosve- um ex h,s frambm mets 
ft^mos? /ut quando te -vi- minim.s, tnthMts. He 
dtmusinfirmum,autmcar. verdade, refpondeo o Se- 
cere, & venimus adte : Ou nhor , que vos nao me v - 
nuando vos vimos enfer- ftes como dizeis , mas eu 
E& no carcere,&vos vi- vos digo, & vos affirmo co 
ntámos ? Ifto he o que re- juramento, fer t?™be ver- 
plicariófobre a fua fenté- dade, que me fizeftes tu- 
5osBemaventurados,& do' o que eu aUeguei na 
com replica muito bé fun- voíTa fentença , porq bem 
dada.sí verdadeira , por- lf"brados eftareis,que to. 
que todos , ou quafi todos das aquellas obras de cha- 
^aótinhaó vifto a Chri- ndade as fizeftes aospo- 
So, Sc muito menos na- bres.&tudoo quefizeftes 
quèuas occafioens de ne- a cada hum deUes.me fize- 
ceffidade, ou pobrezaem ftes a mim : ^od untex 
aueofoccorrefem. Pois, htsmtmmtsfectjUs,mihfe- 
Senhor , fe eftes homens «7?«. De forte, que quan- 
do o pobre padece o leu 
trabalho , & a fua neceffi- 
dade , padece -a Chriíto: 
Efurivhfttivi: & quando 
vòs foccorreis ,& fazeis ^ 
efraola ao pobre, fazeilaji 
■anca, Chrifto , mihifeciftisAo- 

14.0 "Sò Chrifto podia go, ou Chrifto eftà no po- 
refponder a efta replica : bre, ou he o mefmo pobre. 
•^ L iiij A 



nem vos viraó , nem vos 
ibccorréraó có eíTas obras 
de charidade que referis, 
como as allegais na fua 
fentença , & porellas os 
premiais com a Bemavé- 
turança' 







]^^ Sermão das 

A primeira deftas confe- fócomaniflir, & eílar no 
quencias he de S. Cypria- pobre-, o mais he,diz S.Pe-: 
no,aíegunda de S.Pedro droChrvroIogo,quenam 



Chryfologo,& ambas de 
todos. Para o homem foc- 
correr, & fazer efmola ao 
pobrejbaftavafer homem 
como elle } mas quiz Chri* 



fó quiz aíliftir, & ellar nel-. 
le 5 mas o mefmo Chrifta 
fe fez, & quiz fero mef- 
mo pobre : ^od fe T>eus 
amore paiipens fie deponaty 



fto eftar no mefmo pobre, ut non adfitpauperi ffedip^ 

diz Cypriano , para que A^//^/^^///;.r. O aífiílir , & 

quando nam foíTe ba- o 'eílL no pobre , pòdefe 

íbntemotivodeofoccor- entender confervandofe a 

rermos , efte refpeiro do differenca das peíToasen- 

queelle he, nos obrigaíTe tre a de"Chriílo, & a do 

anão deixar de o fazer a pobre: mas o fer náofe 

reverencia & dignidade pôde veniicar fenáo paf- 

de quem nelleeíla, que he fandoa differença a con- 

Chriíto : Ft qmrefpeãti ílituir identidade, & fendo 

fratns non movetur , W o pobre o mefmo Chriílo, 

i.hrtjU coj^templatione mo- & o mefmo Chriílo o po. 

'veatuT,à'qmnoncogttat bYf.Ftipfeíítpauper, 

m labore, &egeftate con^ i^i Ecomoneíleocui- 

Jervum,velT>ommumco- to ,& profundo arcano 



gitet in tilo ipfo, quem de f- 
picitiConftitutum. Notem- 
fe com particular adver- 
tência eílas ultimas pala- 
vras , jn itlo jpfo conftnu' 
tum: quenãofóíignifícáo 
eílar Chnfto no pobre de 



da mifericordia , & bon- 
dade divina Chriílo por 
particular modo de aíliílé- 
ciaeftànopobre, & o po- 
bre por particular modo 
de identidade fe conver- 
te em Chriftoj efte heofe- 



qualquer modo, lenáo ef- gundoSacramt to do mcf- 
tarnellepermanentemen- mo Senhor , com que eu 
te. \ías menoscra, ou fe- dizia , que a pobreza , & 
na,íe t.hníloíe cptencaíTc mífedcordia o tornou a fa- 

cramen- 



Obras de Mifericordia. 1 69 

cramentar fegunda vez. ao primeiro .-rerponde por 

Excellencemente S.João Chryfoftomo Chryfolo- 

Chryfoftomo comparan- go , ambos com palavras 

do as palavras da confa- de ouro : Sed quomodo attt 

craçaò com as da íentença in fs transfiideritpauperem^ 

dodia do Juízo, húas , & aut fe in pauperem fudertt y 

outras pronunciadas pelo dkat tpfe jam nohts. hfu- 

mefmoChriíl:o:^//^/>/Vr rivi ( inquit ) & dedijhs 

Hoceji corpus meum^hkdi' miht manducare. Non dt- 

xit, efitrientem me cibaftis : xit , efurivitpauper, & de- 

Aquelle Senhor, que dif- dlftis illi.fed efurivt ego 



fe ,Efte he meu corpo, 
eíTe mefmo diíTe, tive fo- 
me.Sc me àé,?tts de comer. 
E aiTim como pela virtu- 
de daquellas palavras nos 
énfina a Fé, que eílà Chri- 
fto realmente debaixo das 
efpecies de paó 5 aílim 
nos certifica Q diz o mef- 
mo Chryfoftomo 3 que ef- 
tà também realmente de 



irdediftismihi. Não diíTe 
ChriftojO pobre teve fo- 
me, & vòs lhe déftes de 
comer a elle, fenão , eu ti- 
ve fome, & me déftes de 
comer a mim: &eftefoyo 
modo de húa transeíFufaó, 
dizChryfologo, com que 
o mefmo Senhor fe infuri- 
dio no pobre , ou refun- 
dioopobreem fy : §u&' 



baixo das efpecies do po- modo inje transfuderkpau 

bre : Si.fpeciem apparen- perem^ atit fe in pauperem 

tem fpeães , nudum induis^ fuderit. Atè os Gentios re- 

reautem vera Chriftum ope- conhecerão nos pobres, Sc 

ris. Ponderai muito o re miferaveis algum género 



autem vera. E fe alguém 
me perguntar, ou ao mef- 
mo Santo, como formou 
Chrifto de húa tão dilfe- 
rente matéria, qual he o 
pobre, outro fegundo Sa- 
cramento taó íemelhante 



deconfagraçaó, por onde 
ái^Q altamente Séneca : 
Reseftjacrawífer Nacon- 
fagração proprijííima da 
Euchariília afuftancia de 
paó convertefeemfuftan- 
cia de Chrifto , & a efta 

€0X1- 




17^ .. 
converfaó 



de 






í . '% 



i "* 






chamáoos Theologos trã- 
fuftanciação : na confagra- 
çao,a feu modo,(la pobre- 
za, infundefe a Peíroa de 
Chriíto no pobre, ou a do 
pobre em Chriílo, & a efta 
converfaó de peíToaj cha- 
mou Chryfologo tranf- 
cfFufaó : òe in pauperem 
transfuderit.l^^o parecido 
heChriftoafy mefmo em 
hum, & outro Sacramen- 
to, & tanto merece a feme- 
Ihança do fegundo o nome 
do primeiro. 



Hf 



ff. IV. 

A Replica dos Ju- 
rtos , quando 
Chrifto os chamou para a 
bemaventurança, taófora 
eíleve de fazer duvidofo 
eftenome de Sacramento, 
que antes foy maior con- 
firmaçáodelle. Quediílè- 
ráo todos aquelles,que pe- 
las obras de mifericordia 
exercitadas com os pobres 
merecerão ouvir tão vcn- 
turofa fentençaPO que difl 
feraó, ou replicarão , foy; 
Comine , quando te njídí% 



Sermão das 
fuftancias mus efurientem , & Jitien^ 
tem\ Senhor, quando vos 
vimos com fome, ou com 
fede ? T>omine , quando te 
vidimus hfjfpitcm^ autnu- 
dum: Senhor, quando vos 
vimos peregrino , oudef* 
pido? T>ommey quando te 
vidimus infirmum , aut in 
cárcere : Senhor , quando 
vos vimos enfcrmo,ou en- 
carcerado? E porque íize- 
raô táo repetidamente ef* 
ta pergunta ? Porque ain- 
da não tinháo ouvido da 
boca do mefmo Chrifto, 
§luoduni ex his mi. imisfe^ 
cijtis , mihi fecijiis. Sc 
aquelles Santos fouberaó 
que Chrifto eliava encu- 
berto debaixo das eípc- 
cies dos pobres, 6c facra- 
mentadonelles, entende- 
rião claramente, que efla 
era a razão manifefta de o 
náo terem vifto , nem po- 
derem ver. Porque nani 
vemos nòs a Chrifto na- 
quella Hoííia, fabendodc 
certo queeftà nella ? Por- 
que também fabemus que 
eftà nella por modo lacra- 
imental,& que he próprio, 
ôceílencial doDacraméro, 
^aquillo 



lí^ 



obras de Mifericordia] 171 

aquillo mcfmo que crè a mo(ouaomefmomodo3 
féjOCultarfeàvifta.Defor- quando olhamos para o 



te, que quando Ghriílo 
difle, que o que fe fazia ao 
pobre, fe fazia a ellc,^<?i 
uni ex hísfecifiís, mibife- 
ciftis i então revelou , & 
declarou o Senhor, que ef- 



pobre , vemos o pobre, 5c 
nam vemos Chrifto ; mas 
no mefmo pobre que ve- 
mos , cremos que' eftà 
Chriftoy^que nam vemos.: 
& nam por outro motivo. 



tava no pobre : & quando fenão pelo próprio, & el- 
os que ifto ouvirão, refpó- fencialdaFê. Omotivo, 



déraó que nunca tinháo 
vifto a Chrifto, "Domine y 
quando te vidimus 5 então 
confirmarão , que eílava 
Chrifto no meímo pobre 



ou razão formal , como 
fallão os Theologos, por- 
que cremas o que en fi- 
na a Fè , he a authorida- 

v.uix.Lv^ *xv. .x*w ^ de divina ; creyo o que 

por modo de facramenta- Deos diíTe , porque elle o 
do , pois eftava invifivel diOe. Efta foy a altiflima , 
debaixo de efpecies vifi- & divina Theologia com 
veis, que he a eíTencia do que Chrifto refpòdeo aos 
Sacramento. Judeos, quando duvida- 

14,6 Daqui fe infere em rão de elle haver de dar a 
feguimento da mefmapa- comer aos homens a fua 
ridade, queaíTim como o carne: êluomodofote^htc.^^ 
Sacramento da Euchari- mhis carnemfuam dare ad 6.^^, 
ília he o primeiro myfte- manducandum ? Bem po- 
riodaFèjaííimodapobre- dera o Senhor refponder 
za he o fegundo. Porque ao quomodo da fua duvida, 
he, & fe chama por anto- declarandolheso mododo 
nomafia myfterio daFèo mefmo myfterio 5 mas o 
Sacramento do Alcar?Por- que refpondeo, foy tornar 
que nelle vemos húa cou- a dizer o mefmo que tinha 
fajSc cremos outra. Vemos dito : Niji^ manducaveritis 
pão, &: cremos que alli ef carnem Filij hominis , non 
ta Chrifto. JPois do mef- habebitis vitam invohisz 



» > 



>' .T 



1/2 Ser 

porque ? Porque toda a ra- 
zão de fe crer o que elle di- 
zia, era dizello eile. Eíla 
he toda a razão de Ter my- 
ílerioda Fè oeílar Chri- 
ílo no Sacram ento i & eíla 
he também toda a razáo 
defermyílerioda Féoef- 
tarChriílono pobre. Por 
iíTo querendo S Baíilio 
Magno perfuadirefta mef- 
ma verdade, o que diíTe, 
como refere S. Joáo Da- 
mafceno, foy : Crede T>eOy 
qui beneficia ea qu£ in op- 
freffnm confenmtur , tan- 
quam infetpfum collata ac^ 
cipet. 

§• V. 

14.7 C Se vos parece q 
m he igualméte dif- 
ficuIcofoCou ainda mais 3 
eftar Chriílo tão verda- 
deiramente encuberto em 
hum homem, como na- 
quellas efpecies facramen- 
taes 'y ouçamos a Ifaias: 
ir3i.4^. Tantum inteeft 'Detis^ à* 
*'^'^- non eji abfqiie te Deus : 
verè tu es T>eus abjcondi- 
tus : Só em vòs eftà Deos, 
& fora de vòs não eftà 



ma o das 
Deos 5 Sc vòs verdadeira- 
mente fois Deos eícondí- 
do. Palavras fobre todo 
encarecimento grandes y 
admiráveis , eílupendas, 
tremendas, & que fenâo 
foráo do mefmo DeoSjnão 
fe poderão crer ! Mas de 
quem 5 & com quem falla- 
va Ifaias ? Não ha duvida, 
que fallava del-Rey Cyro, 
&c com o mefmo Rey Cy- 
ro. Pois em Cyro, que era 
hum homem como os our 
tros ( porque a coroa nam 
os faz de outra efpeciejem 
Cyro eftà Deos, & fora de 
Cyro não eftà Deos, & o 
mefmo Cyro he Deos ef- 
condido? Sim. Para que 
nos não admiremos de 
que Deos pofta eftar em 
algum homem, & nam ef- 
tar nos ou tros, & que eftc 
mefmo homem verdadei- 
ramente feja Deos encu- 
berto, & efcondido ; l^erè 
t u es T>eus abfconditus. E f- 
te he o fentido literal da- 
quelleTexto,o qualma- 
ravilhofa mente fe corref- 
pondecomonoíTo. Lá ef- 
tà Deos em Cyro , in te efh 
"Deusy cà eítà Chrifto no 
pobre; 



Obras ãe Miferlcordia. ' ' 73 

pobre.-1à eftà Deos em Cy- Difcipulos n^^^ v«o mais 
To, & naó eftà nos outros qo P^^gnno. Do mefmo 
homens, W««^/ aHine te modo, quadoS Martinho 
S-càeftàChriftonos deo ametade da capa ao 
pobres, & naó eftà nos que pobre,náo via «?« que o 
não faô pobres : là verda- pobre,mas alli f^^^Chri- 
deiramente Cyro he Deos fto,como o mefmo Senhor 
cncuberto , & efcondido , fe moftrou aos Anjos cu- 
Veretu es T>eus abfcondi- berto coma mefma capa ;■ 
x«..,cà verdadeiramenteo Martimshacmevefte con- 
pobre he Chrifto efcondi- texit. Afllm foy naquelle 
C&encuberto: finalmé- cafo , Sc aflim he fempre 
teíà Dorque Deos emCy- fem difFerença algua Nos 
rooSnellcSccomei pobresque fâo pedindo 
leahberdade do cativeiro nos degraos defta ^reja.Sc 
à^\{x^t\,T)euslfiael Sal- nosqandáopor eíTas ruas 
vZ; & cà,porque Chrif- eftà o mefmo Chrifto: tan- 
to no pobre padece nelle , to aflim . que quando vos 
& com elle a fua pobreza , pedem à efmola, & lhe di- 
,/"„rm , & recebe nelle , & zeis, perdoai por amor de 
tora elle o bem que lhe fa^ Deosscora a mefma verda- 
zem , mihi feclftis. Os dis- de lhe podereis dizer, per- 
farces naó mudaó a peflba: doai por amorde vos: Vete 
efcondida, & defcuberta tuesDeus abfcondms. 
hcamefma.QuádoChrif- 14.8 Masomelhor, & 
to apareceo à Magdalena mayor paralello defta fe- 
em trajos de hortelão , alli melhança não he Cyro no 
éftavaChriftojmasaMag- trono da Perfia , fenao 
dalena naó via mais que o Chrifto no trono daquelle 
hortelão: quando o mef- Altar.como facraraetado, 
mo Chrifto caminhava cÓ S.Jeronymo.S.Ambrofio, 
os Difcipulos de Emaús S.Athanafio,S.Cyrillo,I>. 
cm habito de peregrino, Epiphanio , Procopio , 
alli eftava Chrifto j mas os Theodoreto, & os outros 




f 






i7-t Sermão das. 

Padres comummente em (íueChrifco efcá ercondí^ 

fenrido também literal, & do,Sc encuberto no pobre 
profético dizê,qertaspa- porque no pobre não baf- 
lavras fe cntedem do Ver- ta o fer homem para Chrí- 
bo depois de encarnado, ftoeftarnelle.rque por if- 

no qual eftcve a divindade fo naó eftà nos outros ho- 

encuberta , & efcondida mens ) mas he neceíTario 

debaixo da humanidade. E íèr homem debaixo dos 

paliando , ou fubindo do accidentesdafome , dafe- 

lentido literal ao my ícico , dc,da dcfnudez , 6c de ou- 

âs entendem os Doutores, trás miferias, & neceíTida- 

principalmêce modernos, desde que recompoem,ou 

domefmo Chrifto no Sa- defcompoem a pobreza 



cramento , em que o cftar 
efcondidofe verifica ain- 
da có mayor propriedade, 
& energia i porque, como 
notaS.Thomás, em Chri- 
fto abfolutaméte eftava fó 
efcódida a divindade,6cno 
mefmo Chrifto emquáto 
facramêtado efti efcódida 
a divindade, ôcmaisahu- 
manidadera divindade de- 
baixo da fuftácia humana, 
& a humanidade debaixo 
dosaccidentes facramen- 
taes. De maneira,q alli eftà 
encubertOjôc efeodidoto^ 
doChrifco,ifrohe,toda a 
divindade,«Sctodaa huma- 
nidade de Deos : Ferf tu es 
iJeus abfconditus. E tal, ou 
femelhante hco modocó 



Aílim o exclama o grande 
Chryfoílomo tátas vezes" 
benemeriro em todos os 
pontos defte difcurfo : 
Troh quanta paupertaiiseft 
dígnitas\ 'Dei Ter fona in^ 
duit\ inpaupertate ah f con- 
di tur T>cns. O qua m gran- 
de he a dignidade da po- 
breza í o pobre defpido 
vefteaPeífoade Deos, & 
o mefmo Deos efcà cfcon- 
dido no pobre. 

i.i^: ^ §. VI. 

1+9 in Em qual pobre.? 
Cí Indifferentemé- 
teem todos , & em cada 
hum : que he a proprieda- 
de que fó nos faltava para 
complemento da femc- 
Ihanca. AlTim como Chri- 
fto 



i, 



Í.V.- 

#■ 



obras de Miferieordia. 17 S 
ftono Sacramento do Al- tuis , ne tran/eas fervum 
tar, fendo hum fó , naó ef- tmm : Senhor , fe achei 
tà fóem hua Hoftia con- graça emlvoíTos olhos^fa^ 
fagrada, fenaó em todas,& zeime mercê de nam paf- 
qualquer delias 3 aíTim ne- far adiante fem r vos fer- 
fte fegundo Sacramento, vir defta choupana. Pois 
naófóeftà em hu pobre >* íe osperegriiiosisraõtrqí 
fenaó em todos , & cada^ três viri , 6c Abraham m 
hum,fendoellesmuitos,& tratava com tanta reve-j 
Chrilto nelles hum fó, &o rencia, & cortefia , poii-? 
mefmo. Acafade Abra- que naó lhe chamou Se^ 
hamnoVallede Mambre nhores , fenam Senhor? 
era hum hofpital cómura Refponde S. AgòíHnha^ 
de todos os peregrinos, que coraEO eram peregri-* 
Por iíTo , naó fendo elle nos, entendeoy& creo A- 
O mais antigo no Limbo braham que^ nelles eira- 
dos Padres, fe lhe deu a fu- va Deos , & medindo as 
perintendencia, ou prove- fuaspalavras mais com a 
dória daquelle diverforio fé do que cria, ^ com o nu^ 
univerfal , & fe chamou merodosque via,poriíro 
Scyo de Abraham. Che- lhe chamou Senhor, & naó 
gáraó pois alli a horas dè Senhores : Abraham in trh 
comer trcs peregrinos, bus viris ^ominu agnofce- 
& fem alforge como po- bat^ cui perjingul are nume ^ 
bres , agaíàlhou-os Abra- rúmloquebatur , etiayu em 
ha m , & fer vio- os por fua homines effe arhitrabaturé 

Í)ropria peíToa com o me- 1 50 Naquelle Altar,& 

hor da cafa. Mas fendo neftes temos hum excellé'^ 



eC 



tres, nota aEfcritura , 6< 
he modo de urbanidade 
muito notado , que nam 
lhe chamou Senhores, fe- 
nam Senhor : "Domine^ ft 
iaveni grafia^ in acuHs 



te exemplo do que fez A 
braham,& declarou Ago- 
ílinho. Se néftes tres Alta- 
res fe diííercm ao mcfmOf 
tempo tres Mifias,&nelle» 
eílivérem tres Hoftiâ^ c6-^ 
fagra* 



17^ Sermão das 

íàgradasi diremos com to- para o remédio , & regalo 



m^ 



t^ 



da a propriedade, que no 
primeiro Altar eftà o Se- 
nhor,&no fegundo o Se- 
nhor, & no terceiro o Se- 
nhor. E diremos também, 
que nos três Altares, & nas 
três Hoftias efraó os Se- 
nhores.? Não. Porque ain- 
da que os Altares,&as Ho- 
ftias fejaó três , o Senhor q 
nellas eftà he hum fó. Pois 
eftc mefmo myfterio do 



erao muitos, & para a vc 
neraçaóhurafó yT>ommf. 
Entrai agora neíTas enfcr-i 
marias com a fé , & com 3» 
vifta. O que vereis com a 
yifta, faó muitos enfermos 
jazendo cada hum no feu 
leito, curados, ôcaílifridos 
com grande charidade -, 
mas o que deveis crer com 
a fé, he que em todos , & 
cada hum delles eftà Chri- 



Sacramentoheoquefere- fto.Eftefoyo engano da- 
prefentou nos peregrinos queIJa Alma,que nos Can- 






do hofpicio de Abraham, 
& o que temos prefente 
nos pobres defte Hofpital. 
Elles muitos, porém o Se- 
nhor que eftà nelles, hú fó : 
& eífa he outra nova , & 
maravilhofa circunftancia 
com que Abraham tendo 
falladoao Senhor como a 
hum,quando paíTbu ao re- 
médio, 6c regalo dos pere- 
grinos, os tratou como 
muitos: Lavate pedes ve^ 
Gcnen ftrosyrequiefcitejub arhore , 
»8»^ confortatecoweHrumypo- 
Heatranfibitis'. Lavareis os 
pès,defcãçareis,comereis , 
& depois cótinuareis vof- 
fp caminho. De forte, que 



ticos de Salamaó bufcava 
ao mefmo Chrifto,&: o naó 
2icho\i:lnle6fulo mea qua^ 
JiVí quem dtligit anima mea^^^' 
quajivi fllum y ér noninve .*" 
ni: Eu, dizia cila, bufquei: 
ao meu amado no meu lei- 
to, 6c naó o achei. E vos 
bufcaisaChrifto no voíTb 
leito? por iíTo o naó achais: 
idébufcalono leito deíles 
pobres enfermos, 6c logo o 
achareis. No leito da 
Cruz eftavaChrifro chcyo 
de chagas, 6c de dores, ^ 
agonizando com a mor- 
te : ^ aílim como à cabe- 
ceira daquellc leito tinha 
hum titulo que dizia: 
Hic 



'\ ,• .■ 



Obras de Miferícordídl 1X7 

7 Tiiceíi fefus', aílim fe po- virtude das palaVras tam^ 

deràó efcreverasmefmas bem íuas ,. quando difie: 

Jerras em cada hum deíTes ^oduni ex his minimtsfe- 

leitos. He verdade, que ajlisyfmbi fecíHis. 
entre clles vereis alguns ^-^^^^ ..^ 

taò eaTopeados,&derpe. ^^^^^""l^^t 
daçados da guerra, que l Chri^oDeos,&: 

mais parecem partes de S. N. (como fuppuz no 

homens, que homens.mas principio ) duas vezes, & 

aíllm como na Hoftia par- por dous modos íacrame- 

tída , 6c feita pedaços eftà ta do , húa vez em pao , 8c 

Chrifto inteiro: Non con- outrano pobre. Agora re- 

fra^us.non divifusjnteger íla íaber a quefím, que he 

acapitur •, aíTim eílà o raef- o ponto principal , & o íe- 

mo Senhor taó inteira , & cho de todo efte difcurío. 



perfeitamente naquelks, 
como nos demais. Em 
fumma, parece que nefte 
fegundo Sacramento taó 
real , &: verdadeiramente 
eftà Chrifto em todos, ôc 
cada hum dos pobres,co- 
mo no Sacramento do Al- 
tar eftà em todas, &cada 



A que fim , tendofe Chri- 
fto facramentado húavez 
em paó , íe quiz facrar 
mentar outra vez no po- 
bre.?Digo q fefacramétou 
em paô, para nos fuftentar 
anos, ôcque feíacramen^ 
tou no pobre,para que nós 
o fuftentaíTemos a eile.No 



hua das Hoftias confagra- capitulo vinte & nove dos 
das. Porque aflim como Provérbios eícreveo Sa- 



o mefmo Senhor feconfa 
grou naquelle foberano 
•myfterio da fé por virtu- 
de das fuás palavras,quan- 
-do diffe : Hoc eft corpus 
metms aíTim ( por feu mo- 
do ) fe confagrou nefte 



lamaó hum , no qual os 
Interpretes divididos em 
fete , ou oito fentidos lhe 
chamaó com razaò eni- 
gma; & diz aílim: 'Fauper^ 
(ir cr editor obviaverunt fi- 
utrinfque ilíuminator 



bi - .,., 

'^"yft erio da ca^ridade por eft T>omims: O pobre, de ^^°J^| 
er^ Tom 8. Mo 



I 






1''a'^:^ 



«ír 



r ^ % 



17^ Sert^d^ 

oacredor fe encontrarão, 
& Deos osaliumiouaam- 
bos. Seosallumiou, pare- 
ce que caminhavaó ás ef- 
curas , & por iíTo deviaó 
defeenconrrar,queos po- 
bres fempre fogem dosa- 
crcdore9. Como o acre- 
dor tinha por devedor ao 
pobre,naó tinha de quem 
cobrar a divida j &como 
o pobre fobre pobre eíla- 
va individado , naó tinha 
com que fuítentar a vida. 
Efres eraó os dous gran- 
des apertos daquelle en- 
contro:d0s quaes para que 
achaflem boa ia ida , foy 
neceíTario queDeososal- 
luniiaíle, como alluniiouj 
porq ao acredor deo mo- 
do com que cobrar, &ao 
pobre com que viver: U- 
trwfque íllnminator eft 
T)ommus. Mas quem he 
eíle acredor , & quem 
cíle pobre? O acredor he 
Chriílo no Sacraméto do 
Altar, onde eíiá debaixo 
de efp ceies de paó para 
nosfuftentaranósj&onde 
-nós o comemos. Mas eíla 
à\vià2i né nòslha podemos 
pagar, nem elle a pode co- 



das 

brar de nôsnomefmoSav 
cramentojporque para lhe 
pagar có igualdade,havia- 
mos de fuftétar ao meímo 
Senhor, como ç\\ç: nos fu- 
fl:enta:& Chriílo nâquelle 
Sacramento eílà em re- 
preíentaçaó de morto, & 
como morto pode íer co- 
mido, mas naó pode co- 
mer. Que mcyologo, ou 
que remédio para oacre- 
dor ter com que fe pagar, 
&: c pobre com que viver? 
O mtyo foy ral , que fó a 
luz Divin.i opodiadeíco- 
bnr, 3c conciliar, ^ilini 
como o acredor fe facr j- 
mentou em paó,racramé- 
tefe também no pobre: & 
como eíiiver facramenta- 
do nopobrejogonós,que 
fomos os devedores, ihe 
poderemos pagar, porque 
lhe daremos de comer, & 
o fuílentaremos a cllc,af- 
íim como elle nos dá de 
comer , & nos fuílenta a 
nós : elle a nós como fa- 
cramentado em paó , & 
nós a tWç, como facramea- 
tado no pobre. 

ifi Elle he o verda- 
deiro fentido do enigma 
da 



.■■».• 






de Salamaô, o qual fe pô- 
de confirmar com outro 
enigma mais celebre , que 
hc ode Samfam. Depois 
q Samfam matou o Leaó 
que lhe fahio ao caminho, 
& depois achou que na 
boca líretinhaó fabricado 
as abelhas hum favo de 
mel, defta hiftoria,que era 
occulta, formou hum eni- 
gma,cuja letra dizia: T>e 
comedenteesàvit cibiis-. Do 
que come fahio o comer. 
S.Agoílinho, S. Ambro- 
fio , "S. Paulino , & outros 
Santos, entendem por eile 
Leaó naò fò a Chriílo 
Leaó dejuda, mas nomea- 
damente a Chrifto facra- 
raentado, do qual quando 
comeo fahio o comer,por- 
que na Cea inftituío o 
Santiííimo Sacramento. 
Eu porem reparo,que ain- 
da que a letra diz muito 
bem com o fentido do e- 
nigma, naò diz bem com 
a ^igura. O Leaó naò co- 
meo, nem foy com éden te-, 
faminto fim , porque fa- 
hio ao caminho buícando 
de comer. £ ainda que na 
boca fe lhe achou o fa- 



Obras de Mífeticordia. 



^79 



vo, nem oconieo,nemo 
podia comer, porque efta- 
va morto. Pois fe o Leaó 
naó foy com éden te , fe- 
naó faminto, parece que 
devia de dizer a letra, que 
do faminto fahio o comer, 
& naó dò comedente. Co- 
mo fe ha de entender logo 
do Sacraméto aílim a fígu- 
.ra,como aletra.^Eu o direy. 
Chrifto facramêtado naó 
hua,fenaó duas vezes, em 
huma, & outra he pro- 
priamente como o Leaó 
de Samfam: facramentado 
nopobre,he como o Leaó 
faminto : facramentado 
no paó Ç a que a Igreja 
chama pane fuavtjjmd de 
Coe lo prajiito^ hc como o 
Leaó, que naó comeo. mas 
deo a comer o favo. Defte 
comer pois que fe acha em 
hum Sacramento, & defta 
fome q fe acha no outro, 
fe verifica proprijAima- 
mente afigura, &: maisa 
letra do enigma. Porque? 
Porque todo aquelle que 
come a Chrifto facramen- 
tado no paó, he obrigado 
a fuftentar, & matar a fo- 
me ao mefmo Chrifto fa- 
Mij ^ era- 



., í. 



aSo Sermão das 

crana^ntado no pobre:Io- rar S. Bernardo, he pedir 






go eíia foy a rignificaçaó 
da figura do Leaó em am- 
bos os eílados : ôrefte he 
o fentido da letra de Sam- 
fam em ambos os Saera- 
mencos : &aqui lo fe ve- 
rifica quedoquecomefae 
o comer : T>e come dente 
exivit cibus. 

.VI f 3 DiíTe que todo o 
que come a Chrifto em 
hum Sacramento, tem o 
brigaçaódeofuírentar, & 
lhe dar de comer no outro; 
& naó he menos que ver- 
dade Evangélica da mef- 
ma boca divina , de que 
íàhiraó as formas de am- 
bos eftes Sacramentos. 
Sendo jà noite , bateo à 
porta de hum amigo ou- 
tro amígo,(dizChrifto) 
pedindo que lhe empre- 
^laíle três paês , porque à- 
queiia hora chegara a fua 
cafa hum hoípede, Ôcnaó 
tinha com que o agafa- 
Ihar: Amice^commodavnhi 
s.ó'.' ' í^^^ panús,qnoníam amicus 
meusvenit de 'viaadme,, & 
nouhaòeo quod ponam an- 
te illmn. O que pondera, 



cfte homem ao amigo a- 
quelles paés naó dados , 
fenaóempren-ados : No- 
tandum, quod non ait , da 
rmhi , fed commoda mihi : 
& o mayor reparo,oupe^ 
zo de/la ponderação , he' 
fer Chriíto o autor da pa- 
rábola. Se fora hiltoria 
acontecida, &: naó pará- 
bola , diíTeramos que a- 
quelle homem , ou era 
muito deíconfíado , ou 
pouco corrcz', pois fendo: 
o que pedia coufa detam*! 
pouco valor, ag-gravava, 
ôcaílTontava o amigo em 
lha pedir por empredimo. 
Mas como o autor da pa- 
rábola, ocdeíla petição , 
& modo át pedir foy 
Chriilo} que myílerio,í<c 
que razaò teria o Senhor, 
para introduzir aquelie 
paó como cmpreíladoj & 
naócomodado.^ A razaó, 
& myíterio foy , porque 
no mefmopao, poiloque 
ufualjíSc da terra, rcprefen- 
tava a parábola o paó, que 
deceo do Ceo,o Santiili- 
mo Sacramento. Alhm o 



.^^^9?^^^"^íiíiqi^ipc>íKÍe- encendcai gravei Auto 



-;. .3 



i 



res 



obras de Mifer teor dia, i S i 

rcs,g^ todas ascircunítan- he lem outra obrigação 5 



cias do cafo oprovaó. A 
hora da noite em que fe 
negociou aquellepaó, he 
a própria era que a pri- 
meira vez foy converti 



porém o quefeemprefta, 
he com obrigação de fe 
pagar : & quando Chrifto 
no Sacramento do Altar 
fenos dá, & nos fuílenta 



meira vez. i^'y ^w^v-xv* - 

r.doo paó em corpo de em quanto íacramentado 

• Chrifto: In ma noãetra- em paó,he com condição, 

debatur : o pedilo hum a- & obrigação de que lhe 

migo a outro amigo , & havemos de P^f J fe 

para outro amigo, tudo mefmo pao , fuítentan- 

eftàfigniíicandoomermo doo também a eile em 

Sacramento, quealèmde quanto ^^^^amentado no 

•fer Sacramento de amor, pobre. Ainda tem efte 

fempre fuppoem graça, & empreftimo mayor pro- 

amizade entre C:hrifto Vf^^^^^^^^T^l^f^l' 

que o dà , & o homem , ou de a noíIaVulgata \c,com^ 

iiomens que o recebem: ;^^^^ ??^/^/>o OriginalGre 



nem o numero de trcs he 
alhey-odomyfterio; porq 
as partes de que fe com- 
poem,faó o corpo,ft ngue, 
& Alma do mefmo Chri= 
ílo,aíIiftido também das 
três PeíToas divinas , que 



go em que efcreveo o E- 
vangeliíia, tem , damiU 
mutuo. E que diíFerença 
ha entre o empreftimo 
que fe chama comodato , 
& o empreftimo que fe 
chama mutuo? A differen- 



três rcuuasuxvxiiaa , v^viv. — ^..— — -- ^ ^^u^,* 

pelaimiaó infeparavel fc çahe, 4 no comodato hey 

o naó compõem, o acom- de pagar reftituindoaquil- 

panhaÓ. Ecomonaquellc lo meltnoq me empreita- 

paó fe reprefentava oSa- raó; pedivos empreitada 

cramento do Altar, por- avofla efpada.heyvos <le 

iíTo o introduzio Chrifto reftituir a mefma efpada : 

naó como dado,fenaó co- porém no mutuo,nao lou 

mo empreftado, Commoda obrigado a pagar com o 

mihi : porque o que fe dà , «lefmo^fenao com ou ro 



ív 



I . 



» t 



.^:^ 



tanto: pedidos empreíla- ,,,,,,, mihi j anuam, intra. 



do hum moyo de trigo , 
naò vos hei de pagar cora 
o mefmo trigo/enaó com 
outro. E efte he o modo 
com que pagamos a Chri- 



bo ad illum, é-ca^naho cum 
illo^éripfemecum. Eu como 
pobre, diz Chnfto, eílou 
batendo , &: chamando à 
portaifeodonodacafa me 



A^ ^ ^ r H^i^La.icoaonociaca a m( 

Ito, em quanto facramen- ^u.:- ^„^_ '^uja iu. 

tado no pobre . h„. paô .^c '- d"r^';,^r.1 



com outro paó. Naó o 
meímo paójfenaó outro ; 
porque o paó que nos dá 
Chriílo , he o paó do 
Ceo, & da vida eterna} ^ 
o que nós pagamos ao po- 
bre jhe o paó da terra, & 
da vida temporaLmasem 
hum, & outro, tanto por 
tanto 5 porque taó necef- 
fario he elie para eílavi^ 
da, como aqutlie para a 
outra:. 



go. Eftas ultimas palavras, 
&elle comigo, parece que 
encontrão o que dizem as 
primeiras. Que o pobre 
que bareaporta, ^-pede 
címola , diga que fe o do- 
no lhe abrir,& o receber, 
& puzer à fua mefa, come- 
rá com çW^^ércanabocum 
iilo; iífo heoque o pobre 
defe ja, & pretende, & o 
que faràjporque comer có 
odono da caíájhe comer 



if+ Emfim. fechemos rrT° 7/?''^ ''''",?' 

efte d-,fcur<b , jà naô em jt der pí ' ° '^"' ^"'^ 
^ l^e der. rorem que acre 



parábola, oufemeihan^a, 
íenaó realmente , & em 
fiia própria Peflba o mef- 
mo Chriílo. Reveílidaa 
Feílba de Chriílo em tra- 
jo, de pobre, ou transfor- 
mado nelle, diz aílim no 
capitulo terceiro do Apo- 
calypfe. Ecce ego íJo ad 



cente o pobre, & prometia 
que também o dono da ca>- 
íà comerá com clle , iilo 
he,com o mefmo pobre, d?" 
ipfe mecum -, parece que 
naó he fallar coherentc. 
Porque fe comer o pobre 
com o dono da cafa, he co- 
mer o que lhe der odono 



,5 .o. aftmm, vfnih -.jt^rnsmc. j^ ^afa l também comerõ 
d^avomn memrH&aíe. dono da caía com opobre, 

he 



Obras de Miferlcordla. 
liecomer o que lhe der o 
pobre:& ifto naó diz com 
quem pede hua efmola 
pelas portas , Ego Ho ad 
opum.&pulfo, Afoluçaó, 
& a cohercncia defta que 
o naò pareccjtodaeftána- 
Q^uçWcego, Aquelle egoáQ 
Chrifto fem disfarce Se 



183 



§. VÍII. 



■"E 



Stebeoíim, co- 
_ modizia,porquc 
Chriílo Senhor noíTo de- 
pois do diviniíTimo Sacra- 
mento do Altar fe facraH 
mentou também no hu- 



nhor, & có disfarce pobre; maniíTimo ^os pobres . E 

como pobre comeà mefa fe os que tem por dcva- 

alhea,comoSenhordáde çaó , ou officio exercitar 

comer à fua : & porque dà com clles as obras de nii- 

de comer á fua como Se- fericordia , q^izerem fa- 

nhor, por iíTo fenaó def- berem qual deftes dous 

preza de comer à alhea Sacramentos fe dará o 



como pobre. E para que 
ninguém duvide deftas 
duas mefas , &defte reci- 
proco comer , fendo o 
que o pede , & o que o 
dá o mefmo Chrifto •, 



mefmo Serihor por mais 
bem fervido,confiadatré- 
tedigo,que onde o fervi- 
mos como pobre. 

if6 Primeiramente hc 
aa o mcuu^ x^w.x..v. , fentençauniverfaldomef- 
clie naquella breviílima moC\\n(to:Beatius eji ma^ ^^^"^^ 
conclufaó declarou por gis dare ^ quàm accipem t 
fua palavra , & debaixo da que melhor he dar, que re- 
fua firma, tudo quanto ceber: logo a obrade mi- 
diíTemosatègoraj porque fericordia com que foc- 
em quanto facramentado corremos, &fuftentamo$ 
cm paó , nos comemos à o pobre , muito mais agra- 
fua mefa,& com áky^ em davel deve fer ao mefmo 
quanto facramentado no Senhor, porque no Sacra;- 
pobre, elle come à noífa mento recebemos o fcii 
mefa, & com-nofco: Cie- paõ , ao pobre damos o 
nabocuillo, éipfemecum. noíTo. E fe algucm rcpií- 

Miiij car, 




i 






■^+ , ^ Serma^ídas 

leccDer o leu , nao fo ha Notay. Antes de D-m r^r 

grande,fenaô,„fin,tadif. conraJrarno"obre °c£ 

ferença ; porque o que re- bendo e,„ fy a ef.n /ia que 

cebemos he Deos, & o que fe lhe faz a elie, d^4 Da! 

damos he a efmola. Ref- vid a Deos: ©««'«,'; 

pondo , que ainda na con- tu , quoniam bononmml 

fideraçao deita difFerença nJnane.es: Vósslhor 

fica muico melhorado o fois raeu Deos , pomue 

que daaoquerecebe.por- n.ôtendesneceffidadêdos 

que o que recebe no Sa- meus bens. Porém depo° 

cramento a Deos.com tu- que Deos fe fez pobreno 

do fiea homem : & o que pobre, ,á tem necdlidade 

da a efmola ao pobre, fa- dos nofinQ h^n. 

.endolheeíTe b^eneficlo , rtedf^moí" o-n^^efle^a 



faz-fe Deos. Naóheatre 
vimento, ou temeridade 
rainha, mas conclufaó ex- 
preíTa do- grande Theolo- 
go entre os Doutores da 
Igreja Saó Gregório Na 



íua pobreza. £ que diria 
David neitecafo, quehe 
onoíFo? Diria porventu- 
ra, porque tendes neceííi- 
dade dos meus btnSy naó 
íois meu DeosP ííTonaó 



X»^aí. Se virdes o pobre mo diíic antigamcn-í- 

em neceffidade , fede para porque naó tenls ncCef^ 

t\^,^J' '«"«"^"do-o: íidade de meus bés, ©«í 

^,Madeo^.vr,„mAaèet meusesru, Vós fo" Deos 

W , ^uam benef acere: meu.affim dinfa.ora 

porque nenhúa eoufa tem porque vós tendes neccf! 

o homem taó divma , & i.dade dos meus bens! & 

taopropria de Deos.como eu vosfoccorro com el lef 

o bem fazer.EfeeíFebem eu fou Deos voffo S 

re£ard'/°P n"T '"^'"'""'^'' '•^'«^- Santo 

rcHexao de que nellc eílá Agoltinho igual na Weia. 

Deos, aind. parece que Latina a ^'a.:an^eno na 

Gre- 



ÒhrasdeMífericôrdia. i^f 

Greg2 naó diíTé menos ^ que os Efcribaí ; &Fafi- 

quando diíTe que fò a mi- íeos calumniàraó aos Dif-i 

fericordia humilha aDeos, cipulos , como violado-^ 

& fublima ao homem, res do dia Santo. Sahioa 

Sola miferkordia T>eum Divino meftrc à defenfa 

humilians nes. JuhUmMi da fua efcola , & argumenq 

HumilhaaDeos , porque touaílim contra os cal uníw" 

no pobre o íogeita a rece- niadores . ^M eftmiferi^ 

ber do homem,& fubiima cordiam volo , & nmjacri- 

ao homem, porque na ef- ficium} Se a obrcrvancia 



mola o levanta a dar a 
Deos. Logo também ne^ 
fta coníideraçaó he me- 
lhor o dar 5 como damos 
na efmola, do queorece-: 
ber, como recebemos no 
Sacramento : Meltus eft 
magís dare quàm accífeje. 
if 7 Em próprios ter- 
mos temos texto expref^ 
fo do mefmo Chrifto. Mi- 
.fericordíam njolo.ér rwnfa^ 
crifichm : Antes quero a 



do dia fanto fe quebra, 
quando o homem falta à- 
queila obra do culto Di- 
vino, por fazer outra de 
mifericordia acodindo à 
necefiidade própria , ou a- 
Iheai como diz Deos-pelo 
Profeta Ofeas, antes que- 
ro a juirericpFciiajqué o fa- 
criíicio ? A cfte texto a- 
j untou o Senhor o exem- 
plo do Summo Sacerdote 
Abiatar , quando deo a 



mifericordiajque o facri-^ David os paêsda Propo 

ficio. Foy o cafo, que ca- íiçaó , que eraó confagrafe' 

minhando os Difcipulos dosaDeosxomqaquelles 



de Chrifto por entre húas 
fearas, era tanta a íua po- 
breza , & a fua fome > que 
debulhavaò algúas efpi- 
gas de trigo , para fe man- 
terem daqueiie paó antes 
de chegar ao fer. Succe- 
deo iítoemíabbâdoypelo 



Doutores, melhores inter- 
pretes dos feus intereíTes, 
que daLey divina,tapára6 
aboca, & naó tiveraó que 
replicar. Com tudo,entre 
os noííbs naó fal tara a agu- 
deza de algum Theologo, 
que replique, 6c argua de- 




'j-ài iuf- 



* 



> 



t26 

fta maneira.' O 
he adto de Religião: a vir- 
tude da Religião , como 
eníina S.Thomàsjhemais 



Sermão das 
facrificio ç^tx^volo ] que a mireri- 
cordia prefira , & fe ante- 
ponha ao facriíicio. lílo 
ne o que diz o texto, & 



nobre que a mifericordia, efíaapraxe da Igre;a,quc 



porque a Religião refpei 
ta ao culto deDeos , & a 
mifericordia ao remédio 
do homem: logo na acei- 
tação de Deos, cm cuja 
mente fe eílimaó todas as 
coufas peloq verdadeira- 
mente faó , naó pôde ter 
melhor lugar a mifericor- 
<iia,que o facriíicio. Forte 
argumento por certo: mas 
toda a fua força confifte 
em íe naó reparar , como 
naó repara,naquelle voto : 
Mifericordiam volo\ & non 
facrificium. Naó diz Chri- 
ílo que a mifericordia he 
melhor que o facriíicio 5 
mas diz que antepõem a 
mifericordia ao facriíicio, 
porque elle aílim o quer, 
1)^10. Deforte>qama Deos 
tanto a mifericordia, ôc a- 



osEfcribas , & Farifeos 
traziaó taó errada. Se o 
que aíTiíle ao enfermo, o 
ouver de deixar para ir 
dizer, ou ouvir MiíTa no 
dia Santo, enfinaaTheo- 
logia Catholica, que antes 
fe ha de deixar a Miííã, 
que he ofacrifícío,doquc 
a afliítencia do enfermo , 
que he a mifericordia: Mi- 
fericordiam volo , & non 
facrificium, 

ifS Bem crcyo que 
vos naó defcontentou a 
repoíla do argumento , 
nem a explicação do tex- 
to. Mas como o dia he da 
mifericordia , naó quero 
eu que ainda quanto à no- 
breza , & dignidade feja 
ella inferior ao facrificio. 
A perfeifa mifericordia 



ma tanto aos pobres que fempre vay acompanha- 

com as obras de miferi- da , ou imperada da cari- 

cordia fe rcmedeaó , que dade do próximo , que fe 

fendo mais nobre 9 & de naó diftingue da deDeosj 

mayor dignidade o íàcri- & como a caridade hc 

íicio, que a mifericordia, mais nobre que a religião» 

qucrellc , [ 6c fô porque ^ que todas as outras vir- 

tu- 



obras de Mifer teor dia. 18/ 

tudes : Maior autem horum bre , que no mcfmo Sacra- 

eji cbaritas -, informada mento do Altar s porque 

aílim a mifericordia , no Sacramento eftà im- 

tambem he maisnobre,& paííivel, no pobre naófó 

de mayor dignidade que eftà paííivel, mas padece, 

a religião. Ifto refpeitan- Que quer dizer , jfe/«rw/, 



do ao pobre fó como po^ 
bre. Porém fe a mifericor- 
dia na peíToa do pobre re- 
conhecer , como deve re- 
conhecer , a de Chrifto , 



Jitivi , mídus eram , fenaó 
padecer Chrifto tudo o 
que padece o pobre ^ E 
defte padecer fe tirará a 
verdadeira intelligencia 



(^que he o ponto do noíTo de húa queftaó , q aqui ex- 
difcurfo } entaó o a£to da citaò todos os Interpretes. 



mefma mifericordia he 
também adbo de religião 5 
porque refpeita diredla^ 
mente a Deos,&aefmola 
feita ao pobre he também 
ífâó fó facriíicio, mas fa- 
crificio preferido aos ía^ 
crificios. Aílim o cnten- 
deo altamente , & manda 



Naquelle relatório do dia 
do juizo/ez Chrifto men- 
ção da comida, & bebida 
dos que tem fome,& fede, 
do veftido dos nus , da 
pou^da dos peregrinosi, 
da viíita dos enfermos,& 
encarcerados : mas? naõ 
failou né húa fó palavra na 



entender S^ Agoftinho , fepultura dos mortos.Pois 
declarando o mefmotex- fe as Obras de Miferi- 



to. Cúmfcriptum eíímife- 
ricordiam velo magis quàm 
facrificiíh nihii aliudcjuàm 
facrtficium-facrifiãoprala^ 
tum oportet intelligi. 

1 59 Emfim , para que 
demos fim aeíta preferen- 
cia jdigo que agradaó mais 
a Cbnfto os obfequios 
que fe Ihefazem no, po^- 



cordiafaó fete, & a fepti- 
ma he fepultar os mprtos} 
porque allega Ghrifto a$ 
outras féis, 6c cfta naó ? 
Muitas foluçoens fe tem 
dado atègora a efta duvi^ 
daj mas nenhúa que fatis- 
faça inteiramente. A ver- 
dadeira, & cabal he; por- 
que depois que Chriftp 
fe 



i88 



Sermão das 



fe facramentou no pobre , 
.quiz contrapor ofacramê- 
to ení que padece, ao fa- 
cramento em que eíláim- 
paffiveij & como nas fcte 
obras de mifericordia ío 
-OS mortos naó padecem , 
por iíTo exclubio osmor- 
.tos. Julgay agora , fe fe- 
raó mais agradáveis , & 
aceitos ao mefmo Chrifto, 
os obfequios que fe lhe fa- 
zem onde tem neceílida- 
de, & padece , ou onde 
■eftâ impaííivel. Por iífo os 
-Santos defpiaó os Altares 
para veftir os pobres , êc 
fundiaõ - os Cálices era 
.moeda> para remir os ca- 
tivos, h^ác particular- 
'mente a S . A m brofio j mas 
vamos à Efcritura. 

160 Húa das mandas 

tiotcítamento de David a 

El-Rey Salamaó feu fuc- 

eeíTor , he, que os filhos de 

'Berzellay comeíFem íem- 

preà fua mefa,pelo bem 

que elles, &: feu Pay o ti- 

nhaó fervido quando fu- 

:5Rcg giodeAbíàlaó. òed & fi^ 

^*7' 'lijs Berzellatreddes gra- 

-tiamy eruntque comedentes 

'in menfa tiia : occurrerunt 



enim mihi quando fuglehatn 
afacte Abfalom. Foy o ca- 
fo , que depois de David 
fer Rey , exprimentou , 
que também as coroas e- 
ílaó fogeitas aos vayvens 
da fortuna , caindo das a- 
zas da profpera nas mi- 
ferias da adverfa, & tanto 
com mayor abatimento, 
quanto de mais alto. Tal 
fevio David, quando fu- 
gio de feu filho Abfalaó, 
reduzido a tal aperto, & 
neceílidade, que elle , & 
os poucos que o feguiaó 
pereceriaó à fome,feeile 
Berzellay, que era hum 
vaíTalío rico, os naó fu- 
ftentaíTea todos,como re- 
fere a hiftoria fagrada: Et 
ipfeprabuit alimenta Regiy 
cum mor ar et ur in caíiris : \ 
fuit qtiippe njír dives nimis, 
Eftc ferviçojpois , foy o 
que David mandou a Sa- 
lamaó que agradeceífe , 
pondo à fua meia os 
filhos de Berzellay. E 
fendo certo quedenenhú 
outro ferviço , ou bene- 
ficio fez memoria no feu 
teftamento ; também hc 
certo, que antes daquella 
rebe- 



Obras de Ml fi 
rebellú-i5,& depois delia, 
aHiiii na paz , como na 
guerra, tinhaô outros vaf- 
fallos feito a David mui- 
to grandiofos ferviços. 
Pois^porque fenaò lembra 
delles o mefmo Rey,nem 
os manda agradecer , & 
pagar, fenaôeftes de Ber- 
zeilay unicamente? Porq 
aqueiles foraó feitos a Da- 
vid quando ellava entro- 
nizado, 6c adorado no 
Reyno,& naò padecia ne- 
ceádade algua •, porém o 
ferviço , & fuilento que 
recebeo de Berzellay,foy 
quando eilava deíempa- 
rado dos feus, pobre, ^ 
neceiricado. Aquelies fo- 
raó obfequios a David 
Rey, eftes foraò alimeá- 
tos a David pobre. Eella 
hea razaó, & a diiteren a, 
porque íaó mais aceitos, 
& agradáveis a Chrsíto os 
obfequios, que fe lhe ta^ 
zem no pobre , ondeeliá 
neceifitado , ôc padece , 
do que todos os outros, 
com que he íervido no 
trono , '^ Mageitade do 
Sacramento do Altar,on- 
de eltà impallivei, & ado- 



ricordia. ^^';> 

rado. 

lóí Por ultima con- 
clufaò, deixadas as razoes, 
vamos ao fad-o. Afilm co- 
mo C' riílo no dia do Juí- 
zo ha de ailegar , & publi- 
car asobrasdemifericor- 
dia, & o que he fervido, 
fuilentado, & foccorrido 
no pobre-, aíTim, & muito 
mais oílencofa, & magni- 
ficamente poderá fair na- 
quelie theacro univerfal 
de todo o género humano 
com as obras da fè, pie- 
dade,liberalidade,&: emu- 
lação ciriílá, comqaehe 
fervido , aíTi Ilido, & ve- 
nerado no Santiílimo Sa- 
cramento. Qae compara- 
ção tem oquefegaíla no 
fuftento, cura, ^^ remédio 
dos pobres , com o que fe 
defpende, & emprega no 
culto divino, ôcdiviniíli- 
mo do por aatonomafia 
Santiílimo? Confíderay a 
magnificência dos 1 em- 
plos de todo o mundo : a 
riqueza dos Altares , dos 
Sacrários , dos Cálices , 
das Cuílodias, dos orna- 
mentos. Quafi todooou- 
rojprata , & pedraria do 
ínar. 




'Ui *, 



m 



IÇO Sermão das 

mar,& darerra, alli vay, lio tinha prometido da- 

naó levar o feii valor, mas quelleíagraoopaójheque 



bufcar a fua eíHmaçao, & 
preço. As rendas immen- 
íàs de todos os Miniilros 
Ecckliaíiicos fupremos, 
grandes, menores, todas 
fe ordenaó a íervirjaíIiíKr, 
& louvar a todas as horas 
a Ma^^eftade encu berra 



quem o comeífe, viviria 
ecernamente, & q em vir- 
tude do mermopaóreluf- 
citariano ultimo dia:^/ 
màaucat hunc panem^vivtt ^-j 
in aternum : ^ ego refnf- 
cif abo euminnovyjimodie. 
Que acçaó pois maispro- 



daquelle Senhor. Mais he pna daquelle dia , de ma- 
o que arde, & fe queima yor gloria para Chriílo,de 



dedia, 8c de noite diante 
dos Teus Altares, do oue 
quanto feemprega,& lo- 
gra no fui lento , & remé- 
dio dos pobres. E cótudo. 



mayor triunfo para os Ca- 
tholicos, & de mayor con- 
fufaò para os Hereges, que 
dizer à viíla de todo o m ú- 
do, prometivos que em 



laoheoqueChriílohade virtude do paõ que vos 

allegar,&publicarno dia dey, vos havia de refufci- 

do Juízo , & tudo aquillo tar neíle dia , ahi eílais 

oquehadecallarj&paíTar reíufcitados todos : pro- 

em íilencio. Maisainda. meti vos que todos os que 

Parece que para defempe- comeíTeis o mefmo paó, 

nho de fua palavra ne- vivirieis eternamente: alli 



nhua coufa mais convinha 
à authoridade , &z Mage- 
ílade de Chrirto,que a de- 
móftraçaó,& publica evi- 
dencia do que tinha pro- 
metido , & tanto fc lhe ti- 
nha duvidado nos maravi- 
Ihofos eífeitoí» do meímo 
Sacran ento. Oí-dousma- 
^rores efí eitos que Ci.ri- 



eliaó as portas doCeoa- 
bertas: vinde a gozar co- 
migo a vida eterna i/^^w//-/? 
beneaicti. Com tudo a pu- 
blica, &mais agradecida 
elhmaçaó, que Chriílo fa- 
rá no dia do J uizo dos ob- 
fequios que recebeo dos 
homens, naó ha de fer a 
das grandes riquezas,coin 
que 



•■i ». <v 



Obras de Mijerkordia. 1 9 1 

que o fervem no Sacra- mundooqueamayorpar- 



mento, fenaó das címolas, 
podo que muito peque- 
nas » com que o íbccorrem 
no pobre i porque no po- 
bre padece 5 & no Sacra- 
mento eftà izento de pa- 
decer: no Sacramento faó 
tributos que íbbejaóafua 
Mageílade, no pobre faó 
alimentos,que ha mifter a 
fuaneceílidade. E fe aos 
que o comem , & aos que 
lhe daó decomerprome- 
te igualmente Chrifto a 
vida eterna, dandofe eíTa 
raelma vida eterna nafen- 
tença do dia dojuizo por 
paga , mais devida he a 
paga à defpeza dos que 
lhe puzeraó a mefa 5 do 
que a honra dos que elle 
poz à lua 3 mais devida 
ao gafto dos que lhe de- 
raõ de comer, qUe ao gofto 
dos que ocomèraó: ^la 
dediftis mihi manducare. 



§> IX. 



1^2 



J Rovado aflim o 

X myfterio efcon- 

dido do noíTo aíTumpto, 

& revelado aos olhos do 



te delle naô via ; reílava 
agora coroar com a ultima 
claufula detodo odifcur- 
fo aquellabemaventurada 
congregação , que Deos 
particularmente fez digna 
de taó glorio fa felicidade: 
BeaU miferkordes. Mas 
que lhe poíTo eu dizer ? 
Louvarei a caridadcjcon- 
íirmarei afé.aíTegurareya 
efperança dos que neli;e 
Real Empório das obras 
de mifericordia com todo 
o género de neceílitados 
públicos, &■ occultosjtaó 
fanta, & univerfal mente 
asexercitaó? Seria em- 
prender de novo outra 
matéria naó menorquea 
paíFada. Deixando pois os 
louvores da caridade á 
liíla 5 & noticia geral das 
mefmas obras que logo fe 
ha de ler deite lugar (^pois, 
como diz S. Gregório Pa- 
pa , naó a rethorica de pa- 
lavras? fenaó a eloquência 
de obras he a verdadeira 
prova da caridade} íô da 
fé , & da efperança ô^i- 
rey o que fe fegue , 6c 
convence do qíica dito. 
Quan« 








í 





m^ V • 



I p i Serma 

i6i Qiiantoàfè, fendo 
ázíí toda9 as palavras de 
Chriílo 5 & rendo dito o 
mefmo Chnílo com ter- 
mos que naó admitem 
duvida, nem interpreta- 
ção contrariajqueelleeílá 
no pobre , 2<oqueíefaz 
ao pobre , ie Faz a elle: 
^uoduni ex his mirumisfe- 
cifíis , mihi fecifiis ; que 
Chrilla6haverà.(^ago rafai- 
lo com to ios } que Chri- 
ftaó haverá, q a íeu Cria- 
dor, 6c afcu Redemptor 
vendo o neceílitado , & 
pedindolhe húa eímola ,, 
que he mais, onaófoccor- 
raPCafofoy íobretcdaa 
admiração eftupendo^que 
no dia em que Chriíto en- 
trou em Jerufalem accla- 
mado com palmas, Revi- 
vas de todo o Povo por 
verdadeiro Mefíias: Ho- 
fanna Filio T>avid^benedi' 
Mat.2i. 6his qui 'venit in nomine 
^' 'íDominiy Rex Ifrael-y no 
mermo dia naó ouveíTe em 
toda aquella grande Me- 
tropoli,qucm o recolheífe, 
& agafalhafic cm fua caía, 
& lhe fofle necí-ílario ao 
que íuítenta atè os bichi^ 



o das 

nhos da terra, ir bufcaf ò) 
fuílcnto a Bethania. Pois 
Cidade cega, Ímpia, in- 
grata, & infame, a llím cer- 
rasas portas, aquém aílim 
recebes? AíTim tratas, a 
quem afllm reconheces ? 
Aílim ferves^aquemafíim 
adoras? Masnaóhemui- 
to que toda efta dureza 
de coraçoens exprimen- 
talTe Chrifto naquelle 
me fino Povo, que dahi a 
cinco dias teve vozes para 
bradar : Crncifige eum , & 
maós para o pregar em 
hum a Cruz. Vede fe terá 
razaó o mefmo Chrifto , 
para lhe dizer a todos no 
diadojuizo: Efurhvi-i ò* \ 
ncn dedíftis miki manduca^ 
re. E haverá Chriftaó em 
Lisboa, que vendo, & re- 
conhecendo a Chrifto no 
pobie faminto, não tire o 
bocado da boca para o fu- 
ftentar? que vendo odef- 
pido, fenaó difpa para o 
veftir? que vendo o en- 
carcerado, ou cativo, fe- 
naó venda para o refgarar? 
que vendo o peregrino,& 
fcm abrigo, o naó rectba' 
naó íò em fua cafa, mas 

o 



^ 



Obras de Mífericordia. 19% 

onaô meta dentro no CO- mcr no pobfc, porque me 
raçaó , & o firva de joe- naó veftiftes no pobre % 
lhos? O que aílím o faz,he porque me naó remedia- 
Chrifcaói o q aífim o não Ites em todas as outras ne- 



fizer , nem tem chriftan- 
dade, nem fê, 

16^ Mas paííando à ef- 
perança j aíTegurerafe os 
que fizerem obras de mí- 
fericordia, á/ foccorrcrem 



ceílldades nopobre: logo 
fe vos acodiftes, &reme- 
diaftes nas mefmasnecef- 
íidades ao pobre, &nelle 
aChrifto , evidente , & 
infallivel mente fe fegue, 



aos pobres fegundo a ília que naó pôde cahir fobrc 
poílibilidade , que todos vos tal íentença-, porque 



naquelie ultimo dia efta- 
ràó à maó direita de Chri- 
fto , & que para elles eftaó 
guardadas aquellas dito- 
fiíílmas palavras : Venite 
benediõíi , & pojjidete re- 
gnum : efurivi enim^ & de- 
dtftis mihi manducare. E 
em quefe funda a certeza 
defta efperança ? Tanto 
neftas mefmas palavras , 
como nas contrarias : & 
nas contrarias ainda com 



faltaria Chrifto à fua ver- 
dade, & naó feriaó verda- 
deiras as culpas pelas 
quaes vos condenaíTe. 
Tanto aílím , que fepor 
impoífivel o fupremo Juiz 
vos quizeíTe comprehen- 
dcr na mefma fentença, 
teríeis legítimos embar- 
£;os com que aggravar del- 
ia. Vaó os embargos. Pro- 
vara que em tal dia deo de 
comerataes pobres: pro- 



mayor evidencia. Notay varà,queem tal diaeftan 
muito a prova. Aos da do defpidos , os veftio 



maó efquerda dirá omef- 
mo Chrifto ; Itemalediãi 
in tgnem aternum : efurivi 
enim , & rion dediftis mihi 
manducare^ &€. Ide mal- 
ditos ao fogo eterno, por- 
que me naó déftes deco- 
Tom. 8. 



provará, que em tal dia, 
efrando enfermos,os viíi- 
tou : provara , que em tal 
dia eftando encarcerados, 
ou cativos , os poz em li- 
berdade , & os mefmos 
pobres, que também eíla- 
N ráo 




'^m 




i^^ Sermão das 

ráó prefentes,o/naõ pode- Jyna rejíftit peccatis : Que ^ 






Tobiae, 

4M. 



rao ncga-r: logoimpoffivel 
he ,naódi'goquea miferi- 
cordia de Chriílo, fenaó 
quefuamefína juftiçalhes 
naó receba os embargos. 
i6f E porque fem em 
bargo delles, fenao poífa 
por outra via confirmara 
íentença , fundandofe nos 
peccados que cometeo ca- 
da hum [ dos quaes po- 
rém fenaó faz m.ençaó no 
relatório delia] Provarão 
também ex fuperabuii- 
danti , que os peccados 
cometidos naó temdirei- 
to nem lugar na caufa dos 
q-ue remediarão os po- 
bresj & allegaràónaó ou- 
tros textos, fenaó os da 
mefma ley de Deos. Em 
Tobias ai legarão o texto: 
^luoniam eiecmofyna ab om- 
nipeccdto 5 ^ à morte lí- 
ber at , ir non patietur ani- 
mam tre intenebras : Que 
aefmola livra de todo o 
peccado, ainda que foífe 
mortal , & naó confente 
que a alma và ao inferno. 
KmJcfuSirac allegaráó o 
texto : Ignem ar dentem 
extwgiút aquãy (^eleima. 



aíllm como a agua apaga ' 
o fogo , aíHm a elmola 
extingue os peccados. Em 
Daniel aliegaràó o texto:: 
^eccata tua eltemojynis re^^ 
dtme , é' intqtiitates tuas ^ 
mifertcordijs panpemm \^ 
Que a efmola refgatados 
peccados , & a miíèricor- 
dja com os pobres das 
maldades cometidas. Em 
David ailegaráó o texto: 
teatiis qiii intelligit fitpcr 
egenvjn , ér panpentn , iw^ 
die mula líberabít eumTDo- 
minus: Que o que tem cui- 
dado de acodir, & reme- 
diar ao pobre , & neceíli- 
tado, no dia do Juízo o 
livrará Deos. Eíinalmen-' 
te fobre todos , pediráa-> 
ao mefmo fupremo JuÍ2íi 
Chri(í-o, que juntamente^ 
hejuiz,& A vogado noíTb, 
fealíegueaíy mefmoofcu 
texto univcrfaliffimo, em 
que naó poz limitação al- 
gúa : O^ioi Jnpercji date 
ckemojynam^ ér omnia rnú- l^ 
dii funt vobis : Por re- 4r 
maré de coíitas , day ef- 
mola , & ficart is purifica- 
doò de codas voíías calpas- 
£ 






,--7 



;JE que poderá, ou que po- fame , i& m^ xléftts %c 



dena rerponder Chriílo 
■iio cafo negado que a fua 
fenrença de condenação 
fe ouN^eíTe de eí^ender 
aos que remediarão aos 



comer : & entendey , 
que fe vos falvailes, naó 
foy porque íiaó pecca- 
iles,, fenaò por;que-c©ím 
as voíTas cfmolasremiftes 



pobres , pelos peccados os voíTos peccados. lílo 

que cometerão ? Naó he naó o que dirá, fe naó o 

ha duvida que no tal que diria no dia dojuizo, 

cafo , aceitando os em- quando por parte de nof- 

bargos, reíponderia o que fos peccados fe em bargaf- 

em nome , &■ Peílba do fe a fentença do Reyno 



niefmo Soberano Juiz cf- 
crcve Santo Agoílinho. 
T> fficile eft , ut fi txa^ 
mintm vos , & app^/ndam 
], vos , &fcruter diligemif 
\fime faãa vejira , nonin- 
veniãm unde vos damnem: 
DifficulCofa coufa he, que 
fc eu diligentemente ex- 
aminaíTe voífas conven- 
cias , & voíIasobra§,,naó 
achaíTc baftantes caufas 
para vos condenar : Sed 
íte in Regnum , epdrivi 
enim-i & dcdijiis miht man- 
ducare : non ergo ttts in 
Regnum , non quia non 
peccaftis , Jld qma pecca 
ta veflia eltemofyms re- 
demiH'ts\ Mas ide aO Rey- 
no do Ceo , porque tive 



do Ceo aos favorecedores 
dos pobres. 

\66 Acabemos pois 
por onde começamos. 
Beati pauperes : Bema- 
venturados os pobres : 
Beati mifericofdes : Bem- 
aventurados os mifericor- 
diofos : & bem dita , 5c 
para fempre louvada a 
Providencia, & bondade 
divina, & humana daquel- 
le Soberano Senhor, que 
facramentandofe em paó 
para nos íuftentar a nós, 
fe quiz também facra- 
mentar nos pobres, para 
que nós o íuílentaíTemos 
a elle 5 & por meyo da 
pobreza de hunsj&mi- 
íericordia de outros,fem 
N ii em- 




I 



196 SemaS das Obras de Mifericordu: 
embargo de fermos pec- terna as da gloria: giuam 
cadores , nos franqueaíTe mihi,ir ^ok^ pr^li^rTdijr, 
nelca vida as portas de neturT>ominus T>eus oL 
lua graça, para que ache- nimens^&c 
mofi^ abertas na vida c- 



mr V» 



•Kfir^c 



L í;d; 




Mai 



SER. 



-* >■ ^v^ -^ \ 



.;'>'^;;j -'^ i>-. r ;,jD'"'J, 



-^91 



SERM AM 

DA PRIMEIRA OITAVA 

PASCHOA. 

NA CAPELLA REAL, 
Anno de 1 64.7, 



1)uo ex T>ifcipulis Jefu ihant ipfa die in CaHellum 
nomíne Emaus. Luc. 24,. 




§. I. 

E taó particu- 
lar hiftoria a 
que hoje nos re- 
feres. Lucas no 
cap.34. da fua, 
que contra o eftiío que or- 
dinariamente coftumo fe- 
guir , quero por Pafchoa, 
que feja o Sermaó a mef- 
ma hilloria. Hiftoriador, 
& Pregador hei de fer ho- 
je: Dobrada obrigação de 



dizer verdades. Deosmc 
ajude a quenaõfejaó mais 
das que vós quizereis. O 
que me parece poíTo pro- 
meter fegura mente , hc 
que a hiftoria vos náo en- 
faftie por antiga , & muy 
fabidaj porque ainda que 
fegundo a boaChronolo- 
gia, he de mais de mil, & 
féis centos annos, eu farei 
que pareça a hiftoria ào 
noíTos tempos. Nenhuma 
coufa ouvireis , que não 
N iij feja 











ht?\' ■* 



Til^ 



feja o que vedes. 
í. II. 
128 '^l A tarde de tal 
l.\| dia como o de 
hontem ( que o que Chri- 
íloobrou emhumdia^naó 
o pôde reprefentaralo-re- 
ja fenaó em muitos ^ tri- 
íles, com caufa, pela mor- 
te de feu Meílre, Sc dcCeC- 
perados fem caufa pela 
tardança de fuaRefurrei- 
çaójcaaiinhavaó dous DiC- 
cipulos de Chriíío para 
o Caftello, ou Aldeã de 
Emaus. Que erradas ílió 
as imaginaçoens dos ho- 



mens ! Mas que muito que 
não acertem as imagina- 
çoens no que cuidaó , íe 
arè osmeímosolhoserraó 
no que vem ! Imagina- 
vaóos dous Difcipulos a 
Chriíto morco, & aufente: 
&: no mefmo tempo , &: 
pela meíma eítrada hiao 
Senhor caminhando com 
elles feni o conhecerem, 
ainda que o viaó : Et ipje 
Jcfus ibcit eum tllis, bnDj}t>> 
125) Hia o Senhor com 
dles. Aqui reparo, ou a- 
qui paro , que também 
imos caminhando. O in- 
tento de. Xhrifto era 



Sermão da 

mandar a eftes Difcipu- 
los reduzidos, &confola« 
dos para Jerufalem, aonde 
eílavaóos Apofl-olos tam- 
bém trifres. Pois fe o feu 
intento era encaminhar os 
Difcipulos para Jerufa- 
lé 5 como fe vay a Senhor 
andando com elles para E- 
maús : Et ipfe ibat cum /7- 
Ijs'!^ o ca m inho de Emaíis, 
& o caminho de Jerufalem 
craò enconcrados.& Chri- 
ílo dcixafe ir com os Dif- 
cipulos para Emaús,quan. 
do os quer levar para Je- 
rufalem? Sim. -porque eífas 
faó as maravilhas da Pro- 
videncia divina: levamos 
a feus intentos pelos nof- 
íòs caminhos. Confeguir 
os intentos de Deos pelos 
caminhos acertados de 
Deos, iQ^o he providencia! 
vulgar 3 mas confeguir os 
intentos de Deos pelos ca- 
minhos errados dos ho- 
mens, eílàsíaras maravi- 
lhas da fua Providencia. 
Ir ajerufalcm peio cami- 
nho de ]erafaleni,he eílra- 
da ordinária : mas ir aje- 
rufalem caminhando para 
Emaús, fó Deos o faz. 
130 Mandou Deos ao 
Pro- 



\v V. 



r 



primeira Okava de Tafchoa. 1 99 

Profeta Jonas , que fof- xai-o ir , queeífas faó as 



fe pregar à Corte de Ni- 
pive. 'Naófeaccõmodoia 
o Profeta com a miíTaó : 
eílava no mefmo Porto 
hum navio de vergas dç 
alto para Jope , pagou o 
frete , diz o Texto, 6c em 



maravilhas da minha Pro- 
videncia , diz Deosrhafe 
de embarcar para Jope, 
& no cabo hafe de achar 
em Niniye. E aílim foy. 
Levar hum homem a N> 
nive pela carreira; de Nír 



barcoufenelle. Quqjon^as niv^iíTo fa?: hum pilaí^ 

naò quizeífe pregar na que naó fabe ler, nemeí- 

Corte de Ninive, naó me crever : mas ievalo a Kii- 

^4mira ♦, que ifto de pregar nive pela derroca de Jope, 

nas Cortes, he navegar he arte fó daquelia fabe^ 
entre Seylla,& Charibdes: 
ou naó haveis de cortar 
direito , ou aveis de dar a 
travez com o navio. Mas 



dória fuprema , quetem)0 
leme do mundo na maó. 
He verdade que navegar 

^^^^^^ . para Jope quem tem obri- 

que beos mandando ajo- gaçáo de ir para Ninive, 



nas pregar a Ninive,o áç,i 
xe embarcar para Jope! 
ifto naò entendo. Senhor, 
voíTa Divina Providencia 
naó tem deftinado a voz 
deíle homem para o remé- 
dio de Ninive.^Dos defen- 
ganos, & das verdades que 
ha de dizer eíle pregador, 
naó depende a converfaó. 



he hum modo de cami^ 
nhar cuílolb , êc muito ar- 
rifcado; hecuílofojporque 
Jonas gaitou de balde o 
feu dinheiro, pagou o fre- 
te , & naõ fez a viagem í 
he muito arrifcado> port 
que elle embarcoufe ^^M 
hu m Navio, 8c defembar*^ 
cou na boca de húa Balea. 



& a confervaçaó daquelle Mas que feguro tem o por* 
ReyjdaquellaCidadejda- to quem navega nos^brae? 



queile Reyno l Pois fe 
quereis que vá a Ninive,: 
porque confentis que íe 
embarque parajope? Dei- 



ços da ProvidenciarDivife 
na, ainda quando a refiíte, 
Ôc fe Gppoem a ella / Averà: 
niais > ou menos cem pe-: 
N iiij itade^^ 




m* ",} 



20^ Sermão da 

ílade , ^averá mayor , ou rados emcafa : os dou? 



menor Balea , mas nem a 
fúria da tempeftadc, nem 
as gargantas, &: ventre da 
Balea poderão eftorvar os 
intentos de Deos. Amea- 
çarvosha a têpeíbde, mas 
naó vos ha de aíFogar: tra 



Difcipulos trirt-es,& cami- 
nhando para Emaus : a 
Magdalena triíle, & cho- 
rando às portas dafepul- 
tura : em fim tudo,& todos 
triftes. A trifteza era a 
merma,mas as caufas de- 



garvoshaa Balea , mas naó viaõ de fer díverfas, por 
vos ha^e digerir. Aflim que ó eraÓ também osef- 



levou Deos a Jonas aNi- 
nive pelos caminhos de 
Jope: alFim levou Chriílo 
aos Difcipulosajerufalem 
pelos caminhos de Emaús: 
Etipfe ih ate um illis. 

131 Caminhando jun- 
tos o Senhor com os Diíl 
cipulos,perguntouIhes, q 
he o que trata vaó entre fy, 
&: de que hiaó triíles: èlui 
funt hi fermones^quos cun- 
fertis ad iniúc em ambulan- 
tes,. ir èjíistriftes^ Coufa 



feitos. Os Apoftolos eA 
condiaófe,porque temiaò 
'^os]nátosipropter metum 
ludaorum : os Difcipulos 
hiaófe para Emaúsj por- 
que dcfefperavaó da Re* 
dempção 5 nos autern Jpe* 
rabamus : a Magdalertà 
chorava , porquê -amava 
muito a feu Meftre, que- 
niam diiexit multum. Se 
quereis conhecer as cau- 
fas do defcontentamento 
de cada hum , vcde-onos 



he muito dígnade notar, eíFeitos. Quem teme, ef- 
que em hum dia taó alegre condefe; quem defefpera. 



como o da Refurreiçaó, 
& em hua occafiaó de tan- 
to contentamento como 
o da Redempção do mun- 
do, aquelles a quem mais 
4e perto tocava , eftivef- 
íem todos triftes. Os A- 



vaife } quem ama, chora. 
Com eíles me tenho eu. 
Mas que eftando o mundo 
remido, como eílava,ou- 
veíle tantos defcontentes; 
huns retirados em fua ca- 
fa.- outros deixando a Cor- 



ri I wi >-«-*- »"• wui-iwouwAaHuum^ur- 
poftolos criítes, & encer- cedejerufalem ; outros i 

cho. I 



^ 



primetm Oitava da Tafchoa. % oi 

chorando fem confolação/ chovia o Geo IVÍanà: para 



O mundo remido , &: def- 
contentes tantos? Naò vos 
efpanceis, que nem eu me 
efpanto. Sabeis porque? 
Porque he muito rtiais dif- 
ficultofo O contentar, que 
D remir. ■ - 

132 Eftava oFò^ò d# 
Ifrael no cativeiro de Egy- 
pto: quilo Deos remir da 
tyrania de Faraó j & que 
fez ? Mandou là Moyfés 
com húavara, &remiofe 
o Povo. Começarão a mar- 
char para a terra de Pro- 
miíTaó em nu mero de íeis 
centoís mil homens : & os 
favores , & maravilhas có 
quç Deos os tratou em 
quarenta annos de defer- 
to i quali excedem a fè. Se 
a viaó de pafíàr o mar Ver- 
melho, partiaóíè as ondas; 
íè a viaó de atravèíTari o 



q não fentiíTem fede , acó- 
panhava-os húa penha, q 
fe desfaí:ia em fontes -.fi- 
nalmente , para que a jor- 
nada nãa tiveílè impedi- 
mento , nem dotempoy 
nem do cuidado, as roupas 
não envelheciaó,& os cor- 
pos naó enferma vaó. Deí^ 
ta maneira tratava Deos a- 
quelles homens j &: elles 
como lhe correfpondiaó ^ 
Tudoeraó murmurações, 
tudo queixas, tudo deícó- 
tentamentos. Quizeraóa- 
pedrejar a Moyfés: troca» 
raó a Deos por hu bezerro 
fufpiravaó pelo Egypto.* 
enfaftiavaófe do^ Mana: 
diziam que melhor lhe hia 
no cativeiro : larrçavão 
maldiçoens a quem os li- 
bertara : todos triftes, to- 
dos d efcon tentes , todos 



Rio Jordaó, fufpeiídiaófè defconfoíados, quaíl to- 
as correntes : fe os mole* dos arrependidos. Pois va- 



flava o Sol , corria hum 
Anjo húa nuvem,que lhes 
fazia fora bra: felobrevi- 
nha a noite, acendiafehii 
cíometa,queos allumiava: 
para que comeíTem com 
abundância , & regalo, 



Ihame Deosí Remio Deos 
efte Povo fazendo tam 
pouco 3 & não o pode con- 
tentar fazendo tanto ? 
Naó : porque he muito 
maisdifficultoíb o conten- 
tar, que oremir. Parare- 
[mir^- 




I 



* 



* « 



iHir, bailou Moyfè^ com ouveíTe , our que os haja 

onde os Minillros naó por 



húa 



varaj para contentar. 



naó bailou Moyies com deirx íer Moy fes, nem kfi 
vara, nem Anjo com -nu- jos, &onde os Príncipes, 



vem, nem Deos com. toda 
fua Omnipotência fa^eni 
do milagres. Qjs jdefcQiti 
tentamenros, & queixas, 
dos Povos ordxnarjameA- 
tc caem fobré os Mini- 
fíros, &tai vez íelevan- 
taó atè o fagrado dos 
Príncipes. O Príncipe a- 
qui era Deos : vede que 
juíliça,que piedade, que 
magnificência? Os Mini- 
ítros, hum era hum Anjo 
á^ci^Qáo Ceo,taó aman- 
te, ôccuidadorodo Povo, 
que nem confentia que 
lhe tocaíle hum rayo do 



ainjd^ Q^MÇ: Icjaó dados por 

DiCp6.j he for^arquç fejaq 

homens. ?: Por iílò digoi 

que he muito mais diífi* 

çúltofo o coDterítar,qiie o 

remir. Para remir, valeole 

Dcos de moíquitos, & re- 

mio ; para contenK;àr,ferf 

viofe Deos de Anjo5,& 

oaò contentou^ 

•i£facô£nr.9r?;Ti. 

Ol^3b£tf. III. 

,3í.'>bo*''>,T( 

í^?i \ /1 AsTuppofio q 

J y^ o contentar he 

taó diílicultofo , & por 

outra parte taó importan- 



Sol: ooutroeraMoyfèSjO te 5 quízera de caminho 

arcar com eítadifficuida- 
de , &: ver íe he pollivel 
venccrfe. Primeiramente 
digo, que o eftarem con- 
tentes todos naó pode de- 
pender de hum íò, como 
muitos fe engana o. O con- 



meihor homem da terra : 
tal , que entrou em ciúmes 
Deos que o adoraíle o Po- 
vo, 6c por efta cauía. lhe 
encobrio a fepultura. Pois 
fe onde o Príncipe he 
Deos, & os Miniílros,ou 
faô Anjos, ou I:omens me- 
recedores de que os ido- 
latrem > ha com tudo def- 
con tenta mentos, ôcdeíTa- 
borcs; que muito que os 



tentamento de todos , de- 
pende de todos : dcpetidc 
do Príncipe, depende .<ios 
Mmiílros, & depende dos 
\ allalios. Para todus eíla-. 
reia 



primeira Oitava ãd 'Tafchoa. loi 



rem contentes , hao de 
concorrer todos para o 
contentamento ; buns tra- 
tando de contentar,outros 
querendo coDtentajfe. Pa- 
reciame que fe coníegui- 



dia todos Gontentes,& có- 
folados. Seja o primeiro 
cuidado do Principe en- 
xugar lagrimas , & logo 
averá menos defeonten- 
tes. Selaaçarmos osolhosi 



raiílo, conforme o .noíTo por todos os Reynos da 
^ vangelho , fe o Principe mundo preíentes,5& paíía- 
iraicaire aChnílo,&feos dos, hum fó Reyno acha- 



Vaíihllos imitaíTem aos 
Diícipulos, .Os Minirtros. 
naó os acho no Texto,ma3; 
quando chegarmos à elle^^ 
lhe buicaremos imitação, 
134,. Começando pois 
pelo Príncipe 5 a primeira 



remos em que todos eílaó 
contentes. Ê que Reyno 
keefte.? França ? Ingla- 
tecrat Alemanha? Naó: o 
B:eyn€).do')Qeo. No Rey- 
no do Ceó todos eílao có- 
tente§, E porque nao ha 



coufa q fez Chriífo tanto defcontentes 110 Jleyno 

4 .-efuíbitoujfoy tratar de do Geo? S.Joaôno Apo- 

díixu^^r lagrimas , &de calypfe :: Tunc abBerget 

conioiar triitezas. Eftava a "Deus. ommmlacrymam ak 

Mac^dalena chorando às oeulis Janãorujn y érjam 

portas do fepulchroiappa- non erit ampjius , mque lu- 

recelhe aSenhor,en.xuga- ãus ^nequeclamor^fed nec 

lhe as lagrimas : hiao os ullusdolor. Sabeis,, diz S. 

Difcipulostriíles^&defef- Joaó , porque no Reyno 

perados para Êmaíis, foy- do Geo náo ha triftezasi» 

fe encontrar com eiles o nem deícontentamentos.^ 

Senhor, & confolou os de Porque a primeira couía; 

fua tr.itíeza. E que fe fe^ que faz Deos a todos os 

guio daqui ? Que ama^i que Taci d^fte mimdo,he 

nhecendo no dia da Re-; enxugarlhes as lagrima^,; 



furreiçáo todo o Reyno 
de Chrifto dei contente , 
anoitecerão no mefmo 



E ondeo primeiro cuida- 
do do Principe he enxu- 
gar as lagrimas dos feus^. 




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204 Scrmahdd 

como ha de aver defcon- chorava: MiãieT.qmd fk: 



teiires? Naó ha,nem averá 
eternamente defconten- 
ramento em tal Reyno : 
Non erit luãus^veqne dolor, 
jE porque naó cu idaíTemos 



ras> Mulher, porque cho- 
ras ? Quando appareceo 
aos dous Difcipulos, a pri- 
meira coufa que feztam* 
bem, foy perguntar a cau- 



que era ifto privilegio fo fa de fua trifteza; ^i funt 

do Ceò , o niefmo fez hi fermones yquos confertis 

Chriíl-o hoje na terra. O inter vos , é eftis triftes> 

feu Reyno naÓ confiava Que he o que fallais,por- 

de muitos VaíTallos, mas que eílais triíles ? £Í5- 



todos ficáraó hoje conten- 
tes j porque poz todo o 
feu cuidado em enxugar as 
lagrimas de todos. ' . 

135- Mas vindo à pra- 
tica deíla doutrina, vejo 
que me dizem , que he 



aqui a razaó porque ílb 
trabalha muitas vtz^^ dç 
baide em enxugar as U-^-; 
grimas, porque fenaóto- 
maó na fonte, porque fe, 
lhe naó bufca a ^raufa J 
Bufquefe a cauía das la- 



muito fácil dizer que fe grimas, & logooremedio^ 

enxuguem as lagrimas de lèrà fácil. Bem podéra> 

todos j mas como fe haó Chrifto enxugar as lagri- 

de enxugar? Enxugar as mas daMagdalena,&có. 

lagrimas, bom remédio folar as triftezas dosDif-i 

he para naó aver defcon- cipuIos,fem Iheperguntarl 

tentamentos: mas que re- pelacaufa,poisafabia:mas 

xnedio ha de aver para fe quiz darneíta acçáo hum 

enxugarem as lagrimas ? grande documento aos 



Fácil remedio:o queChri- 
ílo fez. Inquirir a caufa 
das lagrimas , &tirala. 
Quando Chrifto: appare- 
ceo à Magdalena , a pri- 
meira coufa que fez,foy 
inquirir a caufa porque 



Principes, decomoaviaó 
de proceder na cura de 
húa enfermidade taódiffi- 
Guitofa , como a de farar 
defcontentam.entos. 

136 Oh que ac^aó taó 
divina, & tam real! O pri- 
meiro^ 



i.. 



fnmeiraOitavadaTafchoa. lof 

mciro Rey que Deosele- que fe lhe ouvio , foy -, 
geoneíle mundo foySaul. Mulier .quid pioras? Mu- 
E qual foy a primeira cou- lher,porque choras? Ea 
faquediíTe, & a primeira primeira acção que íelhe 



coufa que fez efte Rey ? 
Leafe o Texto Sagrado , 
6c acharfeha que as pri- 
meiras palavras que diiTe 
Saul depois de ungido por 
Rey, foraóeftasc^íí/^/'^- 
bet 'Fopulm , qiwd plorat ? 
Que caufa tem o Povo pa- 
ra chorar? E íabendoque 
a caufa porque chorava o 
Povo, eraò os danos que 
recebia das invafoensdos 
Amoniras; a primeira ac 



vio,foy remediarihe a cau- 
fa porque chorava. 

177 Sim : mas para as 
lagrimas que naó tem cau- 
fa, que íkó a maior parte 
das que fe chorão, que re- 
médio lhe daremos nós? 
Para curar as lagrimas da 
razaô , jà temos remédio, 
bufcarlhe a caufa, & tiralai 
mas para curar as lagrimas 
da fem-razaó, que remé- 
dio lhe avemos de dar, que 



-éãòquefez Saul depois de ellas naô tem caufa ? As 
í-un^^ido , foy remediar a lagrimas dos que chorão. 



caufa dcíTas lagrimas,par- 
tindo no mefmo dia , & 
GOtn todo o poder a fazer 
guerra aos de Amon,com 
que osdeftruío vTercujJlt 
Amon. De maneira que o 
Rey eleyto por Deos a 
primeira palavra que fe 
lhe ha de- ouvir , he per- 
guntar pela caufa das la- 
grimas: & a primeira ac- 
,ção que fe lhe ha de ver, 
■he acudirão remédio del- 
ias. Aífim o fez Chrifto 
hoje : a primeira palavra 



bem fe podem remediar, 
mas as lagrimas dos que 
fe choraó, que remédio ha 
de averparaellas.^ Eudif- 
feraque as lagrimas que 
naó tem cauíà, naò hao 
mifter cura. Se as lagri- 
mas tem cauía,defelhe re- 
médio > & enxuguemfe: 
fe as lagrimas naó tem 
eaufa , ellas fe enxugaráó 
por fy, naó haóm ifter re- 
médio. Examine o Prin- 
eipe exadamente donde 
nacem as lagrimas dos 
Vaf« 




IJÈ' 



2o6 Sermão d ti 

VaíTIiIloçjre tem caura,po- que os Difcipulbs lhe ú- 



nhalheremediojrtnaórem 
cauía^ naó lhe dem cuida 
do. 



§. IV 



J7.J 



E 



Baila iílo para 
naóaverdeícon- 
tentamentos ? Naó baila 
que o Príncipe imire a 
Chriílo, he ncceíTario que 
viS VaíTailos imitem aos 
Difcipulos. Quatro appa- 
riçoens fez C hriílo depois 
de refufcitado a feus Dif- 
cipulos muito dig.nas de 
•-pcnderaçáo. Appareceoa 
. Saò Pedro s & fem mais 
djligenciajque appareccr- 
Ihe, S Pedro oconheceo, 
^^ íe deo por contente : 
-^UT) exit 'Dominus -vtre^ò' 
'apparmt òimcnú. Appare- 
'Ceo à Magdalena, &:ain- 
- da que ihevio oroíto,naó 
-baítou iílo para o conhe- 
cer, chamou- a porleu no- 
me : Marta-^ & no mefmo 
pontooconheceoj^-^ Telhe 
-lanhou aos pès : T>ixn ei 
Je/us, Marta:con%erja úla^ 
^díxít^ Ráòboni: A ppa rece o 
^ Saó Thomè , òc axjida 



nhaódito que refuTcitàra, 
■ em quanto naó meteo a 
maó no lado > naó creo, 
né reconheceoa ftu Deos, 
& a feu StnhoT.NijfivideT 9 
fxuram clavorum^ ò-tnit- 
tam manum mca?}7 in iatns 
êjwsy mn cr^íiam. Açp%' 
receo a eíles Difcipu- 
los de EmaÚ3 , & por 
mais que caminhou com 
tiiQS , ^ lhes declarou 
as^Efcrituras , & as Pro- 
fecias , naó o conhece- 
rão , íenaó quando lhes 
deo o paó : Cognovemnt 
eum 'mfraãionepmns. Ne- 
íias quatro appariçoens 
eílaó reprefentados qua- 
tro géneros de VaíTallos, 
ou quatro géneros de eon- 
diçoens de VaíTallos. Ha 
huns Vaí]allos,quefa6 co- 
mo S Pedro : com verem 
a feu Rey, com lhe appa- 
rec^r oíeu Rfy,íèdaópe(r 
contentes. l-b-OjíirosV af- 
ia lios , que lax) como a 
Magdalena : naó Ihes-bafta 
o ver, nem o apparecerj 
comrudofeo Rjcyio.vxhíi- 
<ma peJo leu norncy-íomo 
Chrillo chamou a Mag* 
dalena, 



^. 



primeira Ottd 
dalena, feo Reylhesfabe 

nome , naó haô miíler 
irais para viverem confo- 
ladcs , & ílitisfciros. Ha 
outros, que faó como Saò 
Thomè •• íe o Rey lhes naó 
entrega asmaós, &olado, 
fenaí^Tmaneiaó o coração 
do Rey, íenaò fe lhes abre 
os arcanos mais interiores 
de Eílado (ainda que fe- 
jaó daquelies que duvida- 
rão» & dos que vieraóao 
cabo dos oito dias, como 

1 home) não fe dam por 
bem livrados. Ha outros 
finalmente, que faó como 
osDifcipulos de Emaús , 
que por mais Profecias 
que fe ihes declarem , por 
mais razoens que fe lhes 
dem, em quãto fe ihes náo 
dà o paó, eííaô cò os o! hos, 
& com os coraçoens fecha- 
dos, nem conhecem, nem 
reconhecem. Ora cen fu- 
remos eíles quatro eila- 
dos de Vaífailos. Os que 
fe coneentam,como S. Fe- 
dro, fó com ver, fam finos. 
Os que fe contentam, co- 
mo a Magdaiena, fô com 
que lhes faibam o nome, 
fam honrados. Os quefe 



Vã da Tafchoa. 26 f 

nara contentam, como S. 
Thomè, fenam com o la- 
do, fam ambiciofos. Os 
que fenam contentam, co- 
mo os de Emaús , fenam 
depois de lhes darem o 
pam, fam incereíreiros:& 
os Q}ic com todas eilas 
coufas ainda fenam con- 
tentam? fam Portuguezes. 
179 Verdadeiramente, 
que fe os Portuguezes fe 
contentàraój como os Dif- 
cípaios, naó oovera Rey- 
node mais contentes que 
Portugal. Eu jà me con- 
tentara que foramos,cotpo 
os que nefta occafiamHâ- 
ram menos delgado. Os 
Difcipulos que nefta oc- 
caíiam andaram menos fi- 
nos, foram os de Emaíis , 
que náo conhecerão, íe- 
náo quando lhes deram : 
Torrigebat tllis-, mas ainda 
eíles nos levaram muita 
ventagem. Forque.^ For- 
que fe contentaram com o 
Senhor lhes partir opam: 
Infraãione paras. Os Por- 
tuguezes nara fe conten- 
tam com fe lhes dar opam 
partido 5 hafelhes de dar 
todo o pam, fobpena de 
fiáo 






2oS Sermão da 

não Hcarem contentes, accómodainenro, cadahíí 
Uaqui íe íegue,que nunca quiz toda a túnica para Ar- 
he ponivel que o dlejam, A^^« fctndamus eatri , /i 



180 As veíliduras de 
Chriíl-o , que era o manto, 
&a túnica, dividiram-nas 
entre íy os Soldados, que 
G cruciíiciram: mas com 
efta diÍTerença, Os quatro 
Soldados, a quecoubeo 
manto , partira m-no em 
quatropartes , & ficaram 
contentes todos quatro. 
Os quatro, ou foflem os 
meímos , oudifFerentes,â 
que coube a túnica, não a 
quizeram partir,jugaram- 
na, levou-ahiim , ôc fica- 
ram deícontcntes três. 
Pois porque razam áç.Ç' 
contentou a túnica a três, 
fe o manto contentou a 
quatro .^ He bem fácil a 
razam. Os quatro, a quem 
coube o manto,acconimo- 



f-^rtiamtir de ília. E quan- 
do os homens fam de tai 
condição, que cada hum 
quer tudo para fy , com 
aquilJo com que fe podéra 
contentara quatrojhe for- 
ça que fiquem defconten- 
tes três. O mefmo nos 
fuccede. Nunca tantas 
mercês fe fizeram em Por- 
tugal,como neíle tempoj 
& fam mais os queixofos, 
queoscontentes. Porque? 
Porque cada hum quer tu- 
do. Nos outros Reynos 
com húa mercê ganhafe 
hum homem j em Portu- 
gal com húa mercê, per- 
demfe muitos. Se Cleo- 
phas fora Portugucz,mais 
fe avia de cíFender da a- 
metade dopaóq Chriífo 



cJaram-fe com queoman- deo ao companheiro , do 
to le partiíre. E quando que fe avia de obrigar da 
os homens feaccómcdam outra ametadc , que lhe 



a que as coufasfe partam, 
& fe repartam, com o que 
fe cobre hum , fe podem 
contentar quatro. OsSol- 
dados,a quem coube a tú- 
nica , fíáo trataram deílc 



dco aelle. Porque como 
cada hum prefume que 
fe lhe deve tudo,qualquer 
coufa q fe dá aos outros , 
cuida que fe lhe rouba. 
Verdadeiramente , que 
náo 



»• 'v. \ I.- 



r 



primeira Ottav^ 
não ha mais diíficultofa 
Coroa,quea dos Reysde 
Portugal: por ifto mais,do 
que por nenhum outro 
empenho. 

i8i Quando Jofuè oU« 
ve de entrar à conquifta 
da terra de PromiíTaôjdif- 
felhe Deos deíla maneira: 
Confortarey& efto robuftus^ 
tu enim divides Topíílo huic 
XéTr/íwJofuèjesforçaivos, 
& tende grande valor, 
porque vòs aveis de repar- 
tir a terra a eftc Povo. No- 
táveis palavras na occa- 
fião em que Te diíTerão! 
Quando Deos diífe eftas 
palavras a jofuèjfoy quan- 
do elle eííava com as ar- 
mas veftidas para paíTar 
da banda dalém do Jordaó 
acóquiílar aterradePro- 
miíTaó. Pois porque naó 
lhe diz Deos,Esforçaivos , 
& tende valor, porq aveis 
de conquiílar efta terra 
aos inimigos-,fenaó,Esfor- 
çaivos,& tende valotjpor- 
que aveis de repartir cfta 
terraao Povo de Ifrael? 
Ambas as coufas avia dè 
fazer Jofuè: avia de con- 
quiílar a terra aos Amor- 
Tom.8. 



daTafchoa. 20^ 

reos,& avia de repartir a 
terra aos líraelitas : mas 
Deos esforça- o, & dizlhe 
que tenha valor, porque 
avia de repartir , & nam 
porque avia de conquiftar 
a terra > porque muito ma- 
yor emprefa , 6c muito 
mais arrifcada batalha era 
aver de repartir a terra aos 
vaírallos,que averde com 
quiftara tèrrMaoSíinimà| 
gos. -■ ''^-5 r-)l t?úM- 

182 Em nenhuns Reys 
do mundo fe vè iílo mais 
claramente que nos de 
Portugal. Conquiíbr a 
terra das três partes do 
mundo a naçoens eftra- 
nhasjfoy emprefa que os 
Reys de Portugal confe- 
guirão muito facil,& mui- 
to felizmente : mas repar- 
tir três palmos de terra em 
Portugal aos vaílàllos com 
fatisfaçáo delks , foyim^ 
poflivel, que nenhum Rey 
pode acomodar, nem com 
facilidade , nem com feli- 
cidade jamais. Mais fácil 
era antigamente conqui- 
ftar dez Rey nos na índia, 
que repartir duas Comen- 
das em Portugal. Iflofoy, 
O U ifio 




A 



m ^ .; 



^^^ Sermão da 

& lílo ha de fer fempre ; & zelas de maneira,q as mcr- 

eita na minha opinião he a ces náofcjáo dadivas , fe- 

mayor difficuldade ^ que jáo prémios. Dem os Rcys 

tem o governo do rioíTo íô aos beneméritos, & L 

Keyno, Tanto aíílm,que charáó as bocas a todos, 

fepodepor em problema Quando os prémios feda'© 

na po mcadePortugaI,fe aos que merecem , os mef- 

he melhor que os Reysfa. mosque os murmuráocg 

çao mercês, ou que as não aboca,osapprováocom o 

taçao l Nao fe fazerem coração. Murmurais doo 

mercês ,^ he fa tar com o eílà bem dado > Appello 

premio a virtude : fazerê- da voíTa lingua para voíTa 

le,he lemear benefícios, conciencia. Efteheouni- 

para colher queixas. Pois co remédio que tem os 

quehaodefazerosReys.? Reysparafalvarem aopi- 

Aqueítaoera para mayor niáonaquelIetribunal,on- 

vagar. Mas porque náo Ç,. de fó nefte mundo podem 

quemdecifa , digo entre fer julgados, que he oco- 

tanto,que hum ló meyo ração dos vaífallos. Em- 



achoaosReys parafalva 
rem ambos eftes inconve- 
nientes. E qual he ? Nam 
dar nada a ninguém , & 
premiara todos. Pois co- 
mo? Premiar a todos fein 
dar nada aninguem .í>Sim : 
o dar,6co premiar faó cou- 
ias mui diíFerentes. Dar 
àóS que merecem, ounaõ 
merecem, he dar; dar fò 
aos que merecem, he pre- 
miar, Náo fazerem mer- 
cês os Reys, feria náo fe- 
, rem Reys : mas hão de fa^ 



fim fejáoos Principes co- 
mo Chriílo no repartir, & 
fejáoos vaílal los como os 
Difcipulos no contentar- 
fe, 6c ceíTaráó queixas. 



í. V. 



183 



M 



As os Mini- 
_ , _íl:ros, de quê 
ainda náo diíTemos , como 
hão de fer > Direi como 
hão de fer , & como não 
hão de fer,que hua , & ou- 
tra coufa hc neceffaria. lá 
dide. 



^.> 



'ii\ f. 




primeira Oitava 
diíTe, que"! não achava os 
Miniftros no Texto : ftias 
fe elles fe afaílão do Evan- 
gelho, que muito que me 
tire eu também delle, quá- 
doosbufco? Muito antes 
de aver Evangelho , foy 
muito grande , & muito 
notável Miniftro Moy fés. 
Digo pois , que os Mini- 
ftros háo de fer cofliO' 
Moyí(és,ac não hão áe fer 
com'o Moyfés. Hão de fer 
como Moyfés para com os 
Hebreos, & não hão de fer 
como Moyfés para com os 
Egypcios. Quiz Déosde^ 
ftruir o Povo de Ifrael pe- 
lo peccado do bezerro , & 
dilfeaíTim a Moyfés: T>e- 
mitte me^ ut ir afiatur favor 
Pieus, &faciam te in gen- 
temmagyiam. Moyíés,dei- 
xame acabar com efte Po- 
vo,& deftruiloj& eu te fa- 
rei Governador de outro 
Povo muito mayor. Oh q^ 
grande tentação para hum 
Miniftro ! Se o Povo fe de- 
ftruir, terei eu grandes au- 
mentos: íe ifta fe acabar, 
crecerei eu. Grande tenta- 
ção í E q refpondeo Moy- 
íés ^ Ata dmitte . ei^hanc 



daTafchoa, ^211 

noxam, aut dele me ' de libro 
tuo. Ou aveis de perdoar 
ao Povo, Senhor , ou me 
aveis de rifcàr dé voíTa 
graça. Os homens duas 
coufas eftimão mais que 
tudo. A primeira, a graça 
de feu Senhor j a fegunda, 
feus próprios augmento«. 
E Moyfés foy tão grande 
Miniftro, qxie offerecen^ 
dolhe Deos grandes ^ aug-' 
mentos para que deixafíe 
dêftruiro Povo, elle ref- 
pondeo, que fe o Povo fe 
aviadedeftruir, não que^^ 
ria a graça de feu Senhor*- 
Os outros afíblão o Povo ; 
para crecer na graça,6cnos 
augmentos: Moyfés por 
defender o Povo , né qui2!/ 
os augmentos , nem a gra-' 
ça. Miniftro que naô faz; 
cafo de feus augmétos pe? 
la-coníervação do Povoí* 
6c que chega a arrifcar a 
graça do Príncipe, para q 
o Povo não padeça 5 efte 
Miniftro fim : he Miniílro 
de Deos propicio, como o 
foy Moy lés com os He- 
breos. Mas Miniftro que 
afíbla os Povos para elle 
crecer, &;.que da deftrui- 
Oij ção 





^i^ ■ Ser 

ção dosvaíTaJIos quer fa- 
zer degrao para fubir à 
graça do Príncipe; Iivre- 
nosDeosdetal Miniííra: 
lie açoute de Deos irado, 
como o foy Moy fés com 
os Egypcios. 
. 18+ Moy fés no Egyp- 
to foy o mais milagroíb 
í^iniílroqfevio no mun- 
do : tudo em Moy fés eráo 
milagres; mas que mila- 
gres eráo os feus ? Rans> 
mofquitos» gafanhotos, 
íangue, treras, mortes dos 
primogénitos , emfím as 
dez pragas do Egygto. E 
Miniftro , cujos milagres 
faô pragas ; Míniíiro, cujo 
talento faó oppreíToens, 
náo o dà Deos para remé- 
dio, fenãopara deftruiçáo 
dos Reynos. Aílim deu 
I>eos a Moyfés para de- 
llruição d^ R.eyno de Fa- 
raó. Náoha mais eviden- 
te finaide Deos querer de - 
ftrui r, & a cabar hum Rey- 
no, qu^e darihe femelhan- 
tes Miniflrros. Cada Mi ni^ 
ítro deíles he hum íinai, he 
hum portento ,.hehú Co- 
meta fatal,quc eíli amca- 
jaiuloaruina dehua Mo- 



mão da 
narchia. Levantemos 05 
olhos da terra ao Ceo, & 
velohcmos claraméte. Co- 
mo a Ceo he a Corte de 
Deos, poz o mefmo Deos 
no Ceo dous Miniíl-ros, 
par meyo dos quaes go- 
vernaíTeeíle mundo infe*- 
riar, ambos grandes , am- 
bos illuftres, mas hum ma- 
yor,, outro menor. Com: 
todaeíta diíHnçáo falia o^ 
Texto fsgrzdo.-Fecit "Deus 
duo luminária magna»íumi - 
naremaiusutpraeffet diet^ 
luminar eminus ut praeffet 
naãi. OMiniftro mayor 
heoSol,a quem deu a pre- 
fidencia do dia, o Miniftr» 
menor lie a Lua , a quem 
deu a da naite. Náo deixe- 
mos de advertir de cami- 
nho(^ o que também hz 
muito ao noíTo cafa^ que 
o Miníílro mayor nunca 
íè mete na jurdiçáo do me- 
nor. O Sol governa em híí,. 
& outro Em is ferio a fua 
prefidencia, que he a do 
dia, femjà mais fe meter 
na da noite. Porem o Mi- 
niílro menor, q he a Lua^ 
hetáo intermetido , que 
náo fó de noite,masde dia, 
sáo 



>• 'JL. L 



primeira OitanjaJa Tafchoâ. 215 

naõ fò na fua preíldencia, naó; finai he que fe quer 



fenao também na que naó 
he fua/e mete (^ou mexe } 
& quanto toma do dia , 
tanto falta à noite 9 tanto 
naõ aíTifte à obrigação do 
feu officio , quanto fe en- 
tremete no alheyo. Aílim 
fe governa com tudo, &fe 
conferva o mundo. Mas 
quando Deos o quizer a- 
cabar, & deftruirparafê- 
pre i que fará? Neftes mef- 
mos miniftros ha de por 
os íinaes da deílruiçáo^Sc 
delles haó de fairoseíFei- 
tos. Osíinaes,noSoi>&na 



acabar o mundo, ou algúa 
parte delle. Quando affim 
for em todo o mundo , fi- 
nal fera , que fe acaba o 
mundo : quando aílira fe 
vir, & experimentar em 
qualquer Reyno, final he 
também que o R.eyno fc 
acaba. O Sol, &aLuafaó 
naó fó os primeiros Plane- 
tas, fenaó os mais benéfi- 
cos de todo o Univerfo : 
porém quando trocado o 
fim para que Deos os poz 
em taó alto lugar ,. eíles fe 
reveílirem Q como faraó 



Lua , Erunt fignain Sole , naquelle tempo ^ de hor 
& Luna-.os eíFeitos, na ter- rores , & fangue , Sol con^ 
ra,&: no mar, In terrispref- vertetur m tembraSi& Lu- 
fara gentium^ pr£ confufio- na in /angumem-^os Plane- 
ne fonitus maris. Na ter- tas faô cometas, a luzíàó 



ra opreíIbens,no marcon- 
fufoens. O Sol domina no 
mar, &principalm ente na, 
terra^a Lua domina na ter- 
r-a, & principalmente no 
mar: & eftes faó os dous 
elementosjcm que ?ivem, 
& negoceaó a vida os ho- 
mens. Mas quando nellcs 
tudo faó oppreífoens , & 
confufoens , eíFeitos dos 
Miniftros que osgover- 



trevas , as influencias faó 
rayos, & os pronoíUcos de 
tudo iflo a afiblas^áo , & 
ruina de tudo: 

18 5 Taes coftumaófer 
os Miniílros, queajuftiça 
Divina permite , quando 
quer dar o ultimo caftigo 
aos pecçados, & deílruir 
Moíarqu iás. E tal ; Mini- 
íi: ro f©y M oy ? és , qu a ndo : 
Deos o cícolheõ para a da^i 
O lij ftruiçáo 









► ' "♦ 



l< 



1^4* Sermão da 

ftf uiçáo total de Faraó, que fazia Moyfés no Egyi 



Comofe Moyfés fora Sol 
de dia, & Lua de noite, 
huns prodigios obrava de 
noite , outros de diaicomo 
fe tivera o predomínio da 
terra,& do mar , huas exe- 



pto,erahum marmore,que 
fe punha no coração de 
Faraó contra Deos , de 
quem Moyfés era Mini- 
ftro. Cafo digno não fó de 
admiração, masdeaíTom- 



cuçoens fazia nomar,ou- bro! Fazia Moyfés hum 

trás na terra j todas porem milagre: lançava a vara da^ 

deoppreíTaójdeconfufaó, maò que fe convertia em> 

de horror, & nenhúa para Serpente: & que fe feguia» 

bem, fenaó para mal, & deíle portento .? Obdura- 

aíTolação dos Egypcios : turn eji cor i haraonis: En- 

nas cafas,nas ruas, noscá- dureceofe o coração de 

pos: nas javouras, nos ga- Faraó. Fazia Moyfés ou* 



dos, nos Paftores^nas fon 
tcs,nos rios,nos mares^cu- 
do erao novidades , mas 
todas em dano; cada dia 
fe mudavaò , masfempre 
de hum mal grande para 
outro mayor. Ohmífera- 
vel Povo , ò miferavel 
Reyno , ò miferavel Reyí 
Qh. vialéto,& terrivel Mi- 
niílro , que também te 
chamara cruel,fe a tua va- 
ra náo fora açoute de 
Deos5& tu verdugo de fua 
juíliça í E a mayor fatali- 
dadede todas era, que na- 
da diílo abrandava os âni- 
mos^ antes os endurecia 
JBá*iíSt 
t 



tro muagre: tocava com' 
avara no Puo^quefe con- 
vertia em fangucj & que fe 
feguia def^es horrores? 
Ohduratum eji cor ^F harao- 
nis. Fazia Moyfés outro 
rr.ilagre:tocavacom avara, 
na terra , levanravaóíè ex- 
ércitos de gafai>horos,quc 
talavaó oscamposj &:que 
fe feguia deíladelíruiçaò? 
Qhduratum c^fi cor -T harao- 
nis. Fazia Muyíés outro" 
miIagre:tocava com a vara 
no ar , começavaó acho- 
& coííifcosjque: 



ver raiyos, 

matavaó os gados , 6c oy 

paftores >:& que fereguia^ 

Cada milagre dc»^ à«lía«teíi!pdtJid<?s?Oá?«íaí- 

raíuM 




primeira Oitava 
ratlHÀ eft cor Tharaonis. 
De maneira, que os mila- 
gres de MoyíésMíniftro 
de Deos irado,na5 ferviaó 
mais que de endurecer o 
coração de Faraó. Sendo 
que o primeiro cuidado 
dos Miniftros ha de fer a- 
brandar, 6c affeiçoar , & 
reduzir os coraçoens ao 
ferviço, à obediência, & 
ao amor de feu Senhor. 
Vede fe tenho razaó para 
dizer que os Miniftros 
naó devem de fer como 
Moyfésparacom os Egy- 
pcios , mas haó <Ie íèr 
como Moyfés para com 
osHebreos. Imitem nefta 
forma os Miniftros aMoy- 
fés , os vafíallos aos Dif- 
cipulos 5 os Principes a 
Chrifto : & concorrendo 
todos defta maneira^ huns 
a contentar , & outros a 
contentarfe , naó ha duvi- 
da que,ao menos em gran- 
de parte,ceflarâó os ácÇ- 
contentamentos, &astri- 
ftezas: Et ejtis triftes. 



daTafchoây ' ííf 



§^ VI. 



lU 



REfpondendoos 
Difcipuios à 
pergunta de Chrifto, dif- 
feraó , que a caufa de fua 
trifteza era verem mal 
logradas as efperanças , 
que tinhaó da Refurrei- 
çaó de feu Meftre , 6c com 
ella da Redempção do 
Reyno de Ifrael. Nos au^ 
tem fperabamus , quia ipfe 
effet redépturus Ifraeh Nós 
efperavamos que elleavia 
de remir o Reyno de If- 
rael. Ora eu me puza có- 
fiderar algúas vezes, qual 
€ra o peor eftado nefte 
mundo, feodeefperar,fe 
o de fer efperado ? E pa- 
rece que temos a foluçaó 
da duvida nefte cafo. Os 
Difcipuios eraóosqueef' 
peravaó a Redempção: 
Chrifto era o efperado por 
Rcdemptor: ôcainda que 
a tormenta, que os Difci- 
puios padeciaó por efpe- 
rarem, era grande, a que 
Chrifto padecia por fer 
efperado, era mayor. A 
dos Difcipuios chegava- 
Oiiij lhes 



* 



* 



ii6 SermaÕda 

lhes ao coração, triílezas, Filho de Deos:& qneca^ 
defcon fianças, defefpera- ftigodeo a Divina juílica, 
çoens: a de Chriílo paíTa- que caíligo deo a Divina 



Ta ainda além do coração, 
porque chegava a tocar 
no credito. Ouvia dizer 
de fy nas eftradas publi- 
cas, que naó refpondéra 
na Redempção ao que 
delle fe efperava : Nos ati- 
tem fper ah amus : logo pa- 
rece que ainda he mayor 



feveridadeaosjudeos por 
efte mayor de todos os de- 
litos , de naó crerem, Se- 
de matarem ao MeíTias .^ 
O caítigofoy,queeíperaf- 
fem por elie : caftigoulhes 
a falta da fé com a conti- 
nuação da efperança. Vós 
naó creíles ? pois efpera- 



mal o íer efperado,que o reis. Notai. Na juíliçade 
efperar. Refpondo com Deosnaó pôde aver deíl 



diítinção : digo que o ef- 
perar he o mayor torrr.éto: 
oferefperado he o mayor 
empenho. Naó ha mayor 
tormento no mundo que 



gualdade em proporcio- 
nar o caíiig05& o delito. O 
mayor dcl iro q podia aver 
no mundo era a morte da 
Filho de Deos : pois por 



G efperar } nem pòdeaver iíTo deo a Divina juíiiça 
mayor empenho no mun- por caíligo aosjudeos que 



do que o fer efperado. 
Qué fe fugeicou a efperar, 
facrificoufe à mayor pena: 
quem fe fugeitou a fer o 
efperado,arrifcoufe a ma- 
yor emprefa. Semfairmos 
do myíterio acharemos a 
prova de ambas as coufas. 
187 Primeiramente o 
efperar hc o mayor tor- 
mento. Provo. O mayor 
peccado que fe cometeo 
HO mundo foy a morte do 



efperaííém, porque ao ma- 
yor delito era devido o 
mayor caíligo j & naó po- 
dia aver mayor caíligo 
que o efperar. Caíligara 
morte do Meílias com ef- 
perarem por elle, foy dar 
a mayor culpa a mayorpe- 
na: Nas autemjperabamus. 
Eis- aqui como o efperar 
he o mayor tormento. 

188 ii o ler cíperado ? 

he o mayor empenho. 

Provo 



' »• ¥ , , f^ 



primeira OitU' 
Provo no rnefmo cafo. 
E para mayor intelligen- 
cia do que quero dizer , 
avemos de íuppor que o 
Meíliastpor quem efpera- 
vaó osjudeos , na opi- 
nião vulgar do Povo, não 
era Meílhs Deos , fenaó 
Meíllas homem : eípera- 
vaóhúhomé grandejfim, 
maravilhofo, fim, & que 
avia de dominar o mundo, 
fim: mas puro homem , 6c 
filho de David fomente. 
Os Patriarcas, & os Profe- 
tas, & alguns mais fabios 
Cainda que poucos} eíTes 
conheciaó que o Mefllas 
avia deferFiihodeDeos, 
os outros não, E a razaõ 
defta permitida ignorân- 
cia foy, porque como a- 
quelle Povo era taó grof- 
íèiro, & inclinado à ido- 
latria , não íiou Deos do 
comum dclle o myíleno 
altiílimo daTrindadcifen- 
do certo que felhesman- 
daíTe propor que aviaem 
Dco^ f resPeíToaSjaviaó de 
crerem trcs Deofesj que 
he a confequencia que a- 
inda hoje embaraça fua 
cegueira. A Moylés , a 



va da ^afchoa, lij 

David, & outras grandes 
almas daquelle tempo, re- 
velou! he Deos o fegredo 
da Divindade do Meflias: 
Incerta^ Ò" oct: ulta fapten^ 
ti£ tu£ ntanifefiaHi mihi : 
mas o comum do povo ti- 
nha o íó por puro homem, 
&• como tal o efperava. 
Veyoem fim o eíperado 
Mcílias,& veyo naó fò ho- 
mem , fenaó verdadeiro 
Deos. E que lhe aconte- 
ceo? Inpropriavemt ^ ò* 
fuieum non recef>erunt:Na.6 
o receberão os feu9, nem 
o aceitarão, nem fefatis- 
fizeraódelle. Poisfeasef* 
peranças dos Judeos fi- 
carão taó Kiielhoradas na' 
poíle^ fe oque efperavao 
era homem, ^ o que veyo 
era De í )S} porque fenaó fa- 
fisfízeraó fuasefperanças? 
Ahi vereis quamdifficul- 
tofo, & arrife a do empe- 
nho hefer o efperado de 
humR.eyno: que a expe- 
dia ção de hum homem ef- 
perado naó a fatisfaz hum 
Deos vindo. O Meílias 
que efperava o Reyno de 
Ifrael era hum homem : o 
Meílias que.veyo ao Rey- 
no 



r 




* 



íiS 



•no de Ifrael era Deos : & 
íaõ taó más de contentar 
as efperanças doshomés, 
que vindo o mermoBeos 
.eni Peífoa , naó defempe- 
,nhou a expcdação de hum 
ihomem que fe efpera- 
va. 

189 E qual he a razão 
'difl;o?QuaI he a razaó por- 
que nem Deos pode íatis- 
fazer as efperanças dos 
homens? A razaó hej por- 
que o que promete a eípe- 
rançajnáo opódecomprir 
a Omnipotência. Parece 
difficultofo,mas hum bom 
exemplo o fará facil. Ti- 
veram os Apoílolos huma 
competência entre fy, mais 
própria da Corte,que do 
Collegio: Faãaeftconten- 
tio inter eos^c^iúseorum^vi- 
€leretur effe maior ? Era a 
contenda, qual deli es fof- 
fe, ou avia de fer mayor no 
Reyno de Chrifto ? He 
certo que mayor naó o 
-ç^oáç. fer mais que hum. 
A igualdade podefe achar 
em muitos, a mayoria naó 
a pôde a ver mais que em 
hum fô, E com tudo todos 
o^ ApQÍlolos tiiihaò no 



Sermão da 



feu pcnfa mento a maye>- 
ria, & cada hum cuidava 
que elíe era, ou avia de fer 
o mayor do Reyno de 
Chriílo. Vede agora fehe 
mais o que promete aef- 
perançajdoque pôde com- 
prira Omnipotência. A 
efperança prometia a ma- 
yoria a doze, & a Omni- 
potencia não podia dar a 
mayoria mais que ahum^ 
&aílimadeo fó a Pedro. 
Donde fe fegue,que aquil- 
lo com que a efperança 
contenta a doze, comiíTo 
mefmo a Omnipotência 
ha de defcontentar a 
onze. Naó foy aíHm ? 
AfTim foy. Na efperança 
eílavaó contentes todos 
os doze Apoftolos, &na 
execução ficou contente 
fó Pedro,^^ os demais def- 
contentes. E como eíla fe- 
ja a natureza da efperan* 
ca, por iflb a Omnipotên- 
cia do Meílias Deos nao 
pode deJempenhar as ef- 
peranças, que os homens 
tinhaó concebido do Meí- 
fias homem: porqueoque 
cada hii efperava daquelle 
homem , nem o meihio 
Deos 



i 



primeira Oitava da Tafcíòoa: ^ fi 9-' 

Peos o podia dar a cada fonhar,néaerperaroqho- 

hum. Cada hum porven^ je tendes? Ne vósmermo 

tura C Gomo agora ) efpe- o negareis. Pois fe tendes 

rava que no tempo da^ mais do que nunca efpe- 

quelle Meílias avia ellc raftes, porque eílá ainda 

de fer o mayor : & iíTo nem defcontente voíTa efperã 



Deos o podia fazer. 

ipo Boaeftáeftarazãoi 
mas ainda nâo eígotoua 
difficuldade. Aeíperanc^a 
fatisfaz-fe cò a medida do 
que fe efpera : o Povo de 
Ifrael efperava que o vieífô 
remir hú homem, &veyo 
remilo hum homem , & 
Deos, que era mais. Pois 
ieas íuas efperanças alcan- 
çái-aó mais do que efpera- 
vaójporqíenaó contenrão? 
Que a eíJDeráça Icnaò cote- 
is có o menoSsbé eílá : mas 
quea mefmaeíperança fe- 
nam contente com o mais.^ 
Gontradiçam he eíla que 
fiáo pGÍTo alcaniar como 
entendimento , & vejo- a 
eom osolhos.Qiaantos hã 
boje em Portugal que tem 
mais do que nunca efpe- 
ráraó , & no cabo eílam 
ainda defcontcntes? Vin- 
de cà,quando a voííaima 



çaPEfta pergunta naó tem 
repoíla 5 porque eíla fem- 
razão não tem razão. Ir- 
racional aíFeíto he a ef- 
perança defcontente , vi- 
liílimoaífedlo he. Efenaó 
vede em quem fe achou 
hoje : em Cíeofas, 8c no 
feu companheiro , que 
eram da Aldeã de Emaús- 
aíreâro de homens de Al- 
deã, Deos nos guarde a 
noífa Corte délle. 

i 91 A Fé^ & a caridade 
faó aífedos muito fidal- 
gos, & muito bons de con- 
tentar. AFépâracrerjba- 
ííalhe húa profecia, & fi- 
ca íatisfeir? : a caridade 
para ama rjquandonáo te- 
nha benefícios , baílaôlhe 
aggravos, que o amoratè 
de Gífenfas fe íliílenta. 
Naó aílim O' vil aífedlo- 
da efperança3 neohúa cou- 
fa lhe baila para o conittí-^ 




ginaçáo eíleve mais def- tar: Nos autem fperaha- 
vafiecida,chegou nunca a nrns. Todas efcas diítin- 

. çoena^ 



A' 




'2 2 o Sermão ^a 

çocns temos na hifloria morte, nem as gloríasda 



)*!■ 



àc{\çs àus. Quinta feira 
na Cea ficou taó fati.sfei- 
ta a caridade , que diíTe 
por boca deSJoaó; Cum 
áilexijjet ^ dilextt : como a- 
maíTe, amou. Sefta feira 
na Cruz ficou tam fatis- 



Refurrei aó bailarão para 
fatisfazerj&concentari-iúa 
efperança: Nos autemfpe^ 
rabamus. 

152 ^^1 Osautemfpera" 
Í.N bamtis.à' tertia 



teita a fe, que diíTe por ^^ese/t hodie: Nós efpera 
bocado Centuriaó : Vere vamos, ácíam já hoje três 



filha T>ci erat ifte: Ver- 
dadeira mente eíle era Fi- 
lho de Deos. E Domingo 
depois da Refurreiçaò a- 
inda eílà a efperançatam 
mal fatisfeita , que da{^ç^ 
por boca dos Diícipulos 
de Emaús: Nos autem fpe- 
rabamus \ Nos efpera va- 
mos,mas não fe comprí- 
ram noíias efperanças. A 
caridade fatisfezíe no 
mais amante : a Fé faris- 
fez-fe no mais incrédulo : 
^ efperança não fe fatis- 
fez nos mais obrigados. 
Para contentar a caridade, 
bailou Chriílo vivo : para 
contentar a Fe , baítou 
Chriílo morto: para con- 
tentar a eíperanya , naó 
baítou Chrillo refufcira- 
,do. Nem as obras da vida, 
nem as maravilhas da 



dias.Diílomeefcandalizo 
mais que de tudo. Vinde 
ca mal entendidos efpe- 
radores da Redempção, 
quando Moyfês fubioao 
monte Sinay, não efpera- 
íles por eJle quarenta dias? 
Pois quando Chri^o fu- 
bio ao monte Calvário, 
porque vos cançais deef- 
perartrcs.?Efperafl-es qua- 
renta dias por Aí oy fés, 
& não efperareis três dias 
por Chriílo? Eu efcanda- 
lizavame, mas clles pare- 
ce que nao deixam de ter 
razão. Eíla he a diferen- 
ça que ha de aver do tem- 
po de Cnriílo ao tempo 
de Aíoyfés. Se no tempo 
de Chnlto fe ouvcfle de 
cperar, comofe eípcrava 
no te m |j o d e M oy 1 ès ; fe 
potépo da Redempção fe 
ou- 



i 



primeira Oitava da Tafchoa. 221 

ouveííedeefperar, como rou, ou quando fua alina 

fccrperava no tempo do fantiffima entrou no Lim- 

cativeiro , que felicidade bo ? A refoluçaó mais ver- 

era a dos noíTos tempos dadeira he, que tanto que 

mayor que a dos paíTados? Chrifto efpirou na Cruz , 

AíTim o prefumiaó os Dif- logo os Santos Padres co-^ 

cipuloSi&aílimera> ainda meçáraô a gozar a vifaó 

queellesoignoravaõ No beatifica-, porque naó era 

tempo de Moyfés eípera- jufto que o premio de feus 

vaó os homens quarenta merecimentos felhes df- 
dias com paciência y por- 
que naó era ainda vindo o 
efperado : mas no tempo 
de Chrifto cançaõfe de ef- 
perar três dias, porque he 
jà outro tempo, he tempo 
da Redempçaó. Efperar 

antesdeviroefperadojhe quatro mil annos que eí^ 

penfaó do tempo : mas de- peravaó. E fe efperavam 

pois de vir o efperado , ef- avia quatro mil annos,que 

perar ainda, he tormento importavaqueefperaílèm 



lataíTe. Se lhes dilataíTe; 
Notável razaó dos Theo- 
logos í A alma de Chrifto 
deceo ao Limbo em dous 
inft antes, &quaíi todos os 
que eftavaó no Limbo-, 
avia dous mil, três mil, & 



de defefperaçaõ. Vede co- 
mo acodio a efta razaó, & 
como fe conformou com 
cila o mefmo Chrifto. 

IP3 Pela morte de 
Chrifto abriraófe as por- 
tas do Ceo , & os Santos 
Padres do Limbo viraó 
logo a Deos. Mas pergun- 
taó os T heologos, fe à vi- 
ftadeDeos a começarão 



mais dous inft antes ? Im- 
portava muito 5 porque o 
tempo era já outro. Otê- 
po paflado era de cativei- 
ro, o prefente era de Re* 
dempçaó : & no tempo <fa 
cativeiro efperar pelo 
premio quatro mil annos, 
era conforme a miferia dó 
tempo paíTado : mas má 
tempo da Redempçaó eí- 



logoa gozar os Padres, perar fó dous inftãtes,èrá 
lanto que Chrifto efpi-- cótra a felicidade do tépo 





4 



* 



221 Sermão dà 

prefente. Efla differença dilação dos três dias que 



ha de ter o tempo da Re 
dem pçaójdo tempo do ca- 
tiveiro,que no tépo do ca- 
tiveiro efperavaófe qua- 
tro mil annos , no tempo 



Chriflro tardava em fe lhes 
manifeftar, tendo-o feito 
aos do Limbo no mefmo 
inftantedefua morte. Se 
para os Patriarcas náo ou- 



da Redempçaó,nem dous ve dilação, para nós os A- 
inftantesíeha deefperar. poftolos , & Difcipulos 



194 Mas fe para os do 
Limbo era muito efperar 
dous infl:antes,porque naó 
feria também muito para 
os do mundo efperar três 
dias : ISLos autem fperaba- 
miis^Ò' tertta dies eft hodte> 
Bem tirada5& apertada ef- 
tava a replica , fe den- 
tro dos mefm os termos de 
huarazaónaó podéra ca- 
ber outra mayor. Aílim 
como entre o paírado,& o 
prefente he neceíTario que 



porque a ha de aver : Nos 
autem ? E tem a duvida 
húacircunftãcia,que naó 
fó parece alhea da razaó, 
fenaó ainda deformida- 
de. Os Patriarcas eraódo 
Seyode Abraham, os A- 
poftolos eraó do feyo de 
Chrifto: Abraham era fer- 
vo de Chrifto, Chrifto era 
Senhor de Abraham. Pois 
he bem que fe premiem 
logo os do feyo do criado, 
& que eftejaó efperando 



haja grande diíferença de os do feyo do Senhor: Nos 
tempo a tempo , aílim no autem f per abamus ? Veja 



mefmo tempo prefente 
entre os mais j & menos 
beneméritos he igual me- 
te neceíTario q haja muita 
diíFerêçadepeíroas apef- 



mosquem eraó huns, & 
outros , & no mefmo 710 s 
autemynTím fó acharemos 
razaó, íenaó muitas razo- 
ens para efta differença de 



foas : Nos autem fperaba - favor , que com elles ufou 
mus.^ Aquelle nos\autem, Chrifto. Quem eram' os 
porém nos, parece que ju- Patriarcas, & quem eram 
ftiíicajou pôde juftificar a os Apoftolos ? Os Patriar- 
queixa dos Difcipulos na cas eram hum Adam , a 

quem 



^. 



primeira Oitava da Tafchoa. 225 

(jiiem todo o género hu- raó a vida conílantemen 



muno reconhecia porPay: 
era hum Noéjqiicfalvou 
ellefóo mundo cm hum 
navio: era hum Moyfés, 
que libertou o Povo de 
Deos do cativeiro, & o le- 
vou aterra de PromiíTao: 
era hum Job, exemplo da 
paciência, 6c da conílan- 
cia : era hum David , que 
acodindo pela honra de 
Deos vencia Gigantes;era 
hum Efdras,reílaurador 
do Templo , & da Reli- 
gião: era hum Jeremias, 
que ardia , & fe desfazia 
em zelo de feu Senhor: era 



te? Os que à vifta de feu 
Réyo defemparáraó,com 
os que pelejarão por elle 
fem nunca o verem ? Fi- 
nalmente os que avia três 
annos que ferviaó, com os 
quetinhaó trezentos, qui- 
nhentos, & mil annos de 
merecimento ? Bem clara 
eftá a razâo , &: eíia he a 
primeira. 

ipf Afegunda,& nao 
menor he,porque os Apo- 
ílolos eraó vivos,os Patri- 
arcas eraò mortos : & os 
mortos que acabarão a vi- 
da no fervíço de feu Se- 



hum líaias ,queíe deixa- nhor, devem preferir , &: 
va ferrar pelo meyo , por preceder aos vivos. Por- 
Ihe naó faltar à Fe. E os que razaó ? Pela do mere- 
Apoftolos .? Tenha paci- cimento, & pela doimpe- 
encia o nos autem. Eraò dimento.Pelomerecimê- 
hum Pedro , que negou , to-, porque nam pôde hum 
hú Thomé que naó creo , vaíTallo chegara mais,que 
os demais que fugirão, & adar a vidaipeloimpedi- 
deixárao todosa feu Se- mento, porque o morto 
nhornasmãosde feusini- naó pôde requerer , nem 
migos. Pois feria bem que fallarporfy; & o Princi- 
foíTem premiados igual- pehade fer o requerente 
mente os que aíTim fugi- dos mortos. Os vivos hao 
raójcomosque aííim fer- debufcaro Principç para 
viraó.^ Os quetetiíéraó a que os premie, o Principe 
mortejcomôs que perde- hadexrbuícar os mortos 





224* Sermão dà 

para elle os premiar : & af. debaixo da terra para os 

fim o fez Chriílo, que os premiar. 



foy bufcar ao Limbo. O 
defpacho mais prompco , 
& mais breve,que Chriílo 
deu para o feu Reyno, foy 
o de Dimas: Hodiemecum 



§• Vííl. 

IP<5 p Stasfaó as razoes 
• CD j-r 1., L porque nenhua 

ensmFaradtfo, Masain- tivera Ó os peregrinos de 
da ao mcfmo Dimas quiz Emaíis no que cuida vaó , 
Chriíto que precedeíTem nem ainda a podiaó ter no 
os Patriarcasjporque quá- que não cuidarão, perfua- 
do osloldados acabáraó dindofcqueocomprimé- 
de nr.atar aos Jadroens, jà to da fua efperança lhes 
avia tempo que Chrifto tardava,fendoelIesostar- 
eftavanoLimbor^^i^- dos, como Chriílo lhes 
fum autem cum venijfent , chamou : Oftulú , & tardi 
víderunt eumjam mortuu, corde. Tardos no crer , ig.' 
A brevidade do defpacho norantes no inferir, &:im. 
de Dimas foy do mefmo pacientes no efperar. Ti- 
dia, hodie-y^ do defpacho nhaó ouvido que o Se- 
dos Patriarcas foy do mef- nhor avia de eílar debaixo 
moinílante. Para Dimas da terra três dias , & três 
fazer eíFedivo o feu áç^Ç- noites, aíllm como Jonas 
pacho , foy elle a Chriílo: no ventre da Balça ; & lá- 
para os Patriarcas terem çadas bem ascontas,ainda 
eíFedivo o feu, foy Chri- lhe falta vaó para três dias 
ftoaelles. Dimas como quando menos vinte & 
vivo, efperou Chriílo que duas horas, Elles o confef- 
requereíTe por fy : T>omi- fáraò aíTim quando diíTe- 
neymementomet.OsVuú' raó, Manenobtjcum Tio- 
arcas como mortos , nam mine^ quontam adiefperaf 
efperou que requereíTem cit. Era a hora de fepòro 
clles, mas elle foy o feu re- Sol,& quando fe poz à íua 
quercntc, & os foy bufcar me6 o SoI,q na fua imagi- 
nação 



i 



».. 



primeira Ottavâ 
náçaõ ainda naó tinha 
amanhecido i então o vi-^ 
raó,6c.re lhe efcondeo jun-. 
ta mente : Cognoveriit euniy 
cb- ipfe evanuit ab octilis 
eorum. Com efta breviíli- 
ma vifta tudo ficou troca- 
do em hum momento : a 
triíleza trocada em ale- 
gria, a defconfiança tro- 
cada em credulidade, a ef- 
perança trocada em fé, & 
elles raó trocados dentro j 
&fóradefy mefmos, que 
logo voltarão animofos de 
Emaúsparajerufalèm,af- 
fimcomotinhaó faido tí- 
midos de Jeruíalèm para 
EmaiiS. 

197 Se fora Sermão ef- 
te difcurfo, aqui tínhamos 
hum bom ponto, com que 
acabar. Naó ha finai mais 
certo, & mais feguro, Se- 
nhores, de termos conhe- 
cido a Chrifto,&: Chrifto 
nos ter convertido a fy, 
que desfazer os caminhos 
errados de noíía vida pe- 
los mefmos paíTos por on- 
de os fizemos. Se defenca- 
minhados fomos dejeru- 
falèm para Emaús , poftos 
n3 verdadeiro caminho 
. Tom.8. 



daTafchoã, 2 2f 

tornemos de Emaíis para, 
Jerufalèm. Cogita-vi vim 
tneas-^èrfovertt pedes pieos^ 
in tefiimonia tua ^úÍ7.Í2, hú.: 
ILeytaõ fca.CP como Da-t 
vid em quanto Homem, 
&ta5 refoluto,&animo- 
fo em quanto arrependi- 
do, &: penitente. Confide- "^ 
rei os caminhos de minha 
vida, & logo os desfiz pe- 
los mefmos paíTos. He ne- 
cefíario defandar o anda- 
do, desfazer o feito , & 
deíviver o vivido. Afilm 
ofizeraóna mefma hora, 
naó a guardando para o 
outro dia os nofíbs ventu- 
roíbs peregrinos. Na m eA 
ma tandedçsfizeraô o que 
tiiihaó andado pelos mef- 
mos paíTos, ôcaflim como 
tinhâo deixado Jerufa- 
lèm , & caminhado para 
Emaús,aflim deixarão E- 
maús,& voltarão a toda a 
preíTa para Jerufalèm. 
Chegados a Jerufalèm, 
entrarão com o alvoroço, 
que fe deixa ver,no Cená- 
culo, onde acharão os ou- 
tros Difcipuíoscheyosde 
exceíHvo prazer, porque 
S.Pedro os tinha certifi- 
P cado 





,* 



'■' '► 



*^^ Sermaâad 

dado de que vira refufci. a narração tao notável de 

t&úé d Divino Meftrc. ftjahiiboria,aqaal,& ade 

^ontárãooque lhe tinha noíTos tempos acaba 

fecGédido , & acrecentá- aqui. 

râo a alegria de Côdog com 



1 -OIJ . 




;3ni3C 



LiEq oocíi. 



£ívi,;jij^^ jsicq jsiJ33q «vi*. 



ij^.:5(^t>b 



SER. 



I 






o.mo i 



>• *i«L^ L 



Sí7 



lâÊMÊMJíMMMÂMMM 



SERMAM 

DA SEGlíJí^A pXTÀyA 

PASckoA. 

EM ROMA , NA IGREJA DA CASA PRO^ 

feíTa da Companhia de Jefus : dia em que be obri- 
gaçaÓ,& coílume de toda Itália pregar da Paz. 



^Utà Jefus }nnJedioT>ifcípulorumfuorum ,&dixiteisi 
Tax vobis. b.ttumhoc dixijfet , oftmdit eis manus^ *> 
expedes. Liic.24. 



§. I. 

Epois ida tertir 
peftade do Di- 
luvio ainda na 
vegavana Arca 
o mundo jàfalvo , quando 
na ultima hora de huma 
tarde a pomba embaixa- 
dora de Noè lhe trouxe a 
primeira nova da paz em 




hum ramo verde de oli- 
veira, : yenit cohntbd ad ç,^^^^^ 
vefperam portans ramamivi^ 
oliva in ore fuo. Fali ou 
Moyfés em todas, & cadn 
húadeftas palavras como 
Profeta do paíTado, & co- 
mo Evangelina do futuro. 
Vede parte por parte co- 
mo fe conforma a figura 
com. Q figur^doy & aquelle 
P ij Tex^ 




i'* 



Lnc 






4?^ 'vSVmj 

Texto com o do Eyange-, 
lho : l^tnit columba. -/ft^tit 
Jí'fus : ad vefperam -, cum 
fero ejfet \portans in ore fuo-, 
& dtxlt eis : ramum oliva ; 
Tax 'vobis, Eíla he a pri- 
meira parte do Evange- 
lho,& efta fera a primeira, 
&a fegunda do meu -dif- , 
curfo.TodoelIereempre- 
L„c. ^^^^ ^"^ concordar eftas 
36? "^ duas palayras : Tax vo^his^ 
Paz a vos. A vôs,que d^iu 
trodavoíTa Cidade efta is 
cercados de inimigos , co- 
mo eftavaó os Apoílolos 
nefta hora : a vôs,quenetn 
dentro da voíTa cafaj&có 
asportascerradaseftaisfe- 
guros: a vós, que dentro 
dos muros padeceis guer- 
ras civísj&dentro das vof- 
fas paredes difcordiasdo- 
meílicas : a ròs,&: a todos, 
CO mo róS) pazA í <Tax V4>' 

109 Santo Agoftinho 
no livro dezanove da Ci- 
dade de Dcos definindo a 
paz, àvi. a íll in : 'Pax homi- 
niim'eH^rd,. nat/^ concórdia: 
A pa 7? ^fi t F e o V h o m é s n aó 
he Outra coaíâ, quehuma 
concoidiu oidci)ada. Se 



O da 

na.óíi,e ordeoadi, ^ bçm 
ordenada, aindaque fe)a 
concórdia, & grande con- 
córdia, não he paz. Porií^ 
fo entre máos não pôde 
aver paz : Non eft pax im- 1 
fijs. E a ordem defta con- ^ 
"eordia, ou a concórdia dc- 
|fta ordem em, que coníi- 
fté ? Eni duas còuías , diz 
Agoftinho : hua da parte 
do fuperior para com os 
fubditos , outra da parte 
dos fubditos para com o 
fu pyerior-: Tax domiis ordir 
nataimperandi^ atque obe- 
diendí concórdia cohabitan- 
tium \pax civitatis ordina^ 
ta imperandi^atque obedieri' 
di concórdia civium. De 
maneira, que na caía, ou 
familia, que he hua Repu- 
blica pequena i Sena Re- 
publica, que he hua caía , 
ou familia grande > toda a 
pazconíifteem que o im- 
pério do que manda ,&• a 
Ibgeiçaó dos que obede- 
cem, ellc ordenando,& cl- 
les fuborJcnados , eílciaó 
concordes. Atèquia dou^ 
crina fundamental deS A* 
goílinhojdc S. Thomás, & 
ilc todos oi Thcologas. 

Agora 



fezundaOitavadaTafckca. ^ 129 

10a Agora pergunto Chriftoannuciandoapaz. 

cu-6cque fcrà neceíTario Stetit in meato'. eis-ahi a 

de húa,&da outraparte \^v.2\à^à^'.0ftenmetsma. 

nara que a ordem defta mts,&f€des,^^^^2ki^.^V^^^- 

^onco^rdia fc conferve , &. encia : Tnxtt e^s ^l^^^ 'í^' 

com a ordem, & a concor- ^/V:eis-ahi a paz. Llta aliitn 

dia fe configa a paz ? Ref- declarada fera ^ P^meira , 

pondo com a mefmapro- &fegunda parte do meu 

por,aó,quefaóneceírarias argumento. Com^ecemos 

Ltrasduas couías. Da pela igualdade,& demos o 

partedoíuperior,8cdoq primeiro lugar, como he 

manda, igualdade: da par- obrigação , aos que man- 

te dos inferiores , & dos dao. 



que faó mandados , paci- 
ência. Sem igualdade de 
húa parte, &íem paciêcia 
da outra , nam fe poderá 
confeguir,nem confervar 
a paz. Vósquenafamilia, 
ou na Republica tendes o 
mando , fe quereis paz, 
igualdade :vòs que na fa 



201 



s. u. 

STetit m médio T^if-^ 
cipulorufny& dixit 
eis^Tax lobis. Apareceo 
Ghriílo como Meftre à fua 
efcola,comoPay à fiiafa- 
milia, como Principe ao 



milia, ou na Republica feuReyno^ mas como era 
fois mandados,& fogeitos, Principe de paz,& raedia- 
fe quereis paz , paciência, tor da paz , apareceojio 



Tudo ifto enfinou Chrifto 
hoje a feus Difcipulos,que 
aviaó de ferfuperiores, & 
erao fubditos. Stttit in me- 
díoT>ifcipulonim : oftendit 
eis mantiSyà' fedes : & dtxit 
eisy^atcv&bis. Chrifto po- 
ílonomeyo: Chrifto mo- 



m ey o : Stetit in médio. Co 
as palavras enfinou a pâz , 
& com o lugar, 6c fitio que 
tomou, enfinou o meyo de 
a çonfeguir,que he a igual- 
dade. Notai a maravilho- 
fa , tV fum ma igualdade de 
Chrifto pofto em meyo 



ftrando as fuás chagas: dos Difcipulos : AS^í^m ^^ 
Tom.8. Piíj ^^■ 




\ 



queJ'd„ha„egado.&„rô pírcfa^ rotina" 

Igualdade. JVem a oífenfa gundo de voíTa Máy , nam 

o obrigou ao retiro, nem o haverá hum pequen^o Zl 

obfequio ao favor , mas de mayor affeâo ^ Naô 

preigualA em meyo de vavaemfv, ^comfizo & 

hum & outro: 7;, ^,^,, annúciava^; todo^os^ dÍ 

©//yK.r^;^. Eíla foy a cipulos, era a paz- pL^I 

AmlZT^^a"'''^''^' igualdade com todos, nam 

Ameíma.Norofto,naaIe- ha paz. 



gria, nas palavras , na be- 
nevolencia,noefquecimê- 
to do paíTado igual com 
todos, ^^ a todos. A todos 
oíFerece a paz : Tax vohis : 
a todos tira o temor: A^^/i- 
ibid.56. tetimére : a todos anima, 



í. IIL 



/^Rey,a Corte, Sc 



&c 



202 

_ Reyno mais 
pacifico que nunca vioo 
mundo, foy o de Salamaó. 



&conroIa: Qjitd turbati O liey fe chamava Sala- 
g/. ? a todos íe convida ; mao, que quer dizer Taci^ 
Habettsaltqmdquod mm^ ficus : a Corte fe chamava 
^rejur? a todos regala: Jeruralém,que quer dizer 
!D^^/rmr^%///^^;atodos Vtfiopaas, oReynotinha 

por 



\ 



fegunda Oitava daTafchoa. ^^i 

por confins a mefma paz , quem o ódio ? à defigual- 
Oní pofuit fines Um face, dade: Et odtfit tntqmta^ 
fibomque arte, com que tem, EhumReytaôama- 
induftriaacquirio, & con. tedajuftiça,&taô aborre- 
fervou Salamaó para fy, cedordadefigualdade,ne. 
para a fua Corte, & para o ceíTariamente avia de ler 
feu Reyno húa taó nota- o q foy : elle fo,8c elle por 
vel, & nunca vifta paz? antonomafia o lacitico. 
Com a igualdade fómen- 203 Grandes outros 
te ; Vtr^aaqmtatis , wga dotes de Rey, & de reynar 
Rezni tm. O Cetro de Sa- teve SalamaÓ 5 mas vede 
lamaóeraavara da igual- como fó ffte foy o queo 
dade j & porq có eíla vara fez Rey da Paz. Renun- 
de ip;ualdade media igual- ciou David em SalamaÓ o 
mete a todos,por iflb foy o feu Reyno -, & P^^a que el- 
feu Reyno entre todos os le reynaíTe como filho de 
Reynos,& a fua Corte en- tal Pay,& fucceífor de tal 
tre todas as Cortes, & elle Rey , apareceolhe Deos, 
entre todos os Reys oq .ScdiíTèlhe , que pedifle o 
gozou de mais alta , & fir- <iue quizeíTe. Pedio Sala- 
me paz. Nam avemos mi- :maó fabedoria, & ham fo 
fter outro comentador, nê Ihedeo Deosmayorfabe- 
mais claro, nem de mayor dória que a de^ todos os 
authoridade,queomefmo ;homens, fenaò tampem 



Texto. Depois de dizer, 
p^irga jequitatis yvirga 
jRegni tuh acrecenta: Di- 
kxtllíjí^ftitiam y& odiHi 
iniquitatem. Amava , 6c 
aborrecia Salamaó , mas 
naó tinha mais que hum 
fòamor , ôchunvfò: ódio. 
£ aquém o amor ? á julH- 



ímaypresriquezas, 8c ma- 
yoTipottncia que a de to- 
.dçso^ Reys. He porém 
cou íà digna de grande ad- 
miraçaó,que naò contente 
David com tudo ifto , ain- 
da fez novo memorial a 
Deos,& pedió mais para o 
Reyieu íilho. E quepe- 



ça ; Viiexjflijuflítiam.: ôc a dio ? Que lhe déíTç Dèos 



ju- 




Pfalm. 
71. z. 



?^^. Sermaõda 

-tal, que fo/fe femelhante à ortn actt^er bonos\ & 

Jhnam tuam fiho Regis. dade da juílica,que David 



Pois David, vedes o voíTo 
filho taó fabio , taó rico, 
taópoderofoj^com tan- 
taspreadasjuncas,&: tan- 
tas calidades verdadeira- 
mente reaes , & ainda vos 



pedio para feu filho, acre- 
centandoqueo fim da fua 
petição era a paz, que lhe 
efta^^a prometida : Sufci i 
pimt montes pacempopulo , ^ 
&codes jufihiam. E por- 



para dar boa conta do feu que ped.a , logo profed- 

reynado?S.m.PorqueSa- zou q^ue tal feru a "^az de 

lamao , fega.idoolignifi- Salamaóemtodooíempo 

cado do feu nome , & fe- do feu reynado : Orieturin 

gundo o que delle eftà dtebusejusjuftitU^&abun. 

profetizado,namfó tem dantiapaas 

obngaçaóJeferbÓRey, 20+ ' 

lenaóReyPacií5co:&pa- nhores 



ra ferPaciíico, naó bafta a 
fabedoria, nem a riqueza , 
nem a potencia, fe lhe fal- 
tar a igualdade com todos: 
por iíTo peço a Deos, que 
íbbre eíles docns lhe acre 



Aqui vereis, Se- 
) o engano deíle 
mundo. Todas as guerras 
defte mundo fe fazem a 
fim de confeguir a paz. 
Omn/s homo ( diz S. Ago- 
ílinho 3 tt iam belliger ando ^ 
pacem requirit '.pactsinten- 



centeodehuatal juíliça, tionegeruntur & bella A 

que feia femelhante à fua : guerra fe applica a fabe- 

t.tjitjtitiam tuam filio Re- dória, na guerra fe empre- 

^/.Equal he a juíliça de ga a potencia, coma guer- 

Deos no governo uni ver- ra fe defpendem as rique- 

fal do mundo? Húa igual- zas,&: com a guerra íçpre- 

d-ade fii m ma fem exceiçaó tende a paz : m as he enga- 

de peíFos, nem difFerença no : Vtampaçijnon cogno- 



fegunda Oitava da Tafcfjoa. 235 

•mmí. A paz naó fe con- da juftiça:manda mais que 



quitla com exércitos ar 
mados, conquillafe com 
hua fó erpada,& com dous 
e feudos : com hua fô eípa- 
da, que he a da juftiça j & 
com dous efcudos, que faó 
osdasíuas balanças. Diví 



asduasametades huma fe 
dé a hua mulher, & outra 
a outra : Date dimidiam 
partem uni^ & dimidia par- 
tem alten : & eíla foy a 
igualdade das balanças. 
Oh admirável gerogliôco 



ibid. 



daaefpadaigualmêtcpe- dajuftiçaigual: & digno 

lomeyo o que partir, & de o tomar por empreía o 

ponhaófe as partes , ou Rey pacifico! Mas nao pa- 

ametades iguaes, hua em rou aqui a decifao da eau- 

hua balança , &: outra na fa. Defcuberta^ com efta 

outra: & debaixo deíla induftria a verdade, naõfe 

igualdade íe achará a ju- partioominino,masvivo^ 

ftiça, & nefte equilíbrio a &: inteiro fe deo à que era 

paz Tal foy o primeiro fua mãy : & neftas duas 

uiizodeSalamaó,&a pri- partes da íentença de Saí- 

meira fentença do Rey lamaó fe manifeftáraô os 



dous effeitos da juíliça 
particular > ou univerfal 



Reys. A Juftiça particular 
tem obrigação de dar a ca- 
da hum o feu ,, êc nefta pr- 



Pacifico. AífentadoSala- 

máo no trono Real, a pri- . 

meiracaufa,ou cafo que que devem _obiervar os 
lhe foy propofto > foy a 
contenda de duas mulhe- 
res fobrc hum minino , o ^ --. 

qual cada hua delias pro- dinariamenteife huapat> 

tefta vaque era feu filho, te fica fatisfeita, a outra fi- 

Nam avia teftemunhas , caqueixofa : porém a jur 

nem outra prova. E que ftiçauniverfal,& córaum 

faria o Rey.? O que eu aca- tem obrigação de fer igual 

_bo de dizer. Máda q omi- com todos , :^ delia igual - 

.ít tJiinoíe parta pelo meyo: dadQ^queatodoscíàtisfoz^ 

u^. "DiVidite if^àntm:. 6c eíla ^^ç abraça,naçe a verdadei- 

>• ' foy a igualdade da: eípada m^:^ epnílaníe paz. Em 



ff. 



.1»' 



2;+ ^ Sermão da 

húa igual , em outra defi- cempeílade, fendo a caufa 

gualSaiamáo ; & em am- C que he mais ] o mefmo 

basjuíto j mas fó na da Piloto. Em quanto Tacob 

Igualdade Rey Pacifico: obfervou igualdade com 

Fir^a aqmtatíSyVírga Reg. todos, todos goza váo h úa 

»^^«^- feliciíTima paz. Opay a- 

inava igual mete os filhos: 

^- ^' os filhos amaváo igualmé- 

D te opay: & os irmãos en- 

O exemplo do trefyfeamaváo igualmé- 

Rey, &daRe~ te como irmãos. Ditofo 

publica, que faó as cafas pay ! Ditofos filhos ! Dito- 

grandes 5 paíTemos ao do fos irmãos ! Editofa , & 

Pay,& da familia , que faó bemaventurada familia,fe 

os Reynos pequenos. A efteamor, & efta pazdu-^ 

mayor cafa que ouve no rara! Mas não durou : & 

mundo, foy a de Jacob 5 & porque? Foycrecendofo- 

Jacob o mayor Pay de fa- feph, que era o filho da ve- 

milias. Nellacafa,&defte Ihice , começou o pay a 



pay nacérão doze filhos, 
em que fe criarão , &cre- 
cérão os doze Patriarchas, 
cabeças,& fundadores dos 
doze Tribus de Ifrael. 
Mas qual foy o eftado de- 



amalo, & favorecelo mais 
que aos outros irmãos-, 
& no mefmo ponto fe 
mudouafcena. A paz fe 
converteo em difcordia, o 
amor em odio,airmanda- 



fta grande familia em quã- de em en veja, & o mefmo 

to os filhos, fendo tantos, fangue da natureza em 

& de taó diíFerentcs ida- > fangue de crueldade , & 

dcs, viverão na fogeição vingança. Videntes fratr es 

"áo mefmo Pay ? EUe era ejusquodà patre plus cun- 

Santo, mas nem por iíTo ãisjílijs amaretur^oderant 

elle,& toda a familia dei- eum,necpoteranteípacifice 

xáráo de ' correr varia for- .loq4ã. Notai o plus amare- 

tuna, )k em bcmança, jà^m tur^Jk o necfoterantp^çifi' 
-^^' ce. 



Geni 



fegtmàa Oitava 
f>.Faltoii a paz na família, 
porque faltou a igualdade 
no pay. A igualdade con- 
fervavacamor, & o amor 
conciliava a paz : a deíi- 
gualdade excitou a enve- 
ja,&aenvejacauroua dif- 
cordia. 

2 0í> Agora entra a ma- 
yor admiração. E qual foy 
efta defigualdade ufada 
comjofephjac qual a de- 
moftraçáo defte mayor 
amor .^ Por ventura Jacob 
tirou aos outros filhos a 
fua benção para a dar a Jo- 
feph ? Náo. Por ventura 
desherdou aos outros pa • 
ra quejofeph foíTe o úni- 
co herdeiro da fua cafa ? 
Náo. Pot ventura tratava 
aos outros eomo efcravos, 
ou criados , & fó a Jofeph 
como filho^Náo. Qual foy 
logo a dcfigualdade, que 
tanto perturbou , & arrui- 
nou hua táo natural, & tão 
bem fundada paz ? Cafo 
quafi incrível í Feciteitu- 
nicampolymitam : porque 
fez Jacob a Jofeph húa tú- 
nica de melhor cor que 
aos outros irmãos. Náo 
defpojava o pay, nem def- 



da^Pafchoa. i^S 

pia aos outros pára veftir a 
Jofeph : a todos provia , a 
todos veília , 6c a todos eó 
a decência,^: nobreza de- 
vida ao feu eftado. Mas 
porque a túnica de Jofeph 
era de cor mais viftofajba- 
âou a deíigualdade da- 
quellacor, ouaquellacor 
de defigualdade, para que 
aenveja efpedaçalTea có- 
cordia, para que a paz fe 
converteíTe em guerra , a 
irmandade em hoftilida- 
de, o amor em rancor,a be- 
nevolência em vingança,a 
humanidade em fereza; 8c 
para que toda a cafafe cu- 
briíTedelutos : & õtriftej 
& infelice pay desfeito em 
lagrimas viífe pouco de- 
pois nas fuás mãos aquella 
mefma túnica tinta de fan- 
gue,fó porque a tingira de 
melhor cor. Taó perigofa, 
&futilmente, ainda den- 
tro das mcfmas paredes, 
depende da igualdade a 
paz. 

207 Efe quando a de- 
fígualdade topa em mate • 
ria taó leve como no va- 
queiro mais loução de hvi 
miniaojtantos homens em 
bua 







* *. ' 



^^ll^"' 



1^6 Sermão 

hua conjuração taó efcan- 
dalofa rompemos mayo- 
res refpeitos da piedade, 
darazaóf, & da natureza j 
que fera, ou poderá fer on- 
de as deíigualdadcs por le- 
vantar a huns, & abater a 
outros , naó reparaó na 
ruina da opinião, da hon- 
ra, da nobreza 5 da fazen- 
da, do remédio, Sc naó fó 
daefperança, quehea ul- 
tima anchora da vida, fe- 
naó da mefma vida? Diga 
Gmefmojacob o que ex- 
primentou na caía de feu 
pay, quando elle era filho , 
& ametade de toda a famí- 
lia. Contendiaó elle , & 
feu irmaó Efaíi defde o 
vêtre da mãy fobre o mor- 
gado daquella caía , que 
eraode Abraham , & o 
mayorque ouve, & avia 
de aver no mundo : & fen- 
do a matéria de tanto pe- 
ío,& de tanto preço Jfaac, 
que era o pay , inclinava 
para Efaú,& Rebecca,que 
eraamãy,para Jacob. Em- 
fim prevaleceo a induftria 
da mãy contra a vontade 
do pay; & que refultou dc- 
ôa defigualdade ^ Náofó 



da 

que a paz da Família fe c5- 
verteo em guerra, mas em 
guerra taó perigofa,que a 
mefma mãy,que tinha fa- 
vorecido maisa hum filho 
que a outro , fevio redu- 
zida às anguílias de per- 
derem hum dia a ambos:^^ 
Curíitroque orbabor filio tn^^i 
unodie ? He poílivel que 
em hum dia mehey de ver 
orfá de ambos os filhos, 
hum por morto, &: outro 
por homicida? Sim fenho- 
ra,queeíl:es faó os frutos 
que produz a defigualda- 
de dos pays, quando fendo 
iguaes em lhe aver dado o 
fer, o naó faó em os favo- i 
recer,& amar. Vós mefma 1 
tirareis de vofibs olhos cf- 
fe Jacob que preferiíles5& 
para lhe falvar a vida, o 
condenareis ao defterro. 
E nam fó nas faudades, 
mas nos perigos da fua au- 
fencia, chegareis a tal ef- 
tado , que aborreçais a 
própria vida: Tadet me vi- ^^«<^ 
t^e me£. 

§. V. 



2o8 QEnhorcsmeus,vòs 
^ que na família ,on 
na 



fegunda Oitâ^va 
m Republica tendes oof- 
licio,& a obrigação de as 
confervarempaz •, igual- 
dade: c^q^i^f ^^0^ ^^^^ 
aquavittiatnra^ dizS Ãm- 
brofiõ. E fe acafo com os 
exemplos de Jacob , de 
Ifaac, & de Rebecca me 
replicardes ^que inclinar 
maisahunsjque a outros, 
ainda entre pays, & filhos, 
he aífe^lo natural •, com os 
mefmos exemplos vos 
refpondo, que também he 
-natural feguirfe à deíi- 
gualdad^ deftas inclina- 
íçoens a rotura da paz,& as 
difcordiasdomeflicas, & 
civis. O verdadeiro , & 
único exemplo he.fó o de 
Chrifto hojcjcomo meftre 
Rey,&como meftre Pay: 
Stetit tn tmdio T>ifcipii'0' 
rum.Oiívi hua grande má- 
xima politica,& económi- 
ca tirada do raefmo Tex- 
«to. O Príncipe he fen' or 
-da Republica, o pay he íe- 
nhordacafa; mas nem o 
Principe,nem opay heie- 
nhordafuainclinaçaó: In 
-medío. 

2^9 : Todas aâ Couías 
dcftemundotcma íliaí%- 



da^ajchoa, 2 57 

clinação natural : fóhumá 
ha, que na6 tem inclina- 
ção : & qual he ? O centro. 
Todas as partes do uni- 
verfo propendem » carre- 
gaõ,&inclinaô para ocen- 
trojfó o centro,que eftà no 
meyo de todas,naó inclina 
para parte algúa ; & por^ 
que razão .? Porque fe o 
centro fe inclinaíTe a húá , 
oLiaoutra parte, nomef- 
mo ponto fe arruinaria to- 
da a machina do mundè. 
Fmdaftl terramfuper Ha^ ,,, ^^ 
bilitdtemfmm^non inclina:^ j,,, ^. 
bttur in f^cuum f^cui^^ 
Fundou Deosaterra( diz 
o Profeta) fobre a fua pró- 
pria eftabilidade 5 a qual 
nunca fe inclinou, nem in- 
clinará jà maia. Equefun- 
damento da terra he efte 
taóeftavel, 6c firme, que 
nem fe inclina, nem fe ha 
deinclinar .? Não ha duvi- 
da que he o centro. Super 
JfahiJtatemfuam^ videUcet 
fupracentrum tpfius ^ quo-. 
niam fím?Jes partes terra na- 
turaUtertendímtin centru : 
'comenta com A ri ftoteles 
iOiony ;"o Cartufianó. De 
itoáfí^tóàírque todas as par^ 

t€S 



1* ,. 






..1^ 



.'»■ 



^3^ Ser ma 

tesdouiiiverfo fe inclinaõ 
aocencro,&o cenrroa nc- 
Jibúa delias fe inclina, porr 
■que eftà no rneyo : In me- 
'àio. Grande documento 
•4Ía natureza para as incli- 
cnaçoensdas vontades fu- 
jperiores. Quereis levar 
após vòs as inclinaçoens 
4e todos5náo vos inclineis 
anenhum. Porqueo cen- 
tro pofto no meyo nam 
-tem inclinação a nenhua 
das partes i por iíTo todas 
as partes do univerfo fc 
inclináo concordemente 
aocentroj&coma mefma 
inclinação, & coma mef- 
jjia concórdia fe unem en- 
itíefy, &fe confervaó em 
paz. 

2 IO Agora entendereis 

o próprio fentido de hum 

Texto muito comum, mas 

,^çg naó pouco diíHcil. I^omi- 

».«. nifunt c ar dines terra , é* 

pofuitfuper eos orbem. Quer 

dizer: queDcos aíTentou, 

& eftabeleceo o mundo 

fobreos centros da terra. 

EíTa hç a: figníicaçaó da 

Í)al^vrar^r^/«é'j, como fe 
è no original Hebreo : & 
aquieílàa difficuldade. A 



n da 

terra nam tem, nem \>òá^ 
ter mais que hum centro, 
&çm fer hum fó confiílç 
toda a fua firmeza : como 
diz logo a Efcrirura , que 
Deos poz, & eílabeleceo 9 
mundo fobre os cetros da 
terra ? Porque fajla do 
mundo politico com aliur 
faóao mundo natural. O 
mundo natural tem hum 
fô centro, o mundo poli- 
tico tem muitos centros. 
O centro do mundo natu- 
ral he o meyo da ferra, os 
centros do mundo politi- 
co faó todos os que teiíio 
mando , & governo do 
mefmo mundo , ou de fuás 
partes,, diz S. Jeronymo. 
Dentro deíle orbe politi- 
CO ha muitos circulos ma- 
yores, ou menores,& cada 
hum tem o fp centro. Os 
circulos mayores faó OiS 
Reynos , & o centro do 
Reynoheo Principe : os 
circulos menores faó as 
Cidades , & o centro da 
Cidade he o Magiítrado : 
os circulos minimos faó as 
familias,& o centro dafa- 
miliaheo Pay. Eftes faõ 
pois os centros muitos, & 
va- 



fegunda Oitava áa T^fchoa. ^^9 

vários, fobre os quaes Nequeaddexteram. Que o 

Deos eftabeicceo efte or- Príncipe naó incline para 

be racional do mundo po- a parte efqi|erda, que he a 

Utico : ^ominiíunt cardi- pcior parte, bem feita; mas 

nesterra.&pofuitfuper eos para a direií^a,porqiienaò? 

orbem, E que fe fegue da- A parte direita nam he a 

Gui? Seguefequeparaca- melhor? Sim: pois porque 

da hum deftes centros fe naò quer Deos que o Pnn^ 

confervar dentro da fua cipe fe incline nem à me- 

esfera,& para a confervar Ihor parterPorque melhor 

«ellaempaz^ & concor- henaó inclinar, que niclL- 

dia , he neceíTario que fe nar ao melhor. Declarar- 



ponha como verdadeiro 
centro no meyo,& fe man- 
tenha,& fuftente na indif 



mehei com hun^ exemplo 
domeílico.Hum dos com? 
panheiros de noíTo Padre 



ferença defte equilibrio SantoIgnacio,&: que de^ 
fcm inclinação a hua, nem poislhe fuccedeo noGe- 
aoutraparteiif/wíí'^/^?. neralato, foy o Meílre 
2 1 1 Aos Reys de Ifrael Laines > & querendo o Sá- 
dizia Deos fallando com to empregar efte grande 



cada hum: Nec declinabis 
addexteram^ neque adfmi- 
ftram. Eu vos fiz Rey , eu 
vos fiz Governador , eu 



taíento, q era o mais emi-^ 
nente de todos ( como bê 
fe viojfendo Theologo do 
Papa,no Concilio Tride- 



VOS fiz Pay do meu Povaj tino ) naquelle exercício 
peloque adverti, qu€ o in- que folTe mais conforme à 



clinar em vòs he declinar i 
^aíTim vos deveis portar 
de maneira, que nem in*. 
clineis para huma parte, 
nem para outra, nem para 



fua inclinação,perguntou- 
Iheja que íe inclinava ? E 
que refponderia Laines? 
Inclinomeanaó me incli- 
nar. Eftche o verdadeiro 



aefquerda,nem para adi- ditame de hum perfeito 
reita. Nefta ultima paia- fuperior: IncUnarfe a nam 
vraeftàaminha duvida; ter inclinarão: Non decli- 
nabis 




Pfalm. 
73.12. 



Joann 



37 í 
5* 



240 SermaÕ da 

nabisaddexteram.nequead apertafimt,& multa corpos 

Imjtram. Porque inclinar- ra, qu£ dormierant Jurrel 

feàhuma parte qualquer xerunt. Inclinoufe huma 

quefeja, he faltar ao equi- cabeça coroada, inclinou- 

librio da igualdade, & c5 fe huma cabeça, que tinha 

a defígualdade perder a efcritoemcimaotitulode 

uniao, perder a paz , per- Rey , inclinato capite > Et 

dera concórdia, perder,& ecce : & o que no mefmo 

perturbar tudo.E aífim fe- ponto fe feguio a efta in* 

rianafamiha,ounaRepu. dinação foraó terremo- 

bhca,fefemoveíre o cen- tos, divifoens , inquieta, 

tro,fe.fedeixafleo meyo, çoens, tumultos: tudo per. 

&fefeinchnaíre a cabeça, turbado, tudo defcompo- 

òtetittnmedto : naó fô no ílo, tudo alterado, & át{- 

mtyoytnme/^io.m^snomc- unido. Atè as pedras in- 

yo fem inclinaçaó,/^r/>. fcnfiveis fe quebrarão de 

212 No corpo natural áoTipetrafaJfafmt'.2.tè 

bem fe pode inclinar a ca- no mais fagrado ouve á'v 



beça fem movimento , né 
mudança do corpo^no cor- 
po pol itico naó pôde. Ve- 
de hua grande figura no 
meyo do mundo, que foy 
o Monte Calvário: Opera- 
tvts eftfalutem in médio ter- 
ra. O mefuio Chrifto que 
refufcitado7?^í/> in médio , 
morrendo, inclinou a ca- 
beça ; Inclinato 



vifoens,& roturas i n)elMn. 
templifcijjtm eft : atè as ÍCr 
pulturas fe abríraó j monu- 
mentaapertafunt'. porque 
em femelhãtes cafos mui- 
tas coufas que eftavaó fe- 
pultadas no efquecimen* 
toíè defenterraó , & em 
defpeito dos vivos faem 
outra vez à luz do mundo, 
& refufcitaó os mortos: 



— j- - - - capite, n, v^ iwiun^iiítu u» ijiunub 

queaconteceo no mefmo Et multa cor por a, quador- 

ponto .? Et ecce-velum tem- mieranty furrexerunt E pa- 

Match. flifciffum eft in duas fartes^ ra que fe veja,que efte hc o 

& terra motaeíf^ à^petra my fterio da figura , ouça- 

fciff^funt, & monumenta mosaDavid,que maravi^ 

Ihofa- 



'.l-TT«-«-»n- 



figunda Oitava da Tafchoa, 241 

Ihofamcnteoreduz àpra- 
rica. T>eus fietit inípi^-gO' ^ • v 1. 

ffaT)eorum\ in médio aw ,^^r-, ^ c^«tn^ 

í^^^^w^/í/z/^fo^^í: Apare- íij D ^lo q«e , Senho- 

govcrnaó o mundo , para reis q«»«f jf «' ^'L*!""^ 
os iulsar • & que IhesdiOe? paz, igualdade : & igual- 
O que eu fcabo de dizer. Sade rcda, & fem inclina- 

tatem,& fácies peccatorum como a de Chrilto hoje 
fiZ7tf> Atè íuando ha- pofto em meyo dos Difci- 
CT de julgar c^ó defigual- pulos : Sunt^n med^^^ 
dade^Atè quando haveis ctpulorum. Os Diíc.pulos 
defozer excekaôde pef- faziaó a circunferência, 
taScli'andovosmLa Chriftoeftava no centro. 
Maqueaoutra? Mefae- & as linhas do amor, & do 
rununenue intellexermt , favorcorriaocom a mef- 
movebultur omnia funda- ma proporção, com a mel- 
menta terr^. Ora para que ma medida, & com a mef- 
veiais quam ignoraate,& ma igualdaae tanto para 
« adamente procedeis, cada hum, como para to. 
o hai para as confequen- dos, & tanto para todos, 
cias,& effeitos defta vofla como para cada hum for 
dellgualdadc.Seguirfehaó iflo profetizou Malachi^. 
dellf inquietaçoens , íe- que a juftica .& igualdade 
guirfehaôdifcordias. fe- de Chrifto avia de fec 
luirfehaó ruinas,& toda a como a igualdade, & julli- M,,.d,. 
terra.perdida a firmeza do ça do Sol : Omtur vobts , r. 
centro , fe revolverá de òoljufttM. Em todo o 

criado fenaô podia achar 
melhor , nem mais apro- 
priada femelhança.S. Am- 
brofio. Sola nullo dijtatt 
mlíi prafentiortnulii abfin' 

Tom.8. a '''' 



baixo para cima : Mo^e- 
kmtur o7nnia fundamenta 
terr£. 



M 



r 



^p 





í^ore^f. SeS. Pedro, como grão Senhor.&olharespa 



grande Piloto, tomaíTc os 
dotisinflrumentos da fua 
arre, em hííamão o com- 
paíToj&naoutrao aílroia- 
biorcom o compaíTo me- 
oindo as diílácias de Chri- 
ftoaosDifcipuIos, avia de 
achar, que de nenhum di- 
ftava mais,inem menos: Sol 
ãnullodiftut\ & com oaf- 
trolabio, tomando as al- 
turas, aWa de achar igual- 
mente, que de nenhum ef- 
tava mais perto com a 



raoSol , avcis de cuidar 
queeílàfobreo voílb Pa- 
lácio: fefois hum Rei igio- 
fo,queeílà fobre o volTo 
Convento: fe fois hum Ar- 
tiíice,queeftà fobre avof- 
fa officina : fe fois hum Pa- 
ftor,que eftà fobre a voíTa 
choupana : & nenhum ha , 
ou taó grande, ou taó pe- 
queno, que naó haja de ter 
para fy^que o Sol olha par- 
ticularmente para a fua 
cafa ; Uyúciíique vídetitr 



prelença, nem mais longe ftarenon ntfi fupra domtm 

com a aufencia : Rulliprle. Juam ■> { ^ '' """""^ 

ÍnTTT 'fi?l* ^'^''^'- 'lecomqueoSoInos allu- 

mth,reolliaraosparaeIla, Chriftocom feusDifcipu- 

cada hum cu.da que eftà ]os.& como cada hum del- 

fobre a fua cafa Tufupra les cuidava que era o que 

domumtuamvtdeslHoam: mdhorlugarc.nha na fua 

fgo eumdtm v,deo fupra do- eftimaçãor & no feu acra- 

7nHm rnearn, o- umcmque do. PoSco antes do d,a da 

vjdeturUre nan.nifi fupra Payxáo declarou o Senhor 

domumfuam. Muito me- a feus Difcipulos , que hia 

íiior, & mais claramente ajerufalèm a morrer.E no 

podem fazer efta mefma meimoponto><5^íy/,í„., , 



experiência no Sol todos 
&sque me ouvem, quando 
«iaquiíàíurem. iieiòisiau 



tentiointirios, quis eorum -+■ 
videretiir ejje 77iaior. O noí- 
foiXícífre vay morrer, & 
.o.iiiv qual 



k. 



fegunda Oitava^ da Tafchoa. 2^i 

qual de nos he o mayor , fedo , que cada hum íc 



qual de nós lhe fuccederá 
no meílladof' Náome ad- 
mira a queíla6,& ambição 
delia, porque ainda o Ef- 
pirito banco naó tinha de- 
<:ido fobre os Apoftolos : o 
queme aíTombra , &: faz 
pafrnar, heque cada hum 
cuidaíTe, 6c fe perfuadiíTe 
que era, ou podia fer elle o 
mayor. Ao menos a pro- 
meífa feira a S.Pedro em 
prefença de todos, a todos 
era manifefta , como logo 



perfuadiaferelleoque ti- 
nha o primeiro lugar no 
conceito, ScePiimaçaó de 
feu Meílre. E bem fe vio 
queeílacófíança era igual 
em todos,& em cada hum; 
porque todos concorda- 
rão em que a demanda fe 
levaíTe ao tribunal dom ef- 
mo Chriílo : ^Is putas ^^^^ 
maior eftin Regno C£lorú> ''^■»- 
Mas o Senhor não quiz 
fentenciar, nem decidir a 
duvida , & deixou ficar a 



eftava ainda a mayoria em cada hum na íua opinião , 

opinioens, &■ cada bú cui- para naò faltar ao refpeito 

dava que foíTe fua '^ Pedro da Tua inalterável igualda- 

ainda naó tinha negado j de,& para que a preferen.^ 

quepodiaferhum bó mo- cia declarada de hum nao 

tivodaexclufiva.-quefun- rompeíTeapaz^Sc concor- 

damentopois,&querazaò dia de todos. Hoc aiitem 

podia ter cada hum para fe femper agebat 'Bimmus^ 

oppor a efta demanda: nonimpotens poiefiaíe^fed^ 

Qiiis eorum videretur ejfe fapiens aquitate > ut null{ 

m/iinr ? A razaõfov. dizS. ariimum ^DifiipuhjTum hm 



maior? Arazaòfoy, dizS 
Fuigencioj porque era tal 
a igualdade có que Chri- 
ílo tratava a todos os Dif- 
cipulos: era taó exa£ba, & 
çircunípeóla a medida có 
que o Senhor repartia en- 
tre elles, & temperava as 



manum incitar et ad zelum 
21 f AífimodizS. í ul- 
gencio,& confirma o feu 
dito com hua excellente 
reílexaó. Pedirão os dous 
filho&doZebedeo as duas 
cadeiras , & refpondeo 



demoílraçoens do feuaf- ÇM.ú^o\Roneft meim dare,_^^^^ 



1)0' 



^44- 




vobis. Perguntou Pedro ao 
mefmo Senhor : Quidero-o 
Mud.. eritnohs > E rerpondeo: 
Sedebitisfuper fedes duo de - 
ibiJ.28. cim jud .cantes duodecim 
Tribuslfrael, E como af- 
fim .? replica argutamen- 
reo mefmo Santo Padre. 
§lui pomtfit duodecim 
thronos , duos thro7ios tn 
fitam non habet potefiatem > 
Chriíl:odiz,que náo pôde 
dar duas cadeiras,&: da do- 
ze cadeiras.^ Se pôde dar 
doze, porque naó pôde 
dar duas? Por iíTo mefmo. 
Porque fendo doze os feus 
Difcipulos, dará dous, & 
naó a dez, naó era igual- 
dade. PoíTo dar a todos, a 
dous naó poíTo dar. E efta 
he a mayor potencia do 
meu poder: ferimpotente 
para fazer qualquer defi- 
gualdade. E porque.? Por 
manterá concórdia , & a 
paz entre feus Difcipulos, 
conclue admiravelmente 
Fulgencio. RefpÕdet ^equa- 
liter^ér nofifeparanteryfede- 
bit is fuper fedes duodecim , 
qtiivult ''T>ifci pulos femper 
effecoficordes. Dando uozc 
cadeirasj concenrava , ^ 



Sermão da 



concordava a todos dozcí 
dando fomente duas , con- 
tentava a dous, & defcon- 
tentava, & defconcorda- 
ya a dez : & quiz obfervar 
in violavelmente a igual - 
dade,para confervar inal- 
teravelmente a paz , & có- 
cordia ; ^// vult T>ifcfpUm 
losfempereffe concordes. 

216 Ellahe a igualda- 
de que Chriílo ob^rvava 
para confervar a paz ; a 
qual devem imitar todos 
aquelles,que ou politica, 
ou economicamente tem 
obrigação de procurar hu- 
ma,& outra. E fe quereis 
húa medida certa da meí^ 
ma igualdade, eu vola da- 
rei, para que cada hum a 
poífa levar para cafa. E que 
medida he efta.^O Gomor. 
Quando antigamente ca- 
hia o Maná do Ceo,fahia6 
todos ao campo a recolher 
cada hum a fua porção. 
Eraó mais de dous mi- 
Ihoens de peíToas grandes, 
& pequenos : & que fez 
Deos para evitar o tumul- 
to da cobiça, áx enveja, & 
da violcncia, 6c confervar 
em paZj^ cócordia aquel- 
la 



fegundd Oitava da Tafckoa. 

h immenrá multidaó.^^Fez 

hua medida chamada Go- 

mor, aqual maravilhofa- 

mente tinha tal proprie- 
dade, que os que colhiam 

muito, & os que colhiam 

pouco, tanto levava hum, 

como o outro Ecomonê 

a cobiça,nem a diligencia, 

nem o affedojnem o favor 

podia deíigualar a medi- 
da , nem aventejar huns 

aos outros , todos íahiaó, 

& tornavão concordes , & 

todos viviaó , 6c fe fuften- 
taváoempaz. Eftapois, 
Senhores, fcja por ultimo 
documento a certa, & in- 
violável medida , ou da 
voíTa politica para a Re- 
publica, ou da voíTa eco- 
nomia para a famiiia. Não 
o amor, naó o favor, naó o 
terror, mas o Gomor. O 
amorcaufa ciúmes, o fa- 
vor envejas,o terror ódio, 
& aborrecimento, & íó o 
Gomor, porque he igual 
para todoSj(^ como Chri- 
lloemmeyodos Difcipu- 
los ) nos pode dar paz.óVí'- 
tit tn médio T>tfcipulorum , 
Ò-' dixit eis: Tax voi^is. 

Tom. 8, 



245 



§. VIL 



217 npEmosvifto que 
1 para fe confe- 
guir,& confervar a paz, ou 
publica, ou domeftica, o 
meyo mais fácil, & efficaz 
da parte dosruperiores,he 
a igualdade com todos, 
como a de Chriílo poílo 
em meyo dos Difcipulos: 
Sutít lefus in medio "Dif 
cípulommfuorum. Mas fe 
acafo faltar efta igualda- 
de, ( como tal vez pode 
faltar, naô fó injuíla,&de- 
fordenadamête, íenáopor 
caufas muito juftas, & ju- 
fbiíicadas) que remédio da 
parte dos fubditos paja 
nam perderem , & fe con- 
fervarem em pazrO remé- 
dio naó menos provado, 
poílo que naó taó facil, he 
a paciência. AíTim oeníi- 
nou^ôc demoítrou o divi- 
no Meftre aos mefmos 
Difcipulos , quando an- 
nunciandolhes a paz, lhes 
moítrou as fuás chagas: 
q)ixiteiSyTax vobis , & 
oftendit eis mams 3 & pe- 
des. 

QJiij Com 



ao da 







^^ Serm 

218 Comas mermas Chriíto quando quiz kt 

niaos, & com os meímos cravado na Cruz • a noíTa 

pespregados na Cruzvio raude,& anoíTa paz.Anof- 

Ifaias a Chrifto^ quando fafaude •, porque com aí^ 

exclamou, dizendo : ©;/: fuás chagas Tarou as noíTas- 

eiphm pa-cis noftr^fuper Livore ejus fanatt fumus : 

eum , &ltvore ejus fauati & a noíTa paz^ porque com 

/^^//x.Neílas palavras der- orofrimenco das mefmas 



cobrio, & maniFeílou o 
Profeta hum novo , & fe- 
gundo myílerio da Pay- 
xaó, & chagas do Redép- 
tor,atègora occul ca, 5c ig- 
norado de muitos. Cuida- 
mos quepadeceo o Fdho 



chagas nos cnfinou, que a 
paciência he a verdadeira, 
doutrina da paz, fe. a qui- 
zermos fazer noíTa : T>íf' 
ciplinapacis noflra. Hum , 
& outro efFeico refumio 
nofeu Cântico Zacharias 



ibi( 



de Deos pregado em húa depois de Chriíto eílar jà 
Cruz foçara nos falvar, 6c nomundo. Odafaudej Já', 
namfoyhumTóofim,nem dandam fctentmm faluttsn. 
humfo o efteito de fua plebí e jus, ^^j^^hcjtvore ejus 
l'ayxao,fenaodous: hum fanatt fumus :^ o á^r^^iad 
para nos farar, Sc outro pa- dtrigendos pedes noflro ' in 
ra noseníinar.Para nos fa- viam pacis, que he , diíd^ 
rar , porque o preço das pUnapacls noftra^fuper eu 
fuascha^as foy o remédio Quereisouvir a verd idei- 
da nofla faude -.Livore ejus ra ethimologia , ou breve 
fanatt fumus. E para nos definição da paciência > 

Tatientia , pacis fcientia. 
Por lífo o Profeta Ihecha^ 
ví\o\xdifcipltna.,'ú\o hç^do. 
ãrinapacis\ 8c por líTo o áw 



j~^.,~~., j.^,„çvo , .!_, paia iius 

cníinari porque? Aquief- 
íà o noíTopoaco. Porque o 
exemplo da fua paciência 
foy a doutrina da noíTa 



^^z-.pifctplinapacts no- vinoMeílre, quando diíTe 
flrafupereum Notai o fu • aos Difcipulos, /^ax vobis. 
per eum. De forte qutduzs lhes moíhou eíla mefma 
coufas tomou fobre fy cicncia naó fó efcnta ,& 

ru- 



rubricada 

das Tuas chagas , mas as 

iTiermas chagas impreííks, 

& entalhadas nas mãos, & 

nos pès\OJiendit eis manus^ 

^pedes. 



219 



§, VIII. 

SAya agora a deíi- 
gualdade dos fu- 
periores, ou juíla, ou inju- 
íla,& vejamos que eífeitos 
caufa, & pôde caufar na 
pazdosfubditos.Sea deíi- 



dafegunda Oitdva da "Tafchod. 24.7 

com o fangue raem:&que movimentos 
vos parece que excitaria 
no conceito, &eftimaçam 
dos cfpiritos Angélicos ef- 
ta inopinada noticia ?Por 
ventura romperão todos 
em louvores da bonáadc 
divina, cantandoihe hym- 
nos,& celebrando com pa- 
negyricoshum taó admi-^ 
ravel exceíTo de fua mife- 
ricordia ? Nada menosian- 
tes parecendoihes exceíli- 
va deíigualdade a muitosj 

^^^^^^ logo começarão a revol- 

gualdadeos achar defar- ver no penfamento o qi^ 
mados da paciência, nam depois ponderou S. Paulo, 
haduvida q caufaràguer- quando diíTe : Kufqmm 
ra,& cruel gaerra : mas fe a Angelos apprehendtt , fed ^f^'- 
paciência os armar, 5c for- femen Abraha apprehendit, 
talecer contra os golpes da He poílivel que em ne- 
mefmadefigualdade , ne- nhúa parte das noflasje- 
nhúaaveràtaó forte, que rarchiasfqueilfo querdi- 
poíTaalterarj&defcompor zer««/^^^^} achou Deos 
nelles a firme , & fegura outra natureza a que unir 

fua divindade, fenaò à hu- 
mana ? He poílivel, que ha 
de deixar os Anjos, os Ar- 
chãios, as Vintudes,as Po- 
teftades,as Dominaçoens , 
os Principados,os Tronos, 
osCherubins, & os Sera- 
fins 5 &: que o homem feito 
de barro ha de fer Deos? 
Aqui 




paz. 

220 Para prova da pri- 
meira parte deftes eíFcitos 
trcmenda,8c funeliiílima, 
ponhamonos dentro do 
Ceo,& às portas do Pami- 
ío,& velos-hemos có hor- 
ror.Revelou Deos aos An- 
jos que fe avia de fazer ho- 



Ap.oc. 
ii.j. 



^4^^ Sermão da 

Aqui foy a ira, o furor , a uniaó natural, que pedia o 
Ecomonaótíveraó dobrado vinculo nam fó 



raiva 

paciência para fofrer eíla 
defigualdade,poíl:o que a 
preferencia lhe naô era de- 
vida 5 ella foy a que defcó- 
poz a quieta , & innocente 
pazemqueforaó criados j 
eíia a q meteo no Êmpy- 
riOj&introduziono mun- 
do a primeira guerra : Fa- 



da humanidade , fenam 
também da irmandade. 
Masqueíuccedso ? Diz o 
Texto fdgrado , que poz. 
Deos os olhos no facrificío 
de Abel, êcnaó no facrifi- 
cio de Caim: RefpjxitT>o- g 
mhius ad Ahely & ad mune- ^ 
ra ejus ; a d Cai n vero^ér ad 



ãum eft pr^lhim magmtm munem illius nan rcfpexit^ 
mCalo;á\z a que deíacor- & foy ta! a impaciência, &^ 



dou aarmoniade todos os 
coros Angélicos ;& ella a 
quecomruina da terceira 
parte de todas as Jerar- 
chias deo principio ao In • 
ferno dentro no mefmo 
Ceo. 



raiva que caufou no animo- 
de Caim efta dellgualda- 
ds, que trocada no mefmo 
ponto 'oda aquella paz, 8c 
cócordia natural emcrue-i 



liíTima guerra,, fem temon 
dop3y,fèm reverencia da 
22 1 Mas paíTemos dó máy, & fem refpeito dair- 
Ceo aterra. Naô avia na mandade, porque íe nam 



terra mais que dous ho- 
mens filhos ambos , & os 
primeiros filhos do mefmo 
pay, & da mefma máv, 
Caim,& Abel. OfFerecé- 
raõ ambos facrificio a 
Deos, Abel que era paftor 
das crias do feu rebanho, 
Caim que cultivava a ter- 
ra dos frutos da fu a lavou- 
ra : 5c atèqui viviaó a mbos 
naquclla lincera paz , 6c 



podia vingarem Deos, fc 
vingou no mefmo irmão: 
& o feu fangue foy o pri- 
meiro , que fe derramou 
no mundo5&: a fua morte 
innocente a primeira em 
que fe executou a fenten- 
çafulminada contra a cul- 
pa do Paraifo. Pois por hú 
refpexit i ou non refpe^it-, 
porhum inclinar, ou nam 
inclinar de olhos ^fe que-. 
brad 



rmndaOitavadaTtjfchoa. ^ 2^.9 

braÓtodososftrosd.ra- fe aceita com paciência 



zaój&danatarez.i ? Sim. 
Fira que caahcçrio os que 
tem ruperiorilide, os gra- 
des pode^e^,& inrdiçáo da 
fua própria viíU , & com 
quanta cautela devem 
olharem quem põem , & 
de quemretiraó os ollias. 
Sehetaò impaciente , & 
mal fofridaeatpe irmãos a 



Tomada fem paciência, 
fazA he caufa de guerras » 
Sr taõ cruéis como as que 
Vi nos: aceitada com pa- 
ciência, nao desfaz , nem 
altera, nem defcompoema 
pazi aiites a conferva mais 
o-lariofa. E íe aquelles 
exemplos forão de Anjos, 
6c hon-ns , eíte fera de 



S^fferençadeíerbcm vi- mal. que homens, &m4i^^ 

mo poderá aver paciécia, defi^maldade que nutíea. 

nem paz entre os eftra- yio,nem vera o mundo, 

nhos , Sc emulos, onde as Qual foy a mayor defi-^ 

defi-ualdadeg forem ma-^ gua!dade,q jamais obroti 

yovts> AqueDeo^uíbu DeosyS^ qual a mayor que^ 

com Caim,& Abel,he cer-^ comètéraòos homens ? A. 

to que foy jufta,& mereci- mayor defigualdade que 

da,pollo que fe ignorem obrou, nem podia obrar 

as verdadeiras cauías Mas Deos , foy dar feu Filho 

não bafta que as eau^as fe- pela redempçao do home. 

^ójuílas , & juíliíllmas, Vender o Filho para ref- 



onde entre vem a defigual 
dadepubUca, & coahcci- 
da, para que a im^pacién- 
ciadosfubditosnâo feja a 
total deftrui^áo , 6c ruína 
da paz. 

222 líloheoque faz a 



gataroeícravo í' Gonde-^ 
nárainnocencia para ab-- 
foiveraculpa ! Morrer o- 
im mor tal para refuícitar 
o morto í Deixar quebrar, 
6c perder os diamanteSjpa- 
ra reparar o barro !' Em- 



defigualdade tomada im- fím padecer o Criador pa- 
pacientômènte : veiamos ra que a criatura vil nam 
a^ora o que rtóa^ desfaz, íe padeça ! eft a foy a H^yor 



y 




defigualdade que obrou, ambas aos hombrosdebii 
nempodaobrar Deos. E xode hum madcTro infa 

deremeflí me Jo F.ho. Z^l^l^Z l^T^Z 



tirarem a vida a eíTemef- 
itio Filho, 6c pregarem ef- 
femefmo Filho com qua- 
tro cravos em hila Cruz. 
Ainda teve outra circun- 
ílancia de mayor defigual- 
dadeefte meímo exceíTo. 
Concorre Chrifro com 
Barrabás para fer hum có- 
denado , outro abfoluto : 
Barrabás o ladraó, o fedi- 
Qiofo, o homicida , o mais 
iníigne malfeitor de todos 



cipedapaz,qiielhe deraó 
os Profetas : Trine ep s pa^ 
cts / Por ventura dcfcom- 
poz a armonia daquella 
paz, que lhe cantarão os 
Anjos no Nacimento: Et 
m terra pax hominibus^Vot^ 
ventura revogoujou ^^zM- «- 
tigioía a paz, que deixou 
cniteítamentoa feus Oi^^ 
cipulos : Tacemreltnquo, 
^obts.pacem meam ão vo- u 
hs?Tio fóraeíle/e dcCç: 



osqueasenxo.us deje- alterar no fu T„7mo pe a 

^filemtmhaóem ferros, defigualdade do decre o 

&fae ,poraccamaçáoab- de Deosa paz com Deos 

nldo££'^\'r^'- ^^^ P^'^ defigaaldaJe dâ 

nado Chrifto.On barbara, fentêçados hSmens aoaz 

o deshumana, ô horrenda, com os homensTque anates 

o facnjega, ô infernal de- clle mefmo com oTcravo/ 

íigualdade! Ade Deos quelhe romperão as S 

niais^que adm.ravel por & pès, rafgo^u os aifi «dos 



exceflbde mirericordía,& 
a dos homens mais que 
abominável por ultimo 
extremo de injuíliça , & 
crueldade! E fogcito, ou 



da guerra,Sc os pregou na. 
fuaCruZjComo diz S.Pau- 
lo ; ©^'/.^«j- quod advtrfusco 
nos erat chirographum de-""' 
cretiyipfumtulitde medio. 



Qppr.n,,do deflas dua^ de- affigens ,lludcruci ■ & cora 
%«aldades.&levando.as o ffngue .juc nu.fou de 

fuás 



dafegunda Oitava 
fuâS chagas, firmou as ef- 
cri curas da paz, pacifican- 
donos com os homens na 
terra , & com Deos no 
Cco, como ram bem diz o 
mefmo Apoílolo ; Tacifi- 
cans per jangiãnem cnicis 
ejus.líveqticein terrisji-ve 
qu£ in Calis funt. E por 
ilTo quando hoje annun- 
ciou a paz aos Difcipulos , 
dizendo, Tax vobis^ lhes 
moílrou juntamente as 
chagas, com cuja paciên- 
cia a tinha merecido , & 
ganhado: Ofienait eisma^ 
nus ièr pedes. 

223 f Aa fegunda parte 
Jdo meu argumento 
fc dera por fatisfeita com 
o que tem demoílrado atè- 
qui,fe contra ella mefma 
que chamei demoílraçaóy 
fenaóoppuzera huma tal 
diííiculdade, que mais pa- 
rece implicância , que du- 
vida. Qaando Chriílo dif- 
feaos Difcipulos, *P^a; vo- 
bis^ he certo que nam fó 
lhes annunciou a paz, mas 
tambcm lha dco com ef- 



daTafchoa. 25-1 

feito. Aílimmefmo quan- 
do lhes moftrou as chagas,, 
naófófoypara que as vif- 
fem, fenáo também para, 
queasimitaíTem , & fou- 
beífem que o meyo de có- 
feguirem a paz, era a paci- 
ência de femelhantes inju- 
rias. Finalmente, de húa,- 
Sc outra confa fe concluía^ 
que também elles aviaoí 
deterosfeus Anazes , 0% 
feus Caífazes , & os feuí 
Pilatos nafua innocencia^ 
que mandaífem executac 
aquellas iniurtiças, &: cru- 
eldades. Tudo ifl-o era ^ 
q dizia de palavra aquell^ 
paz, & o que moftravani^ 
por obra aquellas chagas; 
& aíTim foy. Forque S. Pe- 
dro teve contra íy a Nero, 
S.Tiago a Herodes,S.Joa^ 
aDomiciaoo,& todos ti? 
veraó os feusTyrannos,qf 
hunspregiraòna Cruz, a 
outros corcáraó a cabeça,a 
outros defpiraó a pelle, 6c 
a todos derramarão cruelr 
mente o fanguc , & com 
exquiíitos tormentos tira* 
raó a vida. Pois fe o diviao 
Meílre nos pès, nas mãos , 
& nas chagas abertas a fer- 
m 



2f2 Se: 

ro cocava a arma, '&: publi- 
cava guerra a feus Difci- 
pulos, como nas palavras' 
brandai,& amorofas lhes 
annuncía juntamente a 

224 Apertemos mais a 
duvida, para que redu zida 
a todo o rigor da Filofofia, 
fíque mais clara. Apazhe 
húa concórdia recíproca, 
& relativa ;& tudo aquil- 
lo que he reciproco, & re- 
lativo, em falrando , & fe 
perdendo de húa parte, 
neceíTariamente faka,& fe 
perde também da outra. 
ÀíTim o eníina Ariílote- 
les,&fedemoílrafacil me- 
te com dous exêplos vuí- 
gareSjO da amizade,& o do 
parentefco. A amizade he 
amor mutuo, &: reciproco 
entre dous amigos, & fe 
hum fó delles deixa de fer 
amigo, acaboufe a amiza- 
de. No parentefco, o pay 
he reciprocamente relati- 
voaoíilho , & o íilho ao 
pay : & bafta que Falte io o 
pay, oufó ofilho,para que 
a relação daquelle paren- 
Ceíco fe acabe. Do mefmo 
modo a paz he concórdia 



mão díi 
mutua, reciproca, & rela- 
tiva: logo fe de hua parte 
eílá a guerra , pnréce que 
da outra não pôde eflar, 
nem con ferva rfe a paz.? 
Refp(^ndoque afumhena 
Filofofia de Ariíloteles, 
mas na de Chriíio não. Na 
Filofofia de Chríílo pôde 
eflar, 6c confervarfe a re- 
lação de hu ma parte,ainda 
que falte,6f fe perca da ou- 
tra Provo com os mefmos 
exemplos. FntreChriflo, 
&Judasavia amizade, co- 
mo entre o mefmoSenhor, 
&: os outros /Ipoííolos. Da 
parte de Judas fairou a 
amizade: êí' da parte de 
C h ri ílo .^ nã o fa 1 tou . Arni- , 
ce^adqiítdi;eriíjii> Amigo ' 
lhe chama, quando jà era 
inimigo, a migo, quá do era 
traidor, a migo,quando lhe 
fazia taô cruel guerra. 
Não porque Judas na- 
quelle tempo foífe amigo, 
mas porque Chrifto ainda 
o era. Interior is amicitia 
nonimmemor, diz S. Ber- 
nardo. Vamos ao pay,& ao 
íiIho. O filho Pródigo, de- 
pois de perdido , eltudan- 
do comiigo o que avia de 
allC' 



^1 



fegunda Oitava da Tafchoa. 2 55 

allcgar ao pay, dizia : Ta^ modo confervava David a 
teupeccavi in Calum^ò co- paz com aquelles que nao 
ram te : iam nonfum dignus queriaõ paz, fenao guerra? 
ruocarifiliustuus.YoisÇ^o Por meyo da paciência, 
Pródigo conhecia, & con- como eu diziUtafervattir 



feíTavajquejà naó era fi 
lho, como chama com tu- 
do payaopay,í*tfí^r?Por- 
que da parte do filho fe ti- 
nha perdido a relação, & 
denominação de fílho:mas 



paxy quando fcílket patíen- 
ter malifujiinentur a bonis » 
comenta Hugo Cardeal. 
Mas muito melhor decla- 
ra o fcu dito o mefmo Da- 
aenominav.u...u......... vid. Ctm his qui odérmt ^^,^ 

da parte do pay naó fe per- pacem, erampacificus : cum 
deo com tudo a relação, & loquebar iUiSy impugnabant 
denominação de pay. S. me grátis : Eu guardava 
- ^. - » r:»-- paz com os que naó que- 

riaõ paz ; porque quando 
meimpugnavaó, quando 
me faziaó guerra, eu fofria 
com paciência, & naó ref- 



Pedro Chryfologo : Ego 
perdidi qiwdfilij ejty tu quod 
patris ejt non amtfifti. 

2 2 5" Do mefmo modo 
digo que fe pôde confcr- 



var a paz de húa parte,po- pondia a guerra com guer- 

ílo que falte,& fe perca da ra, fenáo à guerra có paz. 

outra. E no cafo ainda Ifto quer dizer impugna^ 

mais apertado, em que da bant me grátis. E agora ou- 

parte oppofta efteja a vireis o verdadeiro fenti- 

guerra , danoíTa lhe pôde do,& elegante energia da- 

refponder a paz. Quereis a Q^€^t grátis^ que em nc- 

prova evidente? Em duas nhum Expofitor achareis, 

palavras. Cum his qui ode- Que quer dizer impugna- 

runtpacem^ erampacificus. bant me grátis , impugna- 

Eu (diz David jà em pro- vaóme,&faziãome guerra 

fecia chriíláa > eu tinha de graça? Eu odirei.Quá- 

paz com aquelles que nam do hum homem recebe al- 

queriaópaz. E de que mo- gua injuria de outro , & 

do, Pvey Santo ? De que propoemdefe vingar, naò 

diz, 



^ ^+ Sermão da 

•diz,eIícmo pagará muito pa rrc de San 1 os arreara vos. 

;beai pago/ Pois neílc pa- da parte de David o foR^! 

-gar, ou nao pagar conllíle mento: da partedc Saul a 

o fer offendido de graça , guerra, da parte de David 

ounaodegraça,^r^r...Dc apaz. Saul lhe enveiava 

-maneira que quando a m- osapplaufos , David lhe 

'&/r' k'Í""^"^'' aereeenrava as vitonas' 

• nao fe recebe de graça, Saul lhe remunerava os 

porquecomhu^ injuria Te ferviçoscom ingratidões. 

paga a outra injuria : po- David Jhe paga vli as ingra 



.] úí: 



Pfalm 

Ii8. 

i6i. 



rèrn quando a injuria rece 
.bidalefofre com paciên- 
cia, &naó/e vinga, entaó 
fe faz de graça,porque naó 
fe paga. E porque David 
naó fe vinga va,nem toma- 



tidoens com novos benefí- 
cios: Saullhe atirava com 
a lança para o matar, Da- 
vid tendo o debaixo da 
lança, lhe perdoava a vi- 
da. Emfím a guerra de 



varatishaçáo das hoílilí- Saulimpugnava fempre a 

dadesque lhes hiziaófeus pazde David com a per- 

inimig;os,por líTo d.z que feguição , &a pazde Da- 

-o impugnavaó de graça: Vid vencia fempre a euer- 

.Impugnabantm^ grátis, radeSauI com a pacien- 

22Ó Vede-onosmayo- cia. Mayor contrapofíçaó 

^res inimigos, & mayores ainda,&com mayores re- 

. perfeguidores do mefmo alces de energia em hum 

-David, que foraô Saul, & próprio íilho do mefmo 

- Abíalao,humKey, outro David Naceolhe a David 

filho de Rey , dos quaes hum filho, ao qual ellepoz 

elle dizia peJa mefma fra- pornome Abílilaó E que 

fe.- TrtnapesperfecHtiJunr quer dizer Abfaláo > Quer 

me. Da parte de Saul efta- dizer, Tax 'Fatns , A paz 

vaoodio,dapartedeDa- de feu pay. Graó cafo' 

vido amor: da parte de Todos osque ieraó alcrúa 

Saul a tyrannia , da parte couía das Efcriturasfa|ra. 

dcDavid a fogei^áo ; á:x das fabem queosPatriar- 
"^'*-^ chás, 



fegunda Oitava 
i:hvis 5 & Profetas antigos 
os nomes que punhaó a 
feus filhos eraó profecias 
do que elles avião de fer , 
&húa como breve hifto- 
riadasacçoens, & fuccef- 
fosde fua vida. Vejamos 
agora qual foy a de Abfa- 
láo. Abfalaó fe rebellou 
contra feu pay; Abfalaó 
conjurou contra elle to- 
dos feus vaíTal los: Abfalaó 
lhe tirou a coroa da cabe- 
ça: Abfaláo com todo o 
poder de Ifrael poílo em 
campanha lhe fez cruel if- 
fima guerra. Chamefelo-: 
go A bfalaó guerra, & nam 
paz de feu pay. Pois fe Da- 
vid era Profeta,&: o mayor 
de todos os Profetas, co- 
mo trocou a figniíicaçam 
aonome,&os futuros à 
prjfeGÍa,&em vez de cha- 
mar a hum faífiiho guerra 
de feu pay ,lhç chamou? 
paz de feu pay : Tax Ta- 
tris ? Porque fe da parte 
do filho eftava a guerra, da 
parte do pay fe conferva- 
y a com tudo a paz : & tan- 
to mais admirável era a; 
paz do bom pay , quanto 
mais abominável a guerra 



daTãfchon. 2>ff 

do m ao filho. A guerra do 
filho dizia aos feus Tolda- 
dos: Matay me a David; 6c 
a paz de David dizia aos 
fcus.-Guardayme a Abfa-iRcg, 
Ião : Servate mthi puertim^ '^' 
Abfalon. A guerra de Ab-i 
fal ío dizia : Para que rey2 
ne A bfaláo, morra Da vid^ 
&: a paz de David dizia : 
Morra antes David, para 
que viva A bfaláo : hiU ini 
yibfalôn^ quis mihi tribuat *bid n- 
tít egomoriarprote^ 

227 Eftahea Filofofiít 
deChrifbo : & deíla forte 
por exceíTo de paciência 
fe conferva maravilhofa- 
mente de húa fó parte a re- 
lação da paz, faltando da 
outra : Cum his qui aderunt 
pacemyeTampacificus. Oh 
grande maravilha !ô mila- 
gre eftu pendo da virtude 
Ghriílâa íbbre todas as> 
Leys, & forças da nature* 
za I Húa concórdia diícor4 
de, & húa diícordia con-, 
cordante : hãa parte olha- 
do a guerra torva mente 
para a paz, 6c da outra ve- 
do, & reven d o fe a paz pi a- 
cidamente na guerra ? £ 
que feria fe eu diíleílei que 
lie 



f4 



^S^ Sermão é/a 

hetalopoderdapazpaci- feo morador delia naó for 
entc,&conftante,qiieam- filho da paz, & anáo quí- 
daneílecafo em que nam zer receber; a votta paz 



hecorrefpondida, coníer- 
va com tudo o feu natural 
fer reciproco , & relativo. 
jAílimodigo, & o provo. 
Dem-me atenção os Filo- 
íbfos. Quando a paz fe 
achafó de húa parte, & fe 
vè da outra parte fem cor- 
refpondencia, ella mefma 
fe correfponde de húa, & 
da outra parte. Mas de que 
modo/* Própria, & juíla- 
mentecomo as outras re- 
laçoens reciprocas. De húa 
parte vay a paz direita- 
mente do principio ao ter- 
mo : & da outra torna re- 
flexamente do termo ao 
principio. Não hepropo- 
llçáo,ou invento meu,mas 
theorema , & adverten^ 
cia futiliíTima do mefmo 
Chriftoa Teus Difcipuios 



tornara outra vez para 
vos. Fede agora em huma 
fò paz a paz direita, & re- 
flexa, & a paz fimples , & 
juntaméte reciproca. ©/- 
cite^Tax huicdomui \ eis- 
aqui a pazdireita, que vai 
de vòs para os outros : 6c 
fe elles a não quizeré acei- 
tar : Tax vejira ad vos rem 
'vertetíir : eis-aqui a paz re- 
flexa,que torna delles pa- 
ra vos outra vez. E pára 
aqui a maravilha ? Naó. 
Porque a mefma paz com 
efl-a tendência, & com efta 
reflexão , reciprocandofc 
dentro em fy mefma , fe 
multiplica , & fe dobra. 
Aílim como o rayo do S ol, 
fe topa com hum corpo 
opaco, refle£te outra vez 
paraoSoI,&fe dobra, & 



In quamcumque domum in- intende mais j aflim a paz, 
traveritíSy dicitey Tax huic fe encontra hu m peito du 



Luc.io. domui : & fi ihifueritfilius 
^' pacisy requiefcet fuper illum 
fa . veftra^finautem advos 
rever tetur.Qii^ndo entrar- 
des em qualquer cafa , di- 
zei. Paz feja nelta cafa : & 



ro, ôcobílinado , naôfea- 
caba por iíTo, mas rcfleóte, 
& não pára, mas fe dobra, 
fazendofc mais intenfa na 
mefma reflexão : Tax ve- 
jira ad vos revertetur. 

Ou- 



fegundaOttavada Tafchoa. i ff 
22S Ouçamos o cómê- daójámefma paz os con- 
to de S. Bruno fobre as ceberà,&: parirá : E^/^^,e>' 
mefmas palavras,que agu- multipUcata : mukiplicani 
diíllmamétcdefcobreneU dofe na reflexão dentro 
las nova elegância , & my- em fy,& correrpondendo-^ 
ílerio. Tdx veftra ( diz } fc a fy mefm a. He eíta paz 
revertetur ad 'Vos , quiafa^ como a Fenis mây , & íi- 



ta^ & duplica a revertiUir. 
Jàcôfidcranios que a paz, 
que na primeira tendên- 
cia vai húa,& fingela , tori 
na na reflexão multiplica- 
da,& dobrada. Mas por- 
que nota o Santo, que naó 
íó torna dobradajmas pre- 
nhe,& fecunda: Fata^ & 



lha de fy mefma j mas 
mây,& filha que ambas vi- 
vem56c períevefaoíamãy 
como paz , a filha como 
cofíefpondencia. E para 
que naó fique myfterio al- 
gum por advertir nefte 
grande Texto , notai que 
quando Chrifto diz, que à 



multiplicata ? Porque allu- paz encontrada,& naô ad^ 
deáfrafe de q ufouChri- mitidajofferecida ^ & ré 



ílo : \S/ ibi nonfucrit filius 
p^r/V:Seo morador da ca- 
fanaó for filho da paz. A 
correfpondencia recipro- 
<;a de quem ofFcrece a paz, 
he filha da mefma paz, 
porque delia nace. Diz 
pois Chrifto aos Difcipu- 
los, que fe oíFerecerem a 
pazaquemnao for filho 



pudiada tornará outra vez 
para elles , Revertetur ad 
vos-y entaójêc nao antes lhe 
chama paz fuaj^^.r veftrâ', 
porque fó nefte caio he a 
paz verdadeiramente nof- 
•ra,& toda noífa. Quando a 
paz he correfpondida j di- 
videfe a paz, & dividefe o 
merecimento ; porque a 



da paz,nem por iíTo fe dcf- paz de húa parte he noíTa 

confolcm,entendendo que & de outra parte he alhea. 

a fua paz foy efteril , &: in- Mas quãdo a paz naô teni 

fecunda; porque quando correfpondencia , toda a 

afuapaznaô achar filhos pazhenoflà 5 porque hc 

da paz, que lhe correfpoíx- noíTa de húa , & de outra 
Tom. 8. R. pa^-. 




loann 



^S^ Sermão da 

parte : quando direita , & mudo falHi^a paz de Chrí- 

quando reflexa; quando ílo verdadeira : a paz do 

offerecida, & quando re- mundo temporal , & bre- 

geitada; quando vai , & ve, a paz de Chriíloper- 

quando torna : Tax veBra manente, ^ eterna. Mais 

reverteturadvos. difleomefmo Chrifto. A 

it,^^^ 'r^^&í^^õmaravi- fuapaz chamou duas ve- 

jhofaheapaz.queChriíla zespaz : Tacem relinquo 

hojedeoaosDifcipuIosde vobis.pacemmeam do vo- 

fuaefcoIa,&efta hea en- tòi&à do mundo , nem 

faridaquelle-z;^?^//. Vobis^ húafóvez chamou paz; 

avos,& naó aos demais: Nonquomodo mundus dat^ 

^í?to, avós, que fois meus egodovoòis-, porque a paz 

Difcipulos, & Tereis meus de Chrifto he paz, & a do 

imitadores. E por iíToquá- mundo naóhe paz. He o 

dolheprometeo,&deixou deque arguio Deos anti- 

em teftamento a mefma gamenteaos falfos Profe- 

paz, lhes declarou com re- tas ; T>icentes,pax ,& non^ 

petida expreíTaó de diífe- eftpax : dizem, & enchem ' 

rença,que era a fua , & co- a boca de paz,& naó ha tal 

mo fua, & naó como a do paz no mundo. E fe nam, 

mundo : Tacem relinquo quem hataó cego,quenáo 

voks,facem meam do vo^ veja o mefmo hoje em to- 

bís, non quomodo mundus da a parte ? Dizem que ha 

daty ego do vobis. E fe per- paz nos Rey nos, & os vaf- 

guntarmos em queconfi- faílos não obedecem aos 

JíeeftadiíFerença depaza Reys: dizem que ha paz 

paz,&- em que fe 'diftingue nas Cidades,& os fubditos 

^ paz de Chrifto da paz do naó obedecem aos Magi- 

mundo: S.AgoftinhojôcS. ftrados : dizem que '^a p^z 

Gregório Papa reipondê nasfamtlias, 6c os íiihos 

geralnience, quca paz do naó obedecem aos pays: 

snundo he váa , a paz de dizem que ha paz no.s par- 

Chriílo íoiida : .a paz do ucularci>,& cada hum tem 

dcn- 



i"*;iVr-i|'«-t 



fegunda Oitava 
dcfitro em fy mefmo a ma- 
yor,& a peior guerra. Avia 
demandar a razaó , & o 
racional naólhc obedece-, 
porque nelle, & fobreella 
domina o appetite. A paz 
deChriftohepaz que fc 
cófervanomeyo da guer- 
ra; a paz do mudo he guer- 
ra que fe efconde debaixo 
da paz. Ghamafe paz > & 
helironja:chamarepaz,& 
hediaimulaçaó: chamafe 
paz, & he dependência: 
chamafe paz,& he menti- 
TA , quando nâoTeja trai- 
ção. He como a de Judas , 
que com bejo de paz en- 
tregou a Chriílo nas mãos 
de feus inimigos : he como 
a de Joab, que com abraço 
de paz meteo o punhal pe- 
lo coração de Abner. Fi- 
nalmente, porconcluíaó 
doquediíTemoSja paz de 
Chrifto he paz, que eílan- 
do fó de húa parte, he paz 
reciproca de ambas as par- 
tes •, & a do mundo profef- 
fandoíe reciproca de am- 
bas as partes , em nenhúa 
delias he paz. 

230 Fujapois,&clefa- 
pareça para íemprc> & náô 



daTafchõd. M^ 

fc ouça mais entre os ho- 
mens o nome chimerico, 
&va5 defte^Pgano uni- 
verfal.E ponhamos todos 
naòfóosolhos,masosco. 
raçoens, & as almas neíta 
vera effigie da verdadeira, 
folida,& eterna paz. Uei- 
deefte lugar,como cabeça 
do mundo , eftâjefu cru- 
cificado bradando a todo 
clle o que diífe refufcitado 
a feus D'úá^^\os:TaxvO'' 
bis. AvòSyò Gentios ido- 
latras, que ainda me nam 
conheceis por voíTo Crea- 
dor '.Taxvobis. A vòs, ô 
Hereges, que chamando- 
vosGhriílâos, negais, & 
viveis defunidos de minha 
única Efpofa a Igreja:'?^^ 
<vobíS. Avôs, ôGatholi- 
cos, que contra o mayor 
de meus Mandamétosvos 
cftais desfazédo em guer- 
ras, como fenáo fora me- 
lhora paz, que mil vito- 
rias. í^/^Ari;^?^/^. Eatòs,ô 
Romanos, que fendo Ro- 
ma a Jerufaièm da Ley da 
Graça , deve naò íó cha-i 
marfe, mas fer 'vifwpads 
na concoráÍ2i >'Vífiopads na 
uniaò , ^ vifiopacis no 
R ij exeia. 



y 



t.UC 2 

40. 




IJ^n^^u A r . ^ermâd da 

baftaõS^voTesf íeZ cV"' f precofifllma, 

anaz Nnfttl '^/•L "^ pes, confirmai em nòseC- 
S; mtr&"cSS -crespazes Com ocra- 
paravos rendX «; P vodamao direita a paz 

. encía Óf yv "^P""- '"^'^ ^%«da a paz com 
SS/^E^/rr''"'' osproxi!nos;& co^moc'a^ 
Scbed^n?/^'^'""^ vo de hum, & outro pè a 

Sev^oíía Sftfdl& r"°""'^^ mefmos^f- 
^;^^ /^"^ ^^^'igeiTaae, 6c fim no corpo, como na r^í 

uiuurovo, entre todos os voíTahberaliíTlmo «,;r. • 

£rt"etTo"^ "r^"- corditTlt™ a"tot^; 
tórmete voíTo, a voíTa paz. húa inteira benlaó de oa? 

írr »■"""- è»»." £";«^fe*^""- 

les três cravos , q vos pre- 



SER: 



.L-r»'»-»i«- 



i6t 



.S*íKf.l »» t*J' »> MÉ«~í«r «4 f*í-t»lt*3í*'f*?f^ «S3-í*?í*J-í«'t*at«l 



SERM AM 

DE NOSSA SENHORA 
DA 

CONCEIÇAM 

Na igreja da Senhora do Dífterrc, 
Bahia, âono de I6p. 



^e qua natus eft Jéfus, Matth. i 




5.1. 

Ugar, peíToa , Sc 
Cepo faó aquel- 
las três circun- 
ftancias geraes, 
com que todo o Orador fe 
deve medir , fe naó quer 
falcar,nem exceder a^ leys 
deila nobiliífima arte, que 
na natureza racfonal he a 
primogénita: Aííim o de- 
- Tom.8. 



fejei fazer hoje. E poílo 
queapeíToajOu peíToas fe 
concordâo facilmente c6 
olugar, & com o tempo, 
nem o tempo com o lugar, 
nemolugarcom o tempo 
entre fy, parece que teni-;;i 
poflível acGÓmodaçaó. As 
peíToas faò as que fe no- 
meão nas palavras que 
propuzJefu,& Maria :o 
ilugátheeftaiioíra Igreja ^^ 
R iij dâ 



m, 



■n 




^^2 Sermão de 

da Senhora do Deílerrojôc aos ouvintes. Mas porque 

^-. f , f ^ os que vem de caó longe a 



o tempo he o dia de fua 
puriílima Conceição. As 
peílbas fe concordaó fa- 
cilmente com o lugar do 
Defterro, porq a Máy, (5c 
o Filho ambos foraó de- 
ílerrados;6ccom a mefma 
propriedade fe concordaó 
também com o dia da Cò- 
ceiçao, porque a Máy foy 



eíle deferco trazidos fó 
da nova devaçaò da Se- 
nhora do Dcfterro, fenam- 
ojs^em fallar do mefmo 
deílerro em qualquer dia 
que feja, tornaó deíconfo- 
lados ; para fatisfazer à 
piedade do feuaíFedo, & 
lhe compenfar goíloíà- 



aconcebidafem peccado menteo trabalho das paf- 
original, & o Filho o que fadas, naò pude deixar de 



aremio,&prefervou dei 
le : mas o defterro,^ a Co- 
ceiçaófaó dous extremos 
taó remotos, & taõ diftan • 
tcs^ que muito menor di- 
ílancia he a deNazareth 



infiíhr outra vez no inten- 
to começado. Invocando 
pois o favor da Santiílima 
Virgem debaixo de am- 
bos os nomes, & tornando 
a confiderarcom mayores 



onde a Senhora foy conce- i m pulíòs, fe entre o my íte- 

bida, ao Egypco,para on- rio da fua Conceição > & o 

de foy deílerrada. Na co- do feu deílerro podia átÇ- 

íideraçaó defta grade dif- cobrir algáarazáo de cor - 

ficuldade quaíi eílive de- rcfpondencia j a que fe me 

liberado a me deixar ven- oíFereceo foy taó alra,taó 



cer delia : não me faltando 
exemplos muito autori- 
zados dos que não fó com 
perdão, mas com applau 



propria,&ta6 cabal, que 
ella fera a matéria do Ser- 
mão, & o emprego de todo 
o meu difcurfo. Para que 



íb,femfairdolugar, odei- eu poíTa dizer qual he, & 

xaò, reputando efta cir- provaroque diífcr de tal 

cunfl:ancia,ou por fuper- modo que fique perfuadi- 

flua,&alheado myílerio, dojpeçamos àmefmaEf- 

©u^ por menos aeceíTaria poía do Efpirito Santo,, 



■',S-ri,rTTl- 



ftcrro,& Senhora da Con 
ceiçaò nosaíllfta comfua 
graça 



Ave Maria. 



TSÍolfa Senhora da Conceição^ f6§ 

que como Senhora do De- fterro a fogeitou a todo« 
~ * ' ^ os trabalhos de que foy 

cauíà o mefmo peccado. 
Como fe podem logo cor- 
rerponder, & com grande 
propriedade, dous myíle- 
rios tam oppoftos ?Jà o di- 
go em duas palavras , para 
depois o demoílrar em 
muitas. Digo que os my- 
fteriosdo dcfterro, & Có- 
ceiçáo da Mãy de Deos fe 



§> II. 

.232 T~%Epois que pro- 
l_y puz a matéria 
deíleSermaój&feni: a de- 
clarar, encareci tanto a al- 
teza,& propriedade dellaj 



razaó tenho para me pare- correfpondem não fô ai 

cerqueeftou vendo a to- tiírima,mas também pro- 

dos os que me ouvemjtam prijífimamente •, porque o 

fufpenfos,Gomo alvoroça- defterro da Senhora foy o 

dos, nodcfejo, & curiõfi- defempcnho da fua Con- 

dade de faber qual feja. E ceiçao : & foy o defempe- 

bem creyo,que a nenhum iiho da fua Cóceiçáo 5 por- 

tenha vindo ao penfamen- que tudo o que deveo a 

to qual poíTa fera corref- feu Filho na Conceição, 

pondencia entre dous my- lhe pagou no feu deílerro„ 
iterios taó diverfos, & em Daime agora attençaô. 



todas fuás circunftancias 
taó encontrados. A Con- 
ceição fe obrou no primei- 
ro inftante da vida da Se- 
nhora, o defterro na idade 
em que jà era Mãy : a Cõ- 
ceiçaó em Galilea terra de 
Fieis, o defterro no Egyp- 
toRegiaó de -Gentios: a 
Conceição a livrou do 
peccado originaU & a de- 



.233 Õ mayor , tSr mais 
cxcel lente beneíicio de 
que a Máy de Deos he de- 
vedora a feu Filho, naó hc 
a dignidade de a fazerfua 
Mãy , fenaó o privilegio 
de ler concebida fem pec- 
cado. Ambos foráo bene-'^ 
Ecios fin guiares, qu€ nem 
fe concedéraójnem fe ham 
de conceder aoutrem.iVí»^.,' 



í 





•^^t Serma^de 

Jimtlemvtfaeft, nec habere .da jàpor efpirito proFett 

ndade de fer concebida confirmando o que dizia 

^Z.r ' "íf ^^' ' ^ ^^^ ^^ ^^^^^^^ ^ alvoroços 

inuicomaisexcellenteque d., m.yor d.s Profetas, 

adeferMaydeDeos.NTaÓ ' • 

tenho meríos Jegitima 

prova, nem menos califi- 
çado A uchor deíl-a que pó- 
deparecer duvidolà Tup- 
poíiçaó,quea meíma Máv 
queconcebeoao Filho de 
I>cos , & foy concebida 



que tinha eni. fuás entra- 
nhas. Mas qie refponde- 
na a tudo líto a Virgem 
Maria ? Magmficnt ayíima 
me a Dom'-rtu,n , ò-ex^dta^ 
vk Spiritm mus z,í 'Deo 
filutirimeo. A minha ai- 
mi louva, & giori/ica ao 



rVeZÍ H"r"!íy"^ C que h. aparte fu.ienor 
do Verbo, & defpedido o damefmialmOreaie^rou 
Anjo embaixador, pardo em D^os meu Redépror. 



Luci 
43, 



logoaVirgemjàMáyde 
DeosavificarS. Ifabel, a 
qual a recebeo naó nos 
braços, como faz crer ao 
vulgo a fantaíia dos Pinto- 
res, mas poílrada a feus fa- 
çratilHmos pès , comofe 
deve ter por certo 5 & as 
palavras que diífe foram 
eftas : Vnde hoc mihi^ ut ve- 
nlat mater domlni m^i ad 
m£> De donde a mim tan- 
to bem , que veja eu em 
mmhacafaaMãy de meu 
Senhor ? AOim fali ou a 



rsiota/, & reparai muito 
neílas ultinas palavras. 
Em Deos meu Redemp- 
tor,diz, & naó em Deos 
meu Filho. Pois fe o para- 
bem, que dx Ifabel à Se- 
nhora, he de ferMáy de 
Deos: l^t veniat mater T>0' 
mini mei ad me ; porque 
não diz quefe alegrou íeu 
Efpirito em Deos feu Fi- 
lho, fenaó em Deos feu 
Redemptor? Porque mui- 
to mais eílimou a V^irgcm 
immaculada , & muito 



» - ----^-..v^ct * iiiiiiiacujaua , oc muita 

May, quelavia feis mezes mais alto lugar teve cm 

p era d j Bautiíta,informa. íeuEfpiricg aimmumdade; 

' * com' 




Noffa Senhora daConceiçao. 2^f 

com que o Filho a prefer- ^ TTT 

vou em quanto Redemp- 5- ^^^• 

tor, que a dignidade a que « nr j 

aa^Umou em quanto Fi. 234 A ^.^T^^ ^.' T' 

lho. Emquanto Redemp^ f\^ade deila glo- 

tor remio-a do peccado riofafuppoliçao , feguefe 

oricxinalniConGeiçaó,em agora ver como a Senho- 

quanto Filho fcllaMáy de ra podia fatisfazer a efta 

Deos no parto : & no juizo grandilfima divida, & co- 

da m.Mma Senhora.emqae mo com effeito fe defem- 

naó podia avrer erro, mais penhou delia, & apagou. 

dicT-lodeeiHmaçaófby a Para inteliigencia defte 

pnviiegiode ter concebi- porito>queheo Wame. 

ai Tem peccad .,q i^ a dig. --^- ^^^^ di Çc^rÇa . han 
nidade de íer Máy de. 
Deos, A razaò para os 
Th ologos He; porq a dig- 
nidade de IVLÍ7 de D^ros 



todo noiTo difcurfo , haó 
de faber os que ainda o 
naó tem advertido , que 
nelte mundo nao ouvehu 
fó Herodes, fenao dous^éc 
o primeiro muito peior,&- 
aa.a.,:x...... .....^.- mai.cruel queo fegundo. 

fcm peccado, àfantiftcan- Efte fegundo foy o que 
te Ecomo o privilegio reynavaem Jerufale qua- 
fincrularda Cóceiçaô fem doChfifto naceo : o pri- 
pec^^cado, ainda compara- meiro foy o que^eo acca- 
do com a ineffavel di^ni- fiaó a qoe ó mefmo Chri^ 
dade de Máy de Deos,he fto naceífe , êc Deos fe fí- 



pertence às graças grátis 
ditas, 5c a de fer concebida 



mayor, Sc mais exceliente 
beneficio •, muiro mais 
obrigada, & devedora fi- 
cou a May de Deos a feu 
Filho, pela izentar, & re- 
mir do peccado original, 
que pela fazer Máy^íua, 



zeííe homem , o qual fe 
chamou Adam: &foyA- 
dam peior, & mais cruel 
Hercdesqiie o dejerufa- 
lèm j porque Herodes ma- 
tou os Innocentes dedous 
annos para baixOjSc Adam 
mata a todos feus. defcen- 
dentes 



y 




^^^ Serma 

cientes no mefni o infiante 
em que faó conceóidos. 
Os que matou Wzxoázs^ 
fellos Martyres , os que 
mata ^daó ,fa]Ios pecca- 
dores. Ecomo Chriílona 
Conceição de fua Aíáy a 
livrou da morte, em que 
como filha de Adam avia 
de fer concebida, & a mef- 
maMáy deííerrandofe li- 
vrou ao mefmo Chriílo da 



mor te, em q.uecomo inno- 
eente de Belem avia de 
padecera mãos de Hero- 
Âts-, eíla foy a igual cor- 
refpoíidencia,& o beneíi- 
cio,&: preço també igual, 
com que a Senhora por 
meyodo Teu defterro pa- 
gou ao Filho tudo o que 
lhe devia iia Conceição; & 
por efl:e.modo,aííim como 
o fílho foy efpecial Re- 
demptorda Máy, porque 
a livrou da morte,a que ef- 
tava fentenciada, por aver 
de nacer de Adam ; aílim a 
Máy foy efpecial Redép- 
tora do Filho, porque o li- 
vrou da morte, a q'je efl:a- 
vafentenciado^porter na- 
scido em Bel em. Ninguém 
ignora que Chriílp Se- 



nhornoíTo heRedemptor 
univerfal de todos os ho- 
mens, porque a todos rc- 
mio do cativeiro , & da 
morte,a que todos ficamos 
íogeitos por filhos de A- 
dam:&rea Virgem San- 
tiílima também hefilha de 
Adamj em que confiftio a 
efpeciaIidade,com quefcu 
Filhoaremioaella,&na5 
aosdemais/ Coofiflioem 
que aos demais remio-os 
do cativeiro depois de ca- 
tivos, & da morte depois 
de mortosi porê a fua Máy 
antes de morta, nem cati- 
vada remio antícípadamé- 
te,para queo naó foíTe. E 
tal foyonobiliíTimo mo- 
do de Redempçaó, có que 
amefmaMáy remio tam- 
bém a feu Filho j porque o 
remio das mãos de Hero- 
desjantes decair nellas, & 
da morte que lhe queria 
dar,antes que lha déífeiFíí- 
turum efi enim ut Herodcs 
quarat puerum ad perden- 
dumeum. 

z^f E que eftc modo 
de livrar anticipadamente 
da morte feja verdadeiro 
remir, ouvi a prova,, que 



Nojfa Senhora da Conceição. 2 ^7 

f.m matéria tao' debatida mou efpada maligna 5 por- 
por ventura nunca ouvi- que diz que Deos o remia 
Ses, nem fe pôde defejar delia : RedemiP fervum 
mais adequada. Depois da tuum agbJio mahgnoí?ot^ 
famoía vitoria contra o queparaDeosremAra Ua- 



Gigante, David que nam 
fó era valente, mas poeta, 
& mufico, compoz,& can- 
tou a Deos^ em acçam de 
graças hum Pfalmo , no 
qual diz com termos ex 



vid diis mãoSi & da efpada 
do Gigante^nAÓ era necef- 
farioque David caí íTe nas 
fuás mãosj nem queelle o 
feriíTe com a efpada . An- 
tes por iíib o remio com 



quifitos,naó que o Senhor redemp^aô mais nobre, U^ 

o livrara, mas que o remi- mais perfeita 5 porque an- 

ra da efpada maligna : Re-^ t^s de poder lançar mao a. 

demiíiifervumtuumdegla^ efpada, jà eílava livre^da 

dw maligno. Porventura fúa efpada , & das fuás 

o Gieante matou,ferio,ou máos,& vencedor do meí- 

tocou a David com a fua mo Gigante Se Deos de- 

efpada ? Taó longe eíleve pois de fendo David o fa. 

diílb, que nem a tirou da rara, ou depois de morto o i 

bainha. Pois fe a efpada refufcitáraj feria hum mo- 

do Golias nâo partio aDa* do de o livrar muito mila- 

viddefde a cabeça até os grofo , mas^ na m feria o^ 

peitos, como coRu mão fer mais nobre, nem o mais 

os golpes dos Gigantes : fe honrado alTim para Deos, 

lhe naó defpedaçou mem • como para David : mas 

bropor membro o corpo porque Deos o prefervoíi • 

cm taó meudos retalhos, àz mortej^: das feridas, & 

queosdéíreacomer,eomo^ do menor toque da efpa- 

eile dizia,às aves : & final* da do Gigante , nam lhe 

mete fenaó chegou a exe- permitindo que a arran- 

cutar em David- nenhuma. caíTe contra elle, por iíTa» 

daqucllas fúrias, & cruel- diz naôfimples mente quo 

dades,pelas quaes lhe cha..- o Imou, fenaó própria, &; 

nomea* 



y 



2^^ ^ SermaUe 

nomeadamente que o re- também anticipadamen- 




miO! RedcnúfttfervÚUmm'^ 
porque eíle modo anrici- 
padonaórôheomais no- 
bre,&:oíTiais perfeito, fe- 
naôonobiliílimo. & per- 
feitiííimodercmir. 

235 Eftcfoy ofuccef. 
íb da batalha de David. 
Mudemos agora a campa- 
nha. Temos" nella naòhu 
Gigante, fcnaó dous Gi- 
gantes, nem hum David, 
lenãodous filhos de Da 



te o Filho da efpada de 
Herodes. Difficultolb em- 
penho por certo,mas ven- 
tiirofamente executado/ 
porque matando, & man- 
chando a efpada do origi- 
nal a tndos os filhos de A- 
dam,fó Maria fícou izen- 
ta do goipej& da mancha : 
& matando a efpada de 
Herodes a todososínno- 
centesde Pelem,fem ne- 
nhum fe lhe poder occul- 



vid. Os dous Gigantes faó tar, fójefu efcapou delia 

o peccado originai, & He- livre, & vivo. Vede agora 

rodes Os dous filhos de fefe correípondem bem o 

DavidíaoMaria, &Jefu. myílerio da Conceição 

Am bos os Gigantes eítaó com o do delkrro. O Fi- 



poderofamente armados, 
& ambos com efpadas,que 
poriíTofechamaó malig- 
nas , porquea ninguém 
perdoaô, a todos m.ataõ. 
A efpada do original ma- 
ta a alma, a efpada deHe- 
. rodes mata o corpo: & en- 
tre o perigo quafi inevitá- 
vel delias duas mortes fe 
empenharão reciproca- 
mente a Máy, & o Fiihoio 
Filho a remir anticipada- 
mente a Máy da efpada do 
original, &aMáy a remir 



lho na Conceição Rtdép- 
tordaMây, porque a re- 
mio da efpada do original; 
a Mãy no defterro Re- 
demptora do Filho , por- 
que o remio da efpada de 
Herodes : o Filho na Con- 
ceição empenhando a 
Mãynamayor divida; a 
Máy no delkrjo defem- 
penhandofe delia , & pa- 
gando-a naõ fo com igual^ 
mas com mayor preço. 



5. IV. 



:;■/' 



Noffa Senhora da Conceiça o. ^ 69 

mio na Conceição , foy a 

^. XV. vida erpiritual , & a vida 

doFilho,que a Mãy pre- 



gue também o 



Em eílou vendo, fervou, & remio no defter- 
ro,he a vida corporal :& a 
vida efpiritual he tanto 
mais nobre , & de tanto 
mayorpreçoquea corpQ-> 
ral, quanto vai da alma ao 
corpo. Abfolutamente, & 
falládode fogeitos iguaes, 
aílim he, que a vida efpiri- ; 
tuaihe muito mais nobre U 
& de muito mais excelléil 
te valor, que a vida cor- : 
poral : mas no noíTo caio a 
vida corporal, que a Se- 
nhora remio, & ialvou das 
m aos de Herodes, foy a 
vida corporal dê Ghrifto, 
aqualvidi,pofto que cor- 
poral,por fer vida deDeos, 
excede infinitamente à vi- 
da efpiritual nao fô da 
mefma Virgem Maria , íe- 
naó de todas as puras crea- 
turas poíliveis. 

238 Notável coufa he 
que no dia do Juízo avcn- 
dodedar.Chriílo Senhor 
noíTo a Bemaventurança 
em premio das obras de" 
mifericordia, fó nomes as 
corporaes , & dascípin- 
tuaís 



nieu dílcurfo fe tem em 
penhado,& individadocó 
os doutos em alguas fup- 
pofiçoensque elle foy en- 
volvendo na paridade que 
íígo entre hum, & outro 
myfterioj mas refponden- 
dojcomo agora farei,à dif- 
ficuidade de codas , delias 
fictirà mais provado , & 
manifefto quam adequa- 
damente pagou a Máy no 
feu defterro o que devia 
ao Filho na fua Concei- 
ção. Primeiramente a vi- 
da de que priva o peccado 
original, como diíTemos, 
he a vida da alma: havi- 
da de que Herodes privou 
aos Innocentes , & quiz 
também tirar a Chriílo, 
era a vida do corpo : logo 
fe eu digo que a Senhora 
pagou com húa viidaa di- 
vida da outra ; parece que 
a paga de .nenhum modo 
pôde fer igual à divida: 
porque a vida da Mávjque 
o Filho preíervou , éc re- 





A 



^ 70 Serm ao de 

tuaesnenhua menção fa- queabfoIutamenteFalIan. 

ça. Vinde bemdicos de do, nenhúa proporção té 

meu Padre a gozar a glo- aefmola coma Bem ave- 

Tv^^^°- ff''''^'''^'^y turança, nem a vida cor- 

&dedtfttsmihtmanducarey poral , &temporal dopo- 

fittvi,& dediftis mthi bibe- bre,que delia fe fuílenra na 

;v.,porq eive fome , & me rerr3,có a vida efpiritual À 

át^ts de comer,rive ítá^, & eterna, que ha de gozarf 

& medéftes de beber. He no Ceo. Mas vede o que 

certoque o premio deve diz o Senhor. Não diz, 

ler proporcionado ao me- porque déftes de comer, & 

recimento: o premio da beberão pobre,fenão,por- 



Bem-aventurança,que có- 
íifte na vifta clara de Decs, 
he efpiritual, & eterno, o 
merecimento,que coníiíle 
na efmola com que fe dá 
de comer,& beber ao po- 
bre.he corporal,& tempo- 
ral em fy,5c corporal , & 
temporal no effeito , por- 
que a vida do pobre que 
comeliafefuftentajtambc 



que me áé?íts de comer,8c 
beber a mim : Qiiiadedi/Hs 
tntht mavdfícare^ à- dediftií 
mihi bibere : & como a vida 
corporal,& temporal, que 
fefuftenta,& conferva no 
pobre, por privilegio , 6ç 
exceíTo da divina miferi- 
cordiapaíTa a fer vida de 
ChriftojeíTa vida de Chri- 
ílofuftentâda pela efmo- 



he corporal ,& temporal, la, podo que feja vida cor- 

Que proporção tem Jogo, poral,& temporal, namfò 

nem a efmola que feda ao he igual no preço ávida 

pobre, nem a vida do po- efpiritual,& eterna da Bc- 

bfe,quefe fuftenta com a aventurança , mas como 



efmola, para Deos apagar 
com a Bem-aventurança , 
pois vem a fer pagar a vi- 
da corporal, & temporal 
com a vida efpiricuai , & 
eterna ? Não ha duvida, 



vida de Deos a excede in- 
finitamente. Omefmodi- 
go,& muito mais , & me- 
lhor no noífo cafo ; porque 
a vida corporal do pobre 
que fuílcutou a címola,era 
vida 



Noffa Senhora da Conceição. 2 7 1 

vida de Chrifto fó por deiramente foy' infinito, 



aceitação , & privilegioj 
porém a vida corporal, q 
a Senhora confervou , & 
falvou,era própria, natu- 
ral, & realfnente vida do 
Filho de Deos, &feu. E 



porque foy o fangue der- 
ramado na Cruz, com que 
efpecialmente a remio. 
Comofe diflera a Senho- 
ra: Vòs, meu Filho , para 
me remir do peccado ori- 



como afoberana Virgem ginal copraftefme aquella 

com a anticipada prefer- graça com o preço infinito 

vacao defta vida corporal de voíTo fangue, & da vof- 

de Teu Filho pagou a pre- fa morte : pois eu hei- vos 

fervaçaó tambcm antici- de pagar efta fineza com 

nada da vida efpiritual preço também infinito , 

fua • daqui fe Tegue, que a que he o de voflo mefmo 

pasacomque fatisfezpor fangue^quequiz derramar 

ineyo do feu defterro à di- Herodes,6c da voíTa mef- 

vida que contrahio na ma vida,queeu vos livrei. 



Conceição , naô fó foy 
igual à mefma divida, mas 
a excedeo milhares, & mi- 
lhares de vezes, Sc comex- 
ceíTo de preço, que nem o 



& falvei da tyrannia de 
fuás mãos. Vos dèftes o 
preço,& eu guardey-Oique 
naó foy menos que darvo- 
lo-,porqfeeu ò naó guar- 



mefmo Deos o pode redu - dára, nao o podereis vos 
zira numero, porque foy dar quando o dèiles. Etaõ 



infinitamente mayor 

229 Competio a Se- 
nhora neíla fatisfaçaó c6 
feu Filho, naò fó em lhe 
pagar anticipadamente a 



infinito foy quando o dé- 
íles por mim na minha 
Conceição, como quando 
eu volo guardei cô o meu 
deílerro. Feche-nos todo 



graça recebida na Concei- efte difcurfo Hugo Car- 
çaó, que foy de preço po- dealem próprio, ôcverda- 
íloquefingu]arfiaico,mas deirofentido , poílo que 
pagandolhe o preço da com palavras menos cie- 
mama graça, que verda- gantes. Falia do preço de 

nof- 




km 



Pi.] 




2/2 

noflaRedcmpçao, a qu;:! 
David chama copiofa, 
Coftofd apud eum Rcíicwp' 
■ fiOyScdíz aílim ; Copio J a di- 
citur Redemptio , quia pre 



SermaÕde' 

CO ao beneficio da graça 
recebida, mas também in- 
íimtamence quáro ao pre- 
ço deIla,pois o preço foy a 
vida do mefmo Chriílo^ 



tiumjufficiens fuit ad Re- agora remida, para depois 
demptíonem niille mtllium íerredemptora 



-mundorum. Cum enim Jit 
Chriflus pretium nojtnim^ 
■ qui eft verus T>eusy S' verus 
homo^ in hífinitum excedit 
rem redemptam. Chama 
David copioía a Redem p- 
çaó, porque o preço delia 
foyfufficientearemir mil 
milhares de mundos. E a 
razaó deíla fufficiencia 
^fem numero, nem medida 
< he j porque o preço da 
^niefmaRedempçaó foy a 
-vidadeDeos humanado, 
-que excede infinitamente 
«'todas as couíàs remidas. E 
comoeíla meíma vida de 
Deos foy a que a Senhora 
remio,&falvou das mãos 
de Herodes por meyo do 
feu deílerro , bem prova 



240 A Segunda diffi- 
Jl\ culdade que re- 
pugna, ou a fegú da repug- 
nância que difíiculta fer a 
paga da Mãy no deílerro 
Jgual a divida do Filho na 
Cóceição, parece taóma- 
nifeila,& palpável, que fc 
vè com os olhos, & fetoca 
com as mãos, PorqChri- 
ílo remio a fua Máy dò 
peccado original morren- 
do na Cruz por ella, & a 
Senhora remio, & falvou a 
feu Filbo da efpada de 
Herodes, naó morrendo, 
fenaó deíl-crrandofe fó- 
rnente. Logo tanto faltou 



do,&demoítrado fica,que apaga para fer igual àdi 
a divida contrabidaj na vida, quanto falta ao de- 

ílerro para fer morte. Có- 
cedo que aílim he, mas di- 
go que pai a o deílerro fer 
•morte, naihúa coufa lhe 
fal- 



Conceiçaó , em que feu 
Filho a remio do peccado, 
naô fó a pagou a Mãy fu- 
perabundantemente quã- 



'TT^ir 



Noffa Senhora 
f^lta. O defterrarfe been- 
íerrarfe,& íe ha algúa dif- 
ferença entre a morcc,& o 
defterro, he que o defter- 
ronaófò he morte , fenaó 
mortCj&fepúltura. A mor- 
te mata, mas naó fepulta/ 
& fendo aílim que para fer 
morto, & fepultado nam 
baila fò a morte , para fer 
morto, &fepulrado baila 
fòo defterro. Naô pôde 
negar efta igualdade, ou 
eíleexceíTo da paga o meí^ 
moacrcdor da divida da 
Conceição» que heChri- 
íto, porque tudo quanto 
tenho dito do c^efterro fòó 
palavras tiradas da fua 
própria boca em quanto 
Deos. Ouvia mayor ,& 
mais literal prova defte 
que parece,6c naó hc enea- 
•recimehto. 

241 Levou Deosro 
Profeta Ezechiel a hum 
campo cuberto todo de 
oíTos mirrados,& fecos, & 
era o campo taó grande, 
iquc náo chegando a esfera 
-dos olhos aonde fua lar- 
gueza fe eftendia, foy ne^ 
vceíTario q o mefmo Deos 
iho foíTe moUraiido por 
^ '\ Tom/S, 



^aConceiçad. iy§ 

partes : Et circumdúxitme '^^^^^ 
fereaingyro : erant autein^l^^ 
multa valde. Sabes Eze- 
chiel, diz o Senhor, para 
quetemoftrei efta multi- 
dão de oífos ? he para que 
lhes pregues como Prega- 
dor, & lhes annúcies como 
Profeta o que ainda hao 
de fer.Felío aílim o Prega- 
dor Profeta dizendo , oit 
bradado a todos deíla ma- 
neira : Offà árida audite 
ver bum T^omini. Hac dicit 
T>ominus Deíis ojjibus bis i 
Ecce egoifitromittam in vos 
fftritum^Ò' vivetis. Oífós 
fecos, ouvi á palavra de 
Deos, A todos eftes oííbs 
me manda dizer Deosjqúc 
lhe ha de introduzir outra 
vez o efpiritOí& que todos 
haô de viver. Pregado ifto 
em geral , naó pouco ad- 
mirado Ezechiel do que 
diziajôc naó entendia, paf- 
fou a referir em* particular 
o que Deos pàrté por par- 
te lhe tinha ordenado , éc 
aocompaílb dâs palavra^ 
fe hia feguindo fubitamic- 
te com mayor admiraçam 
o eíFeito delias. A pri mel- 
f a coufa que fe vio , & éà^ 




^!i I H^ii'* 



^74 S: 

vionaquellc immenfo au- 
ditorio, foy hum grande 
reboliço, movendofe to- 
dos os oílbs, & indo cada 
humbufcar a juntura dos 
outros do mefmo corpo : 
depois de juntos aparecé- 
mó os nervos, que os ata- 
rão : depois de atados, fé- 
guio-reacarne,que osen- 
cheo:6c depois de cheios 
eílendeorfe por cima a 
pelle, que os veftio. Mas 
poftoquc as eftatuas dos 
corpos por fora formadas 
em todos os membros , & 
por dentro organizadas 
com tudo o que pedia a ar- 
Hionia de cada qual , efta- 
vaó perfeitas,elias com tu- 
dò,como verdadeiramen- 
te mortas, 6c infenfiveisjde 
nenhum modo fe rooviaó. 
Entaô diíTe Deos ao Pro- 
feta, que de todas as quar 
iro partes do mundo cha- 
maíTeo efpirito, para que 
fe introduziíre,& animafle 
aquelles cadáveres , & no 
mefmo ponto em que o ef- 
pirito fe introduzio nei- 
ies, todos fe erguerão vi- 
vos,& fe puzeraó em pè , 
fozendo hum exercito m^ 



numerável: Et hg rtfusefl 
ineafpiritus , òvixerunt^ 
ftetertmtqs fuper pedes fnoi 
exerci tus granais nimh 
vdde. líloheoquevioE' 
zechieKnaõ fabendo fe o 
que fignifícava aquella taó 
extraordinária viíaõ, era 
coufapaíTadajOa futura: & 
verdadeiraméte ainda era 
maisi porque continha o 
paírado,o futuro, & tam- 
bem^oprefence. 

24.2 Êmfim depois de 
todo aquelle apparato de 
circunftancias raó varias, 
&-, portcitofis, declarou 
Deos a Ezechiel o que íig- 
nifícavaó,&:dííre:/^^f í7/^ 
univerja domiis Ifrael eft : 
EftésoíTosíaó todos os fi- 
lhos de Ifrael, que hoje ef- 
taó defterrados em Baby- 
loniacomtigo. Admirável 
cafo3& feo mefmo Deos o 
naódiíTera, incrível í Os 
filhos de Ifrael em Babylo- 
niaeftavaó vivos. Pois fe 
eftaváo vivos, como os re- 
prefenta Deos ao Profeta 
em oíTos defcarnados , & 
fecos? Se efta vaó vi vos,co* 
mo ainda depois de verti- 
dos de carne , & pelle, 1 hes 
char 



ílojfa Senhora 
liáma o ttiefmo Deos 
nortos, Injuffla fiiper inter- 
eãos iftos ? os mefmos ho- 
nens mortos,& vivos jun- 
amente^Sim. Porque na- 
[uelletempo, & naquelle 
Ligar todos os filhos de If- 
ael eftavão defterrados, 
;codefterro5 &a morte, 
)ofl:o que aos olhos hu- 
nanospareçaó coufas di- 
rerfas, no juizo,>Sc eftima- 
•aó de Deos faó a mefma 
zoufa. O defterro he co- 
mo a morte, & a morte he 
:omo o defterro : & fe al- 
^m excede ao outro na 
tniferia, não he a morte a© 
defterro, fenão o defterro 
1 morte •, porque feo de- 
ftcrrarfeda pátria he mor- 
rer, o viver no defterro he 
cnterrarfe. Por iíTo o Orá- 
culo divino húa vez lhes 
chamou cadáveres, & ou- 
tra vez oíTos fecos : cadá- 
veres como mortos, &OÍ" 
fos fecos como Tepultados. 
Não he comento meu, ou 
de algum Expolitor hu- 
manojfcnáo declaração àa 
mcí mo Deos fallando com 
os mefmos defterrados. 
Ecce ego aderiam túmulos 



iaCoficeiçaÕ. 77 f 

njeftrosià' educam 'Vòsdefe* 
pulchris veflfis fopulus 
meus^Ò' inducam vosín ter^ 
ram Ifrael. Confolai-vos 
Povo meu , filhos de If- 
rael (^ diz Deos) porq ain- 
da que nefte defterro' de 
Babylonia cftais mortos, 
& íèpultados,eu abrirei os 
voflbs túmulos, & vos dc- 
fentcrrarei das vofías fc-^ 
pulturas, &VOS reftituirei 
à voflfa pátria rcfufcitados, 
& vivos : Cum dederoffiri- 
tummeuminmbis , é' ^^*- 
xeritis. 

243 De maneira, que 
por teftemunho irrefrâga- 
vel,& oráculo infallivel da 
fuprema verdade , o per- 
der a pátria he morrer , o 
morrer no defterro he fe* 
pultura,& o tornar pao a 
pátria refurrei^aó. Nin- 
guém argua logo , nem fc 
atreva aaffirmar, que na 
circunftancia de morrer 
naófoy apagada Senhora; 
igual à divida. Aíites íc*iy 
gondoo rigor da palavri'^ 
divina, devemos todos có^ 
fcftar,que foy muito àven- 
tajada na duração i porque 
a fepukura do Filho mor- 
S ij t@ 







í?^ Sermão ie 

toefcaçainenee chegou a arepoíla. Quâtidoo Ft 
tresdias:&a fepukurada Ihomorreo na Cruz, para 
May também morta, por-, falvar, & livrar à Máy do 
que defterra4a3 durou fete peccado original, morreo 
annos inteiros .; verifican- elJe fójôc a Miy náo • quá- 
dofenofeu defterrodoE- doamermaMãyíedeller. 
gypto, o qqeDeps diíTe . rOuao Egypto.parafalvar, 
aosdefterradosdeBabylo.. &- livrar oFiJhodatyran- 
ma : Apertam túmulos ve- nia de Herodes, naó fó fe 
'^Jffua^ '^^^ ^r.fi'. deíterrou a Máy , fenam.. 

também oJFilho : logo em 

Iiur!i,.& outro modo de 

_. . falvarouve grande difFe- i 



pulchris vejirisy 



JL guem a verá tam 



rença> porque o preço da 
Cruz todo foyà cufta do 
Frlho,& naoda Máy, & o 



incrédulo, que depois de preço do defterro, nam fó 
ouviroqueatèosoífos fc- , foyàcuftada Máy, fenaó 
cos ouvirão , duvide aÇ daMáy,&iuntamente do 

Igualdade da correfpon- Filho. A Jim parece, mas 

d.encia,com quca Máy li- naó foy aíTim.A vcntagem 

vrandoao Filho da morte docufto, fe a ouve , toda. 

pormeyodofeu deílerro, foy da parte da M|y, & do 

pagou o que deda ao mef- defterro, &: naõ da parte 

mo Filho em aprefervar^ dqFilho,&daCruz. 
Sclivrar por meyo tam- i^f A primeira raza6 

bemdamortenafuaCon- defta repofta he: porque 

ceiçaó. Mas deíla mefma muito mais acompanhou 

igualdade aíTim provada, a Máy ao Filho nas dores 

& concedida refulta ou- da Cruz, do queo Filho à ' 

tranova objecção, a que Mãynos fentimentos do 

podemos chamar a tercei- defterro. Quem poderá 

ra difficuldade , & parece negar, que muito mais pa- 

^-^5.Çe^. i»uito diíiiculto- decco a Senhora ao pè da 



f 3 



Crr r 



No ff a Senhora da Conceição. ^77 

Cruz à morte do Filho,do fentimento das coufas que 



coftumão ter os mininosn.Tí..}. 
naquell a idade. lílo fe en- p.^ 9; 
tende não das ciências ío-vaO). in 
brenaturaes com que co-,^^p^"^^ 
nhecia tudo, mas da cien- d íp, ff. 



que podia padecer o Filho 
nos braços da May o de- 
ílerro de ambos ? Eftando 
em pé junto à Cruz tudo o 

que padecia o Filho no , 

corpo, padecia a Máy na cia natural acquifita , q he 
alma E deixados os enca- a que natural mente mflue 
recimentosnaófò dacon- nos ados do fentimento, 
formidade reciproca, mas E daqui fe fegue,queo {o- 
da identidade deíle pade- berano Mmino nao fentio 
cer, que confiderão, & ce- o feu defterro , nem o da 
lebráo os Santos 5 o que Máy,porque o não conhe- 
não admite duvida he a fé cia. AmbosfahiaÓdeNa. 
do que profetizouSimeáo, zareth,& perdiaó a pátria, 
Et tuam ipjius animam per^ mas o Minino nem conhc- 
tranfibitgladius : & fe os cia a pátria, nem a perda. 
fios da mefma efpada tref- E porque o conhecimento 
paíravão o coração deam- dos males he a medida do 
bos,vede fe o preço da Re- fentimento dellesj efta foy 
dempçãofe pagou fòà cu- a manifeíVa,6cfumraadif- 
fta do 'Filho ? Por iíTo a 
Theologia a boca cheia 
não duvida conceder à 
Mãy o titulo deCorre- 
demptora. Mas p a (Temos 
do Calvário ao defterro. 
Chrifto Redemptor nof- 
fo, como por amor de nos 
naó fò fe quiz fazer home , 
fenão também minino, na 
idade da infância em que 
fuccedeo o defterro , fò ti- 
nha o conhecimento , &c 
Tom. 8. 



ferença da Máy no fenti- 
mento das penas do Cal- 
vário. E jà pôde fer,que ef- 
te foíle o myfterio, cõ que 
a Senhora junto à Cruzfc 
chama Mãy,& mulher, & 
o Minino no defterro fó fe 
chama Minino, Sc naõ Fi- 
lho. A Senhora junto à 
Cruz Mãy,6c mulher: Sta^ 
batjuxta Crucem lefu ma* 
terejus : Muller ^ecce fiUus 
tiius\ 6c o Mini^ao node- 
S iij llerro. 



4 



I 



* 7 5 Sermão 

íierro, fò Minino , & nam 
Filho: Tollepuerumiér ma- 
tremejus. E porque > Por- 
que a Senhora na Cruz 
fentio as penas do Filho, 
como Mãy , pelo aíFe^o 
do Tangue, & como mu- 
lher,pelo conhecimento , 
& reflexoens da idade: 
porem o Miniao no de- 
fterro, nem como Filho 
fencia a peregrinaçam da 
Máy,nem como Minino 
afua, porque nem huma, 
nem outra conhecia. Eíla 
he a primeira razão, ou re- 
poíla da noíTa duvida, nao 
menos calificada que com 
a authoridade do fapien- 
riilimoAbulenre. 

21,6 Agora direi eu a 
minha. Digo que o preço 
da Redempçaó,com quea 
Senhora por meyo do feu 
deílerroremic&Tilvou o 
Filho das máos de Hero- 
des, todo Foy à cuílada 
mefma Mãy, & nada do 
Fíího; porque íò a Máy 
foy a deaerrad;i,í$c o Fil ho 
náo. Mas como pode ii\o 
Ter, fea mcfítia Mãy par- 
tindo, '<- caminhando para 
odellerro levou o Filho 



de 



em fcus braços ? Por iíTo 
mefmo. A Senhora faindo 
de Nazarcth deílerrouíe; 
porque Nazarech era a fua 
terra,&a fua pátria : po- 
rem o Filho fendo levado 
nos braços da Senhora,naó 
fe defterrou j porque a ter- 
ra, & pátria do Filho de 
Deos, & da Virgem, he a 
mefma Virgem de quem 
naceo. Averà quem nos 
diga,&: prove ifto ? Sim, 
<Sí naô menos que o pay,ou 
avo deambos, D.ivid.^c^-Píai 
nedixijli T>omine ferram ^^ 
tuam. Vòs Senhor (" diz 
David Paliando c6 Deos ) 
fizeíles bemdita a voíla 
terra. Toda eíia terra, em 
quevivemos,he de Deos, 
mas depois dopeccadode 
Adaò naó i e terra bemdi- 
ta, fen a 6 maldita: Maledi^ 
ãaterra hl opere tua Que 
terra logo he eíla béá{Z2y 
aquém David chama ter- 
ra deDeos? Heaquella,a 
quem álí^ç o Anjo : Bene- ^^^ 
diÚa tu in mulierihus •, &■ a 
q u e m d i n e 1 1 a b e 1 : Be nedi. 
^tatinrittTmulierts^ ^ bc- 
nediãnsfrucíus vêtris tui, 
£ porque razaó a bemdita 
entre 




y-<íy.'A- 



Nojfa Senhora da C(mceiçav. ^79 

entre todas as mulheres , ambos foraÓ deílerrados, 



que hea Virgem Mariajfc 
chama terra de Deos, Ttr- 
ram tuam ? Porque depois 
que Deos naceonella, & 
delia, ella hea fua terra, & 
a fua pátria, Terram tuam^ 
ídeftBeatam P'irginemyú\z 



nòs que fomos filhos de 
ambos, porque avemos de 
fer os deílerrados filhos de 
Eva,&naòos deílerrados 
filhos de Adam ? Porque 
fallaria muito errada , êc 
muito impropriamente 



Hueode Santo Charo. E quem doutro medo nos 

como a bemdita , & bem- chamaíTe.He verdade,que 

ditiílima Virí^em era a ter- Adam,& Eva ambos foraa 

ra,& pátria de feu Filho •, lançados do Paraifo^mas a 

neíla jornada do Egypto defterrada fó foyEva,A. 

a Máy foy a defterrada >& dam naò. E porque ^ i or- 

oFilhonaô. A Mãyade- que Eva foy criada no Pa- 

fterrada, porque deixou a raifo. Adam naõ, fenam 

fua terra, que era Naza- fora delle, E como Eva 

reth: mas o Filho de ne- foy criada no Paraifo,qua- 

nhum modo defterrado» do Deos a lançou do Fa- 

porque levava a fua terra raifo^entaóverdadeirame- 

configo,ouafuaterraole. te foy defterrada : & por 

v2iV2i2i tWQ^TirramUiam. ifíbnòs propriamente ío- 

24.7 Naó feife repara- mos os defterradcs filhos 

ftes bem em hua coufa , q de Eva. Pelo contrario A- 

cada dia repetimos, & he dam , quando foy lançado 

chamamos a Igreja Exu- do Paraifojtaó fora efteve 



lesfilij Ev^'>os defterrados 
filhos de E^^a. Nôs naò fó 
fomos filhos de Eva,fenaó 
de Eva, Sz de Adam:& naó 
fó Eva foy defterrada do 
Paraifo, fenaó também A- 
dam , & juntamente com 



deferdefterrado , que en- 
tão he que tornou para a 
fua terra, como o mefmo 
Deos lhe diífe: Revertatur 
in terram de qua fumftus 
eJíiTorne para a terra de 
que foy formado. Naò pò- 



cila Pois fe o Pay,^a Máy de a ver hiftoria , nem pro 
• fecia 




%'i 





J 






2^9 SermaVde 

fecia mais própria do nof- objecçoens, mas converti- 



focafo. A terra de que foy 
formada a humanidade 
do fegundo Adam Chri- 
ftojfoy a terra bemdita , & 



das toaab- em ver.ragens> 
bem provada parece que 
fica a verdade do noíToaf- 
fumpto, & quamcompri- 



virgmal da fempre Virge da,& fuperabundantemé- 

Maria : Terra dequafump- te pagou a Virgem Senho- 

tus eft. Pois aílim como ranoífapor meyo do feu 

fendo lançados doParaifo defterro as finezas quede- 

Adam,&:£va,Eva fòfoy via ao Filho no fingular 



a defterrada, porque fahio 
dafuapatria,& Adaónam 
foy deílerrado,porque in- 
do para a terra de que fora 
formado , foy para a fua 
terra ; aífim na jornada do 
Egypto ,a Máy,& o Fi- 
lho ambos fairaódeNaza 



privilegio da fua puriíli- 
ma Conceição. E fe der- 
mos hum paíTo adiante fo- 
breefte mefmo fundamé- 
to; com verdade naó me- 
nos evidente podemos in- 
ferir, que nam fó ficou a 
divida, deq eraacredor o 



reth,masfó a Máy como Filho,paga , & fatisfeita. 



fegundaEvafoy deílerra 
da,6í o Filho como fegun- 
do Adam naó : porque a 
Máy deixou a terra em q 
tinha nacido,&o Filho le- 



mas o mefmo Filho nova- 
mente individado, & do- 
bradamente devedor à 
Máy. Com elegante apo- 
ílrofediíTeS. Methodio à 



vava configo, ou era leva- Virgem Maria, que deve 
do da terra donde nacéra : do todos a Deos tudo quá- 



Terram de qiia fumptus eft , 

5. VIL 

248 J3 Efpôdidas por 

IX G^^ modo as 

difficulaades , 6f nam fó 

fatiifeitas, & desfeitas a^j 



totem,fóellatem fempre 
por devedor ao mefmaj 
Deos: Enge^ qua^D^n de\ 
bit orem f, mpcr habes. A ra,! 
zaô natural deite dico hç] 
fundada naquella certal 
FiloíófJajCom que diífc A- 
nilotclcs , que aos pay§ 
nin' 




•..T!T^(nr?T>- 



Nofa Senhora da 
ninguê pôde pagar o que 
deve, porque lhe devemos 
o fer,&: a vida. E daqui fe 
fegue, que pelo beneficio , 
&efFeico do deílerro fo- 
bre o da iincarnaçaó,ficou 
o Filho de Deos,& da Vir- 
gem duas vezes obrigado 
a íua Máy , 6c dobradame- 
te devedor feu , como di- 
zia : porque o fer, & a vida 
que hua vez lhe tinha da- 
do pela Encarnação j li- 
vrando- o por meyodofeu 
deílerro das mãos de He- 
rodes, lha tornou a dar ou- 
tra vez, como fe outra vez 
o gerara. 

-- 249 Prove o Pay o que 
dizemos da Máy. Palian- 
do o Eterno Padre com o 
mefmo Filho feu, & da 
Virgem no Pfalmo fegun- 
do, diz que he feu Filho , 
& que o gerou hoje : Filius 
meus es tUy ego hodie genui 
te. Apalavra,hoje, fignifi- 
ca dia determinado^Sc naó 
ha duvida, que falia do dia 
da Encarnação, porque o 
mefmo Verba, que o Pa- 
dre tinha gerado ab eter- 
no em quanto Deos , na- 
quellediaogeroa tempo- 



CofJcncaõ. 281 

rãlmente em quanto ho- 
mem. Eíiftofe confirma 
claramente de tudo o que 
o mefmoPadre contini^iaa 
dizer no mefmo Pfalmo. 
Mas naó pára aqui a figni- 
ficaçaó da mefma palavra, 
hoje-,porqueS.Ambrofio, 
S. Hilário, S.JoaôChry. 
foftomo, & outros graves 
Expofitores dizem , que 
namfó fignifica determi- 
nadamente o dia da En. 
carnação , fenao também 
o da Refurreiçaó. Tem 
por fy o Texto do Apofto- 
lo S.Paulo, o qual depois 
de referir as niefmas pala- 
vras, Ego hodie genui te , 
acrecêta,que quando Deos 
tornou a introduzir a feu 
Filho no mundo, mandou 
atodos os Anjos , que o 
adoraíTem : Cum iterum in^ 
troducit primogenitum in^^^,_ 
erbemíerr^e^dicit : Etad0'hi.i.r<i 
rent eum omnes Angeli ejus. 
De forte que duas vezes 
introduzio o Eterno Pa- 
dre a íeu Filho neíle mun- 
do,a primeira vez no dia 
da Encarnaçaó,em que lhe 
deo o fer,&: vida de home , 
.&: outra vez no dia da Ke-? 
furrei^aó? 





2 8 



íurreiçaõ.em que depois 
de morco lhe tornou a n'ar 
omeímofer , &a mefma 
vida. E em ambos, &cada 
hum deães dous dias diz o 
mefmo Padre que gerou a 
feu Filho : Ego hodiegenui 
te : porque o livraio da 
morte no dia da Refurrei- 
çaó, foy como fe outra vez 
o gerara. lílo he o que o 
Padre diz de fy , & iíto 
mefmo o que eu digo da 
May. O Pay quando li- 
vrou a feu Filho da : morte 



Sermão de 



vada áo original pelo mef- 
mo Fiiho. ÒPaylivrou-o 
da morte depois de mor- 
Co,aMáy livrou-o antici- 
padamentepara que nam 
morreíTe. Aílim avia defer 
para que a paga do deíler- 
rofe ajuílaíTe em tudo à 
divida da Conceição. 

25-0 Logonaófó Chri- 
fto ficou pago , fenaó de- 
vedor, como eu inferia,6c 
dobradamente devedor. 
Húa vez devedor do ferj 
nnr«.^,r^^ D ^ '--.— ^ cia Vida que lhe deo a 
por meyo da Refurreiçaó, Mãy pela bncarnaçaó, & 
diz queogerou outra vez: outra vez devedJr da 

?i r ^^',1^'''"" ^."'^^ mefmavida,que lhe fal- 

vez a feu Filho , quando o vou,& remio pelo deíler- 

hvrou da morte por meyo ro. S. Bernardo confide- 

da Refurreiçaó , quem ne- rando que Deos o criou, 

garaque também a Máy & que Deos o remio , con- 



I 



eerou outra vez ao mefmo 
Filho, quandooiivrou da 
morte por meyo do feu 
defterro ? Naó ha duvida, 
queaíHmo Pay , como a 
Máygeráraó ícgundavez 
ao mefmo Filho } porem a 



feífa que duas vezes fe de- 
ve a fy mefmo,& duas ve- s.Bei 
zes todo a Deos : Si totum ""f 
medebeopromefaão^ qutd'^l^^c 
addamjampro me refeôlo > ^^^''' 
Jà o tinha dito antes S. 

,,. 'I Am brofio, convencido da 

May com mayor proprie- mefma confideraçaó, com 
dadc&mayorventagemj que também nos convcn- 
porqiienaófóohvrouco- ce. Ergo redemptus àT>o- , , 
moMãy,mas como Mãy mino.fervns es, quicreatusit:, 
antiçipadamente prefer- es^ervus esyqmred^mptusl!^^,, 

esi 




(WtviU- 



NoITa Senhora da Conceiça S. ^ ^ ^ -^ 

es-EtquaJtdommofervitu- quelhe devia na Concct- 

umdts,& quafi Redemp. çaô. Mas nao fo o indivi.- 

:" Cdado,i/em.dopo'r àou aelle/enaôta^be^m a 

Deos,fois de Deos,porque todos nos E porque/- for- 

vos c ovU fois dÍDeos. que quando por -jo Jo 

porque vós remio : & por feu deílerro foy Redemp- 

^ftes dous títulos vos ^e- tora do Redemptor , foy 

veis duas vezes a Deos, também Rederoptora de 



húa vez como Criador, & 
outra como Redemptor. 
O Virgem gloriofiílima 



todo o género humano. 
Fundafe efta propofiçaõ 
em hua Theologia certa , 



doDefterro, fempre glo- que melhor que todos de^^ 

riofa acredora de voíTo Fi- ciar .u S.Pedro Chryfolo. 

lho , masdobradamente goiChnJlus totamcauíam 

quando defterrada. Tudo nojir^faítitts occiderahliíe< 

o que os homens fomos parvuhmpermtfijfetocadt, 

obrigados a confeíTar que Q^e fe Chriílo morrera 

devemos a Deos, he obri- neita idade em que Hero- 

eado o mefmo Deos a cÓ- des o queria matar , junta^ 

feíTar que vos deve a vôs : mente pereceria a Redep- 

na Encarnação devedor çaò do mundo, & alalva- 

voao, porque o criaíles, çaò do género humano, 

nodefterro outra vez de- i^fiimhejOu ammíeriaj 

vedor voíTo, porque o re- porque ainda que a morte 

miftesinaEncarnaçaóMáy do Filho deDeos em qual^ 

do Criador , no deílerro quer tempo , & em qual- 

Redéptora do Redeptor. quer idade, era preço mais 

que abundantiíTimo para 



5. VIII. 



^51 



AaÍ 



Síim individou 
Mãy de Deos 
a feu Filho , quando lhe 
pagou com o defterro o 



a redempçaó do género 
humano; com todo como 
a SanCiriima Trindade ti- 
nha decretado de nao a- 
ceitar em feu rcfgate fe- 
naò a morte de Cruz , 6c 
tu- 






^«rti*^ 




2^4 Sermão de 

tudo o mais que o Senhor cucou o remédio, com que 



padeceo, fendo os decre- 
tos de Deos immudaveis , 
qualquer deftas condições 
quefaltaíTe , ficava a R.e- 
dempçaó do mundo fru- 
ftrada. E que fez a Virgem 
Maria por meyo do feu 
defterro? No eífcito fal- 
vou a vida do Filho, & na 
caufa falvou a de todos: no 
eíFeitofalvou o Redemp- 
tor, & na caufa falvou a 
Redempçaó,a qualpere- 
ceria,feelleentaô morref- 
fe: Totam caufam noftrafa- 
lutisocciderat. Donde fe 
fegue , queaííim como o 
Fjího lhe deveo a fuare- 
dempçaó,aílím nos lhe de- 
vemos a noíTa : & aílim co- 



nos fete annos da fartura 
fe avia de fazer a preven- 
ção para os outros íç^tçí da 
f-ome, mudoulhe o mefmo 
Faraó o nome, & mandou 
quedalli por diante foífe 
chamado na língua Egyp- 
ciaca,Salvador do mundo: 
Vertit nomen ejuSy ér voca- 
vitetim Itngua Egyptiaca 
Salvatorem mundi, Nam 
reparo na mudança do no- 
me, mas na grandeza delle 
fim, porque ainda que a 
acçaó,&:induílriao mere- 
cia grande,parece que naó 
fceltendiaa tanto, be li- 
vrou dafome aoEgypto, 
chamefe Salvador do E- 
gypto , mas Salvador do 



mopclofeu defterro foy mundo todo-, porque ? A 
a Senhora Redemptora do Efcritura o declara logo, 



Redemptor , aíTim pelo 
mefmo aíto foy Redemp- 
tora também de todo o gé- 
nero humano. 

2^2 No mefmo Egyp- 
to para onde a Senhora 
foy defterrada , temos a 



&hearazaótaó cabal co- 
mo admirável ao noífo 
propoíito : Omnes províUm 
ci£vemebant ad Egyptumy 
ut emet ent efcasy & malum 
fnopͣ temperarent : Foy a 
fometaóuniverfal em to- 



prova. Quando Jofcph de- do o mundo, que todas as 
clarou a ElRcy Faraó o Provincias vinhaó ao E- 
myfterio dos fonhos , & gypco bufcar o remedio; 
naó fó enfinou , mas exc- da vida: & como a preven- 
ção 



1 



i Koffa Senhora 
çaõ de Jòfèph, naó fó pro- 
vco de mantimento aoE- 
gypto, fenaó a todaS' as 
Províncias do muíidoi por 
iflTocom muita ra^aó fe ' 
c^ama,nam fó Salvador 
doEgypto, fenaó do mu- 
do todo. Em quanto li-, 
vrou da fome ao Egypto, 
Salvador do EgyptQ,&: em ^ 
quanta o Egypto livrou 
da fome ao mundo,Salva» 
dor do mundo. Hetaó Te- 
mei han te a confequencia 
de cafo a cafojqquaíi nam 
tem neceffidade de appli^ 
caçaó. Em quanto a Vii:^ 
gem Maria por meyo do 
feudbfterrofalvou a vida, 
do Salvador, foy Salvado- 
ra^do Salvador. Mas em 
quanto davidadomeíiTio 
Salvador naquella idade, 
dependia Gamo de caufao 
íalvarfe, ou naô o género 
humanofrí?/^?;^ cMifamnO" 
firejdutís occideratyfi fi. 
parvidiimpermijtffet occidiy 
naó fó foy Salvadora do 
Salvador/enaó Salvadora 
íi>mbem de todo o género 
humano, E aífim como o 
Filho deveo ao feu de- 
íl^rro A vxd% aíTim o gene 



irr 



daCònceiçaÕ. 
ro humano , que fomos 
nòs, lhe devemos também 

. a falvaçaó. 



^. IX.. 

2 553 r^ Uppofto pois o 
J3 conhecimento (q 
para muitos íerà novo J 
defta grande , & univerfal 
mercê, de que fomos de- 
vedores à Senhora do De- 
ílerro, ou ao defterro da ^ 
Senhora-, reítaporíim(pa- 
ra:.darmos bom, Scprovei- 
tofoíimaoSermaóJfaber . 
o modo com. que podere- 
mos pagar,ou quando me- 
nos agradecer húa divida, . 
que taó particularmente 

, toca a cada hum, como a ^ 

.. todos. E porque o me- 
lhor, & mais agradável 
obfequio que podemos fa- ^ 

. zerà M iy de Deos , &; a 
melhor, &: mais verdadei- 
ra devaçam com que po- ■ 
demos venerar feuá fagra- ^ 
dos myíterios, he a imita- ^ 

. çaó do que .obrou nellesj . 

, digo que o que devemos 
oíferceer à Senhora de- - 
fterrada em memoria do ^ 
. Íe4;ddl;err0i hc f4Z,cr:rv/?a t 
um» 



Ovid. 

lib ».c^ 

Ponto. 



i'B5 

também 

nofioEgypto, 6<o noíTo 

deílcrro, Sz vivermos nel- 

le como deft errados. 

2fj^ Atè os Gentios 
foubéraõ dizer, que para o 
homem de valor todo o 
mundo he pátria : Omne 




Sermão ãe 
deí!e mundo o mosà Senhora do Deiler- 
ro o que devemos ao fea 
com o noíTo? Uv^ç: difere- 
tiíTimaméte Seneca,q que 
tem todo o mundo por pá- 
tria, naó=pôde fer deílerra- 
do ; porque para qualquer 
^, ^ . . : ■ --"- parte do mundo que ole- 
joíumfortipatria eft . & fe vem/empre vay para a fua 
ha naçaó no mundo, para a pátria. Tatrã meam trari- 
qualomeímo mundo feia Jirenonpojfum. Una omntu 
pátria, fomos nòs. O prí- eft, extra hanc nemo proii^ l' 
meiro fundador de Portu- et pateft. In quumciimque t 
gal,&: pay de todos os Por- t erram vento, in meam ve- ^°' 
tuguezes,foy Tubal, que nio.Nulla exilium eft, fed 
qaGváiztrMundanusJrÍQ^ alter apatr ia eft, E como 
mem de^todo o mundo,& todo o mundo para nòs hc 
talí-oyabençaô,ouheran- pátria , como poderemos 
ça que deixou a todos feus pagar à Senhora do De- 
ite rro também com onof- 



filhos : huns na Europa , 
outros na Africa , outros 
na A fia,outrosneíía Ame- 
rica, em fím todos dividi- 
dos nas quatro partes do 
mundo, como Cidadãos 



fodeílerroo benefício, & 
mercê taó grande que nos 
fezcomofcu? 

25-5- Refpódaqfímpo- 
demos,naójàtendoo mu- 



douniverfo: para quene- do todo por pátria, fenaó 

nhum Fortuguez cuide, pordefterro. Quem mais 

que baila para fatisfazer à íabia , & elegantemente 

•obrigaçao,& devaçaó que que todos definio , & divi- 

digo, fó com ellar fora , & dio eíle ponto , foy o ma- 

Jonge de Portugal ; pois yor juizo do feu ícculo 

em qualquer parte do mu- Hugo Vitorino , oqual 

do fita na fua pátria. Que diz aHim; T>elicatus iUe 

remedioiogopara pagar- eft adbuc, cui pátria dulas 

4^ft: 



Noffa Senhora 
eH:fortis jam , cui omne 
filum fatna eft\perfeHus , 
cuimu^^tiis totut exilum 
eft. lUe mundo amarem in- 

xJL Quer áizer : O ho- 
mem mimoro,& fraco fó 
ama,& tem por patna a 
terra em que naceo: o for- 
te,&valeroíb todo o mu- 
do tem por pátria: o per- 
feito, &Chriftaó todo o 
mundo tem por defterro* 
Cada hum dèftes três ap- 
plicáraó variamente ao 
mundo o feu amor: o.pri- 
meirofixou-o, o fegundo 
efpalhou-OjO terceiro ex- 
tingui-o. O primeiro fi- 
xou o, porque o poz em 
hum fó lugar, que hea ter« 
ra onde naceo : o fegundo 
efpalhou o , porque o ef- 
tendeo a qualquer parte 
do mundo: o terceiro. ex- 
tinguio-o, porque nem ai- 
gúa parte, nem todo o mu^ 
do teve por patria,mas to- 
do,& qualquer parte delle 
reputou por defterro. Eílc 
he o perfeito, Ôc naó efl:oi^ 
CO, mas heróico modo de 
viver o homem nefte mu- 
do fempre,6c era qualquer 



dàConceiçaÕ. 2^7" 

parte dblle como deíler- 
rndo. Eeílehe também o 
obícviuio, & corrcfpondê- 
cia,com que imitando a 
Senhora dj Dcíierro de- 
fterrada no Egy pto, pode- 
mos fenao pagar, ao me- 
nos agradecer com o noíTo 
deílerroo ineítimavel be- 
neficio da íalvaçaó do gé- 
nero hum ano, que nos af- 
feguroucDmofeu. 

2^6 Ohque venturofa 
Romaria feria efta do De- 
fterro hoje, & que bem re- 
munerados tornariamos 
deíle ermo,fe todos le- 
vaíTemos húa firme refo- 
luçaõ de viver daqui por 
diante como defterrados : 
conhecendocom viva féj 
que tudo o que he terra,he 
deílerro, ^ío o Ceo noíTa 
verdadeira pátria! Ouça- 
mos a S.Paulo, o qual ar- 
rebatado aoCeojfoy o úni- 
co homem, que vio a pá- 
tria antes de fer morador 
delia. NonhabemushicCi- ^f^^ 
vitatem p^rmanentem ^Jea 
futuram inquirimus : Ne* 
nhum denòstem,ou pôde 
ter na terra Cidade,ou pá- 
tria cerfa, & permanentej 
por» 



MiJ^^^' 



• i^8 Ser 
porque todos imos cami- 
nhando par:^. a futura, que 
lie a pátria do Ceo. h- S. 
Bafilio ameaçando- o com 
odefíerro hum Governa- 

-dordo Emperador Valen- 
tCjEnganalle CrefpondeoJ) 

• íe cuidas que me podes 
defterrar. Porque eu naó 

- reconheço outra patria,fe- 

• naó a do Ceo, & eíle lugar 
cnde agora eílou, & qual- 
quer outro deíie mundo, 
todos para mim íaò de- 

-fterro. Aílim o refere S. 
' Gregório Naziãzeno por 
eílas palavras : Ab omni 
exilij metu tiberfnm : unam 
^mnzum agyiofccns^ ^Jfe pa- 
triam.Taradífum : t erram 
emm quajtomnium cemmU' 
-ne afpicimus natura exiliú : 
.fro pátria lero c ar ens.. ter- 
ra nullo loco circunfcribor. 
Omefmo nome de Pátria 
noseftàenílnando, quefó 
o Ceo o pôde fer. E por- 
que? Porque o nome de 
Pátria he derivado do 
pajTjSc naó da mãy : a terra 
«m que nacemos,hea máy 
<[ue nos cria, o Ceo para 
-que fomos criados, heo 
Jugar do Pay <juç nps dà .o 



rnao de 
fer : & fc a patriá fe deri- 
vara da terra, que he a máy 
q nos cria , aviafe de cha- 
mar Matria, mas chamaíc 
Pátria , porque fe deriva 
do Pay, que nos^deo o fer, 
Ôceílà no Ceo. E fe para 
fermos filhos de tai Pay he 
neceíTario que fò o Cec 
tenhamos por pátria ; af- 
íim para fermos dignos 
fervosdaMãy deílc mef- 
TOo Pay, he neceílario que 
tenhamos toda 2 terra por 
'Egypto,^pordeílerro. ■ 

257 Ohquemalenten- 
^dida he a noíJà vida , que 
mal entendi^ios- os noílbs 
cuidadosi'& qae mal entê- 
'dida a noíTa pouca fé , & o 
noíTo pouco entendimen- 
to! A terra,que he hum de- 
ílerrocheyode tantos tra- 
balhos, de tantas miferias, 
de tantas defgraças , de tá- 
tos defgoíles, onde não ha 
hum dia, nem huma hora 
izenta de affli^oens,& mo- 
icílias,eí]a nos leva todo o 
amor , & todos os peníâ- 
métos,comofeforaa ver- 
-dadeira pátria. E o Ceo, 
que he a pátria de todos os 
i^ens, de todas a§ felicida- 



Ko[faSenhoradd Conceição. [ ^> 

des, de todas as delicias, va de defterrar de noffos 
de toda a Bem- aventuran- coraçoens eítà farra,& ce- 
ça,ondenaóha, nem pôde ga idolatria, com quç:;0: 
aver fombra de mal , ou de mundo nos traz^ engana, 
pena,em vez de fer a noífa d^s, para queo adofemo^ 
perpetua raudade,& o nof- & com hum rayo.de yi^ 
fo continuo cuidado , nam fé aliumie a cegueta , ^t 
fó vivemos tam efqueci- ignorância de ni^ílos içnt 
dosdella,&taó pouco de- tendimentos , para que 
feiofos , antes terner^fos . IconHeçamoá, que tudo o 
do dia em que avemos de ,, que.het;çrra,>e,defterí:D|, 
íer chamados, como íe fb- & fò o efco,p^ cjue ft^o| 
ra para o mais trifte def- criados,a noflà verdadei* 
terro. A Virgem defterra- ra,6c bem-aventurada pa- 
da,a cuja prefença quando tria : AdquamnôsferducM 
entrou no Egypto cahi- ^Gmmusjefus, Amen. 
laôtodososidolos > feík- 




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o obid o:jp iEhA TERCEIRA 

B M I N G A 

POST EPIPHANIAM, 
Na Sede Lis boa* 




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<i^^ U\f^í 



Sivis^potes. Matth.8. 




í. I. 

^ Querer,&opo. 
;\/ der , fe dividi- 
1 dos faó nada, 



dos faó tudo. O 
querer fem o poder he fra^ 
CO, o poder fem o querer 
heociofo, & defte modo 
divididos faó nada. Pelo 
contrario o querer com o 
poder ;lie eíficaz , o poder 
comoquererheaítivx», 6c 



defte modo juntos ,& unta- 
dos faó tudo. Aííimconíi*- 
deravao querer, & poder 
de Chrifto , certo do feu 
poder, & duvidofo do fea 
querer, hum homem po- 
bre,& enfermo ,o quri'na 
hiftoria do prefente Kvá- 
gelho poftrado a feus divi- 
nos pès, lhe pedio que o 
remediaíFcdizendo que fe 
quizeíTe, podia ; St visypo- zl 
tes. 

2JP Grande miferiaht 
naó 



V 



'terceira dominga pofl Eftphmlant. }9 i 

naõdigo jà da increduli poíTo : ao quilhe duvMoi* 
dade, mas da eftreiteza do do poder, diílè,' PoíTo , & 
coração humano,quecon^ quero, &:a ambosdefpe- 
feíTandooshoraês a Deos dio fatisfeitos com o re- 
o poder, lhe duvidem da médio que defejavaó. ^ 
vontade : mas ainda he 260 Oh que grande ve- 
mayor raiferia , & ceguei- tura he requerer diante de 
ra, quenaó falte quem acè hum Principeque quer, St 
o poder lhe duvide. Outro pôde ! AíTim feria tambetn 
neceífitadojque também a mayor de todas as deA 
pedio a Chriilo a faude graças efperâr o remédio 
uaõ para fy, mas para hum de algum taó pouco podc^ 
filho, o que diíTe aomef- rofo,que naópoíTa, èc de 
mo Senhor, foy: òiquidpO' taó mà vontade, que nam 
t es, adjuva t/í^j : Se podeis queira. A Augufto Celar 
alguacoufa, ajudai nos. diíTe Marco Tulho pru- 
Ambos eíles homens pro- dente , & elegantemente , 
curarão o remédio, ambos que a natureza, & a fortu^ 



o pedirão, ambos o duvi- 
darão: Scfe bem confide- 
rarmos o que diíTeraó, am- 
bos offendèraò a Chrifto. 
O primeiro falloucó pou 



na lhe tinhaó dado , húa ^ 
mayor, & outra a melfeor 
coufà que podiaó, para fa- 
zer bem a muitos: Nec for- 
tuna tua maius quàm ut 



ca,ofegundocom menos, fojjis.necnaturatua melius 

&nenSmmcom inteira fé. quàm ut velis confer^vare 

EquefariaobenigniíTimo quamplurim&s. A mayor 

Senhor, aíTim rogado , & coufaque pôde dar a for^ 

oíFendido.^Huralheduvi- tunaa hum Príncipe, he o 

dou o querer j Si vis: outro poder,&: a melhor que lhe 

lhe duvidou o poder 5 Si pôde dar a natureza, he o 

quid potes ; Sc a a mbos mo- querer, para poderi&'^^ue- 

ftrou que podia, & queria, rer fazer bem a todos. Am- 

Ao que lhe duvidou da bas eílas excellencias de 

vontade, diffc, Quero > & fopremo Senhor- éotícor* 



m^'^ 



«9*^ Sermão dd 

#éráóehiChriftono grão naófónos fervira de doi 



niaisherqico. E fendias 
.ceve aigúâ partea fpnuna, 
n-aó foy a fua , fenaó a nof- 
íà. O poder,êc o querer tu- 
do em Chrillo he nature- 
za como com poíio inefFa- 
yelmentededaas : coma 
Deos todo poderafo , co- 
mohomem todo benévo- 
lo : & hua , & outra coufa 
logrou hoje com inteira 



cumentoparaa re, fenam» 
também de exemplo parai 
a imita: aó -, de todo o lar- 
go Evangelho efcollu lo» 
aquellas duas palavras, Sr 
víSypoteSy Se quereis , po^ 
deis. Mas como o poder, 
& querer íô naquellc fu- 
premo Senhor , que pôde 
quanto quer, faóiguaes}& 
pelo contrario no homem 



experiência aquelle home o poder he pouco , & Vum 
demeyafé,que diÇCQ , o/ tado , 6co quererfempre 



visy potes, A eílas duas pa- 
lavras refpondeo o Senhor 
ço m outras duas. Ao Si visy 
áifíhjFo/o, ao ToUs difíh , 
Matth. Mundare: èt emzmbaslhQ 



infacia vel, 8c ibín limite^ 

como fe poderá na contra» 

riedade deíla diíbordia a- 

charajgú meyodcuniaó? 

_ Reconheço a d.! íiicu Idade: 

cnfmou, que nap íó podi^ mas por ilfo fcrà çjJa toda 

Gomo a fua fé confeíFava, o emprego do meu difcur- 



Totes^ fenaó que também 
queria como a fua efperâ- 
ça duvidava, Si vis. 

261 pç fta maneira de- 
elaroti em húa mefma ac- 
ção Chriílo Senhor noíTo, 
quam alta , & prompta- 
Oiente eflaõ unidos para 
aoíTo rcfoedio na fuaOmr 
nipptencii o poder , 6c na 
ília vontade o querer. E 



ÍQ.SíviSypotes : fobre ef-* 
tas duas palavras coníide-» 
radas variamente porto^ 
dos os modos com que fe 
podem combinar , vere- 
mos como fe ha de ajulhr 
o querer com o poder, & o 
poder com o querer. Hç 
húa das mais importantes 
matérias que fe deve eníl- 
narao mundo , 6c de que 



porque eu quizera, que ef- depende toda a felicida. 



naé 



ferceira^omingãpoftEpiphanlaml 29^ 

fia com íua gx2iC2i.AveMa'j homens, naò entendeis, fiC 
' ' ' conheceis com evidencia, 
que nam podeis fer como 
Deos-, pois como apete- 
ceis o que naó podeis?Por- 
que talhe a cegueira de 
hum entendimento ambi- 
ciofojôc a ambição de hua 
vontade livre. Ha de que- 



i4i 



SE buícarmos com 
verdadeira confi- 
deraçaô a caufa de todas 

asruinas, ôcmales domú- .j -• 

do, acharemos que naó fó: rer mais do que pode, am- 
a principal, íenáo a total, da que conheça que he im- 
Scaumca he naó acaba- polfivel. O poder, ou po- 
deres do homem erao lO" 
bre todos os peixes do 
mar,íobre todas as aves do 
ar,&robre todos os ani- 
mães da terra : o poder,6c 
poderes do Anjo erão fo- 
bre a terra, febre o mar,fo- 
breoar,íobre o fogo ,& 
nãoíóíobre todos os ele- 
mentos, mas também fo- 
bre todos os corpos cek' 
ílesjêí fobre todos os af- 
tros,& ÍQixs movimentos. 



rem os homens de concor- 
dar o feu querer com oíeu 
Y^oátt-.Sivis.potes. A raiz 
defte veneno mortal naci- 
da naó fó na terra , fenam 
também no Ceo, he a in- 
clinação natural, com que 
toda a criatura dotada de 
vontade livre, naó fó ape- 
tece fempre fer mais do 
quehe,fenáo també que- 
rer mais do que pôde. Que 
quizoAnjonoCeo , Ôc q 
quizohomemnoParaifo.^ E porqaindaavia no mu- 
Ambos quizeráo fer como do outro poder major^po- 
Deos. Menos meadmiro ftoqeftefoíTeo de Deosj 



das fuás vontades, que dos 
feus entendimentos. Vem 
càLucifer,vem ca Adam: 
tu Aiijo.&o mais|fabiode 
todos os Anjos: tu home, 
ôc o mais fabio de todos os 
Tom.B. 



nem o Anjo, nem o home 
fe contentarão com poder 
o que podiaó. E que fe fe- 
guio daqui .í* A ruina uni- 
verfal do mundo : a ruina 
da terceira parte dos An- 
Tiij ]os, 




f^-í- Sermão da 

jos,& aruina de todos os que a faifa oílentaçaõ , & 



homens 

1^1 Mas deixados os 
Anjos, que naó faó capa- 
zes de emenda; fallemos 
com os Iiomens,que fc po- 
dem emendar , fe quize- 



vaidadedoquenaòha, né 
he.E quando as defpefas 
de tudo ifto devéraó fair 
do quefobejaíTe nos erá- 
rios, & thefouros Reaesj 
que fera onde fe vem tira- 



' Y ^ ^i^wiwrt winatic vem eira- 

rem. Começando pelos das, & eípremidas todas 

mayores corpos politicos , do fangue, do fuor, & das 

quefaoosReynos,qualhe lagrimas dos vaífallos car- 

a cauía de tantos fe terem rcgados,& confumidoscô 

perdido, de que apenas fe tributos fobre tributos, 

confervaa memoria , & chorando os naturaes ,pa- 

outros fe verem taó arrui- ra que fe alegrem os eftra- 

nados ,& enfraquecidos, nhos, ôcanticipandofe as 

fenaóo appe ti te deforde- exéquias à pátria, por on- 

nado,& cegojde quererem de fe lhe devera procurar a 

osíieys mais do que pó- faudePSalamaôfoyo Rey 

dem? Daqui fefeguem as queem todooíeureynado 

guerras, & a ambição de gozou da mais alta, & fe- 

novas, & temerárias em- gurapazde quantos ouve 

prefas, como as de Mem- dentro , & fora de Ifrael , 

broth: daqui as fabricas masfoy tal a guerra que 

de edifícios rnagnifícos, & elle ^tz à fua mefma Cor- 

infanos,como a Torre de te,&Reynocomosprodi- 

Babel : daqui a prodigali- gioiosefpedaculosdegrã- 

dade de exceíTivas mercês, deza, Ôcmageílade, cuja 

amontoando em hum o fama trazia ajerufalém 

que fe tira a todos , como todas as naçocns do mun- 

as de Aífuero em Aman: do;queomefmoSalamaÓ 

daqui as feílas,&: jogos pu- foyo que deítruío o que 

blicos com apparatos mais tanto enobreceo ,&:exal^ 

monílruofos,que extraor- tou:& naó por outra ra- 

dinanos, fem ^outro íim , zaó, ou defeuo,fenaó por. 

que 



tenelra^omtngã 
<iue fendo mais poderofo 
que todos, fenaò conten- 
tou com o que podia. A 
prata no feu tempo, diz a 
fagradaEfcritura, que era 
tanta emjerufalèm como 
as pedras da rua , &nefte 
mefmo tempo eraó taatos, 
taó multiplicados , & taó 
exceíTivos os tributos,com 
que o gloriofo, & mifera- 
vel Povo íuftentava a fa- 
ma de fer chamado feu hú 
tal Rey i que naó podendo 
fuportarhumpefo taó in- 
toleraveljcom que em to- 
da a vida os opprimio, & 
nem na morte os aliviouj a 
primeira coufa que pedi- 
rão a feu fucceíTor Ro- 
boam,foyafufpenfaó, & 
remédio deílas opreflbés. 
Mas como o íiiho , que fe 
naó contentava com me- 
nos que poder ainda mais 
que feu pay, naó déíTe ou- 
vidos a húa taó juftiíicada 
queixa, rebellados os meí- 
mosvaírallos, Ihenegáraó 
a obediência , & de doze 
Tribus,dequeconftava o 
Reyno , perdeo em hum 
dia os dez, os quaes nem 
nos dias de Roboam , nem 



pofi Eftfhaniam. ^9í 

nos de todos feús defcen- 
dentes fe uni raó, oufogei- 
táraó jà mais à meíma Co- 
ro^- n 1 
264. E fe eíle natural 

appetite de quererem os 
homens fempre mais do 
que podem, nem nafobe- 
rania dos que podem tudo 
fe farta; que fera dahi abai- 
xo defde os mayores en- 
tre os grandes atè os mí- 
nimos entre os pequenos ? 
OOííicial pôde viver co- 
mo Ofíicial,&: quer viver 
como Efcudeiro : o Efcu- 
deiro pôde viver como £f- 
cudeiro,êc quer viver co- 
mo Fidalgo: o Fidalgo po- 
de viver como Fidalgo,6c 
quer viver como Titulo: o 
Titulo pôde viver como 
Titulo,acquervivercomo 
Principe. E que fe fegue 
defte taó defordenado 
querer? O menos he, que 
por quererem o que nam 
podem, venhaó a naó po- 
der o que podiaó. Quan- 
to fóbe violentamente o 
querer para cima , tanto 
decefem querer o poder 
para baixo. Ouvi o que 
agora direi como provér- 
bio. 






y 



c 

f 



??^ ^ Sermão da 

bio Quem quer mais do lo ante njolare tentaverat 

que lhe convém , perde o Jubito ambuUre non pofTei 

que quer,6c o que tem ^i^ ^ qmpennas a(fumpf.rat , 

mao Mago apelhdou hum f lalas amkteret.N^óçl 

dia todo o Povo Romano, contentou Simaó com os 

LT. hT '"'"^ ^'^^ pèsqueDeos, &a nature- 

& verdadeiramente a vi- zalhe tinhaó dado para 

Ita de todos começou a andar, & quiz azas para 

voar Orou porem S. Pe- voar, pois íique privado 

dro^emfe levantar da ter- naó fôdasazas, para que 

ra, & a fua oração derru- naó voe , fenaó também 

boudasnuvens ao Mago dos pès,para que naó ande. 

com tal queda , que defcó- E para que mais? Para que 



juntados,6c quebrados to- 
dos os oífos defde os joe- 
lhos atèospès, totaimen- 
teíicou mhabil para po- 
der dar hum paíTo. Juíto 
caftigo , mas pjirece que 
deíigual a tamanha malda- 
de. £ile Mago, para que o 
feguuTem os judeos , íin- 
giafeMe/TiaSi & para que 
oadoraíTem os Gentios , 
íingiafe Júpiter ; & hum 
delito compoílo de tantos 
delitos taó enormes , tam 
Ímpios, taó facrilegos, & 



eíle exemplo, & defenga- 
no feja hum publico pre- 
gão a Roma , ac a todo o 
mundo , que quem quer 
poder mais do que Ihecó- 
vem, perde o que quer, & o 
que tem. 

265 No Teílamento 
Velho ElRey Balthafar, 
porque quiz mais do que 
podia, Inventus eft mmus l 
habens. E donde veyo eíle ^ 
menos , fenaó daquelle 
mais? Refpexifiís ad am. a 
plíusy&ecce faãum eft mi- ' 



b.así^emos j porque o nam nus, diz o Profeta A^^íieo 

cafngouDeoscomlheti- No Tefta mento Novo o 

rar logo a vida, fenaó com Filho Pródigo, porqueno 

o privar fomente do ufo gaílar,& alardear quiz o 



(■ 



dos pés ? Excelíentemen- 
feS. Máximo, f^tqmpau- 



que naó podia, nem pedia 
o eílado de íilho , veyo a 
oedir 



terceiraVonmgapoJlEplphaniam. 297 

pedir por mifericordia a ter hum dia de Paknoa, 

íbrtuna de criado : Fac me mas ella ha de jquar dez 

<;■ ftcut uniim de mercenarijs annos de Quareíma, his- 

tuls. Quantos vieraÓ a fer- aqui o que vem a nao po- 

vir, porque quizeram fer der os que querem mais 

mais fervidos, ou fervidos do que podem. Com elia 

de mais do q podiaóman- malconfiderada vaidade, 

ter. Se apenas podeis fu- que he o que acqmriíles , 

ftentar hum cavallo com ou o queperdeftes? Perde- 



hum muchilla , porque 
aveis de ter húa carroça 
com oito lacayos ? Hum 
heaífeiçoado à caça , & 
quando os caens andaólu- 
zidios,& anafados,verlhe- 
heis os criados pallidos, & 
mortos à fome. O outro he 



ftes a felicidade de não pe- 
dir, perdeftes a liberdade 
de não dever, perdeftes o 
defcanfo de nam pagar -, & 
o que acquiriíles com o 
quetinheisjôccomo que 
namtinheis , forãoasen- 
vejas dos amigos, as mur- 



nrezado,ou picado de pin- muraçoens dos fezudos, as 

iuras,& quando elle , com perfeguiçoens dos acredo- 

falfo teftemunho ridículo, res,& a defgraça , & mao 

chama aos feus quadros cóccito dos mefmos Frin- 

orisinaes de Ticiano , os cípes, a quem quizcítes U- 

pagens , & os lacayos faó fongear,& fervir ; porque 

verdadeiramête copias de como vos ha de har a lua 

Lazaro. Que direi do que fazenda, quem aflun ve 

para fair hum dia aos tou- queefperdiçaisavoíia? 
ros, & oftentar cincoenta 



lacayos veflidos de tela , 
empenhou o morgado , & 
as comendas por mustos 
annos ? As fortes feriam 
quaesquizaventura, mas 
a peior,& mais certa foy a 
da pobre cafa.ElIe poderia 



^. III. 



266 



MAs ifto paíTe 
embora , por- 
que he dano particular. O 
máoheque^paía reíiaurar 
eftes defmaachos , qw^ 
fem- 








^5>^ Sermão íla 

femprefedevem, & nun- àslansfenaòrabeo nome, 



cafepagaó, quem os eftà 
continuamente pagando 
por vários modos, he o co- 
mum. Ooííicial depenna, 



de que fe ha de veftir, fen- 
do o gallo da fua Aldea/e- 
nam das pennas dos que 
podem menos ? O mercá- 



a cujos rafgos mede o re- te que tomou os aíTentos . 
gimento as regras, & con- ou contratos Reaes de pu- 



ta as letras, fe elle quer ga- 
ftar fem conta, &fem me- 
dida , que ha de fazer/* 
Troca as fuás pennas com 



blico, &fe contratou de 
fecreto com os zeladores 
da fazéda do mefmo Rey, 
de que modo fe ha de foi- 



asdosgavioens,&minho. dar quando fe vè quebra 

tos,&na5 ha ave de rapi- do, fenâo com o foldo , & 

naquetatolevenasunhas. fardas dos miferaveis foi- 

O Letrado , ou Julgador, dados, tornado a comprar 

cujaauthoridadeconííava os jà comprados N'ini. 



antigamente de húa mula 
mal penfada com fua gual- 
drapa preta , fehoje fora 
de cafa ha de fuílentar a li- 



ftros,para queihe fubáo os 
preços, & ajuíte as que- 
bras? Infinita coufa íeria 
fe ouveíTemos de difcorrer 



teira,& dentro as alfayas por todos oscilados aílim 
queihe refpondem , naò da paz, como da guerra. 



bailando os ordenados pa- 
ra a terceira parte do an- 
no , quem ha de fuprir a 
defpefa das outras duas 



com que a fazem cruel à 
Republica os mefmos que 
tinháo obrigação de a de- 
fender. Com razão diíTe 



• — -^.• — >,. . ^^win ííX^dKJ \J1HC 

partes, fcnaó as partes,6c a Séneca , que a riqueza fe 

juftiça?0 que entre fumos faz de muitas pobrezas: 

denobreza,& fidalguia vi- "Diviti^ ex paupertatibus 

veà mercê da fua herdade, fiunt\ porque para enri- 



a qual quando as novida 
des naò mentiaó , fó dava 
para farja no veraó,6c bae- 
ta no inverno,agora que jà 



quecerhum home, fe em 
pobrecem outros , & para 
fe levantar, ou relufcitar 
húa cafa,fe arruináo , & fe- 
pultáo 



terceirO' "Domingapofi Epiphaniam. 2 99 

«nltaÓ muitas. Os empe- midos dos tyrannizados, 
£ do morgado tiraL- cujas ferâõeftastyrannias, 
To governo, o cativeiro fenaó dos que eu vou fal- 



das comendas remilo-haó 
as penfoens , & fe a limita- 
ção dos ordenados nam 
abrange a tanto,eftendela- 
haofem limite os deforde- 
nados.O que naõ pôde pa- 
gar a gineta , pagalo-ha a 
companhiaj o que naó pô- 
de pagar o baftaó, pagalo- 
ha o exercito -, o que nam 
pôde pagar Portugal ,pa- 
galo hao Brafil,pagalo-ha 



lando? Todos querêmais 
do que podem, nenhum fe 
contenta com o neceíTa- 
todos afpiraó aofu- 



rio , . - 

perfluo,&: iílo he o que le 
chama luxo. Luxonapef^ 
foa, luxo no veftido , luxo 
na mefa, luxo na cafa, luxo 
no eftradojuxo nos filhos, 
luxo nos criados , & cria- 
das , & onde naó baila o 
próprio , claro eílà que ou 
aTíricT, p^gXhTrin- por arte, ou por violência 
dia E para que poucos fe ha de roubar o alheyo , 
que querem mais do que que eftas faô mais, ou me- 
podem fejaó flagellos , af- nos defcubertas as tyran- 
folaçaò, & ray os das qua- nias: Luxus ent m tyrami^ 
tro partes do mundo,fe lhe dem. E porque naÕ pareça 
dará licença por efcrito, difficultofo , ou impro- 
para que poíTaÓ quãto qui- prio, que de hua cauía tao 
zerem. branda, & taò deleita vel 

267 Lembrame a efte comooluxo,naçahumef- 
propofito hú apoptegma feito tão duro, & taó cruel 



daquelle famofo Legiíla- 
dor dos Gregos Sólon. Lu- 
xus erit in tyranniãem^ãum 
fanum migrai in comua. 
Qaer dizer a primeira 
parte, que doluxonacerà 
a tyrannia,peílima filha de 



como a tyrannia •, declara 
a primeira parte da fua 
fentença Sólon com a cõ- 
paraçaó da fegunda , que 
verdadeiramente he futi- 
liífima : "Dum f£num mi- 
grai in comua. O pafto CO 






,'..■ .< 



máo pay . E fegundo os ge- que fe regala,& fc engrola 
^ ^ otou- 



o touro , naõ he o 
brando,&para elie taófa- 
bororo,que o come de dia, 
& o torna a recomer de 
noite? Pois eíTe feno na te- 
ftado mefmo bruto he o 
que fe converte naquellas 



Sermão da 

feno puz,ou fupuz, como pri-^^ 
meira pedra deíle taó ini-r 
portantediícurfojôc que 
a caura,& raiz de todos os 
danos particulares, & pu- 
blicos^que padecem as fa- 
mílias, as comunidades, & 



in 



duas pontas duras, fortes, os Reynos , & com que fe 

eftà indo a pique o mun- 
do, henaó acabar oapeti- 
te, aambiçaó, &a ceguei- 
ra humana de tomar as 
medidas ao que pôde , & 
ajufiarofeu quererão feu 
poder : Ji vis^potes. 



& agudas, que faò o 
llrumento,& as armas de 
toda a fu a fereza. Lãçay-o 
no corro, & vereis como 
a todos remete , a todos 
atropella, a huns bota para 
o ar, a outros piza,a outros 
fere, ou mata^ Sc o que me- 
lhor livrou da fua fúria, 
foy deixandolhe a capa 
nas mefmas pontas. Se o 
luxo he o feno , quanto 
mais fe come delle , & fc 
goíta, & fe rumia , tanto 
mayores feràó as tyran- 
nias,& mais feros os eftra- 
gos : ^umf^num migrai in 
comua. Boa matéria fe me 
oíFerec ia agora para fallar 
das durezas taó cruéis, & 
das agudezas taó futis, & 
das armaçoens taó bem ar- 
madas deílas armas daty- 
rannia. Mas o dito bailará 
para que fe entenda a ver- 
dade do fundamento que 



5. IV. 



pAra reduzirmos 



2^8 _^ 

à pratica eífe taó 
neceíTario ajuítamentoj a 
primeira diligencia que 
ha de fazer todo o homem 
prudente de fy para com^ 
figojôc fem paixão , nem 
amorproprio, he medir o 
feu poder. ^///> ex vobis 
"jolens turrim adificare^non 
priusfedens cõputat fump- 
tiís^qui neccjfarijfuntyfiha- 
beat adperjiciendum > Qiie 
homem ha de vós (" diz 
Chrilto^o qual , fe quer 
ediíicar húa torre,naó lan- 
ce 



fercetra^Dommgap 
ce ftas contas primeiro, & 
confidcre muito dev^gnr, 
fc tem cabedal baílãte pa- 
n levar a obra ao cabo? 
Porque do contrario ^^\^' 
guina ( acrecenta o Se- 
nhor ) que depois deter 
Jan ado os aliccíTes, fe nao 
podeíTe continuara íabri- 
€a>& pola em perfeição, fe 
ririaô todos delle, dizen- 
do, Efte homem pode co- 
meçar, masnaó pode aca> 
h2iV\Ne,paJieaqum pojue- 
rit fundamntum.à' nonfQ' 
tutritferficere , omnes íjtir 
)videnti ivcipiant illudere ei^. 
dicentesyqmahk kômvca- 
fit^difiçare, & nonfotíãt 
çonímmnâre. Sc Chnfto 
nefías palavras profeuzá- 
rja da noíía Corte , nam a 
podéra defcrever melhor. 
Jlaroheoediíicio grande 
em Lisboa, que eíleja aca- 
tado^ nem pelos íilbos,& 
netos de feus primeiros 
fundadores . Aílim o no- 
taÓQS Eftrangeiros , aos 
quaes eu ouvi inferir, nam 
feife em louvorjfe eni Mr- 
credito da noíTa naçaó j q 
fcmpre faó mayores os 
noíTos penfamenco5>.que o 



oJlEpiphaníam. loi 

noílb poder. O certo he y 
quede lhe naó tomar as 
medidas arites de comç^- 
çar,encorremos a deíaprpi- 
vaçaÓ5&: rizo de todo o bo 
juizo humano: §uia híc 
homo c£pit adi fie are y&nÕ 
potí0t confiummare. 

2Ó9 Apalavra,fe)6í7^ 
m0i moílra bem que nefte 
primeiro exemplo fallou o 
Senhor dos particularesjôc 
porque não cuidem o^ 
Reyf, que pela eílimaçáp 
detodo poderoíos , ficão 
izentosdeí^a regra; ajun- 
tou logo o mefmo Melire 
divino: A'ut qui^ Rexitu- 
TUS committere bellum aà- 
'verfusalitim Remn^nonfe- 
dt ns prms cogitat ji pojpt 
çumdeccm millibus occíít- 
rere í i^qui cum uiginti mil- 
\ibtis vtnit adje ? Gu que 
Rey ha^que avendo de pe- 
je jar em campanha com 
GUtroRey, não meça pri- 
meiro as forças de ambos 
os exércitos» & coníidere, 
fe fendo o feu meyo por 
mcyo menor , íe poderá 
defender com elle do ini- 
migo? Mui aihea coufa he 
detoda a lazáo , & prudé- 





^02 Sermaõ da 

cia, que cílejáo os Reys bra,&feismilnasde Evo- 



taó mal inteirados do que 
podem, &: do que cem, que 
o mandem perguntar na 
occafiaó aos Tribunaes da 
fua Fazenda. Mas nefta 
parte podem os antigos 
Reys de Portugal fer exé- 
píaratodososdo mundo. 
Tomara poder referir a- 
quitodooteftamentodel- 
Rey D. Sancho o Primei- 
ro, do qual fe vè com ad- 
miração não fó o feu gran- 
de poder, &: riquezas na- 
queile tempo, mas a noti 



ra,&c. AoInfanceD. Pe- 
dro meu fiiho quarenta 
mil maravedis, dosquaes 
oMeftredo Templo tem 
em Tomar vinte mil, & os 
outros vinte o Mcílre ào 
Hofpital em Beluer. Ao 
Infante D. Fernando ou- 
tros quarenta mil, dos que 
eíláo nas Torres de Coi m- 
bra : outros tantos a meu 
neto D Fernando. A mi- 
nha fir a a Rainha D.The- 
refa quarenta mil m a rave- 
disj&duzentos & cincoéta 



Cia prclencial, & exa^riífi- marcos de prata, que eílão 
ma de quanto poíTuía , & em Leyria. E à Infanta D. 
em que géneros, & em que Dulce minha neca quaré- 
lugares, & em quemáos. tamil maravedis, & cento 
Náo deixarei com tudode & cincoenta marcos de 
apontar aigúas verbas do prata, que eíláo em Alço- 
mefmo teítam.ento, pelo baça. Eítes maravedis ti- 
que toca à diílribuicâo do nhao tanto valor naquellc 
dinheiro fómentç,nãofaI- tempo, que no mefmo te- 
landonas doaçoésde Vil- ftaméto deixa ElRey dez 
las, Lugares,& outras ren- mil maravedis para feedi- 
^^s« ficar hum Convento da 
270 Primeiramente Ordem de Cifter , & ou- 
(diz) Maado que meu íi- trosdez mil para fundação 
lho Dom Afíx)níb fucccda de hum Hoípital delepro- 
no meu Reyno , &duzen- fos. Vários vafos de ouro 
tos mil maravedis, que ef. da Cara,&uro Real man- 
íáon^s Torres deCoiíu- daqfe debfoçaó em Cru- 
«"*^^ zesi 



». 



ferceira^DomingapõftEpiphaniam. 5^5 

z:es,&Calices applicados a rentes Torres do Reyno , 

dift^rêres Igrejas. A todas & junto na memoria , 6c 

açCarhedraes,& outras de mentedoRey , para íaber 

fuadevaçaô.Sí a todos os porfymefmo quanto ti- 

MoíVeiros de Religiofos , nha,& o que podia , & por 

ôf a todas as Ordens Mi- iíTo naÓ emprendeo guer- 

litares deixa groffos lega- ra , ou aeçao militar , em 

dos, apontando na mefma que naò foífem tantas as 

forma donde fc haó de ti- vitorias, como as^ em pre- 

rar. E finalmente no do- fas. Oh quito pòde^íem 

Summo Pontifice diz af. oppreíToensdos vaíTallos,, 

fim : De cento & noventa o Príncipe qiie fe mede 

& cinco onças &: meya de com oque pode ! Nao me 

ouro, que tenho nas Tor- pofToablIer, aeniheiulla 

res de Coimbra, fe dem ao neíle paíTo, de referir a ul- 



Senhor Papa cem marcos 
Taóexada, &taó miúda 
noticia tinha aquelle bom 
Rey dos feus theíouros , 
que nem meya onça de 
ouro lhe eícapava da ccn 



tima elaufula dodito teíla- 
mentOy cujas palavras faó 
eílas- Dez mil & duzentos 
maravedis ficaó nas mi- 
nhas Torres de Coimbra^, 
& na minha arca ,, & efte» 



ta: fendo que aquellas on- faó para reítituiçoens dO; 

ças tinhaô mu-ito mayof que indevidamente ouyer 

pezo das que hoje entre tomado^ & oque fobejar,, 

nós tem o mefmo nome, paracativos,&: pobres. De 

pois em menos de duzen- maneiraqueem hú Rey- 

tas onças, como co^fta^ nonovamentelevantado,, 

da mefma verba , cabiaô êí em tempo de tantas 

cem marcos. Deforte que guerras, em que tanto fe 

no mefmo tempo eílava o^ coftuma tomar violenta- 

erário Real junto, & divi- mente a todos j todas as re- 

dido: dividido, por OGca- ílitiiiçoens a que a conci- 

fiaó das guerras interiores encia deite Rcy duvidava 

com os Mouros^ em diíFe- eícrupuiola mente de po- 

dex 





>/" 







50V ãerynei^da 

der eílar obrigado, fe po- appelíoupara ospoíTirew 
diaó íacisflizer com ácz da Omnipotência ; ^P^/r^r, 



mil &: duzentos marave- 
dis, &robcjar ainda para 
cativos, &: pobres. Tanto 
pôde, outra vez, fó com o 
íeu,&fem o alheio, quem 
íerabc,^ quer medir com 
o que pó de. 

271 Masquediràóàvi- 
ftadeíle exemplo os que 



lipofjibile eJL Pois fe ifto 
meímoiíeo que vos per- 
guncaó^fe podeis, & nem 
íabeiso que podeis , nera 
ia beis o que he ; porque di- 
2.c\s'To^íJíímus^ Porque af- 
fimcuidaòque podem tu-, 
do os que naó coiífiderac, 
nem conhecem primeiro 



por naó tomar as medidas o que podem , ou naó pô- 
ao que podem 5 ou naó pó- dem. 



dem, cuidaó que podem 
tudo ? Parecem^ quecs ef- 
tou vendo retratados na 
precipitada arrogácia dos 
filhos do Zebedeo. Per- 
guntoulhesChrifto fe po- 
diaóbeberocaiiz, queel- 
le av ia áth eber : Totejiis 
Matth. ^i^€^€ c alie em , quem ego bi- 
^",2i- bitmmfvm ? £ fem mais 
coníideração , ou exame 
do queeraõ perguntados, 
refpcdêraó, Tojjumus^ Po- 
demos. Orajà que dizeis 
quepodeisbeber o caliz, 
naó me direis tambê qual 
lieeíTecaliz , & qual eíTa 
bebida ? He tal que o mef- 
mo Chrilto receofo de o 



272 Ainda depois de 
conhecidas as próprias 
forças, pôde hum homem 
naó poder o que pode, 
porque o poder,& o medo 
do poder, faó duas coufas 
muito diverfas. Quando 
David fe oíFereceo a fair 
ao defaíio com o Filiíteo,; 
diíTellieElRey Saul , que 
naó podia j porque o Fili- 
fteoera Gigante , & ellc 
minino, o Filiíteo foldado 
exercitado nas armas, & 
ellenáo: JSLon vales refifte- 
re^Fhiufthao ijii^nec pugna- 1 
re adverfns eum , quia picer 
es^ htc autem vir bellator efi 
nb adolejcentiafua . C ò t u - 



poder beber,& tendo por do refpondeo David, que 
maispoílivel o contrario , íim podia, porque elle ú'_ 

fíha 



». 



Urceira "DomWgâpofi Épiphaniam jo f 

nlia eíprimentado as fuás impede o modo O poder, 
forças com os UíTos , & & mais o modo do poder 
os Leoés, aos quaes defpe- he o qae ha de examinar , 
daçava,& matava, & o & reconhecer primeiro 
mefmo faria ao Gigante: 
Nam & L€onem,&Urfum 

interfeci ego fernjus tmis. 

Ouvida a repoíla ,& pro- 
vado o poder de David cô 

taò abonadas experiécias, 

omefmoSaul, o qual lhe 

diíTera que naò podia fair 

ao Gigante , o veftio de 

fuás próprias armas, para 



quem quer faberrepòde, 
ounaópòde. 

JP medo poder, & 
feito, como dizia,fem pai- 
xão, nem amor próprio ,^ 
para fer bem feito •, feguc- ' 



luas DTUpUtia aiiiiíia, w"i'* l^--^ -' 

quefahiffe. Armado po- fea eleição do querer, ern^ 
rèm elle,& fazendo expe- que confifte todo o acer. 
rienciadasmefmas armas, to.&podeaver muitoser-J 
difleque nam podia affim ros. Ou eu poflb querer 
andar: Ronpoffumftcince. fomente o que po^^ ' f» 
V^r.. Pois David, fe taÓ querer mais do que poflo, 
pouco ha diffeftes que po ou querer menos do que 
fe. como agora dizeis poíTo E como neftestres 
quènaô podeis ? Nam diz modos de a]uílar o querer 
Òavid que naó pôde, mas comopoder, ouigualan- 
diz,queflam pôde daquel- do, ou excedendo , ou^di- 
lemodo , rinpopm (íc: minumdo,fe pode alterar- 
medindo as forías do Gi- muito a devida proporção, 
BantecomasdosUflros,& vejamos pela «eíma or- 
los Leocns,diz, poflb.mas dem qual feraa ««« a«r- ■ 
medindo o exercido das tada,&por iflb mefmo a 
mefmas forças comfigo n'**«^°"y^^^f '=■ „„ri.: 
carregado de armas , d.z, 174 ^^T -fT^^^ 
náo poíTo ; porque naô ba- rad^ querer &•««, ^ a ^ua 
ftaopoderpara\oder,feo, poíTo.he uo excdlent^^J. 
Tom.3. 





*? 



^J^ Sermão éía 

adequada efta proporção, de humana com o pod-cr 
queporhummodo admi- humano. Daquifefegue, 
ravel parece fe iguala o' que os muito poderoros,& 
querer , & poder humano os que pouco podem , to- 
com a vontade , & Omni- dosfaó iguaes neíla felici- 
potencia divmz. Qiial hea dade,em q fe fazem taó fc- 
excellencia, & fobcranía melhances a Deos. Porque 
da vontade,& Omnipoté- fe huns , & outros fe con. 
eia divina > He que Deos formão, & contentaó com* 
pode quanto quer. Pois fe o que podem, nem o mui- 
Ucos pode quanto quer,&: to de huns he mais, nem o^ 
eu quero fó quanto poíToj pouco de outros he me- 
cíte he o cafo , como diz nos } porque todos dentro> ' 



Séneca em outro , no qual 
pode o homem competir 
na felicidade com Deos. 
Porque fe Deos pôde quá- 
roquer, eu também poílb 
quanto quero, porque fó 
quero quanto poíFo. Aílim 
o notou com futil, & bem 
fundada advertência o 
doutoi & engenhofo Au- 
thor da arte da vontade 



da. medida do feu poder 
tem tudo quanto querem. 
Oh qAiedirofoy& bem or- 
denado vivifia. Hniverfal- 
mente o mundo, fe rodos- 
penetra ílbm o interior de- 
ilefsgrcdo, S< naô trcfpaf- 
faíTem o fcu querer alèm 
das rayas do feu poder .' 

275- Adv^irtaóporèn^. 
aqui principalmente q$. 



He verdade, que Deos pò- poderofos,queo que dizc 

aetazcr mais do que quer, mosdo poder, fó lè enten- 

mas também o home pôde de do que licita , & lufta- 

querermaisdoque pôde; mentefepôdc. Oillicíto, 

«ca proporção da querer & injuílo nunca fe pôde 

com o poder tanto confifte fazer, ainda que fe faça/ 

em^Deos, em fe medir o Mas he tal a jadancia dos^ 

poder dmno com a von- poderofos,&maisdaqucl- 

tadc divina, como no ho- ies que cuidaó que podem 

&«çi,cin fe racdir a vpnta- tudo, que tem por afront;^ 

. . mvi; da 



V 



fèrfeírâ ^omlngà 
do feu poder cuidarfeq té 
limite o que podem. Aflím 
comoojuiz naó pòdc ex- 
ceder as Leys do Rey, af- 
ÍImoReynáo pôde exce- 
der as da razaó , & juftiça. 
A ElR.cy CreoQte diílc 
Medea : Sijíidtcas^ cognof- 
ce -yfiregnas^jube : Se obras 
como Juiz, toma conheci- 
mento da caufa-, mas Te 
obras como Rey, manda o 
quequizeres. A fegunda 
parte defte aforifmo hc ti- 
rada dos archivos naó fó 
da tyrannia,mas do atheí f- 
mo. E naó fó a feguem os 
Reys,fenaõ também os 
Juizes. Pilatos era Juiz có 
vezes de Rey, porque era 
cm Judealocotencnte do 
Cefar : & vede o foberbif- 
íimo conceito que tinha 
dos feus poderes. Como 
Chriílo Senhor noíTo ac- 
cufado pelos Judeos nam 
refpondeíTeahúa pergun- 
ta que lhe fazia Pilatos , 
^' diíTelhe aílim: Mihi non lo- 
tír«mj ? A mim me naó ref- 
pondcs > Nefcis quia pote- 
ftatem habeo cructfigere te , 
é' potejiatem habeo dimit- 
YíTí-^^.^Naó fabes que te- 



pâft Epíphanldm^. 307 

nho poder para te crucifi- 
car , & que tenho poder 
para te livrar ? Naó Pila- 
tos: naó fabe iíTo Chrifto. 
EíTe homem que tens cm 
pè diante de ti he o mais 
fabiodc todos os homens, 
& juntamente Deos : & 
nem como homem , nem 
como Deos fabe o que di- 
zes j porque dizes o que 
naó he, nem pôde fer. Sc 
eíTe homem heRco , nam 
tens p ider para o livrar, & 
fe he innocente , nam tens 
poder para o crucificar, E 
porquePPorque fe he Reo, 
naó o podes ab foi ver da 
culpa •, & fe naó tem culpa, 
naó lhe podes condenar a 
innocencia. Mas quantos 
innocentes vemos conde- 
nados, & quantos culpa- 
dos abfolutos , tudo peia 
falfa,& arrogante oílenta- 
çaó dos que cuidaó que 
podem tudo! 

ij6 Ora eu vos quero 
conceder o que naó ten- 
des,&: fuppondo com vof- 
co, que verdadeiramente 
podeis tudo-, ouvi agora o 
que ignorais , & por ven- 
tura nunca ou viftes. Cui- 
V ij dais 





3oS Sermão 

dais que o poder tudo con- 
lifteemnaóaver coufaal- 
gua a que fe naó eílenda o 
voíTo poder j 8c he engano 
nianifeílo. O poder tudo 
eoníifte em poder algúas 
coufas, 8c naõ poder ou- 
tras: confirceçm poder o 
licito,8cjuí]:o, 8c emnam 
poder o illiciro, 8c injufto : 
8c foquem pôde, ^ nam 
pòdedeílamaneirajhc to- 
do poderoíb. Naò he pa- 
radoxo meu, fenaô verda- 
de de fè divinamente ex- 
plicada por Santo Agofti- 
« nho.^àmmuítanonpoteft 
T>eus i & omnipotensefi? 
Quantas coufas na m pode 
DtoSiSí com tudo he Om- 
nipotente? E fenaô dizei- 
me: Deos pôde deixar de 
fer? naó: Deos pôde mê- 
tir ? naó : Deos pôde cnga- 
nar,ou fer enganado? naó : 
Deos pôde fazer alguma 
coufi mal feita ? Não.Pois 
feDeos naó pôde tantas 
€oulas, como he todo po- 
derofo? Por iífo mcfmo, 
diz Agoílinho: Imo omni^ 
põtenseft^quia ijla non po- 
teft. Earazaóhe; porque 
o fer todo podero]b con- 



fiftecm poder huas* cot 
fas, ^ naó poder outras 
em poder todas as quefai 
Íicitas,8c juílaç, 8cnaõpc 
der nem húa fô das que fa( 
illicitas,& injuílas. Tanti 
aííim, diz animoíàmenre 
Águia dos Doutores, qu 
fe Deos podeíTe eflas cou 
fas que temos dito que nac 
pòcfe, feria indigno de fe 
Omnipotente. Namjimo^ 
ri poffetyfi mentir i ^Jifalíe 
re^fifalli , fi inique agere 
nonfuijfet dignus qui ejje 
omnipotens. 

r-jj Mas porque eíl; 
^ú^iv ri dignas parece qu( 
refere,ou attribue aOmni 
potencia a merecimento 
fendo aíHm que Dcosgb 
za a foberanía de todo; 
feus atrributos , não poi 
merecimento, fenam poi 
natureza j o que S. Agofti 
nho diíTe por eíles termos 
porque efcrevia para o; 
dou tos, declara rei eu mais 
porque failo paratodos./í 
armonia dos atrributos di 
vinos he taó cócorde , fem 
poder encontrar hum ac 
outro, que eíla reciproca 
conformidade não fópaíía 
afg 



terceiraT>õmingapofiEftphanim\ 309 

a feruniaó,fenáo idcnti- poriíToas naopodefazer, 

dadeentre fy, & com o porque he Omnipotente 

niefmoDeoJ.Edaquivem ôU hoc nonpoufi ^eus.ut 

nueoattributo da Omni- pomsfipoíTet^mtnorts ejfet 

Jotencia naô pôde todas poteftatis-.&proptereaqu^^ 

aquellascoufasqueferiáo damnonpoteft, quta omm- 

contrarias aos outros at- potenseH 

tributos. Deos he fumma- 2 78 Que dirao agora a 

mente bom , & fe podeíTe iftoos todo poderoíos do 

omáo , na6 feria fumma mundo? Se quereis ferom- 



bondade : Deos he fum 
mamentejuílo , & fe po- 
deíTe o injufto , nam feria 
fumma juftiça : Deos he 
fummamentefabio, & fe 
podeíTe o errado , nam fe- 
ria fumma fabedoria: Deos 
he fummamente verda- 
deiro, & fe podeíTe o falfo, 
namferia fumma verda- 
de. Logo para Deos fer 



nipotentes, podei fòmen- 
te o juíto,& licito , & nam 
queirais poder o illicito,&: 
injufto. Se aílim o fizer- 
des, fereis omnipotentes 
como Deos, & fe naô , fe- 
ráóosvoíTos poderes co- 
mo os do Diabo,que pode, 
U faz muitas coufas que 
Deos não pôde. Suppofto 
pois que fô fe pôde o que 



digno de fer Omnipoten- licita,& juftamentc fe po- 
x,Íl^ a mefma Omnipote- de, quem nefta forma aj^u- 



cia digna de fer fua, nam 
fò era decente, mas necef- 
fario,que podendo tudo o 
mais, nam podeíTe coufa 
algúa que foíTe indigna de 
Deos. E daqui fe conven- 
ce, como argumenta em 
outro lugar o mefmo S. 



ftar o feu querer com o feii 
poder, poderá quanto qui- 
zer , porque fô quererá 
quanto pôde. E para que 
acabeis de ver quanto tem 
de divina efta proporção 
do querer ajuftado com o 
poder 5 notai por íim , que 



Aeoftinho , que fe Deos Deos fo pode fazer o que 

podeíTe taes coufas , feria pôde querer : de forte que 

menos poderofo , & que fô pôde obrar a fua Omni- 

Tom.8. V iij poten- 




;/ 



Afe- 



310 Sermão da 

potencia o que pôde que- mente o que pode. 

rer a fua vontade. Efee- gunda he dos que exce- 

ílas faó as medidas dopo- demefta medida, &que- 

der, &: querer immenfo , rem mais do que podem , 

poder fo o q quer j porque com os quaes agora falia- 

íenaó contentara a limita- remos. E que lhe direi eu? 

çaó humana com querer Digo geralmente, Senho- 

fò o quepòde? Querey fô res, [porque os Senhores 

o que podeis, & fcreis om- faô os que mais ordinária^ 

nipotentes. Trorfusomni- mente fenaó querem me- 



fotens eft quifacit quidquid 
^«/-fiVerdadeira mente he 
omnipotente CconclueA- 
goílinho^quem pôde quã 



dir ainda que feja com- 
figo mefmos ] que para 
defengano deíledefejo,& 
emenda deíla vaidade, 



CO quer : com tal condição bailava fò a confideraçáo 

parem, que fó queira o bê do erro, que lhe ham de 

feito, & naó queira o mal achar no fim , & fora me- 

feito i porque nefte que- Jhor atalhar no principio, 

rer, & não querer,conílfte Confíderay que querendo 

a verdadeira omnipoten- mais do q podeis, naó fò 

cia. Ipfa eft omnipotentia deílruis o voíTo poder,fe- 



f acere quidquid bene vult , 
quidqíud atitem male jit ^ 
non vult. 

í. VI. 

279 \ Tequi temos 
£\ vifto a grande 
conveniencia,& excellen- 
cia mais que humana da 
primeira proporção do 
querer com o poder, que 



naó também o voíTo que- 
rer. Porque fe eu quero 
mais do que poíTo, claro 
eílá que hei de perder o 
quepoíTo , & naóhey de 
confeguir o que quero. 
Pois fe nofím naó haveis 
de poder confeguir o que 
quereis -, para q he traba- 
lhar, & canfar de balde > 
Mas tal he a cegueira da 
. ^ - ambição humana ! Mais 
he querer cada hum íó- de duzentos annos depois 

éo 



terceira dominga poft Eptphmiam. 3 1 1 
do diluvio , caminhando Ihoíizudo, &paydeto. 
todos os homens que en- dos , náo ha duvida que 
taó havia, & ainda fe con- lhe proporia quantos im- 
fervavaÕ juntos , diz a Ef- poffiveis fe envolviaó na 
cricura Sagrada, que vie- temeridade daquellepen-. 
raÓ dar em húa grande famcnto. Sc dizeis que os 
campina, a qual os eon- materiaes defta torre hao 
vidou : para que.? Naô pa^ de fer tijolos cozidos, naÕ 
ra a dividirem entre ry,&: vedes, que nemtodaater- 
a lavrarem, & cultivarem-, ra vos pôde dar barro para 
mas para edificarem nella os amaífar^nem lenha para 
húa torrcquechegaíTeaté os cozer? Depois de cre^ 
o Ceo. Philo Hebreo diz, cer a obra , como pode a- 
que o intento dcfta fabri- ver maquinas tam fortes, 
ca foy para fe livrarem &taó altasjcomqueguin- 
nella de outro diluvio, fe dar os mefmos materiaes 
acafo fuccedeíTe : o certo atè as nuvens ? E dado que 
porém he, como refere o ouveííe induftria , & bra- 
mefmo Texto, que quize* ços para tudo iíio, nao fa- 
raó levantar hum taó fo- beis que em chegando a 
berbo , & prodigiofo edi- terceira regiaó do ar frigi- 
ficio, para celebrar, & fa- difíima, havieis de morrer 
. zer famofo feu nome : todos? Pois fe para vos le- 
■ Celebremus nomen nofirum vantais a voífa fepultura, 
antequam dividamur. To- &para a mefma torre fa- 
das as familias de que fc bricais as fuás rumas , por-. 



compunha eíteajuntamé 
to,eraó fetenta, & duas : 
mas as razoens que difíi- 
cultavaò a obra , naó ti- 
nhaó numero. Vivia ain- 
da entre elles Noé jà ex- 
primentado em grandes 
fabricas: o qual comove* 



que quereis o que naó po* 
àtis , & porque trabalhais 
inutilmente no que naó 
haveis de levar ao cabo ? 
A mefma Eíeritura Sagra- 
danos diz altiífimamentc; 
em huma palavra o por- 
que. Porque eraó filhos^ 
Viiii de 






Ibid.í. 



I: 






5^^ Sermão da 

de Adam : "Defcendit T>o- hiu torre, que chegue até 

mtnusyut videret turrim , oCeo. Emíim, Deosem 



^uam adificabant filtj A- 
dam, 

280 Ora eu noto, que 
mais perto parece eíiava 
chamaremlhe filhos de 
Noé , que foi o fegundo 
Pay do género hun]ano,& 
o era mais propriamente 
de todos os que alli fe a- 
chavaó. Pois porque lhe 
chama o Oráculo divino 
filhos de Adaó , Scnáode 
Noé? Porque o nome de 



Peflba deceo a ver a torre, 
& logo confundio as lin- 
guas de todos , para que Te 
naó entendeíTem afymef- 
mos os que tinhaô fido 
autores de hum a fabrica 
taò mal entendida, &af- 
fim ceifou a obra ; Tendent 
opera interrupta , minaque 
murorum ivgentes, E que 
bem fe leria naquellasva- 
ftiílimas ruínas relevada 
em letras de bronze afen- 



Adam tinha muito mayor tença de David : Cogitave- 
pezo, & energia no caio runt conftlia.qua non potue 



preíente. Como filhos de 
Noé naó fe feguiabem o 
intento de edificara torre. 
Porque fenoíTo Pay fabri- 
cou de madeira hum tdi- 
ficio,que fe levantou fobre 



runt ftãbilire. Onde in- 
tentarão celebrar feu no- 
me, fizeraó celebre a fua 
locura^ &na mcfma torre 
com que quizeraó acqui- 
rirfama , fabricarão fua 



aisaguas,naóera boa con- própria confufaôiiilo quer 
iequencia : também nos dizer Babel. 



poderemos de barro fabri- 
car outro, que fe levante 
fobre as nuvens. Porém 
como filhos de Adam,fim. 
Porque fe Adam foi hum 
home, que cuidou que po- 
dia fer como Deos, não he 



281 Com eíle exemplo 
defenganou Deos, & enfi- 
nouatodosos homens jú- 
tos , que pozeflíem frcyo 
à vaidade de feus penlk- 
mentos,& naóquizefi^em 
mais do que podiaô. Elles 



muito que feus filhos cui- porém entédéraó tam mal 
dem que podem cdi^car aquella linguagem , & fe 

cf. 



». 



terceiraDominga poft Epiphaniam. ^ .^13 
cfduecéraó tam brevemé- Samuel] vos dirá que a- 
te daquella lição , que di- quelle Rey he SauUpnva- 
vididos pelo mundo,aírini do para fempre doReyno, 
como deixavaó nos cam- por fe querer aproveitar 
pos de Senaar aquelle fa- dos defpojos de Amalech, 
tal monumento da fua lo- o que não podia , porq^e 
cura, aífim naó ouve mon- Dcos lhe tinha mandado 
te,ouvallenatcrra, emq que os queimaíTe todos. 
naó levantaflem outros. Pondevos junto ao boi- 
Pondevos entre Sodoma, que chamado de Efraim, 
& Segor , & fe pergun- & alii vereis pendurado 
tardes que eftatua he a- de hum carvalho pelos 
quella que alli fe vé em pé, cabellos,& trefpaíTado pe- 
& dura ainda hoje , nin- lo peito com três lanças o 
guem vos dirá o nome mais galhardo mancebo, 
próprio , porque fenam que para enveja dafer- 
fabe , masaEfcrituraSa- mofura criou a natureza, 
grada nos diz que he a mu- Tal foy o trágico fim de 
Iher deLoth, a qual por- Abfalam,oqual traydor a 
que quiz ver o que naó po- Deos , ao Pay , à Pátria , & 
dia conforme o preceito a fy mefmo,fendo terceiro 
do Anjo , no mefmo paíTo filho de David,lhe quiz ti- 
em que voltou os olhos rar a coroa da cabeça , & 



para ver o incêndio das 
Cidades infames , alli fi- 
cou convertida em efta- 
tua de íãl. Pondevos na 
Cidade de Galgaia, & ve- 
j-eis como hum Profeta 
cftá deípojandodo Cetro, 
& da Coroa , ôc defpindo a 



pola na fua,como naó der 
vera, nem podia. Ponde- 
vos nos campos de Ba- 
bylonia, & vereis cora 
horror andar fobre qua- 
tro pès pacendo feno, 
& bebendo do Rio com os 
brutos hum homem con- 



purpura a hum Rey de a- vertido na mefma figura,© 
gigantadaeftatura , &o qual pouco ances adorado 
xnefmo Profeta [o qual era no trono real íe chamava 

Na- 






I \ 



tf' 



••# 



k 



514 

Nabucodonofor. 

mais poderofo Monarca 
do mundo > mas porque 
quiz fer , & poder mais do 
que podia,o fez Deos cur- 
far naquella efcoJa fete 
annos,para elle aprender 



Serma}fda 
Era o metodaannçãodosMoa- 
hit^iS. E naó "ha género de 
trabalho , de miíeria, de a- 
fronca,atè a ulcima5& total 
aniquiiaçáo,que repetida- 
mente , & por vários 
modos lhe naó ameace. 



-1 r -'> *iivjvav^c» lin. iidu ameace. 

& nosenfinar o que pode Finalmente chega a dar 
vir a fer os que que- ascaufas de tamanho ca- 
rem mais do que podem, íligo,& quaes vos parece 
282 Infinita matéria queferaó? Húaíó,masad- 
leria fe ouveíTemos de miravel, & pronunciada 
dílcorrer por todos os ex- naó menos que pelomef- 
cmplos que lemos nas Ef- mo Deos. Egofcw, ait "Do- 
crituras Sagradas,do mui- mims, jaãaraíam cjus- & 
to que Deos fe ofFende, & qmd nonfitjuxta iam vir- 
do rigor com que caíliga tus ejus.nec juxta quodpo- , 
amlolencia de quererem terat conata/it f acere Se« I 
os homens poder mais rà deftruido , ôcaíToIado 
do que elle quiz que po- Moab, fé ficar pedra fobre 
aeliem. Masparaultimo pedra em todas fuás Ci- 
defengano noíTo, & telli- dades, (diz Deos^ porque 
munho efiupendo defta fey que a fua arrogância, 
mal entendida verdade , &prefúpçaóhemayorque 
nao me he licito paíTar em as fuás forças , & quiz fa- 
lilencio oqueagorarcfe- zer mais do que podia 
nrey fentenciado , & de- Pois porque a prelúpçaó 
clarado por bocado mef- deMoab he mayorqueas 
mo Deos. Todo o Ca pi- fuás forças , & porque in- 
tulo quarenta, &oitoga- tentou fazer o que naó 
fta o Profeta Jeremias cm podia , tamanho delito 
pregar, &annunciar a de- he efte,&taó abominável 
ftruiçáo de Moab,enten- diante de Deos , que em 
íicndo debaixo deite no- caíligo delle ha de de- 

Itru- 



*. 



terceira "Dominga poft Epiphaniam. 5 1 ^ 

ftruir, aíTolar, 6c aniquilar fem , toca no vivo de fua 
húa naçáo inteira ? Se o própria divindade , de- 
mefmo Deos o naó diíTera, ftruindo, & defacreditan- 
quem podéra crer tal ex- do a reda difpofiçaó dos 
ceifo da divina juftiça ? feus di\^inos attributos. 
Mas aflim he fem duvida, Profundamente David ; 
pois Deos dà efta fó cau- Vècidant a cogitat tombas^ 
fa por fua própria boca. fiús.fecundum multitudine 
E por iflb quero tornar a impietatum eorum expelle 
repetir as mefmas pala- eos^ quoniam irritavermt^^.<:^t' 
vras: Seio j aã anuam ejusy te Domine. Aos que fea- 
& qiiod nonfit juxta eam trevcm a poder mais do 
'virUís ejus: Porque conhe- que vós quizeftes , vós Se- 
co fuaarrogancia,&porq nhor, os derrubareis de 
íei que as fuás forças, & o feus penfamentos em pe- 
feu poder naò he igual a na das muitas impieda- 
eila; Nec juxta quoa pote- des> com que provocaram 
ratconatajítfacere±^ot' a voíTa ira. O que nefte 

texto he digno de grande 
reparo, faóaquellas pala- 
vras, Secunàum multitudp- 
nem impietatum eorum. O 
peccado da impiedade có- 
flfte em negar a Deos a fua 
divindade: T>ixit infipiens 
incorde fuo:NoneftDeus i 
283 Efemeperguntar- O peccado de querereni 
des em que confiíie a atro- os homés mais do que po- 
cidade de hum delito, que dem, parece que naó paífa^^^ 
naó parecia taó grandej deprefupçãojfoberba, & •'^'• 
refpondo, que a razão he, arrogância, como chamou 
porque quererem os ho- omefmoDeosaodosMoa- 
mens poder mais do que hitrb. Seio ja^antiam ejus, 
Deos quiz que podet Pois porque chaju a David 

■ . ^ a 



que fei que o que intentou 
fazer era mais do q podia. 
Taó atrozmente fente 
Deos, tanto aborrecejde- 
teíla, & abomina o excef- 
ío dos que fe atrevem a 
querer mais do que elle 
quiz que podeífem. 




k 



31^ Sermão da 

a elles taes naÓ fô fober- de ; & porque tudo ifto fa^ 
bos,&arrogãces,renaô im- zes quando queres poder 
pios, & muitas vtZQS im- mais do que eu quiz ,nam 



pios , Secundum multttudi- 
nem tmpietatum eorum ? 
Porque Deos reparte, & 
inedeacada hum dos ho- 
mens a mayor, ou menor 
porção do poder que he 
fervido darlhe fegundo o 
confclho fecreto, & re£ta 



fó híía vez es impio, fenaó 
muitas vezes : Secundum 
multitudmem impietatnm 
eorum. 

284. Olhemos homens 
para as outras criaturas 
fem ufoderazaó, & nam 
queiraó fer ingratos, & fo- 



difpofiçaó da fua fabedo- berbos contra Deos , quá- 
ria,darua juftiça , da fua do todas ellas grandes, & 



providencia , da fua libe- 
ralidade: & contra todos 
eftes attributos divinos 
faó ímpios os que querem 
poder mais do que Deos 
quiz que podeílem. Deyte 
pouco, contentate com o 



pequenas o louvaó , &Ihc 
daó graças pelo que delíc 
receberão. Se o rato nam 
quer fer leáo,nem o pardal 
quer fer águia, nem a for- 
miga quer fer elefante, 
nem a ráa quer fer baleaj 



pouco, que he o que eu Çú porque fe náo contentará 

que te convém , & nam o homem com a medida 

queiras muito; deyte mui- do que Deos lhe quiz dar ? 

to, contentate com efle E que feria , fc nem os 

muito,&naó queiras mais, leoens, nem as aguias,nem 

porque neíTe mais que de- os elefantes, nem as balças 

fejaseftà efcondida a tua fecon^entaííem com a fua 

perdição. NaÓ queiras en- grandeza, 6c hunsfe qui- 

íinar a minha fabedoria, zeflem comer aos outros 



naó queiras condenar a 
minha juftiça, naó queiras 
emendar a minha provi- 
dencia, naó queiras aca- 
nhar a minha liberalida- 



para poder mais,& fer ma- 
yorcs.? Ifto heoque que- 
rem , & fazem continua- 
mente os homens, & por 
iífo os altQS caem , os gra- 
des 



Urceira 'Domngupofi Epiphaniúm. 3 1 7 

áes rebentão, & todos fe - nem façaócouhs grandes, 
perdem Os ínllrumentos Antes às aveças.tmpren- 



que criou a natureza , ou 
fabricou a arte para fervi- 
GO do homem , todos tem 
certos termos de propor- 



dei, & fazei coufasgran- 
de3,&:as mayoreJ>,&mais 
admiraveis3 mas deatro da 
esfera , & proporção do 



Peme;nfervar> f6ra dellanao^fare.snada^ Qie 

Sosquaesnaôpódem. Có ^™P^^"^f ' ^^^^l VeThã 

a carga demaltada caco yores coufas na Ley Velha 

'ur^elto , rebenta o ca- que David . & na Nova 



nhaó>&vaifeonavio a pi- 
que. Por iíTo fe vem tan- 
tas quedas, tá tos deíaftres, 
& tantos naufrágios no 
mundo. Se a carga for pro- 



que S. Paulo ? Mas vede 
como ambos confeíTaó^, 
que em todas fe medíraa 
com ofeupoder,& nunca 
muricto.beacargaforpru- oexcedcraó Daviddiz: 
-porcionadaao calibre da Ne^ieambuUvrmmagms,,^^^^^^^ 
■ |eça,aobojo do navio,& nequem mtrabútbus fuper ^ 
l flrça , oVfraqueza do me. Todos fabemos quam 
^ ^^ - - grandes, & admiráveis fo- 

raò as obras, & vitorias 
de David 3 co mo diz logo, 
quenaó fe exercitou em 
coufas grandes , nem ad- 
mira veis.? Na ultima pala- 
vx^i/uperme^.o declara.Fo- 
raô grandes,&; admiráveis 
as minhas obras, mas nam 



animai , no mar farfe-ha 
via g€ til , na terra farfe- ha 
caminho,& na terra, 6c no 
mar tudo andará concer- 
tado. Mas tudo fedefcosi- 
' certaj 5c fe perde , porque 
«•^'^m tudo quer a ambição 
-'> búma ríá'èxceder a esfera , 
• & proporção do poder. 



: proporLiiL> uu pv^vii^i . 

285 Vejo qu€ me eftaÓ fuperiores a mim , porque 

^ dizendo os prezados de nunca excederão amedi- 

- ' ^í^rande coração, que eíle da do meu poder, & das 

/ difcurfo quebra os efpiri- minhas forças ; Nequeam- 

■ tos,& acovarda os ânimos bula^i m magms, nequetn 

■ para que naé emprendaó, mirabilibus fuper me -, diz 



l,.il 



5. VU 



tS6 



DEpoisdcconíI- 
derado ncftc» 
dous modos de concordar 
o querer com o poder, no 
primeiro quam convénio 



?i8 Sermão dá 

C a r í hu íiano ^f adendo ope- 
ra meam merifuram tranf- 
ccndentía. Do mefmo mo- 
do S.Paulo. As fuás tenta- 
çoens, as fuás perfegui- 
çoens,&as fuás vitorias: 
as fuás peregrinaçoens , as 
fuás cóverfoens , &r os feus 

trabalhos padecidos pela entehe querer cada hum 

dilatação da Fè , elle mef- fó o que póde,& no fegun- 

monaopode negar que do quam errado , &arrif. 

foraomayores que os de cado querer mais do que 

..con^^^^^^.^^s Apoftolos : Tlus pòdejfeguefe o terceiro, 

,^.ro,iommbuslahoravi:^com que confiíle em querer 

tudoaffirma , que nunca menos do que pode: &ef- 

cxccdeoaregra, & poder te modo digo por fim, que 

das forças que Deos lhe ti- «- -<■ 
nhadado,medindofefem- 
•pre,& cm tudo comíigo 
mefmo. Mettentes.ò' com- 

a. Cor. parantes nosmettpjos nobts. rança as mefmas conveni- 

•- - Secundum menfuram regu- cncias do primeiro. 

la 5 qua menfiis eji nobis 287 Soquem quer me- 

^eus. Meçafe pois cada nos do que pôde, he fcm- 

hum comíigo, acajuílc as prepoderofo^ porqquem 

fuás acçoens com as fuás quiz quáto podia , encheo 

f orças,& com o feu poder; a medida do feu poder , & 

porque fe para fazer ma- naó pode paífar dahi: po- 

yorcs obras, quizer poder rèm quem quer menos do 

mais, nem feráó mayorcs, que pôde , fcmpre pôde 

nemobras. mais do que quer. Efcef- 

tarazaó he altaméte bem 
entendida, ainda hemais 
ajga a prova. A Omnipo- 
tência 



1»-' r 

naó fóeftà livre dos pen- 
gos,8c danos do íègundo, 
mas excede com grande* 
ventagens,& mayor fegu 



10.12 



terceira l^ommgapoft Epiphaniam, 3 1 9 

fcncia divina obra ad in- aiTim podem criar infíni- 



tra^ &c adextruy como fal- 
laó 0$ Theologos, ifto he, 
denrroemfy,& fora de fy: 
décroem fynofer increa- 
do,& fora de fy no fer que 
dà a todas as creaturas. E 



tos outros cô outras crea- 
turas taó perfeitas 3 8c ain- 
da mais do que todas as 
que tem criado. Qual hc 
logo a razaó,porqiie fendo^ 
o poder de Deos dentro 



quefuccede ao poder de em fy,&:fóra de fy iníini 

Deos neíles dous modos to, dentro em fy naó pode 

de obrar dentro,& fora de obrar mais do que obrou, 

ty ? Dentro de fy o Fadre & fora de fy pode fempre 

pelo entendimento pro- mais,& mais fem limite, 

duz o Filho-,5c o Padre, & nem fim ? A razaó he cia- 

D Filho pela vontade pro^ ra,& manifeíla. Porque 

duzem o Efpirita Santo, dentro em fy obrou Deos 

E fora de fy o Padre, o Fi- quanto podia , fora de fy 

[ho, &o Efpirito Santo nem obrou, nem obrara jà 



^riáraó efte mundo^ & to 
das as creaturas efpiri- 
[uaeSjSc corporaes,que en- 
:hem o Ceo, &: a terra. A- 
yora pergunto : E pôde 
Deos com fua Omnipoté 



mais quanto pôde. E fe ií- 
to lie em Deos, quãto mai» 
da bi abaixo > Quem quer 
quanto pode , naó pode 
mais ; quem quer menos^ 
do que pode , fempre lhe 



da obrar mais do que tem fobeja poder. 

jbrado ^ Ad intra não , ad 2 B 8 Da qui fe fegue, que 



'xtraÇ\m. Ad intra nsLm -, 
)orque nem o Padre fó, 
icmoFilhofó, nemoEf- 
)irito Santo fó, nem todas 
IS três Peífoas divinasju- 



Qrico que quer mais do 
que pôde, lie pobre : & o 
pobre que quer menos do 
que pode, he rico. O rico 
quequer mais do quepó- 



;as podem produzir outra de, he pobre , porque lhe 

|ue feja Deos. Porém ad falta o mais que quer y & o 

xtra fim ; porque aílimi pobre que quer menos do 

:oaiQ criáraò efte mundò^ ^ue póde^ he rico , porq ue 

^1* ^ 



^ ' 



y 



^2o Sei 

Ihefobejao mais que po- 
de. AíHmnolo enfinoii a 
mefnra natureza , meftra 
de noíTas acçoens, quando 
nosproveodos inftrumê- 
tos, medindo-os coni el- 
las. Porque difpoz a natu- 
reza que a maò FoíTema- 
yor que o eoraçaó, & o co- 
ração húi&: as máos duas ? 
Porque o coração he oirv- 
ílrumento do querer, ^as 
máosdo poder : nocora- 
çaó eftà a deliberação da 
vontade , &: nas mãos a 
execução das obras 5 ôc or- 
denou que à maó foífe ma< 
yorqueocoraçaój&o co- 
ração hum , 6*: as mãos 
duasj para que fempre po- 
deíTemos mais do que qui- 
zeííèmos, & nunca quei- 
ramos canto quanto pode- 
mos. Oh fe os homens en- 
tendeíTemos cfta politica 
natural, & domeílica , & 
nos perfuadiíFemos a ella , 
quamdefcançada íeriaef- 
ta vida, que nós pelo def- 
govcrno da noíla vontade, 
& pelos cxceíTos das nof- 
íàs vontades fazemos taó 
çançada,& trabalhofa í 
• 285). Faz grande difFc- 



rença o Profeta Ifaías en- 
tre os fracos, & de baixo! 
efpiritos, que raíleiramé 
te feguem os paílbs da na 
turezaj&os deâlto,&ge 
nerofo coração , que con 
fiados em Deos íe levan 
taó fobre ella. AquelIeS; 
áiZy por robuílos que fe 
jaó na idade, & nas forças , 
cançaó , & emfímcaem 
T)ejicient pueri ^ ér labora' 
buntyé^juvenes in infirmi 
Tatecadent. Os outros po 
rèm tomaráó azas de a- 
guia,& andarão, & corre- 
ráó fem jà mais caçar, nem 
desfalecer : Ajjumentpen- 
nasjicut aquiU, current^ ò 
Tion labor abu7itiambulabut_ 
Ò"non defiàent. Taes fac 
comoeftes fegundos os q 
querem menos do que po- 
dem, & talhe o defcançoj 
& fortuna da fua vida, fe 
fortuna fe pôde chamar q 
que depende da própria 
vontade, 6c d jfeguir odi- 
£tameda boa razaó. Pon- 
deremos as palavras , que 
faó admiráveis, Diz qu< 
tomaráó azas cbmo de 
águia: ^(fument ptnnasfi- 
cut aciutU-^ mas naó di2 
quç 



terceira^ommgapofiEpjphanianf, ^ií 

cue voaráo. O que íó diz , por iíTo fe tornou para a 
he, que andaráó , & corre- Arca : Cum non inveniffetfntt 
ráófemcançar, nem ács- ubi requiefceret pes ^ ejus$ " * " 
falecer : Current, & non la* mas porque foraó taófczu- 
borabunt'. ambulabunt , & dos, que tendo azas nam 
non deficient. Pois fe tem quizeraó voar, & fe con-; 
azas,& azasdeaguiaj por- tentarão fomente com an- 
que naó voaò? E fc podem dar,&c quando muito com 
voar,& voar taò alto , co- correr; por iíTo paíTáraó a 
mo a Rainha dns avesi carreira defta vida tam 
porque fecontenraó fó có cançada,8c trabalhora,reni 
andar5& correr ? Porque nenhum trabalho, & cora.' 

fegiiro defcanço : fem ne-| 
nhum tx2)^-ú\\.Q^nQn labora-^ 
bunts^ com feguro def- 
canço, & non deficient. 

290 E ninguém me ar- 
gumente em contrariocQ 
«vviv*w .«w.^. ^^ ^^~r- o exemplo dos SerafínsV 
de> & fô quem quer, & fe que ao lado do trono de 
contenta com menos do Deos vio Ifaias , os quaes 
que pode, paíTa a carreira perpetuamente canta vaó, 
deíla vida fem cançar , né Sanãus, SanbítiSy Si^nãus , jfai.íj.^: 
desfalecer. O mefmoTex- & perpetuamente voavaó. 
to o diz expreíTamente : AiTim era, mas vede o que 
Current^&non labor abuni : diz o Profeta : Sex ala unh 
ambulabunt , & non defi- &fex aUalterl^ & duabus ibid 5. 
cient. Se quizeíTem voar 'v&labartt : diz que cada 
como podiaó, pois tinhaó hum tinha íeis azas, & que 
azas,&: ta es azas , he força voavaò com duas : & iíto 
que voando cançafícm, mefmo lie o que eu digo»* 
ainda que as azas lhes fof- Quem tem féis azas , & 
íèm naturaes. AíTim can- voa fó com duas , íèmpre 
çou a Pomba de Noè ^ & voará , & íempre cantar- 
Tom-8. 



querem , %c fabem viver 
defcançadamente. Quem 
tem azas para voar, &: fe 
contenta com andar s & 
quando muito com cor- 
xer, pode mais do q quer , 
& quer menos do que pó- 



yr 



y 



Hl 



3^- .^" Sermão da 

Masquem tendo fomente de? O mefmo Rey que 
duas, quer voar com feis, pródigo der tudo dè quâ- 
eu vos prometo, quebre- to he fenhor , naó terá 
vementecance de voar,& quem o firva, porque nam 
quefempre chore. Bem o terá com que pague.Saber 
vemos na milerav^ei , 6c poupar o poder, he certo 
triftavidade tantos lou- género de omnipotência, 
ços , que defpojados de com que nunca pode fal • 
quanto cinhaó , & podiam tar à neceílldade humana 
ter, folhes deixou a fortu- oqueouver mifter: fendo 
naosolho? para tarde, & igualmente certo, que ne- 
fem remédio chorarem a nhúaefperançaderecupe- 
kia cegueira. Qiiecego ha rar o defpendido poderá 
taocego, que naò apalpe igualar a providencia de o 
com as mãos , que fó á^Ç- poupar, & naó defpender. 
pendendo hum hamem 291 hm nenhúa coufa. 
menos do que pode, pode fe empregaó os homens- 
eonferv^ar o que pode? Po- com mayor diligencia , & 
nhamos o exemplo no mi- cuidado , que em confer- 
litar, no politico, no eco- vara vida, & com tudo to- 
nomicoj&aindano ruíli- dos morrem. Qualheara- 
co-,& em todos nos fahirà 2aó?Arazaó natural he- 
certa a experiência defta porqueavida confifte no- 
verdade. Empenhar todo humido,& cálido radical. 



oexercito^fem deixar re- 
ferva, fallo-ha o foldado 
arrifcado,mas naó o Capi- 
tão prudente. O lavrador 
que comer toda a novida- 
de do anno , naó terá que 
fe nearno feguinte. Se o 
ofíicial gaíiar quanto ga- 
nha na faude , com que íe 
ha de curar na enfermida- 



osquaesfemprea vão ga- 
itando, & confumindo,ga- 
llandofeelles tambem,& 
confumindofe a fy mef- 
mos. E por mais que a na- 
tureza com o alimento, & 
como medicamento pro- 
cure recuperar , & reftau- 
rar o perdido, como ella 
gaita mais do que pode re- 
cupe- 



terceira Vomingapoft Eptphaniam. J % 

cuperar, he força q aqiiel- quanto mais as alheas. Pá- 

lesdous fundamentos da ra reparo da vida natural 

vida,&: a mefma vida fe criou Deos no Paraiío a 

confuma, & ningueni ef- arvoredavida,cujavutu- 

capedamorte. Sea natu- deera recuperar no mef- 

reza humana gaftára me- mo húmido,^ cálido radi- 

nos do que pôde recupe- cal tudo o que elles em fy > 

rar, fôramos immortaes ; & na mefma vida tiveíTem 

masporqella gafta mais, gaílado,&confumidoimas 

todos morremos. PaíTe- o beneficio dcfta rellaura- 



mos agora da vida natural 
à económica, & politica. 
Náo ha Republica , nem 
familia taó deígovernada, 



ção nenhum homem che- 
gou ao confeguir. Com 
tudo eu leyo no capitulo 

^^.^_._ ^ terceiro dos Provérbios, 

nem ha homem taó prodi- que aquelles que aprende- 
go,& taó perdido, que nos raó a verdadeira fabedo- 
mefmosexceíToscom que ria,&aobrerváo,logrãoos 
feempenha,& 'má:iviá^ a frutos da arvore da vida: 
mais do que pode, n o fa- Lígmmvitaeflhjs.qutap- ^^^^^ 
ça conta de recuperar o prehenderint eam^& quite r,i, 
quegaíla ,& pagar o que ntierit eam , beatus. Que 
deve. Maseftepenfamen- fabiosfaó logo eftes que 
to he taó enganofo , & er- acháraó a arvore da vida , 

& lograó na fua o que ne- 
nhum homem alcançou? 
Saó aquelles que gaitando 
íemprc menos do que pò^ 
dem, confcguem fabiamê' 
te antes, o que a arvore da 
vida avia de fazer depois. 
A arvore da vida avia -lhes 
dereílaurar o gaílado de- 
pois de o gaitarem, & elles 
por prefervaçáo anticipa- 
X ij da, 



•■■>-' »--^ »— -^ — .-^ — — f _- -- 
rado em todos , que aíllm 
como vivem empenha- 
dos, arraílados, & perfe- 
guidos dos feus empe- 
nhos, afllm acabão a trifte, 
mifcravel , &: aborrecida 
vida, deixando as dividas 
em teíiamento como em 
morgado, para que as fa- 
tisfaçáo os filhosjêc netos , 
que íiaó pagaó as fuás. 




y 




3*4 Sermão da 

da, conferv^âo o que ella táoimportanteparaopre 



: 



li- 



lente, como para o futuro 
acabo com húa fentença 
quefendodo EfpiritoSá 
to, atè no mefmo b fpiritc 
Santo he admirável. Ne 



aviaderellaurar.náooga- 
ftando. Se Adam comera 
antes.oqueaviade comer 
depois, fora iramortaljoor 
gnç£ iíTodiíTe Qtos-.Necomèdat ...... ... aum.ravci. in< 

delignovtta.&vivatin capitulo onze da Sabedo. 
aternum-.S, Ao c^n^Ad^m ria divina, falhndo a mef 
naofeznavidanatural,.Fa- ma Sabedoria com Deos, 
zera na vida econom ica , diz aíll m : Omnia in meri- 
& politica os que fabia- fura,& numero, & pondere 
mente confervaó em fy, diJpolmHi , multum enm 
nao gaftando o que a arvo- -vaíére tibifoii fuperefí Fem. 
redavidaavia de recupe- ;»?r : Vòs, Senhor, tudo fa- 
rar, mas nunca recuperou, zeis com conta, pezo, & 
depois de gaitado.^ medida ; porque fo a v-òs 

2P 2 Grandes ecrupu- fobeiafcmpreo poder pa- 
ios deconciencia podéra raquanroqutzerdes. Úo- 
cu apertar agora ncrte pó- tavelporque! SediíTera, 
to pelo grande numero de que Deos faz tudo com' 
almas, que por eftes em- conta, pezo , & medida . 
penhoslemreftituiçáofe porque lhe não falta o po. 
condenáo; mas ha muito der, boa confequéciaera- 
queeftou defenganado, q mas porque lhe fobeja o' 
o que os homens nam fize- mefmo poder : Multuemm 
rem pelos efcrupulos da valére ttbi foli rupereã? 
conveniência muito me- Sim. Porque fazer tudo- 
nos o faraó pelos da con- com conta.pezo, & medi- 
ciencia. Os da con venien. da,he propriedade do po- 
cia pertencem a efta vida , der,que fempre ha de fo- 
osdaconcienciaa outra, bejar:&pelocontrario,fa. 

Íat^m ^'"'"'"'''fl"? ""^* '^'^^'' ^«™ conta.: 
Í,S' . A a ^°"'^'"'^ó pczo,nera medida,he pro- 
pois de toda eftamteria priedadeaffi;n mefmo do 

poder. 



terceira T>omln^^ap^ 
poder, que nem ha de íb- 
bejar, né badar.E fe Deos 
co.Ti todos os cabedaes da 
Omnipotência tudo faz 
com a vara,com a balança, 
& có a penna na máo: com 
a vara para a medida, com 
a balança para o peza , & 
com a penna para o nume- 
ro : onde o poder he táo li- 
mitado como o das pobre- 
2:as humanas, que cabedal 
pôde aver que fe naó con- 
fuma,& aGabe,& que baile 
à prodigalidade, ao defcó- 
ceí-to, à defat-ençâo , ^ ao 
áppetite dos que queren- 
do mais do que pòdemjtu- 
do quanto tem , & quanto 
não tem desbaratáo fem 
conta, fem pezo , & fem 
medida? Oh cegueira do 
lumedaxazaò, & da Fè! 



}ft Epiphaniam, ^ 3^f 
Porque não medimos o 
tempo com a eternidade? 
Porque não pezamos o 
Ceocóo Inferno ? E por- 
que náo fazemos conta da 
que avemos de dar de nòs 
a Deos,& também aos ho- 
mens? Se com efta conta, 
com eíte pezo, &comeíla 
medida ajuftarmos não fò 
as nofías acçcens , fenam 
também os noííos defejos, 
he certo que Q noíTo que- 
rer fe concordará facilmé- 
tecom onoíTo poder 5 & 
contentandonos não fò 
com todo elle , mas com 
menos do que poderaos-, 
pormeyo do ma^^^or ácí- 
canço que pode aver neíía 
vida, cófeguiremos o ver- 
dadeiro , ^ interno da ou« 
tra; 




P. 



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Tom.S. 



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SERMAM 



DA 



SM TA CRVZj 

-NaFcfla dosSoldados. Annodcié^S. 
Eftando na Bahia a Arm ada Real, com muita da pri- 
meira nobreza de ambas as Coroas. 



Erat^omo exTharif^is.mcodemmnemme.^Tinceps In^ 
"^^mHtcvenitadJe/umnoãe.&dtxttekR/bbi, 
àtcutMoyfesexaltavitferpentem indejerto' ha 
exaltan opor t et Filium bominis, Joann. c. 3 . 

í- ^- tempo hum dia, & pouca 

celebridade húa feíía , a 

inte Scíetedias torna hoje a celebrar com 

raz hoje, que repetida veneração eíla 

com folemni- noíTa Igreja. AqueiJa fo- 




dade uníverfai 
celebrou a Igreja Cauho- 
JicaafeíladaSanta Cruz. 
E como fe para hum my- 
ílerio taõaitofoíTc pouco 



lemnidade primeira , ^ 
univcrfal, foy hum devi- 
do reconhccimenco,& hu- 
ma agradecida recorda- 
ção das obrigaçoensanti- 



' Sam 
ras, qvte a nenhua outra 
nemoria depois de Chri- 
[lo as deve o mundo ma- 
pres. Eftasíaõas daquel- 
e fagradoLenho,que foy a 
:aboa em que do naufrá- 
gio de Adam fe falvou o 
género humano, & o in- 
ítrumenco glorio fiíH mo, 
com que o Filho de Deos 
feito homem obrou noíTa 
Redempçaó. Epoftoquc 
na devida póderaçaó^del- 
las, pudéramos tambê em- 
pregar eíle fegundo dia, & 
muitos dias, & fempre fi- 
car devendo i tal vez fe ha 
de deixar o mais fino pelo 
mais útil. Bem fora que 
pudera mais com os ho- 
mens a memoria, que a ef- 
perança^mas que melhor 
razaò de naò fer aílim,quc 
ter dito , que bem fora? 
Heefta húa fidalguia de 
coraçoensque fe acha em 
muito raros, & quem pre- 
ga ha de fallar para todos. 
Porefta caufa avqndo de 
dizer hoje algua coufa da 
fagrada Cruz, que fempre 
fera muito pouco •, deixo 
os benefícios paífadosjque 
lhe devemos agradecer. 



por tratar fomente dosm- 
tereíTesprefentes, que da 
virtude da mefma Cruz, 
ou de fua omnipotência," 
podemos efperar. O ma- 
yor intereíTcôc a mais uni- 

verfal felicidade, que hoje 
podiafuccederaeíteEfta- 
do,fcconfultarmos osde- 
feios,& efperanças de to- 
dos,5c ainda as defefpera. 
çoens de muitos , naó ha 
duvida,que he húa vitoria 
ultima de noíTos inimi- 
gos, & húa liberdade ge- 
ral defte, ou cativeiro, ou 
oppreíraó,queos livres, &: 
os cativos todos padecem, 
Eftehe o mayor intereíTc 
que podia ter o Brafd: &: 
efteavemos de defcobrir 
hoje na Santa Cruz, cuido 
que com tanta occafiaò no 
Evangelho, como node- 
fejo. A graça náo temos 
que ir longe a bufcalla, 
porque na Cruz temos 
cinco fontes delia : Sc ao 
pè da Cruz empe a fobe- 
ranainterceíTora, que no 
U alcance. -^v^^^^^'^- 



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S. II. 



quche necflTario qiieno» 
digaóos Evangeliftas, & 

^S>^URfhomexTha. bem eftes .dol.s de IV 

«„^ ■*-'„■('*•"■' ^'^"^w/x mcfmos faó homens. Elte 

nomne,Trmcej>s^ lud^o. homem pois, eíle fidalgo 

^nmH,c.,emtadlerumna. elteN^code^us veyofal.' 

ffd^>^'ten RaH.. Sicut lar com Chnílo de no re, 

tePHlLT"^^^^^ "^° ^^y° '^^ ^i^» P°r medo 

tasaspnmeiras,&ulcwias «ír««z ^a^^^ra»;. De dia 
ouae/n^f fcvangelhoas contemporizava com o 

ftare?nn^ "''^'i^^-^'- '^''" Chrifto. & mais nam 
veT-^.nrr ^" V^^-"'"- e" Chriftáo. Quantos ha, 
rinem no7°:''5'^"f '™' ^"^ '"^ prezâo^u.to de o 

h^fr, hi ^''"J"""''^^^^ noites tudo lhe leva o d,a. 

Lhí^í S r ' '''^ ° ''^""- ^°- O fi"^ delia vifira, po- 

nomundÍr;-^"''°'^° '^'^ 'í"'^ tanto às efcuras. 

ho™. " K u"" P°"'=°'' "^ó era fem luz, ou defeio 

ÍaToZ' "r''''^"'^^'''- '^^"^' P°^q"^ ^ra para fe 

gacomocoufaparfcular, aconfelhar, perguntar, & 

£r.r W, av.a hum ho- ouvir a doutrina do M^ 

mlZNtT'''^^^^'^^- ftredivino,c^^m>.y:/?^^. 

mem Nicodemus , & era ii. Atè aqui a primeira 

grande fidalgo, Ar.W.««x parte do ^oíTo T W 

T::::'Ir'^' ^ef--- quandofortempcfSa 
Antesdedizer oChioai- fegunda. 



(la fagrado , que era fidal- 
go, diíTe primeiro que era 
homem ; porque ha aigúas 
fidalguias tão endeofadas, 



§■ m. 

29 f \^ Icodemus ttomj. 



N 



ne. £íle 



nome 
Ni' 



K. 



SantaC) 
Nicoderniis, díza Gloíla 
ordinária, que quer dizer, 
f^íãorTopuli, o Vencedor 
do Povo. Grande titulo ! 
E fe bem reparamos nas 
calidades com que o def- 
creve o Evangeliíla, gran- 
des partes tinha Nicode- 
muspara vencedor. Pri- 
meiramente era não fó no- 
bre, mas da primeira no- 
breza, Trinceps lud£orum\ 
&rer illuftre quem vai à 
guerra, he levar ametade 
da vitoria ganhada. Náo 
fabe vencer quem naó fa- 
bedarofangue , & mal o 
pôde dar quem o nam 
tem. Quando David fahio 
ao defaíio com o Gigante , 
voltou o roíio ElRey Saul 
para Abner feu Capitão 
General, & perguntoulhe : 
Ex qiid Hirpe efi hic adolef- 
cens^ De que geração era 
aquelle moço ? Pergun- 
toulhe pela geraçaojdizem 
os Rabinos, que refere A- 
bulenfe, porque taóbrio- 
íbs alentos, &ta6animofa 
reroluçaó em hum Paílor, 
pareccoihe ao Rey , que 
não podiaò nacer, íenaó 
de mais altas raízes. Vio o 



atreverfe a híía cmpreía 
taó árdua, vio o ^rrojaríe 
intrepidamente a hum pe- 
rigo taó manifeílo , 5c pa- 
ra julgar fefahiria vence- 
dor, quiZ'íe informar íe 
era honrado. Tinhalhe di- 
to David(^apertemosmais 
o ponto 3 tinhalhe dito 
David, que defpedaçava 
Víros,& defqueixava Leo- 
ens:&naôíe aquieta com 
tudo iílo Saul , pergunta- 
Ihe pela geração : Ex qua 
Jiirpe eft hic adolefcens-.^ot' 
que era melhor fiador de 
averdelevarao cabo tam 
grande emprefa, ofangoe 
que tiveíTe herdado dos 
pays, queoque derrama- 
va das feras. 

296 Mâyor prova ain- 
da, quanto vai de mulher 
a homem, & taó homem. 
Nota Orígenes, 6c bem, 
quam differente mente fe 
portarão na prifaó,Sc mor- 
te de Chriílo os Difcipu- 
los , & a Magdalena. Os 
Difcipulos fugirão, aMag- 
daiena feguio o animoía- 
mente atè a morte: "Dijci- 
pults fugtentibus ^eum ãd 
mortem euntem feqiiekatur. 
Atè 




mÊÊÊÊKáj 






^ 



2^0 SermaÕ da 

Atèa morte, diíTcOrige- baixeza da fua fortuna: 

ne^jccfediíTeraatè depois como naqaeila occafiaò 

da morte, era o que mais todos perderão a graça, 

devia ponderar. Mas don- claro eità que deixados à 

de tanta differença de do- natureza, cada hum avia 

ze homens a hua mulher? de obrar como quem era. 



Donde tanto animo em 
hua mulher, & tão pouco 
valorem tantos homens? 



Os Difcipulos como gen- 
te plebea deitarão a fugir, 



a Magdalena 



como iílu- 



Ide às choupanas das pra- ílreípoíloquemulher,per. 
yasdeGaíilea, & ao Ca- feverou confiante ao lado 



ílellode Betania , & ahi 
achareis o donde. AMag- 
dalena,ainda que mulher, 
&húa,erade iiluftre folar, 
&fenhora: os Difcipulos, 
poíloque homens,Sf mui- 
tos, eraó plebeos, 6c fem 
nobreza : &onde ouve ef- 
ta, ou faltou, alli fe luzio, 
oufeperdeoovalor. Ou- 
tras fraquezas fe notáraó 
na Magdalena, & por ven- 
tura nacidas da mefma 
caufa. Como era illuftre, 
& fenhora,ouve de fer cor- 
tefáa, paíTou a corteíia a 
fer cuidado, paífáraó os 
cuidados a fer defcuidos. 
Sendo porém a Magdale- 
na taô nobre por geração , 
& os Difcipulos huns pef- 
cadores,quecom o remo, 
& a rede fuílcntavaô a 



fem pre de feu Senhor. Tá- 
to aproveita o fangue para 
osanímoíos procedimen- 
tos , que não eúà o valor 
nos braços, eílà nas veas. 

2517 Não quero dizer 
comiíloque feja neceíla- 
riodefcender dos Godos 
para fer valente , que líTo 
feria contradizer a razaó, 
denegara experiência, A 
efpada que faz a guerra, 6c 
dà as vitorias , naó he fa- 
brica do ouro , fenáo do 
ferroj naó do metal mais 
refplandecente,6c illuítre, 
fenaò do mais duro,6c for- 
te. Para fer tão valerofo 
como Alexandre, nam he 
neceíTario fer filho de Fe- 
lippe de Macedónia. O 
tcíiamento, ou morgado 
de Marte naó exclue a ru- 
deza 



Smita Cruz. 5J i 

deza dos nomes , nem a inimigos ovelhas. A fllm 
vulgaridade dos appelli- quenaófaó totalméte ne- 
dos Baila íêr Gonçalo, &: ceíTarios os altos nacimen- 



fer Fernandez,para fer 
grani Capitão. Honrada 
coufa he , que a valentia 
venha por herança, & por 
continuação de muitas 



tos para ter valerofos pro- 
cedimentos. 

298 Mas o que fó que- 
ro dizer he, que na nobre- 
za efl:à o valor mais certo, 



^ VyiA V AAA WI.«-«. Y*^ V^ '»*■*' — ' 

idades, mas tal vez pôde & mais feguro. O que naó 

vir de taó longe, que che- he nobre,pôde fer valero- 

guejàmuicançada.Quan- fo,onobretem obrigação 

tos do arado fubiraó ao de o fer : & vai muito do 



triunfojôc do triunfo tor- 
narão outra vez laureados 
ao arado ? As lentilhas de- 
raóaRoma os Lentulos, 
& as favas os Fabios. O 
campo para elles era cam- 



que poílb por liberdadcaao 
que devo por natureza. As 
Águias naó geraó pombas: 
&fealgúa vez a natureza 
produziífehum tal mon- 
ílro, apomba fe animaria 



panha,& a agricultura,diz a fer Águia, por naô dege- 
Plinio,arte, &: exercicio nerar dos quea geráraó 



militar; porque na ordem 
com que difpunhaó as 
plantas, aprendiaõ a orde- 
nar^ governar os exérci- 
tos : ài-ve illi eadem curaje 



Não ha efpora para a oufa- 
dia^nem freyo para o te- 
mor,como a memoria do 
próprio nacimento, fe he 
de generofas raizes. Efta- 



minaíraãabant, qua bella : va temerofo S. Jofeph , & 
eademque diligentia awa temerofo com razaõ,por- 
difponebant^ qua cajIra.F-ã.- que era matéria de honra » 

apareceoihehum Anjo, & 
diííel he : Jofeph fili "David 
noli //f/^é-r^: Jofeph íilho de 
David naô temas. A def- 
cendencia de David podia 
eíiar taô eícurecida na rae-^ 



ftor tinha fido o terror dos 
mefmos Romanos o noíTo 
Portuguez Viriato, & tan- 
to que trocou o cajado có 
o baítaõ, dos feus foidados 
foubs fazer Leoens, ôc dos 



muria 





!■ 



!. 



3^2 Sernií. 

moria de Jofepb , quanto 
vai do Cetro Real aos in- 
ílrumctos mecânicos, que 
elle manejava: masquan- 
doo Anjoo exhortaa que 
naótema , lembralhe que 
he da geração de David-, 
porque,comodiz o douto 
Palácio, com nenhúa ou- 
tra confideraçaó mais effi. 
cazmente lhe podia tirar o 
temor, que com a memo- 
ria de que era defcendente 
dehumhomem, que nun- 
ca foube temer. Omefmo 
Chrifto Redemptor nof- 
íb quando ouve de tirar a 
capa para entrar naqnella 
ultima batalharem que vê- 
ceoa morte, & o inferno : 
diz o Evangelifta S. João, 
que fe lembrou primeiro 
de quem era, & donde vi- 
nha: Sciens quiaà ^Deoexi- 
'vit^Ò' adT>euin vadtt^ponit 
'veftimentafua. Lembrou- 
feda geração altiíTima de 
que procedia, lembroufe 
de que era filho do Monar- 
ca univerfal de todo o 
criado,6c como entrou có 
efta lembrança na bata- 
lha, ainda que o amor da 
yidalhefezfcus proteílos 



'.Õ da 
no hcrro, por fim pelejou 
animofillimamfcte, & po- 
ílo q com tanto rangue,tri- 
unfou,& venceo. Eis aqui, 
Senhores, quam bem fun- 
dadas temos as efperanças 
da vitoria que avemos 
mifter ; &: eíla he a primei- 
ra boa caíidade, que con- 
corria em Nicodemus pa- 
ra o titulo de vécedor que 
traz no nome, Vi^ior 'tO'^ 



§• IV. 



A Seguda boa câ- 



29P . _ ^ 

.lidade,6f muito 

melhor que a paíTada, he^a 
que logo fe fegue, & "centt 
ad le/umnoãc , que veyo 
Nicodemus a tratar com 
Jefu de noite. Os diasfel- 
los Deos para nòs, as noi- 
tes para fy : os dias para a$ 
occupaçoens do corpo , as 
noites para os retiros da 
alma: os dias para o exte- 
rior, & vifivel , & por iflb 
claros, as noites para o in- 
terior,& invilivel, & por 
i/To efcuras.AlUm repartia 
Nicodemus o tempo. Os 
dias dava-QS às obrigações 
do 



1 



^ 



Santa 
cíooííicio , camo peíToa 
publica, & para fatisfazer 
às mefmas obrigaçoens 
com acerto, & bom fuc- 
ceíTo, gaitava as noites có 
Deos. Oh Te a noífa milí- 
cia, & os Cabos mayores, 
& menores delia feguif- 
femeíle exemplo em par- 
te das noites , que confia- 
damente me atreveria cu 
a lhe prometer,que para o 
felice, & d^íejada fí:m de 
tantas prevcnçoens, & ap- 
paratos bellicos, naó falta- 
ria Deos em lhe dar hum 
bom diaí 

-'oo ISTenhum General 
teve nelle mundo mayor, 
nem melhor dia,queJofue 
Governador das Armas de 
I frael na conquifta da ter- 
ra dos Cananeos. Deo ba- 
ralha aos Madianrtas ,ro- 
tosjà,& fugitivos quando 
o Sol precipitava a fe ef- 
conder no Occafo : & para 
quepodeíTc profeguir, & 
acabar a vitoria, como fe 
o Sol fora foldado í^u^ má- 
doulhejofuc que paraíTe, 
& parou, ou fez alto o Sol. 
Diz a hiftoria fagrada,que 
íiem aates, nem depois ou- 



Cniz. 33J 

ve taó grande di^:Monfuit 
antea, necpoftea.tam longa)^^^^^ 
dies : grande na duração , 
grande na vitoria, grande 
no império do General, & 
mais que grande na obedi- 
ência do mefmo Deos à 
voz de hum homem , Obe^ 
diente T>eovoci hominis. 
Mas porque deo Deos a 
Jofue hum tal dia ? Porque 
atai Jofue dava a Deos as 
noites. A ntes de dar prin- 
cipio a toda aquetla con- 
quifta nos arrebaldes da 
Cidade dejcricàjfahio jo- 
fue de noite ao campo a 
orar como coftumava} 
quando fubitamente via 
diante de fy hum vulto ar- 
mado de armas brancas c6 
a efpada defem bainhada 
na maó. Kotler eSyUn adver- 
fariorum^Sois noíTojOU dos 
contrários? perguntou fem: 
o perturbar a vifaó : & S. 
Miguel,queerao armado, 
refpondeo: Eu fou o Prin- 
cipe dos exércitos de 
Deos , que em feu nome 
vos venho aíTiftir ,& aju- 
dar para que em tudo a 
que emprenderdes fejais 
vencedor. Que muito lo- 





/>■/" 



3^4 Sermão da 

go, que Deos déíTe hum crirurahequefugiodofeu 



dia taó grande , & cantos 
outros dias ,aquemaí]im 
os partia com De os? Ma- 
yor viíiió foy a donoíTo 
primeiro Aífonfo na noite 
daquelledia,era que ama- 
nheceo Rey, pois vio , «Sc 
ouvio ao Senhor dos An- 
jos, quede fua boca lhe 
deo o titulo^ & lhe aflegu- 
rou o Reyno. Mas que Fa- 
zia entaó o vaIeroro,& de- 
voto Principe? V'igiava,6c 
orava na íiia tenda -, & na 
íiiítoria Tagrada de Ge- 
deaójcomo era efpeiho fe 
cila va vendo a fy, & lendo 
a fua nieíina vitoria. 

301 Que diráò aqui 
muitos Capitaens có no- 
me de Chriítáos, ou íejaó 
dos menores, ou também 
Ç que pôde íer^ dos mayo- 
res? Que dias podem ef- 
perar de Deos, íe daó as 
noites ao diabo ? Gaílar as 
noites com Dalila , & de 



rofto , Ciimfiigerct à facie 
Abfalom. Naó Ihepode Fa- 
zer rofto, nem efperalo de 
cara a cara, voltou as co- 
ílas,& poz-fe em Fugida. 
Vede quem Foge , & de 
quem. Foge de hum rapaz, 
aquelie que em menor 
idade que a fua matava 
Gigantes ; Foge acompa- 
nhado de três Legioens de 
foldados , que o mefmo 
Texto chama FortiíTimos , 
aquellequefô alcácou vi- 
torias , que grandiílimos 
exércitos naó podéraô vê- 
cer. E quem vi^q a David 
naó reciraríè por modo 
honefto , fenáo Fugir taó 
defcompoíla , &: declara- 
damente, fe lhe pergun- 
taíTe de quem Fugia,&por- 
que.-qucrefponderia Da- 
vid ? Creyo que aílím co- 
mo naó ceve roílo para 
aguardar, aíTim naó teria 
boca para refponder. Mas 



dia fer SamFam, ainda que refponde por eJIe S. Am- 

feja levara vitoria pelos brofior/^/í 'D^íl/í ^/I/- 

cabellosjfó por milagre fe- cieAhfiJ.m. FogedeAb- 

ràpolllvel. Fugio David íalaó David , aqucllc que 

de feu filho Abíalão,& a por nome, & porantono- 

frafe çom que o diz a Efr raafia era o valete, T>-.viéI, 



Santa Cruz: 
fdefty manufdrtjs : & por- cançar vitoria -de 
qcíQ^ ^iiapeccãttim illum inimigos 
mhellemftcit : Porque o -"- "-^- 
^eu peccado de valente o 
fez fraco, de animofo o fez 
covarde, de guerreiro, & 
bellicofo o fez imbelle. 
Olhou para húa mulher, 
que naó era fua, &: efte lo 
olhar lhe deo olhado à va- 
lentia : & efte quebranta 
lhe quebrantou o valor, &: 
o animo. Oeixoufe vencer 
doíeuaDerite,por iíTonaò 
pode refiítira hum taó de- 
íigual inimigo : deixou de 
temer a Deos, por iíTo te- 

meoa quemnaõ chegava lor,porquequem tem boa 
aferhomem. - - 

^02 Tendoaílorda 



voífos 
fazei Capitão 
àos voílbs exercites o me- 
do de Dco3. Parece para- 
doxo 5 para vencer fazer 
Capitão o medo. Mas o 
mefmo Santo dà a razão 
dofeudito, &na6 porhu, 
fenaó por dou5 fundamen- 
tos. O primeiro, porque o 
temorde Deos, que coníi- 
ílena obfervancia de fua 
Ley, &na boa conciencia 
dosíbldados , naò fófaz 
pelejar com valor,que naò 
baftapara vencer, masco 
valor,& ventura .* com va- 



noífa Armada diante dos 
olhosjuaólhe poíTo dever 
nefte paOb hum grande 
documento de S. líidoro 
Pelufiota. Vai tnílruiodo 
o Sinto a hum Principe 
como ha de alcançar vito- 
ria de feus inimigos [ que 
para eftes preceitos mili^ 
tares naó he neceíTario 



conciencia, nao teme a. 
morre,&com vêtura, por- 
que quem teme, & obede- 
ce a Deos , ajuda o Deos; 
lufiitiaenimhoc affert^ ut 
qmsftrenue^&felícíterfug- ■ 
net. Eíleheo primeiro fu- 
damento da noíTa parte , o 
fegundohe parte dos ini- 
migos, 6c naõ menos ver- 
dadeiro. E contrario inju- 
Bit ia no fira hofiiú eft anxi- 



profeíTar as armas ] & diz Hum. Oh que divinas pala- 
aílim: òihoftes vincerecu- vras! E pelo contrario, có- 
pisy Uet metu exercttum du- clue o Santo , fe ao noíTo 
áto. Se quereis,Senhor,al- exercito faltar o tem or de 

Deosj> 



>/" 




i; 



I 






.^^<^ Serma^fda 

Dcos,<Sr em lugarda obe- faó com tão felices prin- 
ciienciadefua Ley ouvcr cipios,queaCicladedcJe- 
neile oíFenfas da mefma rico, que era liúa das mais 



Le}r, &: do mefmo Deosj 
taô fora eftarà de nos de- 
fender a nos , que lera o 
niayor foccorro dos ini- 
migos: Injuftkia noftraho- 
ftmm eft auxiltim. Oh pa- 
lavras outra vez verdadei- 
ramente divinas ! Cuida- 
mos qu€ os foccorros do 
inimigo folhe vem deO- 
landa , & enganamonos. 
Também lhe vem de Lis- 
boa^&vaóda Bahia. Para 
faber íe veyo foccorro a 
Pernambuco nao temos 
neceílidade de mandar ef- 
pias à campanha. Meta ca- 
da hum a mão na concien- 



fortes fronteiras daquella 
dilatada Provincia , ao to- 
car fomente das trombe- 
tas Ifraeliticas, como fcos 
muros foraó racionaes^co- 
meçáraó a tremer , a*? pe- 
dras a fc defencaixar, as 
ameasa cair, & tudo em 
hum iníiante «fteve por 
terra. Alcançada eíla mi- 
lagrofa vitoria com uni- 
verfal terror, & aíTombro 
dos Paleftinos, marchou o 
exercito para Hay outra 
Cidade alem doJordaó,& 
fabido pelos explorado- 
res, qu€ baftavão dousmil 
homens para a render,mã- 



cia,& fe acharmos que os dou o prudente Capitão, 

peccados,porqueDeosnos que foífem três mil. Fo- 

caftiga,continuaó, & nam raô, & apenas tinhão in- 

ha emenda j entendamos tentado o aíTaíto, quando 

qiienaófó tem foccorro o voltarão fugindo com as 

inimigo, mas taó podero- máos nos cabellos , mas 



fo,& invencivel,que o naó 
poderemos contraílar. He 
cafo,o que agora direi, que 
me faz tremer todas as ve- 
zes que o leyo. 



naó voItáraó todos , por- 
que muitos fícáraó mor- 
tos no campo. Que vos 
parece que faria Jofue ne- 
Ite caio .^ Rafgaas veílidu- 



303 Eíitroujofueà cÓ- ras, poílrafe por terra di- 
ciuiíla da terra de Promíf- aate de Deos : Senhor, Se- 
nhor, 



^ 



Santa 
lyhor, que he ifto que vejo, 
que novidade , que cafti- 
go ? Náo he Vofla Magc- 
itade a q me mandou fazer 
eíla guerra ? Naó he vof- 
fa infallivel verdade a que 
mepromeceo que vence- 
fia? Pois como feguro eu 
damefma promeíTa , vejo 
agora fugir os meus Tolda- 
dos, & que antes de pele- 
jar tornaò, os que poderão 
tornar , desbaratados, & 
vencidos com tantaafroií- 
ta, &: infâmia deíle povo 
voíTo? Fttnam ut c^pimus^ 
manfiffemustrans lordanê l 
Oh quanto melhor nos fo- 
ra naó ter paflado o Jor- 
dão / Quanto melhor nos 
fora naó ter poílo os pès 
nefta terra,pois nella avia- 
mos de perder a honra, &: 
fc aviaò de fruílrar aííim 
noíTas efperanças ! lílo ái- 
ziajoílie, & odiziaô , & 
lamentavaó todos os an- 
ciãos do Povo com as ca- 
beças cubertas de cinza, 
quando Deos apareceo ao 
General, & refpondeo à 
faa queixa deíla maneira : 
Weccavit IfraeU &pr£Vã' 
rjcatus ejl paãíim meum'- 
Tom. 8. 



Cruz: ^rf 

nec poteritjiare contra hor* 
ftesfuos^ easque fugiet. Jo- 
fue, peccou o Povo, & por 
iíTo foraó vencidos os teus 
foldados: & defenganatej 
que aílim como agora fu^ 
gíraó eftes três mil , aílira 
haó de fugir todos , fe o* 
mandares continuar a có- 
quifta. Pareceome nefte 
paíTo , &: aífim parecerá a 
todos, que teriáo os Ifrae- 
litas levantado outro idof 
lo como no deferto , ou 
cometido univeríalmente 
algum facrilegio naó me^ 
nos horrendo , porque hu 
caítigo taó fubito , 6c ta6 
extraordinário naó podia 
cahir fenão fobre algum 
peccado atrociífimo , &: 
eíTe muito geral, em que 
todos foífem complices. 
Lede por^m o Texto , & 
achareis5qem todo aqueU 
k grande Povo naó tinha 
ávido outro peccado mais 
que bum furto de hum fol^ 
dado, chamado Acham, o 
qoalfe aproveitara de al- 
gúacoufa dosdefpojosde 
Jencò contra o preceito 
em que Deos tinha man^ 
dado queimar toda a Ci- 
Y dade, 



WTtlT 




^5^ Sermão da 

aade,& quanto nella avia. entáo, para fegurar a cm- 



ASim o declarou expref- 
^mente o mefmo Deos ; 

íilij Ifrael pravaricati 
Jkntmâdatum) nam Achan 
tu-lit ahqutd de anathema 



prefa. Deosheo quedà,8c 
tira as vitorias, & fó as po- 
dem efperar com coníian- 
ça,os que pela emendados 
peccados, & obfervancia 



t£. Notai aquç\le,a/íquídj defuaLeyo tiverem pro 
aigúâ coufa , porque foy picio. Náo fora Nicode 



i^uito pouca, o que o Tol- 
dado tomou. Pois por hum 
ío peccado, & de hum fó 
homem , & em matéria 
quaíi leve, permite Deos 
que fujaó três mil folda- 
dosj&aííirmaque do mef- 
mo modo avia de fugir to- 
do o exercito, que coníla- 
va de feiscentos mil ? Sim. 
Fará que vejamos todos, 
fe temos razáo de tremer, 
&quammal fundadas faó 
as efperanças,com que nos 
prometemos grandes vi- 
toríaSjOndeha tantos pec- 
cadosjéctaó pouca emen- 
da. Não nos fiemos em 
Armadas,nem em exérci- 
tos. /Vinda que as A miadas 
foflem de cinco mil nãos, 
& os exércitos de cinco 
milhoensdefoldados, co- 
mo os de Xerxes , todo ef- 
fe apparato nada importa- 
ria , como não importou 



mus Nicodemus, iílo he, 
yiãor ijopuliy vencedor áo 
PovOjíeaílimonão fizera. 
E que fazia ? Para fer dig- 
no de tal nome procurava 
não fó ter propicio a Chri- 
fto, mas infinuarfe no tra- 
to familiar do mefmo Se- 
nhor , empregando nefte' 
cuidado as horas mais li- 
vres de todos os outros 3 
quaesíaóasdanoire: titc 
vemt aa lefum nocie. 



í. V. 



304 



Ainda ú\-\\i'3i ou» 
tra boa parte 
Nicodemus , que tantas 
faó neceíTarias para o no- 
me de vencedor. Et dtxit 
tlli'. Rabht : o fim para que 
vinha bufcaraC'irií1-o,era 
paraoconfultar, 8c ouvir 
comomeílre. Meílre era 
cambem Nicodemus, Tu 
Ma- 



SantaCníz. '_ 33? 

iíagi/ler h in Ifiaeh & nc- çar outras muitas , he lo- 
ta reflexão de fendo me- geitarojuizopropno.que 
trevirbufcar outro me náohefogeito ao mando- 
tre,confiftiaoferbé fun- alheio. Perguntado Me- 
lado, & naó váo o nome xandre Magno com qu® 
luetinha. O mayorpeti- induftria.ou comqueme- 
Lsc perdição da guerra yos em taó breve tempo fe 
íecuidarem os Doutores fizera fenhor do mundo, 
iefta arte, que fabem tu- diz Eftrobeo, que refpoa-^ 
io Os fabios em qualquer dera eftas palavras iCm. 
faculdade mais fabem ou- fi>js, eloquenUa.&artetm. 
vindo,que d.fcorrendo, & peratoria : Com os confe- 
mais acompanhados, que lhos, com a eloquencia,& 
fós • Meliores ^ftmantur com a arte de governar, 
„uiM mn omnia pr^u- exércitos. No ultimo M^ 
U»f, diz o grande polki- garpozaarte, & no pn-, 
;« càfllodoro ■• que fem- meiro o confelho ; porque 
Se foraí eftim^dos por o confelho heaarte da^ 
Melhores os que de fy fó a,tes,&aalma, & intellH 
naô prefumem tudo. Jà fe genc.a do que elta enfinaj 
anrefumpçáo do faber fe A arte preícreve preceitos 
aiuntaàfoberania dopo- em cômum.o confelho co-, 
ScomoemNicodemus, fidera as circunftancias 
nueeraMeftre,&Princi- particulares: aarteeofina 
r neftes do;s refvela- Squefehadefazer.ocon- 
Sdros eftà certo o precipi- feiho delibera quando, co- 
cio & a ruina. Para conie- mo,& por quem : Vegeffio 
s«ífféitos grandes , & difpoz osf.tios , & bata- 
làralevaraocaboempre- Ihasdelonge, oconfelhei- 
Fasd ifficu tofas , mais'fe- ro tem diante dos olhos o 
lura he húa ignorância bê exercito inim.go,& o pro- 
f confeíhada ,^ue húa ci- pno, os Capitaens, osfol- 
enm Drefumida. A pri- dados,onuraero, anaçao. 
Sa ?ítona para alc^an- asarmas,&^tèaoccafiaa 




ir 



H. 



U" SermáS da 

do tei-reno, do Sol, & do asquiz dever ao feu bra 

vento, que fe náo vem fe- ço, fenáo ao feu confelho 



náo de perto. Os Levitas 
quequizeráoimitaras Fa- 
çanhas dos Macabeos, 
porque pelejarão fem có- 
felho, perderão em hum 
dia o que elles com prudé- 
te,& bem aconfelhado va- 
lor tinhaó ganhado cm, 



30f Ouçamos ao ho 
mem mais fabio, o qual fc 
logrou perpetua paz, por- 
que entendeo melhor que 
todos a guerra. N® Capí- 
tulo 20. dos Provérbios dà 
Salamâo hum documento 
militarnotavel. Diz que 



mmtos Se algum Capi- a* guerras fe hão de go ver- 
go poderá efcufar o con- nar com ov lemes: Guber- 
felho, era ogemo de^ Ale- naculu truãanaafunt beU 
^ndre,rormado pela na- la. Sefallára das guerras, 
turezaparaconquiftar, & & batalhas navaes. pouca 
vxncer.Masnemafuaar- dífficuldade tinha '^efta 
te,nemafua fortuna o li- Proverbm , porque naS 
fongeoude maneira, que ha duvida,que nas vitoriai 
mm antepuzeíTe o confe- do mar, gra^nde p rte cabe 



Ihoaambas. Oque deíi- 
gualou o poder>póde-o fu- 
priraarte, o que errou a 
mefma arte,pòde-o emen- 
dar a fortuna , mas o. que 
íe intentou fem confelho, 
ainda que o favoreça o ca- 
fo, nunca he vitoria, A que 
alcançou de fy mcfmo A- 
Jexandre, eiTa lhe deo to- 
das as outras; porque fe íò- 
geitou a perguntar quem 
íabíafogeitaromundo,& 
avendodedeverdealgum 



ao leme. Masfallando de. 
todas as guerras abfoluta-^ 
mente,que proporção tem' 
as Armadas com os exerci-^ 
tos, os navios com os eA^ 
quadroens,& os comba- 
tes do mar com as bata- 
lhas da terra, <Sc da campa- 
nha?No fundo doOriginal 
Hebreo lançou Saiamaôa 
ancora, &efcon deo ofen- 
tido delle feu Provérbio, 
Onde a noíTa Vulgata diz 
mgubcrnacidts , lè o He- 



^.odoasfuasvuona;:^am* E^SI.; L^haT; 

Sa 



Santa 
Salimaóaos confelhos le- 
mes da guerra : para que 
entenda a politica militar 
dos exércitos , que tanto 
cafo baó de fazer os Gene- 
raes do confeiho, como os 
Pilotos do Icinc.Se na Ca- 
pitania onde vai a bandei- 
ra,^- o farol , faltou o le- 
me, derrotoufea Armada: 
& fe o General defcuida- 
do, ou prefumido defpre- 
zar o confeiho, de-fe tam- 
bém por derrotado,& per- 
dido. Affim como para na- 
vegar, & fazer viagem a 
nao, hc ncceíTario que yà 
fempre o leme na mão,jà a 
húa, jà a outra parte,acco. 
modandofeas velas ao ve- 
to •, aílim na guerra,em que 
os accidentes faó taó vá- 
rios, nenhúa coufa fe deve 
intentar, nem feguir, fe 
não com maduro confe- 
iho. AíTim o efcreveo an- 
tigamente S.Ba filio:&: de- 
pois que a arte Náutica fa- 
hio do Mediterrâneo ao 
Oceano, Hugo Cardeal. 
Masqueferiajou quefuc- 
cederia,fe o confeiho nam 
fe ouviíTe , ou ouvido fe 
luótomaíTe? Semconful- 
Tom.S. 



Cruz. 54^ 

tar as Eílrellas Ce pode 
pronoílícar facilmente. A 
nao que naõdà pelo leme, 
& toma por davante, mui 
arrifcada vai a encalhar 
em hum baixo, ou fe roni- 
perem hum Recife. Li- 
vrenos Deos de que nam 
fejataò fatal o nome, co- 
mo he próprio. 

306 Entre todos os 
exemplos deíla defa ten- 
ção, ( que lhe naó quero 
dar outro nome ) he o que 
fuccedeo ao exercito de 
Nabucodonofor na mal 
lograda conquifta de Be- 
tulia. Chegou Olofernes 
com numerofiíTimo exer- 
cito àvifta da quella gran- 
de Cidade, & vendo que 
fe apercebia àdefenfa, 6c 
pararefiftir, o que fua ío- 
berba naó prefumia 5 cha- 
mou a confeiho de guerra 
fomente por razaó de efta- 
do: que alguns perguntao 
o que he bem que fefaça, 
fóparafaberemo que naó 
haô de fazer. Ouve de di- 
zer feu voto Achior , que 
eraMeftrede Campo da 
gente Amonita , 6c naó 
querendo adular , como 
Yiij outros, 



A.:^r 



* 



I 






J+i Sermaõda 

eraXi.""?' ^''^^' '^'"^ P^íT^reodos OS moradores 

m obrigado, o que ente'- deBetulia , paflana tam- 

dia deohun, parecer fin- be„x Achior"^ elles peTo 

li ^'r ''"^"^ '^''"5'^- «revimentocomquepre- 

tZ^,.Zf V"^ ^T exercitos,&eIlepelopou. 

I eS-at;r' '^'^''^■^- ',^'=°"'" ^ omnipotência 

irrrnf '*" ' í' ^""^ '^^ í"^" Monarca.*^ E logo 

peccados contra a Ley do com a mefma arroganci! , 

de W"^"'^^* ^''^'- ^^^^y-°' '^''re, m^nkta! 

de benao ouveíTepecca- do.&metey-o dentro em 

dos quelevantaíTem logo Betulia, pak que a mefma 

Ze^Vrl ' P'^^^"^^'»P°flj- Cidade lhe fir.a de carce- 

veirena, queo Deos de re.emqueaguardeprefóa 

feoni^^"'°''"'^Í'^"=^^^ execuçâodaminhaVenté. 

acomerS-P"r''^°' ' ^"'^ S"" Ditofo Achior.feaffim 

acomereíTem feguramen- morrera por defcnfa da 

ÍimIÍ^ I ' ^^'"^^^ ^^"^ verdade,&poraver acon- 

duvida a levanao. Boa có- felhado o que devia ! Mas 

firmaçâodoquediíTemos a morte Jue naó eftava 

no difcurfo paíTado : & era longe, outro golpe amea- 

Oentio,& fem fe quem af- cava menos imaginado,& 

lim votou .-para quevejáo mais alto. Em todo efíe 

os que fundão os feus pa- tempo tinha eftado íudith 

receresem outras pohn- orando a Deos, cuberta de 

casjlevotao como racio- " ' 
naes, & como Chriftáos. 

307 Zombou Olofer- 
•nes do confelho , & jurou 
muito indignado pela vi- 
da de Nabucodonofor, 
que pelos mefmos fios da 
efpada por onde aviaó de 



cilícios, agora porem ve- 
Hida de galas, & enrique- 
cida de joy as fae da Cida- 
de, entra pelos arrayaes 
inimigos,& levada à Ten- 
da de Olofernes , fubita- 
mente ficou o Bárbaro taó 
cativodefua fcrmofura, 
que 



SantaCruzl 3'hJ 

auc a valerofa Heroina oqualemfíra apredco cm 
cevcaoccariaÓ,que bufca- fua própria cabeça , pofto 
^a, de lhe cortara cabeça, que tarde, quam tatal, 6c 
como cortou, caando dor- perniciofa coufa ícja aos 
mindo, com a fua própria Capitaens não querer to- 
efpada. Com a primeira marconfelho. Nao hera- 
luzdoSolapareccoa ca- zâo que faiba vencer, que 
beça de Oloferaes fobre fenaò fabe convencer da 
os muros de BetuUa na razáo: Scfoy juílo caftigo 
ponta de húa lança, foge o do Ceo, que perdeíFe a ca- 
cxercito aíTombrado , fc- beça,quem fenao quiz go- 
guem-no os da Cidade, vernar fenao por fua ca- 
executando nos cercado- beça. Quanto melhor lhe 
res o que elles pretendiaó^ eílivera a Olofernes aver 
&efte foy o fim daquela feguidoo confelho de A- 
le foberbiíTimo monftro, chior ! mas porque fcnaô 
morto, afrontado, perdi- quizfogeitar ao bom pa- 
do,& perdendo o mais ílo- recer de hum homem pru- 
rente exercito, fempreatè dente, pôrmitio Deos fe 
allivitoriofo,porfuacul- fogeitaíTe tanto ao bem 
pa, não por lhe faltar que parecer de hÚa mulher 
bem oaconfeihaífe , mas inimiga, que por ella fícaf- 
pornaó querer tomar con- feofeu exercito desbara- 
felho. Sirva de epitáfio à ta do, & vencido , & eiíc 
caveira daquelk disforme fem honra , & fem vida. 
cabeça, o que elegante , & Tudo fe perdeo neRe ca- 
iudiciofaménte efcreveo fo,& fóo fruto do bom 
hum nobre Comentador cófelho fenao perdeo^por- 
deíte paífo. Hic finis Olo- q fe naó aproveitou a quê 
fermsfuhy qui tandem ma^ foy dado , rendeo muito a 
lofuo didícit quam ferni- quem o decTodos os Ca- 
ciofum ducibusfit aliem no bos;do exercito de Olofer- 
(eqin confilia.^E.^Q foy o de- nes, ou morrérão.ou forao 
feltrado fim de Olofernes, vencidos, 6s f ô Achior íi- 



- ; y 












344 Sermão ^a 

cou vivo,& triunfante : & valor : docilidade no juízo 

naofovivotemporalmen- paraoconfeiho: & fami- 

te, mas vivo para toda a liaridade com Deos para o 

eternidade , porque rece- favor do Ceo, fem o qual 

beo a Fe do verdadeiro tudo o demais aproveita 

Deos, cuja caufadsfendé- pouco. Mas toda e fia ar- 

ra. Aprendáo pois deite moniadeboas partes , as 

tunefto,& formidável ex- defcompunha , & deslu- 

emplo os Generaes dos ílravahumfenao,opeior, 

exercitos,a não defprezar, & mais feyo que podia fer, 

niasvencrar,& feguir os &omaisoppoílo, ôccon- 

coníelhos de quem lhos trario naó fóà vitoria, fe- 

pode dar : 6c nós reconhe- naó à efperança delia, que 

çamosquambem aíTenta- era o medo : Tropterme^ 



va fobre a docilidade de 
Nicodemus o nome de 
Viãarpopuli', pois fendo 
letrado,vinha confultarjSc 
ouvir » & ferido Meílre, 
aprender de quem o podia 
cnfinar, Et dixitehRabhK 



5. VI. 



308 



'Emos vifro as 

três boas, & ne- 

eeíTarias calidades , que 
concorriaó em Nicode- 
mus para o nome que ti- 
nha de vencedor , í^iãor 
Topíili : nobreza de fan- 
gue, familiaridade com. 

Dcos,docilidade no juízo. ^.™™.,.^,.«. ,,^,a 

XMobrezade íangueparao diz,queo livre dopoder, 

das 



tum liiàaorum, K oufadia 
heametadeda vitoria, & 
quemtemeo ao inimigo, 
jà vay vencido. Ouçamos 
a hum dos mais bem"difci- 
plinadosfoldados, &maís 
exprimentados Capitães, 
que ouve no mudo. Exau-? 
diT>eus oratí07iem meam^ 
cíim deprecor\ Ouvi Senhor 
("diz David 3 a minha ora- 
ção, ou a minha dcpreca- 
çáo,quehe propriamente 
quando pedimos a Deos, 
que nos livre de algú mal, 
E de que pedia David que 
o livraíTe Deos > Do temor 
do ini m igo: A timorc inhni^ 
cí eripe animam tnea. Na m 



^ 



SantaCfuz. , t- ■^'•"^ 

dasarmas,& das aftucias res dos muitos. A.lim o 

to inimigo , fenaó do feu fez Deos muitas vezes, & 

femUiftohcdeque elle oprometeo expreffamea- 

Davidoteraeire.Comofe tenoCap. 23. doExodo, 

differa; Se eu temer ao fegurando aos Ifraelitas, 

meu.nimigo,amdaqu* o que quando entraflem na 

.eupoder%amayor,el- -quifta da terra de^^^^ 



leme vencera a mim ^mas 
feeu o naó temer, ainda 
quefejamayorofeu, eu o 
vencerei a elle.Por iíTo Se- 
nhor vos peço,na5 que me 
livreis dosfeus exércitos, 



miííaó , mandaria diante 
dos k\xs exércitos o feu 
medo , o qual logo poria 
em fugida a todos os ini- 
migos: Terror em meum mit- 
liv^reis Cios leus exercita. , tam infracurfum tuum, & 
nê das fuás forças iguaes, occidam omnemfopulum ad e.oí. 
oufuperiores, fenaó deq quemingredierts, cunÚoru^ 3- 7- 
o meu coração o tema: A queinimicorum tuorumco- 
timore inimici eripe anima ram te terga 'vertam. E co- 
meam. Fallava David co- moNicodemus contra o 
mo quem fibía por expe- feu nome de vencedor era 
riencia a ordem, com que taõ tocado , ou penetrado 
Deos como Senhor dos do medo, que pelo que ti- 
exercitos os difpoem quâ- nha aos Judeos fenaô atrc- 
do quer dar, ou tirar a vi- via a bufcar a Chrifto de 
toria Quando Deos quer dia •, para o Senhor o curar 
dar a vitoria, ainda que o deftc achaque,q na guerra 
poder feja pouco, & defi- hea mais perigofa doen- 
gual, põem na vanguarda ça,& a pefte total das vito- 
o medo,& tanto que o me- rias : & para de medrofo,& 
do enveíle os inimigos, covarde o fazer oufado, 6c 
por muitos , &: fortes que animofo 5 que antidoto,ou 
fejaô, logo os obriga a vol- remédio lhe applicaria?0 
tar as coíias , & fícaó os remédio foy o que fobre 
muitos vencidos dospou- todos os da natureza, & da 
cosj& os poucos vencedcH razaótema mayor eíEca- 



It 



cia,6cvirtude para tiraro quaréradias decaminho, 



temor, que he o da Santa 
CruZjCm que o triunfador 
da morte , & do Inferno 
foy exaltado : Sicut Moyfes 
exaltavttferpentem in de- 
Jerto\ita exdtari oportet 
Filium hominis. He a fe- 



que em menos diftancia, 
naó fe deo por feguro o 
Pro^eta de hua mulher, 
Kainha,& irada i lançoufe 
ao pede hua arvore, Scalli 
trocado fubitamente de 
penfamentos, começou a 



gundapa„edono.ToThe- S;-.7;pr;r.or3U 

ma,o qual entrou mais tar- vit anima fna ut m^rere- 

de doqueeuquizeraimas tur. Repara muito nefta 

com dizer muito empou- fubita mudança S íoaô 

co.fuprira a brevxdadeo ChryfoftomoXpergQta' 

ouvem nao fo fupponho Se Elias vem fueindo da 

animofos, fcnaó animofif- morte, como agora chama 



fimos, mas para que o fc- 
jaó mais que fuperlativ^a. 
mente, ouçaó qual hc a 
virtude da Santa Cru ^ pa- 
ra tirar o temor. Determi- 
nouJTezabel tirar a vida a 
Elias; tanto que elle o fou- 
be, temerofo da morte,co • 
mo homem emfím, & nam 
fc dando por feguro na 



porella 7 Sc pouco ha a 
temia tanto, como a^ora a 
defaíia? Por ventura era 
Elias daqucllcs valentes 
de longe, que fora da oc- 
caíiaóbrazona5,& quan- 
do eíla chega viraó as co- 
ftas? Naó por certo. Pois 
fe tanto temia, & fugia da 
morte, quem lhe tirou ef- 
te temor ? O mefmo S. 



Corte, nem em outro lu- .. ....^, . ,^ ,,,,,,,^ ^^ 

gar povoado, meteofc por Chryfoílomo , & outros 

hum de^rto fugindo a to- Santos dizem que o defer- 

daapreíTa, Tem faber por to. Tinha andado tantos 

irajo- ^^^^'J^mmtEltas.ò-fur^ dias por aquelle deferto 

fcphas. gens abtjt quocumque eum defpovoado , & ermo • & 

ferebatvoluntas. PaíTados naó he muito que a morte, 

que 



Santa Cruz. 347 

que temia cortefaÔ,a defa- mofo , & intrépido , que 



voltando o roílo para a 
mefma morte de que hia 
fugindo, a provocou , & 
chamou por ella : Tetivit 
anima fuíB ut moreretur. 

510 Mas para que he 
pedir teílemunhos à fom- 
bra,fe na realidade da mef- 
ma Cruz os temos mais 
evidentes. Chega Chri- 
ílo noíTo Redemptor ao 
Horto 5 & reprefentando- 
felhe rúvamente a afron- 
^tv aa W..7... .^ **-^ ^^a--. tofiíTima morte, & os tor- 
ilUc mortem ambit. Aquel- mentos exceffivos, que na 
la arvore, a cujo tronco fe ultima batalha daquella 
arrimoti Elias , era figura noite , & dia lhe eftavao 
da arvore da Cruz, & tan- aparelhados para padecer: 
to que fu2;io para ella,Iogo naò fó os Evangeliftas co- 
naô temeo a morte de que feíTaÓ que temeo pavoro- 
fueia, antes a defafiou . He famente, Cafit t adere ,& 
certo que a fom bradas ar- /á'z;fr^>maso meímo Se- 
vores também tem virtu- nhor com inílancxas três 
de, ou nociva,ou faudavel, vezes repetidas pedio , & 
de que traz os exemplos tornou a pedir ao Padre, 
Plinio:& a virtude da fom- que por qualquer modo 



fiaíTe anacoreta. Boa mo 
ralidadc, fe em íy mefma 
naó tivera a replica 5 por- 
que Elias naó fó temeo a 
morte quando fugio da 
Corte, íenaò també quan- 
do caminhou tantos dias 
pelodeferto. Qual foy lo- 
go a caufa defta taó notá- 
vel mudança ? Naó foy a 
virtude do defer to, fenaó 
a da arvore, diz excellen- 
,, temente Ruperto: Confuj 
• gttad 'Vívifici cruéis lignu 



brada Cruz he defafibm 
braros ânimos ,& lançar 
delks todo o temor. Por 
iíTo o Profeta temerofo5& 
fugitivo, tanto que fe poz 
à fombra daquella fagrada 



poílivel o livraíTe de be- 
ber aquelle cálix : Tater^ 
fipcJJMe eft tranfeat a me 
cálix ífte. Tanta era a re- 
pugnância, & horror com 
que naturalmente como 



'M: 



arvore, logo íicou taõ ani- homem lhe tinha penetra- 
- ^ d@ 



áL^ 



;4;.-- 



* 



j4-^ , SermaUa 

anfmo L t' '• ^'^^'' ^ duvida, ou admiração de 
nXp V ^^r^'°-^^" S.Bernardo fallando com ^-i 
mente daquelle terrível o mefmo Chriílo ^///^,/? "^ 

a hora em que paíTando nelefu .peUscaltcemornni^ 

ne auferrr.é' poftqtiam ebi^ 
bifti^fitis > Que mudança 
heeílataó fubita,ô bom J 
Jefu ? Antes de beber o ■ 
caliz temíeis tanto che- 



do Horto ao Calvário, & 
pregado o mefmo Senhor 
na Cruz bebeo eíFediva- 
mente naó outro , fenam o 
mefmo caliz , que tanto 



Iltavofn^.ríf^?", T d^^'q"epor todos osme- 

r.! }). r^' P^<l"e™â's ddle.,8f agora queo ten- 

eraefta fede? Do mefmo des jà bebido , &quaf, ef- 

dequeviracheyonoHor- mais? Onde eftáo aquel- 

Saíerd""''" l^^'epugnaacias,aqu^cilas 

crueldades, de mais pe- agonias,aquelles temores, 

nas, de mais afrontas , de & horrores taó apertados 



i 



mais tormentos. S. Lou- 
renço Juíliniano: Sitituti- 
querer inebriatus amar nu- 
\j£' ^^^^^d^^c diiriorafullmere 
de tri- defíderat. Como fe diíTera: 
Síii C^ontinuaomefmo San- 



agoi 
cap. 



que vos obngáraó ao re- 
clamar com tantas inílan- 
cias ? Eftáo , & ficarão no 
HortOj&em toda a parte 
onde naó avia Cruz: po- 
rém no Calvário, onde o 



1 



to J òí h£c qua tolero pau- mefmo Chrifto foy prega- 

cavtdentur.addeflagellum do,& levantado nella , a 

Jiagello.apponevulneravul- virtude da mefma Cruz, 

nenbus, lacera, ure, confige^ ou por efficacia,& eífeito , 

percute , occide : Vniverfa ou por doutrina , & exem- 

hac^érmaioratotodefiderio pio lhe infundio ao mef- 

fitio, n^o 



I 



SaritaCruz,^: ^^9 

mo Senhor tal ânimos tal temor. Mas quando naá 



l!k 



valor, tal fortalezajqueos 
tnefmos tormentos , que 
imaginados repugnava, & 
remia,. padecidos lhe caii'- 
favaó íede-, & ardentiíllr 
nãos deíejos. de padecer 
muitos mais. DiíTe poreF- 
Feito , ou por exemplo j 
porqueefta virtude de ia* 
Fundir animo , & valor», 
parece que Chrifto era o 
[juea podia comunicar á; 
Cruz , & naó a Cruz a 
Chrifto. Mas lembremo- 
aos que quando Deos lu- 
tou comjacobj os braços 
de Deos comunicavaó aos 
traços de Jacob o valor, 8c 
imefmo valor r.cebido 
[iDS braços de Jacob tor- 
nava depois em reíiíleor 
ciasdos braços de Deos, 
Da m°rma maneira os 
braços de Chri'lQ prega- 
dos nos braços dl Cruz: 
isde Chrillo cómunica- 
v.2i ) aos da Cruz o valor,Sc 
Dmelma valor reciproca- 
mencefe podia outra vez 
r<:ceber nos de Chriílo, 
taò capaz agora de rece- 
bera Fortaleza, como no 
tiprto o fora de admitir o 



FoíTeporefHcacia, &:efFei- 
to, Foy fem nenhúa duvida f 
por doutrina,&: por exem- 
plo j para queentendefle- 
mos , & foubeíTemos os ■ 
qjue fomos membros do 
mefmo Chrifto>que o re- 
médio, & o antido to mais , 
eíiicaz de todos os temo- 
res he a virtude da fua, 
Cru2i. --> 

1 1 2 Se n do po i s ta 6 pa- ; 
derofa,&eíhcaz a. virtude., 
da fanta Cruz para tirar 
temores, & dar animo, & 
valor ', venda Chriílo a 
Nicodemus taó ti m ido, &,, 
defanimado, que atè em 
roa terias, que tocavaó à ; 
Eè, naooufavaa fe decla- 
rar intrepidamente •, traz- 
Iheà memoria o milagre 
da ferpentcde Moyfes , 8s 
omylierio, & figura da. 
Cruz: Sicut Mayfis exãh- 
tavitferpentem in deferto i 
it a exaltãri.opoTtet t tUum' 
kominís j para com efte fa- 
grado linal animar fuafra- 
qiaeza , & fortalecer fua. 
puíilanimidade. Aíllm^^ 
fo7,& fe vio com admirá- 
vel experiência tanto no» 
~ meí^ 



r 



I- 
I' 



k . 



Marc. 



Y 



^ 5'o Sermão da 

mermo NicodemuSjComo diajanticipandofe â noite 



em feu - companheiro Jo- 
fcphab Arimathea , am- 
bos difcipiilos do mefmo 
Senhor, mas occultos por 
rnedo dosjudeos. De am- 
bos nocaò,&pondéraó os 
Evangeliftas húa diíferen- 
ça digna de fumma admi- 



do ParafceveSjem que naó 
era licito fcpultar. Lem- 
brame a eííe propofiro, 
que na morte de S. Paulo 
primeiro Ermitão, vendo- 
feS. Antaò Abbade fem 
remédio de lhe dar fepul- 
tura , fahiraó do deíbrto 



ração. De Jofeph diz o dousLeoens,os quaes c5 
EvágeliftaS. Marcos, que asunhaslhe cavarão , 8c 



oufadamente entrou a Pi- 
]atos,&lhepedioo corpo 
do Senhor, AndaBer in- 
troivit ad Tilatttw. , érpe- 
tfjt corpus lefít : & diz ou- 
fadamente, porque dantes 



abríraó hua cova capaz doíí 
fanto corpo. Tacs íe mo-"' 
ílráraóneíia occafiaôjo- 
fcph, & Nicodemus, am- 
bos eraô ovelhas de Chri- 
fl:o, mas ovelhas fracas , & 



commedodo povo, nem puíilanimef, & que por if- 
para dar indícios de que fofugiaó, &: feefcondiaó 



erafeudifcipulo tinha ou- 
fadia. De Nicodemus diz 
o Evangelifi-a S. Joaô,que 



*^ 39- trouxera grande copia de 



có medo dos Lobos ^prop- 
ter metum Judaorum ; po- 
rém agora como dous 
Leoens bravos,&animo- 



efpecies aromáticas para los fem medo, nem rcfpei- 
ungir o mefmo corpo de- todos Principes dos Sa- 



funtOj&qeíteera aquelle 
Nicodemus , que dantes 
bufcava ao Senhor de noi- 
te : ^í venerat aa lefum 
noãeprimum. E nota que 
dantes vinha de noite , no- 
j^feprimum: porque agora 
fem o medo que também 
tinha do povo, veyo de 



cerdotes, nem de todajc- 
rufalèm,nem de toda Ju- 
dèa,publicamente,6c àvi- 
íla de todo^ , naó fó trata- 
rão de dar fcpultura a ícu 
Mefl"re,òí Senhor, masde 
quefoííea mais decente, 
&honorifica,com quena- 
q^elle tempo fe coíiuma- 
vaó 



^ 



SantãCruz,. ífí 

traÓ embaifamar os defun- Cnicem. Antes da Cruz era 



tos de mayoF auchorida- 
de,& veneração. Pois fe 
dances eraõ ovelhas fra- 
cas, & tímidas , quem os 
fez agora Leoens caó ani 



tímido,& covarde, depois 
da Cruz jà he valente, ani- 
mofo 5 U intrépido •, por- 
que eíla he a virtude mais 
que humana, eíFes faò ef- 



mofos , & intrépidos ? Se feitos prodigiofos , & ad- 
dantes naó tinhaó atrevi- miráveis daquelle fagrada 
mento para fe confeííar trofeo de noíía redemp- 
por Difcipulos de Chrifto çaó, dar animo, dar brios, 
quando eltava vivo,&: li- dar valor contra os inimi- 
vre i como agora naÓ te- gos, contra os perigos, có- 
mem,quando tanto mayo- tra a meíma morte,& con- 
res motivos tinhaó de te- tra tudoo que na vida, & 
mer depois de condenado, depois delia pôde cauíàr 
& morto em húa Cruz? temor. 
Por iíTo mefmo. Porque 
dantes naó avia Cruz de 
Chrifto, & depois de cru- 
cificado, fim. Divinamen- 
te Theophila£to dizendo 
donoíTo NiGodemusoq 



í. Vir. 

313 pSta fó qualida- 



tima era 



quarta, &ul- 
a que faltava a 



igualmête merecerão am- Nicodemus para íer Nii- 

bos : Ko^e ^enit ad Jefkm codemus , illo he, para fa- 

propter metum ludaarum , zer verdadeiro o nome 

fedpofi Crucê multum offi- que tinha de vencedor, /^/. 

r/V, cr liheralitatisimpen- ãorTopulà.AíTim quG.Sc^ 

dit. Notai muito a palavra nhores meus , & foldados 

íedpaft Crucem.Qucrtis fa- de Chrifto, fe naquelle fa- 

bcr porque daiues temia grado Lenho, fe naquelle 

tanto Nicodemus, & ago- glorioliftimo inftrumento 

ra nada teme ? He porque de fuás vitorias tem depo- 

atites de Chrifto fer cruci- fitado o Senhor dos exer- 

iieado.naò avia Cxuz.foji eitos a fortaleza Chriftáai 

acviíi- 




lil' 



' í f ^ Serma 

-^«c vinculado o triunfador 
'do mundo o valor Catho- 
lico i armemfe todos os 
que querem vencer, ar- 
memfe todos os que tem 
obrigação de pelejar, com 
o final fagrado da Santa 
Cruz, & em fé de taó in- 
venciveis armas bem nos 
.podemos prometer fegura 
•a vitoria. Quando o mef 
mo Filho de Deosarmado 
•fó da humanidade de que 
:feveftira,veyor€Ílaurar o 
Jtiundo, & reílituir à fua 
obediência o género hu- 
mano, que debaixo da ij- 
rannia dõ demónio fe lhe 
tinha rebellado, o bando 
-que mandou lançar para 
xjue fe aliíiaíTem es que 
.quizeíTem debaixo das 
iuas bandeirasjdizia aílim: 
Miiquisnjult lerrire poft me, 
toUat Crucemjuam-i é^fe- 
quaUiT me-. Todo o que m e 
quizcr acompanhar neíia 
guerra,tomeao hombro a 
fuaCruz, &: figame. J/zde 
quomodo militem fuum Rex 
Calorvímarmtt: Vede, diz 
S. Joaó Antiocheno, as ar- 
iXigs com que o Rey do 
ík.o .arma os fcus foida- 



'^da 



dos : Nondeditfcutum, not 
gal-am^ non thoracem , fea 
quodhís úmnihusfirmius ac 
valentius eft , prajidium à 
Cnice , ò-fymbolum viã(h- 
ri£\ Naó os arma com ef- 
<:udos nos braços, nem có 
mumoensna cabeça,nem 
com peitos fortes fobre o 
coração j mas arma-os com 
húaarma mais firme, mais 
forte, &: mais invencivel 
quetodac, quehea Cruz, 
na qualle^aô juntamente 
a defenfa para a guerra , & 
o final da vicoria : ^Prafidiu 
àCruce^.&fymhclum vião- 
ri£ Com cilas armas pois 
fearmem,& neílas armas 
ponhaó toda a confiança 
os noíTosvâlerofosfolda- 
dos , & fefe fiaré também 
das que faó próprias do 
braço Portuguez, fiemfe 
mais das Cruzes, que dos 
fios da efpada. De hum 
foidado Portuguez diíTe 
hum Poeta também noíFo, 
que levava 

Nos fios da e^-pada q menea 
A vida própria, & a morte 

alhca. 
Masiíloporq? Porque as 
C ruzes eítaò taó pe; to áo% 
punhos. Te- 



Santa Cruz, ^ÍS 

.,4. Tcnlia6 logo por vez,re a Cruz lhe der o 
^'^ — "^ '-- valor,& defde a Cruz h^^ 

zer a enveftida. Divina-^i 
mente S.Chryfoílomo fai^' 
lando do bom Ladraó: Fe- 



certo, & certiílimo todos 
os que aiTim armados ou 
entrarem nas batalhas, ou 
aíHiltaremos muroSjOuaf- 



Sa6 averà nem foldados ^ intravlt paradrjumrom- 

nô valentes , nem Cabos ph^afarnmea arcur>,daUr., 

ao exprimentados, nem AccometeooLadraode/- 



Fortalezas tao inexpug 
naveis, nem inimigos em- 
íim taó obílinados , que fe 
Ihenaórendão. A praça 
mais forte , & mais bem 



deafua Cruz, & fazendo 
delia efcada aflaltou as 
muralhas do Paraifo , & 
normais que eftavaó de- 
fendidas de Cherubins, & 



mais forte , 6c mais dciu '•^''"'"''X fnã: „s Che- 

prefidiada que nunca ou- efpadas de f^S?' °^^'l^_ 

U nemaverà, foy o Pa- ■^"bins.asefpadas & o fo- 

raiVo terreal depois de lan- gonada lhe pode reliitir, 

çaiodeíle Adam. porque & foy o primeiro que vi- 

fftava guarnecida de Che- toriofo, & triunfante re- 

rubinsfíbldados immor- ftauroua famofUlma , Sc 

taes, todos com armas de felicifl.ma praça, que A- 

fo^ò queforaó as primei- dam com tanta fraqueza 

rasSueoivenomundo:Sc perdera. Naô fey . nem 

IvrTquemfe atreva a en- poflb d.zer ma.s. E fe Irua 

veftir, &poíra entrar por Cruz nas coftas da tanto 



força efta praça ? Sim, E 
quem.? Hum homem: & 
com que exércitos ? Sò : Ôc 
com que armas? Defpido. 
Pois hum homems&fó, 8c 
defpido ha de entrar, & 
render o Paraifo defendi- 
do de Cherubins com ar- 
mas de fogo ? Sim outra 
Tom.8. 



valor , & fortaleza ,onde 
tantos trazem a Cruz nos 
peitos, & todos a podem 
levar no coração , quem 
averà na emprefa prefente 
que poíía defefperar da 
vitoria ? AíTim como anti- 
gamente moílrando Deos 
a Conítantino o final da 
Z Cruz 



I ^ 



1, 




5/4- SermaSda 

CruznoCeo, IhediíTe.i» ostroFeosnerie muado,8c 



hocfignovinces ; o mefmo 
eftà dizendo ao invido 
General das noíTas Armas. 
Eíle final do Ceo feja o fa- 
rol, que ligaó as Armadas 
nomar,5cefieo Eílcndar- 



os mortos ( que naó ha vé- 
cerfem morrer ^ logrem 
os triunfos da fua conílá- 
cia no outro, exaltados to- 
dos pela virtude da Santa 
Cruz, como o mcfmoRe- 



te Keal, que levem diante demptorfoy exaltado nel- 

dos olhos os exércitos na la: ^tcut Moyfes exaltavit 

terra, para que vencedo- Jerpentem in dtftrto : ita 

resem hum , & outro ele- exaltart oporttt bilíumbo- 

mento, os vivos levantem minis. 



: i > 




SER- 



155 



SERM A 




D E 



SANTA IRIA. 



Em Santarém. 



finque autem fx eis erantfatu£ , & quinque 
prudentes, Matth.25. 

em tudo pareça prudente»' 
he louco. lílo he o que nos 
enfinou o divino Meftre, 
& ifto o que hoje nos re- 
pete o Evangelho na tao 
fabída Parábola das dez 




Sfiiii como fe- 
gurar a vida da 
eternidade hea 
mayor prudên- 



cia, afiim perdela,ou arrif- Virgens. Cinco dellas,diz 
cala he a mais rematada Chriíto , eraó loucas , ,& 



Trn*;'^ 



locura. Sò aquelle, quefe 
foube íalvar,pofí'o que em 
tudoomais obraíTe como 
nefcio, foy prudente :& íó 
aquelle que naô fabe fegu- 
rareíle ponto , ainda que 



cinco prudentes : Quinque ^^^^ 
ex eis erantfãtua , ô' qttin- 
queprudentes. E em que 
coníiftio a prudência das 
prudentcSjêc a locura das 
loucas i? Confiílio em que 
Z ij de- 







1i 



3>^ Sermão de 

depois da prevenção de cas com as alimpadas apa 



húas,&naó de outras, as 
prudentes com as fuás ala- 
padas aceras,entrára5 em 
companhia do Efpofo às 
vodas do Ceo : & as loucas 
comas alampadas apaga- 
das, acháraó a porca cerra- 
da,&/icáraóde fora. Oh 
Iria Virgem entre rodas,& 
em tudo llní^ulariíUma! 
Singular na vída , íingular 
na morte, fingular na fí 



gadas: &aS.Iria como a 
achou ? Não ha duvida, 
que com a alampada apa- 
gada, como logo veremos. 
Masniílo meíino cóíiílio 
aquellaexcel}encia,que a 
fez fingular, & única enrre 
todas, & fobre todas. As 
outras Virgens encrárarj 
noCcocom as alampadas 
acefas, Iria com a alampa- 

' .. daapagada:as outrascom 

pultura, & com hngulari- applaufos de Virc^ens pru- 
dade, nem antes, nem de- dentes. Iria com^^iuppofi- 



pois de vòs comunicada a 
outrem, verdadeiramente 
única í A cada híía das ou- 



tras V 



irgenscjja ia 



ncida- 



de,8c gloria celebra a Igre- 
ja, o louvor que particu- 
larmcce ilie canta, he aver 
iidohúa do numero da^ 
prudentes : H£c efl virgo 
fapiens , & U7ia de numero 
prudentnm. Eu porém o 



çoen.s de Virgem louca.& 
porque na opíniaó do mu- 
do foy húa do numero das 
loucas , poriíTo ç,^Qç.à^o 
fingular, & unicamente a 
todas as prudentes. Eíla 
fera hoje a matéria do meu 
difcurfo, tanto para gloria 
de S.Iria, como para ex- 
emplo de Sátarèm. E por- 
que vejo que a novidade 



que fingularmente admi- do aíTumpto vos parece 
ro na noíTa Santa , he que difficultofaj fejaeíTatam^ 



naó fô foy Virgem do nu- 
mero das prudences,fena6 
tarnbem do numero das 
loucas. As prudentes a- 
chou as a morte com as 
alampadas acefas, as lou- 



bem nova razão de me 
ajudares a pedir mais que 
a ordinária graça. Ave 
Maria. 



$.n. 



Santa Ir ia. IÍ7 

falfidade deíla apparcn- 
g^ II. cia,& com nomes de dia- 

mantes, rubis , &fafiras 
procuraó fazer folida a 
fua vaidade, nao pudéraó 
deixar de confeíTar, quam 
frágil he,& de pouca áw- 
r^. For ma bonumfragile eíf^ 
diíTeOvidio: & Séneca: 
Res eft forma fugax. Os Fi- 
lofofos que mais profcíTào 
o verdadeiro , conceden- 
dolhe os poderes, naòlhe 
podéraó negar a fraqueza, 
&falfidade. Sócrates cha- 
mou à fermofura tyran- 
nia,mas de breve tempo, 
Brevis temporis tyrannis : 
Theophrafto chamoulhe 
engano mwào/Deceptio ta- 
cita^ porque fem fallar en- 
gana. E que direi dos San- 
tos Padres ?S.Jeronym© 
diz, que a fermofura he hu 
efquecimento do ufo da 
razaó , Obliviotationis ; & 
onde falta olume da razaó, 
quaes ferio ascegueiras,ôc 
enganos dos fent idos. <* S. 
Bafilio, S.Bernardo , S E- 
frem, S. Ifidoro Pelufiota , 
& outrosSantos, para á^Ç- 
cobrir o m^fmo engano, 
fem chegar aos horrores 
Z iij da 



^i(> ÇEntença hc divi- 
^na taò infallivel 
na vcrdade,como provada 
na experiencia,que aquel- 
la graça da natureza,a que 
os olhos chamáo fermo- 
fura, naòhe mais quehúa 
apparencia da mefmavi- 
íl:a,enganofa, &vãa. Co- 
mecemos por aqui,p0Ís ef- 
te foy o principio fatal da- 
quella horrenda tragedia* 
que depois de convertida 
-em gloria,tirou, & deo o 
nome a efta antiquiílima, 
^nobiUíTima Republica. 
Hea graça , & fermofura 
cnganofa, & ^%^'.Fallax 
gratid^& vana eft pule hri' 
tuí/oydizo Efpirito Santo 
por boca de Salamaõ , o 
mais exprimentado neíle 
engano, & o mais defen- 
ganado defta vaidade. Ne 
era neceíTario o teílemu- 
nho de taó foberanas au- 
thoridades divina, & hu- 
mana, para |>erfuadir efta 
féàvifta. Atè os Poetas, 
que tanto fe empregaò em 
disfarçar ., & encobrir a 
Tom.S. 



MU 




,< . ..líi/í/*' 




í 






.1 ,. 

V. 



3^^ Sermão 

da repukiira , eonfideraó 
as fealdades interiores,que 
efteefpeciofovéo occulta 
ainda em vida, & corren- 
do a cortina ao ídolo taõ 
adorado da fermorura,na6 
fôa detnoftraó fea , mas 
afquerofa , í<z medonha. 
Porém naó faó eftes ainda 
osaíTombrosda noífa tra- 
gedia. 

317 SJoaó Chryfoílo- 
nio, 6c S. Gregório Nazi- 
anzeno, parando mais be* 
nigna m cntQ fó na 1 u p er íi- 
cie, em que confiíle a Çct- 
mofura , íuppoé lem mais 
apparato, que he hua pin- 
tura de duas cores,branco, 
& vermelho. Aífim a deí- 
creveo no feu amado a- 
quella Paftora taó bem 
entendida como Salamaó: 
'Díleãus meus candidus, & 
rubktindiis. A fer mofura 
poisem toda a fua esfera, 
ou he natural , ou artifi- 
cial, ou moral. O branco, 
& vermelho da artificial 
heo quefe vai comprar 
às boticas, onde eíláo ve- 
naes todaafomana as ca- 
ras,com que fe ha deapa- 
lecer ao domingo, O da 



dt 



X. 'i 



fer mofura moral celebra 
Nazianzeno na Sáta Vir- 
gem Gorgonia , da qual 
diz, que o branco de que 
uíàvanoroíto , era o que 
caufaojejum, & ©verme- 
lho, com que tingia as fa- 
ces, o que tira a ellas o pe- 
jo : FriHSílli rubor placebaty 
quempudoraffert^unus can^ 
dor^quemparit ahftlnentia. 
Finalmente S. Chryfofto- 
mo definindo a fermofiira 
natural fíficamente , ^yz 
que naó he outra coufa, 
que húa miftura de flei- 
ma,& langue : ^Fulchritu- 
doefl phkgma cumfang^utne 
mixtum : a fiei ma faz o 
branco, o fangue o verme- 
lho. Mas o que eu not-o 
digno de particular ad?- 
vertencia neiles dous hu- 
mores, he que a compofi- 
çáodelles caufa a fermo- 
rura,& a delcompoli*j-aò as 
enfermidades. Sendo po- 
rém as enfermidades as 
armas naturaes da morte, 
muito mais mortes tem 
caufadoa fleima , 6c o fan- 
gue em quanto origem da 
fermofura, que em quanto 
inftrumentgs da mefma 
mor' 



Santa Ir ia. ÍJf 

lortc. Em Dina matou a Iria , que fegundo a dcf- 

crm jfura a Sichem , em crcvcm as hiltorias , & a 

)alila matou a SamfaÓ, encarecem as tradiçocns , 

imíudith matou a Olo- ainda por feu mal, ou íeu 

•eracs, cm Helena a toda bem, era mayor que a que 

rroya,em Lucrécia ato- cegouaDavid Vio-atifia 

iaRomar cm Florinda a vezBritaldo filho do í>e- 



:oda Hcrpanha,& na noíTa 
Santa, que he mais , naó a 
outrem fenão a ella mef- 
ma. Outros adoecerão da 
fua fermorura,mas a quem 
matou a mefma fermofu- 
ra,foyàmefmaIria. 

§. III. 



nhorde Nabancia, & no 
mefmo ponto adoeceo c6 
táo perigofo accidéte, que 
fem duvida morrera da fe- 
rida, fe a mefma caufa del- 
ia com animo varonil © 
não viíitára. Sarou-o mila- 
grofamentecomo final da 
Cruz 5 acompanhado de 
razoens fantaSi debaixo da 



2 1 8 n Ntre as façanhas promeíTa porém , que no 

rjtra2icas,queexe. cafo de aceitar efpofo hu- 

<:utou^morcego,guiado mano, nâo Teria o«tro fe- 

porcfte engano da vifta, naoaelle Ateaqui o(| fa; 

Nenhum caibfoy taó fe- cilmentefe podia crer.Oq 

inelhante em feus effeitos agora fe fegae,nem imagi- 

aodelria,comoo deBer- narfe podia Compoíto , 

fabé,pofto que de nenhum & emendado o primeiro 

modo i2ual. Era David amor j u venil, & profano, 

R ev,& Santo, quando vío dous annos gaitou o de- 

fauenaò devera) a Berfa- monio em conquiílar ou- 

bé & ambas eftas colunas tros annos mais maduros , 

derrubou de hú tiro aquel- & render também, 6? pro- 

lavilta,triúfaadodapro- fanar o fagrado Ura Re- 

fano no R.ey,& do íagrado migio Monge, & por iua^ 

no Profeta a fua fermoíu- cans,& virtudes meílrede 

ra Tal a fermofurâ de Inalem cujo peito a con- 



s^ 



l\ i 



,\. 



^60 

tinuaçaô da 

acendeo tal fogo , que tro 
cado o affearo paternal em 
amor libidinofo, em ver 
dea animar, Sc louvar de- 
pois da primeira batalha, 
como taò gloriofamente 
vencedora,determinou de 
a render a feu furiofo ap- 
petite,& triunfar nellada 
mefma vitoria. Declarou- 
fe fem reverêcia deDeos, 



Sermh de 

merma viíla fastemperou por arte ma- 
gica húa bebida , a qual 
íemfaber a innocente a 
que tomava , lhe caufou 
húa tal inchação no ven- 
tre, que naó podendo en- 
cobrir as roupas o queco- 
briaó,daváo manifeílosíi- 
naesde ter concebido, & 
naô eftar longe do parto. 
O primeiro que chorou 
com publicas lagrimas a 



nem pe;o de fy mefmo : & dergraça,& caída da fua íi- 

comoa fantadifcipulacó lhaerpiritual,foyomermo 

os mefmos documentos machinador daquelle en- 

fantií]imos,quedeíIe tinha gano, & naó fó Britaldo 

recebido,lheeftranhaíre a (do qual diremos depois^ 

tealdade de taó facriíego , mas todo o Povo, que dan- 

& abominável intento 3 tes venerava a Iria como 

que fana a hypocrifia da- Santa , carregando a ago- 

quellas taó ytráts cans, radenomesfeyos,&: vis.a 



vendo as aífim confundi- 
daSj&afrontadasPNaóha 



publicava por mulher li- 
viana, íidta, efcandalofa, 



vicio que hua vez precipi- & torpe, infiel aoshomés! 
tado fenaó defpenhe em traidora a fua profííTaó , & 



outros mayores. Refolve- 
fea vingar húa afronta có 
outra,&ovelho mao , & 
infame a infamara conílá- 
cehoneílidade da caíliíJi- 
madonzella. Naó das er- 
vas de que fefuílenrava 
comoErniitaó,masdeou- 



adultera ao mefmo Deos. 
Neftc abifmo de confu- 
faó, & miferia paíTou Iria 
osdias,quelhe reíláraô de 
vida, defprezada ,& infa- 
mada nos olhos , & bocas 
do mundo : cm fy mefma 
porem, & para com feudi* 



eras exquií]tas,&: veneno- vinoEfpoío taò iiel ,ta6 

co.i» 



Santa 
conílantc&taõpuraco' 
mo os puros efpiritos. E 
porque [ temos chegado 
ao noíío ponto ] & porque 
Iria fendo na realidade 
Virgem prudente, & pru- 
dentiílima,na opinião do 
mundo era louca, 6c quan- 
do as outras fahiraô a re- 
ceber o Efpofo có as alam- 
padas acefas , ella fahio 
com a fua efcurecida , & 
apagada 5 eíla notável dif- 
ferença foy a exceliencia 
fingular,queafezmais il- 
luftre,& gloriofa que to- 
das. Tftoheo que prome- 
ti, 6^0 qiue digo: vede ago- 
ra fe tenho razaò. 

519 Acabou S. Iria a 
vida com opinião de lou- 
ca, &eíla foy a mayor ex- 
celiencia ,&amayor pro- 
va de fua heróica virtude, 
confervarfe Virgem pru- 
dente na realidade, fendo 
louca na opinião. Senaó 
fora heroicamente pru- 
dente, quando fevioinfa- 
mada,6c reputada por lou- 
ca, avia de perder total- 
mente o juizo,& enloqie- 
«er verdadeiramente. Naó 
me atrevera a dizer taiito > 



Iria. 3<^i 

fenaó fora fentença ex- 
preíTadomefmo Deos no 
Texto Original. Calumnia ^cd. 
infanirefacitfapientem^ A 
calumnia, & o falfotefte- 
munhc? faz endoudecer o 
fabio. E osfetenta Inter- 
pretes declarado efta dou- 
dice,ouo modo defte en- 
doudecer , dizem que he 
circunferendo , dandolhe 
volta ao juizo. Masonof- 
fo parece que eílà duvido- 
foem crer hum tamanho 
exceíTo , porque o contra- 
diz a experiência. He cer- 
to que ha muitas calum- 
nias5&: muitos falfos tefte- 
munhos, & com tudo nam 
vemos endoudecer os ca- 
lumniados. Seaffimfora, 
todo o mundo eftivera na 
cafa dos loucos Pois fe ha 
tantos caiu mniados, por- 
que ha taó poucos doudos.^* 
Porqu- ha poucos fizudos. 
A liltrituranaò diz que a 
calumnia faz endoudecer 
a todos , fenaô aos fabios : 
Calumnia infanirefacit fa-. 
pientem. Calumniado, & 
infamado íó perde o juizo 
quem o tem. Neíla circun- 
Itanciaconfiftio o heróico 
dâ 



w:-^-x 



•? 



^6i Sermão de 

da virtude d:a noíTa Santa. 
Sendo Virgem prudente, 
verfe reputada por louca , 
& naó cnloquecer. As Vir- 
gens nefcias bem me rio 
eu que endoudeceíTem, 
porque naó tin'"a6 juizo 
para tanto. E para que ve- 
jais fe tinha baftance razaó 
Iria para lhe dar o juizo 
húa volta, vede quantas 
voltas deo o feu caio a to- 
dos os juízos da terra onde 
vivia. Todos dantes a re- 
putavaó por Virgem pu 
riílima, & tanto que foy 
calumniada,todos a repu- 
tarão por mà mulher , tro- 
cando o conceito , & juizo 
que da fua virtude faziaó. 
Efe aquelle cafo foy ba- 
ílante para voltar os juí- 
zos de todos, qua nto m ais 
poderofo feria para dar 
nua volta ao juizo da mef- 
ma a quem tocava, & na 
parte mais viva , &: mais 
delicada da honra, qual he 
a honeftidade de húa don- 
zella nobre? Sem duvida 
endoudeceria íendo taó 
£àbia,& prudente , fe a fua 
fabedoria,& prudécia naó 
fora cxcelleatementc he- 
foiça. 



320 Por CYcellente* 
mente heróica louvaò to- 
dos os Santos a conílancii 
deSuzana calumniada, éc 
infamada , mas as circun- 
da ncias da feu cafo nc- 
nhúa comparação tem có 
o de S. Iria. Diz S. A mbro- 
íio que acufada Suzana ca- 
iava, porque tinha contra 
fyonumero ,& a idade 
dosfeusacufadores : Nu- 
merus Sacerdotutn , atque ^ 
feneãus vocem auferebat\ 
puelU, Todos fe compa- 
deciaó de Suzana, & todos 
dePendiaófua innocencia, 
& ella com tudo naó fe de- 
fendia, mas calava j por- 
que os acufadores eraó 
dous,8c ella húa; os acufa- 
dores velhos,& ella mop. 
Vede agora quanto vai de 
cafo a cafo. Suzana tinha 
dous contra fy,& Iria nam 
fó dous contra fy , nem fó 
duzentos,fenaò univerfal- 
mente todos,& a húa roz ; 
naó avendo quem ao me- 
nos puzeíTe em duvida a 
fua culpa, mas reconhccê- 
do a todos por verdadei- 
ra, fu pondo a todos por 
cerca, Óc condcnandu-a lO" 



Santa 
dos como provada. Suza- 
na tinha contra fy húa fó 
idade, & hQa íb condi(,am 
de homens : & Iria tinha 
contra fy todas as idades , 
& todas as condiçoens, & 
todos os eílados : os ve- 
lhos,&osmoçoSjOS gran- 
des, & os pequenos ; os 
Ecclefiafticos,& os leigo.^> 
osnobres,&os plebeos^os 
homens", & as mulheres, 
femaveralgum,oualgúa, 
quenáoacrecentaííeà fua 
infâmia algum novo no- 
me , 6c novo género de 
afronta. Final mente,com 
circuníiancia de defempa- 
ro, & contrariedade inau- 
dita, 8c náo imaginável, 
nem a fy mefma fe tinha 
Iria por fy, fenáo contra 
fy. Porque ainda que no 
peito tinha a concicnci-i, 
& a virtude, pouco abaixo 
do mefmo peito tinha o 
cforpo do delito, &a evi- 
dencia da prova. A razão, 
a innocencia, a verdaue, a 
conciencia,tudo alli efta- 
va opprimido da fem- 
razãOjda calúnia^ da méti- 
ra,diin)uftiça,doodíO,da 
vingança: & poito que i 



Iria, B^5 

conciencia diante de Deos 
vai mil teílemunhas, dian- 
te dos homens tinha Iria 
contra fy hiía fó, que valia 
para com elles mais que 
muitas mil, qual he a dos 
olhos. Que importa que a 
defendeífe a conciencia 
que fe náo vè , quando te- 
ftemunhava contra ella a 
vifta de todos ? E que cc- 
paraçáo tem com efta af- 
íliçáoas anguftiasaquefe 
vio reduzida Suzana : Ân- ^^^^^f • 
gufii^ funt mihi undlque ? 

321 A bebida quedeo 
airia Remigio, podelhe 
caufar a falfa inchação, 
mas da mefma incharão 
viíla, & crida parece que 
não podia deixar de fubir 
à cabeça da Santa húa tal 
perturbaçaó>que lhe nam 
tiraíreojuizo. Os grandes 
traba}hoSjafSiçoens,& an- 
guftias , chamãofe na fa- 
grada Efcritura ealiz. Ba- 
ilem por rodos es exem- 
plos os do texto de Jere- 
mias : òume calkem vim 
furoris hujus de manu mea , -/^'^J^- 
é' propina bis de illo cunãis 
gètibusyad quas ego mittam 
te^à- bihmtyà- turbabutur^ 
& ivfa"^ 



:;i|lr , 



9 



lerem. 
51.7. 



^^•^ Sermão de 

a-mfament. Enoutr^p^v junt.quafi ebrius. Os ho-' 

^^LalixjureusB^byíonm mens ainda náo tinham 



naufragado , masojuizo, 
& o entendimento, & to- 
da a ciência náutica jà ef- 
tava fofobrada , afFogada , 
&■ perdida : Omnisfapten' 
tia eornm devorai a eft. Na - 
da foy menor que eíta , a 
tempeftadeem que fe vío 
correr fortuna (^ deixaime 
chamarlhe aílim ) a nao 
Santa Iria. Verdadeira- 
mente fubíraó as ondas ao 
Ceo, Afcendunt ufque ad 



mayiu T>9m'ini inebrians 
univerfam t erram. E por- 
que razão os grandes tra- 
balhos, «Sc aíBiçoésfecha- 
máo caliz ? Õs mefmos 
Textos o dizem. Porque 
aílira como o vinho de- 
m a fiada mente bebido ti- 
ra o j u i zo , Cálix in manu 
^omini inebrians -y aíIIm os 
trabalhos, anguftias, &af- 
íliçoens, fe laó grandes, 

tem os mefmos efFeitos ^.^, ..,..,..^„, ,,.^», ^^ 
em quem os padece, & o CW^x.porque chegarão a 
fazem endoudecer, ^z'^/-- bater o celeíle, & quebrar 
bent.&turbabuntur^ é-in- no eftrellado de fuás virtu- 
fament Tal foy o eíFeito áts : & decéraó ate os 
daquella terrível tempe- ^bíCmos.Erdefcenduntuf-^ 
Itade, em que diz David, queaaabyffos •, porque atè 
que as ondas fubiaó atè o o mais profundo da des- 
Ceo,&xleciaóatè osabif- honra,& da infâmia che- 
mos, AJcendunt ufque ad gou o abatimento das fuás 

'S"d vf V^tr^^''^^^^^ afrontas. Todos os ven- 
^^^^r/<?/. Comofeatem- 
peftadenáoforade agua, 
& os Pilotos a tiveraó be- 
bido toda, aílim os defcrc- 

ve o Profeta areados, com .„.„«^^ ^^o v^iaa , cx i- 

ojuizoperdido,& naó fe apagadodo farol. 6 efe u- 

podendo ter em pè : Ani- ro da noite ; porq ncnhua 

^^^'^ymaeorumm maíts tabefce^ claridade aparecia que 

bat^turbatifunt , ámti pudeíTedefcobrir o enga- 
no : 



CO s,&- elementos fe conju- 
rarão para o feu naufrá- 
gio , ajudando o horror 
delleoefcuro da noite, o 
inchado das velas , & o 



Santa 
no: o inchado das velas; 
porque todo o artifício 
magico confiílio na incha- 
ção, que naò diminuía, ou 
amainava, antes crecia : & 
o apagado do Farol^porque 
fendo ília Virgem pru- 
dente, o niefmo vento lhe 
apagou a alampada, fican- 
do taò efcurecida como as 
das loucas. Quefe feguia 
pois neile eílado fenam 
arear » enlouquecer , ôc 
perder o juizo? Mas como 
o laílro era a conciencia, o 
bvojo a largueza de animo, 
o leme a prudência , &o 
Pilotoojuizode Iria,tani 
fora eíleve de arear, ou íc 
perder, que fempre eílsve 
firme, conítante, 6c fupe- 
rioratodos os mares. Sò 
fe pareceo com Suzana no 
admirável filencio, tanto 
em fy,quando devera eílar 
fora de íy, que tudo fofria, 
calava, 6c comia configo. 
E comia configo, torno a 
dizer. 

2 23 Sobre a fentença 
que ai legamos do Efpiri- 
to Sanco,em que diz que a 
calumnia faz endoudecer 
os fabios,acrecentalogo o 



Iria. 3^5' 

mefmo Texto, que para 
mayor perdição dojuizo, 
faz também a calumnia 
perdera fortaleza do co- 
ração , Etperdet roburcor- 
disillhis. Mas o que nefte 
additamento merece naò 
vulgar reparo5he a verfaó; 
Syriaca , a qual em lugar 
da fortaleza do coraçam 



treslada o coração dos ^ 
dentes , Etperdet cor den "-'" • 
tium íllius. Quem vio nun^- 
ca, nem ouvio tal anato-? 
miado coração ! Por ven- 
tura o coração tem dêtes ? 
Direi O coração dos que 
a calumnia endoudece, 
naó : mas o dos que nani 
perdem nella o juizo , fim. 
A calumnia, o falfo tefte- 
munho,6c a afronta, Sz in- 
fâmia que delia reíulta, 
tem muitas durezas que 
quebratjque maftigar,que 
moer,6c remoer : êc ifto fó 
o faz hum coração taó ge- 
ri erofo, taò grande , èc taò 
forte como o de S. Iria^ 
Outro coração que em tal 
eílado fe achaíTe com den- 
tes, morderfehia de raiva , 
comerfehia de deíefpera- 
ção, cu fe enviaria como 
hum 




i; 

4. 
i t 

ll' 



3^^ SermarUe 

hum leaó furiofo a defpe- famia C notem muito ifto 

terr'"" ^^"^-^r^^'"r ^^ ^"^ ^^° facilmente in? 

thorde tao eftranha ma/, famaó as honras alheas ) 

dadej porem o cor.çao he- he tal a força, & poder da 

roíco de Iria nunca mais infâmia, que fendo a calú- 



em fy, que quando tantas 
razocns tinha para fair 
fora de fy, tudo fofría,tu. 
do calava, tudo comia c«5- 
íigo. Oh mulher mais que 



-nia teílemunho falfo , a 
mefma infâmia fará que a 
innocencia infamada o fa- 
ça verdadeiro. Ouve hum 
Homem Rico , diz Chri- 



inulher,em quem fó a pru- ílo, o qual encomendou o 
5.!"^"! .^^"^^ '^'^^''\ "".^.^^ governo de fuás herdades 



tragou a innocencia! Ain 
nocencia tragou a bebida , 
a prudência digerio a in- 
fâmia. Na opinião como 
louca,&naó Virgem, na 
realidade como Virgem 
prudentiíJima,& naó das 
cinco, mas fuperior a to 



1 



a hum criado com nome 
de adminiftrador ddhs. 
Efendo^efte infamado co^ 
mo diílipador das rendas 
que cobrava: ^/ ai ff ama- Lu< 
tuseftapudillum, quafidif^^' 
fipaffet boHã ipjius ; cha- | 
mou-ooamo, & mandou- " 



1? IT^^^J^T "^^^^^ ^^^^^ ^^^ ^^^ ^^^^ contas, por- 

que náo avia de exercitar 
mais o oíficío: Redde rathm 
nem villtcationis tu£y jafn 
enim non poteris víllicarè, 
O que he, ou o que deve 
ter toda a parábola, he fer 
verifimil : & efta ultima 



erant prudentes. 
5. IV. 



5^3 \yf ^^^^ ^oy "ai^ 

IVxenloquecer S. 

Iria na opinião de louca , . > . ^^ ^,,^ uitnua 

mas muito mais foy ainda, refoluçáo parece q o naó 

naó fe conformar com a foy,porduas razoens. Pri- 

mefma opinião, & vendo- meira, porque a culpa do 

fe infamada naó cooperar delatado mais moílra fer 

coma mefma infâmia He fundada em fofpeita , que 

tal a força, & poder da 'm- era verdadeira prova ; lílb 

* quer 



V 



Santa 
quer dizer aquelle quafi^ 
quafi dtfjlpafftt hona ípjms. 
Segunda , porque foy pri- 
vado do oíHcio antes de fe 
lhe tomar conta , nem íe 
ver fe a dava boa , ou mà : 
Bedderationem , 7>07i enim 
jampotcris 'uillkare. Pois 
fe a parábola foy compo- 
ítaporChnílo, & o amo 
procedeo racional ,, & ju- 
lUíicadamence, co^motira 
oojTicio ao cria;do > aptes 
de lhe tomar conta ,&por 
prova ao parecer duvido- 
fa ? Porque o homem efta- 
vajà infamado, difama- 
Uís eft apud illumyU em ho- 
mem infamado ainda quç 
naóouvefíe culpa para fe 
lhe tirar o oiicio,avia cau- 
fa para fe lho naó fiar. De 
forte que o amo naõ pri- 
vou ao criado do officio 
pela prova das culpas paf- 
fadas, fenaó pela probabi- 
lidade das futurasi porque 
he tal a força, & poder da 
infâmia, que fe a calumnia 
infamou o innocente ,, a 
mefma infâmia o fará cul- 
pado. Tanta he a conexão 
que tem a infâmia com a 
culpa. Ainda no mais ia- 



Iria. 3^7 

nocente ou a fuppoem^ou 
a cau fa j po rque a cal u m.- 
nia antes de infamar jhe 
tefíemunho do que nani 
foy, mas depois de terin- 
famado, he profecia do q 
ha de fer. No mefmocafo 
o tem o s , Que fez o criado 
quando fe vio infamado 
c o m o a m p ? Por ventura 
tratou de fe purgar da inr 
famia, ê? tirar a limpo li 
fua honra? Antes tudo pe- 
lo contrario. O quefezjfoy 
falfiíicar efcrituras^ mudar 
números, tempos y & íir- 
m^Sj&com roubos mani- 
feí]:GS,& certos ratificar a 
infâmia dos duvidofos. 
Eftà elle infamado /* pois 
elle perderá a innocencia, 
fe a naõ tem perdido , 6c 
faràasmefmas, & peiores 
infamiasi fc as naó tem fei- 
to. 

324 Epara que aperte- 
mos bem efla confequen- 
çia ainda em comparação 
da noíía Santa, ponhamo- 
\ ata m be m em fogeito Sá-- 
to. Húa das notáveis peti- 
ções , q fez Davida Deos, 
foy eíla : Rearme me a ca- P^ai. 
lumnijs hommm , utmfto- \\^\ 
diam 



..^A^^r 



í 



f 

t: 



que me li- 



3(Í8 

ii'/^«; mandata tua 
vos, Senhor , qi 
vreis das cal umn ias, & Fal 
fos teftemunhos dos ho- 
mens, para que eu guarde 
VoíTbs Mandamentos. Quê 
averà que íe naó admire 
defte para que ? A guarda 
dosMandaraêtosde Deos 
fó depende do alvedrio 
próprio :& naó ha poder 
algum criado,ou humano, 
ou Angélico , ou diabóli- 
co, que poíTa impedir ao 
mais fraco homem a ob- 



SermaÕde 
Peço- neceflariaaconciencia, 8^ 
mais a fama: aconciencia- 
para {^^ a fama para os ou- 
tros: Confcientiam propter 
nos afamam propter altos. 
DiíTe bem o grande Dou- 
tor, mas naó dilFe tudo: a 
conciencia he neceíTaria 
paranòsj&afama para os 
outros: mas naó fó para os 
outros, fenaó também pa- 
ra nós ; porque fe perder- 
mos a fama, também per- 
deremos a conciencia. Ef- 
te he o verdadeiro fentidõ. 



fervaneia da "L^-^ divina. &a fortiíTima confequen- 
Como pede logo David a cia das palavras de David, 



Deos, que o livre das ca 
iumnias dos homens, para 
que guarde os feus Man- 
damentos? Porque ainda 
que as calumnias, & falfos 
teftemunhos naó tiraó ao 
homem o alvedrio , tiraó- 
Ihe a fama, & hum homem 
infamado eftà no mayor 
rifco, & na mayor tenta- 
ção de não fazer cafo da 



nas quaes fe deve notar, 
que naó fó diz a Deos que 
o livre das calumnias , fe- 
naó propriamente que o 
refgate delias : Redime me 
àcahimnijs hominum. Sc 
hum homem fe viíle cati- 
vo nas mafmorras de Ar- 
gel, naó teria muita razaó 
de dizer a Deos, Senhor, 
refgataime defte cativei- 



Ley de Deos, & de fe pre- ro, para que naó chegue a 
cipitaràs mefmas baixe- rifco de renegar ? Pois do 

mefmo modo diz David a 



cipitar 

2as,&cometer os mefmos x^^^^^..^ k^^^^^^^c t^avi^ * 
delitosdeque fe vè infa- Deos que o refgate das ca- J 
mado. S. Agoftinho diz, Iumnias dos homens, para' 
que a todo o homem he que guarde feus Manda- 
mentos i 



Santa Iria. . 1^9 

mentos % porque fendo taó da virtude, & mais pode- 
Santo David, naó fiava da rofo para com nofco , que 
fua virtude , nem da fua todos os Anjos, porque hc 
conftancia, quecalumnia- Anjo,que fe je. auando 
do,& infamado,em vez de os filhos de Krael fahirao 
perfeverar firme naobfer- do Egypto, & cammharao 
vancia da Ley divina , a para a terra de Promiflao , 
mefma infamiao naópre- cadahum tmha o feu An- 
cipitariaaosvicios,deque jo da guarda , o qual os 
•" • ' guardava como a nos o 

noíTb invifivelmente j mas 
alèmdeftes Anjos invifi- 



veis, diante de todos hia 
outro Anjo vifivel , & ma- 
nifefto aos olhos , & eftc 
era o que os guiava, & ao 



feviacalumniado. 

2 2 f t^ gora entendereis 
a verdadeira razaó , & af- 
tucia porque Remigio vé- 
doferefiftido deS.lria, fc 
refolvco a bufcar hú meyo 

de a infamar publicamen- >..~^-i-- -^ - 

te. Bem podia ferodio,&: qualfeguião. Moftravalc 

vineança,comodiziamos, efte Anjo emduascolu- 

mas naó foy fenaó hú no- nas, hua de nu vem, co que 

yo,& ultimo artificio de a de dia os defendia do Sol , 

r€nder,entendendo que íe & outra de fogo, com que 

em quanto confervava a de noite os allum ia va: ^i^^r 

honra,& boa opinião refi- diem in columna nubtSyper 

jftio com tanta fortaleza-, noãem in columna igms, 

depoisde afrontada com Talheo Anjo da guarda 

hua infâmia taó publica, da virtude, a que chamei 

naó tendo jà que perder, fegundo, & lhe pudera dar 

fc renderia facilmente. A onomedeprimeiro.Toda 



Exod. 



razáo natural certa, 6c ex- 
primentada defta moral 
filofofia he a grande de- 
pendência que tem a vir- 
tude da honra. A honra he 
o fegundo Anjo da guarda 
Tom. 8. 



a virtude,&: mais a da ho- 
neftidade de que falíamos, 
tem fuás tentaçoens de 
clia,& de noite, & cm am- 
bas nos guia, & nos defen- 
de o Anjo da guarda da 
Aa honra. 



.ày 



Sermão de 
De dia contra o mente graves para com 
Deos nasmulheres,&nos 
homens , nas mulheres, 
ainda que fejaó veniaes,ti- 
raóahonra,& noshomés, 
ainda que fejaó morta es> 
naó. E porque permitio a 
providécia divina no mu- 
do húataó grande injuíh- 
ça? Porque defendendo a 
honra ao menos de huma 
das partes a caitidade , ix.^ 
veíTe refiltencia o vicio da 
torpeza, & naóabrazaíTe 
totalmente o mefmo mu- 
do: diz S. Efrem. Tanto 



honra. 

calor do appetite , como 
nuvem que refrigera ^Ter 
diemin cohimna mtbis \ & 
de noite contra as confian- 
ças da efcuridade, como 
fogo que alumia, Ter no- 
Bemincolumna ignis. 

326 Saõa honra, 6c a 
virtude entre fy, como os 
bonspays em refpeitodos 
fiIhosj& os bons filhos em 
refpeitodospays, que lhe 
deraóofer. A virtude ge- 
ra a boa fama, &a boa fa- 
ma defende a virtude. 



Samfaó,& feus pays todos mais poderofa he na natu 

eaminhavaó pela mefma reza humana , ainda de- 

eílrada,mas quem os de- poisdecorrupta,a eílima- 

fendeodoLeaó, quefahio çaó da honra, que a tenta-* 

dobofque? Naó os pays çaó do appetite. Porqu 



aoíilho, fenaó o filho aos 
pays. A virtude he a que 
dàoferà honra, & a fama, 
mas a honra, 6cafamafaó 
as que defendem a virtu 



viviaó caftamente os A- 
tletas, & todos os qavia( 
de correr nos jogos Olim. 
picos, fendo Gentios.? Af- 
íim o affirma S.Paulo: Hi i.c 



de.Daqui fe entendera hu- quimftadio ctirrunt.ab om-^ ^ 

ma netavel providencia, nibus fe abjiinent . Eomo- 

com que Deos permitio, tivo poílo que vaó deíla 

que fe mtroduziííe no mú- fua abílinencia era, diz o 

do húa grande injuíliça £ mefmo ApoUolo, porque 

que injuífiça he eíta ? He com a eftimaçaó da hon- 

que fendo os peccados có- ra,&: fama véciaó ,& mor- 

traa honeítidade igual- tificayaó o appetite. Naó 

fe 



Santa 
fe pôde negar que a con- 
fervaçaó da virtude temo 
feu trabalho i mas namhc 
neceífario fer bom , para 
íbfrer o trabalhofo delia, 
por confeguir o honrofo. 
Náo hei de provar eíte 
ponto com authoridades 
de Santos, mascom o ex^ 
em pio dos homens mais 
mãos, mais vis , & mais 
mofinos do mundo. Agc- 
tepeyor, & mais vil, & 
mais mofina do mundo faó 
os Hy pocritas, & também 
as Hypocritas v porque.? 
Porque padecem o traba- 
lhofo da virtude , & per- 
dem o meritório. Mas nif- 
fomefmo nos provaò, & 
nos enfinaò quam podero- 
íb he mais que tudo na na- 
tureza humami ainda de- 
pravada, o amor da opi- 
niáo,& da honra. Nos feus 
jejuns, nas fuás peniten- 
cias,& nas fuás largas ora- 
çoensjou fuperftiçoês faó 
martyres do diabo, 8f com 
tudo fe daó por bem pagos 
defoportar todo o traba- 
lhofo da virtude , fó por 
confeguir o honrofo del- 
ia. 



Iria: , ^7' 

327 E como a honra 
(^ cuja ambição natural nar 
ceo com o homem ) nam 
fó he o incitam éto ,& pre- 
mio da virtude , fenam a 
única guarda, & defenfora 
deliaieílafoya fmgularif- 
fima gloria de S. Iria y. que 
infamada , & perdida to- 
talmente a honra : defar- 
mada,&:fem defenfa: que 
digo defarmadajSc fem de*- 
fenfa ? Sò,defamparada,ac 
combatida de todas, as 
partes,naó por hum ini* 
migo, nem por muitos, fc- 
naó por todos os que a co- 
nheciaó-,nãocom hum fó 
género de afrontas , fe naó 
có todas as machínas,que 
oodio,aaftucia,&a mal- 
dade podem inventar •, nc 
por hum dia , ou muitos 
dias, fenaô por toda a vi-* 
da i fe confervaíTe com tu- 
do a virtude tao confian- 
te, firme, inteira, & íem a 
menor lefaó , nem aballoj 
como fe eftivera cercada 
de muros de bronze, 6c 
torres de diamante. A for- 
tificação dasCidades mais 
inexpugnáveis , fegundo a 
architeáura militar anti- 
Aa ij ga. 




.../ y 



ff. 

1 



37^ Sermaõde 

ga,conííftiacm mufo, & toqne fe perdéraÓ as For- 

antemural , o muro que tiíicaçoens exteriores, lo* 
cingia,& defendia a Cida- go as muralhas faó pica- 

de, o antemural que cin- das, minadas,& voadas, & 

gia,&defcdiaomuro. M^ a praça fe entregou aos ini- 

íim ocanta o Profeta Ifa- migos. O mefmo fuccedc 

ias da Cidade de Jerufa- à virtude. Perdida a hon- 

Iem,a quechamafortiíli. ra,& a fama, entra no Teu 

ma : Urbs fortitudmis no • lugar a afronta , & a infa- 

^^y^ fira Sion munis fonetuT in mia, & por cilas nam Í6 

euyò' antemuraíe. Sitiada brechas, mas portas aber- 

porèm, & batida húa de- t^^sÇ^ franquea o paíTo [i* 

ílas Cidades , que fuccc- vrea todas as maldades, 

dia? O quejeremias chora Aflim como diíTemos, que 

da mefmajeruralem: Lu- a honra era o Anjo da 

xit antemurale y ò' murus guarda para a virtude , af- 

pariter di/Jípatus eft\ Cahio fim diz S. Paulo,q a afron- 

o antemural, Ôcjuntamen- taheo laço do demónio 

te cahio logo o muro: & o para os vicios . Oportetau- 

antemural,&omuro, & a tem illum ér bonum tefii' 

Cidade tudo ficou por monium habere , ut non in i 

terra. A myftica, & efpi- opprobmimincidatyé' mia- 

ritual Jerufalèm he a alma queum diaboli. De maneira 

ornada de todas as perfei - que he taó necefi^aria a ho - 
çoens , Formofa ficut Je- 
rufalemy o muro he a vir- 
tude, o antemural que o 
defende he a honra: & tan- 
to que cahio,& fe perdeo a 



Thren 



Cant 



ra,& boa fama para con- 
fervar a virtude, 6c taópo- 
derofa a deshonra, & a mà 
fama para a deftruir,que o 
mefmo he cahir em infa- 



honra,logo cahio, & fe per- mia, que cahir no laço do 
deo também a virtude, demónio: Ne incídatmop 



He o que acontece tam- 
bém hoje, fallando em fra- 
fc militar moderna. Tan- 



probrium , à* in iaqueum 
diaboli. 

328 Eftas faó as regras, 

ecpc- 



Santa 
é perigos gcraes da vir- 
tude afrontada,6c infama- 
da.nas quaes também avia 
de fer coprehendida a noí- 
fa Santa , fe com virtude 
fiagulariílimamente he- 
róica naó fora a exceiçam 
de todas ellas. Sò S. Iria 
foubc defafrontar as afró- 
taSjSc afamar as infâmias. 
Dejudith, diz a lograda 
Efcritura que erafamofif- 
fima entre todas as mu- 
lheres: Eí^r^í/^^í" in om- 
. nibusfamofijjima, E dando 
arazaô deííe fuperlativo 
de famofa , acrecenta o 
Texto : Contam timebat 
*Dofnmumvalde ^ necerat 
juí makm kqueretur de ti- 
la. Porque era muito te- 
inenteaDeoS5& namavia 
peíroaalgua,que delia dif- 
feíTe mal. Vedeagora qui- 
to vai de fama a fama, & 
dejudith a Iria Judith era 
temente a Deos , & Iria 
temente a Deos : deju- 
dith naó avia quem diífef- 
femal, de Iria naó avia 
quem naó diíTeífe os ma- 
yores males: 6c fe a virtu- 
de dejudith era famofiíli- 
jna com boa fama , julgai 
Tom. 8. 



l 



fe a virtude de Iria liò me- 
yods tantas infâmias era 
mais que famofiíTima? S. 
Paulo dco por emprefa à 
virtude heróica aquella 
famofa disjunaiva,'Pí'r/w- 
famiam,& bonamfamam: ^cor.; 
ou por boa fama , ou por 
infâmia. Judith , & Iria 
partirão entre fy efta kn- 
tença : a Judith tocou oper 
hnamfamam, 6c a Iria o 
perinfamiam. Mas a efta 
parte deo o Apoftolo o 
primeiro lugar, porque o 
mais heróico da virtude 
naóconfifteem fer famo- 
fiííimacom boa fama, fe- 
naó em fer famofiírima 
na infâmia. Mayor virtu- 
de he a infamada, que a 
famofa-, porque a famofa 
pôde ter por fim a gloria 
própria , a infamada nam 
tem outra gloria, nem ou- 
tro fim fenaóaDeos. Tal 
foy o mais que heróico 
refplandor da noíTa glo- 
riofiffima Virgem. Para 
com Deos com a alampa- 
daacefa, & refplandecen- 
te,como Virgem pruden- 
te,& para com os homens 
com a mcfma alampada 
Aa iij apa- 



374 Se} 

apagada,& efcurecida, co- 
mo Virgem louca : ^um- 
que autem ex eis erant fa- 
tuayif quinquc prudentes. 

§^ V. 

32P A Têgora não fal- 
ir\lámosem Bri- 
taldo, íègunda, & funeftiA 
íima parte defta cruel tra- 
gedia. Efquecido Brital- 
do do milagre , com que 
Iria lhe dera a faude, mas 
mui lembrado da promef- 
fa condicional, que lhe ti- 
nha feito, feguindo a fal- 
ia, mas apparente opinião 
de todos, & julgando a in- 
nocente.&caftiífima Vir- 
gem por taó infiel a Deo5, 
como a Çy mefmo , com 
aquellc ódio, em q o amor 
defprezado, &a ái^niá^^ 
de da peíToa íefa fe conver- 
te em furor j irado, vinga- 
tivoj&poderofo , que fa- 
ria? Soube o lugar em que 
iria nas Ribeiras do Rio 
Nabampaífava o íilencio 
das noites em familiarif- 
íima converíàçaó com 
Deos, naó queixãdofe das 
íuas infâmias, mas dando- 



'ma9 de 

lhe infinitas graças por cl«i 
lasi^alli mandou a feus 
Toldados que lhe tirafiem 
a vida. Executarão a dete- 
ílavel fentcnça os Ímpios 
miniftros , &taó engana- 
dos,& cegos como quem 
os mandava , fazendo a 
morte mais cruel comex- 
quiíitastyrannias, aberta 
o fagrado corpo em feri- 
das,& envolto em feufan- 
gue, o lançáraó na corren- 
te do rio,que aílim o difpu- 
nha também a fera fenteri- 
ça. Jà agora eílarà fatis- 
feito o cego amor de Re- 
migio, jà eílarà fatisfeitoo 
ódio também cego de Bri^ 
talfio-, mas muito mais fa- 
ti afeita eítà a alma de Iria, 
aquemelLis duas ceguei- 
ras abríraó os olhos da 
mortalidade, para q eter- 
namente começaíTem 3 
ver a Deos, & gozar, como 
cftáo gozando, os applau- 
fos do Ceojondc naó che- 
gaó as infâmias da terra. 

330 Masporqna m.ef- 
ma terra naó baftouo íàn- 
guedelria, nem as aguas 
doNabam^paralavarafua 
infamii , ainda coatumia 



nos 



^ 



Santa Iria] 



irf 



los juízos, & línguas dos 
domens 5 jufto fera que 
[lós ponhamos em que- 
[la6,& refolvamos fcria,& 
(inceraméce,qual dosdous 
foy mais cruel com Iria 
tieftalaftimofa tragedia,fc 
ElemigiOjOu Brítaldo: am- 
bos cativos de fua fermo- 
fura,&: ambos vingadores 
do feu conílante , & fanto 
defamor.? Que fez Brítal- 
do, &que fezRemigio? 
Remigiotiroulhea fama, 
Britaido tiroulhe a vida: & 
naô ha duvida, que mais a 
ofFendeo , & martirizou 
Remigio, que Brítaldo. 
Parece que fe apoftou o 
Efpíríto Santo a avogar 
por efta caufa, provando 
com Textos expreíTos a 
verdade da minha refolu- 
çâo. No cap. 2 6. do Eccle- 
ííaítico diz aíTim o Texto 
fagrado: "DelaturamCivi- 
tatisy e^ coUeãtonempopU' 
li y calumniam mendacem^ 
Juper mortem omniagravia. 
A accufaçáo de húa Cida- 
de, & o ajuntamento de 
hum povo, & húa calum- 
niafàlfaj&mentirofa, to- 
das cftas coufas faó mais 



graves, & mais difficulto- 
fasdefofrerque a morte. 
Vede fe tive eu razaó para 
dizer, que efte Texto foy 
ditado pelo Efpíríto San- 
to,&: efcrito nos Cânones 
do Eecleíiaftíco , em pro- 
va expreíTa do noíTo cafo 
por todas fuás círcunílan- 
cias. Santa Iria foy accufa- 
da por toda a Cidade de 
Nabancía , accufationeCi- 
vitatis : foy approvado o 
feu delito por todo o ajun- 
tamento do povo , porque 
ninguém ouve em todo el- 
le,que defendeíTe , nem 
^cudiíTeporfua innocen- 
cia, nem ainda o imaginaf- 
fe, coUeãionem fopuh : Sc 
tudo iíto fundado em húa 
calumniafalfa ,& menti- 
rofa , & tanto mais enga- 
nofa, quanto com mayo- 
res apparencias,e^ cala^' 
niam mendacem : & fe cada 
húa deftas coufas por de- 
cifaó canónica do mefmo 
Tribunal divino , he mais 
grave,& intolerável de fo - 
frer quea mefma morte, 
omnia fuper mortem gra- 
via i quanto mais todas ju- 
tas? Logo náo ha duvida ) 
que 



./ ./ 



37^ . Sermão dé 

queacaíumnia, & engano feras com carvGens,qucaí 
de Remigio , que occafio- armas de ferro ? Porque as 
nouaaccufaçaó detoda a armasdeferro ferem, as 



praim. 



Cidadej&confpiraçaó de 
todo o povo unido no 
mefmo conceito , & na 
mefmavoz , com que to- 
dos crião, & abominaváo 
a Iria, foy mais grave , & 
mais cruel que a morce, 
quelhedeoBritaldo. 

^7,1 Bricaldo valeofe 
dofeu poder , mas poder 
humano, Remigionaó lhe 
bailando o humano, foc- 
' correofe do magicoj&dia- 
bolicor& tanto mais po- 
derofo foy efte; , quanto 
•mais penetrantes as fuás 
armas. Bricaldo oíFendeo 
airia com armas deferro, 
Remigiocom fetas de car- 
váo,& de carvoens tirados 
do fogo do Inferno. Mas 
quem nos provara efta áií- 
ferençanaóefperada? Da- 
vid, que entendia muito 
bem de armas, diz que as 
xiiais podcrofas de todas 
/àó as fetas, que levaó na 
ponta carvoens : Sagitta 
potentis acuta cum carbo- 
nibits dffolatorijs. E por* 
qu€ fa^iiuis poderofas as 
S7r> 



armas de carvão tifnão, 6c 
as armas de ferro que fe- 
rem, podem tirara vida, 
as de carvaó que tifnaó,ti- 
ráo,5c infamáo a honra. 
Taesforáoasfetasde Re- 
migio tiradas de longe, & 
àfalfa fé, comparadas com 
asdeBritaldo executadas 
de perto. As de Britaldo 
tn'áraólbeavida , masve- 
íliraó-nade purpura com 
o fangue : as de Remigio, 
deixaraó-na viva , mas tif- 
náraólhe a honra com o 
carvaó da infâmia. Seja 
Juiz neíla caufa o mefmo 
Chrifto. Os inimigos de 
Chriílonáofó lhe quizc- 
rão tirar a vida,fcnáo tam- 
bém a hoara: para lhe tira- 
rem a vida , pregáraò-no 
em húa Cruz,pira lhe ti- 
rarem a honra, puzeraó-no 
entre dous ladroes. li qual 
delias duas circunílancias 
fentio mais o Senhoria c6- 
panhia dos ladroens, ou os 
cravos da Cruz .^ He cer- 
to que a companhia dos 
ladroens, como clle meP 
ma 



Santa 
mo declarou , quando o 
prenderão para o crucifi- 
carem ; Tanqtiam adlatro- 
nem veniftis comprehend.re 
me. E a razaó manifefta 
he s porque o ferro dos 
cravos tiroulhe a vida, a 
companhia dos làdroens 
infamavalhe a honra. Por 
iíTo profetizou Jeremias, 
q morreria farto de afron- 
tas: Saturabitur opprobrijsy 

' fendo que na mefma Cruz 
teve fede de mais rormen 
tos, como declarou, quan- 

I. dodiíTe, Sitio. E tudo foy. 

• JMorreo fequiofo de tor- 
mentos, porque ainda de- 
.fejavamaisofeuamor de 
afrontas porém farto,por- 
qnenaô teve mais que de- 
íejar a Aja paciência. 
r 331 lílo meímo fed€- 
*^^:julgarJfobrea:mor€e ^ 
-goO^a Sáat^ comparada c6 
as fuás infâmias. E fe me 
perguntardes porque foy 
, n^ais jsruelo martyrio de 
tjq^êrllie, infamou a honra, 
lq;Uiede quem lhe tirou a 
Vida j o mefmo Efpirito 
Santo, que defende efta 
caufav deo a razão. Bon£ 

1 6. .: >VÍM numems dierum j bo- 



Iria. 3 77 

numautení fíomcn perna- 
nehitinavum. A vida he 
hum bem que morre,a ho- 
ra , & afama hebemim- 
mortal. A vida por larga 
que feja,tem os dias. cpAr 
tadoSjafamaporraai^qU^ 
conte annos, & feculos, 
nunca lhe ha de achar con- 
tornem fim, porque os feus 
faó eternos; a vida confer- 
vafe em hum fó corpo,qup 
he o próprio., o qual pQjr 
mais forte, &robufto que 
feia,por fim fe ha de refol- 
verem poucas cinzas :,. a 
fama vive nas al^^A^ '^^ 
ol.hos,& na bocade,çpdçrf> 
lembradai nas memorias-, 
falladanas linguas,;eícri•' 
, ta nos annaes y ,eícolpid^ 
nos marmores,S£ repeçida 
Sonoramente fempre nqs 
^^eccos , & trombetas da 
mefma faraa.Em fumma,a 
morte mata, ou appreffa o 
fim do que neceíTa ria men- 
te ha de morrer •, a infâmia 
afronta, afea,eícurece , ^ 
faz abominável hum fer 
im mortal, rnenos cruel, 6c 
maispiedofa fe o pudera 
matar. E como a morte 
offende a mortalidade da 
vi- 



Eí' 




I 



Vâ í • SemaSde 

n^uito mais cruel , & d?/ í? ™'"°í!^ ^^ '"^^on 

333 E fe confiderar- To"?''^'''' ^.'*^^^g« 

mos o bárbaro, & i.M ^- ^ entende a Igrt 

jmon,o..od;«;ur £ TaS^ír ^'^^ '^ ^- g^ 

fa infâmia, que foy a hon- nnl ' 'l"^ ^"^«« «m a re 

^i^dWima re/iftenaa , & Zl^^T^^^^^^^^^^^X^on 

■<Sonftát.flima cart^dad^da íw,? ^"' ^'^^"^« ' & « 

puriffima Vir<.em a.nl ""«"^la. Poisfeefte fu. 

%„,aisdaraf&;:^£ IZZ.T^' '^ "«"^^<^^ 

ftá a cega, & facniega ou- rtt^ renunciar pa- 

■MadequerermalrRe. geíaS T?'" "^"^ 

-'g.o.n,o r6 na peAba faSí^te^n^Í 



imortal, mas na meíma vir- 
tudeimmorraJaruanatu- 
ralimmortalidade. Hum 
principal attributo da vir- 
tude da caílidade, como 



ceoErpiruoSantoíDirci. 
^fruto da geração he a 
perpetuidade dos home's. 
os quaes como morrem, 
&hao de morrer em fy. 



1^'^' 



b"íi 



virtude verdadeiramente f"'^^ ''^ «correr em fy 

-^ngdica.heferrmmo t"^ E^^f "- filho. 

Outra vez o mefmo Efpi- morta n^''""''^'.''^ ''^ 

mo Santo no cap 4. daSa '^"^^''Porque os filhos, 

bedork exclamando aà bl7°'"°''^"*P37*.tam: 

fiageneraUo cumclantate, fm tez de í^,' ^ """S'""' 

í»Pitet: ^'«'«'''•/<«/« ç/? enim memo- gera ou tra i',"'°'.'"0"«* 

».. rtadkus, ^noniam nota eft fobre I .-í "'^'? '""'* 

apudVeum, é- apudjJl Sue d dlfn '^ ' P*^' 

- Ohquam feLofa he S^^íaf-- 

Dcos, 



«t 



Santa 
Deos, & outra para com 
os homens : para com os 
homens a da memoria im- 
mortal, Separa com Deos 
a da gloria cambe immor- 
tal: Immo^talis efi mim me- 
morta illius^ quoniã nota tft 
apud'Deu^& apudhomines, 
334 Agora quero eu 
fallarcom Remigio. Vem 
cà Monge íacrilego , 5c in- 
fame, tu nao lias efte mef- 
mo Texco em todas as fo- 
lemnidades das Virgens? 
Pois como te atrevefte , & 
muito mais depois que 
exprimentaíle a conftan- 
cia virginal de Iria , a que- 
relladeípojar da immor- 
talidade da íua virtude? 
Não crey o«que foy erro do 
mao Monge contra a fé 
deílas palavras , mas que 
foy agudeza do feu enten- 
dimento furiofo, com que 
asquiz interpretar ao feu 
infernal intento. Todos 
eftes louvores da caftida- 
de virginal não os dà a Ef- 
eriturafó à geração caíla, 
fenãoà gerarão catla com 
claridade • O quàmpulchra 
eft calia^eneratio cum c'a- 
ritate, P.aisjà que eu» diz 



Iria. 379 

Remigio , lhe não pude 
rendera caílidade, quero- 
Ihecfcurecera claridade: 
6c como a claridade ficar 
efcurecidacoma infâmia, 
feja embora im mortal na 
memoria dos homens: Imr 
mortaiis eft enim memoria 
ílimS',porq fera im mortal a 
memoria da fua de» honra^ 
& não a da fua virtude. Af- 
fim foy vivendo , & mor- 
rendo Iria infamada na 
opinião dos prefentes: & 
cõmamefma afronta avia 
de continuar depois da 
morte infamada na me-^ 
moriados vindouros : de 
forte que efta mefma Vir- 
gem, que hoje celebramos 
como única entre as Vir- 
gens prudentes, a aviamos 
de defprezar,6c aborrecer; 
comohúa dasloucas.Mas 
nefta mefma oppofiçáo, & 
contrariedade confiftio a: 
fua mayor gloriajclara , & 
efcura juntamente , apud 
Tyeum<i& homines : nater^ 
ra^efcurapara com os ho- 
mens, & ao Ceo clara para 
com Deos. Digafe pois 
das outras Virgés, Oquàm 
pukbra eft çafta gerieratio 
cum> 



3^0 Sermão de 

•€um claritafe, cilas Permo- olh3s de Deos : Etqiiínqui 
fas com a claridade j po- prudentes. 
l*èmlria mais fermofa que 



;.•< ■. ■■ 



todas ) porque Fermofa có 
claridade, i5i íem clarida- 
de : com clafidade^porque 
ciará para com Deos na 
virtude; & fem claridade, 
porquecfcura para com os 
homens na infâmia. E fe 
duvidais ,& quereis faber 
como deíle claro, &eícu- 
J*o le podia compor húa 
perfeirafermofura: Digo 
Cant.6.quecomoa da Lua \Tul- 
chrauT Lnna. A Lua no 
ultimo ponto, ou parocif- 
íTio do feu minguante,para 
a parte de dentro , &: do 
Ceoeftà clara , & para a 
parte de fora , &: da terra 
toda efcura. Aílim tam- 
bém a noíTa Santa , para a 
parte de fôra,onde fícáraó 
ãs Virgens loucas, com a 
alampada apagada , eícu- 
recidacom ellas nos olhos 
dos homens : ^ãnque au ■ 
tem ex eis erant fatu£ ♦, mas 
para a parte de dentro,oa- 
de entrarão as prudentes, 
com a alampada aceía, & 
reíplandecéte, como Vir- 
gem prudentiílima aos 



§, VL 



MAs efperai hw 
\ 



33f 

pouco, queaf-' 

fim como a Lua total men-- 
te efcurecida fe reftituc 
outra vez à fua natural luz, 
& fermofura , & não fó 
refplandeceem fy, masal- 
lumia omundo-, aílim tri- 
unfando a virtude contra 
amalicia, a verdade con- 
tra a mentira , &: ajuftiça 
divina contra a aflucia , & 
temeridade humana : as 
afrontas de Ina fe conver- 
terão em honras , as infâ- 
mias em louvores, os def- 
prezosem applauíòs, &as 
injurias em glorias. E que 
fez Deos para ifib? Cafo 
maravilhoíb ! Trocou a 
ordem univerfal de fua 
Providencia, & para aco- 
dir pela honrai de Iria , an- 
ticipou o dia áo juizo. 
Morreo a innocentiílima 
Virgem mai5 fenda das 
caiu mnias, que das feridas 
quelhederaòa morte: & 
comofe o íim de fua vida 
folie 



Santa Iria: 3^1 

fofle o fí m do mundo , no Nolite ante temfus judica,' , Cor. 
mermo dia fenteciouDeos re , quoadufiiue veniat Do; ^ v 
afuacaufa , & lhe deoa minus ,qui & tllummabtt 
gloriofa vitoria de feus ca- abfconditatenebrarum, o*^ 
lumniadores. David, co- tunc erit laus umcuíque a 
mo diírcmos,pedia a Deos T>eo. Pois fe Deos tem fi- 
GueoremiíTedas calum^ -nalado aquclle ultimo dia 
nias dos homens : Redime para julgar as caufas dos 

fe então fe ha 



,.j. me à calumnijs hominum: & 
Deos promete que aflim o 
fará a todos os calumnia- 
dos: mas quando,ou para 
quando ? Para o dia do 
juizo. Ifto íignificão ex- 
preíTa , & literalmente 
aquellas palavras , que o 
mefmo Senhor entaó di- 
rá : Refpicite , & levate ca 



innocentes 
de aliumiar tudo o que 
agora eílà efcuro, & mani- 
feftar tudo o que agora ef- 
tà encuberto : & fe então 
com teftemunho , & au- 
thoridade irrefragavel fe- 
ràó louvados de Deos os 
que agora faó calumnia- 
dos dos homens , Et tunc 



fita veftra, quoniam appro- laus ertt umcutque a Ueo: 
pinquat Redemptio 'veftra, fendo jà paíTados antes do 
Entaó fe publicara na- dia do juizo, & depois do 
quelle immenfo theatro, cafo de S. Iria mais de mil 
' annosj porque não efpc- 
rou Deos por aquelle tuncy 
&oanticipou tanto tem- 
po gintcs,antetempus?FõT' 

tvv^^w«.«**.x... ^. queteve S.Iria paciência 

Paulo nas calumniasque para fofrer, & não Deos 
contra elle levátavão feus para efperar. Quefez Iria 



'5 

€m que nos avemos de 
achar todos , a innoccncia 
dos juftos,& o engano, & 
malicia dos que falfamen- 
teoscalumniáraó. Atè S. 



emulos, fe confolava com 
a certeza defta efperança, 
&com a mefma nos ex- 
horta a que não queira- 
mos julgar antes de tépo : 



no meyo de tantas calum- 
nias, afrontada,!infamada, 
& condenada de todos ? 
Não fe queixou, não fe de- 
fendeo, nãpacufou atrçi- 
§ãQ 



iJ[" 



,.,/ y 




•t: 



I 



352 Serma^ 

çáo do falfo amigo, & an- 
tes quiz que ofeii credito 
foíTeoReodoque naó ti- 
nha cometido, quedefcu- 
briro Author de taó hor- 
renda maldade. E agra- 
doufe Deos tanto daquel- 
leíilenciojdaquella mode- 
fl:ia,&daquella paciência, 
que a náo teve o mefmo 
Deos para efperar as tar- 
danças do tempo , & dif- 
peníando , ou quebrando 
todas as leys ordinárias de 
fu a providencia , à que o 
mundo reputava por mu- 
lher louca, declarou por 
Virgem prudentiíllma, & 
a que t dos infamaváo de 
peccadora, canonizou por 
Santa: fendo os fellospê- 
dêtes das bulias da fua ca- 
nonização,como lhe cha- 
inão os fagrados Cânones, 
os muitos, & prodigiofos 
milagres, com que entaó 
publicou, & provou o Ceo 
ainnocencia, & fantidade 
de Iria. 

33^ Dous elementos 
concorrerão para os tor- 
mentos,quenavida,6c na 
morte padeceo a Santa, 
que foraô a tcrra,& a agua. 



Ide 

AterranaVilIa de ISTabá- 
cia, a agua no Rio Nabão: 
a terra por Remigio,o Au- 
thor que machinou o en- 
gano, a que refega io a in- 
fâmia em todo o povo: a 
agua por Britaldo,o tyran«- 
no que a fentenciou ao 
martyrio, a que fe feguio 2 
crueldade de feus folda- 
dos, que mortalmente fe- 
rida a lançarão por feu má- 
dado na corrente do rio. E 
para que os mefmos ele- 
mentos em mayores , 6c 
melhores theatros con- 
correíTemparaa honrada 
mefma Santa infamada , & 
morta; a Nabão fucccdeo 
oTejo,&a Nabancia Sá- 
tarèm:oTejoPrincipede 
todos os Rios de Hefpa- 
nha,& Santarém antiquif- 
ííma Corte dos Reys de 
Portugal. O Tejo levan- 
tando no fundo de fuás 
áreas de ouro , & lavrando 
de íiniílimos mármores o 
Maufolco do feu fepui- 
chro:8f Santarém com ò 
epitáfio, gravando nas pe- 
dras de fuás torres,& mag- 
nificos , ôc fagrados edifí- 
cios o nome de Iria, com 
íòbrc- 



Santa 
fobrcnome , ou antenome 
de Santa. E porque para a 
infâmia no elemento da 
terra tinha concorrido o 
Inferno jaíllm foy tambê 
gloriofa , 8c jufta corref- 
pondencia,que para o fe- 
pulchro no elemento da 
agua concorreíTe o Ceo : o 
Inferno com as confeições 
da Arte Magica tempera- 
das por aftucia dos demó- 
nios : & o Ceo com os pri- 
mores da Architedura fa- 
bricados por mãos de An- 
jos. Aílim vingou DeoSs& 
honrou a Moy fes em hum, 
& outro elemento as inju- 
rias do Rio Nilo , &as da 
terra do Egypto , com os 
triunfos do Mar Verme- 
lho,&: terra da PromiíTaô. 
E fe o fepulchro de Moy- 
fes o efcondeo Deos aos 
olhos dos homens, para 
que elles o não idolatraf- 
fem, em injuria do mefmo 
Deos j também depois de 
húavezviítoo fepulchro 
de Iria, o efcondeo Deos 
aos olhos dos homens, em 
caftigo , & reftituiçaó da 
oífenfa, que tinhaó feito 
ao mefmo Deos nas inju^ 



Iria. . 3^3 

rias da fua Santa. Onde el- 
tàhoje o fepulchro de S. 
Iria.^ Nem no fundo do 
Tejo o penetraó os olhos , 
nem o achaó as anchoras : 
todos o crem, & ninguém 
o vè. Porque ? Porque af- 
fim como Deos no Ceo 
premia a virtude da fé co 
a vifta : aíTi m na terra quiz 
fatisfazer com a fé dos 
prefentes odelitodavifta 
dos paírados,para que glo- 
rifique tanto à mefma Sa- 
tã a fé dos prefentes com a 
verdade do que não vè, 
como a oflrêdéraó os olhos 
dos paíTados com a menti- 
ra do que viraó. 
^ ^7 Oh ditofa,&bê-aven- 
turada Iria, naó menos 
nas fuás mefmas ofFenfas,q 
nas íuas glorias! Se a oífen- 
fa de Deos em Adam, pe- 
los grandes bens que delia 
occafional mente fe fegui- 
raô,fe chama, com razão, 
felicej fem encarecimen- 
to fe pôde dizer o mefmo 
do afrontofo teílemunho 
levantado contra a virgi- 
nal pureza de S. Iria. A ap- 
parencia do ventre foy 
fantaftica,6£ fuppoíla,mas 
opar- 



lii^'. ,, 







k 



384 Sermão de 

o parto do mefmo ventre go murado de lírios ?Pois 

foyverdadeiro,& admira- tal heo ventre da minha 



I 



vei. Se aílim naô ouvera 
fuccedido, efta illuftriíTi- 
ma Republica taó fecun- 
da de milagres, naó feria 
Santarèm,nem os filhos de 
Santarém, filhos de S.Iria. 
Todos os filhos de Santa- 
rém faó o parto daquelle 
ventre. Chrifto Senhor 
noíTo não teve peccado 
proprio; mas porque mor- 



Santa Erpofa^diz o divino 
SalamáoChriílo : ^enrerc 
tuus acervus tritici vai la- 7 
tuslilijs. Ventre murado 
de lirios pela pureza vir- 
ginal de Iria, com que na- 
quellafalfa, & magica in- 
chação fe defendeo con- 
ílantiílimamente de todos 
os golpes da calumnia , da 
infamia,& da mefma mor- 



reo por peccado que nam te: 5c monte de trigo innu 
cometera , diz o Profeta meravel pela multidão 



10. 



«Rcg. 
a.y. 



Ifaias, que duraria fem fim 
a poíleridadc de feus fi- 
lhos: Sipofuerit animam 
fuampropeccato, videbitfe- 
men longavum. Mais de 
mil & feiscentos annos ha 
que dura a poíleridade 
dos filhos de Chrifto, & 
mais de mil que dura , & 
continua a dos filhos de S. 
Iria. A virgindade he vir- 
tude efteril, mas em S.Iria 
foyfecundiílima : ^onec 
Jierilis peperit plurimos, Tá- 
tos filhos como vemos, & 
todos para mayor maravi- 
lha filhos de Máy Virgé. 
Viftesjà, ou imaginaítes 
hum grande monte de cri- 



dos filhos fem numero, 
que por tantas idades , & 
feculoslhenacéraó, &cm 
tantos morgados de reli- 
giofiífimas fa mil ias fecó- 
tinuão,& multiplicão. Fi- 
lhos de Mãy , & Virgem 
digo outra vez,&com pri- 
vilegio, que nem na meA 
ma Máy de Deos teve tal 
íingularidade de maravi- 
Ihofo. Que diz o Profeta 
fallandodo parto da Mãy 
de Deos ? Ecce vtrgo cow ifj 
ciptety& paríetfiiium.Con' '^ 
cebcrà húa Virgem, & pa- 
rirá hum filho. Foy parto 
de Virgem, mas parto a 
que prccedeo conceição. 
O dos 



v 



' Santa Iria. __ ^^ 

O dos filhos de Síria tam- enganados em R.emigio , 
bem faó parto de Virgem» &Britaldo por amarem o 
mas parto fem conceiçâOí que viraõ: & outra vèzeil- 
porque o tumor do ventre gaiíados em todos os maíè, 
foyfairo> & os filhos .da por crerem o que viaô. Se 



mefma Virgem faó verda 
deiros. 

338 Agora fefeguiaex- 
horcar eu aos raámos fi-, 
lhos,a que imitem4 Mãy •, 
mas íb lhes digo , por cau- 
tela muito importaate , 



amarem o que virem , fe- 
ráó loucos 5 fenão crerem 
nem ao que virem , ferâó 
prudentes : & com efi as 
duas advertências feráó 
verdadeiros filhos de^b^a 
Virgem, que com opinião 



teia muico luiuuitaiíw , . ^.^^.-, -,-- - -^ . ^ 

nuefe lembrem do que a de louca foubeferprude 

mefma Máypadeceo pelo úíTim^i^ínqueautem ex 

ieneano dos olhos duas ve- eiserantfatu£, & qumque 

^es enganados : hua vez prudentes. 




Tom,^. 



Bb 



SER- 



,; ./• 




38^ 



I 



339 



«H WM ■?<$>? fc«è^f<?Wi<46?*^t^fec^ Í^-^^i*^Í^i^ifr>ei' 



SERM AM 

,,, ,P:4 .VISITA Ç AM . 

DÉl^SÁ SENHORA 

No HofpitaldaMifcricordia da Bahia, 



ij{'i 1 



Na occafíaó em que chegou àquelJa Cic'ade d Mafquez 
de Montalvão, Vifo-Rey do Brafil. 



Vt faõfa eji vox falutatíonís tua mauribusmeis , exulta- 
*uit ingaudio infans in Útero meo. Luc . cap. i . 



§. I. 

Io o Profeta 
Malachias em 
ç.^^\xito aquel- 
l^. feliciílíma 
jornada, que avia de fa^çr 
do Ceo à terra o Redemp- 
tor , & Reftaurador do 
mundo, & dando as boas 
novas a todos os homens, 




como a enfermos pelo 
peccado de Adam , diz af. 
fim ; Orietur "cebisJoljujH- 
tia y & f anilas tn pennis- 
^///x. Alegrate enfermo gé- 
nero humano, alcgrate, & 
começa a efperar melhor 
de teus males, porque vira 
o Sol de juiHv,a , & te trará 
afaude nas azas. 

3^0 Comprida temos 
hoje 



^ 



Serma9da Vifitaçao 
io]e efta taó efpcrada pro- 
'ecia,& comprida , fe eu 
ue náo engano » em dous 
fentidos. Tanto que o di- 
moSoldejuíliçaChrifto 
feveílio da nuvem branca 
denofla humanidade,tan- 
to que tomou carne o Fi- 
lho de Deos nas entranhas 
puriííimas da Virgem Ma- 
ria, como elle era a intclli- 
gencia foberana, que mo- 
via aquelle Ceo animado, 
nomefmo ponto , diz o 
EvangeliílaS. Lucas, que 
fe partio a Senhora para as 
mótanhas de JudearE-v^^r- 
gens Maria abijt in monta- 
fia j & acrecenta, cumfefti- 
natione , com paílbs muy 
apreíTados , porque nemà 
delicadeza da Donzellafe 
Ihefizeraó afperas as mó- 
tanhas, nem à grandeza da 
Máy de Deos lhe pare- 
cerão defautorizadas as 
preífas. Que errado que 
anda o mundo, 6c mais o 
noíTo, em julgar , & intro • 
á\iz'ír q ae os paíTos vaga-. 
roíbsfejáoos mais auího- 
rizadas ! Sé por va;giar^ 
fe perde o mundo todo, 
como pode caníittii* aaii- 



Je Nojfa Senhora^. 387 

thoridade delle nos mee- 
mos mcyos de fua perdi- 
ção ? Na fabrica defte uni- 
verfo que vemos , criou 
Deos o Sol , & a Lua ao 
quarto dia , & naó ao pri- 
mciro, diz S. Severiano, 
porque como ainda entaó 
naó avia creaturas que in« 
fluir, nem Em isferio que 
allumiar , eftiverãofe os 
Planetas ociofos , & para- 
dos em grave defcredito 
de feus refplandores s que 
a quem Deos fez para Sol, 
não o fez para eílar quie- 
to. Forão formadas aquel- 
las duas tochas do Ceo, 
para com alternado impe^ 
rio governarem o dia, & a 
noite : L%minare maius-i ut 
praeffet diei^ luminaremi- 
nus, utpraeffet no5fi. E co- 
mo nacérão para todos, 
andáo fem defcançar em 
perpetua roda^ que he gio-s 
riofa penfaó do bem uni- 
verfal correr, & nunca ef-^ 
tar parado. PoriíFoCbri- 
ftohoje, aílim eomò oSoil 
material, tanto que race-í 
keoa iiiveftidura dos ra^ 
yos, no mefmo inílaíxte 
partio de carreira , ôc. qq% 
Bb ij me^ou 



tk 



,A >/■ 



./ 



í^^ Sermatfda 

meçou a fazer velocifli- os da velhice padecia oí 



xnamentefeu curfo-, aífim 
o divino Sol de juftíça tan- 
to que fe veftio de noífa 
humanidade nas entra- 
nhas da Virgem Máy, no 
mefma ponto arrebatou 



achaques de pejada , & 
mais mortal que todos o 
mininoBautifta jazia en- 
fermo do peccpdo origi- 
nal, reliquias daquelle an- 
tigo veneno, (^\ç: dentro 



aquellaceleftial esfera, & em hua maçáa prohibida 
a.levou às montanhas com deo a Serpente a noíTos 



tanta preíTa, com tão arre 
batado curfo, cumfejima.- 
tioney que para o exphcar 
Mal a chias na terra ^ ouve 
de fingir hiim. monfl-rò. no 
Geo. O.rietur vobis St? Ijw^ 

Jiíti£ , èrfamtas in.p^nnis _ .„ ,, ,,,. ^ ,,^_ 

ejtis. Sol com aza5 ! Qiiem^ gou a Senhora, que nunca 
negara que hehuarelplá- tarda aquém a ha mifter^ 
decente monílj-uofidaije?' & aos primeiros abraços 
E acrecenta com muita quedeu aS Ifab.el,àspri- 
propriedade o Profeta ^ meiras palavras de corte- 
que levará o Sol nas azas fia, com que a faudou, ou- 
a faude, porque a dar fau^ vio-asominino enfermo > 



primeiros- pays. Se por 
hua maçáa tomada contra 
vontade de feu dono fe 
j>er.deo o mundo todo,quc 
muito que fe perca tanta 
partedelleem tempo que 
feto na táto P Em fim., che- 



de,&náoaourro.fim par- 
te hoje o Redemptor com 
tanta preíFa. 

- 5^41: Eftava a cafa de 
Zacharias nefla occafiáo 
(^para que faJ lemos com 
frafe de Hofpital ^) feita 
hto enfermaria de diver- 
fos males.O velho Zacha- 
rias avia {ú'^ mezes que 



& logo ficou hm : ^ffaãa 
efivoxfalutationis tua m 
auribus méis , exultavtt in 
gáudio tnfans in útero meoí 
Oh como quizera, que en- 
tendéráodaquias peíToas 
foberanasy que có abraços^ 
& com boas palavras pòf 
dcm dar vida ! Se muitas 
vezes pela impoílibilida. 



emudecera, S.líàbdfob.rs: de dos tépos iie força que 



£.\)^)0íl 



{_; cu 



çíle- 



Vifitaçao de Nofa Senhora, ^ 1 8 ^ 

cftejâo as mãos fechadas, grias fumptuofas , cõ me- 

porque naó eílaràó os nosfettas publicas do que 

braços abertosPE queava- coítuma, mas bem deícul- 

reza pôde fer mais cruel , pa S. Ifabel a falta deites 

que negar a vida a hum applaufos exteriores, que 

homem , quem lha pòdc o prazer de S. Joaó todo 

dar com palavras ? TaÓ foy por dentro, Ôc^ alegria 



alentado, taó alegre ficoa 
omininoBautifta com as 
da foberana Princefa, que 
a faltos de prazer come- 
çou a inquietar o íilencio 
das entranhas maternas,& 
quaíiafairde fy com ale- 
gria: Exulta-vit infansin 



verdadeira toda he de en- 
tranhas: Exultavit infans 
inutero. Como levantaria 
arcos triunfaes a cabeça 
dehúa Provincia venci- 
da, aíTolada, queimada , ^ 
por tantas vezes , & de 

g^.xc*. ^^....^^.-^ ^.^j tantas maneiras confumi- 

gaudto, Montanheza cor- da? Prudente fe portou em 
tefia parece receber a fal- fuás alegrias efta Cidade^; 
toshúaMageílade taófo- pornaó defmentirfeuef- 
berana, ma^s acomodoufe tado , acomodoufe como 
ominino à eftreiteza do S.Joaóà eílreiteza do té- 
liigar , & não fez pouco, po,6í refervou os triunfos 
porque fez o que pode. paraodia das vitorias,que 
342 Eftefoy o princi- efpcra. Quanto mais, Se- 
pai efFeito, que caufou a 
entrada de Chriílo em ca- 
fadeZacharias , & feme- 
Ihanteaefte he, Excelíen- 
tiíTimo Senhor , oeOado 

emquefeachaaBahia,ho- ^^-y — 1> r-- 

je alentada com a boa vin- fermo Brafil(&ferà o fe- 
da,&alegrecoma raó de- gundo fentido das pala- 
fejadaprefença de V. Ex- vras) porque vè também 
cellencia. Solemnizou-a comprida em fy aquella 
€ÍU Cidade có menos ale- profecia , que avia de vir 
Tom. 8. Bbiij hum 



nhor,que nunca ninguém 
entrou por arcos triunfaes 
m ais glorio fos, que quem 
foy recebido nos corações 
de todos. 

34.3 Alcgrafepoisoen- 



ítiSf 



^90 Sermão da 

hum Sol de juftiça a re- afaudenasazas,Scquevo. 
Itaurallo, que traria a fau- ando mais que correndo ^ 
de nas azas Que mayor partio V. Excellencia a 



^^(^^^'{ix para hum enfermo 
afflicbo, queluz, Scfaudc? 
A. nenhum lhe importa 
mais hua,&: outra, que ao 
Brafil, porq náofey qual o 



reítaurarefteEílado, fem 
reparar nos novos incon- 
venientes , que da ultima." 
fortuna fobrevieraó, nem- 
em quam defcaido eftà o; 



teinpoítofempre em ma- Brafil das forças, iSc do po 
yor perigo , fe aenfermi- der,comque V. Exceiien- 
oade, fe as trevas. As tre- 
vas cederáó ao Sol , a en- 
fermidade, obedecera à 
faude, & como todo eíle 
bemnos vem com azas, 
certa fera a melhoria. Cu- 



cia aceitou a refl-auraçaò 
delle. AcoQteceoihea V. 
Excellenciacomo Brafil, 
o que a Chriílo com La-> 
zaro. Chamarão no para. 
curar hum enfermo: Ecce 



raràa diligencia o queda- quem amas infirmatiir \ & 
nouarenai(raó,&:recupe* quando chegou, foylhe 

neceífario refu feirar hum 
morto. Morto eliao Bra- 
fil, Sc ainda mal porque taó 
morto, & fcpultado : fu-- 
meando eílaó ainda , & 
cubertasdefuas cinzas ef- 



raràa preíFa o que os va- 
cares perderão. Muitas 
OccafioenshatidooBraíil 
^^í^i reílaurar, muitas ve- 
zes tivemos o remédio 
qunfi entre as mãos, mas 



jiuncaoaIcanç:iraos,por- fas campanhas. Heverda^ 
«ue chegámos fempre hú de, que nunca fe vío eíia 



dia depois. Como avia de 
aproveitar a occaliaó a 
quem a tomou peja calva 
fempj-e.í^Sc compelíamos 
taò ladimados das tardan- 
ças, o primeiro bom an- 
núcio que temos , Senhor, 



Provincia taó authoriza- 
dacomo agora, maspò-, 
demlhe fervir os titulos 
deEpicafios,quepois a ve- 
mos levantada a Vice-» 
Reyno entre as morta- 
lhas , bem fe pôde dizer 



nelabermosque nos vem por ella também: qiicde 
' pois 



^ 



Vijítaçao de Noffa Senhora, J9í> 

poisdefer morta,foy Rai- tantas vezes a cabeceira.^ 
nha. Mas aíllm como S. Todmforáo Capitães fa- 
]oaóàvozdaSenhora,af. mofos, todos fe portarão! 
lim como Lazaro à voz de comgrande valor ,&pru;i 
Chrifto , aílim refufcitarà dencia militar,mas he dei.) 
tambemoBrafilàvoz, & graça levar o leme no te- 
ao imperiode V. Exceilé- podatempeftade, & qua- 
cia, podendo dizer vito- doo caíhgo hedoCc-o^^ 
nofo dentro em pouco té- comooháoderefiair bra^^ 
po,o que diííe Paulo Fábio ços humanos? Paííoiiie a 
orando no Senado : Mace- fortuna a Oianda,nos a re^^ 
dor.'tarn mpotejfatem popu- tirar, nòs a defcair , nos^ai 
// Romani redegi, & qmd perder , de forte que ac 
bellimquatuorante me Co- quatro Generaes vaiero- 
fulesitagejfermt , utfem- fos, nenhum governou a 
perfucceíjorttraderentgra- guerra, que a ^^^^^^f^ 
\^tusM egopaucts dtebus gaíTe a feu fucceíTor em 
perfeci. Reftaurei a Ma- peioreíladodoquearece- 
cedonia, reduzindo- a àfo- bera. Mas aífim como a 
eeiçáo do Império Roma- reftauraçao de Macedo- 
no,dizocrrandeFabio,& ma eílava Tefervada para 
acabei feiízméte empou- ograndeFabio, ^ffim ef- 
ODS dias aquella guerra, peraafuap Brafil aovale- 
que tinhaò governado rofiíTimo braço de V. fcx- 
quatro Confules antes de • cellencia tantas vezes ar- 
mim, entregando a fem- mado ,& tantas vitorioío 



pre cada hum a reufuc-^ 
ceíTor era peior eiftado^ i 
Qua tro G enera«s te migo- 
vernado a guerra do Era- 
fil depois de occupado 
Pernambuco. Grande có- 
jedura de fer a enfermi- 
dade mortal > mudarmos: 



contra inimigos da Fè. 

^4.4 Para que fe logre 
melhor os felices auípi-' 
cios defta tão defejada 
faude , reprefentarei eu 
hoje a V. Excellencia nc- 
ífe Sermão o eíl^ado do 
noílo çaíerjmo Braíli , : as; 
cau- 




J 



B^^ Sermão cia 

caufasde fua enfermida- íleeíleve o Brafil muitos 

<ie , & do modo que fou- annos, que foy a meu ver a 

ber, o remédio delia. E mayor occafiaó de feus 

porque nos naó fayamos males. Como o doente naó 

do Evangelho C ainda que pòdefallar, toda aoutra 

os cafos grandes efcuíkó conjeAura difficulta mui- 



qualquer divertimento ) 
irâó as enfermidades do 
Brafil retratadas na doen- 
ça de SJoaô,a quem a Vir- 
gem Maria hoje foy vifi- 
tar,&- dar faude. Todos fa- 
bemqueeftafaude foy de 



to a medicina. Por iíTo 
Chrifto nenhum enfermo 
curou com mais difficuU 
dadej&r em nenhum mila- 
gre gaílou mais tempo, 
que em curar hum ende- 
moninhado mudo ; Erat 



graça Peçamola ao divi ejiciens 'B^momum, & iL 
no Erpirico por mtercef- luderat muttim. O peior 



faó da mefma 
Av£ Maria,.,. 
-3051 £ aop ob o 



Senhora. 



100 



accidente, que teve o Bra- 
fil em fua enfermidade , 
foy o tolherfelhe a falia : 
muitas vezes fe quiz quei- 
ra . ^ ,2 ry . xarjuítamence, muitas ve- 
h't fa^a eft voxfalutatio- zes quiz pedir o remédio 
~mstu£tn auribus méis ^ de feus maies, mas íbmpre 
- exultavitin gáudio lhe afogou as palavras na 

mfans. garganta, ou o refpeito,ou 

C a violências & fe aigúa vez 

Omecemos por chegou algum gemido aos 
efta ultima pala- ouvidos de quem o devé- 



rra. Bem fabem os que fa- 
bemalingua Latina, que 
efta palavra, infansy infan- 
te, quer dizer o que naó 
falia. Neíle eíiado eílava 
o minino Bautiíla,quando 
a Senhora o vifitou , & ne- 



ra remediar , chegarão 
também as vozes do po- 
der,^ vencerão os clamo- 
res da razão. Poreílacau- 
fa ferei eu hoje o interpre- 
te do noílò enfermo, jà que 
a mim me cojube em fortev 
que 



»i 



Vifitaçao ãe Nofa S enhora. 1 9 ? 

que também S.JoaÓ naò devida juftiça. Bemjeide 



fallou por ry,fenâo por bo- 
ca de S. Ifabel. Na primei- 
ra informação da enfermi- 
dade confilte o acerto do 
remédio j & affim procu- 
rarei que feja muito ver- 
dadeira, & muito defmte- 
reíTada: fallarcmosjjàque 
nos he licito, para que fe- 



que juftiça íalião os TheO" 
logos,& ofentido em que 
entendem as palavrasjmas 
a nòs que fó bufcamos a 
femelhança , fervem-^nos 
aíHm como foaò. He pois 
a doença do Brafil, 'Pw^- 
tiojuliitÍ£debita,¥z\t2i da 
devida juftiça, aífim da ju- 



nãodigadoBrafiio quefe ftiça punitiva, que caftiga 

diíTeda Cidade de Ami- máos, como da juftiça di-* 

dasjqueaperdeoofilécio: ftributiva , que premrá 

Stlentmm Amidas perdidit. bons. Premio , & caftígp 

Ecomoa caufa he geral , faóosdouspolos, em que 

fatiarei também geralmé- ferevolvc&fuftentaa cô^ 

te, que naõ he razaó, nem íervaçaó de qualquer Mo^ 

condição minha , que fe narehia:& porquê ambos 

procure o bem univerfal eftes faltarão fempre ao 

com oíFenfas particulares. BrafiI,por iíTo fe arruinou, 

&cahio. Sem juftiça nap 



§. III. 



^^6 



A 



Enfermidade do 

^ Braíil , Senhor, 

Ije como a do minino Bau- 
tifta, peccado original. S 



haReyno,nem Provincia,' 
íicm Cidade , nem ainda, 
companhia de ladroens 
que pofta con fer varfe. Af- 
fim o prova S Agoftinho 
com authoridade de Cy- 



Thomás, & os Theologos piaô A fricano , & o ènfi 



definem o peccado origi 
nal com aquellas palavras 
tomadas de S. Anfelmo- 

E(iprivatiojuftitia dehtt/e-. 
Que o peccado original he 



fiàô conformemente Tul-^ 
iieí, Ariftoteles, Platão, U 
todos os que efcrevérao 
de Republica. Em quanto 
os Romanos guardarão 



húa privação, húa falta da igualdade , ainda, que neU 

les 






1i 



4 



J 



fS>^ Sermão íJa 

lesnaó era verdadeira vir- juíli^a.. As injuílíça<^ da 

tude, florecco ícu impe- terra faó as que abrem a 

no, & torao fenhores do porra àjuílica do Ceo E 

mundo ; porem tanto que como as naç^ens eftranhas 

a inteireza da juíliça fe íaó a vara da ira divina: 

foy corrom pçndo pouco a .Ajjur virga furor is met • cÓ 

pouco,apraelmopaíroen- dla^noscaíHga, com ellas 



fraquec.éraó as forças, defr 
mayáraó os brios , & vie- 
raó a pagar tributo os que 
o receberão de todas as 
gentes. lílo eílaó claman- 
do todos os Reynos com 
fuás mudanças, todos os 



nos deílerra, com ellas nos 
priva da Pátria -, que he 
muy antiga razaó de el>a. 
do da providécia de Deos, 
quando fe naó guarda ju- 
ííiçanafua vinha , dala a 
outros lavradores; Fineam 



impérios com fuás ru inas, f,imi locabit alijs ^P-ricolií 

odosPerfas, odos Gre- Pois fe por injuíticas fe 

gos,odos AíTyrios. Mas perdem os Eftados do mú- 

para que hecançarme eu do,feporinjuíliças osen. 

com repetir exemplos, fe trega Deos a naçoensef- 

prego a Auditório Catho- trangeiras, como poderia. 

lico,& temos authorida- mos nòsconfervar o nof- 

clesdeFè..? Regnum de fo, ou como o poderemos 

gente ingentem 'transferir reílaurar depois de perdi- 

profter mjuflitiasy diz o do, fenaó fazendo /li ft iça? 

Efpirito Santo no cap. de- O contrario feria rcfiftir a 

GimodoEcclefiaíHco:Que Deos, aporfiar contra á 

a caufa porque os Reynos, mefma Fè. ; r 

^ as Monarchias fenaô . 347 Sem juftiça fe co- 

côfervao debaixo do mef- meçou eíla guerra^ fcm jii* 

mo Senhor,a caufa porque ftiça fe continuou, & por 

;inda6 paíTando inconílá- falta de juíliça chegou ao 

temente de huas naçoens miferavel eftado em que a 

^outras, como vemos, he vemos. Ouve roubos, ou- 

propter mJHÍ^itías , por in- y.c homicídios, ouve defor 

e^í bediencias. 



ViJitaçaÕ de. Nofa Sc nhora. 
bedieiícias , ouve outros fe quer de noíTos 
delitos muitos , &: enor- 
mes, que naó fey Te chega- 
rão a tocar na Religião 5 
mas nunca ouve caftigo, 
n^unca ouve hum: rigor 



inimi-, 
goslque nefta ultima for- 
tuna taó grande que tive- 
raõ, quando com hum po- 
der taò de figual nos derrof 
táraó a mayor Armada q 



^e^X^e^o.^:!;;; píIbuaLinha.ad6usCa. 

^tndos íe^ançáraô P^-ens^íab.r^. que d^ 

muito juílos , muitas or- gollarao no Recite & a 

dens federão muito acer- outros inhabilitarao com 

Sas mascomodiíTeA- fupplieios -en os honro. 

nlloteles, as Leys naô faó fos,fó porque andarão r^ 

bc4s,poi4iuebemíe man, miííbs em acodir a.íba 

daô,fenaô porque bem fe obrigação. Pois fe o inimi^ 

cuardaó.a^e importa que go quando ganha da mor. 

foíremiuftos os bandos, tes de barato, fe quando 

fenaÓ fe p;uardavaò mais confegue o intento^, ^íe 

Gue fe fe mandara o quefe quando íe ve vitoriofo fa-: 

.nroiibia > Que importa be cortar cabeças -, nos que 

Gue foíTem accrtadasas or- fempre perdemos , & nem 

dens, fe nunca foy caftiga- fempre ppr falta^de poder, 

doquemas quebrou , & porque naó atalharemos a 

pode fer que nem repre- novas perdas com caitigo 

hendido ? Baile por todo exemplar de que for a cau^ 

encarecimento neíla ma- fa? Porque ha de (er con 



teria, que emonze annos 
deguerracontinua,& in- 
felice,onde ouve tátas ro- 
tas, tantas retiradasjtantas 
praças perdi-das, nunca vi- 
mos hum Capitão , nem 
^inda hum fuldado , que 
coma vidao pagaíTe. Oh 



fequencia na guerra do 
Brafil, fe me renderê paft 
fareia Efpanha, & defpa- 
charmehei? Ha refoluçaõ 
mais indigna de Efpa-. 
nhoes ? Ha razaò mais in-» 
digna de Gathoíicos ? 
34,8 Toda eíta falta de 



aprendamos, aprendamos caítigo, toda eíla remiííao 



»;.■> 



?9<í , Sermão da 

de culpas naceo de húa Republica, onde lia deli. 
razaodeeftadcque cà fe cos.Venaô onde falta o ca. 
praticou quafi fenipre:que ftigo delles : que os Rev. 
fenaohao de matar osho- nos.Scos Impérios naóos 



mens em tempo que os 
avemostantomifter: que 
naóhebem que fe perca 
em húa hora hum Tolda- 
do, que fcnaó faz fenaó 
em muitos annos: queju- 



arruinaóos peccados por 
cometidosjíenaó por djfli- 
mulados. Diíllmular com 
os máos, he mádarlhe que 
ofejaó jdiíTe Séneca , & 
mais era Gentio: ^«/ ncn 



lliçarhu homem porque ^etat peccare.cumjijjiuí 
matou outro, he curar húa bet, A conquiftar dila^I- 



chaga com outra chaga, & 
quefenaóremedeaó bem 
as perdas acrecétando as : 
que a primeira máxima do 
governo he faber permi- 
tir, &qu efe ha de diílimu- 
lar hum dano , por naó o 
evitar com outro mayor: 
como fenaòfora mayor 
danoadeftruiçaó de toda 



diílimas Provincias cami- 
nhava Moyfes General 
dos líraehtas, & naó duvi- 
dou degollar de húa vez 
vinte & quatro mil ho- 
mens, como feiè na Efcri- 
tura, porque entendia, co- 
mo exprimentádo Capii 
taó, que mais lhe impor* 
tavanofeu exercito a ob- 



a Republica, que a morte fervanciada juftiça,que o 
de hum particular , como numero dos foldados Que 
fenaòfora grande expedi- pelejou nunca no munda 
ente refgatar com húa vi- 
da as vidas de todos : Ex- 
peditutunus mortatur ho- 
mOi netotagenspereat.Ah 
trifte,&miferavel Brafil, 
que porque efta razaó de 



com numero mais deíi 
gual q Judas IMacabeo ? 
E com tudo nem os exér- 
citos de Apollonio ,né o$ 
ardis de Seron, nem os E- 
lefantes de Ántioco o 



eíladofe praticou em ú, pudéraó jà mais vencer , 
poriíTo estriíle,&mifera- antes tWc fahio femprc 
vel/ Naohe miferavela carregado de defpoj os, & 

de 



VifitaçãG de Nejfa Senhora 
ífc vitorias; porque? Por- 
que primeiro tirava aeí- 
pada contra osf€US,& de- 
pois contra os inimigos. 
Pelepva com poucos fol- 
dados,6c maiii venci;a,por- 



3Í>7 



^. IV. 



345? T}^'^^^^^^'^^^ 

Ij faria ao noíToen^ 

fermo eíla juftiça punitb 



nue poucos com juftiça va, q caftiga malfeitores, 
Se grande exercito! Aia- fenaoa outra parte da ju- 
gouDeoso mundo com o 
diluvio univerralí& para 
reílauraçao delle nam 
guardou mais que Noècó 
tresfilhoi feus em húa ar- 
ca. Pois, Senhor , parece 
que pudéramos replicar, 
quereis reftaurar o mun- 
d-o, quereilo reftLtuir a feu 
antigo eftado, & para húa 
facçató taó grande naò 



íHça diftributi va, que pf e^ 
mie liberalmente aos be- 
neméritos. Aílimcomoa 
medicina, diz Philo He>- 
breo, naò fò attende a pur- 
gar os humores noeivt)S/, 
fcnaó a alentar, êc aiimea? 
tar o fogeito debilitado : 
aíTim a hum. exercito, oi* 
Republica nao lhe baila 
aqiuílla parte da juíliça, 



guidaisnmis que quatro que como rigor do ca^. 

Lmens em hum navio? go a alimpa dos vrcios,xo. 

Sim -que depois de hum modepernicioros humo. 

calh-o taó grande, depois res. fejiaó que he também 



de húa jullrça taó exem 
piar, quatro homens , ôí 
hum fó navio bailaõ para 
peftaurar hum mundo in- 
teiro. Vede fenos fobeji- 
raófempre foldados para 
reílauraroBrafil , fe nos 
aaó faltara a jultiça. 



Heceííària a outra parte^ 
que com prémios propor- 
cionados ao> merecimento 
esforce^fuíleníie, & anime 
a efperança dos homens. 
Por iííb os Ro manos taó 
entendidos na paz ,. 6c na 
guerra inventarão para os 
foldades as coroas Civf- 
£as,6íMuraes>as Ovações, 
©s Triuiifos,& QuttQspro- 
miCíS 



lir 



^rn^ 



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ti 

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^J;. 



398 Sermão Ja 
mios militares porque CO- canhas com que requerer, 
mo oamordavida hecaó Se fe guardar eftaigualda- 
natural, quem íc atreverá de, entrara em efperanças 
aarrifcala increpidamen- omorqueteiro,&: Toldado 
tejenaó a'entado com a de Fortuna , que também 
cfperáça do premio; Quá- para ellefefízeraó os gra- 
do David quiz fair a pele- des polvos, fe os merecer i 
jar como Gigante , per- & animados com eftepé- 
guncou primeiro ^///^^/^. ramento,osdequehojere- 
bjtur viro , qui percujfatt náo Faz cafo, feráó leoens, 



^hilífthaum hunc ? Que fe 
hadedarao iiomem, que 
matar eíle Philiíl-eo > |à 
naquellc tempo fenaóar- 
f ifcava a vida , fenaó por 
feu jufto preço, jà entaó 
^naóaviano mundo quem 
jquizeíreíer valete de gra- 
ça. NeceíTario he logo 
que haja prémios , para 



^ Faraó maravilhas : que 
muitas vezes debaixo da 
efpada Ferrugenta eítà ef- 
condtdo o valor , como tal 
vez debaixo dos talíz bor- 
dados anda dourada a co- 
bardia Ailimquehe ne- 
ceíTario que haja Saúis li- 
beraes,para que fe levan- 
tem Davís animofos ; & 



que haja Toldados j & que muito mais neceíTario que 
aos prémios fe entre pela os prémios Fedem a quem 
porta do merecimento: difparar aFunda, &derru- 



dem-fe ao Tangue derra 
mado,&'naó ao herdado 
fomente: dem-Tc ao valor, 
êcnaó avalia; que depois 
que no mundo Fe introdu- 
zio venderem Te as hon- 
ras militares , converteoTe 
amiíiciaem latrocínio, & 
vaó os Toldados à guerra a 
tirar dinheiro com que 



bar o Gigante, &- naó a 
quem ficar olhando áç:{. 
dos arrayaes. ISTenhuns 
Terviços paga Sua Mage- 
ílade hoje com mais libe- 
ral maó, que os do Brafil, 
& com tudo a guerra en- 
fraquece, &: a reputação 
das armas cada vez cm 
peioreílado, porque acó- 



comprar,acnaóaobrarfa- tece nos deTpachos o de 

que 



»( 



Vijítaçaõde Nojfa Senhora. ^99 

á ordinariamente fequei- àsfetasde Efaíi fe nega a 

xa o mundo, que os vale- bençaÓ/e alcança mais eí- 

rofoslevaó as feridas , & tecomo feuengano^quco 

DS venturofos os prémios, outro com a fua verdade; 

Na Filofofía bem ordena- quem a vera que trabalhe ? 

da primeiro he a potencia, Qiiemaverà que fe arrií- 

& o aao, depois o habito > que ? Q^^^,"J^^^^;^^^;j'^J^^; 
cale olharmos para os pei- ' " "^ ^^"^ 
tos dos homens , achare- 
mos muitos hábitos , & 
muy penfionados , onde 
nunca ouve ado, nem ain- 
da potêcia.Defta defigual- 
dade fe fegue, que o eífei- 
todos prémios militares 



Icje ? Naó ha duvida, que 
à viíla de femelhantes 
mercesjdiráó os valerofos, 
que vaò errados, teráô có- 
triçaó do que devéraó ter 
complacência , arrepen- 
derfehaó de feus brios,có- 

Lu>iua piv.»*.-. ... denaráó fuás paíTadas fí- 

vem a fer contrario a fy nezas,&re chegarem a pe- 
mefmo, porque em vez de lejar valentemente, fera 



comellesíe animarem os 
foldados , antes fe defani- 
maó,&:defalentaô. Como 
feanimaràofoldadoabuf- 
car a honra por meyo das 
bombardas , &: dòs moC- 
quetes,fevèem hum pei- 
to o fangue das balias , &: 
noutro a purpuradas Cru- 
zes ? Como fe alentara a 
padecer os trabalhos , & 



por defefperaçaój que naó 
hacoufa que aíTim defef- 
pere os beneméritos, co- 
mo ver os indignos pre- 
miados. 

350 Mas muitas graças 
fejaó dadas a Deos , que 
para remédio deíle grande 
mal naó fó temos juftiça 
na terra, fenaó juftiça de 
Sol, como diz Malachias 



perigosdehiia campanha, OnJur vobts M jujtitj^, 
fe vè premiado a Jacob, Sol para aiiamiar,para co- 
que ficou em cafa, & fem nhecer , para difíinguir: 
premio a Efaúi que correo julliçapara premiar com 
os montes ? Se às peiles de igualdade. Por líTo eu là 
íacob fe dà o morgado, & dizia^que naó fei qual lh.e 



Li^r 




JMK 



f 

í 



4^0 Sermão 

fez fempre mayor mal ao 
Brafil, fe a enfermidade, 
íeastrevas. Muitas vezes 
-prevaleceo o engano con- 
tra a verdade neíla guer- 
-fa, muitas vezes luzio o 
que naó era ouro , Sc foy 
taó injuíla a fama, que tro- 
cou os nomes às coufas, & 
àspeííbas , & foáraópelo 
•mtindo erradamente. O 
mayor eícandalo que te- 
nho contra a natureza, h«c 
íium que cada hora expri- 
mentamos na artelharia. 
Porque razaò ha de fazer 
tanto eíl: rondo húa peça 
queperdeoo pelouro, co- 
mo outra que empregou o 
tiro? Ha mayor injultiça, 
lia mayor deformidade da 
natureza ? A peça que 
acertou, foe muito embo- 
ra, atroe o mundo, efíre- 
meça a terra com feu eftá- 
pido: mas a peça que er- 
rou, a peça que naó fez na- 
da,a peça que naò fez mais 
que empobrecer os arma- 
zéns dei Rey fem provei- 
to, porque ha de foar, por- 
que ha de fer ouvida? Ain- 
da tenho advertido mais 
.nefta matéria. Quando 



da 

aqui efl-íremos íltiados n« 
anno de trinta & oito,tira- 
vao inimigo muitas bailas 
ao Baluarte de S. António: 
os pelouros que acerta- 
vaó , íicavaó enterrados 
na trincheira, os que erra- 
vaó, voa vaó por cima , vi- 
nhaó rompendo os ares 
com grande ruido, & os 
que andavaó por eílas 
ruas, aqui fe abaixava hú, 
acolá fe abaixava outro,& 
muita géte lhes fazia cpr- 
tefias demafiada«. De íor- 
tequeo pelouro que er- 
rou, eíTe fazia os eftródosj 
a eíTe fe faziaó as reveren- 
eias: &ooutro que acer- 
tou, o outro que fez fua 
obrigação, eífe ficava en- 
terrado. Ah quantos ex- 
emplos deRes fe acháraó 
na guerra do Brafil ! Quá- 
tosforao mais venturolbs 
•com feus erros, que outroí 
-com fe us a ce r tos ? Algum 
que fempre errou, que nu- 
-cafezcoufa boa , nomea- 
do, appIaudido,premiado 
Sc o que acertoUjO que tra- 
balhou, o que fubio a trin- 
cheira, o que derramou c 
fanguc, enterrado, efque- 
cid< 



V 



Víjitaçaê de Noffa Senhora. 401 

cidorpofto a hum canto, dos no mundo, nem que 

Importa pois que naórou- mais valentes fejaõ , nem 

-be a negociação o que fe que mais firvaó, nem que 

deve ao merecimento^que mais trabalhem, nem que 

fedefenterrem os talentos mais mereção. Jà outra 

efcondidos qucfepultoua vez tive efte penfamento, 

fortuna, ou afem-razaój & agora me torno a con- 

quenaohaia benemérito, firmar mais nelle, que pa- 

que naò feja bem afortu- ra fe defpacharem os íol- 

nado i que fe cortea lingua dados do Brafil,principal. 

â fama, fe for mjufta i que mente os que andao em 

fecalifiquem papeis, que campanha, nao tem necel- 

fe examinem certidoens, fidade de mais certidão. 



que nem todas faó verda= 
. deiras. Se foraó verdadei- 
ras todas as certidoens dos 
foldados do Braíil , fea- 
quellas rumas de façanhas 
em papel foraó confor- 
mes a feus originaes, que 
mais queriamos nòs ? Jà 
naò ou vera Olanda, nem 
França, nem Turquia, to- 
áo o mundo fora noílo, 

5. V. 



que tomar o capitulo on- 
ze da fegunda Epiftola de 
S.Paulo aos Corinthios, 
firmada,& jurada por feus 
Generaes,que bem o po- 
derio fazer fem nenhum 
efcrupulo.FazallioApo- 
ftolo hua ladainha muy 
comprida de feus fervi- 
ços,& trabalhos , & diz af- 
íim : In labor ibusplurimisy 
in carcerlbus abmidantius , 
inplagisfupra modum 



m 
niortThus frequentar , Ò'C, 
ífi KTAm pretendo Demolo por lido,& vamos 
IN dizer com ifto applicando. In labor ibus 
^uenaó merecem muito ///^r/V^/Viquefoldados pa- 
.osfoldados defta guerra, decem no mundo mayo- 
. porque antes tenho para res trabalhos, que os do 
mim, como he opinião de lèt2i£ú? In c^rartbus abun^ 
íodgs , que naò ha folda- dmtius > também muitas 
~~ TomJ. ' " Çc yezc$ 



.^- .f 



402 Sermão dd 

vezes faopriíioneiros, & nhia, para ferem mortos a 

nas prifoés nenhuns mais ranguefrio,& cruelmente 

eruelmencc tratados que deípedaçados dos alfan- 

elle?. Inpla-^isfiipra modíi % gcs Olandçzes, pelo Rey , 

quantas fcjaó as feridas pela Pátria , pcfa honra, 

que recebem, & quam có- pela Religião , pela Fe 



tinuas, bem o dizem ç^'[^t^ 
Hofpiraes , bem o dizem 
e fias campanhas, & tam- 
bém o? peicos vivos o po- 
dem dizer, que apenas fe 



O valerolbs foldadosj 
que de boa vontade me 
detivera eu agora cora 
vofco pregado vofi^as glo- 
riofas exéquias , mas vou 



achara a]gum,que naó an- depreífafeguindo aos que 

de feito hum crivo. In vosdeixaó, perdoaime.iw 

mortibus frequenter j fre- ittnenbus fape ; quem an- 

quentemente niortos,por- dou nuncajnem ainda cor- 

quenaó ha guerra no mú- reo coma imaginação os 

do, onde fe morra taófre- caminhos,que fazem efies 

quentemente, como na do foldados ? Daqui a Perná- 

Braíil,dedia, & de noite, buco,daquià Paraiba, da 



no inverno,& no veraó,na 
trincheira, &c na campa- 
nha, nas nofi^as terras , & 
nas do inimigo 5 & agora 
neíla jornada ultima, & 
milagrofa , onde fe naó 



qui ao Riogrande,& mais 
abaixo , por certoens de 
trezentas, & quatrocentas 
iegoas, levando fempreas 
muniçoensàs coftas, & os 
mantimentos nos ferros 



deu quartel, o mefmo foy dos chuços, & nas bocas 
ferferido,que morto, dei- dos arcabuzes. Tericulis 



xando os amigos aos ami- 
gos , & os irmãos aos ir- 
mãos por mais naó pode- 
rem? ficando os mifcra- 
reis feridos ncífes matos > 
neíTasellradas, fem cura, 
í«m remédio, fcm compa- 



fluminum -, atravefl^ndo 
rios tantos, & taócauda- 
lofosfem barca,fem ponte 
mais que os bravos,& ain- 
duftriaparaos paflkr. Te^ 
riculis latronum j faindo- 
Ihcs os bdroens a cada 
paíTo* 



Fifítaçao de Nojfa Senhora. 405. 

paflb. Tericulís esc genere % nuditate 5 nus , defpidos , 
fendo Efpanhoes, a quem defcalços, ao Sol, ao frio,à 
asOlandezes tem mortal chuva , às inclemência? 
'ò^io.Tericulis exgentibus-, dos ares defte clima, que 
irrifcadosa mil embofca- faó os mais agudos que fe 
das do Gentio rebelde, ^'xbcm. Infame, ájat^ in 
Tericulis in Civitate ; com jejunijs mu'.tis } jejuando, 
perigos na Cidade, como &padecendo as mais ex- 
o que ti veraó nefta , quan- traordinarias fomes, & fe- 
do a preço de tantas vidas des,que nunca foportárao 
adefendéraó valcrofamé- corpos mortaes,fuftentan- 
te. Tericulis infolHudine •, do a trifl:e,&: animofa vida 
com perigos no deferto, com as ervas do campo, 
porque faó vaftilTimos os com as raizes das arvores, 
defpovoados que paíTaó, comos bichos do mato, 
fem cafa, fem géte,& mui- com as frutas agreftes, & 
tas vezes femrafto de fe- v€nenofas,& tendofe por 
Ta,nem de animal , mais rnuy regalados , fe chega- 
<lueG€0,&: terra. Tericw vaó a alcançar para comer 
lísmmariycom perigos no meya libra de carne de ca- 
mar,queainda queatègo- vallo. Ha mais invencível 
Taosnaóavia,bemfefabe paciência? Hamaisdura, 
^uam grandes foraó os & pertinaz conílancia .? Se 
que fe padecerão na Ar- iftofabeis Olandezes, em 



niada,& ainda naò fe fabe 
tudo. Terktilis in falfis 
fratribus-j com perigos de 
falfos irmãos, porque nem 
com os noíTos Portugue 



que fundais ^'^oíTas efperã 
ça5,comonaó deíiftis da 
emprefa , como naódef- 
mayais , como naõ vos 
ides;.? Tendo os foldados 



zeséílâofeguros na cam- de Júlio Cefar ficiacia ■% 
paaha , que o temor da Gidade de Dyrrachio , 
jnorte os obriga a defco- chegarão a comer naõ íei 
brir miitas vezes o que q paó feito de ervas :, mas 
nao devéraô. Infngore^ & paò emfim 5 o qual com^ 

Gcij vilic 






H 




4a4] Sermão da 

vi&Q Pompeo ',' que era o pela m eAna razaõ digo etr 

Capitão ficiado : primei- dos Toldados do Brafit: 



W' 



ramente diíTe, que elle pe- 
lejava' com ferasj & naó có 
homens ; Sc logo mandou, 
queaquelle paõ naó apa- 
rece íTe, porque fe o viíTem 
feus Toldados , íem duvida 
deTmayariaó , &: naô Te 
acreveriaò a reíiílir a gen- 
te de rança coní^-ancia , 5c 
pertinácia. Mevtfapatien- 
tia^Ò'fSTtinãx:la hoftis^am- 
mifuorumfrangerentur^ di x 
Suetonio. Bem digo eu lo- 
go, Olandezes, Te vedes o 
paócom queTe Túílentaó 
noíTos Toldados , de cujo 
veneno morrerão em húa 
noite mais de vinte. Te ve- 
des efta paciência, eílacó- 
ílancia,e(la percinacia,co- 
movos atreveis a pelejar 
com tal gente, CO mo Te vos 
naó quebraó os ânimos, 
como naó delifHs da em 
preTa ? Mas agora o Tareis, 
agora o veremos com o Ta- 
vor divino, que jà he che- 
gado o tempo. 

l f 2 Por tudo ifto dizia 
S Paulo:'P/«í omníbus labo' 
ravi :Quc trabalhou mais 
que todos os Apoftolos: 6t 



Tlusomnibus labor averuti 
Quetrabalhára6,& traba- 
lhão mais que todos os Tol- 
dados do miido, 8c Te mais- 
que todos trabalhão , bem 
n erecem íèr premiados, 
mais que todos. MdLb^ô for- 
tuna viris invida fartibusV 
diziaHerculestOhfortuna' 
Tempre envejoTa aos va- 
roens forres ! Bem expri- 
menraó noíTos Toldados,. 
queTeajuntaó poucas ve* 
2esvalor,Sc fortuna, por- 
que a flim como Taóvaleii^ 
tesmais que todos, aílim» 
Taó mais que todos deígra- 
ciados. Naó ha infantaria 
no mundo, nem mais raaí 
pa;ía, nem mais mal aíll- 
íhda: he poílive^ que haó 
de andar deTcai;os, 8cdeT- 
pidos huns corpos taó ri- 
cos de valor! DeTcalços,6c 
deTpidos os Toldados do 
Rey das ETpanhas , do 
mais poderofo Monarca 
do mundo ! Bem (abemos 
a quanta eílreifeza eítà re- 
duzida a fazenda Real no 
tempo preíentc, mas quá- 
do ElRey nelle eílado 
naó 



V 



VifitaçaÕ de No{fa Senhora. 4^ 1 

na6 tivera outra coufa , a por iíTo fe efquccem do m- 
camizaC como dizem ) vcílir. E certo, Senhores, 
•avia de tirar para veftir para que digamos, &coíi^ 
taes foldados. Nenhum feíTemos tudo, naó avena 
Monarca do mundo chc- muito de que nos efpan- 
goununcaa tanta pobre- tar, quando aíTim o íizc- 
za, como Chrifto Redep- raó. Quando Deos pergu- 
tor noíTo na Cruz > 6c com tou a Adam, porque íe eí- 
tudo,tanto que fe vio com condéra no bofque do 1 a- 
titulo deReyfobreaca- raifo, refpondeo elle : 7j- 
bci^-a, Rex ludaorumy nao muheo quodnudus effeniiicr 
íó os vcílidos exteriores , abfionài me : Senhor, oliíei 
fenaóa Túnica interior para mim, vime defpido, 
deu aos Toldados ;& nao a por iffo temi, &i:neercon- 
foldados que defendiaó a di. O mefmo podéraÓ fa- 
Fè,fenaóa Toldados que zer os Toldados defta guer- 
cruciíicavaó a Chrifto: ra, temerem ,& eTconde- 
Milites ergo ctm crucifi- rem-Tenaoccafiaô,&quã- 
xiffenteumyãcceperunt ve^ do lhes perguntaíTem por- 
Jiimenta ejuSy & Tunicam, que ? R.efponder: 7tmut,eo 
Equefizeraò efles Tolda- quodnudus effem,& abfcõ- 
dos logo ? Tomarão os ve- di me\ ETcondime em hum 
ftidos do Senhor, & puze- mato, temi a morte , nam 
raó- Te a jugalos. Pois Te o quiz pelejar com os Olan- 
verdadeiro Rey Te deTpe dezes, porque quãdo olho 
para que os Toldados te- para mim, vejome deTpi- 
nhaóque jugar , quanto do,6c naó quero daroTan- 
maisTedeve deTpir, para gue por quem me naó dà 
quetenhaó que veftir? E cie veftir. Ifto podéraó di- 
mais quando elles Taó taò zerosnoftbs Toldados co- 
valentes, & taó brioTos, mo filhos de Adam , mas 
que andando taó rotos , & como fílhos,& deTcenden- 
taó deTpidos, que podéraó tes daquelles Portuguezes 
tereTquecidooveftir,nem famoTos, pelejaó , traba- 
,,. . Tom.8. Ce iij IhaÕ, 



W 




S I* ,^ •' 



fi' 



4C^^ Sermaoda 

IhaÓ, canfaÓ, morrem , 8c raó fempre a vo/es , que 

quando olhaÓ parafy, co- aviaódefervir a fcu liey, 

moandaódefpidos, vem- & morrer por elíe, ainda 

leary,& fazem como que. que nuca lhes dé'Te de co- 

íao. Ha mayor fineza? Ha mer, nem de vcílir. 
mayorconftanciaPHama. 3^3 E fe fem veílir, & 

yor fidelidade Portu8;ue-. fem comer obrarão atèqui 

zaemhm. Là Jacob hum. caó valerofamen:e , agora 

diaqiiefeviomayfavore- que a cuidadoHi providé- 

cidodeDeos,rahio com cia do Marquez Vifo- 



hum voto, & diíTedeíla 
maneira : Si dederit mibi 
fanem advejcendim^ér ve- 
fiimentiim ad induendum^ 
eritmihi Domimism 'Deu. 
SeDeosme der paó para 



Rey, que Deoi guarde, de 
nenhúacouía mais tratou, 
que de trazer com que vc- 
ílir, & fu dentar elia Infan- 
taria; que fará í) , ou que 
nao faraó ? Qmc naó faraó 



comer, & roupa para ve- agradecidos, fe tanto íize 
lhr,eu|açoyotoarua di- raó dcfcontentes ? Que 



vina Mageftade de o fer- 
vircomo a meu Senhor. 
-Vós paííàis pelo delcanço 
<ia condição, pela valentia 
ck promeíTa ? Pois efte era 
aqueile famoíb facob, a 



naó merecerão trabalhan- 
do os que tanto trabalha- 
rão fem merecer? Não ha 
duvida, que alentados os 
bons, que feráó os mais, 
com o premio , &: refrea- 



quemlelançavaó efcadas dososmàos,que feráó os 
do Ceo aterra, a quem o menos, com o caftigo, en- 



mefmoDeos vigiava ofo 
no. Para que conheça Ef- 
panha,para que conheça 
JioíTo grande Monarca 
quanto mais deve aos d- 
deliíllmos Toldados deíia 
guerra, pois com as obra»,^, 
& com o fangue promecé- 



treas refiílencias do te- 
mor, & os impulfos da ef- 
perança, tornará o Brafil 
cm ry,& debaixo das azas 
de hua,& outra juftiça, re- 
cobrará a perfeita laude, 
que tanto lhe defeja mos. 



(i 



Vifitaçao de Noffa Senhora. 4^7 

alheyo , cubicas , iiitercf- 
^, VI. féS, ganhosjôc conveniên- 

cias particulares , por on- 
MAscomoácx^ deajuftiça fenaóguarda, 
periencia enfi- & o Eílado fe perde. Per- 
na, que para a faude Ter fe- defe o Brafil, Senhor (di- 
eura,& firme,naó bafta fo- gamolo em hua palavra^ 
brefarar a enfermidade, porque alguns Miniftros 
fenaó fe arrancão as rai- deS.Mageftade nao vem 



5H 



zes , & fe cortaó as caufas 
delia i he neccíTario ver^ 
mos ultimamente, quaes 
faó,& quaes foraó as cau* 
fas defta enfermidade do 
Braíil. A caufada enfer- 
midade do Brafil bem 
examinada he a mefma, 



càbufcarnoíTobem, vem 
càbufcarnoíros bens. Af- 
fim como diíTemos que fe 
perdeoo mundo, porque 
Adam fez fó amctade do 
que Deos lhe mandou, em 
fentido averfo , guardar 

cxaium^-^ "- - -' fim, trabalhar naõ : affim 

que a do peccado origi- podemos dizer,quefeper- 
nal Foz Deos no Paraifo de também o Brafil , por- 
terreal a nofib Pay Adam, que alguns de feus Mini- 
mandandolhequeo guar- ftrosnaÓ fazem mais que 
daOc, & trabalhaíTe : Vt ametade do que ElRey 
operarenir,& cuftodíret-.Zi lhes manda. ElRey man- 
elle parecendolhe melhor da-os tomar Pernambu- 
-'-"---■' CO, êcelles contentaófecó 
o tomar. Se hum fó ho- 
mem que tomou 5 perdeo 
o mundojtantos homens á 
tomar, como naó haó de 
perder hum Eftado ? Efte 
tomar o alheyo, ou feja o 
doReyjOu o dos Povos ^ 
he a origem da doença : ôe 
as varias artes, 6c modos, 8í 
in- 



o guardar,que o trabalhar^ 
lançou máoà arvore ve- 
dada, tomou o pomo que 
naô era feu,& perdeo a ju- 
ll:iça,em que vivia,para fy, 
& para o género humano. 
Eílafoy a origem do pec- 
cado original, & eíla he a 
caufa original das doen- 
ças do Brafil , tomar o 



% 



./ 



4°^ Sermão da 

inflrumentos de tomar, & alimentar o fogeito/an- 
faóosfyntomas, que fen- grando-o por outra parte 
do de fua natureza muy os tributos em todas as 
perigofaja fazem por mo- veas, milagre heque nam 
mentos mais mortal. Efe tenha efpirado. 



naó, pergunto , para que 
ascaufas dos fyntomas fe 
conheção melhor: Toma 
nefta terra o Miniftro da 



3 ff Como fe avia de 
reftaurar o Brafii (naó fal- 
lo de hoje, nem de hon- 
temjque a enfermidade he 



JufticaPSim toma. Toma muito antiga,ainda mal) 
o Miniftro da Fazenda? como fe avia de reftaurar 



Sim toma. Toma o Mini- 
ílro da Republica.? Sim 
toma. Toma o Miniftro da 
Milicia > Sim toma.Toma 
o Miniftro do Eftado.^Sim 
toma. E como tantos fyn- 
tomas lhe fobrevem ao 
pobre enfermo , & todos 
acometem à cabeça, & ao 



o Brafil, fe hia o Capitáo 
levantar húa Companhia 
pelos lugares de fora , & 
por lhe naó fugirem os fol- 
dados , trazia- os na algi- 
beira ^ E como após efte 
hia logo outro do mefmo 
humor ,q os trazia igual- 
mente arrecadados, ouve 



coração, que faó as partes pobre homem neftes ar- 
mais vitaes , & todos faó redores , que fem fair da 



actraétivos , & contradri- 
vosdo dinheiro, que he o 
nervo dos exercitos,& das 
Republicas , fica tomado 
todo o corpo , & tolhido 
clepès,& mãos, fem aver 



Bahia, como fe quatro ve- 
zes fora a Argel, quatro 
vezes fe refgatou com o 
feu dinheiro. Como fe 
aviadereftauraro Brafil, 
feosmantimétos fe abar- 



maó efquerda que cafti- cavaócommáodelRey,& 

gue, nem mão direita que tal vez os vendião léus 

premie,&: faltando a jufti- Miniftros,ou osMiniftros 

ça punitiva para expellir de feusMiniftros(quenaó 

os humores nocivos ,& a ha Adam , que não tenha 

diftributiva para alentar, fua Eva apondo os preços 

às 



VifítaçaÕ de Nojfa Senhora, 4<^<^ 

àscouTas a cubica de quê deftascaliclades,que im- 
vendia,& a neceíTidade de portava que os Generaes 



quem comprava ? Como 
feaviadereftaurar o Bra- 
íil, fe os na vios,que fuften- 
tão o comercio , & enri- 
quecem aterra, aviáo de 
comprar o defcarregar , & 
o dar querena , & o carre- 



illuílriffimos foíTem taó 
puros como o Sol , & tão 
incorruptiveis como os 
Orbes celeftes? Digo ifto, 
porque fei, que o vulgo hc 
monftro de muitas cabe- 
ças , que não fe governa 



gar,& o partirA naó fei fe por verdade, nem por ra- 

também os ventos? Como zão , & fe atreve a por a 

fe avia de reílaurar o Bra- boca no mefmo Ceo , fem 

fil, fe o Capitão de Infan- perdoar, nem guardar de- 

tariapor comer as praças coro ainda ao mayorPla- 

aos foldados , os abfolvia neta. O certo he,que mui- 

das guardas, & das outras tas coufas fe dizem , que 

obrigaçoens militares,en- não faó , & ha fucceífores 

vilec^endofe em officios de Pilatos no mundo, que 

mecânicos os ânimos, que porfe lavarem as mãos a 

haó de fer nobres,& gene- fy, lanção as culpas à ca- 

rofos ? Como fe avia de beça. Que avião as cabe- 



reílaurar o Brafil > fe o Ca- 
pitão de Mar, & Guerra 
fazia cruel guerra ao feu 
navio, vendendo os man- 
timentos, as muniçoens, 
as enxárcias , as velas, as 
€ntenas,& fenão vendeoo 
cafco do Galeão , foy por- 
que não achou quem lho 

compraíTe ? E como mais, l i- 

ou menos, por noíTos pec- dade deílenome fefogei- 
cados , fempre ouve no tava a neceíHdade , ou fe 
Braíil alguns Miniítros abatia a cubica] ôc no ca- 
bo 



çasde executar menean- 
dofe com taes mãos , & 
obrando com taes inftru- 
mentos ? Desfaziafe o Po- 
vo em tributos , & mais 
tributos, em impoíiçoensj 
& mais impofiçoens, em 
donativos,& mais donati- 
vos, em efmolas , & mais 
efmoias [ que atè à humií- 



Híl' 



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,/■ 



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4TO Sermão da 

bonada aproveitava , na- 
da iiizia , nada aparecia. 
Porque ? Porque o dinhei- 
ro não paíTava das mãos 
por onde paíTava. Muito 
deu em feu tempo Per- 
•nambuco : muito deu, &: 
dà hoje a Bahia, 8c nada fe 
logra ; porque o que fe tira 
do Braíil, tirafe do Brafil , 
oBraíil o dà , Portugal o 
leva. 



ff. VII. 

Jf^ /^Om terem tão 
V^pouco do Ceo 
os Miniftros que ifto fa- 
zem , temolos retratados 
nas nuvens. Aparece hua 
nuvem no meyo daquella 
Bahia,lança húa manga ao 
mar, vai forvendo por oc- 
cultofegredoda natureza 
grande cantidade de agua, 
& depois que eílà bé chea, 
depois que eílà bem car- 
regada, dalhe o vento, & 
vai chover daqui a trinta , 
daqui a fincoenta legoas. 
Pois nuvem ingrata, nu- 
vem injufta , fe na Bahia 
tomaíte eíTa agua , fe na 
Bahia te encheíle^ porque 



não choves também na 
Bahia .? Se a tirafbe de nòs, 
porque a não defpendes 
comnofcoPSearoubaíle a 
noffos mares,porque a não 
reftitues a noífos campos > 
Taes como ifto faó muitas 
vezes os Miniftros que 
vem ao Brafil, & he fortu- 
na geral das partes ultra- 
marinas. Partem de Por- 
tugal eftas nuvens, paíTaó 
as calmas da Linha, onde 
diz que também refervem 
as conciencias , & em che- 
gando, verbigratia^ a efta 
Bahia , não fazem mais 
que chupar>acquirir,ajun- 
tar,encherfe (^pormeyos 

occultos, masfabidos^ & 
ao cabo de três, ou quatro 
annos,em vez de fertiliza- 
rem a noíTa terra có a agua 
que era noíTa , abrem as 
azas ao vento , & vão cho- 
ver a Lisboa, efperdiçara 
Madrid. Por iíTo nada lhe 
luz ao Brafil por mais que 
dè, nada lhe monta , & na- 
da lhe aproveita por mais 
que faça, por mais que fc 
desfaça. E o mal mais para 
fentir de todos he,que a 
agua que por là chovem, & 
cf- 



>i 



VifitaçaÕ de 
efperdiçãoas nuvens, naó 
he tirada da abundância 
domar, como noutro té- 
po, fenao das lagrimas do 
miferavelj^ dos fuores do 
pobre : que náo fei como 
atura jà tanto a conftan- 
cia , & fidelidade At^í^s 
vaífallos. Tenho repara- 
do muito, que em nenhum 
tormento da Payxaó de- 
ceo Anjo do Ceo a con- 
fortar a Chrifto , fenaò 
quando fuou no Horto. 
Pois porque mais nos fuo- 
res do Horto, q nos açou- 
tes da coluna,nos tormen- 
tos da Cruz, ou noutro da- 
quelíes trances rigoroíif- 
limos .? Os porquês de 
Deos faófóaelle manife- 
ílos. Mas o que elle nosre- 
velou daquelle cafo , he 
que fuou, 6c que fuou pela 
faude, pela vida , & pela 
glorificação dos homens. 
Equehajaò de viver ou- 
tros à cufta do meu fuor! 
Que haja; de fu ar eu para 
q outros vivaôí Que haja 
defuareu para que outros 
triunfem ! he hum ponto 
tão rigorofo , confiderado 
humanaméte como Chri- 



Nofa Senhora. ^ 4^1 

fto cntaò o conilderava,he 
hum ponto taó rigorofo, 
he hum trance taò aperta- 
do, que atè o coração de 
hum homem Deos parece 
que ha miíler que venha 
hum Anjo do Ceo ao con- 
fortar, que naò ha forças 
na natureza , nem cabedal 
para tanto. Muitos trances 
deites tens padecido , def- 
graciado Brafil, muitos te 
desfizeraÓpara fe fazerê, 
muitos edifícáo Palácios 
com os pedaços de tuas 
ruínas, muitos cornem o 
feu paó, ou o paó naó feu 
com o fuor do teu rofto: el- 
les ricos > tu pobre: eíles 
falvos, tu em perigo : elles 
por ti vivendo em profpe- 
ridade, tu por elles a rifco 
deefpirar. Mas agora ale- 
grate, animate, torna em 
xx^U dà graças a Deos, que 
jà por mercê fua citamos 
em tempo, quefe concor- 
rermos com o nofíb fuorj 
ha de fer para ' nôíFa faude.- 
Peío que , Senhores, vò^ 
os que governais a Repu- 
blica, naô atenteis fó para 
a fraqueza do enfermo, 
que bê vemos quam pou- 
ca 



a > 

lÍ 



f r 



412 Sermão da. 

ca fuílancía tem , & quam 
debilitado eftà, mas olhai 
muito para o bem da fau- 
àc^^ para a importância 
do remédio. O doente que 
quer farar,levado do amor 
da vida, nada põem por 
diante, em nada repara , 
por afperos que fejaó os 
medicamentos, a tudo fe- 
cha os olhos. Bem fei que 
fe haó de ouvir ays , bem 
{ç\ que fe haó de ouvir ge- 
inidos,& muito juílos,mas 
compadecer,& cortarCco- 
mofejacoma igualdade, 



§. VIII. 



jTj Porque fei de cer- 



^^7 _ 

to qaílim o ave- 
mos de ver , corno digo» 
quero acabar eíle Sermão 
com húa profecia alegre, 
fundada na mefm a verda- 
de,&he,que defta vez fe 
ha de reílaurar o Brafil. 
Dem-melicença para que 
pondere hum lugar , que 
hoje tudo foraó palavras, 
mas foy neceíTario dizer 
muito, outro diaprégarc- 



& moderação devida^que mospenfamentos. Sacra 
fer nefta parte cruel, he a mento Eucharifti^ totus 



mayor piedade. Animefe 
pois a fidelidade, & libe- 
ralidade defte nobre Povo 
a fe foccorrer,& ajudar ne- 
ftacaufataòjufta , & taó 
fua,eftando mui certo, & 
feguro, que fe der o fuor,fe 
derofangue, náohadefer 
para que outros vivão, & 
triunfem , fenão para que 
nòs vivamos , & triunfe- 
mos de noílbs inimigos. 
Tudo o que der a Bahia, 
para a Bahia ha de fer: tu- 
do o que fe tirar do Braíil, 
có o Brafil fe ha de gaitar. 



mundus fubjugatus eft , diz 
S. Eligio na homilia onze, 
& he authoridade muy re- 
cebida de toda a Igreja, 
que com o Santiflimo Sa- 
cramento da Euchariftia 
íogeitou Chriílo , & re- 
ftaurouomúdo. Na Cruz 
alcançou a primeira vito- 
ria i mas com o Sacramen- 
to de feu corpo , & fangue 
foy reftaurando , & reíli- 
tuindoafeu império quá- 
to o demónio lhe tinha ti- 
ranizado. Ora examine- 
mos, & faibamos porque 
mais 



^ 



Vifítaçaoãe 
inaís cam o Sacramento 
daEucharillia, que com 
onti-o myflerio. Chrifto 
nacido, ChriíT-o raorto, 
CháíVo refurcitado nam 
pudera reííaiif ar o mun- 
do > Pois porqiie mais 
Chriílo facramentado ? 
Porque fe tomou por in- 
ftrumento deífà reOaufa- 
çáoomyílerio (agrado da 
Euchanltia i Lavremos 
hum diamante com ou- 
tro diamante,& explique- 
mos hum Santo com ou^ 
tro Santo. S. Thomás fol- 
iando do Sanriílimo Sa- 
cramento do Altar, nota 
húa coufa muito digna de 
ponderação, ^ he, \ nefte 
Ibberano myfterio quanto 
Chriíi-o Fecebeo de nòs, 
tudo deípende com noí- 
CO : Et hoc mfuper quod de 
noího a.ff!A.mpjtt\ totum no- 
bis contulit adfalu^em.Q^Q 
reccbeo Chriílo de nos na 
Encarnação) ? Recebeo a 
€arne,& recebeo ofangue. 
E que nos da Chníto na 
Euchanftia ? Da nos eíià 
mefma carne na Hoftia, 
da-nos Q^c mefmo fangue 
MoQ.úiZ\ E eíle íobèran© 



No (fa Senhora. ^ ^^^^ 

Príncipe he tuo juíVo, 6í 
tão defintereí!'ado , que 
quanto recebe de nòs , tu- 
do defpende com nofcOjSs-j 
quanto toma dos homenSy:> 
tudo gafta com os homens 
para fua íuílentaçaó , &> 
proveito : ^uod âe noítroi 
afumpfit^ totumnobis corh\ 
inlit adfalutrem . Logo co nirj 
muito fundaméto ao my-. 
fterio em que exercita eftar 
grande acçaõ, mais que 4t 
nenhuui outro fedeve,iCi 
featribueareftauraçaõ dm 
mundo : Sacramento Eut 
ehariftiíe totus mundusfié^. 
jugatusefl : qu e e m fe de í-^ 
pendendo com os homeiiS> 
tudt)o que fe recebe dos 
homens; em fe gaftahdo 
em beneíàciodo Po^vo tyA 
do o que do Povo íe tira?^ 
^como daqui f>or diante 
ie hade fazer } logo a re* 
fí^auraçáo eílà cerU , & a 
vitoria fegura. 

358 Tenho provada a 
minha profecia .? Pois a in* 
daacon&rmo com outra 
ra2a6,<Sc vai por conta dos 
enfermos defte HofpitaH 
os quaes me pedirão áé^Q 
as graças ao Senhor- Mar- 
quez 



y 



l 



.ll.^ 



4.14 S€rma{)da -t 

quez da piedade taõ chri- manda bufcar pela terra 



llã , &: zelo verdadeira- 
mente de pay de foi dados, 
com que a primeira acção, 
queS.Excclíencia fez em 
faltando em terra, foy má- 
darchamaro Provedor,& 
Irmãos defta fanta Cafa, 
& fendo informado do 



os cegos, os furdos, os ma- 
ços , os leproíos , emíim 
quantos enfermos fc pu- 
dérao achar , & depois de 
os curar a todos, viroufc 
entaó para os f m baixado- 
res,& diife ; Renuntiate 
loanni qua atidijfts^ é* %idi' 



a^Dcrto em que eilavaó os ftis: Ide,dizei ajoaó o que 

doentesj&as miferiasque ouviftes,& viftes.Pois,Se- 

padcciáo , ordenar que fe nhor, com licença voíTa, 

fizeíTe novo Hofpital, 8c q eíla repoíla parece q naó 

com toda a caridade, & li- diz com a pergunta. Per- 

beralidade fe acudilfe à guntaó-vos fefois o Mef- 

faude, & regalo delles po- lias efperado , pergunraó- 

i)res enfermos. Defta ac- vosfefoisvòso que avers 

çãoiníiro eu ,& confirmo, dereílauraro mundo, & 

^hechegadaareflauraçaó por repoll^a pondeí vos a 

do BrafiUôc vede fe o pro- curar enfermos ^Simcom 

VO.Mandou S.Joaó Bauti- muita r-azão diz S.Cyriilo: 

íla húa embaixada a Chri- Vt côngrua rationefumétcs 

■fto por dous Diíci pulos de fidem ípjius,ad eum reverta' 

fuaEfcola , em que dizia tur^qui mifit cos. Poz-fc 

aííira: Tu es qui venturns es, Chnílo a curar enfermos 

An alium expeãamus > Sois diante dos Embaixadores 

vòs,Senhor,o que^veis de do Bautilta, para que àç,(- 



yirreíiaurarnos , ou ave- 
mos de eíperar ainda por 
outro? Não pudéraó per- 
guntar mais a propofitOjfe 
jnos ditáramos a pergunta, 
í^enhúa coufalhes rcípó- 
.dço Chrifto de palavra: 



taacçáo, que lhe viáo fa- 
zerjcreííem , & infenílem 
por boa razão, que eílc era 
orellaurador do mundo, 
por quem perguatavaó. 
Elte SeiJior traça de curar 
cnfcrmosjC^a vduétyclau- 
M 



\ 



Vifitaçao de Noffa Senhora. 4 1 f 

ilamhuUnt, hprofi munda- curou a enfermidade de Si 



ttir > Logo elle hc o que ha 
dereílauraro mundo: Tií 
es qii'i've7itunis es -, porque 
não ha conje£V..ira mais 
verdadeira , nem coníe- 
formal de 
, que ter 
grande cuidado dos en- 
fermos , Sc tratar deftas 
obras de mifericordia. 
3 f c) E fenáo diga nos o 



que nora ma« 
ferreílaurador 



JoaÓ5& lhe trouxe a medi- 
ei na do peccado.Tão pró- 
prio he de quem ha de rc" 
Ihurar mundos,confagrar 
a primeira acção à cura, 5c 
ao remédio dos enfermos. 
Mas como não faó menos 
de Deos os fins ^ q os pnn- 
cipios,& nas profecias ,& 
pronoílieos humanos nos 
eníina a Fé a dizer, Deos 



noíTo Evangelbo^qual foy fobre tudo, peçamos à Di- 
a primeira acçaó que fez vina Mageíiade feja fer- 



no mundo o Redemptor, 
&Reílaurador delle /^ A 
primeira acção que Chri- 
ílo fez em pondo o pè em 
terrajfoy partirfe para as 
montanhas de Judéa, a cu- 
rar, como diíTemos, hum 
menino enfermo. Nãohe 
frafe minha, fenáo do Car- 
deal Toledo,que fecha, & 
confirma todo eíle difcur- 
íb ; Mifã Chrijiij & Matris 
vifitéitioãttulit loannipec' 
cati inedkmâm^ Eíla vi fica 
deChriílo , & fua Máy 
íantinimafoycomo vifita 
de Medico íoberano , que 



vido profperarnos eíías 
tam bem fundadas efpe- 
ranças , & ouvir osfufpi- 
ros, & gemidos jàcança- 
dos deíle enfermo y. & af- 
âi£boBrafíl. £ para que 
mais eííicazmente alcan- 
cemos o defejado defpa- 
eho deita táo juíla peti- 
ção, tomemos por valedo- 
ra a Virgem Máy do mef- 
mo Deos, por quem hoje 
fe começou a diípenfar a 
primeira graça , para que 
nos alcance eíta , oíFere- 
e^ndolhe crés Ave. Ma-^^ 
riâs. 



SER- 



//• 



4i<> 



MMMààmMMã^àMÂ 



^ 




SERMAM 

NASEGVNDA FEYRA DEPOIS 
da fegunda Dominga 

b V A R E S M A. 

Em Torres Vedras,andando O Author em 
- Miílaó^annode 1652. 



^go VAdOi& quaretis me^ & tnpeccato veftro 
■moriemmi. Joann.8. 



§. I. 

Ntre as fa mo- 
ías , & efcuras 
vifoés do Apo- 
calypfehe notá- 
vel a dehãa Aguiaja qual, 
diz o Texto, que voando 
pelomeyodo Ceo, repe- 
tio três vezes a grandes 




vozes efta, não Çti Çcáigx 
pequena, fe grande pala- 
vra l^a : Et vtdi^ò' audivi / 
vacem unius AquiU volan- • 
tis per médium Cali , dictn- 
tis você magna : l^a^va^va^, 
Va quer dizer ay 5 & repe- 
tir a Águia três vezes, ^/^, 
1;^, va , foy dizer outras 
tátas vezes,ay,ay,ay, Mas 

íc 



depois dafegunda 'Dominga da ^uarefmã A^iy 

fc a ARuia voava pelo & piedade , condoendoic 

meyo do Ceo, volantisper os Bem avcntarados,qua- 

mJmm Cccli , & no Ceo tolheshepofllveh&lamc- 

naópòde aver dor, nem tando as defgraças , oími. 

trifteza,queays faóeftes, ferias,aqueeftamosrogeL- 

quefeouvemno Ceo? A tos os homens, em quanto 

mefma Aeuia declarou, vivemos neíle mundo, 

queacaufados aysnaòef^ Tripliciterv^pro^ter c^le^ 

tava no Ceo, fenaó na ter- pum erga nos condolenUct. 

ra • V£,vayV£ habitantibus propter quam et iam potíjji- 

tn terra : Ay, ay, ay fobrc mum v£ ipp triphcaturM 

oshabitadoresdaterra.De (ignandam lavientat tonem 

forte que os males, que da- maximam, quam noftngra-- 

vaó motivo aos ays , ou tiafufciptunt , tanquam oh 

foífem males padecidos, fuosconfervos.adeoquecon^ 

ou a meacados,naó perten- tigit, ut tlli affluenti triftt- 

ciaó aos moradores do tiaafficíantur.Mè(^v^tQ' 



Ceo, fenaó aos da terra. 
Efta declaração porém 
não tira a duvida s porque 
osaysfaó final de dor, & 
triíleza , & no Ceo , como 
fe diz no mefmo Apoca- 
iypfe, não pôde aver tri- 
ftezajnem dor : Neque lu 
õíiiSi neque clamor , neque 
dolor erit ultra , qtiia prima 



tas, que efcreveo ha nove- 
centos annos , hú dos mais 
doutos,& graves Comen- 
tadores do Apocalypfey 
cujas palavras ainda íao 
mais apertadas, &: encare- 
cidas do que eu referi no 
fentido delias. 

3()i E porque o juízo 
que os Bem-aventurados 



abl.rtmt. Que ays erão lo- fazem das que nos chama- 

go eíles , & táo repetidos mos defgraças , &c miferiaS 

no Ceo? R.efponde literal- he muito diíferête do nof- 

mente Aretas, que os ays fovcom muita razaóíè me 

não erão de própria , & pode perguntar , que def-' 

verdadeira dor , ou triíte- graça , & miferia humana 

za,dequenão he capaz a fera principal mete aquel- 

gloria, mas de compaixão, la,que obrigue aos Bem- 

Tom.8. Dd aô^çn- 




> k 



1 -u>: 
7- 



418 Sermão nafegimda feira 

aventurados na fegurança motivo igual pode avcr 

do Ceo a fe condoer tanto que caufe lamentaçoens> 

de nos, & lamentar com & tão repetidos ays no 

táo repetidos ays o perigo mefmoCeo, fc não a vida 

dos que vivemos na terra ? habitualmente depravada 

Confiadamente refpódo, dospeccadores,&:aimpe- 

que não he, nem pôde fer nitencia ultima, & final cò 



outra , fenão o defcuido 
continuoda falva^aócom 
que vivem 03 peccadores, 
&a impenitencía final có 
que acabâo a vida, B)C mor- 
rem em feupeccado. Pro- 
vo. He verdade de fé af- 
firmada por bocado mef- 
moChrifto , que quando 
hum p.eccqidor fe converte 



que morrendo como vi- 
vem, fe perdem para fem- 
pre,& fe condenão ? Aflim 
íedcvecrer,&:aírim otor- 
noaalfirmar : nem quero 
outra mayor , ou melhor 
confirmação do que digo , 
que a authoridade do mef- 



moS.Joaó, nem outras 
palavras fuás, fenão as que 
com verdadeira peniten-^ tomei por Thema : tgo]^^ 
cia de feus pcccados, fe fa- vado^à' qu^retis me , & m ^ ' 
zem mayores feftas no peccatoveftromoriemmi. 

3^2 Perguntáoos Ex- 
pofitores do Apocalypfe, 
quem era, ou íignificava 



'f 



Ceojdo que là fe fefteja, 8c 
celebra a innocencia de 
noventa & nove juftos, 
que não tem neceflidade 
de penitencia : Ganclium 
erit in Calo fuper tmo fec- 
catorepienitentiam agente , 
quàmjuper nonaghita no- 
-vemjufliSi quí non indigent 
panitentia. Logo fe a pe- 
nitencia de hum peccador 
verdadeiramente arrepé- 
didofe celebra no Ceocó 



aquelia Águia , que brada- 
va a grandes vozes , Va^ 
V£i 'oa ? E refol vem Lyra- 
no, Aurelio,& outros, que 
era o mefmo S. João, ao 
qual entre os quatro Evá- 
geliíias reprefentados nos 
quatro animaes do Carro 
de Ezechiel , pertence a 
Aguia. De maneira que o 



tantas demoftraçoens de mcfmoSJoãoeraa Águia 
íeíla>& alegria > que outro que vio,6c a Águia que foy 

viíía 



Ti 



depois dafegunda dominga da ^uarefrda. 4 r 9 

víftano Apocalypfe. Efe modo eftas palavras, que 

aquella Águia diíTe , Va^ refere SJoaò no Evange- 

V£, v£'i feguefe que o mef- lho,náo faô fuás , fenáo de 

mo SJoaò que a vio, 6c Chriíto , o qual as tinha 

ouvio, diíTetambemoque denunciado emjeruíalèm, 

ella diife. Mas quando? antes que elle as efcreveí- 

Verdadeiraméte que não fe. Náo querião aquelles 

pòdeaver correfponden- homens obílinados crer, 

cia, nem mais igual , nem que era Filho de Deos , &: 

mais própria. S. João pri- o verdadeiro , & efperado 

meiro efcreveo o Apoca.- Redemptor de Ifrael : 8c 



lypre,& depois o Evange- 
lho. E aíTim como no Ca- 
pitulo oitavo do feu Apo- 
calypfe vio a Aguia,& ou- 
vio o que dizia , aífim hoje 
no Capitulo também oi- 
tavo do feu Evangelho 
diífe o que ouviojpara que 
nos o ouçamos.Làfalloua 
Águia com três ays ; F^^ 
qj£,V£', & Ccà explica S. 



como a todos os argu men- 
tos de fua divindade cer- 
raíFem os ouvidos, & a ro- 
das as evidencias de fuá 
Omnipotência os olhos; 
jàqueaíHm he, conclue o 
Senhor, eu me irei deíle 
mundo , &vos deixarei; 
mas vlrà tempo, em qiie 
mebufqueis , & naõ nie 
acheis, & todos morrereis 



Joáo aquelles três ays com em voíTo peccadoiE^í? 'va 

outros três, que faó as três do^à^quaretis me , ò" i^i 

claufulas do noífo Thema: peccato veftro moriemm. 
Ego'vado^o\>úmtno^Y^& ^6^ Eftaíentençapro- 

quaretisme^o fegundo,^^ fetica fe cumprio ^ontu- 

m peccato veftro moriemmiy aimente nosjudeos, 6c fe 



o terceiro. As palavras q 
diífe a Águia do Apoca- 
lypfe náo forão fuás, fenáo 
de Deos, o qual lhas poz 
na bccsi,para que com fo- 
brenatural initinto asde- 
jirciculaífe :&: do meimo 



vai cumprindo ainda nos 
que obftinados,6c impeni- 
tentes vivem, ^ morrem 
namefma cegueira. Más 
porque náo baila fó afé a 
impedir a mefma defgra- 
ça,Scque fenãó eílenda a 
"Dá ij muh 





4^0 Sermão nafegund a feira 

muitos Chriftãos : para q primeiro Ay deS Joaó ref- 
eílesoução, conheçáo , & 
temaóateaipoofeu peri- 
go-, aj cintaremos aos três 
aysdeS.Joaó as três par- 
tes da fentença dtí Chri- 
fto, que elle refere, & VC' 
rà cada hum claramentejfe 
caem^ou podem cair eííes 
^ysfobre a fua vida , & 
morte. F^, Aydevòsa- 
quelles.que fordes deixa- 
dos de DtoSiEgo vado\F£^ 
Ay áç,VQ^ aquelles,que o 
aveisdebufcar de balde, 
Ò quaretis me ! F^y Ay de 
vòsaquelles, que morrer- 
desno voíTo peccadojd^/w 
peccato vejiro morieminil 



ponde a primeira claufula 
da fentença de Chrifto 9 
em que diz o mefmo Se- 
nhor , que ha de deixar 
aquelle ingrato, & obfti- 
nado Povo, com que falla- 
vaj&fehade ir : Ego va- 
^í?. Ohqueterrivel amea- 
ça loque la íHmofa defpe- 
dida/ Agorafecumprioo 
queomeímo Chrifto em 
quanto Deos por boca de 
Ofeas tinha profetizado 
ao mefmo Povo, & com ò^ 
mefmo ay: Vaeisycumre- n 
ceffero ab eis\ Ay delles, 
quando eu me apartar del- 
les! Só quem podeíle com- 



Datemerofaconíideração prehender aquelle Ego^ 
deílestres ays fe compo- entenderia baílantemente 
ylò os tres pontos do noflb 
difcurfo, baílante cada hú 
delles a fazer tremer o 
mundo , a quebrar as pe- 
dras ,& derreteres bron- 
zes. Mas porque fem a 
graça de Deos ainda ha 
coraçoens maisduros; pe- 
çamolaao Efpirito Santo 
por interceífaó da chea de 
graça. Ave Maria. 

§. II. 

3^4 A ^ primeiro Va 



, da Águia, & ao 



o que encerra em fy efte 
/^^.O^v^he oeu trocado, 
&aílim comooeu íigniíi- 
caofummobem, aíTIm o 
'V£ he húa fumma abre- 
viada de todos os males. 
Nem com vofco ba mal 
que para mim feja mal, 
nem fem vòs pôde aver 
bem que para mim feja 
bem, dizia a Deos S. Ago- 
flinho. Se Deos que me 
deoofer , & de quem de- 
pende quanto fou, quanto 
poflbj 



depois dafegunda "DomtJtga da ^ianfma\ 4^.^ 
poflb, & quanto cenho, fe quenão cem quem o h- 



aparcar de mim, que ha de 
ferdcmim .? Quem nam 
penecra o fundo defta ver- 
dade, nem cem fé,nem en- 
tendimento. Vede que 
bemaencendeo David, 6c 
também feus inimigos. 

365- Coníiderandofe 
David nos últimos annos 
da velhicejcompoz o Pfal- 
mofeccnta, em que fez 



vre, nem defenda -.pelo 
que vos peço, Senhor, que 
náo vos aparceis de num. 
Duas grandes pondera-f 
çoens fe encerrão ncftas 
palavras. A primeira,© fú^ 
damento que comão os 
inimigos de David no feu 
confelho para o deftrui- 
rem ã feu fal vo : a fegunda, 
ofoccorro que David pe- 



eH-a oração a Deos-iNTí-^rí?- de a Deos para íe deten 

Hcias me in temporefene- der,6c prevalecer contra 

ãtutsvcumdefeceritvirtus elles. O fundamento do 

mea , ne derelinqíias me. confelho dos inimigos he 

0uia dixe> unt tntmki met que Deos deixou a David: 

mihi , & qtii cujiodiebant 'Deus dereliqmt eunt : & o 

animam meam.confiliumfe' foccorro que David pede 

cerunt in tmim , dicentes : a Deos, he que o náo dei- 



^eusdereliquit eum^ perfe 
qiiimini-, & compre hendtte 
eum.quia non eft qui eripiat. 
T>eus^ ne elongéris à me. Pe- 
çovos, Senhor , que no ce- 
po da velhice, quando me 
falcarcm as forças, náo me 
lanceis de vòs , nem me 
deixeis. Porque meus ini- 
migos fe unirão, &■ íizeráo 
confelho concramim,no 
qualdiíferão : Deos dei- 



xe,nem fe aparce delle: 
Ne elongéris à me. De force 
que em Deos fe apartar, 
ou não apartar de David, 
aíTim no feu juizo,comá 
no de feus inimigos , con- 
fi(l:ia,ouafua vida , ou á 
fua morcejou a fua dcllrui- 
ção, ou a fua felicidade-,ou 
codo feu bem , ou todo feu 
mal. Bem pudera o con- 
felho dos inimigos de T)^ 



xou a David , agora he cê- vi J difcorrer,ôc dizer p<Ur 

po de o perfeguirmos , & denceméce; Agora he a oc^ 

Ihecirarmos a vidaj por* eafiaó de prevalecermos 

Tom. 8. E)<^ iij coii* 



./ 



4'* Sermão na fegunda feira 

contra clle, porque aquel- parcialidades, nem o acer- 




le valor, &: brio, com que 
vencia,&: matava os Gigã- 
tes, ca r regendo com o pezo 
dos annos,.Sc cançado com 
os trabalhos da vida, jà ef- 
tà enfraquecido , & frio 



to da ruccefraó,nem a obe- 
diência do General, & fo- 
geição do exercito , fenáo 
húa,& outra vez que Deos 
o não deixaíTe , né fe apar- 
taíTe delle : Ne derelinquas 



agora he a occafiaó , por- me^ ne elongerts à me •, por- 
que pretendendo por húa quefe Deos o não deixaf- 
parte Adonias, & por ou- fcnemfe apartaíTe delle, 
trabalamáo fuccederlhe em qualquer eílado,& pe- 
na Coroa, não fóeftàdivi- rigodas couías humanas 
dido o Rey no , mas vaci- eftava feguro : & pelo con- 
jante a fé dos vaíTallosen- trario,deixado, &aparta- 
tre duas parcialidades; do de Deos , nem todo o 
agora he a occafiaó por- mundo, ainda que o tivef- 
que eílando criminofo fe por fy, o poderia defen- 



Joab pelas duas mortes de 
Abner,& Amaza,& tendo 
Pgovernodas armas, an- 
tes fe quererá defender 
com ellas , que exporfe 
defarmadoaocaftigo.Mas 
nem deílas , né de nenhúa 
ou»Taconíideração politi- 
ca íizerãocafo, & toda a 
refolu^ãodo feu confelho 
fe fundou em Deos ter 
deixado a David , como 
fuppunhão: 'Bms derelt- 
qun eum, & nou ejl qui eri- 
piat : & do mcfmo mo- 
ído David nem pedio a 
Deos a fidelidade dos vaf- 
l^ljbs, nenx a cócordia das 



der,nem livrar : Ní/n eíí 
qui eripiat. 

l66 Efe querem os ver 
a verdade delle difcurfo 
de David,& feus inimigos 
reduzida à pratica, & ca- 
nonizada na experiência; 
ponhamos digite dosolhos 
a famofiílíma hiíloria de 
Samfam na primeira, & fe- 
gunda parte de fua vida, 
ou em quanto confervou 
inteiros os feus cabellos, 
ou depois que os teve cor- 
tados. He cafo que parece 
fabulofo,fenáo fora da Ef- 
critura fagrada. Em quan- 
to coníervou os cabellos, 



depois da fegunda^DomíTíga da ^arefma. 4.23 
era taó valente Samfam,q mayor prodígio de tor 



com as máos nuas metidas 
dentro das bocas dos Leo- 
ens,lhes partia os queixos, 
& os lançava mortos aos 
pès : era taò valente , que 
cerrando as portas da Ci- 
dade de Gaza os Filiíleos 



ças? Nem fe pode imagi- 
nar mayor , nem jà mais o 
ouve femelhante. AíTim 
era aquelle fò homem o 
terror,& o medo univerfal 
das Cidades , & dos exer- 
eitos da mais forte, & bel- 



para o prenderem dentro , licofa nação daqueUe tem 
clle também fem outro in- po. Voltemos agora a to- 
ftrumento que asmãos, Ihaà mefma hiítona , & 
quebrou os ferrolhos, & veremos outro aflombro 
tomando as mefmas por- mayof . Vedes levar pre- 
tas aos hombros , lhas foy zo, & maniatado hum mi- 
pòrfobrc hum monte à vi- fera vel homem comoro- 
íla:era taó valente , que fto derrubado para a terra, 
cercado de hum grande &com a cabeça efcalva- 
exercito dos mefmos Fili- da , & fem cabello ? Pois 
fteos,com a queixada que aquelle he o mefmoSam- 
alliachou de hum jumen- fam : porque húa mulher 
to,matou naó menos que ©entregou a feus inimi- 



mildelles : era taó valen- 
te, que dormindo5& atado 
com fete cordas , hua vez 
de linho nunca ufadas, ou- 
tra vez de nervos crus, ou- 
tra cravadas fortemente 
na terra , fó com o movi- 
mento de efpertar rom- 
peotáo facilmenteaquel- 
ias ataduras, que podéraó 
ter mão em íete Elefantes, 
como fe foraò teas de ara- 
nha. Pôde aver mayor ma- 
ravilha, mayor aíiòmbro. 



gos,&elleofeu fegredo a 
húa mulher. Làolevaóa 
hum cárcere, cujas cadeas 
elle não pode quebrar , 6c 
cujas portas naó pode a- 
brir: là lhe arrancão am- 
bos os olhos, com quede 
novo lhe atáo as mãos,quc 
jà naó temiaó : de là o ti- 
rão para moer em húa ata- 
fona como jumento , ou 
efquecidos , ou lembrados 
da queixada do outro: Sc 
para mayor efcarneo , & 
afron» 



Ir 






^n 



434 Sermão na fegunda feira 

afrontado que tantas ve- pois que Dalila 
zes os afrontou , nos dias 



de fefta publica o manda - 
vaó bailharnos feus ban- 
quetes: & aquelle meímo 
Samfam , ao fom de cujo 
nome emudcciaó as trom- 
betas dos exércitos dos 
Filiíleos, agora bailha di- 
ante deJles ao fom das fuás 
guitarras 



lhe tinha 
cortado os cabellos,fem o 
mefmo Samfam o fentir, 
porque eílava dormindo, 
ao brado de que os Fili- 
íleos vinhaó fobre elle , ef- 
pertouíem nenhú temor, 
cuidando que fe livraria 
das fuás mãos tão facilmé- 
tecomo as outras vezes; 
mas não fabia, diz o Tex- 



3 6j Oh mudança eftu- to,que Deos fe tinha apar- 
penda,&inaudica/&mais tadodclle: Nefciens quod y 



eftupenda ainda pelacau- 
íà, que pelo eífeito! Em 
Samfam naò ouve outra 
mudança, queconfervar, 
ou não confervar os ca- 
bellos. Ehepoílivel, que 
fó porque perdeo os cabei- 
los, perdelfe o valor , as 
forças, & a virtude coque 
obrava tantas maravilhas? 
E que a fania,& gloria que 
com ellas tinha ganhado, 
íècon verte ífe em tal ex- 
tremo de miferia , & infâ- 
mia? Sim, & naòj porque 
debaixo deita caufa exce- 
rior que fe via, avia outra 
principal, 8c occulta , que 
era haverfe Deos aparta- 
do,^ deixado a Samfam. 
O mefmo Texto fagrado 
o diz expreíTamentc. De- 



recejjijjet ab eo ^ominus. * 
E ftai agora no cafo , & na 
verdadeira caufa daquella 
taó notável mudãça. Sam- 
fam era de Religião , & 
profiíTaó Nazareno , cujo 
inílicuto principalmente 
confiilia em confervar, & 
nunca cortar os cabellos. 
Aíllm o declarou elle a 
Dalila quando lhe defco- 
brio o fegredo ; Ferrum 
nunquam ãfcendit fuper ccl- 
put memn^ qiiia Nazaraus^ '^ 
ideji , confecratus ^eo fnm 
ab útero rnatris mea. E co- 
mo naquella ceremonia,& 
proteftaçaó exterior con- 
íiília aobfervancia dofeu 
inílituto, em quãto cófer- 
vou os cabellos , aíliíiio-o 
Deos, tãto que fe fogeítou 
a que 



^ 



depois da fecunda T>ominga da §luarefma. 
a que lhos cortaíTeaijapar- fto aquelles q fendo 
toufe delle. De forte que a 
fortaleza dos braços de 
Satnfam, & as maravilhas 
que com ella obrava, nao 
era virtude natural que os 
feus cabellos tiveírem,mas 



42 y 
feus, 
como diz S.Joaó, o náo re- 
ceberão: Inpropria venit 9 . 
érfuteumnon receperunt.i,^i, 
E fe perguntarmos quan- 
do fe cumprio a palavra 
Ego vadoySc quando teve 



concurfo,& influxo parti- feu effeito efta partida , & 

cular de Deos,com q pela defpedida do Senhor, dei- 

obfervancia da fua profif- xando naó as pedras de Je- 

faó fobrenaturalmente o rufalèm,fenaóos feus ha- 



aíTiília. Aíliftido Samfam 
deDeos, era o terror de 
feus inimigos, a fama,o af- 
fombro, &o milagre da 



bitadores mais duros que 
elias? Segundo a hiftoria 
de Jofepho , fe pôde redu- 
zir ao tempo do cerco, & 



valentia :& pelo contrario deftruiçaõ da mefma Ci 

deixado de Deos, era o lu- dade por Tito , & Vefpa 

dibrio^&efcarneodosmef- fiano j porque entaó feou 

mosinimigos,6cnaó fó o vio claraméte fair do Tê- 

exemplo mais raro da mu- pio húa voz que dizia: A/i- 

dança, mas o defpojo mais gremus hincy Vamonos da- 

vil da fraqueza, do defpre- qui : para que conftaíTe aos 

zo,& da miferia. Aílim le- de dentro, & aos de fora » 

vanta Deos a quem aíliíte, que Deos deixava , & de- 

aííim fica quem elle deixa, femparava aquella cafa, 

& aíHm ficou o ingrato , & que em todo o mundo era 

infelice Povo , a quem ho- conhecida por fua. Aílim 

je diífe que avia de deixar: difle fingida, mas raciona 



Bgo^vado. 



§. III. 



vel mente o Poeta, que an- 
tes de fe abrazar Troya, a 
deixarão, & fe faíraó delia 
os Deofes Tutelares da 



3^8 /"^Om muita razaô mefma Cidade : Exceffére 

V^(^quãdo naó ou- adytisomnes^arisqireli^is^ 

vera outra ) deixou C hri- T>ijyqmbus imfsríu hocfte' 

terat. Mas 




42^ Sermão na fegunda feira 

^69 Mas o certo he, que herdade fua, porque neíTc 



ir 



Ie'-cm. 

127. 



O tempo em que Deos dei- 
xou aquelle ingratiílimo 
Povojfoy o mefmo em q 
ellcs o puzeraó em huma 
Cruz, & o mefmo Senhor 
que da fua carne , &" do feu 
fangue tinha tomado o 
corpo mortal , deoa vida 
também por elles. Ouvi, 
&oução os mefmos a cla- 
reza com que o tinha pro- 
fetizado o feu Profeta Je- 
remias : Reliqiii domum 
meam : dimifi haredttatem 
meam : dedi dile6íam ani- 
mam meam in m anu inimi- 
corumeJus.JcruíMniy Sc 
Judéaeraaque antigamé- 
tefe chamava a cafa, & a 
herdade de Deos : & diz 



mefmo dia os deixou, & os 
lançou de fy. E para que fe 
veja o extremo de dorcó 
que Chrifto na mefma 
Cruz,&no mefmo dia CeU' 
tio ver deixado por Deos, 
& lançado de fua protec- 
ção hum Povo a que tanto 
amava,&: pelo qual tanto 
tinha padecido, pondere- 
mos húas palavras do mef- 
mo Senhor ditas naquella 
occafiaô, variamente in- 
terpretadas,& no fentidò 
que quero dizer, própria , 
& verdadeiramente entc- 
didas. 

370 A quarta palavra 
de Chrifto na Cruz foy: vr; 
'D^us meus, Deus meus , ut -7 



agora o mefmo Deos, que quiddereliquijii me ? Deos 
naó fó deixou a fua cafa, & meu, Deos meu , porque 



renunciou,& abrio mão de 
fua herdade , fenaó que a 
fua própria vida entregou 
nas mãos de feus inimi- 
gosiporque tudo íuccedeo 
juntamente, & no mefmo 
dia. No dia em que Deos 
fe entregou nas mãos de 
feus inimigos, & morreo 
pregado por elles em húa 
Cruz , nt^ç. mefmo dia 
deixarão de ^er cafa fua, & 



me deixaíles? E como dei- 
xou Deos, ou pode deixar 
a Chrifto? Quanto à Di- 
vindade, naó ♦, porque a 
uniaóda Peífoa divina cô 
a natureza humana he in- 
diíroluveI,8c eterna. Quã- 
toà graça, também naó; 
porque a mefma graça , 6c 
gloria que recebeo na En- 
carnação, &tem hoje no 
Cco,tcve,&: confervou na 
Cruz. 



\ 



depois dafegunda T>omingada ^arefma. 42 7 
Cruz. Nem ÍTe diz cohe- tas palavras diífe as Chri- 
rentemente que foy Chri- fto quafi à hora nona , em 
fto deixado de Deos, por- que efpirou, como nota S. 
que o naó livrou das do- Matheus : Et arca horam Mm\u 
res, &: afrontas daquelle nonamclamavit hfus voce''^''^ ' 
tormencoíb fupplicio>por- magna, dicens : T^eus meuSy 
que elle as aceitou , &: fe ut quid dereliquijli me > E 
oíFereceoa ellas volunta- naquella mefma hora dei- 
riamente : Oblattis eft, quia xou Deos, repudiou, & lá- 
ipfevoluit. E fe quizera çoudefy a naçaó Hcbrea, 
que o Padre o livrara , & & paíTou a fua fé,o feu cul- 
defendéra de todo o poder to,&: a fua Igreja do Povo 
de feus inimigos, bailando Judaico para o Gentilico. 

Aílimoíignifícou na mef- 
mahora o véo do Tem- 
plo, que cobria o Sandta 
Sandorum, rafgandofe: & 
aílimoeníinaó S. Jerony- 



paraiíTo humf Anjo , lhe 

daria mais de doze Le- 

gtoens,como diffe o mef- 

mo Senhor a S. Pedro : An 
, putas^quia nonpojjum ro- 
j gare Patrem , & exhibebtt mo, S. Ambrofio , Orige 

mihi plusquam duodeclm nes, Theophilaâ:o,Euthi- 

Legiones Angelorum> Pois 

feChrifto naó foy deixa- 
do de Deos, nem peladef- 

u-niaó da Divindade, nem 

pela fub tracção da graça, 



raio,& o confirma c5 au« 
thoridade pontifícia S. 
Leaó Papa/P^r veli fciffio- 
nem repiidiatos 'vos , ò Ju^ 
dai , debuiftis agnofcere ò* 



nem pela negação do au- omnejus Sacerdotij perdi- 
yiúiOy^ÍQCcorxot^tzúoty diffe. Adeo tunc a lege ad 



& muito menos pelo inte- 
rior da virtude da conílan- 
cia,& da paciência 5 por- 
que fe lamenta o animo- 
fiílimo, & fortiílimo Re- 
déptor de Deos o ter áçx 



Evangelium^ a Sinagoga ad 
Ecclefiam^ à multisjacrifi- 
cijsadunam koftiamy qu£ 
*I)eus eft^ ejufdem eft faãa 
translatio. 

7,ji E porque Chrifto 



^v^vw^ :?/ * — f—T-" ~ ^ 

xado , Vt quid dereliquijli era da naçaò Hebrea , 6c 
me ? A razaó foyjporq ef- Deos naquella hora deixa- 
va, 



1? 



i" 






4^8 Sermão na fegunda feira 

va,&Iançavade fyamef- cos, & ambos com outra. 






ma naçaó, por líTo na mef- 
mahora felamencou que 
Deos o deixava a elle. 
Quando Saulo perfeguiaa 
Igreja, naó lhe diíTe Chri- 
Ao : Saule^ Saiile , quid me 
perfèqueris^ Poisaílim co- 
mo Saulo perfeguia a 
Chriftojporque perfeguia 
ofeucorpo myftico , que 
he a Igreja ; aílim Deos 
deixavaaChrifto, porque 
deixava aquelle corpo na- 
turaljêi" po]icico,de que el- 
le tomara a carne, & Tan- 
gue., que era a naçaó He- 
brea. l^t quid dereiíquifti 
me ? ídeji^ meumgenus^ meu 
populum ludaorum , qut fe- 
cundam carnem mihi cog- 
natifuntiáífíh com íingu- 
larpenfa mento Theophi- 
ladto. E porque efta ra- 
zão , que eu tenho pela 
mais própria , natural , & 
genuina do Texto, naó fi- 
que fó no teílemunho de 
hum Author , pofto que 
taó califícado, eu a confir- 
mo com outros dous, & da 



fingularidade mayor ef- 
crevêraó as palavras de 
Chriílona lingua,quena- 
quelle tempo era a vulgar, 
dos Hebreos, em que o Se • Ma 
nhor as diíTe : El/, Eli , la- ^^ 
7nafabáõfhani. Leaófe to- if 
doso9 Evangelitlas, & to- 
das as fentenças que elles 
referem de Chrifto, &ne- 
nhúafe achará efcrita na 
língua Hebraica , fenaó ef- 
ta,em que o Senhor fe la- 
mérava de Deos o ter dei- 
xado. Qual helogo omy- 
ílerio,porqueí"óeíla fe ef- 
creveonaquella lingua, & 
naó fó por hum dos Evan- 
gelizas, fenaò por ambos 
os que refere o cafo.^ Sem^ 
duvida para que enten- 
deífemos que Chrifto fe 
queixou , ou manifeftou 
aquelle feu fentiméto, naó 
em quanto reprefenrava 
na Cruz a todo o género 
humano, fenaó cm quanto 
fazia as partes do Povo 
ludaico. Chrifto na Cruz, 
comofegundo Adamp & 



mayor authoridade de to- pagador das fuás dividas , 
daalgreja. OsEvágeliftas reprefentava a todo o ge- 
que relatarão eftc cafo,fo- nerohumano,oqualentaa 
raò S.Matheus , & S. Mar- fe dividia íómête em dous 

Po- 



d.pois da ftgimda Dominga da §luarefma. ^ 429 
Povos,oGentilico,ScoJu- fe avia de unir tanto 'coni 
daico. Ecomo Deos en- osHebreos , que avia de 
taó lançava de fy o Povo tomar carne delles, por if- 
Judaico, & pairava a fua fodiz,Ay delles, & que fe 
Igreja ao Gentílico 5 por ba de apartar de les \Va 
iílb com taò lingular novi- eis^cum receffero ab ^/J?Sim. 
dadequizeraó declarar os AíTim como foy a mayor 
Evangeliílas, que quando felicidade do género hu- 
aflim fe queixou o Senhor, mano fazerfe Deos home, 
naófallava em nome de aíTim foy a mayor defgra- 
todo o género humano,fe- ça dos Hebreos fazerfe 
naódo Povo Judaico fó- Deos homem da fua na- 
mente, como quem adu- çaò. Porque antes de Deos 
ai mente eftava vertendo fe fazer homem , muitas 
o fangue , q deile tinha to- vezes quiz deÍ3iar, & lan- 
mado. çar de fy aos Hebreos pe- 

372 Oh que admirável- las grandes occafioens,que 
mente concorda com eíla para iíTo lhe deraó com as 
lamentação de Chrifto fuás ingratidões, mas fem- 
em qaáta Homem, aquel- pre lhes perdoou. Porém 
\ç.v£ do mefmo Chrifto depois que fe fez homern 
em quanto Deos por boca da fua naçaó, & elles foraó 
do Profeta Amos, que no taó proterva,8c obftinada- 
principio referimos : V£ mente impios,quetoman- 
eisycum receffero ab eisl On- do delles o corpo , & fan- 
de a noíTa Vulgata diz, Ay gue, o corpo o pregarão 
delles,quando eu me apar- em húa Cruz,& o fangue o 
tar dellesja verfaò Hebrai- derramarão , entaò fe fíze- 
catem,Ay deiles,quando raó indignos de todo o 
eu tomar a carne delles: perdaó.Ouviquam defcu- 
y^e eis^cum caro mea ex eis. berta,& fentidamente lho 
AíTim tresladáo os Seten- declarou o mefmo Senhor: ^^^^^^ 
ta,aos quaes feguem todos lerufalem, lenijalem , qH£ 
os Padres, principalmente occidis Trophetas , & lapi- 
Gregos. Pois porque Deos das eosyqui ad te rmjftjunt, 

Au 



HU, 



f^H 



45 *^ Sermão na fcgunda feira, 

Ahjerufalèm , Jerufalèm, 
que matas, & apedrejas os 
Profetas, por meyo dos 
quaes te chamou Deos,& 
te quiz unir a íy / §iuoties 
volui congregare filio s tnos^ 
qtiemadmodum gallina cÔ- 
gregdt puiíos fiios [ub alas ^ 
Ò-nokifii? E quantas ve- 



§• IV. 

m \ /frferavelfoyre- 
iVlruraIèm,&: fe- 
bre toda a mi feria mifera- 
vel,quandoDeosa lançou 
defy,&a deixou. Eaca- 

boufeentaó aquella mife- 

zesquizeufazeromefmo, ria.^'Náo. Porque na mef- 
chamandoos teus filhos, majerufalèm,que acabou, 
como a ave mais amorofa era llgnifícada a Alma,que 
chama os feus para os a- naó acaba [à qual tantas 
braçarcorafigo, &osme- vezesnafagrada Efcritura 
ter debaixo das azas, &tu fedàomefmonomedeje- 
naó quizefte ? Mas pois tu rufalèm] & naó he menor, 
me naó quizefte a mim, nem menos laftimofa, mas 



também eu te deixarei a 
lbid.38 zv. Ecce relinquetur vobis 
domusveftra deferta. Por- 
que depois defte dia me 
naó verá mais Jerufalèm , 
fenaó quando eu fizer nel- 
Jaa ultima entrada, que 
fera também a ultima def- 



dignadefer lamentada c6 
mayores ays a miferia de 
qualquer Alma , quando 
Deos fe aparta delia , & 
quando verdadeiramente 
le pôde chamar A Ima dei- 
xada de Deos. Que fucce- 
de ao corpo quando deiíc 



^tá^vá2i:'T>ico enim vobisy fe aparta a Alma ? Tem 
nonmevidebitis amodo^dO' olhos,&naóvè : tem ou- 



,, . , , nec dicatts : Benedtãus qui 
*uemt in nomtne \Dommí, 
Entaóoviraó para nunca 
mais o verem, porque en- 
trou em Jerufalèm para 
morrer, 8c morreo para a 
deixar, & fe ir : Ego vado. 



vidos, & naó ouve : tem 
lingua,& naó falia : tem 
pès,&naó anda:tem máos, 
& naó obra : tem coração , 
& naó vive 5 & ifto mefmo 
he o que acontece ao ho- 
mem, de quem fe aparta 
Deof,q he a Alma da nofla 
Al- 



depois da fegtmda T>omtnga da ^arefma. 43 1 - 

Alma. Cego para naó ver 374 Oh quantos deixa- 

o que lhe convém , furdo dos de Deos enchem hoje 

paranaóouvirosdkames omundo!& quam cegos 

da verdade , mudo para faó elles, fe nao fe vem, & 

naóconfeíTarfeus pecca- nòs também, fe os nao co- 

dos, ou fó por ceremonia, nhecemos ! Que he aquel- 

& fem emenda: paralítico, le poderofo,que de dia, & 

& tolhido de mãos , & pés de noite naó cuida , nem 

para naÓ fazer acçaô, nem imagina , feriao como ha 

darpaíTo que naó feja pa- de fartar a cubica , invea- 

ra fua perdição. Perdido tando novas traças de ac- 

nos penfamentos, perdido quirir. & roubar o alheyo 

nas palavras , perdido nas fem efcrupulo, nem penia- 

obras,&dentro,6cfôra de mento de o reftituir ^ íí 

fy, todojôc em tudo perdi- quem he aquelle pródigo 

do Confideraime hu ho- no pedir, infenfivel no de- 

mem fem ufo de razaó , & ver,8c infaciavel no gaílar, 

hum Chriíláo íem lume fem conta, fem pezo, fem 

de Fè,ôc talhe o que Deos medida, como fe a culpa 

deixou , & lançou de fy. de naó pagar devendo,na5 

Cavallo no precipicio fem fora eftar fempre rouban- 

freyo, navio na tempefta- doj&aíTim vive s porque 

de fem leme , enfermo na aíTim ha de morrer ^ He hú 

doença mortal fem Medi- deixado de Deos. Quem 

CO. Em quanto a mão de he aquelle foberbo, que 

Deos o deteve, naó cahio: porfartarfua ambiçaó,re- 



em quanto as fuás infpira- 
çoés oguiáraó, naó fe afo- 
gou: em quanto os feus au- 
xílios o foccorréraó, naó 
morreoj mas logo o vereis 
precipitado , afogado , & 
morto fem remédio, por- 
que Deos abrio mão delie, 
òí o deixou. 



conhecendo em fy a falta 
que tem de merecimento , 
naó repara cm derrubar 
por meyos calumniofos,& 
traidores os que quer fa- 
zer degraos para elle fu- 
bir?'E quem he aquelle, 
que com fubornos^cóadu- 
laçocns,com hypocrefias , 





4^2 Sermão na 

& enganos japefardana- 
ture. a, da fortuna , daju- 
íhça, ik da opinião chega 
aconfeguirj&fero queel- 
las lhes negáraô, & naó te- 
ilic que há de pagar na ou- 
tra vida o que neíla naó 
haó de lograr feus defçen- 
dentes? He hum deixado 
deDeos. Quemhe aquel- 
le fenfual , que por fartar 
feu appetite , com tãta pu- 
bhcidade nos vícios como 
fe foraó virtudes , fem re- 
verencia de Deos^nem ref- 
peito do mundo,nem pejo 
defymefmo , nos annos 
mais q da mocidade d^Ç- 
baratou a fa2enda,a faude, 
a honra,& a vida? E quem 
heaquelle,que naô tendo 
jà mais que os oflbs que 
mandará fepultura, pelos 
naó defcarnar de todo, 
ainda à vifta da morte, os 
leva a queimar no mefmo 
eemeterio , & pordara- 
quella lenha feca ao fogo, 
que fe acende,8c apaga em 
hum momento,na6 faz ca- 
fo(^ como fe naó tivera fé^ 
deirarderpara fempreno 
do Inferno? He hum dei- 
xado de Deos. 

37 j Eílasfaóastresef- 



fegiinda feira 
tradas gcraes por onde fao 
deixados de Deos os que 
elle deixai mas os modos 
porque em cada húa delias, 
laó deixados , naó tem có - 
to. Húa das coufas que 
muito tenho notado em 
David , he a grande fre- 
quência, com ^que pede a 
Deos que o naó deixe, & 
os muitos,& vários modos 
com que repete , & infla 
neílamefma petição. No 
Pfalmo vinte & hum , & 
trmta & fete : T>ms mtus , i 
ne difcejferis à me : no Pfal •. l 
mo vinte & féis : Ne a-ver- : 
tas jactem ttiam a me^neque ' 
dejpicias me , 7ie decimes d 
fervo tuo : no Pfalmo trinta 
& quatro: Ned/fcedas à me: i 
no Pfalmo cincoenta : Ne] 
projécias me : no Pfalmo fe- ^^ 
tenta; Ne elongéris ame:,- 
no Pfalmo cento & deíoi^p 
to : Ne repelias me : no Pfal- • 
mo vinte & féis, trinta 6c 
fete, feten ta, cento & def- 
oito, & cento 6c trinta & 
nove, cinco vezes pelas ^ 
mefmas palavras; Ne dere- •' 
Ibiqiiasme ^ nederelinquasl 
mey nederelhiquas me , non \ 
mederelinquas^ ne derelin* y 
quas me. Pois fe Deos por ^ 
hum 



depois ãafegunda Dominga da ^are/ma, 45 ? 
humpcccado de David te que o deixar , Scoíer 
húafó vez o deixou , & deixado entre Deos, Sc o 



depois o refticuio à fua 
graça com tanta ccrtcza,& 
firmeza-, como pede tan- 
tas vezes, & por tátos mo- 
dos a Deos que o naó dei- 
xe ? He certo que o Pro 



homem he condição reci- 
proca. Se Deos deixa ao 
homem, o deixado he o 
homem: fe o homem dei- 
xa a Deos , o deixado he 
Deos ; mas fempre Deos o 



fèta naó multiplicaria tá^ primeiro deixado.be Deos 
tos modos de pedir , fe pelo contrario ou vera ^ de 



Deos naó tiveííe muitos 
modos de deixar. Mas 
porque razaó f Taó pró- 
pria da fua mifericordiaj 
comodanoííà miferia. A 
razaó he > porque Deos 
naó deixa ao homem, fe- 
naó depois de o homem o 
deixar a elle: & porque 
nòs temos tantos modos 
de deixar a Deos, também 
Deos tem muitos modos 
de nos deixar a nos. Afiim 
oercreveo o mefmoDeos 
por Ley expreífa no Capi- 
tulo trinta & hum do Dcu- 
teronomio : Ibiderelinquet 



fer o primeiro que nos àú- 
xaíTe, nunca nos deixaria i 
mas porque nòs fomos os 
primeiros em deixar, por 
iíTo tantas vezes,& por tá- 
tos modo^ fomos os dei- 
xados de Deos. 

576 E fe me pergun- 
tardes entre eftes modos 
de fer deixado, qual heo 
maistemerofo ,& lamen- 
tável , & fobre o qual cae 
mais em cheyo aquelle ajr, 
F/^mjdigo que he quan- 
do Deosdeixa a Alma, 8c 
fe aparta delia pira fem- 
pre, aílim como hoje dei- 



fne^&derelinquam eum : Sç xou,& fe apartou de Jeru 
aíTim o tirou por confe Ai^m. nncnrln diffe-. Kcr 



quencia no fegundo do 
Parai ipo m enonr^i^r^ íí^É'- 

reliqtitflis ^ominum , ut 
àerelinqtieret vos ? Porque 
deixaííesa Deos,paraque 
elle vos dcíxaíTe .? De for- 
Tom.8. 



falem, quando diífe: Eg9 
vado. Chamafe eíle modo 
de deixarem frafedo mef- 
ino Texto de David, áti- 
xaçaó final , ou deixaçaó ^^^^ 
total : deixaçaó finai : Ne^^^T^. 
fefelias in finem •, 6c deixa- 
Ee ça6 




Pfalm, 



iiS.S. 



'-f-5+ Sermão na fegitnda feira 

çaó rotal : Non me derelin- dade, &: fíz> me eu o mef- 



lerem. 
51 ?. 



(1 

ir 






quastífquequaque. Depois 
que o Medico receitou , 8c 
applicou todos os remé- 
dios da arte fem nenbum 
eífcico, ou proveito, antes 
vè q a enfermidade vai sé- 
pre de mal em peior, poílo 
que deixa o enfermo mui- 
to contra fua vontade,dei- 
xa oemíim porque he in- 
capaz de cura. Eiílomef- 
mo he o que faz Deos : Ctt- 
ra-vimus Babylonem^ & non 
ejifanata : ãerelinquamus 



mo caminho: Egofumviay ^ 
'veraas^ ér vtta : temporal- ' 
mente deite os que tu cha- 
mas bens da fortuna, & faó 
meus : efpiritualmente en- 
chicedos verdadeiros béSf 
quefaôosda minha gra- 
ça, a qual tu perdefte,& eu 
te tornei a reílituir muitas 
vezes: cheguei a te dar mi- 
nha própria carne , & fan- 
gue por alimento,& medi- 
camento j 8c tu furda aos 
meusconfelhos,rebeldeàs 



eam\ Curámos a Babylo- minhas inípiraçoens , du- 
nia, naó firou, porque nao ra,8c ingrata a tanto amor. 



quiz farar^ deixemola. Oh 
que terrível palavra, T>e' 
relívquamtis eam^ Deixe- 
mola.&para fempre! Em 
quantas occafioens , ô Al- 
ma, dejxandome tu tantas 
vezes, merecefte que eu 
tedeixaíTèpor humavez? 
Quantas vezes te quiz tra- 
zer a mim. quantas vezes 
te quiz curar , ^ tu nam 
qíjizeíle : §luoties volui^ ò" 
noíuilU ? A ppli que ire pri- 
meiro os remédios bran- 
dos, 8c lenitivos , vim por 
amor de ti aterra, prome- 
tice o Geo , eníineite o ca- 
minho da vida , 8c da ver - 



A tudo refiftiíle , &c me 
voltaílefempre as cof}as> 
fugindo, como de inimi- 
go, de quem. tanto te ama- 
va,&:taó de veras procu- 
rava teu bem. Naó apro- 
veitando os meyos, 8c re- 
médios brandos, paífei -^os 
afperos,& fenlltivos. Dei- 
te doenças coque te mor- 
tifiquei a faude , deite per- 
das com que te diminui a 
fazenda, deite deícrc di- 
tos, 8c defares com q ma- 
goei a honra :puz- te àvi- 
lia ainda maiores traba- 
lhos, 8v' def^;o(los,que ou- 
tros padecerão 3 8c ascau- 
ias 



depoh dafegunda Tiomhgâ da ^iarcjma. 43 í 

.fasdclles, para que com o caó cilas mais contentes, 
exemplo das fuás chagas & fatisfeitas , porque co- 
curaíres,& emendaíTes as monaÓtrataÓmaisquedo 
tuas : chcgueite húa,& ou- prefente, fem memoria do 
tra vez às portas da morte paífado, nem temor do tu- 
com as do Inferno abertas, turo, &como Deos,queas 
que tantas vezes me ti- 
nhas merecido: cuidei que 
com húa eternidade de 
fogoaqueceíTc a tua frie- 
za, & a tua dureza fe abrá- 
dafle-, mas porque nada 
difto bailou a te reduzir, 
& nem no Ceo,nem no In- 
ferno, nem em mim , nem 



pretendia farar,jà nenhum 
remédio lhes applica, & 
nenhum appetite lhes ve- 
da, deixadas à natureza 
vivem àfuavótade. Aíllm 
odizomefmoDeos : ^/- 
mifí eosfeamdum dejideria \'l ^; 



P: 



cordís eorum, thunt in adin 

E,.it.v^, x*v..x.w.. , ventionibus fuis. Quando. 

fora de mim tenho jà que me apartei totalmente, & 

teapplicar: podo que o deixei para fempre os que 

meu amorj& a minha mi- me deixarão, deilhe hber- 

fericordia te naó quizera dadc,&: largueza para que 

deixar, he força Ç pois af- viveífem ao fabor dos feus 

fim o quer o teu deprava- defejos, com que eífe pou- 

do,& obílinado alvedrio^ co caminho que lhe reíla , 

he força que eu te deixe. oandaótodos,& cadahu 

Ficace, & acate para fem- fegundo as invençoens de 

pre,quecu me vou : Ego fua própria fantafia. Naò 

^ado. fepòdepaíTar em íílcncio 

^jj Parecevos, Chri- o conceito de Hugo Car- 

ftáos,quc ouviado eíla deal neíle paíío : i^fó?^/ : />tf 

defpedida húa Alma , ain- enimmotum dicit^& termi^ 

da que foíTe de pedra , naó num quariP.Jims autem mo* 

fe derreteria em lagrimas tus^ o- vi£ peccatorum ejl 

de dor,& arrependimêto ? Infernus, Tropter hoc bene 

Pois fabei que quando dkit^lbuntin Infermm^ & 

Deos aííim deixa cftas mi- hoc in adinventíonibusJíàSi 

fcraveis Almas. , entaô fi- quafimquwufdõ^ veJsuuJiSt 

Ec ij fííiz 






il 



I 



43^ Sermaífna 

qtiihus portahuntur adinfe- 
ros. Diz o Texto,quc iráó, 
Ibunt : & fe vaó, para onde 
vao ? Para o Inferno. Diz 
mais que irâó nas fuás in- 
vençoens, /« adinventioni- 
husfuis : & que invençocns 
faó eftas ? Saó como as que 
os homens inventarão pa- 
ra andar mais defcãçados: 
■^ajtin quibufdam vehicu- 
lis. Os da Europa andaó 
em liteiras, 6c carroças s os 
da Afia em palanquins, os 
da America cm ferpenti- 
nasj&eítas duas inven- 
çoens faó para ir mais fa- 
ci!,& mais defçançadamc- 
te ao Inferno. Os da Eu- 
ropa vaó aíTentadosjOS da 
Aíia,& da America deita- 
dos, & jazendo ros da Eu- 
ropa tirados por animaes, 
os da Afia , & da America 
levados cm hombros de 
homens ; & eíles faó os 
que carregados dos feus 
cativeiros , violências , & 
oppreíToenSjOslevaó mais 
facil^Sc merecidamente ao 
Inferno, para onde cami- 
nhão. 

^ 378 Quando tornaó pa- 
ra a pátria, (^fempre mais 
xicos do que foraó ^ todos 



feguniafeira 
envejaó a fua boa fortuna \ 
&elles recebem os para- 
béns como favorecidos de 
Deos, mas naó hc por fa- 
vorecidos , hepor deixa- 
dos. Efe não vede o que 
fazem. Caim depois do 
fucceffo de feu irmáo co- 
nheceo muito bem que 
era deixado de Deosj^ af- 
fim o confefibu : Ecceeji- 1 
eis me àfacieterray ò àja^ • 
cie tua ahfcondar. E que 
fez Caim depois que ou- 
vio que a terra,& o fangúc 
que tinha derramado,pc- 
diaóao Ceojuftiça contra 
ellc ? He cafo verdadeira- 
mente digno de pafmo! 
Diz o Texto fagrado , que 
fepoz a edificar húa Ci- 
dade (^ que foy a primeira 
do mundo } & lhe deo o 
nome de feu primogénito 
Henoch,& fe chamou He- 
nochia: Et adificavít Ci- j 
'vitatem^ ijocavitqne nomen 
ejus ex nomine filtj fui , He^ 
noch. Quem efpcrára de 
tal homem , & em tal efia- 
do taes penfamentos , & 
taes cuidados / De manei- 
ra q condenado por Deos, 
&V1V0 por particular in- 
dulgência de fua miferi- 
cordia. 



\ 



depois dafegunda T>ofnínga da §iuarefma. ^ 4; 7 
r-cordià, cm vez de te mete- Jecundutn ' defideria cordts 
rresem hâa cova a fazer eorumúbunttnaimxenttê- 
.penitencia do teu pecca- mbusfuis. Ay delles. 
do, & ver fe podes aplacar 



a juftiça divina, te poens a 
fundar furdiçoens, ^cái- 
^íicar palácios ao teu mor- 
gado? Mas iílo he o que 
fazé os deixados de Deos , 
:<:omoCaim, & feus imi- 
tadores. Eíiaò as terras 
bradando ao Cco , eílà o 
Tangue, ou derramado , ou 
chupado violentamente, 
pedindo juftiçaa Deos, & 
dlesemvezde arrependi- 
dos tornarem a repor os 
cabedaes.que acquiriraó 
por força , ou por más ar- 
tes, <?f os deípenderem nas 
<ievídas reftituiçoês, o que 
fazem,&oque fcmprede- 
fejáraô, Scpretédéraó por 
•meyo de tantos perigOí> da 
vida,& Alma , heempre 
garoaíllm acquirido em 
'morgados para OS fi lhos, & 
-emediíiciosváos, que le- 
vantados haô de ícr a riii- 
nadas mefmas cafa*?. <l)h 
í:ambiçao! o Ccgqeiralo^íai- 
ta de fé, Sede jtiixfíjl!: Mas 
eílasíaò asconcièociaSs &: 
asconfequencias dos dei- 



279 /""XU vido o primei- 
V^ro F£ da Agaia-, 
& o primeiro Ay da fentê- 
çadeChriílo, ^^í» vada-^ 
paíTemosaouviro fegun- 
do , Et quíeretis me. Diz 
Chrifto Senhor noífo, que 
depois de deixar aqueile 
ingrato, & obftinado Po- 
vo, elles o haò de burcar:& 
efta fegunda claufula da 
fua fentença parece que fe 
encontra com a primeira , 
Sc com a terceira. Com a 
primeira; porque he pro- 
meíía da palavra divina, 
que Deos naò deixa a que 
o buíca ^ MonÂerelíquífii ^',^^- 
'.qn£r entes tt Ppmim. :. Pp^ ' 
íc D^as nao deixa aos qwte 
obafcaõVcomo diz que o 
haò de bui^ar aquelles 
meímo^^que eljedeiXGit: 
■ Egovãdoy è' 'qufemis me^ 
;. Nao implica. Purque rn^i 
odiferiCecpuibHeífíaô dei- 
xar Deos aos que o búíc^- 
raô primeiro , PU bufcarc- 



xados dç Deos •■ "Dim^ms 'iíoídèijoís gque}ks>a quem 
Tom. 8. £eiij elle 



Ui 



4^S Sermão napgundafeira 

elle primeiro deixou. Os nha Deos prometido, que 
que o bufcáraõ primeiro todososqueobufcaíTcma 
naôosdeixa,porqoachaó: achariaó; aílimodiz pelo 
poremos que o bufcáraó Profeta Jeremias: Sl^tere-^^^ 



depois, ainda que o buf- 
qu.em,n^oohaòd€ achar: 
&iftoheoque dedara a 
terceira^ôc uirima parte da 
'mefma fentença : Et-qua- 
retis mCiò' mpeccato veftra 
moriemini Bufcarme heis, 
& morrereis em voíTb pec- 
cado. De maneira que aye> 
rem de bufcar a Deos os 
deixados de Deos5& naó o 
averem de achar, eíle heo 



tis me^é* invenietis. t para »9 
mayor cõfirmação , o mef»'*' 
mo qu€ acabava de dizer 
pela activa, o torna a repe- 
tir pela paíll va: tjt inveyiiar 
ãvobis : A charme -heis , & 
eu ferei achado de vòs. No 
Evangelho naó fó nos 
acoielha, &: exhorta Chri- 
ftoaqobufquemos Tque 
de ry,& de Deos falia prin- 
cipalmente} mas também 



fegundo v^, &co fegundo nos promete, & dà fua pa- 
aydeSJoaó, ainda mais lavra , em que náo pode 



-terrivel, & mais admirar 
velqueo primeiro. Mais 
-terrivel ; porque confirma 
-a deixaçaó total , 6c final 
fem nenhum remédio: & 
mais admirável > porque 
eílreita, & reduz a hum 
-ponto toda a immenfidade 
^da mifericordia divina,re- 
clamando contra eíla cf- 
treiteza, & contra eftcpó- 
to em próprios termos to- 
das as vozes ,& exemplos 
■da Efcritura íàgrada. Ora 
vede, 

- 380 Primeiramente já 
^SjtoTeftamento Velho 4d- 



aver duvida , que o acha- 
remos : §u^snte-,& invente^- ^' 
tis. E porque naocuidaíTe 
alguém que a eíta diligen- 
cia de bufcar poderia fal- 
tar a vencura de achar pela 
dignidade, ou indignida- 
deda peífca-, confirma o 
Senhor a mefma promcíTa 
com húa propofiçaó uni- 
verfal,quea ninguém ex- 
clue : Omnis enim^qtii qu£' 
rityinvenií .Porque todo 
aquelle,que me bufca, me 
acha,reja quem for Pois 
fehe certo que todos os q 
"bufcáo a Chnílo, o acháo> 
.0 '!_ - como 



ãepoh da fe^tmda T^omingu da §luarefma, 45 <^ 
como diz o mcfmo Chri- campo, & foy logo vender 
fto,que aquclles de quem quanto tinha, & comprou 
ellefe apartou ,oháo de o campo para lograr o the- 
h[i(c3.r: ^^retísme-, po- fouro. Ehum mercador, 
rèm que nem na vida,nem que andava bufcando pe- 
na morte o haó de achar: rolas , achou hua muito 
Ettnpeccato veftro morie- preciofa,&: paraa cóprar, 
tnmi ? deo por cila todo o cabe- 
381 Mais. Ainda que dal que tinha. De forte 
oSenhor náo aíiirmára que que o caminhante achou o 
o aviaò de bufcar, & ainda thefouro fem o bufcar, 5c o 
quetotalnenteonão buf- mercante achou a pérola 
caírem,nemdahifefeguia, bufcando-a:& ambos de- 
ou podia inferir,que o não ráo tudo pelo thefouro, & 
acharião. Porque náo fó pela pérola j porque na pe- 
lie próprio da mifericor- rola,& no thefouro era íig- 



dia, 6c bondade de Deos 
acharem-noosque o buf- 
cáo, fenáo tam bem os que 
o não buícáo. AíTim fe glo- 
ria o mefmo Deos , & com 



ni ficado o que fó vai mais 
que tudo, que he Chrirto. 
No mercante foy cuida- 
do , & diligencia achar a 
pérola , porque bufcava 



muita razão , por Ifaias: pérolas j no caminhante 

ç. Invenerunt qui non quafie- foy cafo, & vencuraachar 

r/íwí/»^iAcháráomeosque p theiburo , porque náo 

me não bufcavão. A Mag- bufcava thefouros : & em 

dalena bufcou a Chriito, hum,&outronos enfiiiou 

& achou-o:porèm a Sarna- o mefmo Senhor, que náo 

ritanaachou-o femobuf- fóoacháo os que o buf 



car: hia bufcar agua , Sc 
achou a Chriílo. Hua , &: 
outra coufa nos eníiaou o 
mefmo Senhor em duas 
parábolas. Hum homem, 
<iiz, indo feu caminho, 
achou huiu thefouro no 



cão , fenão também os que 
o náo bufcáo. Pois fe tam- 
bém os que náo bufcáo a 
Cí rifto,oacháo,comodiz 
o mefmo Chriíto,Ôc annú- 
cia aos de J erufalem,que o 
nâo haó de achar ainda q 
oi>«fi^ 



H 



.f 




440 SermàS na fegunda feira 

o bufquem , fuppondo , & jaó. A ovelha , & a moeda 



í 



affirmando que o haó de 
bufcar, qu^rítis me > 

382 Mais ainda. Naó 
fóachaóa Ghriílo os que 
o bufcáo, & os que o não 
bufcaó , fenão também 
aquelles que nem o buf- 
eaó, nem o pòd^m bufcar. 
Avia hum paflorCdiz o di- 
vino Meílre Jo qual tinha 
eem ovelhas, & como fe 
Iheperdeíle húa, deixou 
as noventa (5c nove node- 
fertOjSc foy bufcar a perdi- 
da Achou- a,& tomando a 
aos hombros y a trouxe 
muito coTítente para o re- 
banho. Aviaaílím mefmo 
húa mulher, a qual tinha 
d^z dracmas , que eram 
certa moeda daquelle tê- 
pa, Sc como perdcíTe húa , 
acendeoacandea, &var- 
rea a cafa para a achar. 
Achou a também, & con- 
vocou as viíinhas , paraq 
Ihedéílem o parabém de 
ter achado a fua dracma 
perdida. Aqueliepafl:or,&: 
elta mulher lignificam em 
hum & outro lexo o amor, 
& a diligencia com que 
Cbriftobufca aos homens 



faoasalmasmarcadasam- 
bas , a moeda com a fua 
Cruz , & a ovelha como 
feu fangue. Agora pergú- 
to : A ovelha, ou a moeda 
podiam bufcar aGhrií^o.?- 
A ovelha nam, porqnam 
tinha entendimento •, & a 
moeda muito menos, por- 
que nem voz tinha para 
bailar. E com tudoaflim a 
ovelha, como a moeda fo^ 
ram buícadas, ôc achadas»;- 
para nos enfinar o mefmo 
Chriíl:o , que hetam dili- 
gente o fej amor , & tam 
amorofa a fua diligencia 
em bufcar as almas por 
mais perdidas que efl-ejaõ, 
que nam fó bufca, & acha 
asqu-eonam bufcam, fe- 
nam tam bem as que o nam 
podem bnfcar. Ajuntemos 
agora todas eitas demo- 
ílraçoens, 8c tiremos, &: 
apertemos a confequécia , 
que nam pode fer, né mais 
admirável , nem mais te» 
merofa. He poflivel que 
bufca Chriíto , & acha aos 
que o bufcaó &bufca, & 
acha aos q o naó burcam:& 
bufca, &achaatèosque o 



por mais perdiuo^ que fc- nam podem bufcar.- & que 

amca- 



li 



ã^pols dafegunda "Dominga da ^mrcfma. 4 .^ i 
ameaee , & profetize ao fó naò avia de achar o por 



Povo Hebreo duas coufas 
taó encontradas com eílas 
efcricnras^Sc eíles exem- 
plos: a priineira,queohaó 
deburcar:/^/^m^/^ J^^'^ 
aregunda,qiie o naô haó 
de achar, nem fer achados 
delle,mas perecer era lua 
própria perdição : Et in 
feccao vejiro monemini^ 

§.. VI. 



to que bufcava, masque 
quanto maiè wavegaíTe^tá- 
to mais feaviadeaparrarj, 
«cefrar mais longe dellc. 
Ifto mefmo he o que fuc- 
cede aos Judcos com o Teu 
Meillas/Comoo MeíTias 
ha mil & feiscentos annos 
que veyo, & lhe fica ao té* 
po paífado, & elles ha ou-, 
tros cantos que o efpcraó , 
& bufcáo fempre no futu- 
ro, dizendo que naó veyo. 



:j8^ A Repofta defta f^^^^l^^^^^^^^^Jf ^ ^?5 
/ "\ taó fundada, & * -— - ^^ 



aperrada duvjda, quanto 
ao Povo Hebreo , he taó 
cxpreíTanaEícritura, co- 
mo manifeíla na experi- 
ência. Sabes, Povoingra- 
to,& cego, porque hatan 



ke a razão porque naó fòq 
náoachaó por mais queo 
bufcao, antes quanto mais 
o buícáoindo para dian- 
te, tanto mais fe apartao 
d; lie ,& íeimpoOlbilirao 
de o achar. Donde íe fe- 



COS annos que bufca5,& eí- gue.q para os Judeos acha 
peras com. tantas anciãs o rem o Meílias, he neceda 



teu verdadeiro Meílias, & 
naó o achas, nem elleaty? 
He po rq oe o buícas i ndo 
para diante, ièado* que o 
;avias de bufcar torna .do 
atra z. Se hum Piloto pira 



rio que o buíquera tornan- 
do atraz, & que quando 
aílim o fizerem, como fa^ 
ráó quando íe convercerê 
no fim do mundo, entaò o 
acharáó. Tudoquantodi- 



achar a cerra que lhe de- goheporbocado J:'roteta 

môraaoN,orfe,abuícaire Oieas no mais clara , & 

pelorumodo Sui,.^^ para expreiToTextOjquefepQ' 

o mcimo Sul navegaíle dedeíeiar,nem iiogir. _ 

lexnpj:6,elaco£ái:á cpgnap .; . 3.? f,:Di7.7iãm eite^qi^ 



U 



1 



\m ^p 



> ► 



442 Sermão Tia 

fo)r o primeiro entre todos 
os Profetas, no Capitulo 
terceiro ^iesmuUosfede- 
buntfilij Ifraeifins Rege.é' 
ofcc 3 Jlfie 'trinc!pe^& Jinefacri' 
'^' fcio^&Jinealtari , érjíne 
ephod , & fine thtraphim. 
Muitos dias eílaràó os fi- 
lhos de Ifrael fem Rey, 
fem Principe , fem facrifi- 
cio, fem altar, fem facer- 
docioj&omaisque a clle 
pertence. Ofeas profeti- 
zou oitocentos & lincoen- 
ta annos antes da vinda de 
Chrifto:& depois que os 
Judcoso crucificarão, & 
Ihetiráraóa vida, ha mil 
& feií centos annos que tu- 
do iílofe eftà cumprindo 
pontualmente , como vem 
os olhos de todo o mundo, 
&OS mefmos Judcos nam 
podem negar. Diz que 
muitos té pos eftaràó fem 
Rey , como tiveraò em 
Saul,8c íeusfucceílores, fi- 
ne Rege \ &r onde ellà efte 
Reydosjudeos? Diz que 
do mefmo modo cftaráó 
fem Princjpe, como tive- 
raó no tempo dos Maca- 
beos,& também eílãofem 
Principe , fine Trincipe, 
Diz que eílaráó fem facri- 



ffgtmdafeira 

ficio,íem alçar, fem orna^ 
métos facerdoraes, o prin- 
cipal dos quaes era o cha- 
mado Ephod -,& totalmé- 
te fem {SiZO^iáocio ^ (me fa^ 
cri fie io , Jme Aliari , fine 
ephod: &c tudoift > feper- 
deo,& acabou com a per- 
da, & aflolaçaó de Jerufa- j 
l^rn, comoomeímo Chri- ^ 
ftolhetinha profetizado j 
5c fc vè txprimentalmen- 
te por todo o mundo em 
todas as fynago^as dosju^ 
deos, onde náo ha mais 
quehum archiv 1, ou en- 
cerramento de madtira » 
onde eftà fechada a Lty 
hfcrita em pergaminhos, 
& donde a tira.» , & mo- 
llráo a feus tempos fem 
Sacerdote, nem veíles fa- 
cerdotaes, nem memoria, 
ou figura de Alçar , ou fa- 
crificio. 

38 f Fqual he a razão 
porque efbcs que o Profe- 
ta chama ^^íVí^j/^w/í/í^í/x , fen- 
dojàpaíTados ma is de mil 
&feiscentosanno5 , ainda 
continuaò, fem os Judcos 
acharem, nem dcicubn- 
rem o JMcllias , quedcíde 
entaó bulcão, & cíperao? 
Arazáohe, como dizia, 
por- 



depoh da fcgunia 'Dominga da SlnãTcfma, 4.4.^ 
porque o bufcàó indopa- que ií^o {crX no Hm oos 
ra diante, fendo q o aviaÓ dfas, quando osjudcos fe 
debufcar voltando :icraz. haó de converter univer- 



Admiravelmente o mef- 
mo Profeta Oí"^as conti- 
nuando a fua p^o^ecia im- 
mediaram en te. i^/^ /^'>Á^ ^^í* 
reverrenti^r fiiij Ifrael ,. & 
quarent '-'Dominum "T>eum 



ílilmente, como conííade 
codas as Eícnturas ("poflo 
que em particular antes 
dcfle tempo íe poííàó conr 
verter, & conv^crtáo mui- 
tos. 3 Mas notai q nam di^ 



fimm,&''Diivid egé fumriy o Vxo^Q^zconvtrtentur ,{^. 
é' pavebunr 'id "Dominum^ naô, rcvertentur : não diz 
é' adbonum ejus f^ novi/Jl- que fe converteráó, fenam 
moderum. k í^zdb Sol que tornarão atraz. For- 
nam he táo da-2- como a que todo o íeu erro, & eu- 
delle Texto. Etpf.f. hacy gano de nâo aeharem o 
& depois de tu to o que MeíTias, he porque o bui- 
tenho dito, i^ilo he . depois cáano futuro , havendo-o 



de os filhos de íírael eíla.' 
rem tantos tempos fem 
R.eyvnem Principe y fem 
0cerdocio,nem facrificio, 
tornarão atraz bufcando o 
fcu Deos , & o feu Rey 
MeíTla^ defcendente de 
David ! Re^ertentur filij 
IfranU & qtmrent Domi- 
nuniTl^tim fnum.y.& 'D^- 
via Regem fiium: & quaa- 
doo-acharem, ficaráo ato- 
»icos,5c pafmados do bem 



debufcar no paíiadoj he 
porque o bufcào indo pa- 
ra diante , havendo o de 
bufcar tornando atraz •, & 
revertentur. A Igreja Car 
tholica naquelles dias,em 
que a mifericordia divina 
banhada no fangue queda 
fua Humanidade lhe der- 
ramarão os Judeos,eni ve2S 
de eftarmais irada , eílà 
mais propicia ,exhorta % 
[erufalèm,cham£^ndo are- 



quetmhao perdido : Et petidamenteaque fecon- 
favehun ad'Dorn<ntim, &■ ^Qrt^\lerufalemylenifatem^ 
adhonum.ejus:mas\^on^o^ &mvertere aã dominum 
fera íc náo no fim dos di as , ''Betm Hmm. E para^ qpe 
in m-viijlmík ditmm. . Diz VÊJarnQs aarmoma .eõ que 

fâl- 









,/ 



■lU 




441- Sermão na 

fallão deíla merma con- 
verfaó as Efcriniras, no 
Capitulo Texto dos Cânti- 
cos, em que Salamáo àz^- 
creveos íucceíTbs cambem 
últimos da Igreja , o que 
diz à mefma Jerufalèm 
com dobrada repeti^^áo, 
fam eílas palavras : Rever- 
ter e , revertere Siniamitis , 
Canto, '^evertere^revertere , ut rn- 
,12. tueamurte{VoYn2i2iZr2.z]Q' 
rufalèm, corna a traz : tor- 
na atraz, torna arraz para 
que te vejamos. Mas fe 
eftaexhortaçáo do repe- 
tida he para que Jerufa- 
lèm fe converta j porque 
náolhc diz Salamáo <:on- 
vertere<i fenam revertere-, 
porque nam lhe diz que fe 
converta, fenam que tor- 
ne atraz? Porque nam fó 
lhe perfuade a con veriam, 
mas juntamente lhe enílna 
o modo delia , que he o 
due mais ignora, & húa, & 
outra couía profetiza : co- 
mo fediílera : Revertere -i 
Torna acraz,Synagoga ce- 
ga : Reverter^y corna atraz, 
que vás errada : Revertere-, 
porqnam has de acharo 
IVleflias que buícas , em 
quaiuo caminhas para di- 



fgiiv ia feira 

ance: Rtvertere;porqutfó 
quaddo tornares acraz o 
has de achar : Et reveríen- 
tur ãd \Djminum ''Deum 
ftium. 

386 Agora tornemos 
nòs cambem atraz, & ou- 
çamos a occaíiáoqueteve ■ 
Ofeas para profetizar o 
quediíTemos. Hecafofin- 
gularemtoda a Hiíloria 
fagrada. Mandou Deos a 
eíle Profeta, que fe cafaííe 
com húa mulher adultera, 
como entendem muitos, 
agraves Interpreces , & 
quando menos que a le- 
vaífe para fua cafa , & a fu- 
fteníaíTcnelIa , 8c a guar- 
da ííe com cal condiçam, 
que nem avia de ter com- 
municavamcom oadulce- 
ro, nem com o mando, & 
qdeíle modo aílim apar- 
cados aviam de continuar 
muito tempo , efperando 
fempi comando reconci- 
liarfecomella, & ella ef- 
perando também reconci- 
iiarfecom o marido. Alíim 
o aíTencou o Profeta com a 
adultera , ou como mari- 
do, ou como quem o re- 
prefentava,& como cal lhe c 
diíTe: T>ies muitos expeça- 3 
bis 



depois dafegunda dominga da ^arefma. 44.^ 
hís me : non fornicaberis ^& fez homem . líTo quer di 



nonerisviro^fedò' egoex 
feãabote: Muitos dias ef- 
peraráspor mimjfem ma- 
rido, nem adulcero , & eu 
também eíperarei por ti. 
Efta foy a hiftoria , & o ca- 
fo fobre que fe fundou a 
profecia que temos decla 



zer,8c diz admiravelmen- 
te oProfeta naquellas duas 
ipÚ2iVX2iSyNonfornícaberisy 
& non eris viro : non forni' 
caberis , porque eftà apar- 
tada dos ídolos , em que 
coníiftia o adultério j & 
non er IS viro , porque eftà 



rado, da qual a mefma hi- apartada de Deos, que era 
ftoria foy admirável para- o verdadeiro Efpofo. E 



bola, & figura. A mulher 
cafada, & adultera repre- 
fentava a Synagoga,& na- 
ção Hebrea, com a qual fe 
deípofou Deos, & fempre 
lhe chamou Efpofa , & ella 
feraprelhefoy infiel ,& 
adultera, deixando conti- 
nuamente a Deos pelos 
ídolos, como confta de to- 
do o Teftamento Velho, 
defde o livro do Êxodo atè 
odos Macabeos. Porém 
depois da vinda de Chri- 
fto he muito diíFerente o 
eíliioqueobferva a mef- 
ma naçaó , porque vive 



que fe fegue, ou feguio da- 
qui? Hum effeito fobre to- 
da a admiração eftupendo, 
mas vifto com os olhos. O 
mefmo Efpofo o declarou 
àquejà naó tinha ufo de 
adultera,nem deefpofa: & 
aílim o diz o mefmo Deos 
à naçaó Hebrea, que hoje 
nem he idolatra, nem fiel. 
*T>ies muitos expeãabis me : 
Muitos tempos efperaràs 
por mim ',fed & ego expe- 
ãabote^moi^tuvío mefmo 
tempo também efperarei 
por ti. Naó he ifto o que 
todo o mundo eft:à vendo, 



apartada do adultero , & &fóoJudaifmocego nani 
apartada também do £f- vè? De maneira que nam 



pofo : do adultero, porque 
jà naó tem ídolos 5 & do 
Efpofo,porque naó guarda 
féaDeos, negandolhe a 
Divmdade depois que fe 



faó Í6 os Judeos os que ef- 
peraó, fenaó também o 
Meílias: os Judeos efperaõ 
pelo MeíHas -, expeãabis 
me:^ o MeiTias também 



.y 



44^ ^^rmão nafegunda feira 

efpera poreIIes-,/^^/e5^^^(? que ha tantos centos de 
cxueciabo te. E tam longa annos que bufca , & efpe^ 
hehúa elperança, como a ra, alongandofe cada dia 



outra ; porque aquelle^/>j 
muitos pertence igualmen- 
te a am bas.'Z)/>j muitos ex- 
pecídbls mp^ ha mil & Çtis* 
ctvvtos annos , que osju- 
deoseíláo efperando pelo 
Mcflias : Se d ò* ego expe* 
õfabo te^ & cm todo eíie té- 
poeftàtambem o Medias 
efperando por elles. Elles 
eíperando pelo Meflias, 
porque cuidaò que ainda 
ha de vir, Sc o MeíHas efpe- 
rando por elles, porque ha 
outros tátos annos, ou ou- 
tros tanros feculos que jà 
veyo. Masofcu.erro , & 
engano eílà em que o buf- 
cao caminhando para di- 
ante, fendo que fó o haó 
de achar voltando atraz: 
Revtrtentur , e^ quarent 
'Dominum T>eum fuum, 

5c VII. 

387 XTAóha duvida^ 
]^\| bem digna he a 
mifcravel Jcrufalèm da- 
quelle fegundo /^ , ou fe- 
gundo Ay , pela cegueira 
culpaycijôi obílinadaconi 



mais do que bufca, & na5 
ha de achar, & do queef. 
pera,&naó ha devir. Mas 
como na mefma Jerufa- 
lèm hefignificadaa alma 
de qualquer Chriftáo , taó 
maraviihofacomo tremé- 
dacoufahe, que também 
em nos fe poífa verificar 
quebufquemos a Chrifto, 
em quem cremos có ver- 
dadeira, & firme fé, &: coni 
tudo o naó achemos. Chri- 
ílá era ,& fiel aquella Al- 
ma, a qual confeíTa de fv, 
qbufcouao mefmo Chri- 
íío,&:onáo achou :^^</í- 
vi quem diligit anima mea , ^^ 
quísjtvi i lumy ò' non in veni, 
E o Profeta Ifaias q mais 
que todos foy Profeta da 
Ley da Graça , diz que 
bufquemos a Chriílo era 
quanto o podemos achar; 
^£rite "Dominum^ dumiç^^ 
inveniripoteft. Logo fup-^- 
põem que ha têpo, cm que 
o não poderemos achar, 
ainda que o bufquemos, 
^£retís me ? 

^88 Somos entrados no 

ponto mais apertado , Sc 

tcrn- 



l 



depois dafegtmda "Dominga da Sluarefma] 447 
terrível da matéria prefen- dia he para Deos, replica o 



te. Se ha,&: pôde aver té- 
po em que naõ poíTamos 
achar a Deos,aindaqueo 
bufquemos, qiiádo, &que 
tempo he efte ? O Apofto- 
lo S.Paulo Paliando deíle 
quando , Sc deite tempo, 
diz : Ecce num tempits ac- 
ceptabíle^ecce nunc diesfa- 
to/>.Agoraheo tempo de 
achara Deos, &: eíle he o 
dia da falvaçaó. Se he ago- 
ra, Ecce nunc , não fera de- 
pois : & fe he no dia de ho- 
je, Ecce nunc dies^ naó fera 
nodeàmenháa. Atèhum 
Gcntio,& demàvidajco- 
mo era Marcial, o enten- 
deo, & aconíelhou aílim ; 
Será nimis vita eft crajtina, 
vivehodie: Se queres vi- 
ver bem, começa, & vive 
hoje, que à menhãa jà he 
tarde. Todos os homens 
prometem a Deos o dia de 
àmenhâa , & quaíi todos 
daóao demónio o dia de 
hoje. Efte be o contrato tá- 
cito, ou expreíío que tem 
s. feito com o Inferno: Cttm 
Inferno feãmuspãBíim. E 
que faz o demonio.''Q£an- 
do chega o dia de àme- 
nhâa, fe o homem diz,£íte 



demónio, Náo he lenam 
para mim : porque eíle dia 
de hontem era dia de àme- 
nhâa-, porém hoje depois 
queamanheceo ,jàna6he 
dia de àmenhâa , fenão de 
hoje, & aílim he meu, ^ 
não de Deos. Por eíle mo- 
do de menhãa em menhãa, 
& de dia em dia leva o de- 
mónio todos os dias, & 
também leva os que lhos 
daó. Elles mefmos con- 
feíTaó, que o dia de àme- 
nhâa ha de fer como o de 
hoje, & ainda peyor : Et 
eritficut hodie , fie ò" crãSy j 
& multo ampUus, líto di- 
ziaó os que tendo obriga- 
ção de governar efpiri- 
tual, & temporalmente o 
Povo de Deos, & lhe dar 
bom exemplo, fó trata vaó 
não de fazer , fenão de le- 
var boa vida. Hojejdiziáo, 
fartaremos noíFos apeti- 
tes 5 & àmenhâa muito 
mzis^Ò' eras amplms. Por 
iiTo, como notou , & rpui- 
tas vezes repete S. Agoíti- 
nho, a palavra cras\he voz 
do corvo: &o corvo hum a 
vez que fahío da Arca^nâo 
tornou maisaella. 

Eila 



f^. 






./ 



'íl 



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o. 



que bufca/rcmos a Deo, Deos td t^ ^"^^ '^ 

em quanto e podumo, os diaf 1- ",'" 'í"'"'°* '"^ 

achar. Mas ouçamola d^ ÂT^r ^"l"^""^»* ospec 

fua própria bocl. St£ ntí r ^ ''"^ '° '"'="°* '^^ 

/^í/? : Bufcai a Deo7em" Sm t^T'^""" '^"í" 

quanto fe pode achar , & Sà 7. D "^"'"^ '^"^^ 

chamai por elle era quan ddie P n i ' ^ °'^«' 

to eftà perco. Deos elt Í míonSídro"" 

pertodehuns.Kge1 SeTfíof r^-^"* 
outros. Vedes douf ho! do^o inToíar de r " ?"'■ 

mensjuntos.dizS Ara e-e n". i ^ "*" '°"- 
mnhcac reperguntarlf?; famío^" Tf 'faf 7" 

fto amigos, refponderà mm butormí; P^'° 

quem os conhece ' que ef dizon^^ * * P°'*'^"« 

taô muito longe d íTo oi' caí-l J ^'"™°* '^^ ^''^- 

h. prefençaam^o u„tL lo^ZlT""''' ""'' ^'" 

peJaamiflde muito w' poeroue rt™^'"°^f"'- 

hum do outro. Tal he a T InlZ ^T ^^^^ ^^''a''- 

-elhança de que 'ufat é^:^'^''" ^'"^ 

Profeta. Cada peccado tà mukoToifi in ^''"'^' 

grave aparta a Deos d^ rinrtc í ^ °* P'="»- f 

nòs.-&feos peccados fal IZ^ P"'*!"^' •^"'y*-:' 

muitos, & continuado! ■^'-^"'^f "íf" '"^^«"«^^/«'^ 

por mu to7d,as a cada Í fn' ^^''í"" "*"> ^u''-" 

òia , & a cada peccadoí TT °l^^^°' '^^ ^ <^°"- 

vameos.mpr-^eJSSÍ! írque^-^\râ^^^^^^ 



do mais,& mais. Faça ago- 
ra o computo o peccador 
que não ha dias, nem me- 
2es, fenam annos, (Sc mui- 



porque nam ham de buf- 
car , fenam porque nam 
buícáram, quianonex.yui' 
>ri5^«r. Para achar a Deos, 



^ 



depois dafegunda 'Domh 
8>c a falvaçam , nam bafta 
bufcala^òu avela de biif- 
car, he neceflario tela buf- 
cado, porque o tempo que 
iàpaífoujeíTeera o tempo 
"de a achar ; IDiim inveniri 
poteft, 

390 E fe efta defgraça 
fucccdeaosque bufcaó a 
Deos na vida, & na faude , 
quefuccederàaos que re- 
fervam efta diligencia pa- 
ra a enfermidade,& para a 
morte , que he o noíTo ca- 
fo : Etinpeccato veftro mo 
riemini ? Eu nam quero 
derconnar,nem mieter em 
derefpcraçaó a nenhum 
peccador por grande que 
feja, & por mais q fe ache 
cercado de todos os pec- 
cados de fua vida,ainda na 
ultima defconíiançaj^pe- 
rigo delia , & jà a braços 
com a mefma morte. O 
Profeta diz, que bufque o 
peccador a Deos em quan- 
to o pôde achar, dtim hive- 
niri poteft'. & eu lhe darei o 
meyo com q o poíla achar 
a qualquer tempo. Diz 
mais que chame por Deos 
cm quanto eílà perto, dum 
propeeft: & cu lhe darei o 
meyo com que Deos o ou- 
Tom.8. 



\ngada,^aYefma. ^ %^9 
ça, ainda' que cfteja muito 
longe. E qaemeyojou me^* 
y os faó e ftes may ores qu e 
toda a efperança,&: que to- 
da a defefperaçam l He hú . 
fó, mas muito certOj «Scin- 
fallivel. E qual he .? Que 
bufque a Deosj& O chame 
com todo O coraçam. Se 
bufcara Deoscom todo o 
coraçam , ainda que feja 
com a candea na maó , 
achalo ha, & nam o lança -^p^^^^^ 
rà de fy : In totó cor de meo. t , 1 i 
exquifivi te , ne repelias me. 
Se chamar por Deos com 
todo o coraçam, ainda que 
feja com a ultima boqueai 
da , por muito longe que 
efteja, Deos o ouvirá : Cia- ibH^ 
mcLvt in totó cor de meOi^"^^-' 
exaudlmeT>omí7íe.HuâySc 
outra; cpofa fuppoem o 
Real Profeta nas palavras 
que citei} & pofto que ba-* 
ftava fer fua a fuppoíiçam} 
acrecentou para mayor 
firmeza, que he promeíTa 
infallivel do mefmo Deos, 
ÔccondiçamexpreíTa, em 
que nos promete quefem 
duvida nos ouvirá , &: o 
acharemos, fe o chamar- 
mos , & bufcarmosjcom 
tanto que feja com todo o 
Ff cora- 



5|il ' 

%>■■„,, 






./■ 



r 



4fo ■ "^ Sermão nâfegunda feira 

No Capitulo 



coraçam 

quarto do Deutcronomío: 
Cnm quafieris T>ominum 
Dcut 4 ^eum tuumy inventes eum , 
^^' Jítamen totó cor de quafie- 
ris \ Quando buícares a 
Deos, achaloheis , có con- 
dição porém que o buf- 
queis com todo o coração. 
E no C apitulo vinte ^ no- 
ve de Jeremias compre- 
hendendo ambos os ter- 
mos de chamar, Sc bufcar: 
Invocabttis me^/^ego exau - 
l''^^^^^ diamvos : qu^retis me^ & 
13- invenietis ^ciunqu^fieritis 
me in totó cor deve ftr o\QMz' 
marme-heis, & euvos ou- 
virei: bufcarme-hcis » 6c 
vós me achareis, com tan- 
to que me chameis, & me 
bufqueis com todo voíTo 
coração. Aíllm que todo 
aquelle , que de todo feu 
coração chamar, & bufcar 
a Deos cm qualquer dia, 
cm qualquer hora , & em 
qualquer inílante , ainda 
que íeja o ultimo, & mais 
apertado da vida , fcm du- 
vida fera ouvido delle, & 
o achara. Mas que fe fe- 
gue daqui ? E íle he o pon- 
CO de que depende tudo. 



§. VIII. 

391 T^Arece que fe fc- 

I gue daquijqnarn 
averàChriílão algum taò 
perdido, fe também nam 
tem perdido a Fe, <Sc o juí- 
zo, que fe na m falve. Por- 
que como pôde aver, nem 
imaginarfe criatura racio- 
nal taó inimiga de fy mef- 
majquevendofe às portas 
da morte,& do Inferno, 6c 
conhecendo que fó eni 
Deos pode ter o remédio > 
nam defeje tornar fe a elle, 
6cinvocar fua mifericor- 
dia de todo coração? Tu- 
do ifto aflim he(^ porque 
nam quero fallar doicafos 
emqueofubitoda morte, 
ou dos accideates mortaes 
fe anticipaó a cíles mef- 
mosdefejos, 6c as mifera- 
veis Almas,que fe guarda- 
rão para aquella hora, fe 
condenáofem remédio. } 
Mas concedendo outra 
vez, que todo aquelle que 
na mefma hora invocar a 
Deos de todo o coração fe 
falvarà : & concedendo 
tam bem que nenhum ave- 
rà,que na mefma horanaò 
de- 



C 



depois da fegmda^ominga da ^iarefma. ^4fi 
defeje invocar a Deos , & ceíTario que o coração cio 



converterfeaclle de todo 
ocoraÇaó: digo com tu- 
do,& concluo refoiutamê- 
te, que raro , ou nenhú de- 
ites fe fal va. Porque 1 Por- 
que como fica dito por taó 
repetida condicional , & 
exceição do mefmo Deos^ 



homem feja todo feu , & 
naquellahora nem he feu, 
nem he todo. Quando he o 
coração todo , & quando 
he noíTo^HenoíTojquan- 
do o náo domina outro af- 
fedo j de he todo , quando 
o naó diverte outro cuida- 



nenhum fe pôde falvar,fe- do. Tunc porro intoto corde 
convercendofe a cllc clamatur , quando aliunde 



nao 

de todo o coração : & hc 
certo que naquella hora, 
rariíHmasTiaos que fe có- 
vertem 5OU podem conver- 
ter á Deos de todo cora- 
ção. 

592 Toda a verdade 
delia ultima, &: temerofa 
conclufaò fe funda na pro- 
babilidade 5 ou certeza có 
qiiedigo, que raro.ou ne- 
nhum naquella hora fe có- 
verte a Deos de todo o feu 
coração. E efla fentença, 
que he comua na doutrina 
dos Santos Padres , fe pro- 
va por dous^ principies , 
hum da parte de Deos, ou- 
tro dá parte do mefmò 
homem. Começando pelo 
homem, a razão nianife- 
íla hcj. porque para o ho- 
mem bufcar a Deos com 



non cogitamr^òiz S. Ago- 
ílinho.Confideraime ago- 
ra hum homem nas ulti- 
mas anguílias da enfermi- 
dade, & quafi lutando jà 
com a morte,& vereis não 
fó com o difcurfo, masco 
os olhos , quam dividido 
tem o coração , para que 
não poífa fer todoj&: quam 
divertido, & fenhoreado 
de diífercntes cuidados, 
para que não poífa fer feu. 
593 Os quefeguardãó 
para aquella hora no prin- 
cipio da enfermidade, ou 
lifongeadosdos Médicos, 
&dosqueosafliíl:em , ou 
enganados do amor da vi- 
da, fó tratão dafaude dó 
corpo , & quando eíla fe 
defconfia totalmente, & fc 
começa a dizer entre ácrí" 



^\m 



ifcitijii. 



íitUi 4i 



todo oieu eoraçãoy lie-íie- tes que morre o enfermo » 

Ffij cíi- 



45"^ Sermão nafegunda feira 

entaò lcnibra,& fe acode à çáo dos criado$, a paga das 



P V m. 



\ 



Almajôc aos remédios da 
{úvOir^Q-Multiplicatafiint 
infirmitatcs eorum , p o fie a 
acceleraverunt. Enram fe 
chama o ConfeíTor a pref- 
Íà,enta6 vem o Notário 
paraoTeftamento, então 
crece a febre, ocas dores. 



dividas j a inftancia dos 
acrcdores,as reftituiçoês 
do mal acquirido: as nego- 
ciaçoens dos intereíTados 
naberaiK^adoquefe deixa 
por forçaj & fobre tudo o 
temor da conta també for- 
çado,& nam por verdadei- 



cntãofeapplicãoos medi- ro arrependimento: ou- 
camentos extremos, & os vindofe a invocação do 



í^• 



jmartyrios mais fortes 5 & 
qual eftarà o coraçam do 
iniferavel enfermo neíla 
anguítia ? Vede qual fera a 
confiíTaôdos peccados de 
ioda a vida? Vede quaes 
feráóasclauruíasa8c decla- 
raçoens do teftamento em 
^^uemfempre viveo com 
pouca cota, & com pouco, 
ou nenhum efcrupulo ? A 
memoria perdida, ocnté- 
dimento fem juizo, a von- 
tade attonita, & pafmada: 
osfentidos todos fó vivos 
para ador,&"parao mais 
jàquafimortosia Almana 
garganta , &arefpiração 
.agonizante. Ohquetran- 
íetão apertado! Ajuntai 
ao interior deitas afflic- 
.çoens, as lagrimas da mu- 
lher, o em paro , ou defem- 
paro dos filhos, afatisfa- 



nomedejefu na boca do 
Religioíoque aíTiíle à ca- 
beceira, & nam faindo do 
coração de quem nunca o 
amou , & fó agora o teme , 
porque mais naó pode. Oh 
valhame Deos,quam lon- 
ge eílarà de ouvir eílas 
vozesfemAlma pmefmo 
Deos, que eftà taò longcl £ 
nefta perturbação , neíla 
confufaó ,neft:e labyrinto 
de cuidados , & atfedos 
("taó implicados os deíle 
mundo com os do outro ^ 
como poderá dar todo o^ 
coração a Deos, nem offe- 
recerlho como feu quem 
por dividido., & alienado 
total mente, jà não he fe- 
nhor de fy , nem poíTue 
dellea minima parte ? A- 
qui fe cumpre o que diíTe o 
Frofctz. Oíc^LS-.^Dru/fumeJi , 
cor 



Vi 



depois dafegunda T)()minga da ^uartfma. 4 f 5 
tOY eofum^riunc interibiint \ 6c anguíl'ias,que naquella 



AydosqueafiiQi tem di- 
vidido o coraçam, que ne- 
íl:eeítado,&nefl:e inílante 
llie chegou a hora de pe- 
recerem. 

394. Eu nam nego que 
por algum impulfo inte- 
rior, ou pelas exhortaçoês 
de fora chamarão com a 
voz por Deos,& quererão 
chegarfea elle : mas na- 
quellamultidam, & con- 
fufamde cuidados, & na- 
quella bataria de pertur- 
baçoens , & temores he 
igualmente certo , que o 
nam poderám confeguir. 
Texto,& decreto deDeos 
expreflbno Pfal mo trinta 
Ôchum. Tro hac orabit ad 
teomnis SanBus in tempore 
opportuno : verumta^nen in 
diluvio -aquarum multam 
adeum non approximabunt : 



hora como hum diluvio 
afogáo o coração dos que 
fo guardarão para ella. De 
forte que aílim como na 
tempeílade do diluvio 
muitos fe quizeram valer 
da Arca, & foíTobrados da 
immenfidadedas aguas,6c 
doconcurfo, & contrarie- 
dade das ondas húas fo- 
bre outras, fe afogáram,& 
perecerão nellas^ aíTim diz 
David, que naquelle tro- 
pel5& tumulto de cuida- 
dos, de aíFeébos, de dores , 
depenas, de temores, de 
irrefoíuçoens , de aílbm- 
bros , & naquelle verda- 
deiramente diluvio de an- 
ciasj&anguílias mortaeS) 
opprimido, & afogado o 
homem dentro, 8c fora de 
fymefmo, nenhum averà 
que tenha forças , ou tino 



Pela re-miíTaó dos pecca- para nadar à Arca da fal- 
dosrogaráóa Deos no tê- vacam, & nenhum que fe 



po opportuno todos os q 
feháodefalvar j mas no 
diluvio das muitas aguas , 
ainda que fe queirão che- 
gara Deos , nam o alcan- 
çarão. E que diluvio de 
muitas aguas he efte ? He 
a multidão de aíHicçoens, 
Tom.8. 



poíla ciregar a D€os,ainda 
que quizeíTe : In diim)io 
aquarum multar um ad eum 
non approximabunt. 

3 9 f Efta he a razaó na- 
tural, &evidente,pela qual 
o homem reduzido àquel- 
le ultimo conHido , nam 
Ffiij pò- 



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45^4 Sermão na 

pôde invocar a Deos de 
todo feu coração, porque 
jà nem he todo, nem feu. 
E fobre eíla; que tanto de 
vemos temer, feacrecenta 
da parte de Deos outra 
muito mais temerofa, por- 
que naò he fundada na 
noíTa fraqueza , fenaõ na 
fuajuftiça. Naquelle eíla- 
do taó eíl:reito,6c em qual- 
quer extremo da ultima 
deíerperaçaô, podcrofa he 
a miiericordia , & graça 
divina para li\^rar, ôc p^r 
em falvoao mayor pecca- 
dor: masjuftiílimamente 
naóquer Deos ufar com 
elle da eííicacia delles feus 
poderes na morte, porque 
também elle fenaó quiz 
converter a Deos em quá- 
to pode na vida. Ou o pec- 
cador naquelle apertadif- 
fimo tranfe fc quiz con- 
verter a Deos, ou naó che- 
gou a querer ; & de qual- 
qiermodo o caíliga com 
€xa£l:i 11 ma igualdade a di- 
vina juiliça. Porqfequizj 
juftamente he condenado 
a que naó polfa quando 
quer , porque naò quiz 
quando pjdia. Impius cum 
mltinonpotefiy quia cum 



fegundafetra 

potuifi noluit : di^: S Ifidô- 
roPelufiota. Efe naó che- 
gou a querer-, cambe foy 
juftamente condenado a 
lhe Faltar a fua própria vó- 
tadej porque bem mere- 
cedor he de que fe efqueça 
defyna morte , quem fe 
naò lembrou de Deos na 
vidajdizS Agortinho./i/^r 
enim animadverfione percw 
titarpeccator , ut in morte 
ob'ivifcatur futqiii in vita 
oblttus eft T>e't. Ifto mefmq 
dizem com os o acros Pa- 
dres Gregos S. Chryfofto- 
mo,Sc com os outros Lati- 
nos S. A mbrofio. Mas por- 
que a matéria he taó oc- 
culta aos vivos,que fó paf- 
ía entre Deo^ , 6c as Almas- 
dos que morrem i ouça- 
mos ò': boca do mefmo 
Deos eíla fencença ,& re- 
gra geral do ícu tremendo, 
ôcrecl-nlirnojuizo. 
296 No primeiro Capi- 
tulo dos Provérbios falia 
Deos naó com hum, fenaó 
com muitos, porqaquclles 
a quem fuccede eita def- 
graça.naó faó pouco,s , 6c 
diz aíTim : Vocavt,& renui- p^o 
flis : exte.idi manum meam , eri 
ár nm fuií qta afptceret i^j^ 
Cha- 



depois dafegunda T>omlnga da §luarefma. 4 f f 

Chamei vos com as vozes, quando njenerit fuper vos 
& naó me quizeftes ouvir : 
chameivos com as máos, 
& com os braços abertos, 
& não quizeftes vir a mim. 
^efpexiftís omne confilium 
meiím , & mcrepationes 
measneglexiflis : Aconfe- 
lheivos,& defprezaftes to- 
dos os meus confelhos ; re- 
prehcndivos, & naô fize- 
ílescafo de minhas repre- 
hen foens. E eu que farei ? 
Ego quoque in interitu ve- 
JirortdebOi&fuhfannahoy cu 
vobts idyquod timebatis^ad' 

venerit : & quando vier a 

raorte,& com ella tudo o 

mais que vòs temieis, ou 

devieis temer, eu também 

zombarei, & me rirei de 

vòs. Todos os Santos , & 

Expoíltores declaraó efte 

tcmerofo rifo de Deos có 

as mayores expreíToens de 

caftigo,de ira, & de vingã- 

ça naqueila hora. Mas nòs 

cotinuemosa ouvir aíen- 

tençada mcfmajuftiça di- 
vina, na qual fe reduzem 

todas por feu próprio no- 
me às duas do nolfo dif- 

curfo. Cum irruei it repen- 
tina calamit as ^ Ò" inter itus 

fuafi tempefias ivgruerit^ 



trihulatio , & anguftia: 
Qaando a ultima calami- 
dade da vida,q hc a morte, 
vier fobre vós como húa 
tempeílade fubita , & re- 
pentina C porque a naó ef- 
peraveis ) & quando vos 
virdes afogados de afflic- 
çoens,& anguftias, então 
recorrereis a mim 5 mas af- 
íim como quando eu cha- 
mei por vòs 5 me naó qui- 
zeftes ouvir, aííira cu vos 
naó ouvirei quando me 
chamardes : lunc invoca- 
bunt me^ & non exãuãiam : 
& aílim como quando vos 
eu bufquei, vos não achei, 
aíIlm vòs me bufcareis , & 
naó me achareis : Mane cÕ- 
furgent , & non invenitnt 
me. Deixados pois de mim 
na morte como elks me 
deixarão na vida Q diz 
Dcos^là iráo onde comaó 
os frutos das fuás obras, & 
fc fartem dos feus confe- 
lhos : Comtdcnt igiturfru- 
Susví£fu£ ifuisque confia 
Ujsfãturabuntur. Vede fe 
cairàbemo fegúdoAyde 
SJoaó fobre efta fartura 
de penas, que fera infacia- 
velpor toda a eternidade; 
aca- 









^.frr ./^;^--»< i 



4. f6 Ser ma Õ uafegunda feira 

acabando naquella hora teofvobis non illinegamm 




os que íe guardarão para 
ella,& não achado a Deos, 
poíloqueo bufquemjnem 
fendo ouvidos delle , po- 
Ito que o chamem. Ay de 
vos, inFelices Ahnas,& pa- 
ra fempre infelices f 

397 Grande parte de- 
fte mundo,&naóa menor 
dos grandes delle , acaba 
delta force. E deixáo taò 
enganados os mortos ao.s 
VÍ70S) que não fó cremef- 
tes,5c celcbraò que morre- 
rão pia, & chriílámente, 
mas não faitaó efpiritos il- 
hífosjou lifongeiros, que 
Gom fingidas, ou foahadas 
revelaçoensaífirmão, que 
brevemente os virão íair 
do Purgatório, onde foraó 
dito íiíll mos fe tivelTem 
entrado. A verdadeira re- 
velação da boa morte he a 
Boavida. E para que aca- 
bem de fe defenganar os 
que debaixo deíl:a vá con- 
fiança aíTegura o demónio 
para que viváo , & morraó 
domefmomodoj ouçaò a 
S. Agoítinho. òi quispofi' 
tus tn ultima ueccfjltate 
ésgritudinis (ua panitentia 



qtiodfetitt fednonprafumi' 
musquia benekinc exit. Se 
algum obrigado da ultima 
neceííidade da doença nos 
pede o Sacramento da Pe- 
nitencia j confeíTòvos, diz 
pregando S. Agoílinho^ 
que os Bifpos, & Sacerdo- 
tes lhes naò negamos o q 
pede , mas nem por iíTo 
preiumimos que íae bem 
dcílavida. £S. Ambrofio 
aperrando o mefmo pon- 
to : Se cuiJais que os que 
deixãoo arrependimento 
de feus peccudos para a 
enfermidade da morte, 
váo feguros de fua falva- 
çáojeu vos protello que 
naòaffirmo , nem prome- 
to, nem digo tal couía, 
porqueonáo prefumo af- 
fim, nem vos quero enga- 
nar. Notai o pefo das pa- 
lavras com que diz, & re- 
pete eftedefengano o elo- 
quentiíllmo Doutor : Non 
prafumo^ nonpolltceor , non 
dico, non vos f alio , non vos 
decipioy non vobispromitto. 
E o que S. Agoítinho, & 
S. Ambrofio não fe atre- 
vem a prefumir, &prote- 



Mcipit^ & hinc^ vadit '^fa- jftaó que vos nào engane», 

ilíe 



ãspols dafegim ia Dom 
iíTo credes vos , & cele- 
brais, porque tainbera Fa- 
zeis conta de vos íhlvar,cu 
perder na niefmaraboa. 

398 A califa de ílc en- 
gano, & falíli apreheiífaó 
dos que cà fie 5o Ía5 aquel- 
les ados exteriores , com 
que parece morrem con- 
tritos os que viverão im- 
penitentes •, mas vai muito 
do medo à contrição, & da 
penitencia apparêteà ver- 
dadeira. £ para prova íb- 
lida, & irrefragavel no 
mefmo cafo,ouvi outra re- 
velação, nam como as vof- 
fas, renamdivina^Sc de fé, 
-efcrita no iivro dos Ma- 
-'Chabeos. Antiocho Epi- 
phanes Rey da Greciafoy 
o mais capital inimigo da 
Fè,& Ley de Deos, & da 
^ence H 'brea,em a qual 
naquelle tempo^ eflava a 
verdadeira Igreja. Refo- 
luto pois efteTyrannode 
deftruir totalmente,extin- 
guir,& tirar do mundo o 
nome,& nação dosjudeos-, 
marchava com formidá- 
vel exercito contra Jeru- 
falèm a grandes jornadas, 
quando fubícament€ íe 
âchou oppnmidQ de bCu 



^graviíTima , & mortal en- 
fermidade, a qual obrou 
ne11eaquellesefFeiros,que 
coíluma caufar nos mais 
obftinados ânimos a viít^ 
nhança da morte, quando 

-fenãoefperava. Foy tal 
a mudança em tudo o que 
fe via, & ouvia em Antio- 
cho , que nam parecia o 
mefmo. Era foberbiífimo, 
& já não fô conhecia, mas 
confeíTava publicamente 
a fraqueza , & miferia dç 
ti >do o poder hu mano : era 
Gentio , & não Í6 prome- 
teo de receber a Fè do 
verdadeiro DeoSsmas de a 
eílender, & pregar por to- 
do o mundo: hia determi- 
nado a deílruir ,& extin- 
guir os Judeos, & nam íó 
Ihespedio perdaô dos da- 
nos recebi dos mas lhes of^ 
fereceo íatisfaçam com 
ventagensiguaes aos feus 
mais nobres, Sc eftimados 
vaíTallos : levava no pen- 
fa mento a dèí^ruiçam; de 
Jeruíalèm, & do Temploj 
& fobre os votos de o en- 
riquecer com novos the- 
fouros5& Qríiameiítos.elle 
tomou por iiia conta as 

,defpeía$ de todos os lacri- 
licios^ 






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«ViVvi^rj^^ 



45 S Sermão ii: 

ficio3 5 Sacerdotes, 8c culco 
divino. De todas eílas pro- 
meíTas fez Antiocho ef 
crituras autenricas/orma- 
das de fua própria mão, & 
encarregada a execuçam 
delias depois de fua morte 
afeu filho,&rucceíror, có 
a&mayores demoíiraçocs 
de benignidade, &:enca e- 
cido affecVo, Emíimmor- 
reo daquella enfermida- 
de,&:naquelie eílado An- 
tiocho, & pergunto, fe fe 
falvaria? blte homem, & 
fenhor de tantos homens 
com tantas, & taó maniPe- 
ftasdemoílrav,oens de ar- 
rependimento , falvarfe- 
hianaquella hora? Bem 
creyo que diráó que fim 
os que com menos mila- 
gres, & muito differentes 
exemplos beatificaó,&ca- 
nonizaó outras mortes. 
Mas que diz a revelaçam 
divina expreíTa na Efcri- 
tura fagrada ? Diz,que pe- 
fando mais diante do Tri- 
bunal divino os peccados 
da vida paífada, que as de- 
moílraçoens da emenda 
prefente, por mais que o 
miferavel Antiocho orou 
a Deos > naó foy ouvido 



2.1 



f.gimdãfiira 

delle : Orabat autem htc 

fccíeftiis T> '"minum^ a quolh 

nonc-í]et vnfcricordiam coyi- '^ 

fecuturns. 

l^c} Oh quanto vay dos 
juízos dos homens , que 
naópaflaó do exterior, ao 
juizo,& conhecimento de 
DeoSi que vè,& penetra os 
coraçoen.s í Farútentta ifta 
nonftiit vera^ quia nonfuit 
propter ojfcníam 'Dei , Jed 
propter evafwnem têmpora- 
llsflagelli^ érfic nonfutt mi^ 
ferkordiam confectitus quã' 
tum ãd remtjjionem culpa » 
^p^n£\ diz com a voz 
comum dos Interpretes 
Lyrano. Todoaquelle ap- 
parato de promeíTas, & ar- 
rependimentos naó foy 
baílante para livrar a An- 
tiocho da culpa, nem da 
pena eterna , porque era 
nacidodemedo,!:^ defejo 
deefcapar do perigo em 
quefeviajSc naó de pefar 
deaveroífendidoa Deos, 
nem de verdadeira contri- 
ção. Pois fe a doença era 
verdadeira, & as dorc\s que 
padecia verdadeiras, &o 
perigo com a morte dian- 
te dos olhos verdadeiro,& 
fobre tudo verdadeiro o 

CO- 



depois da fegunãa Tiomtngã da ^lanfma 
conhecimento de q Deos dimento na morte 
ocaíligava por feus pec- 
cados,í?^ aconíiíTaó delles 
verdadeira •, porque nam 
foyrambem verdadeira a 
contrição r Ou porque naó 



_4^9 
inda 
quequizeíTe , quando fe 
naó quiz arrepender, nem 
emendar na vida , como 
podia. 

400 Por certo tenhoy 



quiz, ou porque naó pode: que fe Antiocho eícapaíí*© 
& como o querer, & o po- na doença com vida , & fe 



der, hija,6c outra coufa de- 
pendia do auxilio eííicaz 
da graça de Deos, (lui dat 
velle^ S" pí-rficere : no def- 
cuido, & obílinaçaó com 
que Antiocho fe nam quiz 
emendarjcomo podéra, na 
vida, jàíe tinha condena- 
do a naó qu-rer , nem po- 
der arrepend-rfe na mor- 
te. Notai as pabvras do 
Texto : Q^abat '^Domlnum^^ 
hquononcfjet mifencordiã 
confeciit:iriiS Naó diz, 
que nam alcaaçouamiíe- 
ricordia que pedio a Deos, 
fenaoquepedio a Deos a 
mircri.cordia,qoenaò avia 
de alcançar. Nos outros 
eaíbso defengaao de nam 
alcança**, he depois de pe- 
dirv masneílecafo antes 



viíle outra vez inteiramé- 
te convalecido , com as 
mefmas trombetas que lhe 
feftejaírem a faude , avia 
de mádar marchar o exer- 
cito contra Jeruíalèm , 6c 
pòr em execução quanto 
dantes pretendia. E fe' naó 
ponhamos os olhos na ex- 
periência , & em homens 
de menos má vida , & de 
mais antiga fé que a de 
Antiocho. Quantos vimos 
que ch-:gados àquelle ex- 
tremo perigo , abraçado^ 
comhumChrifío , fe em- 
penharão com fuás chagaá 
de nunca mais o offender^ 
prometendo, Sc multipli- 
cando votos de emendara 
vida,& fer Santos , fe eíca- 
paísé? Efcapá4 a<> por mer- 



depedir,jà eílava fulmi- cedomefmo Senhor^&q 
nado o decreto de naó ai- fizerao.? Depois que fepu- 
cançar: porque entaò de- zeraò em pè , a primeira 
crf tou Deos, que nam po- jornada í^-^ ir dar graças a 
diílie alcançar o arrepen- Deosa Penha de França ^ 

&af^^ 






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4^0 



6c a fegunda romaria a re- 
conciliarfecom o idolo a 
que dantes adora \raó. Pois 
eíles eraó os votos ? elles 
osarrepejidimentos?eílas 
as contriçoens ? ou eílas as 
traiçoens ? Sim. E vi eu al- 
gum q depois de aílim ef- 
caparcom a faude do cor- 
po,& recaircó a da Alma ; 
Ihefobreveyo íbbitamen- 
tehumtalaccidentc, que 
logo lhe tirou a falia , Sc 
pouco depois a vida s para 
que no mefmo que não ti- 
nha cumprido as fuaspro 
meíTas, fe cumpriíTe a de 
Chriílo : Eí inpeccato ve- 
Jiro meriemini. 

§■ X. 
401 Q^Omos chegados 
v3ao terceiro, i^: ul- 
timo Ay , q fera eterno no 
Inferno, & a mim me falta 
otempo para o ponderar 
dignamente. Abreviando 
poiseíla grande matéria, 
faybamosque peccadohe 
eftejem que diz Chriíl:o,q 
haôde morrer os ameaça- 
dos: Sc propriamente fc 
chama peccado Çcu^hifec 
catovcftro^ Aquelles com 
quem o Senhor ímmcdia- 
tamcxvíe fallava quando 



Sermão na f^gun^a feira 



pronunciou efla fentença^ 
era o Povo dejerufalèm: 
& aflim como todas as na- 
çoens tem os feus vicios 
particulares a que natural- 
méte faó inclinadas , & fo- 
geitas,aílim o vicio, ôcpec- 
cadodanaçaò Hcbrca ,& 
que proprijílimaméte me- 
rece o nome de feu , he o 
errar na Fè. Naó faónof- 
fos os livros,ncm noííbs os 
Aufhores.q teíiemunhaó 
a húa voz ella verdade, fe- 
nãoosmefmcs livros , & 
Rfcrituras fagradas de to- 
do o Teífamento Velho, 
emqel{es,& nòs cremos. E 
de nenhum modo podem 
negar os Hebreos aver fi- 
do fempre eí ■ e o feu vicio, 
6c o feu peccado. 

402 OsdozeTiibusdc 
Ifrael, como filhos nacéraó 
na Mefopotamia, & como 
Povo no Egypto. Na Me- 
fopocamia como Tllios, na 
cafa,&: família deJacob,<5c 
no Egypto como Povoj 
porque alli engroílarao, 
crecéraó, &fe multiplica- 
rão em grande numero. 
Mas paflando depois de li- 
vres a cativos , devédo co- 
mo iilhos confervar a Fè 
de 



depois daftgunda T>omwga da ^arefma. j\,6 i 
defeusPa7S,regiiíraó'co- los Juizes , nove vezes os 



mo efcravos a idolatria de 
feus fenhores. Os Egyp- 
cios adoravaó a Oíires em 
figura de Touro, ôceíla foy 
a origem do Bezerro , que 
osHebreos depois de li- 
bertados adorarão no de- 
Csrto, atribuindolhe fobre 
tantos milagres não fôim- 
pia,mas defcaradamente a 
mefma liberdade. Moyfes 
Ihedeoabcber o Bezerro 
desfeito em cinzas,mas el- 
les de tal modo bebéraó 
nellasoerrarnaFè, q pe- 
los erros que cometerão 



caítigou Deos com muitos 
annos de cativeiro debai- 
xo do jugo de diíFerentes 
nações barbaras pelo pec- 
cado da idolatria, 6c íem- 
pre fem nenhúa emenda 
tornarão a idolatrar , cada 
vez mais obftinados na ce- 
gueira defte feu vicio he- 
reditariojcomonota a Ef- 
critura : Revertebantury éf ]^^'^'^' 
multofaciebantpeiora , quor 
fecerant Catres eorum fe- 
quentes l^eos alienos , & 
adorantesillos. Depois que 
o governo fe paííbu aos 



19. 



nos quarêta annos do mef- Reys,quam raros forão os 
modeferto, merecerão da quenãofoíTem idolatras. 



boca de Deos fer chama- 
dos os que errão fempre: 
Çluadraginta annis proxt- 
musfuigenerationi hak^ & 
dixijemper hi errant cor de. 



íendo o primeiro de todos 
o mais fabio de todos Sa^ 
la mão ? Porque dividida a 
Monarchia por efte pec- 
cado em duas partes , húa 



Sempre,diíre acenfura di- que fe chamou Reyno de 
vina, 6c foy profecia do q Ifrael,outra Reyno deju- 
fempre avião de fer, como dàjcm ambas, ou fe profef- 



verdadeiramête tem íido 
Entrados na terra de Pro- 
miíTaõ, logo deixando a 
Deos, que os metera de 
poíTe delia , adorarão os 
Ídolos dos Cananeos Baal> 
& Aílaroth.No tempo em 
que forão governados pe- 



fava publicamente a ido- 
latría,ou fe por algum bre- 
ve tempo ceíTava o publi- 
co culto dos ídolos, nem 
por iílb deixavaó de fer 
adorados fecretamêtc. Ef- 
tts erão os brados , eíles os 
clamores , eftas as invedli- 
vas;? 






1^ ' 



./• 



.^^^^K* 



4<> 2 Sermão na fegunda feira 

vas , & eftasas abomina- moReyno, & Povoj pelo 




çoens,que com nome de 
adultério contra Deos fe 
lem em todos os Profetas , 
feguindofe ao peccado as 
ameaçaSjSc às ameaças os 
caíligos. 

403 No Reyno de If- 
rael,queconfl:ava de dez 
Tribus, levantou ElRey 
Jeroboam hum Templo, 
ou Fanojem que collocou 
dous Bezerros de ouro, q 
elle5& todos os Reys feus 
fucceílbres fem exceiçaó 
adoravaó,& em pena deíla 
devaílidaô fua,& de todos 
os dez Tribus, todos foraõ 
levados cativos aos AíTy- 
rios,dóde ha mais de dous 
milannos defaparecéraó, 
&naófe/abe delles. No 
Reyno de [uda, cuja Cor- 
te era Jeru falem, eftava o 
Templo da verdadeira di- 
vindade: mas nem em fua 
própria cafa fe defeiideo 
Deos de que delia o nam 
vieífea laçar com deílrui- 
çaódomefrao Templo o 
culto dos falfos deofes, 
exceptos neíle Reyno al- 
guns poucos Reys , todos 
os outros foraó idolatras, 
& idolatras có ellcs o mef- 



que conquiílados , prefos » 
& tranfmigrados a Baby- 
lonia, là pagáraó com o ca- 
tiveiro de fetenta annos,& 
com a vida, a obftinaçam 
dofeu peccado. Com as 
reliquias que efcapáraò 
daquelle defterro refufci- 
tou Efdraso Templo, 6: a 
verdadeira Fè j mas tam- 
bém refufcitou com ella a 
idolatria como vicio im- 
mortal defta nação. \ por 
maisqueozelo , & valor 
dosMachabeos trabalha- 
va em reftaurar as ruinas 
da verdadeira Religião, 
no mefmo tempo chega- 
rão os Judcos a mandar 
Embaixadores aos Reys 
Gentios, para que ihefof- 
fc licito adorar os feus 
deofes, abrindo em Jeru- 
faléna Efcolas publicas doa 
ritos com queeraó vene- 
rados, collocada, & adora» 
da no mefmo lugar do 
Templo, onde fe adoravií- 
o verdadeiro Deos,a Eíla- 
tuadejupiter. Tudo iílo 
que em fumma tenho rc- 
feridoj heo que fe lè era 
todos os livros do Tefta-' 
meto Velho defde o Exq- 
da 



«MH 



depois da regunda^Domingada §iuarefma. 4,6^ 
dòatèofegaiido dos Ma- faò no tempo prefente,co- 



chabeoS)quehe o ultimo 
E porque eíie vicio , & 
pertinácia de errar fempre 
na Fé he o peccado feu , 6c 
próprio da naçaò Hebrea } 
aífim viviaô, & aífim mor- 
riaói&aílim morrem, 6c 
haô de morrer no feupec 



mo foraó no paílado. E fe 
naó digaómee]les>&diga- 
me todo o mudo, que cou- 
fa he ídolo ? ídolo naó he 
outra couía fenaõ hó Deos 
falfo : ouhúacoufa fingi- 
da, 6c vã, que naó fendo 
Deos, fe chama Deos,6c fe 



cado: Et inpeccato veftro adora como Deos. Logo a 

moriemim, fé que hoje profeíTaò os 

404. Sobre eíla demo- Judeoshe verdadeira, 6c 

ílraçaó(que fó pôde ne- própria idolatria, porque 



garo Jadeo,que negar as 
fuás mefmas Efcrituras ) 
podem com tudo dizer, 
queChriíto quando lhes 
dille, que morreriaó em 
feu peccado, naó fallou do 
tempo paíTado , fenaó do 
futuro : 6c he certo, que os 
Judeos defdeo tempo de 
Chriftoaefta parte jà naó 
adora vaó Idolosj 6c fó re- 
conhecem, 6c confeífaó o 
Deos verdadeiro q criou 
o Ceo , 6c a terra, 8c nòs 
também confeíTamos. Lo- 
go, ou naó morrem hoje 
em pçccado,ou o peccado 
em que morrem, naó he o 
da idolatria ? Refpondo, 
que tanto fe enganaÓ56cer 



oDeosquecrem, ^ ado- 
raó,verdadeira,6c propria- 
mente he Deos falfo. Pro- 
vo com a fua mefma fé , ^ 
por dous principies evi- 
dentes. Os Judeos confeí- 
faó a unidade de Deos, 6c 
negaó a Trindade : logo o 
Deos em que crem,& ado- 
raó,he Deos falfo : porque 
Deos que naó fej a hum,6c 
juntamente trinojhe falfo, 
6c naó ha tal Deos. Mais. 
Os Judeos confeífaó em 
Deos a Divindade , ^ fíe- 
gaóihe a Humanidade} 
porque negaó que Deos fe 
fizeíie homem : logo eíle 
Deos que crem,6c adoraó, 
hejoutravez , Deosfalíb j 



raó agora na Fè, como dá- porque tendofe o verda- 
tes errára5,6c raó idolatras deiro Deos feito homem , 

qual- 



!ii: .; 



'■'vií! 






I ■' 




Bamcb, 
Í.38. 



4<^4 Sermão na fegunia feira 

qualquer chamado Deos, mem teve corpo com c fia 
que juntamente naó feja mefmafigurajôceíTcs mef- 
homem,naóheDeos. Da- mos fentidos , logo nam 
qui refegue com íegunda, quizeráo Deos fenáo que l 
& admirável de moítraçaó foífetodoefpirito. Mayor 1 

energia, & ainda galanra-, | 
efl-a mudança fo- 



por húa parte de incon- 
ílancia , & por outra de 
pertinácia, quam propri'^ , 
& natural inclinação, & 
quam próprio , & natural 
vicio he da gente Hebrea 
oerrarfemprenaFè. No- 
tai muito. Quando Deos 
era totalmente invifr/el, 
queriáo Deos que pudcf- 
femvercóm os olhos , & 
poriíTo frequentavão, & 
adora váo os ídolos: & de- 
pois que Deos veíHiidofe 
da humanidade , fe fez vi- 
ílvel,& foy viftojcomo diz 
Baruch: Tofth^ciu terris 
vifuseft^Ò' cum hominibus 
converfatus e[t j logo entaó 
mudáráo de vontade,&: de 
fé, & não quizeraó fenam 
Deos invifivel. Do mefmo 
modo,em quanto Deosfó- 
mêteera efpirito, queriaò 
Deos que tiveíle corpo , 
olhos,orelhas,boca,pês,& 
mãos,comodiz D^xviá-,^ 
por iíTo fabricaváo,<Sí ado- 
ravâo as Eftatuas: porem 
depois que Deos feito ho- 



na tem eira muaança 
bre a queixa que Deos fa- Deu 
ziadelles. Novi recentes- \\ ' 
quevenerunt'. ^eum quite 
genuit dereliquifli. Vieraõ 
os deofesnovos, quefam 
osldolos,&o meu Povo a' 
quem eu criei , deixoume, 
porque era Deos velho: 
mas por mais que Deos 
quiz remediar a antigui- 
dade da fua velhice, nam 
lhe aproveitou 5 porque 
depois que o mefmo Deos 
pela novidade do myfte- 
rio da Encarnação fe fez 
Deos novo : Movum crea- ^^l^^ 
'vit 'Dominusfuper terram^ 
faminã circnmdabit virurny 
logo fe tornarão outra vez 
ao Deosvelho,& naó qui- 
zeráo o novo. De forte quo 
he tão própria condição, 
ou natureza da naçaó He-, 
brea o errar fempre na Fè» 
que baila que elíaofeja 
para logo a trocarem : & 
ainda quando quizeram 
deixar a idolatria, fe ílze- 
raó 



\ 



■í 



depois àafegunda Dominga da Suarefma. ^ ^6^ 
raÓ dobradamente idola- rados,& vos trarei à vof- 

fa : & derramarei lobre vos 



trás. 



40f E porque náo cui- huma agua Iimpa,& pura , 
dem que efta cenfura he com que ficareis puriíica- 
iiiinha,leáo, & entendao dos de todos voíTospecca- 



as Efcrituras, & veráó que 
hedivina,& definida pelo 
mefmo Deos, Náo ha cou- 
ía mais repetida, & decan- 
tada nos Profetas , que a 
converfaò ,6creftituiçam 



dos,&comqueeu vos pu- 
rificarei de todas voíTas. 
idolatrias. Aquieílàopô-» 
to ; Et ab umverfis idólis 
^eftris mundaho vos. Pois 
fe ha mil & feiscentos an- 



do Povo Hebreo là para o nos que os Judcos andam 
fim do mundo.O que mais defterrádos depois da de- 



larga mente a defere ve , he 
o Profeta Ezechiel em 
muitos capituios , & no 
trinta & íeis da fua profe- 
cia, que he deíla matéria o 



ílruiçam dejerufalem pe- 
los Romanos, 6c em todo 
cite tempo he certo que 
nam adoram idoIos de ou- 
ro , ou prata, nem de pao , 



primeiro , depois de pro- ou pedra,como dates ado- 

teftar Deos que lhe ha de ravamj porque nam fó diz 

fazer aquella mercê nam Deos, que por raeyo da- 

por merecimento delles, quella agua pura que der- 

fenão por fua mera bonda- ramarà fobre elles( que he 

de, diz aíli m . Tollam quip" a do Bautifmo } os ha de 

pevos degentlbtis ^ércongre^ purificar de todos feus 

gabo vos de univerfis terrisy peccadoSjSc maldades, fe- 

é^adducam 'uos in t erram nam também nomeada- 

*vejtram:ò' effundamfuper mente de todos feus ido- 

vos aquam mundam ^ & los y & ab univerfis idólis 

mundabimini ab omrãbus i;^2m.?Dem elles a foiu- 

inqtiinamentis veftris^& ab ção, oude-a alguém, fc a 

univerfis idólis vefi.ris mu- íabe. Sinal he logo e viden-- 

dabovos : Porque eu vos te, que ainda agora fup- 

ajuntareide todas as ter- põem Deos que osjudeos 

ras poronde andais deíler- faó idolatras , Sc tem ida- 

Jom.8. Gg los: 



f" 



./ 






1^ 



46 c> Sermão riafegunda feira 

os: & eíles Ídolos náofaó, bem tem lugar» com ma- 



nem podem fer outros, fe- 
na.m osqucelles fabricam 
nam de pedra , ou de me- 
ta], fenam da mefma di- 
vindade do verdadeiro 
Deos, negando à fua uni- 
dade a trindade das Peí^ 
foas,& à fua natureza di- 
vina a uniaô que tem com 
a humana. Ecomoeílehe 
o vicio nacional, &opec- 



yorlaíiima ainda , na fé 
morta, &:im penitencia do 
Chriíláo, faibamos final- 
mente qual he o peccado 
emqueelle morre, ou ha 
de morrer , & fe chama 
com a mefma proprieda- 
de peccado feu j ò* inpeC' 
catoveíiro. Nam tem ef- 
pecie particular eíte pec- 
cado , mas pôde fer de 
cadoem q antes deChri- qualquer efpecie. He pois 
ílo,& depois de Chrifto aqueUevicio,aqueaincli- 
fempre cairão , & obítina- naçam de cada hum mais" 
damente perfevcram os oarrafta,&fogeita,oqual 
Judeosjque o nam recebe- começando em acbo, paíTa 
raójnern conhecerão jeíle a fer habito, ôccontinuan- 



heopeccado^em que vi- 
vem^ Sc efte o peccado em 
que morrem, Sc efte o pec- 
cado feu em que ChfiPco 
lhe profetizou que aviam 
de morrer : Et in peccato 
refiro mor iemini. 

§. X. 

4^ y^Oge acabo de 
V_y dizer , he o pec- 
cado, & a morte fobre que 
cae na obftinaçam final do 
Judeoo /-V, ou Ay de S. 
Joãotam jxiíta como laíli- 
•mofamente. E porqtam- 



do em habito, chega a fer 
natureza , como diz S. A- 
goílinho: Sccomo a natu- 
reza nam fe muda atè a 
morte , também elle nam 
tem emenda na morte,fe a 
nam teve na vida. 

407 No Pfalmo M/fe- 
rerey em que David pede 
perdam a Deos, & chora o 
adultério cometido com 
Berfabè, cinco vezes cha- 
ma feu aquelle peccado: 
T>cle iniq7i!t ater/l rneam'. 
amplíus lava me ab niiqui- 
tstemca'. & (i peccato irieo 
inunda me : qiíomarn- //;/- 
quitatem 



pn 



depois dafegunda ^omhigã da §luârefma. 
quitaiem meam ego cognof- morte o deixaíles , 
vo : ò" peccatum mctim con- 
tratneeflfemper. E quan- 
to durou David naquelle 
pcccado? Muito,niasnaò 



chegou a hum anno. E fe 
a hum peccado emenda- 
do, & chorado, & que naó 
chegou a hum anno , lhe 
chama David tantas ve-, 
zes íeu •, o peccado de tan- 
tos annos,&: de toda a vi- 
da jopeccadoquenaceo, 
creceo, cnvelheceo , & vi- 
veo fempre com vofcOj 



407 
nem a 
morte que tudo acaba, po- 
de acabar que o naolevaf- 
feis com vofco : Et inpec* 
cato vefiro morkmtni. 

408 Ora eu , fuppoílo 
quefallei em David, n^ra 
do feu peccadojmas da fua 
penitencia , quero arguir, 
& convencer que aveis de 
morrer no vorib. Foy cou- 
fa mui notável em David, 
âcnao pouco eílranhadai 
porDeos, que depois da 
morte de Urias ( nao exe- 



porque nam fera voílb 5 d^* cutada com eíTa tenção} 
inpeccato njêftro > VòíTò, trocando o adultério em 



porque o compraíles com 
a fazenda, com a honra, 
com a f3ude,6c com tantos 
perigos da vida : voíFo, 
porque déíles por elle a 
conciencia, à Alma, a gra- 
ça deDeos , & o mefmo 
Deos-.voíTo, porque vos 
vendeftcs ao demónio pa- 
ra o acquirir , & poíFuir, 
fem vos poder arrancar 
deita continuada,& efcan- 
daloíà poíTe nem o refpei- 
todajuíliça Eccíeíiaílica, 
nem as ameaças da divina, herdeiro do Reyno ? Pórq 
nem o amor doCeo , nem tal he a força, & vehemen- 
o temor do Inferno: voííb cia do arfe£to humano, 
cniíim > porque nem na quando he grande. Fode 

Gg ij dei- 



matrimonio, fe cafou com 
a meíma Berfabè: Introdu^ 
xit eamin domumfuamy ér 
faãa eft eiuxor : & di/pli- ^ Rcg: 
cuit verbum hoc qtwdfece- ^^-^7^ 
rat ^avid coram^Domino. 
Poisfe David fe arrepen- 
deo,deteftoUj&: chorou ca- 
to aqueíle adultério 5 por- 
que fe cafou com a mefma 
occafia5,&: caufade!le,êc 
naó apartou de fy a Berfa- 
bè atè a morte, antes por 
fer feu filho Salamaó, o fez 






U'.., 



fiil 



*'::iil 



,f 



4<58 Sermão napgnnda feira 

deixar o peccado, mas naó quanto pelo juftojuizo, 6c 



pode deixar o amor. O 
peccad ) durou menos de 
húanno,o amorperfeve- 
rouatè a morte. Toda a 
prudência, 6c ventura de 
David eíteve em faber, & 



cafligo de Deos, que aílim 
o permite ; nem o peccado 
habitual fe aparta do pec- 
cador,nemopeccador do 
peccado,renaó mediante a 
morte ; & poriíTo todos 



poder apartar o peccado morrem geralméte no Teu 
doamorpormeyo doma- pecc2.do: Et inpeccatove' 



trimonio j porq fe elle naó 
apartara o peccado do a- 
nior, aílim como morreo 
com o amor, aílim avia de 
morrer có o peccado. Ifto 
heo que acontece a todos 
os homens q naó fazem o 
mefmoj&em todos os pec- 
cados,nos quaes fe naó pò - 
de fazer. Náo ha melhor 
exemplo, nc mais própria 
femelhança para explicar 
oinfeparavel perigo do 
morrer cm peccado, que o 
cafa mento. O cafa meto he 
hum contrato,q de fua na- 
tureza dura atè a morte,né 
antes delia pôde aver fe* 



firo moriem'mi. 

409 F^, Aydeti mife- 
ravel homem, que fe apar- 
tou Deos de ti , Ego vado : 
^^, Ayde ti infelice ho- 
mem, que naó achafte a 
Deos, ainda que o buíca- 
{\:e,Etqu£retísme: Va, Kj 
de ti mofino , & maldito 
homem, que porque nam 
trataíleda falvaçáo na vi- 
da , a perderas para todas 
as eternidades na morte: 
Etinpeccato vefiro morte- 
w/'»/ ! Homens , fe temos 
ufoderazaó ;Chrifl:ãos,fc 
ainda naòeftà apagado de 
todo cm nòs o lume da Fèj 



paraçaódosqo contrahê. reparemos bem, & coníl 
Tal heo jugo infeparavel deremos neílas três clau 



a q eílaó fo^^eitos os q vive 
caiados có o fcu peccado. 
Aindaqíè quciraó apar- 
tarjtanto pelo coftume in- 
veterado que fe temcon- 
vertiçío em neceífidade, 



fulas tremendas da fenten- 
çadeChriílo. E fc quere- 
mos fegurar a vida , &• fau- 
dc eterna, naó guardemos 
o arrependimento para a 
mortcncm a emenda para 
aen- 



MH» 



"^r 



depoís da fecunda "Dominga da §^tarefma. 4 í5p 
«nfermidade. Masfehua, guros. Age pantt enfiam^ 
^ outra couía fizermos de 
todo coração na vida,& na 
faiide,a enfermidade , & a 
morte , como conclue S. 
Ambrofio,nos acharáó fe- 



dumfanus es : fi enim agis 
fanitentiam dumfanus es^ 
& invenerit te novijjimus 
diesyfecurus es. 



í<^ .S«g^ -fcç^í í^- ?^ ■i<5«' c<5^' im- í*3--í^' eí«-Ç*? •f^a-Çíí^ •&S8-&9W ■'t^- -g^- •E*J'í^' 



SERM AM 



DA RESURREYÇ AM 

DE CHRISTO SN. 



Valdè mane unafabbatorum^ veninnt admonumeiítum^ 
^rtojamSok. Marc.id, 




§. I. 

Uem mais ama, 
mais madruga. 
Aflim o fez ne- 
fía menháa o di- 
vino amante Chrifto,con- 
tinuando os deívelos do 
íbu amor : & aíllm o deve- 
mos nòs fazer todos os 
dias,para naó faltar às cor;; 
Tom. 8. 



refpondencias do noíTo. 
Neílas duas palavras te- 
nho propofto tudo o que 
hei de dizer. E porque naó 
hei de dizer graças , peça- 
mos a graça Avt Maria. 

^ IL 

411 /^^ Uém mais ama, 

V^ mais madruga. 

Gg iij O 






!ll 



,f 






Flato. 



470 SermaSda 

Oamornace nos olhos, & mendo > ôcnaóde friol E 



quem o pintou có os olhos 
tapados,dev'ia de fer cego. 
^iTii^ amor quando muito 
fera o pintado, o amor vi- 
vo, & o verdadeiro femprc 
eíià com os olhos abertos, 
porq íempre vela. Quem 
tirouo veo ao amor, eífe 
Ihedefcobrioacara , por- 
que o moílrou defvclaao. 
Naó me eftrani: eis o equi- 
voco,que cm menháa tão 
alegre, 5c tão fefl:iv3,atè os 
Evangeliíiasoufáraój co- 
mo logo vereis. Torno a 
dizer, que he grande ma- 
drugador o amor, porque 
^quem tem cuidados , nam 
dorme. AFiloíbíia deíle 
porque náohe menos que 
dePlataó,aquem chama- 
rão o divino. Inquieta res 
esfamor-. pariím diligis^fi 
mtiltum qujefces\0 amor he 
hum efpirito fempre in- 
quieto , & quem aquieta 
muito , final he que ama 
pouco. Viftes algum hora 
quieta, ou ardendo na ce- 
ra , ou em outra matéria 
meni>s branda húa labare- 
da de fogo. í' Jamais. Scm- 
preeftà inquieta , fempre 
feia49C,çgar , fexnpre tre- 



porque o amor nam fabe 
aquietar, por iíTo não pô- 
de dormir. Tal vez ador- 
mecerão os fentidos, mas o 
amor fempre vela, porque 
fempre lhe faz fentintlla o 
coração: Egodorinto^ &^ 
cor mmm njtgilatWw m dos '" 
mais infignes amadores 
do mundo foy Jacob. E 
q dizia efte fam>ofo ama- 
dor ? Fíigíebat fomnus aí/^[ 
ocultsmeis. Diz que fugia - 
dosfeusolhos o fono. A 
cara panha em que o amor,, 
&o fono fe daò as bata- 
lhas, faó os olhos , '& nos 
olhos dejacob eftavatam 
coftumado o amor a fer 
vencedor , & o fono a fer 
vencido, que naó fe atre- 
via o fono a ihc acometer 
os olhos 5 antes fugia del- 
\tS'.Fígjehat fomnus ab ocn^ 
lísmejs. F. comoomayor 
defpertador dos sétidos,6c 
dos cuidados he o amor, 
cujas azas , & as do defejo 
voaómaisqueas do tem- 
po j daqui vem que para 
qué efpera pela menháa , 
as Eílrellas faó y^garofas, 
os gallos mudos, as horas 
eternas, a noite naó acaba 
.ô.m • . de 



Refurreiça o de Chrifto S. M, ^yt 

de acabar , & por iííb, co do lugar , perfeverou nel- 
mo dizia, quem mais a ma, le? Muito melhor argu- 
mais madruga. mento •, porque quem fó 

412 Madrugarão hoje perfeverou depois de to- 
todasas Marias a ungir na dos, he final que antes de 



fepulturao fagrado corpo 
& qual madrugou mais ? 
Para mim he confequen- 
cia certa, que a Magdale- 
na. A Magdalenaamava 
mais q todas, logo a Mag- 
dalena madrugou mais q 
todas. E donde tiraremos 
a prova ? Por ventura,por- 
que todos os Evangeliftas 
nomeaò aMagdalenaem 
primeiro lugar, & S Joaò 
fóaella.? Seja embora có- 



fejou , & fe defvelou mais 
que todos. Mas a prova 
para mim mais evidente, 
hefer a Magdalena a pri- 
meira a quem o Senhor 
apareceo : Apparuit primo 
MarU Magdalene, PaíTe- ^^et 
mos das Marias aos Apo- 
ftolos. Aos outros Apo- 
ftolos apareceo o Senhor 
nomefmodia de hoje, & 
íó a S.Thomè daqui a oito 
dias : Tuft dies o6io. E por- 



jedlura provável. Por vê- quc.^Porque S.Thomè tar 
tura,porquefó da Magda- dou oito dias em vir: & 
Icna íe diz que chorou : 
Stabatad monumentumfo- 
r ís porans^ Melhor r^LZzós 
porque o madrugar , & o 
chorar he próprio da au- 
rora: & nem o nome de au- 
rora perderia na Magda- 
lena a fermofura, nem as 
fuás pérolas o preço. Por 
ventura , porque tornan- 
dofe as outras Marias quá- 
do naó acháraó no fepul- 
chroocorpo que hiaó un- 
gir, fó a Magdalena fem 



aílimcomo Chrifto tarda 
mais para quem mais tar- 
da , aílim madruga mais 
para quem mais madruga. 
Anticipoufe Chrifto a 
bufcar primeiro que to- 
dos a Magdalena , porque 
a Magdalena fe anticipou, 
& madrugou maisq todos 
em bufcar a Chrifto :ella 
foy a primeira em amar, 
porque fô delia faz men- 
ção o A mado:& porque fò 
elia choroti fem lhe enxu- 




IStv 



feapartardaquelle fagca^^ garaslagiimas a viftados 

Au- 



Y" 



''^^' 



>B^-A^«>' 




4/1 ^^ Sermão da 

Anjos : & ^porque fó ella noite-,na6 he muito que ao 

perfev^erou firme fem fe outrociia,quádoo Sol aií- 



apartar do fepulchro : & 
porque foy a primeira em 
amar, também foy a pri- 
meira em madrugar, pro- 
vando como aurora do Sol 
dejuíliça, que quem mai^ 
ama, mais madruga. Mas 
vamos ao noíToThema, 



da jà pelos valles,&os ma- 
ridos menos diligentes ef- 
taó defpachando nos Trr- 
bunaes, feja ainda para as 
horas do feu defcáfo mui- 
to de madrugada , Valde 
mane. Os outros Evange- 
liílas ainda apertão mais a 



ondeosembargos que cê duvida do Texto j porque 
omefmoSol,nos daráó a dizem exprefi-àraéte : CV/w ^^ 



melhor prova. 

§• Kl. 



\jr Alde mane una 



4^3 .. 

fabbatorum^ ve- 

niuntad monumentumi ortv 
jam Sole. Diz o Texto, que 
as Marias foraó ao fepul- 
chro muito de madrugada, 
íèndojàoSolfahido. Pois 
fe era o Sol fahido , Orto 
jicim Soky como era muito 
de madrugada, Valdè ma- 
ne^ St a Magda lena, &r as 
outras Donas da fua com- 
panhia foraó como as Se- 
nhoras da noíTa Corte,que 
atroando com as rodas das 
carroças asruas,defempc- 
drando as calçadas , & 
acordando a viíinhança,fQ 
íiccolhem a cafa à meya 



adhuctenebra effent , que 
ainda duravaó astrevas,6C' 
efcuridade da noite. Pois 
fe a noite eílava ainda em- 
feu fcrjSc o efcuro tao cer- 
rado, que naó fô merecia 
nome de fombras,fenáo de 
trevas, como era jà nacido 
o Sol, Orto jam Sole > Aqui 
jugou do vocábulo o Evá- 
geliíla,&ufou o equivoco 
que eu dizia O Sol a que 
alludio, naóerao que ain- 
da naó tinha aparecido na 
Oriente, mas o que jà ti- 
nha refufcitado do fepul- 
chro. Como fe diífera: Vi e- 
raó as Marias ao fepulchro 
taó de madrugada.q ainda 
perfeveravaó , ou prevale- 
ciaó as trevas, fe bem o Sol 
jà era nacido, Ortojam.So' 
ky porque Chriíto jà eca. 



'^TTi;''^ 



Refurreiçao de Chttflo S, N. 4.7 ] 

rerufcítado. Openfamea- ouvecquivoco, fenao me 



to naó he meu, mas noíTo 
AíTim encendeo que fe po- 
dia entender o Texco íice- 
ralmenceodoucillimoCo- 
niencador da Concórdia 
Evangélica o venerável 
Padre Barradas. Mas antes 
que eu o confirme , quero 
tirar aos criticosa efcru- 
pulo do equivoco ^ & naó 
em outra occafiaó , nem 
emouÊfO dia , fenaó no 
mefeo da Refurreiçao de 
Cfarifto. ^ 

4.14 Aquellas famofas 
palavrasdo Fíalra o tercei- 
ro ; E^o^ dormmh&fjpota' 
tus fumi& extirrexi i todos 
os Santos, & Expoíitores 
as entendem fcm difcre- 
pancia da morte,& Refur- 
reiçao de Chnfta O dor- 
jji ! r íoj. o m or rer, o acor- 
dar foy o refuícitar : & diz 
o Senhor que elí e dormio, 
&relle acordou V porque o 
inorrer,& o refufcicar tu- 
do Foy por fua vontade, & 
tudoeitava na fua maò > 
Gomoemvida , 6c muito 
antes o tiaha jà dito : Ego 
potefiatem habeo fonendi 
animam meam , & tterum 
Jnmmdieam^ Atèqui naó 



taFora mui u fada na Efe ri- 
tura,emqueo dormir fig- 
nifíeaamorte , &: o acor- 
dar a refurreiçao. Vai por 
diante o mefmo Senhor,8c 
diz aíTim fallando com 
Deos. §mnmm tupercujji' 
fiiomnes adverf adites mihí'^^^^'^' 
fine caufa , dentes peccato^ ^' ' • 
rumcontrivífli. Emíim,vê^ 
ci,íSc triunfei de meus ini- 
migos 3 porque a todos os 
que me perfeguiaó fem 
caufa , vòs lhes quebraíles 
os dentes. NotaveU & ex- 
traordinária Frafeí E por- 
que naó diz , Vòs caftiga- 
ítcb, vòs conFundiííes, vòs 
deftruiftesjfenaó, Vòs que- 
brares os dentes a rodos 
os que me períeguiaó íem 
eau (a ? A quí eílà o jogo d^ 
vocábulo, & o equivoca 
dífcretiíilmo. A palavra:yí- 
m caíd/a,n^\ingu3. Hebrea, 
em que fállou o Profeta, 
tem duas frgnificaçoens: 
quer dizer, fem. caufa , & 
quer dizer,com a queixa- 
da: Adverjantcs mihi fine 
Cãufu y adverfantes mihi 
mãxillã: Ij. comoosinimí- 
gMjs de Chriílo na fua pay- 
xaò grirando 3 Cniàfigey 
cm* 



^ 



Sermão da 
5 o perfeguírsõ da fua Refurrciçaó 



Pialm, 
2x17. 



474-. 

crucifige 
fem cauía^como innocen- 
tej&omcidéraó com as 
queixadas , como caens, 
Circu7idederunt me canes 
multi % por iíTo ufando o 
Profeta galantemenre do 
equivoco, diz aos mefmos 
inimigos : Se vos o morde- 
líes com as queixadas, elle 
vos quebrou os dentes : 
bentes peccãtoriirn contn- 
*vifti. E íe a frafe parecer 
menos authorizada , & o 
equivoco menos grave pa- 
ra a arpa de David , como 
era dia da Refurreiçaóitu- 
doogalante, & feítivoca- 
bía nella. Mas naó eílà 
aqui o reparo. Todas eítas 
palavras naó as pronun- 
<íioU)iDu cantou David co- 
mo fuás, íenaó que as poz 
na boca do mefmo C hri- 
fto. Ego dormivi^&foporã- 
tusfum^Ò' cxurrexj Ç notai 
o Ego 3 • p^<^i'.ffift^ omnes 
adver [antes mihijine caufa^ 
(^ notai o mihi dentes pec - 
catorum contrivifti. Pois o 
mefmo Chrifto com toda 
a fua finceridade, & mage- 
ílade ufa daquelle equivo- 
co ? Sim, &: outra vez fim. 
Porque era o dia, & a feita 



Tudo 

naquelle alegre dia foraó 
equiv^ocos. No caminho 
de íLmaiís para alegrar a 
triílezadosdous Difcipu- 
los,equivocoufe o Senhor 
em peregrino ; junto ao 
feu mefmo fepulchro,para 
enxugar as lagrimas da 
Magdalena, equivocoufe 
em hortelão: &: quem nos 
disfarces daquelle fermo- 
fo dia equivocou duas ve- 
zes a PeíToa, que muito 
he que na profecia de Da- 
vid equivoca íTe húa vez 
as palavras.^ Equivocou© 
Profeta, equivocou o meí^ 
moChrífrOjckonoííbEvá- 
geliíla também equivo- 
cou, & por ventura mais 
altamente que o mefmo 
Senhor, porque o equivo- 
cou com o Sol : Ortojam 
Sole. 

41 5" Agora entra a mi- 
nha confirmação do mef- 
mo equivoco do Evange- 
liíla. Diz que indo as Ma- 
nas ao fepulchro era mui- 
to de madrugada, & que o 
Sol iàera nacido , enten- 
dendo por So[ nacido a 
Chriftorefufcitado:&fal- 
lou naó fô muito difcrera- 
mencci 



V 



Refurreiçaõ de Chriflo S.K. 
mente , mas com grande começou mais 
propriedade 5 porque o 
dia dePaíchoa ceve dous 
princípios , duas madru- 
gadas, duas mcnhãas > ^ 
dous Soes que o fizeraó. 
Provo com as vozes de to- 
da a igreja hoje. Hac dks 
quam fecit T>ormnus : E íle 
he o dia que fez o Senhor. 
Os dias todos na(3 os faz o 
Sol natural ? Sim : mas eíle 



dia naó fo o fez o Sai natu- 
ral, fenáo. cambem o Se- 
nhor do mcfmo Sol. Vvci 
quanto fez efte dia o Sol, 
começou mais tarde: em 
.quanto o fez o Senhor» co- 
-mecou mais cedo. Eeíia 



47 f 
cedo o dia 
que fez o Sen hofjO m cfm o 
A u t ho r q u e d i Oe, Hac dies 
quam fecit T>o'mmus^ feja o 
Comentador do íeu Tex- 
to. Exhorta nefte mefmo 
dia o Profeta Rey-jou pede 
iniiante mente a Chriílo 
que refuícite , dizendo : 
Exurge gloria mea^ exurge'^^^^- 
^'falterium-,ér cithara : 5c^ "^' 
refpédfeo o Senhor : Exurm 
gam diluvulo : E u reíu fcita- 
rei de madrugada. De ma- 
drugada.^' Logo quando o 
Sol fahiono Oriente, jà o 
Senhor tinha fahido do 
feuoccafo j porque o Sol 
nunca madruga : quando- 



;p';- 



fódiíferença he a que dei- fae, jàhe dia: logo primei- 
araonò,que tanto aperta- ro fez eíle dia o Senhor, 

do que o fizeííe o Sol. Mas 
porque naó pareça futile- 
za,& todos vejáo quanto 
primeiro , & quanto mais 
cedo foy, recorramos à le- 
tra original. Onde a verfaò 
latina diz , /' xurgam dilu- 
cuío , Refufcitarei dema- 



va a duvida. Como o dia 
que fez o Sol começou 
mais tai de, quando as Ma- 
liasvieraó ao íepulchro, 
era muito de madrugada,, 
Valdemãne : mas como o- 
rnefmodiaquefez o Se* 
nhor começou mais cedo, 



quandoasmeímas Marias drugada , o Original He- 
vieraójerajàoSolnacido, breotem, Exatabo ãura- 



Ortojam Sole. Ort ajam So^ 
ky idfi^ Cbriftú, diz a GJo- 
falnterlineal. E paraque 
eonílequando^ac quanto 



ram: Defpertareiaaurorai 
E que quer dizer, Defper- 
tarei a aurora ? Náo ícpo- 
dera.melhor declarar,neni 



mais 






47^ Sermã 

mais profética , ou mais 
poeticamente. Os Poetas 
dizem que a aurora he a 
defpertadora do Sol , §c 
Daviddiz jqueoSenhor 
hojefoy odefpertador da 
aurora. De forte que ma- 
drugou Chrifl-o hoje tan- 
to antes da madrugada, 
qquando jà era refufcita- 
dojaindaaaurora dormia^ 
&ellefoyo que a defper- 
tou para que ella fe levan- 
taíre,& foíle correr as cor- 
tinas ao Sol : Excitabo au- 
roram. 
416 Pondeme agora no 
mefmodia > ou na mefma 
madrugada dous Soes, hú 
dormindo, outro acorda- 
do : hum envolto ainda 
nas fombras da noite, Curn 
adhuc tenebr£ejjents & ou- 
tro faindo da fepultura, &: 
tirando também delia a 
fuaMây(^ queeliefoyo 
pfalterio,&:ellaa cithara, 
& ambos gloria de David, 
como pay de ambos: Ex- 
urge gloria mea^exurge pfal- 
terium-iO- cithara j relpoií- 
dendo em tudo a antiga 
rfiim.., figura \ Surge 'Dominem 
»3'-^- requiemtuam^tUy & arca 
Janãijicationis tua. } E có 



eftes dous Soes , hum jà 
defcuberto à Fè , outro 
ainda occultoà viíla , ve- 
reis naó fó tres,fenaó qua- 
tro Marias : três à porta do 
íepulchro muito de ma- 
drugada, Valie mane i & 
húa muito longe do mef- 
mofepulchro, com o^ol 1 
que delia naceo , nacido 
outra vez nos braços, Orto 
jamSole. E fe perguntar- 
mos às mefmas Marias, 
porque madrugou o Sol - 
mais que ellas •, claro eftà 
que naó podem deixar de 
r€fponder,que porq quem 
mais madruga , mais ama. 
Elias amáraó muito, pois 
fugindo os Apoftolos, naó 
fugíraô,antes acompanha- 
rão a feu Meftre no Calvá- 
rio conll:antes,& fieis até a 
morte : mas como ç\\q 
morreodeamor , ^ ellas 
ainda íicáiaó vivas , ellas 
como menos amantes ma- 
drugarão menos , & elie 
como mais amorofo, ma- 
drugou màib'.Ortojdm òo- 
le. 

í. IV. 

417 A EinprefadeChri- 

xVito na fuaKeíur- 

reiçáo 



«PP 



w. 



Refurreiçao de Chrlflo S. N. \j7 

feição Foy húa aurora não la os alumiou , & alegrou 



coroada jà de rofas 5 mas 
veílida ainda de fombras, 
&: a letra a mefma có que o 
Evangeliíla começou a 



nam fó com fua viíla,mas 
com a da Divindade a que 
eílavaunidaa mefma Al- 
ma )OS fez bemaventura- 



narraçaó do feu a mor: An- dos defde aquelle inftante 
tediem. E para que veja- para toda a eternidade. E 



mos praticamente com os 
olhos o que atègora ouvi- 
mos ao difcurfo ; façamos 
também noífa romaria ao 
fepulchro , & veremos o 
diuino>& humano Sol tão 



da maneira que o mcfmo 
Sol natural,depois de dar 
volta ao Emisferiooppo- 
ílo, toma a renacer neítc 
noíTo claro, refplandecen- 
te, 6c coroado de rayos,en- 



madrugador quando fe- xugando as lagrimas da 
pultado no feu occafo , co- 
mo quando rcnafcido no 
fcu oriente. O Sol que co- 
mo coração do Ceo , ain- 
da quando todos dormem, 
fempre vigia , naqueile 
mefmo momento em que 
defapareceanoffos olhos, 
de nenhum modo pára, 
mas continuando com a 
mefma velocidade a fua 
carreira, vai viíitar, & alu 



aurora, reílituindo a cor , 
& fermofura aos campos, 
defpercãdoas muíicasdas 
aves, dourando os Ceos,& 
alegrando a terra } aílim 
também o Senhor nefte 
fermofo dia. Anoitecera 
no occidente do feu fepul- 
chro amortalhado em nu- 
vens funeftas , deixando 
todo o mundo às efcuras 
na trifteza de fua Payxaó 5 



miar os Antipodas ; aífim voltando porém a eíla ho- 
çfcódidoocorpodeChri- ravivo,& fermofiílimo. 



ílo debaixo da terra,deceo 
a fua Alma gloriofa ao 
Limbo dos Santos Padres, 
que avia muitos feculo3,8c 
ainda milhares de annos 
cfperavão às efcuras a- 
quella ditofa hora, & nel-- 



amanheceo outra vez no 
oriente do feu mefm-o oc- 
cafo : & enchendo o Ceo, 
& a terra de nova luz, & 
refplãdoresdc gloria, pri- 
meiro que tudo enxugou 
as lagrimas daquella auro- 



i 1 1 
ir, ;' 

ir" 



.f 



47^ Sermaõ da 

ra divina , que trefpaírada lando Chriílo Senhor nof- 



da efpada de Simeaó , co- 
mo morta o acompanha- 
va, & como viva o chorava 
na repultura;logo reftituio 
a cor,& a termofura a fua 
Igrcja> mudando os lutos, 
dequeeítava coberta, em 
cores, 6c gajas de feita: tro- 
cou as la^ínentaçoens em 
muficasalegreSj&osHeus 
faudofos, & fen tidos em 
Alleluyas: dourou, ficef- 



fo de fua morte, fepultura, ^ 
&refurreiçáo,diz que af- \ 
fim comojonas eíleve três 
dias,& três noites no ven- 
tre da BaleajaíH m elle avia 
de eftar três dias , & três 
noites morto debaixo da 
terra. Òicut enimjtút lonas Mar 
m víntre cetitribus dkbus , ' " ' 
&tríbus no6IibuS'y fic ertt 
Filius hofninis in cor de ter^ 
ra tnbus diebus , ér tribtis 



clareceoosCeos,quepor noãtbus. Lancemos agora 
iíTo aparecerão os Anjos a conta ao tempo em que 



veílidosdeneve, & ouro: 
renovouj& transfigurou a 
terra, convertendo as En- 
doenças em Pafchoas,ofí- 
lenciomudoem repiques, 
osrormaninhos em flores, 
as trevas , & eclypfes em 
luzes, a trifteza ,emfim,& 
malenconia deíles dias 
nos parabéns, & alegria 
deílamenhãa. 

418 Mas porque a me- 
nhãa, &o dia podéra naõ 
fereílcantes parece que 
tinha obrigação de onam 
ferjlancemoslhe bem as 
contas , & veremos hora 
por hora quanto madru- 
gou o noíTo Sol , & quanto 
O defvelou o feu amor.Fal- 



Chriíloeílevena fcpuiru- 
ra,& bufquemos eílestres 
diasj&eftastrcs noites. A 
hora em que o Senhor foy 
fepultadoj foy fexta feira 
às cinco da tarde , &: para 
eftar três dias, & três noi- 
tes debaixo da terra, naõ 
avia de refufcitatjnem fair 
da fepultura neíla me- 
nháa,né nefte dia de Do- 
mingo,fenáo à menháa fe- 
gunda feira ás cinco horas 
também da tarde. Pois fe 
naóefteve na fepultura o 
dia de hoje, nem o dia de 
àmenhãajnema noite en- 
tre hum, &: outro dia , co- 
mo efteve três dias , & três 
noites debaixo da terra: 
Tri' 






^r^r^:"^' . 



RefurreiçaÕ de Chrip S. N. 47? 

Tribusdlehus , & trtbiis no- fem as novas da Refuri ei- 
62 ãihiisincorde terr£ ? Eu- çaÓ aos Difcipulos, &: que 
'^^- chy mio Padre muito anti- lhes fizeífem a faber que o 
""■^oA-srave , difcipulode Senhor iria efperar porei- 
S íoaò Chryfoftomo,diz, les a Galilea,& que lá o va- 
que eila profecia de Chri- rião. "Dmte "Dtfctpults u.m\ 
Ito naò foy abíoluta, fenaÓ ejus,& Tetro , qma furre- ^^7-^,^ 
condicional , & que aíTim xitA &eccepr acedei vos m 16.7, 
como Deos mandou pro- GaliUam, ih eum vtdebtr 
fetizara ElRey Ezechias, tis. Atèquiíaõ palavras de 
que avia de morrer ao ou- S.Matheus ,ScS. Marcos, 

^ ■■ àsquaes S. Matheusacre- 

centa : Eccepradixi vobis : 
6c S. Marcos : Stmt dixit 
<vobts. De forte que eílas 
mefmas palavras contém 






trodia,& depois lhe alar' 
gouo tempo da vidajaílim 
Chriílo profetizou que 
avia de eílar três dias, & 
MTts noites fepultado • & 



depois ellreitou por amor duas predi.oens , ou duas 
deíyj&denòso tempo da profecias :húa do Anjo as 
fepúlcura: coinofediíTera Marias naquella )\of^:Ecr 
o Senhor : Eu tenho deter- cepradixi vobis •, & outra 
minado de eílar na fepui- deChrifto aos Apoftolos 
tura três dias , 6c tresnoi- muito antes : Stcut àixtt 
tts i mas fe o meu amor vobis, Efta profecia de 
íiaófe atrever a efperar Chriílofoyquádona mef- 
tanto, entaó abreviarei ef- ma noite da Payxão lhes 
fc tempo. E poílo que eíla declarou o Senhor^que to- 
opinião( ou efte penfa- dos o aviaô de deíemparar 



mento} não feja recebida 
dos Theo'ogo3, na mefma 
hiíloria deite dia temos 
hum notável excplo, que 
parece a c6';rma não pou 



na morte, mas que depois 
de refu feita do iria efperar 
porellesa Galilea ; Tofi- ^^^^^.^ 
quam autem r€Jurrexerõ^i.i,^^i., 
fracedamvosin GaliUam. 



CO. Qti^ando o Anjo apare« lílo he o que então predil- 

ceo às Marias no fepul- {c Chn{\o : Skní dixit vo- 
chro , diílelhes que levaf- bis : & iílo o que hoje pre- 

di0e 



'4^0 ^ Sermaõdd 

ái^Q o An]0'. Eccepradixi acomodoufe o ben^niíTi- 



oohis.^.(\\.\c\\t o que ne- 
íle mefmo dia fuccedeo 
depois deílas duas predi- 
çoens ? O que fuccedeo 
foy, queChriílo naó paf* 
fou a Gaiilea , mas ficou 
jia mefma Jerufaiem , & 
alli apareceo reíufcitado 
aos Apoílolosjosquaes o 
viraó no Cenáculo, onde 
cílavaò efcondidos. Pois 



mo Senhor à fraqueza do 
feu temorj& naó foy a Ga- 
iilea, porque elles naó fo- 
raó,& ficou em Jerufaiem, 
porque elles ficáraó,& dif- 
penfou que o viíTem em 
jerufaiem, porque naóef- 
peraííem para o ver em 
Gaiilea. Logo fc o temor 
dosApoítolos foybafian- 
tecaufapara o Senhor fc 



fe o Senhor por fy mefmo, deter emjerufalem,&an- 

ticiparorempo da fuavi- 
íla 5 porque naò feria caufa 
também baílante o fcu 
amor para fe naó deter na 
fepultura , & anticipar o 
tempo da fuaRefurreiçáo? 
Afiim como tinha predito 
que eílaria na fepultura 
três dias,& três noitesj af- 



Scpor hum Anjo tinha di- 
to que iria diante a Gali- 
leaj&que là o veriaó os 
Apofi:olos,como naó foy a 
Gaiilea, mas ficou emje- 
rufa]em,5c em Jerufaiem 
o viraó? A razaóhe, ref- 
pondem literalmente to- 
dos os Expofitores 5 por- 



tq afiim como cftava predi- fim tinha predito que írix 

to,& profetizado, aííim ti- diante a Gaiilea, &quelà 

nha Chrifto determinado o veriaó Pedro , &os de- 

que foífe: poremos Apo- mais: logo fe foy fufíicien- 

ilolospelo mefmo temor te motivo para anticipar o 



com que eftavaó efcondi- 
dos, naô fe atreverão a fair 
do Cenáculo, &paírar a 
Gaiilea. E porque cfte te- 
mor naó foife caufa de os 
triílcs, & teraerofos Difci- 
pulos carecerem da viíla 
de feu Medre refufcitado-, 



tempo,& lugar da fua vi- 
íla o acudira frieza do te- 
mor dos Difcipulos i mui- 
to mayorrazaó , & muito 
mais urgente parece que 
era para anticipar os dias, 
& noites de fua fepultura, 
acudir ás ancivis do feu 
amor. 



mmmm 



rmy 



Rejurreiçaode 
amor. Digamos pois que 
madrugou o noílb Sol naó 
fó antes do principio do 
dia, fenao também antes 
do fim antes do fim do 
dia , anticipando os cre- 
pufculos da carde para en- 
trar, como entrou , pelo 
Cenáculo com as portas 
cerradas -, & antes do prin- 
cipio do dia, para faira co- 
mo fahio , da fepultura, 
também náo efperádo que 
as portas fe abriíícm em 
húa, & outra madrugada: 

"^* Cum for PS effent clauf<e, 
419 Mas poíio que a 
paridade em hum , & ou- 
tro cafo pareça ter igual , 
nem por iílõ he adm itida a 
confequencia •, porque,co- 
mo grave , & folidamente 
refpode o doutiílimo Mal- 

,, donado:Quemfazmaisdo 

lido- "*<-• ^ r 1 V 

cm que promete , nao ralta a 
ítth^ verdadej quem faz menos, 
íim. Manifeílarfe Chriílo 
aos Apoftolos em Jcrufa- 
lem, tendo prometido, & 
proferi zado que o faria em 
Galilea, como depois fez, 
nao foy faltar à verdade da 
profecia , &: da promeíTa , 
íenaò fazer mais do que ti- 
nha profetizado , ôc pro« 
Tom.8. 



ChriftoS.N. '481 

metido Porém tendo pro- 
fetizado,&:prometido que 
avia de eftar debaixo da 
terra três dias, & três noi- 
tes , fe naò cíliveíTe três 
dias, & três noites na fe- 
pultura, faltaria à fua pa- 
lavra, à verdade da profe- 
cia , Scà verdade da pro- 
meíTa 5 o que de nenhum 
modo podia fer. Mas fe de 
nenhum modo podia fer, 
de que modo foy? De que 
modo fe verifica que efti- 
veíTeChrilto na fepultura 
três dias, 8c três noites ? A- 
qui coníiíle o ponto da 
diííiculdade,que agora de- 
clararei. Daime arençaó: 
& vereis como nefte cafa 
parece que contenderão 
no coração de Chriíto a. 
verdade, & o amor , &a 
ambos facisfezexadla me- 
te na fuavigilátiífima ma- 
drugada. Jà vimos q Chri- 
fbofoyfepukado às cinca 
horas da fexra feira à tar- 
de, ôc r e íu fc i tou às qu atro 
pouco mais, ou menos da 
menháa do Domingo: Ôc 
contandofe neíte tempo 
apenas trinta 8c fejs horas, 
de tal modo, &: com t2.h 
arte asrepar tio o amor, (| 
Hh coi^» 



/í 



482 

coubéraô nelías 
deiramente três dias , Sc 
três noites. Era o Equinoc- 
cio de Março, em que o 
Sol íc põem às féis horas ; 
^raíllm como das cinco 
horas de fexta feira atè fe 
poro Sol temos o primei- 
ro dia, aíTim do Sol poílo 
atè a meya noite da mefma 
fexta Feira temos a primeis 
ra noite. Seguem íb vinte 
&qua:ro horas da meya 
noite da fexca feira atè a 
meya noite do fabbado, & 
temos hum dia inteiro de 
doze horas, & hiia noite 
tam b e m i n te i ra de ou tra s 
doze , que he o fegundo 
diaj&afegundanoite: da 
meya noite do fabbado atè 
as quatro horas do Do- 
mingo, em quanto dura- 
vaó as trevas , Sc o efcuro , 
temos a terceira noite, Sc 
tanto que começou a. aíTo- 



Serm^da 
Vcrda- dosnoíTos. No principio 
do mundo, dizaEícritura 
fagrada , que tanto que 
Deos criou a primeira luz, 
a dividio das trevas,& que 
à luz chamou dia,& às tre^ 
vas noite : T)iviftt Incem k^^, 
tenebris : appellavitque lu-i 4 
cemdiem^é^tenebras noõiê. 
Eomefmo eftilo guardou- 
Chriíto com o primeiro 
crepuÍGulodefte dia , an- 
dando taó efcrupulofo cã 
a fua verdade , como libe- - 
ral com ofeuamor. O pri- 
meiro crepufculo do dia 
hehum compoílo de cla- 
roy&efcuro;maso efcuro 
muito, & o claro pouco : & 
aeíTe muito efcuro , em 
quanto propriamente fo* 
raó trevas , contou o Se- 
nhorpor noite, &:ao pou- 
co claro, como jà era luz, 
poíto que muito efcaíía, 
contou o por dia: Appella^ 



mar a primeira claridade , vitque Incem diem , ò tene 
oitcrqjufculoda luz ,.que bra^snoBem. Aflim madru 



jà pertencia ao diafeguin- 
te, temos o terceiro dia. 
Aqui parece que eílà mais 
Gonfufoodiacom a noite, 
mas- dividio- os o Senhor 
pela: futil^za dos feu^ 
flQilhos,^naõ pela gtofleda. 



goupara abreviar fuaau- 
fencia o divino, & huma»' 
mfllmo amante de noífas 
almas, concordando de tak 
maneira a verdade de fua' 
promeíTacomas anciãs dor 
íeaamor , que para. verifi- 
car 



la^pHMM 






Refurretçaode OhrlHo S, N. 48 ^ 

car em trinta & íeis horas firo, fenaó IiCia parte de 



de fcpultura trcs dias , &: 
três noites-, as três noites 
fcllashúa de doze horas, 
©utra de feisjoutra de qua- 
tro :& os três dias,hum de 
doZe horas, outro de húa 
hora,& outro de menos de 
meya ♦, que iíTo foy nacer o 
Sol no primeiro crepufcu- 
lo da menhãa : Fa/éíè mane 
ortojam Sole. 

420 E fe ou ver algum 
incredulo,que fenaó con- 
tente com eíbe modo de 
contar, & cuide que para 
reverificarem os três dias, 
& as três noites da profe- 
cia, os dias aviaó de fer in- 
teiros, &■ as noites também 
inteiras, & naó parte de 
dias, & parte de noites-, 
aonde remeterei eu eíla 
incredulidade, íenam ao 
Credo? Credes que Chri- 
fto foy fep ulcado ? Sim : & 
com tudo ofepoltadonaõ 
foy todo Chriílo quanto 
à Humanidade, fenaó húa 
parte deChriíio^quebeo 
CO rpo.C redes que Chriíto 
deceo aos Infernos ? Sim : 
& comtudo o que deceo 
aos Infernos do mefmo 
inodonaôfoj todo Chri- 



Chriílo , que hca Alma. 
Logo também para que o 
Senhor eftiveíTc três dias, 
& três noites na fepultura, 
naó foy neceflTario que os 
dias foíTem inteiros, & as 
noites inteiras, mas baftou 
que foíTcm parte dos três 
dias,8c parte das três noi- 
tes. Ellaíigara, emquefe 
toma a parte pelo todo, 
chamafe Synedoche , taó 
frequente nos Authores fa- 
grados , comonor profa- 
nos. E para que o tem po de 
Chrifto na fepultura ref- 
ponda ao exemplo da hu- 
manidade do mefmoChri- 
fbo,fegundo húa parte no 
fepulchro, & fegundo ou- 
tra no inferno, affim fe ve- 
rificarão os três dias, Sc as 
três noites pontualmente 
emametade dotempojco- 
mo fe aviaó de verificar 
cm todo, feosdias,Scnoi^ 
ces foraó inteiras j porque 
três dias inteiros , & três 
noites inteiras fazem fe- 
tenta & duas horas , 8c os 
días,6t noites da feptiltura 
do Senhor foraó trinta & 
íeis,que ííC a metade de fe- 
te iita & du a s . yí Vífftrefe- 
Hh i; t)\iU 



'fi'::l 



Auguíl. 
in 4. de 
Trmi- 
tarc. 



D. Leo 
íèrm. 1 
deRe- 
furreft. 



4^4 Sermão da 

pultufíC ufque ad àtiuculum citado 
refurreãionis triginta fex 
hortefutt ^á^\z com a mef- 
ma conta S. Agoftinho.Fi- 
nalmenteparaaconclufaó 
de todo o computo, ouça- 
mos a S.Leaó Papa, &aS. 
Anfelmo. S. Leaòdizaf- 
fím : Nettirbatos difciptilo- 
riim ânimos longa maftittt- 
da cruciar et y demintiatam 
tridui moram tam mira ce- 
leritatebreviavit , ò* àtim 
ad integnimfecúdtim diem , 



madrugou neíla 
menháapor amor de nòs. 
A gora reíla fatis fazer à fe- 
gunda , & ver como nòs 
também devemos madru- 
gar,& quando , para nani 
faltará memoria ,& boa 
correfpondenciade tanto 
amor.Se as Marias madru- 
garão com tanta diligen- 
cia, fuppondo ao mefmo 
Senhor dormindo no fe- 
pulchro , & naó fabendo q 
tinha madrugado,nê cren- 



farspriminovijjima^é' pars do que ou veíle de acordar;. 
tertij prima concurrtt , & que deve fazer a noíTa Fè> 



ãíiquantulum temporisfpa- 
tiodeciderit^ ér mbildierií 
numero deper ir et, E S. An- 
felmo pelos mefmos ter- 
mos, í^rimus dies aparte 
extrema annumeravus cjt^ 



6c qual deve fer o cuidado 
do noíTo agradecimento ? , 
422 AÍIimcomooE- 
vangeliíla declarou a ma- 
drugada de Chriftocomo 
equivoco do Sol, Ortojam 
Sole-y^iWrcí me parece que 
ma. Sic er(r0 diei partem cíí o mcí ni oSenhor muito an- 
parte naãispro noãe^ & die tes íign líicou a das Maria a 
accipiensyhaks tridiium^é-' có o equ i voco das E ítrel- 

las. Paliando Deos com 
Job quando ainda dormia, 
ou jazia na fepultura do 
naó fer , &: arguindo aos q 
depois da fé, ^ memoria 
dell^a madrugada ainda ef- 
pcraó pelos rayos do Sol 
queosefperte , dizaílim: 
P'bierasckm me laudarent ^/, 
JimuL 



D An 

MaTth'" dies^verotertius a parte pn- 

eap. 1 2. 



tres noães. 



§• V. 

I T)Areceme que tê 
X íatisfeito o meu 
diícurfo à primeira parte 
do que prometeo, moftrã- 
éo quanto o Senhor refut 



4i^ 



Refurrelçao de Chrifto S. N. ^^í 

rimiiUílramatutina, áju^ mui ? Eu bem tomara que 
'òikrent omnes filij "Dei ? tiveíTe dito outrem o que 
Quando as Eltrçilas da agora direi: mas também 
mTdru^ada me louvavaÓ, entendo , que em toaa a 
& juntamente me feíleja- Efcritura fagrada/enao 



vaó alegres os filhos de 
Deosjonde efta vas tuPQue 
os chamados filhosdeDcos 
fejaó os Anjos, ninguém 
o duvida j mas naò carece 
de grande duvida quaes 



acharáó outras que fe pof- 
faó chamar Eftrellas da 
madrugada, &: nas quaes 
fe concordem todas as diF- 
fículdades que acabamos 
de propor, fenaó nas Ma- 



II Cl ^-^ 1 ci li vA Vr V*. V4 V XV*-** ^ v**^ *i**^ 1 1 __« 

fejaó as que o mefmo Se- rias,quecomo Eílrellas,& 
nhor chama Eílrellas da antes do Sol madrugarão 



hoje ao fepulchro deChri- 
fto. ÁíTim operfuadem a 
companhia,© tempo, o lu- 
gar, ofíome, &oappelli- 
do. A companhia j porque 
fó ellas concorrerão junta- 
mente com os Anjos V os 



madrugada , Ajiramatutu 
na. Soquem pôde dormir 
madruga. As Eílrellas to- 
da a noite v^giaò, & toda a 
noite eílaò louvando a 
Deos Tem poderê dormir 

jàmaisjcomodizomefmo _._- . ^ 

a 37 Job : Concentim Cdt quis quaes íó eílas viraó , & fò 
' dormir efactet ? Os Anjos com ellas falláraó , nam 
também nao dormemjque aparecendo , nem fallando 
por iííb em Daniel fe cha- aos Apotolos : o tempo ; 
maó vigias , & naõ fó< de porque fe ellas madrugáj 
dia, mas de noite louvaó 
também aDeos fem ceíTar. 
Mais. Os Anjos eítaó no 
Ceo Empireo, as Eílrellas 
no Firma meto, ou no oita- 



raó, também madrugarão 
os Anjos,qtirára6a gran- 
de pedra da repultura,& fe 
aíTentáraó nella , moííran^ 
do bem nas galas, & ref- 



vo Ceo, quehe húa áiM^ plandores o jubilo, c6 que 

ciaimmenfa Como logo feftejavaòaquella hora: o 

eftas Eílrellas da madru- lugar-,porque em nenhum 

gada louvavaÓ a Deos jú- outro aparecerão os An- 

tamenteco.m os Anjos ^ju jos , fenaó no fepukhr-a^ 

'is. Tom. 8. Hh iij oii- 



í 



4^^ Sermão da 

onde elles fe mortráraõ, & zendo a 
failáraó com as Marias,& 
as mandarão aos Difcipu- 
Jos por embaixadoras da 
Refurreiçaó do Senhor; o 
home; porque o de Maria 
quer dizer Eftrella, nem 
deícliz delias a proprieda- 



cada hum : Vhl 
eras^cíim me laudarent aftra 
matutina ? 

423 Efe o exemplo das 
Marias na madrugada de- 
íla menhãa baftapara nos 
arguir, & envergonhar ; 
quanto mais o da madru- 



de,que íe lhe acrecenta,do gada do Senhor, que ellas 
mar, pois eraô moradoras jà naó acháraó no fepul 



dasprayas doTiberiades. 
E finalmente o appellido 
de matutinas , ou Eftrellas 
da madrugada, naô fó de 
clara a diligencia com que 
nefta hora madrugarão, 
fenaó o parentefco que ti- 
nhaó por fangue com a 
primeira, & foberana Ma- 
ria, que por antonomafia 
íc ch:xm2Li Stel/a matutina, 
E quando as Marias,fendo 
mulheres, fem temor da 
noite, nem dos foldados, 
madrugarão taó vigilan- 
tcSyòc diligentes para ado- 
rar , & fervir a Chrifto 
morto ;nòs que o cremos 
rerurcitado,fem outro im- 
pedimento mais que o do 
íòno,negligencia, ingrati- 
dão, & efquecimento; que 
podemos refpóder ao mef- 
mo Senhor, quando a eíla 
mefma hora nos arguir, di- 



chro , o qual naó fó ma- 
drugou para nos dar o ex- 
emplo, fenaó também pa- 
ra fer noíTo exemplar nefta 
vigilância? Perguntaó os 
Theologos,re Chrifto re- 
fufcitando foy exemplar 
da noíTa refurreiçaó? E ref- 
pondemcom S. Thomás 
que fim. Nofix) exemplar 
na vida,noflro exemplar ná 
morte, & também na re- 
furreiçaó noflx) exemplar. 
Na vida, porque devemos 
viver para elie; na morte, 
porque devemos morrer 
porellej&na refurreiçaó, 
porque avemos derefufci- 
tarcomoelle. Eftecomo, 
eítendieuna minha pro- 
pofta, naó fó à im mortali- 
dade da outra vida , fenaó 
à imitação defta. Elle cha- 
mou à fua morte dormir,5c 
à fua refurreiçaó acordar : 



«MMMi 






Refurreiçao de Chriflo S. N. .48/ 

& nòs devemos acordar comenta Hugo Cardeal q 



comoelle refufcitou. Re- 
fufcitou de madrugada : & 
para que? Para que o def- 
veIo,Sc fineza do feuamor 
empenhaíTe a correfpon- 
dencia,& agradecimento 
donoílb,a que em honra, 
& memoria defta madru- 



cra,porqueeftada madru- 
gada foy a hora em que 
Chrifto rcfufcitou.^Pr-^ w- 
nerunt o ai U mei adte dtlu^ 
culoiqua hora Chriftus re^ 
furrexit.Yio o grande Pro- 
feta, pofto que de taó lon- 
ge, as amorofas impacien- 



gada lhe facrifíquemos to- cias (digamoío aíHm^com 
das. Aflim o fazia com ef- que a aurcncia,& faudades 



pirito profético David 
muitos feculos antes deíla 
menhãa ,jà então agrade- 
cido a ella, porque he pro 



dos homens , morto o Se- 
nhor, & infeníivel, o nam 
deixavaó aquietar na fe- 
pultura:vio o artificio ad-r 



priedade,&: virtude do ex- miravelmente engenhofò 



emplar poder caufar,& in 
fluir feus eífeitos antes de 
exiftir. Tr£venerunt oculi 
mei adte dilucido , ut medi' 
tarer eloquia tua : Os meus 
olhos, dizia efte bom Rcy 
a Deos, fempre fe preve- 
niaó,&anticipavaó muito 
de madrugada a meditar 
emvòs,&no que me ten- 
des revelado. Faz mençaô 
dos olhos , porque nelles 
conílíle o facrííicio de vé- 
cer^ôcreíiílir aofono na- 
quellahora. Ea razaóde 
cfcoiher David entre to- 
das as horas naó fó do dia , 
fenaó da noite , mais efta 
da madrugada que outra, 



com que para concordar a 
verdade de fua palavra co 
as anciãs do feu amor, de 
vinte & duas horas de tre- 
vas fez três noites , & de 
quatorzede luz três dias: 
& como era aquelie geae- 
rofo coração , que fempre 
defejava pagar de algum 
modo a Deos o que dellc 
recebia : ^uid retribuam pfaim 
domino pro omnibus qu£ 
retribuit mihi •, para corref- 
ponder , quanto lhe era 
poílivel, aos extremos, & 
finezas defta madrugada, 
dedicou à meditação , à 
honra, &aoagradecimêtQ 
deila todas as fuás Por iíTo 
repe- 



IIf.l2 




4SS Sermão d íi muXí^ÍV 

repetia tãtas vezes o mef- Chrifto Redemptor nof. 



Pfalm. 
62.7- 
Píalm. 
87 '4- 
Plàlm. 

Píàlm. 
9'5- 



Pfàlm. 



mo oíFereci mento. Huma 
vez, In mattitinis medita- 
borinte\Q\xtr2iVtz , Mane 
oratio mea preveni et te: ou- 
tra, Milite afiaho /■/^/•.outra, 
A/^z^é» exaiidies njocem me a : 
outra , Ad annuntiandiim 
mane mifericordiam tuam : 
outra finalmente s& nella 
iodas com a repetiçam do 
facriíicio dos feus olhos, 



fo em quanto Tez , & pade- 
ceonavida, ôc na morte, 
mereceo para fy , & para 
nòs:para nos mereceo a 
graçaj& a gloria (^ que pa- 
ra fy naó mereceo, porque 
era fua)& para fy mereceo 
a honra, & a exaltação de 
feu nome,como diz S.Pau- 
lo : Faãus obeãiens ufq^te ad 
mortem^mortem auté Crw 



Anticipaverunt 'vlgilias o- eis j propter quod & T>cus \ 



Ph 



culi mei. 

424. Mas fe as finezas 
do amor de Chrifto aílim 
na vida como na morte fo- 
raó tantas, 6c taócílrema- 
das,ou eftremofasjcom ra- 
zão me perguntareis , que 
fundamento,& motivo te- 
ve David, (& devemos 



exaltavit illum , & donavit 
illi nomeniqtiodejt Jíiper om- 
nenomen. É depois que o 
mefmo Chrifto efpirou na 
Cruz mereceo maisalgúa 
coufa? Nem mereceo,nem 
pode merecer , nem para 
fy, nem para outrem, por- 
que na morte fe acaba o 



nòs ter}para antepor a de- têpo , & o prazo que Dcos 
íla madrugada da reíiirrei- tem definido , & determi- 
çaó a todas as outras? Ref- nado para o merecimento. 
pondo,que obrou o juizo E como o amor tanto mais 
de Dav id nefta cieiçaó co- 
mo taô fabio, & taò Santo. 
Porque comparada cila fi- 
neza do amor de Chriílo 
na ília l^efurreiçáo có to- 
das as finezas da fu a vida, 
&da fua morte , fó efta 
'proprijQlmamentc foy, ôc 
fe deve chamar 'ilneza. 



tem de fino,quanto menos 
pretende intereíTcou pre- 
mio j por ifib o amor de 
Chrilto refufcitado foy 
mais fino , S>í íò (c pode 
chamar fineza. No amor 
da vida, & da morte, poílo 
quetaó grande , amou o 
Senhor merecendo 5 jio 
amor 



V 



iMi 






amordaRefurreiçaó, aia 
da que naò foíTe mayor 
amor, amou fcm merecer: 
& como foy mayor a fine- 
za, também pede , fem a 
pedir, mayor correfpon- 
ÓQnch. De forte que o 
mefmo Rcdemptor de- 
pois que com a íua morte 
remioo mundo , porque 
refufcitado naó mereceo 
nada para fy , ficou mais 
merecedor em fy: & por 



Refurreicao de Chrlflo S.I7. 



489 



425* Verdadeiramente 
quepararefpondera hum 
dia , parece que bailava 
outro dia, 6c fe a hora foílè 
ainda taó ercura,que fe po- 
ÓGÍ^c chamar noite , tam- 
bém para refponder a húa, 
parece que baftava outra: 
T)ies dtet eruEiat 'verbum ^^^f^' 
é^ nox noãi indicai fcien- 
ttam : mas refponder a húa 
hora com todas as horas, 
& a hum dia com todos os 



querefufcitando naó me- dias, fó a generofidade de 
receo nada para nòs, me- quem inventou efta cor- 



receo multo mais de nòs. 
Reconhecendo pois Da- 
vid a fineza defte defmere- 
ci aienco, o defintereíTe de- 
ite amor,& o defvelo deíle 
refufcitarjpara refponder 
também fino a tanta fine- 



refpondencia,a pôde con- 
firmar. Ouçamos ao mef- 
mo David neíle mefmo 
dia da Refurreiçaó , & ne- 
fta mefma hora em que rc- 
fufcitándoo Senhor tanto 

^^^^,^^,, ^„ . madrugou a fair da fepul- 

2a,amorofo a taó grande tura.Oargumêtodo Pfal- 

amor , & defveladoa taó mo feíTenta & fete todohe 

vigilante defvelo; que fez? da Refurreicao de Chri- 

SendoahoradaReturrei- ílo.Começa profeticame- 

çaÓ hua fó hora , & a ma- te : Exurgat T>eus, & dift- ^l^; 

dragada daquel la hora hu- pentur inimici ejus:^s quaes 

niafó madrugada ; a eda palavras comenta S. Ago- 

hora dedicou todas as ho- ílinho com eftas : lamfa^ 

ras , Sc a efta madrugada ãum eji : exurrexit Cbri- 

todas as madrugadas de ftus , qui eft fuper omnia 

todos os dias de fua vida: ^eus benediUus in fécula ^ 

Inmatutinis meditabor in & difperfífunt imwíciejus 

te^quahora Chrifius rejm- per omnes gentes i lud^i m 

r—i- ^ " f^ 



4'9^ Sermão da 

eo ipfo loco ubi inimlciúas gia,& allufaó: "Deus nofier^ 
exercuerunt debellatiyãtque T> eus f alvo s faàendi , &^^^V 
tnde per cunãadifperfi. Diz T>omini T>omtnt exhus^''-^ 
o ProFeta.-Refufcite Deos, mortis. Agora vereis,ó íu- 
& fejaó diíTipados feus deos , fe o noflb Deos 
inimigos : & húa, & outra que vòs naó quereis reco- 
coufa eílà jà cumprida; nhecer por voíTo, he Deos 
porq Cbrifto como Deos que pôde fazer falvosnaó 

fó a outros , Ç^mó a fy : 
Deusnojhr, T>eusfahos 
faciendi. E fenaó vede- o 
fairvivoda fepultura , & 



que hcrefufcitou , & feus 
inimigos , que faó os Ju- 
deos, fendo debelladosna 
mefma Jerufalem , onde 
executarão o feu odío, da- 
hi foraó diílipados 5 como 
hoje eftaò por todo o mu- 
do. E depois de defcrever 
o Profeta comoofobera- 
no libertador tirou do cár- 
cere do Limbo os Santos 
Padres, que là eftavaó ca- 
tivos: Educit "jinãos in 

lbid.7. fortitudine : & o triunfo 
com que fubio acompa- 
nhado de tantos milhares 
de íÚm-SiSyCurrus deidecem 

Ibid-is.^^^^-^^^'-^ ^ultiplex , millia 



do poderda morte,da qual 
henaò fóhúa, fenaó duas 
vezes Senhor: Et T>omtni 
n^omini exitus mortis. E (la 
he^dizHugo ) a enfafe 
daquelle T>ommtT>omini^ 
duas vezes repetido. Co- 
mo fediíTera : Senhor da 
morte duas vezes,am bas a 
voíTo pefar : Senhor da 
morte,porq morreo quan- 
do quizj&Senhor da mor- 
te,porque refufcítou quã- 
do vòsnão querieis. Pu- 



latantium : porque os mef- zeíles guardas na fepultu 



Matth. 



mosjudeos diziao a Chri 
fto na Cruz , que falvando 
aos outros, naõ fe podia 
falvarafy: Aliosfalvosfe- 
cityfeipfum non poteji fal- 
njumf acere : chegado final- 
mente ao fcpulchro,excIa- 
laa com admirável ener- 



ra,porque nao queríeis q 
fahiífe della>mas elie como 
Senhor das entradas, & fa- 
hidas da morte,para abre- 
viarostres dias da fepul- 
tura, efcolheoa tarde do 
primeiro para entrar, & a 
madrugada áo terceiro 
para 



\ 



^ÊÊÊtgmmm 



RefurreiçaÕdeChrifto S.N. 4-91 

para fair : Et T>ommi T>0' da a eft e dia , & por todas 



as mcnhás dos mefrtios 
dias a efta hora : Hora in 
qua rejurrexit Chrijlus: Be* 
nediãus T>ommus diequQ-^ 
tídie. 

§. VI. 



42 (> f Sto he o que fazia 

l David antes de 

Chriftorefufcitar , & ifto 



mini exi tus mor tis. Aífitn 
caíitaDavidas maravilhas 
do poder de Chrifto na 
madrugada deíle dia todas 
obradas por noílb amor: & 
a acção de graças que por 
todas lhe oíferece breve 
no que diz , mas grandiíH- 
ma no que promete, he ef- 
ta. Benedífhs ^ominus 

10. diequotidie : Neíle dia feja he o que depois de refuf- 
Deos bemdito todos os citado deve fazer todo o 
dias. Notável dito , & por Chriftão, fe não queremos 
iíTo impropriamente 'm- fer ingratos. Não he no- 
terpretado demuitos/ D/>, vidade, ou confelho meu , 
he hum dia : ^otidie^ faó fenão doutrina do mayor 
todos os dias : pois como Pregador da Igreja ha 
pôde Deos fer bemdito maisdemil& duzétosan- 
em hu m dia todos os dias , nos : Ah initio diet David p. Oiry 
Beneãiõtus "Dominus díe dahat^Deoprimitias: opor-^^;^^^ 
^«<?í/^/>? Porque o dia hú tet enim ad gratias tibi <;.zái\\i 
he o da Refurreição de agendas Solem prayenire, ""^^^i 

David logo ao primeiro exaudies 
róper da alva dava a Deos ^°aml 
asprimiciasdo dia , porq 
he neceflrarió,para agrade- 
cer a Deos os feus benefi- 
cies , madrugar antes do 





Chrifto , & os dias todos 
faó os da vida de David. 
Taó agradecido o Santo 
profeta às finezas deíle 
dia , às madrugadas deíle 

amorj&aosdeíVelos deíla ^ ^ 

inadrugada,que não fe có- Sol. Depois que Deos deo 
tentou com menos a fua Leys aos homens, nenhúa 



devação,& a fua memoria, 
quecomfacriíicar o fono, 
ou vigilãcia dos feus olhos 
por todos os dias da fua vi' 



coufa mais vezes lhes en- 
comenda, & mais aperta, 
damente lhes ;encarrega 
nellas,quea obrigação de 



491 Sermão da 

lhe offerecerem , & con- vinte &dous do Exodoi 



ÍV 



fagraremas primícias de 
tudo quanto recebem de 
fua liberai maó. Naó fazer 
efta ofFertaaDeos, naófó 



dizaílim; Trimitias tuas 
non tardahis reddere : As 
voíTas primícias nam tar- 
deis em as pagar. Equan- 



Exc 

2a.; 



he ingratidão, mas roubo, to baftarà para efta tarda- 
porque hereputaras cou- canas primícias do dia.?A 



las que poíTuimos , & elle 
nosdàjcomo noíTas, &: naõ 
como fuás. Por iíTo de tu- 
do o que produz a terra 
manda que lhe ofFereça- 
mos os primeiros frutos: 
de tudo o qnace dosani- 
maes asprimeiras cnas3 & 
atè dos próprios filhos, os 
primogénitos. Efe de tu- 
do devemos daraDeosas 
primiciasjquanto mais as 
dos dias da vida 5 fem os 
quacs tudo o que íó com 
elle fe pôde gozar , he na- 
da? E acrecenta o grande 
ChryfoftomOjque para fe- 
rem gratas a Deos eftas 
primícias dos dias,naó ba- 
Ó-a offerecerlhas depois do 
Sol fahido, mas he necef- 
fario madrugar antes do 
SohOportet enim adgratias 
tibi agendas Solem pr^ve- 
nire. Na primeira Ley,em 
que Deos mandou que fe 
Jhe offereceíTcm as prirai- 
cias, que he no Capitulo >uftiça,.o qual trará a faude 

nas 



Glofa que acabo de refe< 
rir o diz : Oportet Solem 
pr£V€nire\ fenaó madruga- 
íles antes do Sol,& efpera- 
ftes que o Sol fahiíTe , tar- 
daftes. 

427 A razaódefta dili- 
genciarão anticipadanao 
parece fácil. MasnonoíFo 
cafo da madrugada da Re- 
furreiçaó he evidére. Por- 
que fe Chrifto neíie dia 
madrugou antes do Sol 
por a mor de nòs , muito 
tardo feria o agradccimé- 
to defteamor,fenòsefpe- 
raíTemos depois do Sol pa- 
ra lhe dar as graças. He tex- 
to expreífo de Malachias 
de muitas maneiras trazi- 
do a outros intentos, & fó 
feito naturalméte paraef- 
te. Oriettir njobis timenti- 
htisnomen meum Sol jnfti- 
tia,&fan:tas mpenis ejus : 
Nacerà para vós os que te- 
meis meu nome o Sol de 



I 



RefurreiçaÕ de 
nas azas. Efte Sol literal- 
mente, & fem controver- 
íia,hcChriíio. Mas quan- 
do naceoeíle Sol cõ azas, 
6c azaSjCLijas penas civeraó 
virtude de Tarar enfer- 
mos.^ Muitos dizem, que 
quando naceo em Belém 
da Virgem Maria. Mas en- 
tão naõ teve braços, nem 
pès,quanto mais azas : Et 
T>ei mantíSipedesque , Jiri- 
Béicingitfafcia. Mais ain- 
da: que então como Filho 
da Máy de mifericordia 
foy Sol de mifericordia, & 
naò de jufl:iça,comonaceo 
a.qui:Orietur vohis Solju- 
ftiti£ : que nacimento do 
mefmo Sol foy logo elie 
taò diíferente nonome,na 
figura, r nos eífeitos ? N"o 
nome Sol de j uílíça, na fi- 
gura Sol com azas , nos ef- 
feitos Soi que íára com el- 
la s?S. Agoíl' i a h o diz, qu e 
foy Chrillo na fua Refur- 
reiçáa: S^i cumfumpfit 
YpenUiisfiiasiririreJiirreEííone^ 
jam corpore fi-m gra vacur. 
Eítehelogo o nacimento 
'do Sol, de que hoje diíTea 
Eva age 1 i íla ,. Qrtaja m So- 
k. E porque S. AgpíHnho* 
aaó declarou o Texto,, eu^ 



ChriftoSM. ^ 40^ 

o declararei: Sc de todas as 
claufulas delle fe verá ma- 
nifeílamente fer efteofeu 
verdadeiro fentido. 

428 Orietur : diz que 
nacerà ; porque Chrifto 
aílimcomo teve duas vi- 
das, teve também dous na- 
ci mentos 5 hum mortal ca 
que naceo da Virgem, ou- 
tro im mortal com que na- 
ceo da fepu 1 1 u ra. He me- 
táfora , Sc elegância nam 
menos que da Igreja neíle 
m efmo m y fterio : ^i na* 
tus olim è virgine , nunc è 
fepulchro nafceris : & p ara 
quem nacerà neíle fegun- 
do nacim ento? Vobis time-' 
tibus nome meum\ Para vòs 
q temeis o nome de Deos, 
Não diz que nacerà para 
todos, fenaó fá nomeada- 
mete para os que crem em 
Deos,5c o temem j & aílim 
foy: porque bem pudera 
o Senhor refufcitado apa- 
recer vivo,&gloriofonas 
ruas, & praças de Jerufale a 
Annaz, a Caifaz,a Pilatos,, 
a Híerodes y Sc aos outros 
íeus inimigos r mas nam fe 
quiz raanifeftar, fenaó aos 
que o criaó,& ama vaós co- 
me faraó as Marias , os 
4p©- 




y 



4^4- Sermão da 

Apojdoloííj^Sros Difcipu- carroça de quatro cavsrí- 



Ips. E poriíTò com grande 
propriedade , & energia 
ílie chama o Prof"eca , j<?/ 
jiiftttí^^SoX de juíHça , &: 
naó de miferiçordia. iVf- 
fim o declarou o mefmo 
Çliriílo com o exemplo 



losiCnoteanoíFa Corte de 

caminho, que carroça a 

féis, nem ao Sol a perm ité 

as fabulas : Teroys , Eous^ 

&^^yíi thoTiySolis equi^quar- 

tus que 'PhlegGn. J) & fe eíTc 

Sol corre febre rodas , o 

deíl-eSol,quenaceparato noíTo voou com azas: Et 

dosbons,& mãos: Esiote fanitas.inpennis ejus.E diz 

Luc.6. mtjerkordes.ficut .(ir^L- ater que nas mefmas azas ieva 

Matrh. 'Veft(rmiferi,cor,seft\qutSo' 

i4f- iemfunm orirt facit fuper 

bano SyÒ' maios: &ajuftiça 

naó mede aos bons 5 & aos 

máos com a mefm a regra , 



1 



afaude para farar enfer- 
n:\os, porque aíHm os íarou 
hoje voando a diverfos lu- 
gares: aos Apoftolos Ta- 
rou os do temor , & da in- 
roas por iíio he juftiça, credulidade: aos Difcipu- 
pj)r.que nega aos máps o losde Emaúsfarou-os da 



favor q faz aos bonsvcomo 
o Sf nhor fez hoje: Etfani- 
tas inpenvJs ejus, E chama- 
IheoProfeta, ou pinta o 
Splçomazas^pela diligen- 
cia,& velocidade com que 
nçfi-e dia madrugou, & fe 
anticipou o feu nacimento 
aodo Sol natural. Aindap 
Sol natural dormia , & a 
aurora lhe naó tinha corri- 
dç) as cortinas encarnadas, 
qiiandoo noíTojà era na- 
cido; l^alde manc^ortojam 
Csçle, Os Poetai para enca- 
recer a velocidade com q 
corre o Sol,puzer^6-no cjii 



cegueira, &:defefperaçaó: 
àsduasMariaSjda trifteza, 
&' doa ílbmbra mento: & á 
Magdalena,que era a mais 
enferma de todos jfarou a 
do.amor,& das faudades. 

429 Agora pcrgLnto: 
Eque primor feria onof- 
lo, íèaosdeiVclosdoamor 
deCbrillo na mcnháa da 
fua Refurreiçaó rcfpon- 
deílemos nos dormindo:5c 
madrugando elle tau CO an- 
tes de íair o Sol ., nospara 
ihedarasg^-aças, eípcrar- 
mos a que feja alto dia? 
Veíic quãto fe acautelava, 
&te- 



mmmÊÊÊtftmM 



Refurreiça^ ^eCPmfio S.N. 49; 

& temia defte defprimor o temia do alço dia , porque 
mefmo David, que àimi- era coufa mui alhca áú 
tacão , & meditação defla primor^' devaçaô do fcu 
madrugada dedicou as de oíferecimentOjquedeven* 
todos os dias da ília ^nda. docorrefpondcr cada hú 



Ah âkitiidine dm tmebo : 
Efte he hú dos ditos mais 
notáveis deíle grade Pro- 
feta nos feus Pfal mos , que 
fe temera muito do alto 
dia. E que mal tem o alto 
dia para fe temer táto del- 
le quem taó pouco fabia 
temer como David.? Dio- 
nyfio Carthufianojgrande 
Meftredaoraçaó, Sc con- 
templação, diz qoe fe te- 
mia David do alto dia,na5 
€0 mo foi da do, mas como 
conte mplativoj porque na 
madrugada eíta a noífa Al- 
ma mais hábil para a ora- 
ção, & devâçaò , no alto 
dia mai§pefada,&: inepta^.• 
^e mane eram eft hom^ dH 
d^vo tionem^hãbilidr-^in alti- 
tudine diei impttor. E co- 
mo o dèvotiílimo Profeta 
em memoria da hora errr 
que Chrifto fahio da fe- 
pultura, neíle dk^^ fe tinha 
dedicado ao louvar em to- 
das as dos feus dias :B'ene- 
diã'us ^ominíís 4ie quotí'- 
dh}^Y iíTo com-razaóí^ 



dos feus diasàqu^rie dia 
quando o Senhor fe tinha 
defvelado , & madrugado 
tanto, elle em vczdeocô- 
temp!ar,& louvar támbenl 
de madrugada, o não fizeA 
fefenaó alto dia. 

4.30 E para que nòsve* 
jamos quanto também nos 
devemos temer do alto 
dia , Aé altitudine diei' ti- 
meip& y ou^a.mos o mayor 
prodigio deíle temor , St 
razaó delle, naó declarado 
menos que pelo mefmo 
Deos. O Maná naó chovia 
d'oCeo íenáo de madru- 
gada 5 & fè acnfo ao fair dè 
Sol eftava algum ainda nO 
campo, em lhe tocando o 
primeiro rayodoSoI,logO 
fedesfazia. Atèqui podia 
fer fem m i\ á g re, m a s n o ta '>. 
& pon dera m u 1 to o TeK- 
fOjque o me imo Maná, que 
tocado dò« rayos' do Sol 
fé derretia^ poílo no fogo 
dêhenhum modo fe podia 
dôsfazer^nem derrettrian^ 
tesíi cavar foHdô , & duro- : 

^Õ:d. 



1:1 > 



4-9 í> 



SermuÕ da 



§liiod enlm ah igne nonpo- 
Sapient. terut exterminart^ itati>7í ah 
exíguo radio Solts Cíikfaãu 
tabefcebat. Ido he certo q 
nao podia fernaturalmen' 
te, porque tudo o que der- 
rete o Sol, cambem o der- 
rete o Fogo i (Sc rudo o que 
endurece o fogo , também 
o endurece o Sol. O Sol 
derrete a cera , 6c o fogo 
também a derrete: ofoi^o 
endurece o barro, &0S0I 
também o endurece. Por- 
que trocava logo Deos no 
Maná eftes eíFcitos natu- 
raes do Sol, 6c do fogo, que 
naó o podendo derreter o 
fogo, em o tocando qual- 
quer rayo do Sol , nomef- 
mo ponto fe derretia : òta- 
tirn ah exiguo radio Solis ta- 
ifefcebat ? Se o my íierio de- 
fle taò notável milagre o 
deixara Deos à coníidera- 
çáo j ^ expofiçoens dos 
Doutores, que coufas di- 
^iaôCaó di verias , 6c t-aó 
^heas da mente de Deo5 ? 
^as. cqmo fó o mefmo 
Deos Author do milagre 
conhecia o verdadeiro 
myíterio, 6c figniíicaçam 
para que o tinha feito, cl! e 
mefmo o declarou no, Ca- 



piCc.io 16. da Sapiência, 6í 
he, como lhe chamei, taó 
prodigiofo em fy , como 
admira v^e! ao intento. As 
palavras di/inasfaò eftas. 
í^t notiim omnibiis effet ^ 
quoniam opo rtet prevenir e ibi 
Solem a d benediãtoné tua , 
& a iortu m íucis te adora- 
ré'. Ordenou Deos có taò 
grande milagre,queo Ma- 
nájquefe naó derretia ao 
fogo, fe derreteíTe ao pri- 
meiro rayo do Sol, paraq - 
entendeífemjôc foubeffem 
todos os homens,que todo 
aquellequeouver de orar, 
adorar, 6c louvara Deos 
( cõbmay o benedi^ tonem 
tuamcò o benediãus T>0' 
minus^ íe deve anticipar 
paraiíToao nacimento do 
Sol, 6c Icvãtandofe de ma- 
drugada ao primeiro rom- 
per da luz, poíharfe logo 
diante do divino acata- 
mento , 6c entaó o adorar , 
6c orar: Et ad ortumlucis 
teadorare. De maneira que 
oorar,contemplar, Sc lou- 
var a Deos,he como o Ma- 
ná, o qual por iíTo decia do 
Ceo,6cfe chama paó dos 
Anjos , porque o manjar 
de i^uc íe iuítcntao 0$ An- 
jos 



nÊmtmmm 



Rtfurreiçao de Chriflo S. N. 4.9 7 

naò he oirro zem os áous grandes lu- 
mes da Igreja Grega , 



mm. 



Wic^ 



josno Ceo 

miis que a concemplaçaõ , 
& loivores do rncfmo 
Djc»: Sc aíHm como o Ma- 
ná íe derretia e ti o tocan- 
do os rayos do Sol, aíJim fe 
desfaZjÔcperdeo valor, & 
aceitação diante do acata- 
mento divino a oraçaó dos 
que naó madrugaó antes 
do mefmo Sol a lhe dar as 
devidas graças.Porque co- 
iTio(^concluea mefmaSa- 
bedoria^os que para pagar 
a Deos erte tributo de cada 
dia, efperaó a que primei- 
ro naça,& os efperte o Sol, 
he final certo de fer ingra- 
tos : Ingrati enim Jpes tan- 
quam hybernalis glacies ta- 
^^' befcet^ir dífperiet. 

§ VIL 
4.JI /^^Uem chegou a 
V^ouvir da boca 
do mefmo Deos eíia taó 
clara,6c formidável fenté- 
ça,nenhria outrarazaó,ou 
authoridadeo poderá per- 
íuadir -, com tudo para lou- 
vor dos que affim madru- 
ga5,& confufaó dos ingra- 
tos, &pregui,ofos que o 
naò fazcm,quero referir o 
que de hu ns , & outros di- 
: Tom.8. 



& 

Latina S Athanafío, &- S. 
Agoílinho. S. Athanafio 
dizaífim: Mdrnum certa' 
minis de cus e leBo ipfo T^eo 
Jijierefe ipfumy& pravenire 
ingratidrumít6íione Solem. 
Oh que honrada , & gene- 
rofa competência, compe- 
tiro homem com o Sol a 
qualhadeamanhecer pri- 
meiro,ou o Sol a dar luz ao 
mundo, ou o homem a dar 
graças a Deos! A mais bi- 
zarra, &- famofa com pere- 
cia, que vio a memoriídos 
homen*í,foy o defa^o de 
David com o Gigante:mas 
que comparação tem de- 
fafiarhum Gigante da ter- 
ra, ou o Gigante do Ceo? 
O Gigante do Ceo he o 
Sol, como diz o mefmo 
David; ExultAvit ut Gigas pfaim. 
ad CUT rendam viamy àfum- 
mo Cdelo fgrefjio ejus^ & oc- 
curjtis fjus ufque ad Jum- 
mumejus. A grandeza , Sc 
eftatúra do Golias era de 
íeiscovados , 6í hum pal- 
mo: a c(latúra,& grandeza 
do Sol he cento & feíTenta 
vezes taó vaíla como toda 
a redondeza defte globo 

li ítí' 



1 



.67. 




498 Sermão da 

inferiòr,que fe compõem nhais em graça com elíe.' 
de todo o mar, & de toda a " " 
terra. OspaíTos com que 
anda, ou corre o Sol, faó 
taó dilatados,que em cada 
hora caminha mais de 
trezentas mil legoas. Vede 
agora fehe grande, & ad- 
mirável compet'encia có- 
petirohomem com o Sol 
fobrequalíèha de adian- 
tar hum ao outro, ou o Sol 
aalumiarohomem, ou o 
homem a louvar a Deos? 
In gratiarum aãione So- 
Cempravenirey magnum cer- 
taminisdecus. 

432 O Sol tem duas ba- 
Iitas,oOricnte,&oOcca- 
íb,& naó fó na primeira 
quando nace, fenaó tam- 
bém na fegunda quando fe 
põem, quer S. Paulo que 
como nas duas colunas de 
Hercules ponha o homem 



De forte que cnoíTo amor 
de Deos,& do próximo ha 
de competir de tal modo 
em feadiantar fempre ao- 
Sol,quenemo Sol ama- 
nheça no Oriente,antes de* 
nòs darmos graças a Deos, 
nem o mefmo Sol fe ponha- 
no Occafo, antes de nòs' 
nos pormos em gra^a com 
o próximo. Na hiíloria de- 
fte mefmo dia temos duas* 
figuras, que com grande 
propriedade nos reprefen • 
taò dobrada anticipaçaó- 
defta competência. Quan- 
do aMagdalena naó achou- 
aChriílo no fepulchro,^ 
veyo dar conta a S Pedro, 
&aSJoxõ: &diz o Tex-" 
to fagrado, que ambos cor- 
rerão \o^M a ceríiHcarfe do 
que ou viaó j porém S.Joa6v 
correo mais que S. Pedro, 
hum nonplus ultra^ antiçi- & chegou primeiro ; Ctir- j 
pandofe fempre, & adian- rebant atitem duo fímui , & ' 



oaj: 

10. : 



Epheí. 



tandofeao Sol.Solnon oc- 
cidat fuper iracundiam ve^- 
ftram : Se acafo tiveíles oc- 
caíiaódeira contra voííb 
próximo j adverti , diz o 
Apoílolo , que naó fe po- 



ille aiius T>ifcipulus , quem 
amabat lejus, pracucurrit 
citius Petro 5 àt venit pri^ 
mus ad nto/iumentum. S. 
Gregório Papa diz, que S. 
João neftecafo fazia a fi- 



nhao Sol,fem que primei- gura da Synagoga,& S Pê- 
ro vos reconcilieis, & po;. ckoada Igreja. Mas fenos 

chC' 



mm0 



IRefuneiça o de Ch riflo S. N. 4,99 

x:íiegarmos'mais ao Tex- adiantarão curro,& car» 



mm 



to, na palavra *T>'tfctpu.us 
quem amahat lefus^ porque 
nao diremos que S.Joaó 
fazia a figura do amor,& 
na competência coVn que 
ambos corriaó, Currebmt 
duofimuly que S.Pedro fa- 
zia a do Sol? He S Pedro 
figurado Sol, porque tem 
as chaves do Ceo, Tibi da- 
bo claves Regni C£lorti>m\ 
ôcaflim comoS. Pedrotê 
os poderes de abrir , & fe- 
char o Ceo ; aíllra o Sol 
abreomefmo Geo, quan- 
do aparece no Oriente, & 
o fecha, quando defapare- 
ce no Occafo. E S.Joaó he 
figurado amor 5 aííim de 
DeoSjComo do próximo; 
porque de Chrifto foy o 



reiradoSoljpor mais que 
ellecorra.O amor de Deos 
ha de correr mais que o 
Sol, dando graças a Deos, 
antes que o Sol apareça no 
Oriente : Ingratiaru aãio^ 
nepT£venire Solem j 5c o 
amor do próximo ha de 
correr também mais que o 
Sol,pondofe em graça c5 
o proximo,antes que o Sol 
fe efconda no Occafo : Sol 
non occidatjuper iracundia 
veflram, 

433 Epara que enten- 
damos quanto Deos fe 
agrada deíla competêcía^ 
reparemos em hua coufa 
muito notável , & he, que 
afllm como o homem po- 
de competir com o Sol em 



mais amado , Difcipulus fe anticipar fempre ao Sol, 
quemamabats & dos proxi- aíTim Deos compete com 



mos o mayor amante: Fi- 
liolh diltgite altemtrum. E 
q quer dizer que correnvdo 
Pedro, & correndo junta- 
mente ;oaó , Joaó corra 
mais que Pedro,&que che- 
gue Joaó primeiro que el- 
le.^Qjerdizeroque imos 
dizendo : que fempre o 
amor de Deos,^^ da próxi- 
mo fe ha de anticipar 5 6c 



o homem em fe anticipar 
fempre ao homem. Dizia 
Davida Y>tos\Mmeoratio Píaim. 
meapraveniet te : Eu, Se- ^■'*' 
.nlior,hey de madrugar to- 
das as menhãs com tanta 
diligencia , que a minha 
oraçaó fe anticipe a vós. 
Elíaheamefma devaçãm 
que atègora imos louvan- 
do. Mas como íhe ^uccç- 
" ■ • ^ V ' '■ " -deo 





r 




-fJoo Sermão da 

deoaDavidcomeílesfeus aviadeanticipara eilecS 









bons propoficos? Elle mef- 
mo o diíFe : MifcricordiA 
ejuspru,veniet me-. Eu cui- 
dava, Seiihor,que a minha 
oração vos avia de preve- 
nir a vós , Oratio meapríe- 
venitt te-y^o que ac \ lei, & 
expriínencei,he,quea vof- 
íamifericordia foy a que 
meprevenioamiin, Mife- 
ricordia ej^ts pr^venidt me. 
^xò ha duas coufas mais 
reciprocas ç.x\x.íq. Deos > Ôc 
ohomeja que a noTa ora- 
ção, & a fua mifcricordia. 
For i^o dizia a meíaio 
Frofeca : Einedíãas DeuSy 
qtii non amovit oratio nem 
meam , ^ rnifiricordiam 

fuamà me : Bjcmdiro fcja 
Deos, que não apartou de 
mim,nem a minha braçav^, 
nem a fua mifericordiaj 
porque o meyo de alcan 
çar a fua mifericordia he a 
no ííà ora çaõ,& à noífa ora- 
ção naó pôde faltar a cor- 
refpondencia da fua m í fe- 

'iiicordia. Mas quando Da- 
vid cuidou que fcavia de 
anticipar a Deos cora a fua 
Qraçaò> Orado meapra ve- 
fúet te-y Q que exprimentou 
foy,q,iie Dcoseiao que fc 



a fua mi ericordia , T^cus 
meits^m 'fíriíordia ejuspra- 
venkt n.e. E porque ? A ra- 
zão Thcoiugica hcj por- 
que Tem a grac,a preveni- 
ente de De os naó podia | 
David executar o que pro- i 
metia. Se David avia de 
alcá^^ara milericordiapor 
meyo da oração, primeiro 
avia de orar: & feamiferi- 
cordiafeinó anticipalfe à 
oração de Da /iJ , prevê- - 
niíido ocom fua graça pa- 
ra que ora ífe^ não poderia 
elleorar : logofe a miferi- 
cordia fe não anticipára à 
fua oraçío, nem elle podia 
orar,ae>n alcançara mife- 
ricordia : ^^i non amovit 
oratio'ie.n-medm'y é^mífai- 
cor d: a n fitam à m'. He ver- 
dade queaoração de Da- 
vid m::drugou , Maneora^ 
tíomeapr^veniet te \ mas 
Deos tinha madrugada 
mais que David, & a mife- 
ricordia divina mais que a 
fua oração. 

43+ Víuico madruga- 
rão as Mariasjmas Chriíto 
madrugou mai:s que ellad. 
E iílo de madrugar feni- 
pre mais > he picrogariva 
quG 



Refíirreiça^ de 
quecompeteao benignif- 
fimo Senhor em quanto 
Deos, & em quanto Ho- 
mem: em quanto Deos, 
porque a trouxe das entra- 
nhas de feu Pay por gera- 
ção ; & em quanto Home , 
porque a trouxe.das entra- 
nhas de fua Máy por naci^ 
mento. Dizeime,como foy 
gerado Chrifto em quan- 
to Deos , & como naceo 
cm quanto Homem ? Em 
quanto Deos diz o Eterno 
jin^ Padre ; Ex útero ante lu- 
9-i' ctferumgenuite : Eu, Fiiho 
meu, vos gerei de minhas 
entranhas antes do luzei- 
ro. E porque naó diz antes 
do SoljOu antes da aurora , 
fenaó antes do luzeiro? 
Para moftrarque porna- 
tureza,&por geração ma- 
drugou Chrifto em quan- 
to Deos antes de tudo o 
q mais madruga no Ceo. 
NoCeo a aurora madru 
ga antes do Sol , o luzeiro 
madruga antes da aurora, 
& o Verbo madrugou an- 
tes do luzeiro: Antelucife- 
rumgenuite. Da fua gera- 
ção em quanto Deos paíTe- 
mosao feu nacimento em 
quanto Homem. Equádo 
Tom.8. 



Chrifto S.N, foi 

naceo Chrifto em quanto 
Homem .?2)«f» medzumji'^^^'?^^. 
lentiumtencrent omnia, ér ^^' 
nox infuo curfíí mediu iter 
haberet , omnifotens ferma 
tuus de Calis a regalibusfe- 
dibus venit : Naceo em 
quanto Homem pontual- 
mente à meya noite, parx 
que nos defenganemos os 
homens,que ninguém pô- 
de madrugar mais que el- 
le. SenaceíTeàs cinco ho- 
ras da menhãa , madruga^ 
ria mais quem viefte às 
quatro: fenacefle às qua- 
tro,madrugaria mais que 
vieflfe às três : fe naceft!e às 
três, ou às duas , madruga^ 
ria mais quem viefíè à húa; 
mas como naceo à meya 
noite em ponto > ninguém, 
pode madrugar tanto, que 
elk não tenha madruga- 
do , ou amanhecido pri- 
meiro. Excellentementc 
S. Bernardo. Vigilas tu^vi^. 
gilat ér iUe.Confurge in mi líer- 
6f ein principio vigi iarum ,; "^'^^^ 
acceleraquantum vis^etiameg. m 
ipfas anticipa vigílias , in-* ^^^'^^' 
venies eum^non pravenics: 
Temer ein talinegotio , vel 
prius aliquidpibitribuiSiVeL 
plusmam ilk te magis amat^ 
(irapte, li iij Nag» 



hl 



■ti'''' 



y 



§02 SermaÕ ãa 

45f Nao voy pergun- pay de famílias a ai ugar,& 
to,Senhor,porque madru- 
gais tanto i mas fó me ad- 
iTiiro porque aílim madru- 
gais>&vosdefve]ais, fen- 
do taó grande Senhor. 
Com razáo notou , & nos 
manda notar a Sabedoria 
divina nefta occaíiaó ,quc 






concertar com os jornalei 
rosjparaquefoífem traba 
Ihar à fua vinha : §iui extjt 
prhno mane conducere ope* 
rarios in vtneam fuam. O 
pay de famílias era nobrc, 
& Senhor, os jornaleiros 
craó huns homens de bai- 
fois Rey todo poderoTo : xa condíçáo,quc viviaó do 
Omnipotens fermo tuus de trabalho das fuás mãos, & 
Calis à regalibus feàibus do fuor do feu rofto , & 
venit i porque vós fois com tudo o pa7dcfami- 
aquellefoberano,& fupre- lias madrugou aos chamar, 
mo Senhor,que de ninguê, & fc concertar com elles > 



Matth 

20.1. 



nem de coufa algua tem 
ncceffidade : l^eus meus es 
tUyquomam bonortim meO' 
TUmnon eges. Se a neceíH- 
d^de he o mais diligente 
defpertador de quê a tem 
para que madrugue > vòs 
que de nada neccflitais, 
para que madrugais tan- 
to;& nòs que para tudo nc- 
ceíiitamos de vòs , porque 



porque tinha neccílldadc 
delles. Agora o q cu muito 
noto,&reparOihe,q quan- 
do o pay de famílias che- 
gou á praça, jà os jornalei- 
ros alli eftaváo cfperanda 
por quem os alugafle. Ê 
porque madrugarão mais 
os jornaleiros que o pay de 
famílias.^ Porque ncccíli- 
tavaó mais, O pay de fa- 



náo madrugaremos.^ De- miliasncceíUtava dosjor- 



pois que cfte mefmo Se- 
nhor rópcr o filencio,em 
que agora o coníideramos, 
nosenfinarà que fó quem 
neceífita madruga , & que 
madruga mais, he porque 
ncceílita mais. Sahio, diz, 
muito de madrugada hum 



naleiros para a vinha , os 
jornaleiros neceíUtavam 
do pay de famílias para a 
vida. Ao] pay de famílias 
dcfpertou-o a providccía 
da fua herdade , aos jorna- 
leiros a força da fua necef- 
fidadç.E fc lo que neceflita 
ma- 



Refurreiçao de Chrifto S, N. f ©3 

madruga, & quem neceíTi- Pintafilgo, ou táo mal ve-- 
tamais, tém obrigação de ilida como o Rouxinol, q 



madrugar mais ; nos que 
fcmpre,& emtudoneccf- 
íitamos de Deos , porque 
naó madrugaremos por 
amor de hum Deos t^km 
ter neceffidade de nòs,ma- 
druga tanto par amou 4c 
nòs? " ■ -' si^i^-^biod <'n Í.ÍC' 
§. VIII. 



A ^As ouçamos jà 



^'^ '■.aS.Agbftinho 
para que nos envergonhe» 
mos dcíle noíTo defcuido. 
Turjpe eft Chriftiano , diz o 
grande Doutor da Igreja ; 
& noutro lugar,í*«/í?r eH 
Chriftiano^ fieum radius fo- 
lis in leão inveniat : Torpe 
coufa he , & verdadeira- 
mente vergonhofa para 
hum Chriftaójfe o primei- 
ro rayo do Sol o achar na 
cama,& naó poítrado aos 
pès de Chrifto feu Crea* 



não rompa o íilencio da 
noite,com dar,ou cantar as 
graças a feu Creador , fe- 
ftejando a boa vinda da 
primeira luz, ou chaman- 
do por ella ? As flores que 
anoitece raó fccas, & m u ra- 
chas, porque carecem de 
vozes, poílo que lhe nam 
falte melodia para louvar 
a quem as fez taó fermo- 
fas,aodefcantemudo dos 
cravos,& das violas, como 
faó as Magdalenas do pra-- 
do , também declaraò os 
feus aíFedtos c6 lagrimas. 
Asnuvês bordadas deen- 
carnado,&ouro,os mares 
com as ondas crefpas cm 
azul,& prata,as arvores àò 
as folhas voltadas ao Ceo> 
& coma variedade do feii 
verde riatural então mais 
vivo,as fontes com os paf- 
fosdegarganta mais chc-^- 



dor,& Redemptor. As pri^ yas,6ç a cadjencia mais fô* 
mcirascreaturas, que com nora,as ovelhinhasfaindo 



fuás vozes nos in j urião , & 
envergonhaó entre aquel- 
las,quc o mcfmo Senhor 
criou, mas naó rcmio, faó 
as aves, Queaveíinhaha, 
ou tão pintada como o 



do aprifco,& os outros ga- 
dos manfosà liberdade do 
campOjOS lobos, & as feras 
fylveftres recoihédofe aos 
bofques , & as ferpentes 
mecendofe nas fuás covas>, 
todos, 



í 

I" 







504 

todos, ou temendo a 
ou alegrãdofe com fua vi- 
íla, comoà primeira obra 
dcDeos, lhe tributão na- 
quella hora os primeiros 
applaufos. E que mayor 
confufaó , 8c afro ta do ho- 
mem, crearura racional, q 
quando todas as oucras>ou 
brutas, ou infeníiveis re- 
conhecem do modo que 
podem a bondade, & pro- 
videncia daquelle fupre- 
mo Senhor, que lhes deo o 
fer, anticipandofe ao Sol 
para lhe offerecer as pri- 
mícias do dia> ellefem me- 
moria, fem entendimen- 
to, fem vontade , & fem 
fentidos naquella voluntá- 
ria fepultura do rono,& do 
defcuidojfó confeíFe dor- 
mindo, & roncando que 
he o mais ingrato ? 

437 Defperta,ó homem 
indigno, aos brados de to- 
das as érea tu ras 5 abre os 
olhos, & vé a que madru- 
gas,&a que não madrugas-. 
Deixada» as madrugadas 
mecânicas, como as do of- 
ficial vigilante , que ma- 
druga para bater , & ma- 
lhar ó ferrOjO brigado tam- 
i)cm a madrugar o ar, 6c o 



Sermão da 

luz, fogo : os que proFeíTaó viw 
da,6c acções mais nobres, 
para que madrugáo ? Ma- 
druga o Mathematico,pa- 
raobfervaras Errrellas,an- 
tesq le IhasefcondaoSol: 
madruga o Toldado, para 
vigiar o feu quarto, ou na 
muralha,ou na campanha , 
ou no bordo da nao -..ma- 
drugáo eftudante fobre o 
livro, que tantas madru- 
gadas cuílou ao feu Au- 
thor, quantas faò as letras 
muitas vezes rifcadas, de 
qeílà compoílo: madruga 
o requerente , madrugáo 
caminhante, madruga cer- 
cado de galgos o caçador» 
& fobre todos com mais 
cftródofas madrugadas os 
Príncipes, devendo ma- 
drugar náo para montear 
defertos, & matar feras j 
mas, como fazia ElRey 
David , para alimpar os 
povoados de vícios, & ma- 
tar os que os cometem : hi \f^^ 
matutino interfictebam om^ 
nespeccatores terr£. E que 
appetite menos digno de 
táoalto , & íbberano no* 
me,que defpertaré ao fom 
de trombetas , & muitas 
horas antes do Sol para 
correr 



RefurreiçaodeChripS.N. 50f 

correr hua lebre, ou dar eerlhefacriíícios : Stírgen- 

híia laçada no Javali ama- tesqtie mane obttilenmt ho- 

lhadoaqueilcs,que femef- locaiifla-, & aos facrifícios 

te defpertador depois da fe feguíráo bãquetesjbrin- 

quarca parte do dia, tendo des,& jogos : Seditpopulus 

tanto que ver , & prover, manducare ^ & bibere , & 

ainda não tem abertos os furrexerunt ludere.Yo^ boa 

olhos? Oh que differen- madrugada efta ? E quan- 

temente aviáo de madru- tas faõ debaixo do falfo 

garpara agradecer aDeos nome de Chriftandade as 

cílemefmo defcanço , fe que fe parecem com ella? 

advertírão,& diíferão com Os noíTos Ídolos faõ as 

o paftor agradecido : T>e^s noíTas paixoens, & os nof- 

nobis hac otiafecit ! fos appetites : 6c raro he o 

438 E fe eftas madru- Chriftão de fono, & juízo 

gadas por outra parte lící- tâo repoufado que o deixe 

tas,&honeftas,odefcuido dormir, Sc não defvele a 

de fe empregarem na ado- fua idolatria. Quanto cor- 

ração do Senhor , ^tifa- ta pelo fono o adultero? 

[2' brkatuseft auroram^ &So' Quanto corta pelo fono o 

/í-wí, baftára para as fazer vingativo? Quanto corta 

Gciofas,ôc menos Chriftãsi pelo fono o ladrão ? Quan- 

que cenfura merece aquei- to corta pelo fono o taful .? 

las,que em lugar de fe de- Quanto corta pelo fono o 

dicarem , 6c confagrarem envejofo, o ambicíofo , 6ic 

ao verdadeiro Deos, fe fa- mais vigilante que todos o 

crificão aos ídolos .? Fun- avarento,^: cobiçofo ? Os 

dido por Aram o ídolo de Ju deos adorarão o Bezer- 

Guro,8cfmaladopara ace- rode ouro , os ChríMos 

lebridade,8c dedicação da adorão o ouro ainda quê 

infame imagem o dia fe- não peze tanto como o 

guinte , Cr as folemnitas Bezerro. Do ouro tomou 

''%6.'Dominieít : o queíizerâo o nome a aurora, 6c efía he 

todos , foy levantaremfe adefpertadoraque os não 

muito de menhãa a offere- deixa dorínír,6cfaz vigiar* 




ma' 



k 



hl 



■■ .f 




foò Sermão^ a 

machinando futilezaSjtra- hora em que Deos afogou 
ças,enganoSjtraiçoens, & osexercicos de Faraó no 
iacriíicando ao torpe,ver- Mar Vermelho , foy mui- 
gonhoro,acbruCal idolo do to de madrugada. Jamque Ehoí, 
intereíTe o dcfcanço , a ra- advenerat vtgiiia matuti- '"^ ^-^ 

na^& ecce rejpiciens T>omi' 
nusfuper cafti a ç^g^yptio- 
rumper columnam igriis^ & 
nubis interfecit exercitum 
í-í^r^w/. De forte que na ma- 
drugada daquelle dia fe 
confumoua hberdadedos 
filhos de Ifrael , & entaó 
acabarão de ficar totalraé- 
te livres do cativeiro dos 
Egypcios. Equádoaquel- 
les homens , fenaó foram 
ingratiílimos, aviaó de de- 
dicar as madrugadas de 
toda a vida à memoria, & 
agradecimento detaó ef- 
tupendo,&: milagrofo be- 
neficio, o para que madru- 
garão taó diligentes , foy 
para negarem a honra , & 
gloria dellc a Deos,& a da- 
rem 2iO idolo : Ifti funt dij ^^^^ 
drugou Chriílo por amor tui Ifraely qui te eduxerunt 3 ».«r 
de nós. E para mayor con- de terra zyEgypti, Bem 
fuíàòdos que em vez de creyo que naóaverà quem 
ínadrugarnellaparaolou- naò pafme, ôcfeaíTombre 
rar, madrugaó para o of- dehúataò torpe,&vergo- 
fender j torncmosà hifto- nhofa ingratidão. E que 
ria do idolo, & ponhamo- feria fe eu diíTeííe, que ain- 
nos dous paffbs atraz. A daanoíTahe mais vergo- 
nhofa» 



záo, a vida, a honra,a con- 
ciencia,a Alma. Quam ju- 
ílamente. arguio Chrifto 
ofono,& negligenciados 
que naó podéraó vigiar 
húa hora com elle , à vifta 
do contrario exemplo, & 
vigilância infame de Ju- 
das \ Veljudam non vtdetis 
^uomodo non dormit , (edfe^ 
liinat tr adere me Judais } 
Baftaquea cobiça de Ju- 
das para mevender,& me 
entregar não dorme , & 
o meu amor , & a voíía 
obrigação não pôde aca- 
barcom volcoa que cor- 
teis pelo fono , & vigieis 
húa hora comigo ? 

4.39 Eftehe o mcupó- 
to,& cfta a hora em que ef- 
tamos, na qual tanto ma 



Refurretçaode Chrifto S.N. 
nhora,& mais torpe? S. A- vemrat vigília 
goílinho fallando geral- 
mente da negligencia do 
Chriíláo , a quem o pri- 
meiro rayo do Sol acha 
dormindojchamoulhe tor- 



matíitina $ 
mas nos mefmos olhos, Sc 
olhar de Deos íigniíicou o 
modo de ver, que he o de 
quem madruga, lílbquer 
dizer , Refpiciensper colu" 



nhofa, Tudoreft Chrijtia 
no. Que diria porém, fe 
fallaíTedamefma negligé- 
cia, & ingratidão compa- 
rada có a vigilácia,& amo- 
rofos dcfvclos de Chrifto 
nefta madrugada ? Diria 
com muito mayor razão o 



pc,8c vergonhofa : torpe > namignis^&nubis. Eftava 
Turpe efi Cbriflianosv tx^o- o Senhor acordado, & naó 

' ' dormindo , porque via, 

Refpiciens', & via por entre 
o claro do fogo , & o efcu- 
ro da nu vem,/><?/ columnam 
ígni Sy&nuif is yquchc o mo- 
do de rer , de quem olha 
pelos crepufcuíos da ma. 
drugada. Naó heinter- 
que eu agora héy de dizer, prefação minha , fenaó fe- 
Aquella madrugada em melhança de que ufou o 
que Deos acabou deliber- mefmo Deos rib livro de 
tar o sHebreos do cativei- Job, comparando o afo- 
ro do Egypto afogando gueado,& negro dos olhof 
(eus inimigos no Mar Ver- de Leviatan ao claro^& ef- 
melho , foy figura defta curo do crepufculo matu- 
mcfma madrugada , em q tino: Oculi ejns^utpalpebra^^, 
o Senhor acabou de con- diíuculi. E quando Deos 
(limar noíía Redempçaó. madruga para me libertar, 
Aílim o canta a Igreja: Fu- que na6 madrugue eu pa- 
gitque divifum tnare , met' ra o louvar 1 Mais>& peior 
guntur boftesfluãibus.Ori' ainda. Quando Deos naó 
de fc deve muito notar dorme ,& fe defvela para 
húa particular, & futiliíH- me defender de meus ini- 
ma energia do Texto fa« migos, que eu não durma, 
grado. Naó fò finalouo, &medefvcie para o of- 
tempo, & hora , que foy a fender í Ifto he o que fize- 
da madrugada: y/íTzrjaí' tf ^ raó os Judcos torpe, ver- 

gonhofa. 





f 




5o8 

gonhofa , 

ingratos no triunfo da- 
qucila gloriofa madruga- 
da, em que Dcos tanto fe 
empenhou em vigiar por 
^líes. E o mefmo faríamos 
nòs , com circunílancias 
de ingratidão tanto ma- 
yores, quanto mayor foy o 
beneficio, o amor,a gloria, 
& otriunfo,c5 que Chri- 
fto nos acabou de libertar, 
& remir nefta hora \ ^i 
mor tem noftram moriendo 
deftruxit , & vitam refiir- 
gendo reparaviti fe em lou- 
vor, honra, & veneração 
da madrugada da fua Re- 



Sermaoda 
& impiamente nefta hora ) em fatisfazer 
ao que prometi. Mas co- 
mo aproveita pouco o íe- 
mearfem colher, aílim he 
inútil o dizer fem perfua- 
dír. Por efte receyo, & ju- 
íladefcon fiança , que te- 
nho de mim, quizera que 
meacabára oSermão ou- 
tro Pregador. Confideran- 
do pois que Pregador ef- 
colheria para efte foccor- 
ro, refolvime a que foíTe o 
que mayor , & mais decla- 
rado fruto fez nefta Soma- 
na Santa. Equemhe.^ A- 
quelleque converteo a S. 
Pedro, &: cantando o fez 
furreiçãonão lhe oíFere- choT2ir.Cantavitgallus,re' \\^^ 
cermps, & confagrarmos cordatuseJiTetruSyóflevit)^' 

amare. Não defprezeis o 
Pregador , porque para. 
perorar,& perfuadir o que 
tenho dito , nenhum tem 
melhor talento, nem ma-, 
yor efficacia. Hetaó dou-, 
to,que náo fe preza menos 
a Sabedoria divina da ci- 
ência que poz no homem, 
que da intelligencia que" 
deoaoGallo : Quis fofiiit 
invifceribus homtnis J^pi']oh\ 
entianti i-elquis dedit gallo ^^' 
inteUigentiam ? Prega com 
a voz, & com o exemplo; 
por- 



todasasda noíTa vida : pa- 
ra que veja cm nós o Sol 
naturaI,todasas vezes que 
nacer,que quando elle ne- 
íla menháa naceo,jà o nof- 
fo Sol era nacido ; Valde 
marièyortojam Sole, 



í. IX. 



44.0 



ATè aqui fe tem 
cançado o meu 
difcurfo(^&cançado tam- 
bém aos ouvintes , que o 
não efperavaó tão largo 



Refurreiçao cie Chriflo S. N. 



mm 



p7 



porque faz O que diz. Se 
cierperca,& acorda aos ou- 
tros, primeiro fe deíperta, 
& acorda a Ty : & naò abre 
abocafeai bacei* as azas, 
que he acompanhar a voz 
coin as ac^j^oens.O aíllimp- 
to da (lia prega áo^ he o 
próprio do meu dvlcurfo} 
-para que aos homens por 
defacaucelados , quaiidj 
naceoSoI, os nam ache 
dormindo. Aílimo notou 
PI inio : Mec Solis ortttmin- 
cauthpdtiuntur obrepere E 
•para que não pareça coufa 
indigna, que o Sermão de 
hum Pregador com fé o 
acabe hum animai fem ufo 
de razão-, lembrais s que 
tendo Deos falia Jo muitas 
vezes ao Profeta Balam 
por fy mefmo^ no fí m o có- 
'venceopela lingua de hú 
bruto Do meímo modo o 
faz agora aos Chriíiáos 
por meyo das vozes , ou 
brados daquelle defpertar 
áor irracional : Gallus ja^ 
centes ayguit ^ érfomno en-- 
tosincrepat. Sabeis ( àiz ^ 



os que jazem n:( cama , &c 
naò fe levanráo j & repre- 
hendem os que fe dcixant 
vencer do fono,& não ma- 
drugáo. E fe me pergun- 
tais porque repete o Gallo 
a mefma voz húa,duas,&: 
três vezes em cada noite ^ 
digo que faó três amoefta- 
çoens canónicas, com que 
Deosavifa a todo o home 
Chriftão, que o ha de ef* 
comungar, 6c feparar da 
comunicação dos verda^« 
de ires fieis , fe for tão del^ 
cuidado,& neghgentequc 
náo fa^a o que fazé as aves 
aos primeiros ray os , ou 
bocejos da luz , íaindo to- 
das do^ feus nin hos a lou- 
var,& dar a arvorada a fea 
Grcador. 

44,1 Odçáo pois todos, 
os que me ou virão, o vale- 
te perorador do meu Ser- 
mão. O que querem dizer 
aquellas vozes confufasj 
Ião eftas palavras dearti-£.ç|. 
culadas. Surge qm dormis i<;.i^ 
é" illuminíibit te Chriftus : 
Tudefcuidada , tu negli- 



^fgreja Catholica ) o que gente, tu preguiçofojque 

fazem deiOiro da voífa fa- dormes na hora em que 

milia as vozes daquelb teu Senhor te bufca taé 

'ave tão vigiiante.<*Argueiii def^eiado^ acordajdefpér- 

' ■ ta. 



li 



.í;; 





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fio Serena 

ta,!evantate,&: alumiarte- 
haChriílo. Coufa muy 
notável he,& grande coa- 
íirmaçaó do que tenho 
pregado , que fedo taó 
frequentes' no Velho» & 
No7oTeftamento as vi- 
foens robrenaturaes,& ap- 
p3.nqoens in fimnis, 8c ma- 
drugaijdo o Senhor nefte 
<iia fánto antemenháa , 6c 
manífeílandofe a tantos, a 
ninguém aparceeíle, nem 
alumiaíTe quando dormia. 
Alumiou a Magdalena, 
quando naófó eftava com 
os olhos abertos, mas fei- 
tos duas fontes : alumiou 
as Marias, quando corriaó 
a levar a nova da Refurrei- 
çaóaos Apoílolos : alu- 
miou aos dous Difcipuios, 
quando eaminhavaó para 
Émaus : alumiou aos de- 
maisj quando pela tarde 
eftavâõ juntos no Cena- 
pulpsatodos vigiando, & a 
nenhum dormindo. Acè 
os Santos que refufcitáraó 
-na mefma madrugada da 
.Refurreivj^aójprimeiro que 
o Senhor os alumiaíTe com 
fua viíla, fe levantarão el- 
Jesdafepultura onde dor- 
niiaóofunQdamorte: Ec 



o da ■ A. 7 

multa corpora Sfln^forittnl \i[^^ 
qm dormierimi^ furt-xcrút. -i f 
Alllnifoy, ôcaíTim avia de 
fer, porque aílim o tinha 
prometido o meimoChri- 
ílo naò fó antes de refufci- 
tar, fenaô antes de naccr. 
Sluimane vigilant ad me , fj° 
invenieni me \ Os quevi- 
giãode menháa,6craebuf- j 
cáo, acharmehio. No dia, | 
ou na noite donacimento 
os Paítorcs achíraó a 
Chriílo,mas vigia vaó, & - 
não dormiaó : Cuítodientes , 
'Vigílias no ats \ k)s Reyss. 
também o acháraò,& tam- 
bém vigiavão j que íe nam 
vigiaílenijnão veriaóa Ef- 
t rei la : Vtdmus St e lia ejm, ^J 
No dia da Refurreiçam 
fuccedeo o mefmo 5 mas 
com diíFerença, porque a 
ouve no vigiar. As Manas 
apareceolhe o Senhor , ou 
às portas do fepulchro , ou 
no caminho quando tor- 
iiaváo; a S.Pedro, & a S. 
Joaó,nem à ida,nem à vin- 
da lhes apareceo. Porque.^ 
Porque ellas foram muito 
cedo, elles vierao depois: 
ellas madrugáraó,& vigiá- 
raój&elles^naó. O que vi- 
rão no fepulchro os dou5 
Apo- 



V 



Re/urrei f ao de 
ApoftoIoSjiFoyoIançol, & 
ofudariojem que o íagra- 
do corpo fora amortalha- 
do. VidH- ( Joaò } d^ vidlt 
'. (Pedro} linteaminapofitãy 
érfudarium A fua Wfta 
reftrvou a o Senhor para 
a s qií e V i g i á r a 5 , o ' 1 a n ç ol 
para os que dormirão. £ 
eomo c vigiar he acção de 
vidavík o dormir femelhã- 
ça da morre j com razão às 
cjiie vigiarão apareceo o 
Senhor relufcicado j Ôr vi- 
vo, & aos que dormirão , 
deixou as mor calhas, que 
faóosdefpojos de morto, 
^c o que repete, & brada 
comS. Pauioo meu pero- 
rador : Surge qui dormis, & 
e^urge a mortiús^ é^ illumu 
nabit te Qbrtjim : Tu que 
dormeS; acorda i tu que ja- 
ze.? na íepLiirura do íono> 
pois eííàs morto.refulcita, 
& veras a differença dos 
quevigião aos que dor- 
me m:aos que dormem jaJíi- 
mialos ha o Sol 5 a tique 
vigiasjalumiarce ha Chri- 
ílo j que por iílb madrugou 
eílefobeianoSol antes do 
Soliy^Ide. mane 3 ortojam-' 
Sole. '■■' HipK-i ú\ oÊfí ii^-m 



ChriJfoS.N. fii 

mos de entender, que aos. 
defvelos do amor de Cbri-í-* 
íío neíla madrugada naóí 
fatisfarà a noffa correfpo- 
dencia com menos que 
com as madrugadas de to*- 
da a vida j ouramos ao 
mefmo Senhor. Tinha di- 
to que todos os que ma- 
drugaílem porfeu amor o 
achanáo: ^imane vigi- 
hnt ad meyínvenient me:- 
& logo explicandofe mais,i 
&- declarando quantas haó 
defereílas madrugadas > 
diz : Beatm homo,qm audit 
me, & qui vlgilat ad, fores ^^°^-2' 
meãs quotidie : Be ni aven- 
turado o homem, que me 
oúveí>& vigia às minhas 
portastodos os dias. No- 
tai que ba 5 diz hum dia, 
nem muitos dias j íenam- 
todos , qèotidte. E notai 
mais, que antes de dizer, 
q-m vigtíat , o que vigia 5' 
úiz^quiatiditme, oquerne 
ouve. De forte que os que 
madrugáo por amor de 
Ghriílo todos os dias, íaó 
os que ouvem ao mefmo ' 
Gnrifto todos os dias. E 
que vozes faò eilas q nos 
G-a vimos, &CÒ asquaeso 
Sanhornosacorda, ^áf^Ç-^- 
perta- 





'^:\-, li, 



.f 




I 

li 



1 uc.io. 
16. 



Níalth 
26.74 
7í' 



512 Sèrwãcda 

perra todos os dia?", para cordou, ^ 
que mídru^usmos ?Chri 
íío núo fó falia por fy mef- 
mo, fenaDtanbsm pelos 
fcLisPregidjres : §liií vos 
auditymeaidit:: mas e'l"as 
vozes que nós ouvi nos, Sc 
com que elle nos acorda 
todos os dias, nem pòd^m 
feras minhas, nem as d 2 
outro Pregador i porque 
nenhum prega eíla doj- 
trina todos os dias, nem 

ainda neíla mefma mc- 

nhàa, em queelles vem a 

dizer, & vós a ouvir gra- 
ças. Que Pregador he logo 

efte ? 
443 He o que eu efco- 

Ihi para meu perorador , o 

qual todos o^ dias , & naó 

hua fóvez, fenâo três ve- 
zes vos defpeita para que 

acordeis, & vos recordeis. 

Nanoitedi Payxao cíla- 

vatâoefquecido S. Pedro 

de fy meímo, que nem íe 

lembrava do que tinha 

prometido a Teu Meílre , 

nemdoqueelle lhe tinha 

profetizado : Ca t avir Gd- 

lus '■ Cantou o Gaílo, diz o 

Evangeliíla , d^ recordai /a 

e/i Tetrtís "verhi lefu , quod 

dixerai : & nelia voz fe r e- 



nl-roi] Pedro 
do que o S'..iilior ihe rinha 
dico. Aílim avcmos nòsde 
fazer. Quando ouvirmos 
cantar o GaKo, naquella 
vo7:av3mosds ouvir a de 
Chriílo,& lembrarmonos 
de que elle nos diíTe , que 
quem oama,8ccUeama,hc 
o que madruga ao bufcar , 
& eíle o achará : Ego dilt- ^1 
grates me diligo^ é' qui tna- ' ' 
ne vigilant adtn^^yinvenient 
me : & que he Bemaventu- 
radjo queo ouve, & ma- 
druga para o bufcar todos 
os dias : Beatus homo , oui 
auittm^-ié^qtii njigilat ad 
fores meãs quotidie. Eíles 
foraô os maravilhofos cf- 
feitos, que obrou aquella 
voz cm S. Pedro, o qual 
todos os dias de fua vida, 
quando ouvia a voz do 
íeu, & noíTo dcfpertador, 
fc levantava , & poílrava 
diantedeChriílo, choran- 
do a fraqueza do fcu pec- 
cado, dandolhe graças pe- 
la vigi'ancia, & amor,corn 
q cercado de tantas angu- 
íiias lhe puzera os olhos, & 
dedicandofe ao amar , & 
fcrvirnaó ló riaqucllc dia , 
ÍLnáoem todos 05 de lua 
vida* 



\ 



Mi 



Pefurrdçh de Chnjlo SN. f^ 

vida,atèa dar por eile. E nella madrugarem : S^e 

feaOlm o fizermos todos memvenertty tnventet vt-^ 

osdias,&de todo o cora- tam , &haurict Jaíutem a.^^^^1^' 

çáo, & nefta hora, & em ©^i»/r/^: alumiados da luz 

memoria delia; femduvi- do divino Sol , que antes 

daconfeguircmos o queo doSolnacer,erajanacido; 

Senhor promete aos que ^^dèmanhortojamòok.^ 




Tela mya obrígdçao que acreceo dç %Author come 
jHfcrtntendcmia, das MiJJoens da Provincia do Brafih 
fcz^m Colíepodu rSaha as duai ExhortaçoeríS dome- 
dicas, que fefeguemy htia em Veffora do E[ptrito San* 
\o na CafelU interior do Cbllegto, outra emVejpora dd 
Vtfitaçao naCapdladoNoyiciado , did em que dU [e 
fa^a rertõvaçao dos votos. 

Dedtca hua.er ^utra aos Irmãos Noviços , 6^ £/-. 
tudantes da Companhia dépfu^lf^í^s, como todos dej 
vemftr, de empregar, O* /verificar a vida d converf^o^ 
erfalvaçao dos Gentios nas Utffoens das nops Cmj^ 
quiHas. 



Tom. 8. 



KK 



È^ 



/í 



P^é- 



40H Ç<í>^ -WW- ifiè^ WW fc** t<i>3- t<í'á- í«é3-&í>?- t<iH-Kf>^ ÇcH f* c^-&í^3 b*Jí*J-t*i- t^e* ' 



EXHORTAÇAM 1 

EM VESPOR A 

DO ESPIRITO SANTO, 

Na Capclla interior do CoUegio. 



j^atuerunt dtfpertitalingu£ tanquam ignis yfsditque 
fnfrafingttlaseorum. Adi.i, 



'5asj* 



í-i.- 




;Parecéfa6 fo- 

, bre os Apofto- 

\os línguas de 

fogo partidas, 

asquaes fe aítentáraó fo- 
l^e cada hu dei les Eftefoi 
o final vijS^el , cora que o 
Efpirito Santo deceo fo- 
bre o Collegio Apoíloli- 
€o:& eílaatraça maravi- 
Ihofa , com que a miferi- 
cordia divina íbbre as rui- 
nas de húa fabrica, que fua 
lAsfma juftiça tiniia der- 



rubado, levantou, & edifi- 
cou a mayor obra, que nu- 
ca intentarão os homens. 
A mayorobra,que inten- 
tou a ambição, ác vaidade 
humana, foy aquella que 
depois fe chamou Torre 
de Babel, taô alta nos feus 
•penfamentos,que chega íf&ííen? 
atè o Ceo : Faciamus nobis^ ' ' * ^ 
turrim , cujus cultnen per- 
tingat adCalum. E Deos 
c ue n jnca fofreo altivczas 
muit y menores, que meyo 
tomaria para desfabncar 
a-[uella m;ichina,paradef- 
bara- 



mfmm 



Em Vefpora do Efpirko Santo. ' fx 9 

ííarataraquelles intentos, delito daqticlles Jtomefis 



mm 



& para fazer,que antes de 
íer torre,roíre ruína ? Fem- 
teyconfundamus linguam eo- 
rum. Aquelles honiens,quc 
eraõ quantos entaó avia 
no mundo, todos fallavaó 
hííafólint^ua , &-ert-a lín- 
gua confundío Deosdctal 
maneira, que de repente fe 
começarão a faliar , & ou- 
vir, cm toda aquella mul- 
tidão de trabalhadores, 
tantas linguas,quâtos eraó 
os meímos homens. To- 
dos depois diílo fallavaó , 
&todosouviaó -, mas co- 
mo bem notou Pfailo He- 
breo, todos no mefmotc- 
po íicáraófurdos, & mu- 
dos. Surdos, porque ou- 
vindo,náo entendiaô aos 
que fallavaó •, & mudos, 
porque fallando, nenhum 
«percebia o que dizíaó. 
. 44.f Tal foy o delito,& 
tal o caftigo antigamente , 
mas hoje eílamos na vef- 
pora de hum dia, em q tro- 
cada a juftiça em miferí- 
cordia, querédoDeos edi- 
ficar outra torre própria 
fua , do mefmo delito to- 
mou a traça, & do mefmo 
caftigo 05 inftrumentos.O 



foy quererem cdiíicach-úa 
torre , quechegaffe atè •• 
Ceo:& Dcos feguindo a 
mefma traça , & o meftH« 
defenho, naó fe conteinto» 
com menos,que com edi- 
ficar outra torre, quenam 
ío chegaífc ao Ceo, mas le- 
vaflc^ôc raeteíTe no Ceo os 
mcfmos Authoresdaquel- 
le penfamcnto.Efta torre 
hea Igreja Catholica , % 
qualdeceoa fundar o Ef^ 
pirito Santo por fua mef- 
ma Peíroa,6c na qual fe ve- 
rifica proprijífimamenteo 
cujus culmen pertingat ad 
Caíum\ porque fendo mi- 
litante na terra, he junta- 
mente triunfante no Ceo. 
E para que a fegunda cir- 
cu nft anciã fo fie táo mara- 
vilhofa como a primeira, 
aílimcomo do dwlito to- 
rnou Dcos a traça da fua 
obra,aíTim do caftigo to- 
mou osinftrumentos del- 
ia, fundando , & levantan- 
do húa torre com osmef- 
mos inftrumentos, có que 
tinha abatido a outra. 
Quaes foraó os inftrumen- 
tos,com que Deos abatco , 
& confundio a Torre dç 
Kk ij Ba- 




yf 



'fi6 Exhortaçao 1. 

Bibel ? Foraó as novas,6c Jemfalemjíèndo tão milá- 
varias línguas em q divi- grofa efta ultima uniaó, 
dio,& multiplicou aquel- como tinha fido milagrofa 
lalinguauniverfal, &uni- fua primeira origem. Efe 



cajque todos failavaó.Pois 
poriíTo deceo o Efpirito 
Santo febre os Apoírolos 
em forma também de lín- 
guas, muitas,& repartidas: - - _ ^ 

" ''^'^' Apparuerimt difperttt^lin- húas impedi raó,& fízeraó 

^///f jparaqueporeftemo- parar a obra, & outras a 

dojaíiimcomoconfundin- adiantáraó,& fizeraó cre- 

doas linguas nos edifica- cer tanto? A razão he ma- 

dores da torre, impedio a nifefta. As linguas dos zái 



alguém perguntar, como 
fendo efl:as,8c aquellas lin- 
guas em tudo as mefmas, 
tiveraó tão diveríos , & 
contrários effeitos , que 



obra que elles intentavaó : 
aífim infundindo as lin- 
guas nos Apoftolos,&Prè- 
gadores da Fè , fundaíTe, 
^ítabelecefiTe, & propagaf- 
fe a fua,que era a Igreja. 

44-6 Qual foflíe o nume- 
ro das linguas,cuja noticia 
receberão os Apofliolos, 
naófe pode definir ao cer- 
to. Sò fe fabe,que foraó ta- 
tás, nem maisjnem menos, 
quantas originalmente ti^ 
veraó feu principio na 
Torre de Babel. Na Torre 
de Babel nacéraójdalli fe 
dividirão em varias na- 
^oens, depois fe eílendé^ 
raó por todo o mundo, & 
ultimamente fe tornarão a 
aij^^tar no Cenáculo de 



ficadores da torre,eraó lin- 
guas,que os homens igno- 
ravaó,& naó entendiâo: & 
eífas mefmas linguas no 
Cenáculo dejeruíàlé,era5 
linguas,que os Apoftolos 
entendiaó, & de que tive- 
raó inteira , & perfeita ci- 
ência i & eflTa he a grande 
difFeréça, que ha em obrar 
com ciência das linguas, 
ou com ignorância delias. 
Todos os homens,quantos 
avia no mundo, com igno- 
rância das linguas náo po^ 
déraó acrecentar à torre 
húa pedra fobre outra pe- 
dra: ^ doze homens no 
Cenáculo com ciência das 
linguas podéraó fundar a 
Igreja, & eílcndcla poc 
to- 



Em Vefpora do 
todo o mundo : Spiritus 
^Domini replevit orbem ter- 
rarumiò' hoc quod continet 
omnia^fcientiam habet vo- 
eis. Notefe muito ofcieu' 
tiâhabet voeis. Dào Tex- 
to a razão, & o modo com 
que o Eípirico Santo en- 
cheoo mundo. Hoc quod 
contmet om?úay hc o mun- 
dcque contém, & abraça 
todas as coufas : & porque 
o mundo teve a ciência 
das vozes> que foy quando 
os Apoftolos receberão o 
dom das linguas, eíFe foy o 
modo,&:omeyo,com que 
-elles encherão o mundo 
do &rpirito SantOjOuo Ef- 
pirito Santo por elles en- 
c heo o mundo : òpiritus 
T>omini replevit orbem ter- 
' rarum. 

§• 11. 



44^7 



DE todo eíle dif- 
curfofe convê- 
ccquam importante cou- 
fahe, &quam totalmente 
neceíTaria a todos os que 
imitáo o efpirito Apofto- 
licOjScfeoccupaó nacon- 
verfaó das almas, a ciêcia , 
&intelligêcia daslinguas. 
Masfe odom das linguas 
Tom. 8. 



Efpirito Santo. ^ fi/ 

íeacaboucoma primiti- 
va Igreja5&: paíTou com os 
fundadores deílaj que fa- 
remos nós empenhados na 
mefma obrigação íem eíla 
ajuda de cuílo ,& manda- 
dos trabalhar na mefma 
obra,fem.Deos nos dar os 
mefmos inílru mentos ? S. 
Agoílinho dizia a Deos: 
^aquodpotes^&jubequod 
vis. Dai vòSjSenhor, o que 
podeis , & mandai o que 
quizerdes. Mas Deos a nòs 
mandanoso que quer , & 
náo nos dà o que pôde, 
porque nos naó dà o que 
deo aos Apoílolos. Ref- 
pondoque fim dà : porque 
fe aos Apofiolos deo as 
linguas de fogo, aos que tê 
efpirito Apoílolico dào 
fogo das linguas. No mef- 
mo Texto o temos , coufa 
muito digna de fe adver- 
tir : Jpparuerunt difpeni- 
t^ língua tanquam ignis^ 
feditqueftiprafmguios eeru. 
Aparecerão fobre os Apo- 
ílolos linguas de fogo , o 
qual fogo fe aíTentou fobre 
clles. De maneira, que nao 
foraó as linguas as que íe 
aífentáraójfenáoo fogo.E 
porque.? Porque as linguas 
Kk-Ííj vie- 





yf 





5 1 8 ^ Exhort 

vierno ào. paíTagem , & 
paíTáraõcom a primitiva 
Igrejaj porém o fo^o das 
niefmas linguas eíTe naó 
paíTou, maspermaneceo, 
& ficou de aífento, Se/^it.E 
que fogo de linguas he ef- 
te? He o zelo,. & fervor 
ardente, que tem, &fem- 
pre tiveraò os herdeiros 
doefpirito Apoílolico de 
faber, eíludar,6c aprender 
as linguas eíiranhas 5 para 
com ellas pregar o Evan- 
gelho , propagara Fè , & 
amplificar a Igreja. 

44,8 E fenaó vejamos 
quanto fe acendeo eíte fo- 
go das linguas naquelle 
grande homem , ou gigan- 
te de fogo, por iíTo chama- 
do Ignacio. Tinhaófe der- 
cubertoem feu tempo no 
inundo dous novos mun- 
dos,hum Oriental na Afia, 
^outro Occidental na Ame- 
rica : tinhaó aparecido no- 
vos homens, & novas na- 
-çoens, taó dift-erentcs nas 
linguas, como nas cores: 
-tinhafe ouvido a fama de 
íiovas gentilidades , nam 
^'Conhecidas, nem nomea- 
das no tempo dos Apoílo- 
í losj tk que faria o fogo que 



açdo ]. 

ardia naquelle vaflifilmo 
peito para abraçar,&abra- 
zara todas ? O quefez S. . 
Ignacio foy fundar, & le- 
vantar outra terceira torre 
tafíibem fornecida, & ar- 
mada de todas as linguas, 
para que inftruidos repar- 
tidamente feus filhos em 
todas, podefi^em enfinar,& 
converter com ellas todas 
as mefmasnaçoens. A pri- 
meira torre foy de Nem- 
brot, emquefe confundi- 
rão as linguas; afegunda 
torre foy do Efpirito San- 
to, em que fe infundirão: 
a terceira torre he a deS. 
Ignacio , em que naó fe 
confundem, nem k infun- 
dem. Naó fe confundem; 
porque fe aprendem di- 
íl:inta,& ordenadamente : 
nem fe infundem v porque 
naófaó graça grátis data, 
como o dom das linguas, 
mas acquirida, & compra- 
da a preço de muito eílu- 
dOj& grande trabalho, & 
por iílb com muitos , & 
grandes merecimentos. 

44.9 Ouçamos ao fun- 
dador da mefma torre. 
NoíTa vocação ( dizS Ig- 
nacio no principio de leu 
in- 



Em Vefpora do 
inflituto) he para difcor- 
rer>& fazer vida em qual- 
quer parte do mundo , on- 
de feefpera mayor fervi- 
ço de Dcos,& ajuda das al- 
mas. E para ajudar eíTas 
aímas,que meyos , ou que 
iuftru mentos nos deo, & 
nosenímou a providencia 
do mefmo Santo, & fapi- 
entiíUmo Patriarcha ? A 
fua Regra o diz. Para ma- 
yorajudados naturaes da 
terra em que reíidcm , to- 
dos aprendaó a lingua del- 
ia. Reparemos bem na- 
quellasduas claufuiasuni- 
verracs:Todos,&em qual- 
quer parte. E queparte,ou 
partes do mundo , & que 
terra , ou terras ^3.0 eífas 
oaderefidem.? OJapaò,a 
China, o Malabar, o Mo- 
gor, o México , o Peru , o 
Brafil, o Maranha5,&: fe fe 
defcobrira terra incogni- 
ta,tambem eíTa. E quem 
faó os que haó de aprender 
aslinguas.í*Todos,diz,rem 
exceiçao de peíToa.Podéra 
dizer, que aprendeíTem a 
lingua alguns, ou a mayor 
parte, mas naó diz fenaó 
todos Oseftudantes, &OS 
profeíTos, os Irmãos, & os 



Efptrtto Santo. ^ ^r9 

Padres, os Difcipulos , Sc 
os Medres, os moços,& os 
velhos, os fubditos , Sc os 
fuperiores, fem que haja 
officío, ou occupaçaóaU 
gua taó importante,que os 
exceptue deílaj porque el^ 
la he a mayor, a mais im- 
portante,&:a de que de- 
pende o fim de toda a Có- 
panhia. Olhemos para o 
Cenáculo dos Apoílolos. 
Avia no Cenáculo dos A^ 
poftolos algujoqual além 
da lingua própria, Sr natu- 
ral, naò eftiveíTe habilita- 
do com a ciência das eílra- 
nhãs ? Nenhu m , Siiprafirt-' 
gulos eonim. Todos i Seca- 
da hum fabiaò as linguas: 
todos, & cada hum fa) 1 an- 
do a noíTo modo, eraó lin- 
guas. Lingua S.PedrOjque 
era o Prelado ,6ciinguas 
osoutros,que eraô os fub- 
ditos: Lingua S. André, 
que era o mais antigo , Sc 
língua S.Mathias, que era 
o mais moderno : Lingua 
S Joaó,que era o mayor 
Theologo,6clingua S. Fe- 
lippe , que era o menos 
douto : Lingua S.Mathcus 
exercitado no Telonio, 
lingua S. Barthoiomea 
(que 





./ 






ú> 



l 



52c ExhórtaçaÕl. 

C que era Natanael} veria- praticada foíTe a do Brafil 



donas Efcolas :& línguas 
os demais tirados da bar- 
caj&doremo : emíim to- 
dos, porque todos aviam 
de fer pefcadores de al- 
mas. 

§■ ni. 



450 



T 



Al era o Cená- 
culo dos Apo- 
íl.olos em Jerufalèm, & tal 
quer S. Ignacio que feja 
em qualquer parte do mu- 
do todo o Collegio da Có- 
panhiade Jefu. O titulo 
que o mefmojefu teve 
BaCruzeílava efcrito nas 
três línguas, que fó entaó 
fenâo cbamavaó barba- 
ras, a Hebrea, a Grega , a 
Latina : & eftas três íaó as 
que fe profeíTaò nas Vni- 
verfidadesde Europa, & 
Jiasquaeshetão eminente 
a Companhia, comofevè 
na eíiampa de feus efcri- 
tos. Porém depois que o 
Calvário fe ePcendeo ato- 
doomundo,6cneile fe ar- 
vorou o Efxãdarte do cru- 
cificado, o titulo da Cruz 
jà he compoílo de todas as 
linguas,por barbaras, ^in- 
cógnita^ que fejaò. Quam 



neíla noíTa Província, bem 
o teílifica a primeira Arte, 
ou Gramática delia , de 
que foy Author , & inven- 
tor o grande Anchieta, & 
com razão fe pôde eftímar 
porhú dos feus milagres. 
Bem o teíliíicáo as outras 
que depois fairaó mais 
abreviadas, & os Vocabu- 
lários taó copiofos , ôt o 
Catecifmotaó exado em 
todos os myfterios da Fe, 
& taó íingular entre quan- 
tos fe tem efcrito nas lín- 
guas politicas , que mais 
parece ordenado para fa- 
zer de Chriílãos Theolo- 
gos, que de Gentios Chri- 
ttãos. Sobretudo o teftífí- 
ca o mefmo ufo,dc que nos 
lembramos os velhos, em 
que a nativa língua Portu- 
gueza náo era mais geral 
entre nos que a Brafilica. 
lílo he o que alcancei, mas 
naóheiílooque vejo ho- 
je, naò fei fe com mayor 
fentimento,ou mayor ad- 
miração. Deo-nos Dcos 
húRey Cqueelle guarde ') 
taó herdeiro de íeus glo- 
rioíbs progenitores, & de 
animo taó pio , 6c verda- 
deira- 



\ 



Em Vefpora do 
deiramente Apoílolico, 
que entre a grandeza , & 
multidão de feus cuida- 
dos, o mayor de todos he a 
propagação da Fè , fian- 
do atodaneíle EíladojSc 
muito mais no do Mara- 
nhão, ao zelo, & doutrina 
da Companhia. Deo-nos 
Deosno mefmo têpo por 
univerfal Pay , ôc Geral 
delia ao mais infigne Mif- 
íionano defte feculo em 
Hefpanha , cujo efpirito 
naò atado a Roma como o 
de S.Paulo, fenos fazpre- 
fente por fuás cartas , em 
todas as quaes com o fogo 
de S.Ignacio mais nos ace- 
de, que exhorta às Mif- 
foens. E que direi eu ao 
Çollegio da Bahia, ou que 
mediràelleamim, quan- 
do nefta grande Comuni- 
dade he jà taó pouco geral 
a lingua chamada geral do 
Brafil, que faó mui conta^ 
dos aquelies em q fe acha ? 
ÍDirei por ventura, ou por 
grande defgraça , que em- 
mudecéraó>ou fe diminui- 
rão as linguas , porque fe 
apagoujou esfriou o fogo ? 
4f I Se aílim tiveíTe fuc- 
cedido,naó feria maravi- 



Efpirito Santo, 5^^ 

lha, que taó fortes faò os 
poderes do tempo, ainda 
contra as coufas mais fan- 
tas. Quando o Povo de If- 

. rael foy defterrado para a 
Períia, retirarão os Sacer- 
dotes o fogo fanto, que ar^ 
dia no Tem plo,& o efcon- 
déraó na cova de hum vai- 
le fecreto , onde ficaíTe 
guardado. Édizo Texto, 
quedahi a muitos annos, 
Cutn autempra teriffent an- 2 Ma- 
ni multiy indo os defcendé • \'l ' 
tesdosmefmos Sacerdo- 
tes a bufcar aquelle fagra- 
do depofito, naó acháraó 
fogo, fenáohúa pouca de 
agua groíTa: Non tnvenerut 
ígnem ^fedaquam craffam. 
De forte que o que dantes 
tinha fido fogo ardente , 
agora era agua fria,&grof- 
fa:fria, porque fe tinha 
apagado o calorj &: groíía , 
porque fe tinha perdido a 
fineza. Eu bem conheço 
que hua das mayores fine- 
zas, que fe podem oíFere- 
cer a Deos abaixo de dar a 
vida, heapplicalaaomar- 
tyriojouao difiicultofííG- 
mo efiudo das línguas bar- 
baras, que taó trabalhofa- 
mente fe chegaó a enten- 
dera 




,'!■! 



/í 





Eiech 
3í- 



522 Exhortaçao 

der,5c Paliar. Aíllni o ar- 
guío o meftno Deos , & 
quafi lançou em rollo ao 
Profeta Ezechicl, quando, 
porque moftrava temer a 
miíTaó, a que o tinha de- 
ílinado,! he ái(^^:Non enim 
ad popuhtm profimdl fer- 
monis ^ é^ ignota lingu£tu 



Chriíládades dosPayayás, 
&Cíiiriris; nem íinalmé- 
te a própria Brafilica , & 
geral, com que nas doze 
refidencias mais vifinhas 
ao mar, em quatrocentas 
legoasde coíla, doutrina 
a Companhia, ^cconfer- 
vaasreliquiasdos índios 



acabados, feella os 
confervára. 

§. IV. 



mitteris. Diremos pois que deíle nome, que jà eílariaó 
fe tem engroíTadoas anti- acabados , fe ella os nam 
gas finezas, ou fetem apa- 
gado,& quando menos es- 
friado elle fogo das lin- 
guas na noíTa Provincia, 
por fe ver menos cultiva 
dahojenclla a lingua ge- 
ral do Brafil ? Naódigo, 
nem fe pode dizer tal cou- 
fa : pois he certo que à di- 
minuição de hua lingua 
tem fuccedido íinco. A 



TUdo iftonaófe 



4f2 

pôde negar que 
hefogo de linguas. E fe 
eíla ultima fe diminuío,' 
também confefíb, q neíTa 
mefma diminuição le nam 
faltou a Regra de S.Igna- 
Fortugueza , com que por cio, a qual, onde manda q 
tantos meyos fe infifte na fe aprenda a lingua dos na- 



reformação dos Portu- 
guezesra Ethiopica,có que 
íó ncíta Cidade fe doutri- 
não,& catequizaó vinte & 
cinco mil negros, naó fal- 
landono infinito numero 
dos de fora : as duas de 
TapuyaSfCom que no mais 
interior dos Certoens ain- 
da remotiílimos , fe tem 
levantado as íeis novas 



turaes, acrecenta,Salvo fe 
lhe ferviíTe mais a fua pró- 
pria. E comonoBraíil fe 
foy diminuindo o numero 
dosIndios,& crecendo o 
dosPortuguezes ; có pru- 
dência naó alhea de noíTo 
In fl:ituto,fe limitou o eílu- 
do da lingua da terra, para 
que as idades, em que ella 
mais facilmente fe apren- 
de. 



V 



Em Vefpora do Efpinto Santo, f 2 5 

de, fe applkaíTem defde prefcntes naófe curaóbé 

logoaoeftudoda Retho- com remédios futuros ,& 

rica, Filofofia, & Theolo • mais em matéria de falva- 

gia,& mais depreíTa fe for- çaó de Almas , em que fe 

maífem os Operários, que naó devem perder inílan- 

neceílitaó de mayores le- tes. Taó de repente no dia 

trás. Porem na occafiaó deamenhãa acudio às aU 




prefente,em que àsobri- 
gaçoens deíla Pro vincia fe 
tem acrecentado a conqui- 
fíauniverfal do novo mu- 
do do Maranhão, & gran- 
de mar do Rio das Alma- 



mas S.Pedro , como tinha 
decido de repente o Efpi- 
rito Santo.O Efpirito San- 
to deceoà hora de Terça, 
& à mefma hora, como o 
mefmo S.Pedro advertio: 



zonas, naó ha duvida que Cumfit hora diei tertia^ )a ^^ 

a lingua geral do Brafil, elle ellava convertendo ;^. 

como porta por onde fó almas,& naô menos q três 

fe pôde entrar ao conhe- mil. 

cimento das outras , nos 453 Suppoílo pois que 

faz a graade falta, & aper- o remédio ha de fer próp- 

to em que nos vemos. Eíla to,& fem perder momen- 

he a razaó porque nova- to, onde o acharemos nós 

mente ordenou noíTo Re- para a prefente neceíTida- 

verendo Padre, que nefta de.?Os Apoftolos no Ce- 

Provincia fe torne a obfer- naculo jà eftaváo ordena- 

varoeíliloantigo* & que dos, 6c habilitados de Sa- 

o eftudo da lingua preceda cerdotes : mas ainda nain 

a todos os outros, fem que eílavaô perfeitos,ou intei- 

a ellespofla paífar algum ros Miffionarios •, porque 

da Companhia, fem pri- Ihefaltavaò as linguas, as 

«,«:..^ r^- ^\rtr^yf^C'^rx^f-rytP^ quacs aparecéraô de Tcpé- 



meiro fer rigorofamente 
examinado, & approvado 
jiella. Mas quando fe co- 
meçarão a lograr os eífei- 
tosdeftetam acertado de- 
creto ? As enfermidades 



te onde as naò avia : Et 

apparuerunt dijpertita lin- 
gua. E que grande mercê 
feria do Efpirito Santo, fe 
neíle mefmo lugar fagrado 



hl , 



oa- 



■?rr 




'km 



A 



<íé^ ^\^.^ Exhortaçaol. 

onde eílamòs aparcceíTem lhe refpodeo Deos > Aaron 
agora as línguas, Sccom frater ttius Levites ^ (cio 
ellas nos achaflemos de re- quodeíoquésjit^ipfelo^uetur 



pente com o foccorro de 
Aliílionarios que avemos 
miftcr, naó dilatado , mas 
promproj naó Futuro , mas 
prefente? Padres Reveré- 
dos,& Irmãos Cariílimos, 
fe ol ho para os Padres {òs , 
eu não acho efte foccorro : 
fe olho para os Irmãos íos, 
também o naõ vejo i mas 
fe confidero os Padres 
acópanhados dos Irmãos , 
naó me parece impoílivel, 
fenão muito fácil. Se entre 
os Padres não achamos 
linguas 5 entre os Irmãos 
temos as que baftaó: & de 
hum Padre acompanhado 
dehumirmaó bem fe pô- 
de formar hum perfeito 
Millionario,não fó por in- 
venção humana, mas por 



pro te. Araó voíTo irmaó té 
boa lingua, elle fallarà por 
vós. Quem tal repoíla ef- 
peráradaboca do Omni- 
potente em hum negocio 
em que taó empenhado 
eílava ! Não podéra Deos 
daralinguaa Moyfés tam 
facilméte comoadeo aos 
Apoftolos ? Claro eftà: 
pois porque lha naó deo? 
Naó lhe quiz dará elle a 
lingua, para nos dar a nós 
o exemplo. Para que entê- 
deíremos,qu^dehú Moy- 
fés fem lingua, & de hum 
feu irmaó com lingua , fe 
pôde fazer hum perfeito 
Miflionario. Moyfés fu- 
prira o que falta a Araó , & 
Araó o que falta a Moy- 
fés. Quando o Padre Tri- 



traça divina. Húa das ma- gaucio andou pela China, 
yores miíTocns , & mais vioquehuns homens le- 



difficultofas que ouve no 

mundo foy a de Moyfés, 

. quando Deos o mandou 

.libertar o feu Povo do ca- 

. tiveirodo Egypto. Efcu- 

foufe Moyfés com a falta 



vavaó outros aos hóbros: 
& advertio que os levados 
aos hombros eraó mancos, 
bosque oslevavaó , ce- 
gos De forte que o manco, 
porque tinha olhos, cm- 



Exod ^. da lingua: Impeditioris , & preíiava os olhos ao cego •, 
-' -^ . - - ^ o cego, porq tinha pès* 

me- 



;^/-^ tardíoris língua fum\^(\yíO 



y 



ErnVelporadoEfpiritõ Santo. 
empreitava os pès ao má- norancia,^ plantar a 
co:& tieíle modo inven- 
tou a neceílidade fazer de 
dous homens defeítuoíos 
hum home inteiro. Aíllm 
o devemos nòs fazer obri- 
gados da mefma neceíli- 
dade. O Sacerdote fupri- 
rà o que falta ao Irmão, & 
o Irmaó o que falta ao Sa- puer egofum,¥xíná^v2.ÇQ ef- 



f2f 
Fè. 
Ficou aíTombrado Jere- 
mias, que ainda naó che- 
gava a dezafeisannos, vc- 
dofe efcolhido para tama- 
nha emprera,& elcufoufe» 
dizendo que era moço, & 
naó tinha iingua : A^a^a^ 
l^omine^ nefcio loqu^quia 




cerdote : o Sacerdote fem 
Iingua adminiftrando os 
Sacramentos , &o Irmaó 
com Iingua inftruindo , 6c 
enfinando os que os haó de 
receber. 



§.V. 



454 



NEm os Irmãos 
fe devem efcu- 
farjquádoaílim o ordenar 
a obediência. Efcolheo 
Deos,& avifouajeremias 
para bua MiíTaó muito fe- 
melhante às noílàs : por- 
que era para derrubar v& 
edificar: í/í dejiruasy&^dh- 
ficeSi aíiim como nos imos 
derrubara Gentilidade,& 
edificar a Chriftandade:& 



ta efcufa em duas razoens, 
cadahua delias baftante , 
ao que^^arece , para fer 
aceita. Creça primeiro Je- 
remias,& aprenda a fallar, 
& como tiver idade, & Iin- 
gua, entaófe lhe encarre- 
gara húa MiíTaó, &comif- 
faóde tanta importância. 
Mas Deos com tudo > de 
nenhum modo lhe aceitou 
a efcufa y nem julgou por 
fuliicicntes as razoens dei- 
la : Nòli dicere^ quiapuer 
fum^adomnia emm qu£ miU 
tam te^ ibis. E fe Deus naó 
efcufou ajeremias,né por 
moço , nem por falta de 
lingua,muito menos fe de- 
vem efcuíar os que naó 
podem allegar a falta da 



era para arrancar , & plan- Iingua, & fó os pôde déf- 

tar : Ut evellaSy & plantes , confiar a da idade, que^ca- 

aílim como nòs imos ar- da dia crece,&:fe eméda. 
rançar a fuperítiçaó> & ig- 455* 



Notem a gora mui- 
to 



f 



i . 



f 2 (> ExhcrtaçaÕ 1, 

to os moços a repofta de refgacar cativos , para os 



DeoSj&veráó quanto po- 
de a virtude áà obcdieií- 
cia,& a graça de Milfiona- 
-Tio. Míttam te : Eis- aqui 
Jeremias feito Miíliona- 
^io. No/i dicerey quiapuer 
xgofiim : Eilo aqui MilHo- 
nario,&moço. Ê pofto q 
moço preftarà paraalgúa 
coufa.? Para mais que al- 
gúa. Epreftaràpara mui- 
to ? Para mais ainda. E pa- 
ra que ? E para quanto?/^^ 
omnia,F2LT3. tudo. Preftarà 
para tudo, & tudo fará in 



fepukar mortos : como 
Meftres,como Pays,como 
Paílores, como Tutores t 
como Médicos , como en- 
fermeiros, & com o Ter vos* 
&efcravos fcus em tudo , 
para viver perpetuamen- 
te, "k morrer com elles, Sc 
por elles,& també às máos 
delles, comoaigúas vezes 
tem acontecido. Tudoií^ 
to íignifíca aquelle adom' 
nia^ & tudoifto pôde, & 
deve fazer todo o MiíHo- 
nario, ainda o que for fal- 



i.Cor. 

p.22. 



do à miíTaó, Ad omnia qua to da lingua,como taó fan- 
mitt dm t exibis Olhc^ViÇ-^x^' 
d€,&que divina palavra, 
Adomnid l E fte ad omnia 
hc&dcvefer a emprefa, 
& o timbre de todo o ver- 
dadeiro Miffionario , co- 
mo o foy de S. Paulo ; Om^ 
-nihus omnia faõfusfum , ut 
omnes faceremfalvos. To- 
do para todos, & para to- 
dos tudo. Naófó para os 
catequizar Gentios ,nem 
.fóparaosbautizar Cate- 
'Cuménos,ncm fó para os 
doutrinar Chriftáos; mas 
para os fuOétar famintos, 
paraosveftir nus, para os 
curar enfermos , para os 



ta , como difcretamentc 
difleS. Francifco Xavier. 
Eílava na Ilha de Moro,& 
efcrevendo a Goa , dizia 
aíTim : Achome neíla Ilha, 
ondenaó fci a linguados 
naturaes, mas ncm.por iíTb 
eftou ociofo , porque bau- 
tizo os innocentes , que 
naòhaómifter lingua, & 
aos demais procuro aju- 
dar,& fervir com obras de 
caridade, que he lingua, q 
todos entendem. 



4f5 



§• VI. 

SO nos refta faltar 
CO 



'com os que 



nam 
cllu- 



\^'^ . 



Em Vefpora do 
cftudáraó alingua da ter- 
ra,por fe.aplicaréàs cien- 
cias> que parecem mayo- 
res. A mayor gula dana-; 
tureza racional he o defejo 
defaber. Eíla foy a que 
matou a Eva , & a tantos 
inata,& entizica na Com- 
panhia, lançando pela bo- 
ca aquelle Tangue, que fo- 
ra mais bê empregado nas 
poftillas , ou memoriais, 
de que eflraó cheyos os Ar- 
chivos de Roma. E que 
memoriais faó elies .? Saó 
osGontinuos requerimen- 
tos,^ as cartas naó efcri-í 
tas com tinta, fenaó com o 
próprio Tangue, em que de 
todas as Pro vincias de Eu- 
ropa Te pedem de joelhos 
ao íu premo governo da 
Companhia as miíToens' 
ultramarinas ,mais arriT- 
cadasjôc perigoTas. De me- 
lhor cor Taô^ eftas* borlas , 
que as azues de Meftres 
em Artes,& as brancas de 
Doutores em Theologia, 
^ os grãos, a que por d^t^ 
taó duros degraos dentro, 
& fora da Religião Te co- 
ílumaTubir. DeTejoTocom 
tudo noílb Reverendo Pa-. 
dre de favorece r muit<» as^ 



EjphítoSanto. fiz 7' 

letras , & milito mais as* 
miílbens(^ podendo dizer 
com S.Paulo, em hum, & 
outro favor 9 Minijierium '^<^^' 
meum honor ificabo ) para *'''^' 
ganhar inftantes, & evitar 
dilaçoens, em que Te per* 
dem muitas almas 5 tem 
novamente concedido aos 
que naó acabarão Teus ef- 
tudos, que os poíTaó ir aca- 
bar ao Maranhão , ainda^ 
com diTpenTaçaó cotidia- 
nadeliçoens,&annual de 
tempo. Aílim que os noíTos 
Theologos do primeiro, 
do Tegundo, & do terceiro 
anno , Tem diTpendio do 
CurTo das Ciências , nem 
da diíFerença do grão, po- 
de logo partir para aquel- 
la glorioTa conquifta. A 
viagem he de poucos dias, 
Tem calmas de Guinè,nem 
tormétas do Cabo de Boa 
ETperança,a cujos traba- 
lhos, & perigos naò àGÍ-^ 
xão por iílb de Te expor to- 
dos os annos{ &hoje váô' 
navegando pelos mareâ 
fronteiros a eftes noíTos } 
tantos filhos da Compa- 
nhia, Eftudantes, &alum- 
nosdaquelles dous famo- 
íb&.S€minario§ de Apoílo-» 
I0S3 



fiS Exhortaçaõl, 

los , & Martyres os dous outra ciência ? Sendo o lú- 



Collegios R^eaes de Co- 
imbra, 8c Evord. 

4.f7 Eefpero eu dos q 
íàhiremdeílenoíTo cambe 
RealjTheologos, Filofo- 
fos,& Humanillas, q quá 



gardas linguasaboca,nao 
pôde carecer de grande 
myllerio,que as línguas de. 
àmeahãa apareceíiem fo- 
bj-e as cabeças dos Apoílo- 
los. E porque razaó Ibbrc 



Luc.f. 
77* 



do chegarem ao Gram Pa- ascabeças.<* l^t eos autho' 
râ,& Rio das Aimazonas , raret in orhis 'T>oãores^ dir 



Scfe virem naquella im- 
menfauniverfidade de al- 
mas refpero, digo, do feu 
efpirico , & ainda do feu 
juizo, que efquecidos das 
Ciencias,quecà deixáo, fe 
apliquem todos à da con- 
verfaó.Quandoo Filho de 
Deos Fez a fua miíTaó a ef- 
te mundo , a que ciência 
entre todas,&fobre todas 
aplicou a fua Sabedoria 
infinita ? Ad dandam fcien- 
tiamfalutis pteht ejus\ A 
ciência fomente da' falva- 
çaó, & eífa enfinada nam 
aos grandes do mundo,fe- 
naóà plebe: aos mais bai- 
xos,aos mais defprezados, 
^os níais pobres , aos mais 
miferaveis , quaes faó 
aquellas defemparadasgé- 
tes E à viftadeíle exem- 
plo verdadeiramente for- 
midável, quem averà que 
queira ler graduado cm 



Ammonio Alexandrino. 
Poz o Efpirito Santo as 
linguas nas cabeças dos 
Apoftolos, para cò aquel- 
las, como borlas, os gra- 
duar de Doutores do mun- 
do. He o grão naó menos 
que de S.Paulo,^í?í^^r^<?- 
tium. Eeftegrao, 6c eíla^? 
borla, naó feda na Bahia, 
nem cm Coimbra,nem em 
Salamanca, fenaó nas Al- 
deãs de palha,nos dcfertos . 
dos Certoens, nos bpifques, 
das Gentilidade^. .. rrwr-iiu 

§. vu. 

4,58 r^ír^ por ventila 
JL^ra , ou por def- 
graça, algum daquellesq 
mais eareiciça o defejo 
immoderado das ciências, 
(ou daopiniaó delias, que 
heo mayor feitiço lO fer- 
vo do £ vangçiho quç en- 
terrou 



iTii 



Em Vefpora do Ef\itr]to Santo, f i <> 

terróu o talento foy con- maíia as potêeias de Deos? 



denado:& eu porque hey 
de enterrar os talentos,que 
Deosniedeu,entre Bárba- 
ros, íepoírorcgiiir os eftu- 
dos , continuar as cadei- 
ras, «Sc fer hum grande Le- 
trado/* Primeiramente,ou 
lim,ounaó ; que muitos 
correm no eíladio , & ao 
caboachaófe cangados , Sc 
naó coroados. Masouçaó 
eftes idolatras das letras a 
David,em quem ahabili- 



Criar mundos ?Náo. Re- 
furcitar mortos ? Não. O- 
bedecerafeus acenos, & 
tremerem dclles asGerar- 
chias? Não. Pois quaes 
faói? Converter, & falvar 
almas. PorinToS.Dionyíio 
Areopagita dando hum 
fuperlativo à Divindade > 
lhe chama, Opus T^ei du 
■vinijjimum^ Obra de Deos 
naó fó divina, mas divinif- 
ítma. Eque mayor honra 



dade, o engenho, Sc os ta- Qà que táo pegados efta- 

Icntos náo fó igualavaó, mos a eíTas honrinhas}que 

masexccdiaóos raaispre- mayor honra que entrar 

fumidos,ôc vejamos o grão eu com Deos à parte na 

que deixou, & o queeíco- mayor obra de fua omni- 

Iheo, Contam non cognovi potencia ? Quem conver* 

literaturam^introibo in po- teo efte Gentio i? Deos,6c 



tentias "Domini. Naó diz, 
porque me naó apliquei às 
letras, fenaó, porque nam 
fiz caio das letras, ou das 
letraduras , §ltiontam non 
cognovi lit er ai uram. E que 
alcançou David com eila 
defatéçaó, oudefprezode 
naó querer fer Letrado .? 
Introibo in potentias ^Do- 
mini : Sem os cadilhos da 
borla, ferei admitido a en- 
trar nas potécias de Deos 



eu : Deos com a fua graça » 
Sc eu com a minha doutri^ 
naiDeosneíla obraentroa 
com a fua parte, Sc eu com 
a minha : Introibo in poten- 
tias Domitti. Aqui naó ha 
fenaó cruzar as máos,pór 
o dedo na boca, ^ confef- 
far, ou a noíTa ignorância , 
on a noífa pouca fé. 

4,59 Mas deixados eíles 
argumentos tão altos, ar- 
gumentefe cada hum a fy 




E quaes faó por antono- comfigo mefmo. Quando 
Tom.8. LI cm 



' f^o Exhortaçao 1, 

cueílavano mundo,nam tequízar 
deixei o mundo do mundo 
porfalvara minha alma? 
Pois agora que fou Reli- 
giofo, porque naó deixarei 
o mundo da Religião por 



hum Gentio na 
fualirrgua. Alli Ihefocce- 
dcoj d láte dos meus ol hos, 
o que no dia do Efpirito 
Santoaos Apoílolos. Jr//- 
pcbdnt antem omneS;& mi- aí 



falvar muitas ai mas? Qual rabaritur.quoniam audiebat 



he o mundo da Religião? 
SaóasRethoricas, faó as 
Filofofías, faóas Theolo- 
gias, faó as Cadeiras , faó 
os grãos , que na mefma 
Religião reputa o mundo 
por mais authorizados. E 
que he o nada de tudo iílo? 
Quem medera poder ago- 
ra chamar por feus nomes 
as almas de todos aquel- 
Jes, que eu acompanhei, 
quãdo fui à miíTaó do Ma- 
ranhão, & nella trabalha- 
ra6,& morrerão gloriofa- 
mente!Eraó dos melho- 
res engenhos das noííaç 
Vni veríidades , Hu m a n i - 
ílas,Filofofos,Theologos, 



tmusquífqne lingítajua illos 
loq^u wí.^.Pafmavaò todos, 
porque todos os ouviaò 
fallar na fua própria lín- 
gua. Aquella gentilidade- 
barbara , pelo conheci- 
mento ronfufo,que tem de 
De is, da 1 h 2 o eo n * d a Tu - 
pan, quefigniíica trovão: 
aílim como a gentilidade 
politica chamava Tonan- 
te ao Teu Júpiter. En finan- 
do pois os novos Medres 
da Fe, 8c novos Difcipulos> 
dasiinguaç ,a cada híí na 
fua própria, que o verda- 
deiro Deos Creador do 
Ceo,&: da terra he hum fó) 
que faziaó ? Chegavaò à 



& quando feviraónaquel- naçaó dos Tupinambarâ 
la grande feara de almas, nas&diziíôaoTupinam- 



todos renunciarão unifor- 
memente todos os grãos, 
quecoíturaa,&'pòde dari 
Companhia às letras , & 
naóquízeraó outros eftu 
dos^fenaó aquelles fómé- 



ba»*ána , Tupan oyepèim : 
chcgavaóà nação do>Jii- 
ruunas, & diziãoaojuru- 
una,Tupan memê : chega- 
vaò à nação dos Nhuana», 
& diziaò ao Nhuana , Tu - 



iÈC3qiielhes ferviaó para ca- pan gcmegêm : chegavaò 



íj. 



a na» 



i 



EmVeffoYado 
1 riaçáo cios Tapaiôs, &: di- 
ziáoaoTapaiò,Tupanca- 
tamocém : chcgavão à na- 
ção dos Mamayaiiâs , & 
dosNheangaíbas , ^ái- 
ziaó ao Nheangaiba , Tu- 
pan amopererimpcrin. 

4^0 A viíla, & na ad- 
miração deíla novidade 
pafmaváo todos, Stupebat 
omnes. Pafmaváo os Gen- 
tiosdeveras fiias línguas 
na boca dos noíTos MiiHo- 
narios t & €lles também 
pafmaváo de ver os gf an- 
des progreíTos, que tinhaó 
feito em tão pouco tem- 
po : & daváo infinfcas gra^; 
ças a Deos pelos ter efco- 
ihido denigre feus condif- 
cipulos, & de os ter paíTa- 
dodoseftudos da Europa 
a eíla efcola do Ceo , tam 
fuperior, tão alta, tão útil » 
& táo defca nçada , Torno 
a dizer ,tâo defcançadaj 
porque alli não fequebráo 
os peitos com efcricuras, 
nem fe affogao os dias , 5c 
as vidas com o penfo das 
liçoensdemenhãa, & tar- 
de: nem fe embaração os 
entendimentos com o Ia- 
bynncodeopinioens , & 
díííic uidiídes fem íaiiida ;. 



Efpiritò Santo. 7 j-r 

nem dão cuidado argu- 
mentos, nem difputas, nc 
conclufoens, que fe hão de 
defender , ou impugnar ; 
nemfepaíla por hum, & 
pordous, ôcpor fete exa- 
mes em feteannos :& fo- 
bre tudo depois de tanto 
tempo,& trabalho, não re- 
íla ainda o temor ,ouGon-^ 
tingencia defer , ou nam 
ferapprovado; porque os 
examinadores, q faõ Deos> 
SJgnacio, & os Anjos da 
guarda daquelias aimas, 
tudo o que fe aprende , & 
feeníina,appr(^vão,8c lou- 
vaô. 

§. VIIL 

461 C Se todas eftas ra- 
JL/Zoens não fó ái- 
vinas,mas ainda humanas, 
não baftaó para defapegar 
dos bancos, 6c dos archi- 
bancosaosquetomão por 
pretexto de náo ir logo às 
miíToenso acabar feus ef- 
tudos-, quero acabar eu c6 
hum argumento , que pri- 
meiro me fez tremer, & 
depois me levou ao Ma-> 
ranhão, para là viver ,& 
morrer j& ainda Ihenam 
feiarepofta Heceito,que 
LI ij aquel- 






,y 



5^2 • ExhortaçaoL 

aquellarnííTaOíComo tem correra qualquer parte do 



declarado noíTo Reveren 
do Padre, pertence a eOa 
Província : HFc certo que 
para nella íàívar almas, 
não fe rcqnerem mais le • 
trás que a d>utrina Chri- 



múdo, ondeie efpera ma- 
yo'-fruro, Sc remédio das 
mefmasalmas? Oh como 
he certo também , & fem 
difvidajquenaquelle ulti- 
mo tranre,em que fe lhe 



ftã: He certo, que po-fal notifica a condenação, le- • 
ta de quem lhe eníine efl:a vantaráô todas gritos a(>*l 
doutrina, feefbáo indo ao Ceo, não contra outros, fe- 
Inferno todos os dias infi- 
nitas ai nas E fera bom 
zelo y Sc boa confolação- 
para as mefmas almas , di- 
zeremlheos Humaniftas, 
queefperem dousannos: 
& os FilofoFos , que efpe- 
rem três: &: osTheologos, 
que efperem quatro : & to- 
do efte Curfo de efl:udos,q 
efperem , ou defefperem 
onze annos inteiros? On- 
ze annos fazem pontual- 
mente quatro mil dias,na5 
avendo dia algum em que 
muitos daquelles mifera- 
veis não morrão fem fé, &z 
fembautifmo. Eqiiem ha 
de dar conta a Dcos de ta- 
tás almas? OndeeQão as 
leys da caridade ? Onde 
cílão as obrigações da ne- 
ceflidade extrema.? Onde 



naó contra nòs. Sogeitos 
da Companhia de Jefu ,q 
por caridade, & inílituta-' 
tinheis tantas obrigações?» 
denosacudir ,náo fois fi- 
lhos de S. Ii2:nacio? Nam 
f )isirmâosdeS.Fràncifco' 
Xavier ? Não fois irmãos 
também daquelles quaré- 
ta, que no mar, & a mãos 
dos Hereges deraó o fati- 
gue, &: a vida vindo a fal- 
varosat^òsdeque nos fo- 
mos netos ? Como vos naó 
lembrais logo áe quefii^ 
fois, como vos nam lafti^í 
mais de nos, como nos de-[ 
femparais com tanta cru- 
eldade,& como grandes, & 
pequenos (^ qaaes eraó 
aqucllesj) vos naó ofFcre- 
ceis a nos acudir,&foccor- 



rcr, ao menos porque nam 
cílàaquellefim, &aquella fique por vòs?Pois nós vos 
vocação de difcorre.r , ôc cmprazamos para diante 

da 



1- 



j .^ 



i 



Em Vefpora do Efptrito Santo . f ^ 3 

do Tribunal de Chriíto heis tu£ radrum. Venha 

Jefu, onde lhe dareis cota pois do Cco hú rayo deíTe 

deíTas voflas razoes ; porq fogo divino , q allumic os 

nos náo íizeíles participa- noílbs entendimentos.que 

tes do preço de feu fangue? intlame as noífas vótades , 

porque nos deixaftes mor- q penetre,que excite , que 

rernefte defemparo ; por- anime, q afervore, q aceda 

que naó ouvimos a prega- osnoíToscoraçoens, ^ os 

çáodaFèi porque não re- encha,como hoje encheo 

cebemos obautifmo; & aosApoftolos,dozeIofor- 

porque por falta, ou culpa te,intrepido, & ardente de 

voíTa, avemosde carecer fairdejerufalem , &: con 



da vifta de Deos para fem- 
pre,&agora decemos a pe- 
nar no fogo, & tormentos 
do Inferno, onde eftare- 
mos por toda a eternida- 



verter o mudo. Fortalecei, 
&refufcitai onde eftiveré 
mortos,aquelles vivos de- 
fejos,que tantas vezes vos 
offerecemos na oraçaó, de 



< 



de. Oh miferaveis delles, padecer trabalhos, perfe 
i& miferavel de mim ! guiçoês,injurias, & a mef- 

ma morte pela falvação 
dasalmas.Abrazai,&quei- 
mai em nos todo o affcclo 
de honra , ou comodidade 
deftavida. E pois íois a- 
quelle íòb.erano Eípirito, 
q renova a face da terra,re- 
novaidêtronefia, q tanto 
nosaggrava,o efpirico, & 
efpiritos de noíla voca- 
ção : para q como verda- 
deiros Toldados da Com- 



4^2 Masqueimportáo, 
Eípirito divino , as pala- 
vras fracas, &' frias de quá- 
to tenho dito,fe a voíTa fo- 
berana virtude as náo ani- 
mar, 6c aílift ir com os im- 
pulfos,& efiicacias de fuás 
infpiraçoens. Quando a- 
quella agua craíía, que ti- 
nha fido fogo,apareceo re- 
gelada, diz o Texto fagra- 

3o,que ferindo-a o Solcó — .^^ .^.^^^^ — ^^....~ 

hum rayo, logo no mefmo panhia de Jeíii , não Çòsy 
ponto feconverteo no fo- mas com muitos outros 
go que dantes èra.K^w/\S'^- por noíTo meyo Ç como 
^eSpifituSy emitte c£lítus diz o Santo Patriarcha3 
Tom. 8. LI iij ton- 



H ; 



líf«cpV 



*^3 



534- ExhoríaçaolL 

coní]o;amos o FeliciíTimo, donde chegão feus eíccv 

& bem aventurado fim a Ihidos. Amen. 

^^Wf ff tif f f f f :Íf f f :f f f f f 

EXHORTAÇAM 11? 

EM VESPORA 

DA VISITACAM^ 

Na CapcUa interior do Noviciado. 



lyifcejjít ah tila Angelus-, Exurgens autem Maria ahijt in 

montana cumfeítmatione in Civitatem Juda. 

Luc. I. 




M todas as fuás 
idades, & em to- 
das as fuás ac- 
ções enílnou hé- 
pre o Filho de Deos aòs 
homens o que cada hum 
deve obrar conforme feu 
eílado. E na prefente fo- 
lemnidade , o que enílna 
aos Irmãos Noviços deíla 
aoiTa Província , he que 



comecem a fcr Miíliona- 
rios defde o vêtre da Máy. 
Eíleferà, Chariífimos, fó 
para elles, o argumêto de- 
lia breve Exhortaçaó : & 
efteheomais próprio, & 
natural das palavras, que 
propuz. 

§■ II- 



454. 



c 



Oncluido o fo- 
berano myftc- 
lio da Encarnação > diz o 
Evan- 



Em Vefpora da Vtfttaçao. 5" ^ ^ 

EvangcliílaS. Lucas, que paraoCco. Porém S.íg- 
o Anjo fe apartou da Vir- naciocom o heróico , & 
geni Maria : "Difcejjlt ab fublime de feu efpirito 
illa Angelus : & que' a Vir- refpondeo, que antes ele- 
gem fcpoz logo a cami- geria ficar no mundo fer- 



nho com toda a prcíTa pa- 
ra as montanhas dejudea: 
Exurgens Maria abijt in 
montaria cumfeftinattonein 
Civitatem Juda. O Anjo 
apartandofe da Senhora 
tornou para o Ceo a levar 
a reporta da fua embaixa- 
da : & a Senhora caminha- 
do para as montanhas, le- 
vou na cuílodia virginal 
de feu puriííimo ventre ao 
Filho de Deos,& feu, para 



vindo a Deos na falvaçaõ 
dos próximos, ainda com 
incerteza do mefmo Ceo. 
Eíta admirável fentença 
approvou,8f canonizou a 
Igreja,& a mandou eílam- 
par na vida do noíTo San- 
to, para gloria fua , para 
imitação de feus filhos , & 
para confufaó de todos 
aquclles,que do emprego » 
& empenho da faivação 
das almas não fazem a efti- 



que elle fantificaíTe o Bau- mação que devem. Audi- 
tifta. Agora pergunto: E 
qual dos dous fez melhor 
caminho : o Anjo indo pa- 
ra o CeOjOu o Minino re- 
cém concebido indo a por 
em graça aquella alma? 
Eftaqueftáo jàfoy propo- 
íta, 6c difputada entre os 
dous primeiros Geraes da 
Companhia, noíTo Santo 
Patriarcha,& feu fucceífor 
"o Padre Meftre Laines. 
Laines com todas as fuás 
letras diíTe, que em feme- 
Ihante cafo,fe a eleição foí- 
fefua 



, cfcolhena ir logo 



tus aliquando dicçre : tS/ <?/>- 
tiodaretur , mallefebeatu 
tudinis incertum viver e^& 
Ínterim T>eo infervire > & 
proximorum faluti , qtiàm 
certum ejufdem gloria fta^ 
tim mori. Quafi me pefa 
de que S.Paulo tiveffe fe- 
melhante refolução. Mas 
com tal companheiro bem 
fe pode renunciar a fingu- 
laridade. 

4,(>f Em certa occafíaõ 
não duvidou S. Paulo di- 
zer, Oftabam ego ipje ana- 
thema ejfe à Chrijio pro fra- 
tribus 



Rom J. 






f3^ ExhortaçaÕ 11 

trtbus mcís : & efcrevendo fcio.quia manebo, é-perma^ 



Philin 

1 2 



aos Philippenfes, diz af- 

eji^Ò'mori 'ucrum : perma- 
nercaut emiti carne neceffa- 
riumpropter vos. Como a 
minha vida he Chrifto, 



neho vobis , ad profeõfum 
vefirumy &gaudium Fídei, 
Notefemuico eíia ultima 
palavra, &gaudium¥idej. 
De forte que quando ha 
quem trate do proveito, 



quejà eftà no Ceo, para &bemdasalmas,alegrafe 
mimo mais conveniente a Fè,& não cabe em fy de 



he morrer logo: mas para 
YÒs o mais neceíTario he 
viver euj&eílar com vof- 
co. Dividido pois , & fuf- 
penfo entre eíla minha có- 
yeniencia,ac eíla voíTa ne- 
ceífidade , me vejo como 
em talas,&naó {çx a qual 



pT^iZGTygaudium Fidei. Pe- 
lo contrario quando nam 
ha quem fe appliqueaef- 
ta grande obra, enrriílece- 
fe a Fèjchora a Fè, lamen- . . 
tafe a Fè, Et non efi qui cÕ» 1.17. 
foletuream. Oh que alegre 
eftarà a Fè nefta occafíaõ, 



das duas partes me hei de &que agradecida à noíTa 

inclinar, & qual devo ele- Provincia , pois fem em 

ger Coarãorautem à duo- bargodeeítar taó neceíli 

bus,& quid eligam ignoro, tada de fogeitos, pelo grã 

Mas quanto fe deteve o de zelo que tem, &fem 



grande Apoftolo nefta du 
vida, ou nefta fufpeníaó? 
Immediatamentefem in" 
terpor palavra retratou 
a q u si 1 e ignoro co m húfcioy 
& hoc confiUens feio : & có- 
íiada,6<: abfoluramente re- 
foíveo,qae avia de conci- 
nuafj&perfeverar comos 
próximos para proveito 
leu,ôcpara augmento(^ou 
comoelle diz J paraale- 
gria da Fè.£r hoc confdius 



preteve da falvaçáo das 
almas,naó duvidou defoc- 
correra mefma Fè, para as 
gétilidades do Maranhão, 
com tantos, & fervorofos 
Miíllonarios , não menos 
que quinze: mayornume- 
ro,que o que Chriíio efco- 
Iheoparaa converfaó de' 
todo o mundo. 



f III. 



i EmVeJforada 

§. IIL 



np Ornando põrètn 



4,66 

aS.Paulo,náohc 
juílo q eu paíTe em íilécio 
huas notáveis palavras 5 
que elle ajuntou entre as 
referidas, ^efiderium ha- 
bens dtffolvíi&effe cu Chri- 
fio-, multo magis melius. O 
meu defejo he defatarme 
dasprizoensdo corpo, & 
ir logo paraoCeoa cftar 
com Ghrifto , que he mui- 
to melhor. Ainda o enca- 
rece maiso Apoílolo.Náo 
fò diz, que he muito me 
Ihor , fenáo muito mais 
melhor , Multo magis «íí»- 
//W. Pois fe he muito me- 
lhor,&muito mais melhor 
ir ao Ceo, & eftar com 
Chrifto 5 como fe refolve o 
mefmo Apoftolo a ficar, & 
perfeverar com os homês, 
para os aproveitar, Mane- 
bO'i ò* permanebo vobis ad 
profeãumveftrum ? Logo 
fe S.Paulo depois de dizer 
"oquediíTe, eícolheo antes 
ficar com os homens para 
os aproveitar, feguefe que 
eíiemaishe muito maisq 
aquelie mais , & eíle me- 



Vijitaçao. 537 

Ihor he muito melhor que 
aquelie melhor. Aílimhe: 
&náo feria S. Paulo S.Pau- 
lo, fe aííim o não en tende- 
ra, 8c aíli mo fizera. Equal 
he, ou pode ícr a razão de- 
ftemais em negocio táo 
grade, & defte melhor em 
matéria táo boa > Omef. 
mo S. Paulo o ô^^ç, com 
palavras de Ghriílo,fal- 
lando nos mefmos termos, 
&acrecentando o mefmo 
mais fobre, outro cõ para- 
ti vo. Beatius eft magis da- Aa. 29. 
re^quàmaecipere. Combi- 3^- 
nemos agora o magis bea- 
tius com o magis melius. 
De modo q he magis me* 
lius o tratar da converfaò 
das almas, que o eftar com 
Chriílo no Ceo j porque 
\iç: magis beatius o dar, que 
o receber. Que faz o que 
vai ao Ceo: &: que faz oq 
vai converter almas i* Oq 
vai ao Ceo, vai receber o 
Ceo para fy : o que vai có- 
verter almas , vai dar o 
Ceo aos que converte : lo- 
go iilo he o mclhor5& mais 
melhor, &iítofobre o bê- 
aventurado o mais bem- 
aventurado : Beatius eft 
magis dare^ ojuàm avcifere^ 
Eíe 



1>: 



l ' 




bj 



'jt:. 



Joann. 
1.14. 



538 Exhortação 11. 

4,6-/ Efeinfiílirmos na ciaSj&poriíTo veyocíieyo 

palavra , beatius i nelia te- de verdade : cheyo de gra- 

mosmais profundamente ça,para comunicara graça 

a razão deíla mefma ra- deDeos aos que eftavam 

záo. E qual he/* Porq indo fora da graça : & cheyo de 

eu ao Ceo, vou participar v.erdade , para eníinar as 

a gloria dos bem-aventu- verdades da Fè aos que 

radosj porém tratando da eftavão ignorantes delia, 

falvaçáo das almas na ter- Ifto he o que fez o Verbo 

ra, façome participante da vindo ao mundo, & iílo hc 



gloria do mefmo Filho de 
Deos. Admiravelmente S. 
Joãoí Verbumcaro faBum 
eftyò' habitavit in nobts : & 



o que fazem quando vão 
àsgentilidades os Miílio- 
narios da Companhia : le- 
váoagraça aos que eftáo 



vidimus gloriam ejus , glo- na miferia do peccado ; 6c 
riam quafi y^nigentti à "Fa- 
treplenumgrati£ , ièrveri- 
//ím Fez-feo Verbo Eter- 
no Homem, habitou, & 
morou c5 noíco:& vimos a 
fua gloria como gloria 
verdadeira mete de Filho 
Vnigenito doPadre cheyo 
de graça , & de verdade. 



leváo a verdade aos que 
eílãonastrevoas da igno- 
rância. Por iíTo faò bem- 
aventurados, não com a 
gloria dos homens, ou An- 
jos que eftão no Ceo , fc- 
não bem -aventurados c6 a 
gloria do mefmo Filho V- 
nigenito de Deos, quando 



Aç{\xt\\Qplenum referefe ao foy vifto na terra : Vidimus 
Ver bum, E porque diz que gloriam ejus quafiVnigeniti 
veyo o Verbo cheyo de àTatre, 



graça,& de verdade? Por- 
que veyo cheyo do q falta- 
va no mundo, para encher 
o mefmo mundo. O mun- 



468 Ainda não eílà di- 
to. E quanto vai dehuma 
gloria a outra gloria ? Di- 
remos que vai tanto de 



do eftava cheyo de pecca- húa a outra, quanto vai de 
dos,& por iíTo veyo cheyo fer glorificador a fer glori- 
degraça: amundoeílava ficado .^ Não digo tal, por- 
cheyo de erroSj& ignoran- que he pouco. Vai tanto de 

húa 



EmVefporada 
hua gloria a outra gloria , 
quanto vai de fer fantifica- 
dor a fer gloriíicador. Dé- 
troda mefma grandezaj& 
omnipotência de Deos, hc 
mayor, & mais excellente 
obra adcfantificar, que a 
de glorificar ; porque glo- 
rificar he dar a gloria, & o 
fantifícar he dar a graça, 
que he melhor que a glo- 
ria. Por iíTo o Verbo fen- 
do glorifícador no Ceo, 
veyoa fer fantificador na 
terra,& tanto quepoz os 
pès na mcfma terra, ou an- 
tes de os pòr,foy logo a to- 
da a preÓa a fantificar o 
Bautifta. E tal he a gloria 
de que o mefmo Verbo faz 
participantes aos que fe 
occupaó em converter , & 
fantificar almas. Não glo- 
ria como a dos bem-aven- 
curados no Ceo , mas glo- 
ria como a do meímo Fi- 
lho de Deos,queos faz bê- 
aventurados :& que para 
os fazer bem-aventurados 
os enche primeiro degra- 
'^a,& de verdade : Gloriam 
quafiVntgeniti à Tatre^k' 
mmgraíi^yé^ veritatis. 



Vifitação. 



519 



§. IV. 



4^P C ^^^ ^^ > Irmãos 
iichariílimos , a 
noíTaj&voíTa vocação, a 
qual muitos naó conhece 
quando pedem fer admiti- 
dos a ella. Imos àquclla 
Portaria, vemonos cerca- 
dos de muitos que andaõ 
pedindo, & fe lhe pergun- 
ta mos,porque pede aCó- 
panhiai Refpondem; Pa- 
dre, porque me quero fal- 
var,&ir ao Ceo. Se para 
iílb íô pedis, Nefcitis quid 
petatis. Se fó quereis fal- 
var a voíla alma , âc ir ao 
Ceo, ide a outras Religio- 
ens muito fantas, mas nao 
à Companhia. O efpirito 
da Companhia naó he fó 
falvar a alma própria, fe- 
naó as alheas: não he fó fer 
bem-aventurado, mas fa- 
zer bem-aventurados:na5 
he fó ir ao Ceo, mas levar» 
& meter no Ceo todos os 
que por falta de fé, ou de 
graça andão longe dclle. 
Efte he o altiííimo fim,que 
ha de pòr,& trazer diante 
dos olhos todo o Noviça 
daCompanhia. Ifto ha de 
aprço- 




^''',|.. 



./■ 



54^ Exhortaçao 11, 

aprender, & emprender: do ainda no ventre de ÇWx 



iílo ha de procurar , & 
exercitar deídc o mefmo 
noviciado , que como dif- 
fe,ou quiz dizer,ao princi- 
piojhe o ventre daMáy. 

470 Húa das . mais no- 
táveis acçoens de Ghrifto 
Senhor noíTo foyeíla pri- 
meira de fua vida , q imos 
ponderando: Abijt mmon- 
tanacumfe/linationein Ci- 



Mãy deixe a pátria, no vé- 
tre de fua Máy caminhe 
as montanhas , no ventre 
de fua Máy và dar princi- 
pio à fua miíTaó, com tan- 
ta preíTa ? Sim. Porque 
Chrifto Redemptor nof- 
fo nam fô avia de dar o ex- 
emplo,fena5 também fero 
exemplar de todos os Mif- 
fionarios , em fua mayor 



mtatemjuda. Não reparo perfeição :& o perfeito, 6c 
que a fua primeira jornada confumadoMiíIionarioha 



foíTea livrar do peccado 
húa alma; nem reparo que 
eRaalmafoífedchum ho- 
mem natural dejudea, 
porque o Senhor,como el- 
le mefmo diíFcfoy Miílio- 
nario particularmente da- 
quelia naçaó : Ron fiim 
Matth. ^^íl^^i^^fi^^ ovesy qu£ pe- 
1^.24 rierunt^domus Ifrae/. Mas 
o que muito admiro,& de- 



de começar a fua miífaó 
defdeoventreda máy. 

47 1 Aíllm o fez o Mi- 
nino Deos recém concebi- 
do :&aílim o avia de fa- 
zer-, porque aíllm eílava 
profetizado delie porlfa- 
ias,quantoà vocaçaó^quá- 
toao nome, & quanto aó 
officio,tudodefde o ven> 



treda mãy. Deíde o ventre 
vé admirar todos, he,que damáy quanto à vocação, 
comece efta miílaó antes Domírms ab útero vocavit ifai. 
denacer. Naça primeiro, wí»: defdeoventreda máy ''f" 
&entaófarà ella jornada, quantoaonome, ©^^'d'w- 

tre matris me£ recordatus 
eft nominis mev. defde o vé- 
treda mãy quanto aooffi- 
cio, Pormans me ex utera 
fervutníibi. E porque, & 



& muitas outras jornadas : 
naça primeiro,& entaó irà 
livrar do peccado eíla al- 
ma , & muitas outras al- 
mas. Porem q não aguar- 



dando a nacer, 6c que eítá- para que/ Porque/Porquc 



era 



Em Vefporadd Víptaçao. f "ri 

eí*íi MiíTionario do Povo principioàfua miiTaó Io- 




de Ifrael E para que? Pa- 
ra que converteífe . & re- 
du riíTe o nicfnía Povoa 
Deos. Aílim o decLara ex- 
preíTamcnte o Profeta; 
formans me ex útero fervíi 
Jibi^ ut r educam Jacob aã 
emn. A mayor rniíTaó que 
nunca ouve no morxda,foy 
ado Povo de Ifrael. Ma- 
yor, por fera genre,q Deos 
ttnha efcolhido, & fepará- 
db para fy entre todas as 
naçocns: Mayor, por fera 
gente mais inclinada , & 
, dada -às idolatrias da gen- 
tilidade: Mayor, por fer a 
gente mais rebelde, mais 
obll-iriadà, & de mais dura 
cerviz. Ecomo a emprefa 
era taó árdua, & diOiculto- 
fá, em qu<: rodos os Patri- 
a?chas,& Profetas tinhaé 



godefdeo ventre da mly. 
E<la he a razaò porq Deos 
l'iomandou enculcar af-^ 
fim, húa, duas , <Sc três ve- 
zes, nam fó como a Mif- 
fionario de Ifrael, m?.s co- 
mo Meílre V ^ exemplar 
de todos os Miííionarios 
do mundo H lia vez , para 
que fe lembrem de fu a vo- 
cação, Focavit me nomine . 
me o : outra vez , para que 
refpondaõ à íignificaçam . 
de taô grande nome : *Z>r;j 
ventre ma tr is me£ recorda'-' 
tus eH nominismei'.^ a ter- 
ceira, para que fe na(S con*.: ■ 
tentem com, menos , que 
fazer do próprio oiiicio' 
natureza^ /*^r»^^;/j- me ex 
uter o fervam fibi. Eílahe a 
energia áãqnc\]efii>rm^ns:< 
formandofedefde o ven- 



tpabalbado , ê? padecido tre da máy, onde tudo o q 
tanto , femore de balde: vive,8cfente,recebea fór- 



para queo u!tinio,& prin- 
cipal Miílionario de tai 
gente,nà dihgencia,na ap- 
,jplicaça6,&na efBcacia ref- 
pondeífe às obrigações de 
tamanho empenho -,. por 
iffo foy naó fó convenien- 
te, mas neceíTarió ( aindâr 

Katural mente ) que déíTe tre da máy o que ba de fer 

ho- 



ma fegundoa fua efpecie." 

í. V. 

47 2 /^ Ventre da Reli- 

V^giaó,meusCha- 

rilUmos, heo Noviciado. 

Porque aííim como no vé- 





"^ 



f^t ' Exhcrfaçao U. 

homem fecorccbe em hú de fer huns corpo5? tant 



embrião impcrfciro, & in- 
forme,& pouco a pouco íe 
vaidiípondo, & o^gani- 
2ando,atè que em todos os 
membros, & officinas das 
potencias, &fenridos feja 
capaz de receber, 8c fe lhe 
infundir a alma,&: com e.I- 
laa vida racional: aíTim no 
Noviciado com o conhe- 
cimento; & exercício das 
virtudes fe purgaõ , & pu- 
rificaó as imperfeiçoens, 
que trouxemos do mundo, 
& nos imos difpondo , & 



grandes, tam Forres,^ ram 
robulks, que cada hum 
deli es leve (obre fy hum 
Caftello-.&nam baífa para 
fuílentar tam grande pefo, 
que fó creçaò depois de 
nacidosi mas que comece 
a íe lhe criar as forças, en- 
durecer aso íTos, & furnir 
os membros dentro do 
ventre da máy. Admirável 
coufa he que lu ca íTe Jacob 
com Deos,&lhe reíiiliíre 
tam fortemente, que con- 
f e fl a n do fe o m ef m o Deos . 
habilitando para receber, por vencido, lhe difleííe : ^^^^^ 
o efpirito da Religião, & òicontra T>eum fortisfut- 11:1%' 
viver vida reiigioia em ca- Jii^quanto magis contra ho^ ■ 
dahija,íegundo feu infli- mines pr£valebis'.Scconuz 
tuto.Nas outras Religiões Deos fofte taó fortcquan- 

to mais prevalecerás con- - 
traos homens E donde, 
lhe veyo a Jacob tanta 
que ? Porque as noíías fortaleza,&cor o chegou 

a fer tam valen<"e lutador, 
&tam invencivel ? Porq , 
começou a exercitar eíla 
arte, & eftas forças defdc 
o ventre da máy lutando q.,,g^ 
com ^(àWiCollidebantur m -V-V 
mero, O verdadeiro,& va- 
lente Millionario ha de 
lutar com Deos , & lutar 
com Oi> homés : çom Deos, 
pbri- 



finalafepara iOo hum an- 
no de Noviciado , na Có- 
panhia dous annos. E por- 



obrigaçoens íhó mayores , 
& pedem fo.geitos,què- 
naógeraófenam mais de- 
vagar, (.^s Elefantes, como 
dizem os naturaes , a nda m 
dousannos no ventre da 
m..ãy; & na m por outra ra- 
zão, ou providencia da 
natureza , fenam porque 
haodeíçrEieíantes. íiâó 



Em Vefpora daVtptàçâo. 



obrigando- o por meyoda 
oraçaò-,ík còos homéò,c6 
. vencendo- os por meyoda 
pregação & tudo iíTo íc ha 
de começar a exercitar do 
ventre da mãy,5ína6 eípe- 
rar,como Cfiriílo hoje rsaó 
efperou , para depois de 
nacer. 

- 47 j Neíl:e mefmo dia 
cantou Zacarias aChrifto; 
IV.uminãrehíS qui in tene- 
briSiò- in timbra mortis Je- 
cient : A 1 u m iai, Senhor, aos 
-qenâõ em trevas, & na so- 
bra da morte. Aílím alu- 
miou Chriílo ao Bautiíla, 
q eílava nas trevas do pec- 
cado original, q verdadei 
ramête he fombra da mor- 



ra,qhe a Virgeni Mana: 
Exurgcns Maria^qúafi Au- ^^ic». 
ror a coyífurgens. Ainda ef- cant.à 
tavaeTcondido no ventre í^- 
damáyjmasanim efcondi- 
do,& antes de naccr, alu- 
miou, també antes dena- 
eerjao mayordos nacidos: 
o a] u m ia dor, & o ai u m ia do 
am bos por meio das mãys: 
Vtfaãaeíf vox fahitatio- 
nis tua^ in auri bus meiSyUxc.ti. 
exultavit in gáudio infans-^"^' 
in útero me o. 

474. NaópoíTo deixar 
de reconhecer aqui o que 
nos acontece no Certaó, 
quando o Miflionario naó 
ia be a língua do que ha de 
converter. Neftecafo to- 



te. Mas quádo o alumiou ? mafe hum, & naó poircas 
Malachks diz, q Chriíio vezes dous interpretes: hú 



nacei ia como Sol , Orietur 
lach ^ôbis òol juftihíe:^ t^c Sol 
quando alumiou aquellas 
trevas .<' Por vê cura depois 
de nacido ? Naó. He pro- 



interprete, por quem falia 
o Miílionario, & outro in- 
terpretcjporquem ouve o 
Gentio. Affim foraó inter- 
pretes nefta occafiam a 



priedade do Sol alumiar Virgê,&S.Ifabel.GhriftQj 
antes de nacer. Quando o qainda naó tinha o ufo da 
Sol nace,jà eftaõ diífi padas 
"as trevas , & alumiado O' 
m u nda por m^ o da Au^- 
tovdi. A íTí m aiu m iou G hri- 
ílo ao Bautida antes de na- 
cer por mcyo da fua Aiiro^ 



língua, fallou pela voz da 
Virgem , Voxfalíitationis 
///^:o Ba utiíla, qainda na6 
tiiha o ufo de Quvir,ouvio 
pelos ouvidos de líabel,/» 
mribus méis i & deíla ma- 
neira 







H^ 



./■ 




f 4+ Exhortação 11. . ''i 

neirapòde o mudo fallar terceira os da Illuminati- 




aorurdoj& o Millionario 
converter , & o pagaó fer 
convertido : naó por fy 
mefmos , fenaõ por meyo 
dasmáys^eílando cada hú 
no ventre da fu a. 
§• VI. 
475- f StoheQqfez,S^'en- 
^ finouChriftOjifloo 
4 imitou o Bautiíla, 8c iíto 
oqordenouS.Ignacio,pa- 
ra q exercitandofe os No- 
viços da Companhia det 



va,na quarta os dl v^^niti- 
va: para que ? Paraq alli 
ajunta íTem cabedal dera- 
zoens fortes, folidas, &ef- 
ficazes,com as quaes aflim 
comofe tinhaó perfuadi- 
do,5í convêcido a fymef- 
mos,depois perfuadiflem, 
SccoavéceiTem os do mu- 
do Ordenou, que hú mez 
ferviOem nosHoroitaes,& 
outro mez andaíTem em 



peregrinação, & maistê- 

deoventreda mãy noque po,quando convier: para 

haô de obrar quando ma- que /* Para que abraçaíTem 

yoresjofaçaó com a per- juntamence os dous pólos, 

feiçaó que he bem. Orde- em q fe revolve, Sc refol ve 

íiou S.Ignacio, q os Novi- todo o minifterio de falvar 

çosfizemfe doutrinas ne- almasjquefaò enfinar, & 

ftaCapellaj&as foíTem fa- padecer. Aílim o cnfinou 

zeràqudla Portaria, & q odivino Meílre a S. Pau- 

aíHftiífem todos à repeti- lo; Fas eleãioniseíí mihi ^^ 

çaó dos tons, &q decorai- ifte^wt portet nomen meum 

femhú quarto de hora ca- cúramgentibus Ç eis ahi o 

da dia: para que? Para que enfinar^í'^^? enim oliendam 

aíTim fe enfayaífem , & fa- //// qumta oporteat eumpra 



'í » 



cilitaíTem a doutrinar , & 
pregar. Ordenou, que no 
^pr imeiro anno do novicia- 
4otiveílem quatro foma- 
.nas de exercícios efpiri- 
tuaes : na primeira medi- 
tando os motivos da via 



nomine meopath C ^^s ahi o 
padecer. 

4.76 Saem três Noviços 
do Noviciado era Portu- 
gal, fem mais q o feu bor*- 
damfinho na niaõ, ck o íeu 
alforge ao tiracolo debai- 



Purgativa,na fcgunda , ôc xo das capas remendadas i 

& que 



í;a3xi 



Em Vefpora da 
&quefazê? Caminhando 
pelas eftradas, vaó fempre 
a pè, & cora os olhas bai- 
xos, pedindo erniola,& fu- 
ftentandofe pobremête da 
q Ihedaó , & mais pobre- 
mente da que lhe ncgaó, 
recolhendofede noite aos 
Hofpitaes, & ondeosnió 
ha,dormindo nos palhei- 
ros: para que ? Para que 
aprendaójfe endureçaòjSc 
íe coíiumé a padecer. Eq 
mais fazem? Entrando pe- 
las Viilas, & Lugares con- 
vocaóosmininos, &gêce 
rude, vaó às Igrejas , ou 
Ermidas, fobem ao Pul- 
pitOjprimeiro q tudo eníi- 
naô a doutrina Chriftã, 
logofallaó temerofamêce 
damorte, dojuizo, & do 
InfernOjbradandocom as 
vozes ainda delgadas con- 
tra os peccadoSi & para q ? 
Para oqueíe experimenta 
comummente nos ouvin- 
tes 5 porq ouvindo-os da- 
quella idade fe enternece, 
&elles os perfuadé tanto 
com as fuás palavras , co- 
mo com a fua modeítia, Sc 
exemplo. 

477 Lembrame,queef- 
tandoem Albano quator- 
Tom.8. 



Vijitaçao. ^45- 

ze milhas de Roma, em. 
húa quinta noíía , vieram 
alli Fazer noite três Novi- 
ços da Companhia: & que 
tinhao feito naqaelle dia <* 
Pela menhãarinhaó pre- 
gado na Parrochia^quehe 
do Cardeal Vrílao, onde 
entaó refidia,íicãdo ig lal- 
mente edificado, 5c admi« 
radode os ouvir aquelíe 
Principe taô grande no fe- 
cular,como noSccIeííaíli- 
CO. A tarde foraó em ro- 
maria a NoíTa Senhora da 
Richa, onde viraó debai- 
xo de húa arvore hunsho- 
mensjugando. Chegaraó- 
fea elles : referiraoíhe o 
excmploj&docu mento de 
S.Francifco de Borja , o 
qual dizia^que no jogo fe 
perdiaó quatro coufas : o 
tempojo dinheiro , a psci- 
encia,&: muitas vezes a al- 
ma: &foy tal a eílicaciacõ 
quelhedeteíláraó aquellç 
cuílofo género de diverci- 
mêto, q os jogadores mais 
picados do que ouviaô, fe 
levantarão do jogo, & lhe 
entregarão as cartas, q el- 
les rafgáraò. La finfai rao os 
Poetas,queofeu Hercules 
no berço defpedaçára Ser- 
Mm penres. 



i^ 



^i''i I 



■í''-l; 



í 



a.i6. 



54<5 ExhortaçaÕ 11. 

peiíres.Tardáraó em dizer cupifcentiaoculorumyht o 

no berço : porque os nof- amor das riquezas , & eílc 

fos Alcides dentro nove- degolaô, & metem debai- 

tre da mãy as defpedaçá- xo dos pès dizendo, Voveo 

raó. E iiaó he iíro ferjà paupertatem. Comttpifceri' 

verdadeiros, & valentes //^r^rwi/, heoappetiteda 



Milionários? Pois todos 
eram No viços. 
$. VIL 

I _, noíTos ? He cerco 
q naó Faraó menos no mef- 
mo ventre da máy , fenam 
muito mais:& nam daqui a 
muito tépOjfenaó détro de 
poucas horas. A menhãa 
renovaó os feus votos, vo- 
tos offerecidos a Deos, & 
feicôs propriamente antes 
de nacerem •, porq quando 
embora íizerê os doCol- 
iegio,encam faera do ven- 
tre da máy, &entam he q 
nacem. E diíTe q nam faraó 
menos àmenháa , fenam 
muito maisiporq por meio 
dos mefmos votos, nam fó 
defpedaçaráó Serpentes, 
mas degjlaráó os crés mó- 
ítros capitaeSjaq fe reduzê 
todos os vicios ao mundo. 
Quidjuideft Jn mundo (diz 
S jo^óyoncupifcentia car^ 
7iis eft^ concíipifcmtiA o cu - 



intemperança, ôceítede- 
golaó,&pizaó, dizendo, 
l^oveo calittatern. òiiperiu:i 
i;/Y^, hea ambiçaòdemá- 
dar, & eíia degolaó nam 
pizando, mas deixandofe 
pizar, & dizendo , yoveo 
obedientiam. Degolados 
pois em fy mefmos defde 
o ventre da máy eftes três 
monílrosjque fefeguede 
húatáo grande, & primei- 
ra vitoria ? Seguefe, que jà 
fícáo daqui tam valetes, & 
poderofosMiílionarios, q 
faindo depois a cóquiíiar 
as gentihdades , faciíméce 
derrul)arám todas fua^ 
idolatrias. Osmayores, Sc 
mais adorados ídolos da 
Gentilidade também erão 
tresjupiter no Cco,Nep- 
tunono mar , Plutão de- 
baixo da terra. E à voz dos 
q votarão pobreza, cana. 
Plutão,qucheo ídolo das 
riquezas ; a voz dos q vo- 
tarão ca (lidadcjcairá Neps- 



lonimy&fíi^erbia vitíS, C^- tuno,4 '^^ ^ Ídolo da inté- 

pcran^aj 



m 



. EmVcfporaííaViJitaçaÕ, <>4*7 

pcrança;à voz dos q vota- moftrandolhcs como o 



ráo obediência , cairá Jú- 
piter, q he o ídolo do mã- 
do,& do império. E deite 
modo triunfarão de toda a 
idolatria da Gentilidade , 
quando fairem ao campo, 
os que antes da guerra, & 
da batalha a levam jà ven- 
cida. 

Ç. VJII. 

47P T^ ->dos eíles mon- 

Jl fl:ros,8c todos ef- 

tcs ídolos pizou o minino 

Bautiílacom aquellesfal- 



aviam de imitar, &: íeguir. 
Ellc avia de morar no dc- 
ferto i os noífos pelos ma t- 
cos,& pelos boíques: elie 
aviadeveílirpellesde ca- 
m ello j os noíTòs o burel de 
algodão groíTeiro tinto 
nos tujucos / elle ávía de fc 
fuftentar de gafanhotos; 
os noíTos atè de lagartos : 
clleaviade matar a ícá^ 
com melfylveítre; os nof- 
foscom o Iodo dos char- 
cos,8c çó as cacimbas das 



tos que deu no ventre da prayas-.elleaviade bauti- 
má7:quetam depreííaar- zar no pequeno rio Jor- 
ma , ^ fortalece Chrifta dam^osnoíTosno imméfo 



fosan 
[ 6 



aos q faz feusMiííioaarios, 
qual o mefmo Bautifta 
foy : Fuit homo mijfus à 
Dío. Ainda nam tinha voz 
•^^- o q avia de fer Fox clama- 
í/V,& com os geílos,movt- 
mentos, & faltos docor- 
poíinho que fó tinha, jà 
começava a pregar q era 
chegado o Medias : ainda 



dasAlmazonas: elle avia 
de converter homeíis,a q 
chamou Víboras, mas da 
fua naça6,§c da fua lingija ; 
os noftos a homens que fe 
podem chamar feras, em 
línguas tã